
VI MEU TIO NO PRÓPRIO ENTERRO AOS 13 ANOS… E MINHA AVÓ SABIA O QUE ISSO SIGNIFICAVA
Em 1970, eu tinha 13 anos. Quando vi algo no cemitério que nenhuma criança deveria ver, contei à minha avó, e o que ela me respondeu, guardei para sempre. Depois daquele dia, o que eu via e sentia acompanhou-me sempre. E, por mais duas vezes na vida, tive a certeza absoluta de que existe algo além daquilo que conseguimos ver. O meu nome é Ivónia Aparecida, tenho 69 anos, e esta é a minha história.
Nasci e cresci na zona leste de São Paulo, no bairro de Itaquera. O meu pai veio de Minas Gerais, ainda jovem, à procura de trabalho. A minha mãe veio com ele, com pouco na mala e imensa fé no coração. E foi assim que a nossa família criou raízes naquele bairro, numa rua de casas pequenas, onde as crianças brincavam no passeio até à hora do jantar.
O meu tio Geraldo era irmão do meu pai, viera de Minas com ele, morava a poucas ruas da nossa casa e era presença certa nos almoços de domingo. Era um homem simples, de poucas palavras. Gostava de se sentar à cabeceira da mesa e ouvir os outros, soltando de vez em quando uma frase curta que nos ficava na cabeça durante dias. Eu gostava do meu tio. Nunca foi de abraços fáceis, nem de grandes conversas. Mas, sempre que me via, chegava-se perto, punha-me a mão na cabeça e perguntava como corriam as coisas na escola. Era o tipo de atenção simples que uma criança guarda com carinho.
Quando ele morreu, a notícia chegou pela manhã, através da própria esposa, que bateu à nossa porta ainda cedo. O meu tio tinha tentado resistir a um assalto e foi morto a caminho do trabalho. O meu pai ficou paralisado no meio da sala, sem dizer palavra. A minha mãe pôs a mão na boca, estática à porta. Eu fiquei sentada, a olhar para os dois, sem saber o que fazer.
O funeral foi no Cemitério da Saudade. Eu nunca tinha entrado num cemitério antes. Quando entrei pela primeira vez, com 13 anos, de mão dada com a minha avó, percebi que existia ali um silêncio diferente. As fileiras de campas estendiam-se para todos os lados. A minha avó segurava-me a mão com firmeza, sem falar.
Chegámos ao local onde o caixão do meu tio Geraldo ia ser sepultado. A família e os vizinhos reuniram-se em redor, e o padre começou a rezar. Toda a gente baixou a cabeça e fechou os olhos. Foi nesse momento que eu não fechei os meus. Fiquei a olhar em frente. E foi então que vi.
Do outro lado do grupo, a uns passos do caixão, estava o meu tio Geraldo. De pé, quieto, com as mãos caídas ao longo do corpo, a olhar para o caixão com uma atenção que não sei descrever. Olhei para o chão e voltei a levantar os olhos, certa de que ele já não estaria lá. Mas ele continuava no mesmo sítio, na mesma posição, a olhar para o caixão que guardava o seu próprio corpo.
Puxei a manga do vestido da minha mãe, tentando chamar a sua atenção, mas ela não abriu os olhos. Apenas me sussurrou para ficar quieta e respeitar a oração. Quando voltei a olhar para o local onde o meu tio estava, ele tinha desaparecido.
O funeral terminou. Quando o grupo se afastou e ficámos apenas eu e a minha avó à beira da cova, não aguentei mais. Sussurrei-lhe que tinha visto o meu tio Geraldo durante a reza, de pé, a olhar para o caixão. A minha avó não se assustou. Ficou em silêncio. Depois, virou o rosto para onde eu o tinha visto e ficou calada durante uns segundos. Quando olhou para mim, não vi dúvida nem preocupação nos seus olhos. Vi reconhecimento.
Ela pegou nas minhas duas mãos com firmeza, puxou-me para perto e falou muito baixinho. Disse que algumas pessoas nascem com a capacidade de ver o que os outros não veem. Que não devia ter medo, que não era algo mau, mas sim um dom de Deus, e que devia carregá-lo com respeito, sem fazer alarido, porque nem todos estavam preparados para compreender.
Eu não sabia ao certo o que fazer com aquelas palavras. Mas a minha avó não tivera medo do que eu vi, e isso acalmou-me. Saímos do cemitério juntas, carregando o peso do que eu vira e as palavras que me ajudariam a suportar esse peso.
O tempo passou. Estudei, formei-me em enfermagem e, aos 29 anos, já trabalhava nos hospitais de São Paulo. A rotina era dura, com turnos de 12 horas. De madrugada, as luzes baixavam e o hospital mergulhava num silêncio denso. Eu já estava habituada a esse silêncio.
Num desses turnos noturnos, deu entrada um rapaz de 21 anos, trazido por dois amigos. Estava muito agitado, a gritar que uma presença o perseguia desde que saíra de casa. A equipa acalmou-o e medicou-o. Com o passar do tempo, ele adormeceu, o quarto ficou quieto e a equipa dispersou.
Por volta da uma da manhã, comecei a minha ronda. Quando cheguei ao corredor do quarto daquele rapaz, algo mudou. O ar ficou pesado. Parei um segundo, sentindo que o meu corpo me avisava que algo não estava bem, mas abri a porta.
O quarto estava silencioso, iluminado apenas pela luz de presença. O rapaz dormia profundamente. Mas, entre a cabeceira e a parede, estava uma sombra. Não era o formato de um objeto; era uma sombra com uma presença pesada que não podia ignorar. Fiquei paralisada, com o coração a bater descontroladamente. A sombra permaneceu imóvel e, de repente, simplesmente desapareceu, sem som nem movimento. No mesmo instante, o rapaz começou a agitar-se e entrou em crise. Chamei a equipa imediatamente e conseguimos estabilizá-lo.
Passei o resto da madrugada com aquela imagem na cabeça, sem contar a ninguém. De manhã, quando vi o capelão do hospital no corredor, não hesitei. Pedi-lhe um minuto e contei-lhe o que vira. O padre ouviu-me em silêncio, pediu licença e foi ao quarto do rapaz. Vinte minutos depois, saiu e veio ter comigo. Disse-me que o jovem lhe confessara ter andado por cemitérios a mexer com coisas que não compreendia. O padre dissera-lhe que rezara por ele, mas que agora só cabia a Deus decidir.
Dois dias depois, soube que o rapaz tivera um novo ataque noturno e não resistira. Naquele momento, lembrei-me das palavras da minha avó. O respeito por aquele dom também significava aceitar que certas batalhas não nos pertencem.
Os anos continuaram a passar. Em 2009, eu tinha 52 anos. A minha avó, com 91 anos, estava cada vez mais fraca. Eu visitava-a sempre que podia. Cuidar de alguém que está a partir ensina-nos a conviver com a ideia do fim de uma forma que não se explica.
A minha avó partiu numa manhã de maio. Eu estava ao seu lado, a segurar-lhe a mão. A sua respiração foi abrandando, como uma vela que se apaga devagarinho, sem dor. A falta que eu sentia era de um tipo novo: um vazio imenso.
No dia do funeral, ao entrar no Cemitério da Saudade, o peso do local foi diferente. As palavras que ela me dissera ali, quase quarenta anos antes, ressoavam na minha mente. Fiquei um pouco afastada do grupo durante a cerimónia, como sempre fizera.
Quando as pessoas se começaram a afastar, aproximei-me da cova. Fiquei a olhar para o caixão em silêncio. Então, levantei os olhos. Ali, a alguns metros, perto de uma árvore, estava a minha avó. Não com a aparência frágil dos últimos meses, mas como a conheci durante décadas. Com aquele olhar que eu aprendi a decifrar antes mesmo de saber ler.
Não me assustei. Fiquei a olhar para ela, porque já sabia o que era. Ninguém mais a viu. Era um momento só nosso. E compreendi, sem precisar de palavras, que ela não estava ali pelas flores ou pelas rezas. Estava ali por mim.
Então, ouvi a sua voz. Não veio pelo vento; chegou de dentro de mim, nítida e real. Ela disse o meu nome e, naquele instante, o peso que eu carregava desde a sua morte começou a aliviar. Depois, disse apenas: “Adeus, minha neta.”
Fechei os olhos por um segundo e, quando os abri, ela estava a afastar-se devagar, com o seu passo sereno de sempre, até desaparecer por completo.
Aos 52 anos, compreendi que nada tinha sido por acaso. Tudo começara naquele cemitério, com ela a segurar-me as mãos, e terminava ali, com a sua despedida. A avó que me dissera que o meu dom era uma bênção de Deus, usou esse mesmo dom para me sossegar, para me mostrar que estava em paz e que as suas palavras continuavam a ser verdade.
Hoje tenho 69 anos. Trabalhei muito, criei os meus filhos e guardo comigo estas três memórias que nada poderá apagar. Vi o meu tio no seu próprio funeral aos 13 anos. Vi a sombra de um rapaz no hospital aos 29. E ouvi a voz da minha avó no cemitério aos 52.
A vida ensinou-me, por três vezes, que o fim não é o que nos parece ser. E agora, pergunto a quem me lê: acreditam que existe algo para além daquilo que os nossos olhos veem? Eu, hoje, não tenho qualquer dúvida.