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Duas Irmãs Sumiram Em Fernando De Noronha — 2 Anos Depois Um Drone Filmou Uma Fogueira Acesa Na Ilha

Na manhã de 14 de novembro de 2019, às 6h42, Renata Bastos Cavalcante enviou uma selfie pelo WhatsApp para a mãe. Ela e a irmã Débora apareciam de costas para o mar, com o Morro dos Dois Irmãos ao fundo. A legenda era simples: “Primeiro mergulho do dia, mãe”. Marlene respondeu com um áudio de 11 segundos, desejando um bom passeio e pedindo para passarem protetor solar. Renata ouviu a mensagem. Os dois ticks azuis apareceram às 6h44. Depois disso, silêncio absoluto.

As duas irmãs, Renata de 29 anos e Débora de 23, não eram turistas comuns em Fernando de Noronha. O pai, Sebastião, tinha uma pousada pequena na Vila dos Remédios havia 15 anos. Elas cresciam nadando naquelas águas, conheciam cada corrente, cada pedra afiada, cada canto onde o mar ficava calmo ou traiçoeiro. Renata, formada em biologia marinha pela UFPE, tratava o oceano como um velho conhecido. Débora, no quinto período de fisioterapia, seguia a irmã com a confiança de quem nunca duvidou do rumo.

Elas alugaram um barco de alumínio com motor de popa cedo, antes das sete. Cícero, conhecido como Índio, ajudou a soltar a amarra no píer de madeira. “O mar está bonito hoje, mas voltem antes da uma, que o vento vira”, avisou ele. Renata acenou. Débora mandou um beijo. O barco contornou o promontório e desapareceu na direção da Baía do Sancho. Era um roteiro que Renata fazia dezenas de vezes: norte da ilha, snorkel em Sancho, parada em Boldró para fotografar corais e volta antes do almoço.

Sebastião arrumou a mesa para três na pousada, como sempre. Suco de caju natural, tapioca frita, frutas frescas. O relógio antigo da cozinha marcava as horas enquanto ele esperava. Ao meio-dia, começou a ligar. Nenhuma resposta. Às 14h, o aperto no peito já era medo. Ele desceu até o porto, falou com Índio, depois foi à administração e à delegacia. O mar estava calmo, indiferente. Ninguém imaginava que algo grave tivesse acontecido.

No dia seguinte, o barco foi encontrado encalhado na Praia do Leão, do lado oposto ao roteiro planejado. Os coletes salva-vidas dobrados no banco de trás, mochila com dois celulares descarregados, protetor solar, garrafa de água pela metade e documentos das duas dentro de um saco plástico. O motor desligado, tanque com combustível restante. Nenhum sinal de luta, avaria ou pânico. Era como se elas tivessem simplesmente saído do barco e desaparecido.

A busca começou de verdade no dia 16. Bombeiros, Marinha, pescadores voluntários, mergulhadores. Onze dias vasculhando mar, praias isoladas, grutas e fundo do mar. Visibilidade excepcional, mais de 30 metros em alguns pontos. Nada. Nenhum corpo, roupa, sandália, bracelete. O mar de Noronha, que devolvia lixo do Atlântico com regularidade, não devolveu absolutamente nada das irmãs. O tenente responsável registrou no relatório: “Em 17 anos de serviço, nunca vi o oceano não devolver nenhum traço”.

A investigação da Polícia Civil de Pernambuco foi aberta e, em fevereiro de 2020, arquivada provisoriamente. Hipótese mais provável: afogamento acidental, corpos levados pela corrente para alto-mar. A pandemia chegou e o caso saiu de cena. Para a família, o pesadelo apenas começou.

Sebastião, aos 61 anos, continuou tocando a pousada, mas algo dentro dele se quebrou. Servia café da manhã, trocava lençóis, sorria para os hóspedes, mas os olhos não acompanhavam mais o sorriso. Saía de madrugada no barco de Índio e ficava horas olhando as ilhas secundárias. A mesa do almoço, que antes era para três, ficou vazia. O caderninho preto de Renata, encontrado na mochila, ele guardava na gaveta. Na penúltima página, escrito no dia anterior ao desaparecimento, havia uma anotação estranha: “Corrente sul aumentou. Canal entre ilha principal e secundária está limpo. A corrente leva para fora, mas quem conhece volta pelo canal.”

Marlene, em Recife, reagiu de forma oposta. Não aceitou o arquivamento. Usou férias, atestados, caronas em barco de suprimentos para voltar várias vezes a Noronha mesmo durante a pandemia. Carregava uma pasta azul com fotos grandes das filhas e um mapa laminado marcado com caneta vermelha. Conversou com pescadores, mergulhadores, moradores antigos. Três pescadores mencionaram, separadamente, terem visto luzes fracas à noite nas ilhas secundárias, especialmente na direção de Rata, nos dias em torno do desaparecimento. Ninguém deu importância oficial.

Dois anos e quatro meses depois, em março de 2022, Thiago Mendes Ribeiro, produtor audiovisual de Natal, sobrevoava as ilhas secundárias com drone para um documentário. Autorizado pelo ICMBio, ele filmava imagens aéreas. Só à noite, revisando o material no quarto da pousada, viu algo que mudou tudo. Na Ilha Rata, uma fina coluna de fumaça subindo de uma clareira e, ao lado, uma estrutura improvisada de galhos coberta por algo parecido com lona.

O vídeo, postado discretamente, explodiu nas redes. Duzentos mil visualizações em dois dias. Entre os comentários, uma mensagem chamou atenção: “Minhas filhas desapareceram em Noronha em novembro de 2019. Preciso falar com você.” A família Bastos Cavalcante entrou em contato. A imagem era granulada, mas inegável: fumaça e estrutura onde não deveria haver nada. Ilha Rata era desabitada, de acesso restrito, sem água potável, protegida ambientalmente.

A repercussão fez o caso voltar à mídia. Pressionado, o Ministério Público pediu inspeção. Em abril de 2022, uma equipe do ICMBio, acompanhada de perito da Polícia Civil, foi de helicóptero à ilha. Encontraram círculo de cinzas ainda recentes, restos de carvão de vegetação local e uma estrutura de galhos desmontada, com fragmentos de polietileno de baixa densidade — material de lonas ou sacos plásticos. A análise indicou que o fogo fora aceso entre 10 e 30 dias antes, compatível com a data do drone.

Não havia restos humanos, pegadas preservadas, utensílios ou objetos pessoais. A ilha tinha sido “limpa” pelo tempo e pela chuva. Uma segunda inspeção meses depois não encontrou mais nada. O inquérito foi reaberto, mas avançou pouco. Amostras enviadas ao Instituto de Criminalística não deram pistas conclusivas. A Polícia Federal abriu procedimento ambiental, mas nenhum suspeito surgiu.

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Um oceanógrafo aposentado, Geraldo Fonseca Braga, analisou dados de satélite do dia do desaparecimento. Descobriu uma corrente superficial atípica, de noroeste para sudeste, que poderia explicar como o barco chegou a Praia do Leão. Mais importante: durante algumas horas, um canal mais calmo se formava entre a ilha principal e Rata. Alguém que conhecesse o mar, como Renata, poderia ter nadado o pouco mais de 1 km. A anotação no caderninho ganhava novo sentido: “quem conhece volta pelo canal”.

Essa possibilidade abalou ainda mais a família. E se não tivesse sido acidente? E se Renata tivesse planejado algo? E se as duas estivessem vivas, escondidas ou em apuros na ilha? Sebastião tentou chegar a Rata por conta própria. Duas vezes foi impedido ou impedido pelo mar bravo. Olhava a ilha distante todos os dias, como se o olhar pudesse atravessar a distância.

Marlene continuou lutando. Mapa, pastas, viagens. Até que, em dezembro de 2023, fez a última ida a Noronha. Sentou-se na Praia do Leão, olhou o mar por longo tempo, depois encontrou Sebastião na varanda da pousada. Ficaram em silêncio vendo o sol se pôr atrás do Pico. “Você fez tudo que era possível, Marlene”, disse ele. Ela fechou a pasta azul, com fotos desbotadas e mapa quase sem espaço para marcas vermelhas.

O caso permanece aberto, mas inativo. Renata e Débora seguem no Sinalid, entre dezenas de milhares de desaparecidos. A pousada de Sebastião continua recebendo turistas que tiram fotos no mesmo lugar da selfie. O quarto das meninas mantém os lençóis de novembro de 2019. Marlene voltou ao hospital em Recife, preparando café para os colegas como sempre. Rata continua protegida, vigiada por câmeras. Pescadores antigos ainda falam de luzes fracas à noite, de vez em quando.

Fernando de Noronha segue lindo, com águas cristalinas e o Morro dos Dois Irmãos imponente. Turistas mergulham, fotografam, voltam para casa. Mas para uma família, o arquipélago carrega uma ferida aberta. Uma foto enviada às 6h42, um áudio respondido, um barco encontrado vazio, uma fogueira acesa dois anos depois numa ilha proibida. Um caderninho com uma anotação que talvez fosse uma rota de volta.

O mar devolveu o barco. A ilha mostrou fumaça. Mas as respostas, essas o Atlântico ainda guarda, junto com o silêncio que veio depois daquela selfie matinal. E, em noites calmas, quem passa pela costa sul jura que, se prestar atenção, vê um brilho distante na direção de Rata — um fogo que acende e apaga, como uma mensagem que ninguém consegue decifrar.