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Caldas Novas 2002 caso arquivado resolvido — prisão choca comunidade

Há 23 anos, Fernanda Duarte desapareceu após mais um dia de trabalho nas piscinas termais de Caldas Novas, sem deixar rastros. O desaparecimento mergulhou sua família em uma tragédia profunda e a comunidade em confusão total. A polícia considerou várias possibilidades, mas não conseguiu resolver o crime, causando revolta na família, que nunca perdeu a esperança, lutando incansavelmente para que a verdade viesse à tona.

Era 15 de janeiro de 2002, uma terça-feira sufocante em Caldas Novas. O termômetro marcava 38º à sombra e as águas termais da cidade fervilhavam de turistas em busca de alívio do calor escaldante do cerrado goiano. Entre os complexos aquáticos e hotéis que pontilhavam a paisagem, uma figura familiar caminhava com desenvoltura. Fernanda Duarte, 25 anos, carregando sua tradicional sacola de biquínis e cangas coloridas. Filha de Conceição e João Duarte, pequenos comerciantes locais, Fernanda havia transformado a venda ambulante em arte.

Conhecia cada recanto dos principais complexos termais. Sabia exatamente quando abordar os turistas e como oferecer seus produtos sem parecer invasiva. Sua simpatia natural e conhecimento sobre os pontos turísticos da região faziam dela mais que uma vendedora. Era quase uma guia informal para os visitantes. Naquela manhã, Fernanda saiu de casa às 7:30, como sempre fazia durante a alta temporada. Vestia um vestido florido, azul e rosa, sandálias rasteiras e carregava a inseparável bolsa marrom onde guardava o dinheiro das vendas. Sua mãe, Conceição, lembra-se de ter oferecido café da manhã, mas Fernanda estava apressada.

“Ela disse que queria aproveitar o movimento matinal no Hotel Termas,” relembra Conceição, ainda emocionada após todos esses anos.

O complexo Hotel Termas era o destino favorito de Fernanda durante os finais de semana e feriados prolongados. Com suas múltiplas piscinas de águas termais, toboáguas e extensa área de lazer, o local concentrava centenas de famílias em férias. Para uma vendedora ambulante experiente como Fernanda, representava o filão de ouro da temporada. Testemunhas relataram tê-la visto por volta das 9 da manhã, circulando pela área das piscinas infantis, onde mães costumavam comprar biquínis para as crianças. Seu movimento era o de sempre; aproximava-se discretamente dos grupos familiares, mostrava as peças com entusiasmo genuíno e sempre conseguia fazer algumas vendas.

Marcos Pereira, salva-vidas do complexo na época, lembra-se de ter conversado brevemente com ela por volta das 10:30.

“A Fernanda era conhecida de todo mundo que trabalhava na área turística, sempre educada, sempre sorrindo. Naquele dia ela parecia normal. Falou que estava vendendo bem, que ia dar uma passada nos outros hotéis depois do almoço,” relata Marcos, hoje aposentado e ainda impactado pelo que viria a descobrir anos depois.

Por volta das 11:45, Fernanda foi vista pela última vez na área da lanchonete do complexo, conversando com um homem que ninguém conseguiu identificar com precisão. As descrições variavam. Alguns falavam de um homem moreno, outros de alguém usando boné e óculos escuros. O que todos concordavam era que a conversa parecia amigável, sem sinais de tensão ou desconforto. Quando o relógio marcou 14h e Fernanda não apareceu para sua costumeira ronda vespertina, os funcionários do hotel estranharam. Ela era extremamente pontual e jamais perdia os horários de maior movimento. A preocupação começou a se espalhar entre os trabalhadores do setor turístico.

João Silva, segurança do complexo, decidiu verificar os arredores. Encontrou a bolsa marrom de Fernanda abandonada próxima ao estacionamento com todo o dinheiro das vendas matinais intacto, cerca de R$ 280, uma quantia considerável para a época. Seus produtos, no entanto, haviam desaparecido junto com ela. A descoberta da bolsa com o dinheiro intacto desmentiu imediatamente qualquer teoria de assalto. Fernanda simplesmente havia se esfumado, deixando para trás apenas mais perguntas que respostas. O estacionamento, cercado por vegetação densa do cerrado, oferecia múltiplas rotas de fuga para quem quisesse deixar o local sem ser visto. Quando o sol se escondeu atrás das montanhas que cercam Caldas Novas e Fernanda não retornou para casa, Conceição Duarte soube que algo terrível havia acontecido.

Sua filha jamais passaria uma noite fora sem avisar. Jamais abandonaria seu trabalho no auge da temporada. Jamais deixaria a família sem notícias. A noite de 15 de janeiro de 2002 marcou o início de um pesadelo que perduraria por mais de duas décadas. Nas águas termais que prometiam cura e renovação, uma jovem havia desaparecido sem deixar vestígios, dando início a um dos casos mais perturbadores da história de Caldas Novas. Um mistério que só encontraria respostas quando menos se esperava. A madrugada de 16 de janeiro de 2002 chegou sem trazer Fernanda Duarte de volta para casa. Conceição e João não conseguiram dormir, revezando-se entre ligações para hospitais, amigos e conhecidos que trabalhavam no setor turístico. Às 6 da manhã, quando já não havia mais dúvidas de que algo grave havia acontecido, a família se dirigiu à delegacia de polícia civil de Caldas Novas para registrar o desaparecimento.

O delegado Renato Monteiro, responsável pelo caso, recebeu a família com o ceticismo típico de quem já havia lidado com dezenas de casos similares durante as temporadas turísticas. Para ele, jovens que desapareciam em cidades turísticas geralmente estavam fugindo de problemas familiares, relacionamentos conturbados ou dívidas. A possibilidade de crime raramente era considerada nos primeiros dias de investigação.

“Dona Conceição, vamos aguardar 48 horas. Fernanda é maior de idade, pode ter conhecido alguém, pode ter decidido viajar. Essas coisas acontecem muito aqui na temporada,” foram as palavras que ficaram gravadas na memória da mãe de Fernanda.

Conceição tentou explicar que a filha jamais faria isso, que era responsável e dedicada ao trabalho, mas suas palavras pareciam ecoar no vazio. O boletim de ocorrência foi registrado como pessoa desaparecida, possível fuga voluntária, classificação que limitaria drasticamente os recursos e a urgência dedicados ao caso. A investigação inicial consistiu em entrevistas superficiais com alguns funcionários do Hotel Termas e uma busca perfunctória nos arredores do estacionamento onde a bolsa havia sido encontrada. Durante os três primeiros dias após o desaparecimento, apenas dois investigadores foram designados para o caso: os policiais civis Roberto Augusto e Marina Santos. Roberto, um veterano próximo da aposentadoria, encarava a investigação como mais uma rotina burocrática. Marina, recém-formada e ainda idealista, seria a única demonstrar genuína preocupação com o destino de Fernanda.

As primeiras entrevistas revelaram informações cruciais que, infelizmente, não foram adequadamente exploradas. Além de Marcos Pereira, o salva-vidas, outras três pessoas haviam visto Fernanda conversando com o homem desconhecido próximo à lanchonete. Carla Mendes, turista de Brasília, que estava no complexo com a família, forneceu a descrição mais detalhada do suspeito.

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“Era um homem de aproximadamente 35 a 40 anos, moreno, cabelos escuros, vestindo bermuda jeans e camisa polo branca. Usava óculos escuros e tinha uma tatuagem no braço direito, mas não consegui ver direito qual era. Eles conversavam de forma amigável. Ela até riu algumas vezes,” relatou Carla durante seu depoimento.

A informação sobre a tatuagem era potencialmente vital, mas não foi adequadamente documentada. O investigador Roberto limitou-se a anotar “tatuagem no braço direito” sem solicitar mais detalhes ou tentar produzir um retrato falado. A família de Carla voltou para Brasília no dia seguinte e seu contato foi perdido nos arquivos da delegacia. Marina Santos tentou aprofundar as investigações, visitando outros complexos turísticos onde Fernanda costumava trabalhar. No Aquapark de Roma, descobriu que Fernanda havia mencionado para algumas funcionárias que estava preocupada com alguém que estava sendo insistente demais em suas abordagens. A informação registrada no relatório de Marina indicava que Fernanda vinha sendo incomodada por alguém nas semanas anteriores ao desaparecimento.

A funcionária Jéssica Alves, que trabalhava na recepção do de Roma, lembrava-se de uma conversa específica com Fernanda cerca de uma semana antes do desaparecimento.

“Ela disse que tinha um cara que sempre aparecia onde ela estava trabalhando, que ficava observando ela de longe e, às vezes, tentava puxar conversa. Ela achava estranho, porque ele nunca comprava nada, só ficava olhando,” relatou Jéssica.

Essas informações apontavam claramente para a possibilidade de stalking, um comportamento que poderia ter escalado para algo mais grave. No entanto, quando Marina apresentou suas descobertas ao delegado Monteiro, foi orientada a não criar teorias conspiratórias e focar em explicações mais simples e prováveis. A busca física pelos arredores do Hotel Termas foi limitada e mal coordenada. A vegetação densa do cerrado, que cercava o complexo, oferecia inúmeros locais onde evidências poderiam estar escondidas, mas apenas uma área de aproximadamente 200 m foi superficialmente vistoriada. Não foram utilizados cães farejadores, não houve busca aquática nas lagoas próximas e a investigação se limitou às áreas de fácil acesso. Durante a primeira semana de buscas, a família de Fernanda organizou mutirões com amigos e conhecidos para vasculhar a região. Encontraram alguns objetos pessoais que poderiam pertencer à jovem, um brinco dourado e fragmentos de tecido florido, mas os itens não foram coletados adequadamente pela polícia e acabaram contaminados ou perdidos.

O ponto de virada negativo da investigação aconteceu no 10º dia após o desaparecimento, quando um comerciante de Goiânia alegou ter visto Fernanda em sua cidade comprando roupas em uma loja do centro. A informação, jamais confirmada e provavelmente resultado de confusão com outra pessoa, foi suficiente para que o delegado Monteiro declarasse o caso como fuga voluntária confirmada. Em 30 de janeiro de 2002, exatos 15 dias após o desaparecimento, o caso foi oficialmente arquivado. O relatório final, de apenas três páginas, concluía que Fernanda Duarte abandonou voluntariamente sua residência e cidade natal, provavelmente em busca de novas oportunidades em outro estado. As evidências apontando para possível crime foram sumariamente ignoradas.

Marina Santos, a única investigadora que levou o caso a sério, foi transferida para outra comarca dois meses depois. Antes de partir, deixou uma cópia de seus relatórios com a família de Fernanda, numa demonstração silenciosa de que acreditava ter havido negligência na condução da investigação. O arquivamento prematuro do caso representou não apenas uma falha do sistema de justiça, mas também o início de um longo calvário para a família Duarte. Sem investigação ativa, sem respostas, sem closure, eles teriam que conviver com a terrível incerteza sobre o destino de Fernanda por mais de duas décadas. Com o caso oficialmente arquivado e a polícia considerando o desaparecimento como fuga voluntária, a família Duarte se viu completamente sozinha em sua busca por respostas. Conceição, mãe de Fernanda, transformou sua dor em uma missão obsessiva: manter viva a memória da filha e pressionar as autoridades para que o caso fosse reaberto.

João Duarte, pai de Fernanda, reagiu ao trauma de forma completamente diferente da esposa. O comerciante, que sempre foi extrovertido e sociável, tornou-se uma pessoa introspectiva e amarga. Fechou o pequeno comércio que mantinha no centro de Caldas Novas e passou a evitar as áreas turísticas da cidade, incapaz de suportar as lembranças que cada piscina termal trazia de sua filha desaparecida.

“Meu marido morreu um pouco a cada dia depois que arquivaram o caso,” relembra Conceição. “Ele não conseguia aceitar que nossa filha tivesse simplesmente sumido do mundo e que ninguém se importasse em procurar a verdade. Começou a beber, parou de conversar, parou de viver.”

Conceição, por outro lado, canalizou sua angústia em ação. Começou a frequentar todos os complexos turísticos de Caldas Novas, mostrando a foto de Fernanda para turistas, funcionários e visitantes. Criou um caderno onde anotava qualquer informação, por menor que fosse, sobre possíveis avistamentos ou pistas relacionadas ao desaparecimento da filha. Em 2003, um ano após o desaparecimento, Conceição procurou ajuda de um advogado particular, Dr. Carlos Mendonça, especializado em direitos humanos. Com recursos limitados da família, ele conseguiu protocolar um pedido de reabertura do inquérito, argumentando que a investigação inicial havia sido superficial e negligente. O pedido foi negado pelo juiz da comarca, que manteve a posição de que não havia evidências suficientes para caracterizar crime. Dr. Mendonça recorreu da decisão, mas o processo se arrastou por 3 anos no sistema judiciário antes de ser definitivamente arquivado em 2006.

Durante esse período, Conceição desenvolveu uma rede informal de informantes entre os trabalhadores do setor turístico de Caldas Novas. Garçons, recepcionistas, seguranças, salva-vidas, faxineiras. Todos conheciam a história de Fernanda e prometiam comunicar qualquer informação estranha ou suspeita que pudesse estar relacionada ao caso. Em 2005, 3 anos após o desaparecimento, João Duarte sofreu um infarto fulminante aos 52 anos de idade. Os médicos disseram que o coração simplesmente parou, mas Conceição sempre soube que seu marido havia morrido de desgosto.

“Ele não aguentou viver sem saber o que aconteceu com nossa menina,” diz ela com a voz embargada.

A morte do marido intensificou ainda mais a determinação de Conceição. Agora, viúva e sem outros filhos, ela tinha apenas uma razão para viver: descobrir a verdade sobre Fernanda. Vendeu a casa onde a família havia morado por 20 anos e se mudou para um apartamento pequeno próximo ao centro turístico, de onde podia manter sua vigilância constante. Em 2007, 5 anos após o desaparecimento, Conceição começou a organizar atos públicos anuais no dia 15 de janeiro, data do desaparecimento de Fernanda. Inicialmente, apenas alguns amigos e parentes compareciam à pequena manifestação na Praça Central de Caldas Novas. Com o passar dos anos, outras famílias de desaparecidos começaram a se juntar ao ato.

A persistência de Conceição chamou a atenção de organizações não governamentais especializadas em casos de pessoas desaparecidas. Em 2009, o Instituto Brasileiro de Segurança Pública incluiu o caso de Fernanda Duarte em um relatório sobre investigações mal conduzidas em cidades turísticas brasileiras. O relatório apontava várias falhas na investigação inicial: ausência de perícia adequada no local onde a bolsa foi encontrada, falta de coleta de material genético, não utilização de cães farejadores, descarte prematuro de evidências e, principalmente, a precipitação em classificar o caso como fuga voluntária, sem esgotar todas as possibilidades investigativas.

Conceição usou esse relatório para protocolar uma nova solicitação de reabertura do caso em 2010, 8 anos após o desaparecimento. Desta vez, conseguiu sensibilizar o novo delegado responsável pela região, Dr. Eduardo Silva, que decidiu revisar superficialmente os arquivos do caso. Dr. Silva confirmou que a investigação inicial havia sido deficiente, mas argumentou que após tanto tempo, as chances de encontrar novas evidências eram mínimas. Mesmo assim, autorizou uma busca com cães farejadores na área do Hotel Termas, a primeira ação investigativa realizada no caso desde 2002. A busca realizada em março de 2010 não encontrou vestígios de Fernanda, mas descobriu ossos humanos em uma área de mata densa a aproximadamente 800 m do local onde a bolsa havia sido encontrada. Os ossos, no entanto, pertenciam a um homem idoso que havia desaparecido na década de 1990, resolvendo outro caso antigo da região. A descoberta fortuita reforçou a convicção de Conceição de que sua filha também poderia estar enterrada em algum lugar próximo e que buscas mais extensivas deveriam ser realizadas.

Ela intensificou suas atividades de pressão, conseguindo apoio de deputados estaduais e organizações de direitos humanos. Em 2012, 10 anos após o desaparecimento, Conceição criou o movimento Fernanda Vive, que reunia familiares de desaparecidos de todo o estado de Goiás. O movimento organizava caminhadas, abaixo-assinados e campanhas de conscientização sobre a importância de investigações adequadas em casos de desaparecimento. A determinação inabalável de Conceição transformou o caso de Fernanda Duarte em um símbolo da luta contra a negligência policial e judicial em casos de pessoas desaparecidas. Mesmo sem recursos financeiros significativos, sem apoio institucional e enfrentando o ceticismo de autoridades, ela manteve viva a esperança de que um dia a verdade sobre sua filha viria à tona. Durante todos esses anos, Conceição manteve o quarto de Fernanda exatamente como estava no dia do desaparecimento. Roupas no armário, produtos de beleza na penteadeira, livros sobre a mesa de estudos.

“Quando ela voltar ou quando eu descobrir o que aconteceu com ela, vou arrumar tudo. Enquanto isso, ela continua morando aqui comigo,” dizia para quem questionava sua atitude.

A fé e a persistência de uma mãe que se recusou a aceitar o silêncio das autoridades mantiveram acesa uma chama de esperança que, décadas depois, finalmente iluminaria os cantos escuros onde a verdade estava escondida. Entre 2012 e 2018, o caso de Fernanda Duarte entrou em um período que a própria Conceição descreveria posteriormente como “os anos de silêncio mortal”. Apesar dos esforços do movimento Fernanda Vive e da pressão constante exercida pela mãe da jovem desaparecida, as autoridades mantiveram uma postura de indiferença que beirava o desdém. Durante esses seis anos, Caldas Novas continuou prosperando como destino turístico. Novos resorts foram construídos, a infraestrutura urbana foi modernizada e a cidade recebeu milhões de visitantes em busca das propriedades terapêuticas de suas águas termais. Paradoxalmente, quanto mais a cidade crescia e se desenvolvia, mais o caso de Fernanda Duarte parecia ser empurrado para os porões do esquecimento oficial.

A investigadora Marina Santos, que havia demonstrado genuína preocupação com o caso em 2002, retornou a Caldas Novas em 2013 como delegada adjunta. Agora, com mais experiência e autoridade, ela discretamente reabriu os arquivos do caso e ficou chocada com a superficialidade da investigação inicial. Decidiu conduzir uma revisão não oficial do caso, trabalhando em suas horas livres. Marina localizou Carla Mendes, a turista de Brasília que havia fornecido a descrição mais detalhada do homem visto conversando com Fernanda. Carla, agora advogada e mãe de dois filhos, lembrava-se claramente do episódio e concordou em fornecer detalhes adicionais sobre a tatuagem que havia observado.

“Era uma tatuagem de uma âncora com uma corda enrolada no antebraço direito. Lembro porque achei curiosa, já que estávamos no cerrado, longe do mar,” relatou Carla durante a entrevista com Marina em 2014.

Essa informação específica nunca havia sido adequadamente documentada na investigação original. Com essa nova pista, Marina começou uma investigação discreta entre tatuadores de Caldas Novas e cidades vizinhas. Descobriu que o desenho descrito por Carla era relativamente comum e havia sido feito por pelo menos três profissionais diferentes na região durante a década de 1990 e início dos anos 2000. Um dos tatuadores, Rogério Silva, recordava-se de ter feito uma tatuagem similar para um homem que trabalhava ocasionalmente no setor turístico da cidade.

“Era um cara meio estranho, sempre falava que conhecia todos os hotéis de Caldas Novas, que tinha contatos em todo lugar. Não lembro o nome dele, mas tinha uns 35, 40 anos na época,” relatou Rogério.

Marina tentou obter mais informações, mas Rogério havia perdido seus registros de clientes em um incêndio que destruiu seu estúdio em 2008. A pista, promissora inicialmente, esbarrou novamente na falta de documentação adequada e na passagem do tempo que havia apagado rastros importantes. Durante esse período, Conceição continuou suas atividades de busca, mas começou a demonstrar sinais claros de desgaste físico e emocional. Aos 58 anos, ela havia dedicado mais da metade da década de 2010 à procura incansável por informações sobre a filha. Sua saúde se deteriorava, mas sua determinação permanecia inabalável. Em 2015, 13 anos após o desaparecimento, um evento aparentemente não relacionado trouxe nova esperança ao caso. Durante obras de expansão de um dos principais hotéis de Caldas Novas, operários encontraram roupas femininas enterradas em uma área que havia sido utilizada como depósito de materiais de construção na década de 2000. As roupas, um vestido florido, uma calcinha e uma sandália foram encaminhadas para a perícia, mas os exames não conseguiram estabelecer uma ligação definitiva com Fernanda. O tecido estava muito deteriorado pelo tempo e pelas condições do solo, impossibilitando análises conclusivas de DNA. Conceição, no entanto, teve certeza absoluta de que as roupas pertenciam à sua filha.

“Eu reconheci o vestido na hora. Era um que eu mesma havia comprado para ela no Natal de 2001. Tinha exatamente aquela estampa florida, azul e rosa,” afirmou na época.

A descoberta reacendeu o interesse da mídia local no caso, mas não foi suficiente para convencer as autoridades a reabrir oficialmente a investigação. O laudo pericial concluiu que não há elementos suficientes para estabelecer a identidade da proprietária das roupas encontradas. Mais uma frustração em uma série interminável de quase descobertas. Marina Santos, que havia acompanhado de perto a análise das roupas, ficou convencida de que a investigação original havia sido gravemente falha e que Fernanda provavelmente havia sido vítima de feminicídio. Ela começou a pressionar seus superiores para uma reabertura formal do caso, mas encontrou resistência institucional significativa.

“Ninguém queria mexer em um caso antigo, especialmente um que poderia expor a incompetência da investigação original. Caldas Novas tinha uma imagem turística a proteger e um caso de assassinato mal resolvido não era bom para os negócios,” confidenciou Marina anos depois.

Em 2016, Marina conseguiu autorização para realizar uma busca mais extensiva na área onde as roupas haviam sido encontradas. Utilizando equipamentos mais modernos, incluindo o radar de penetração no solo, a equipe vasculhou um perímetro de 500 m ao redor do local da descoberta. A busca revelou várias anomalias no subsolo, mas nenhuma se mostrou relacionada ao caso de Fernanda. Foram encontrados mais restos de construção, tubulações antigas e até mesmo ossadas de animais, mas nada que pudesse esclarecer o destino da jovem desaparecida. O ano de 2017 trouxe um golpe devastador para Conceição. Ela foi diagnosticada com câncer de mama, uma doença que ela atribuiu diretamente ao estresse e à angústia de décadas de busca sem respostas.

“Meu corpo está doente porque minha alma está doente. Enquanto eu não souber o que aconteceu com a Fernanda, não vou ter paz,” declarou na época.

Durante o tratamento de quimioterapia, Conceição teve que reduzir drasticamente suas atividades de busca. O movimento Fernanda Vive perdeu força, os atos anuais ficaram menores e, pela primeira vez em 15 anos, parecia que o caso poderia finalmente ser esquecido pela comunidade. Marina Santos, observando o declínio da saúde de Conceição e a perda de interesse público no caso, tomou uma decisão arriscada. Em 2018, ela decidiu vazar informações sobre as falhas da investigação original para um jornalista investigativo de Goiânia, esperando que a pressão da mídia estadual pudesse forçar uma reabertura do caso. A estratégia de Marina estava prestes a desencadear uma série de eventos que finalmente trariam à luz a verdade sobre o desaparecimento de Fernanda Duarte.

Os anos de silêncio estavam chegando ao fim, mas as revelações que viriam chocariam não apenas Caldas Novas, mas todo o estado de Goiás. No final de 2018, 16 anos após o desaparecimento de Fernanda Duarte, uma série de eventos aparentemente desconexos começou a formar um padrão que chamaria a atenção de investigadores especializados em casos arquivados. A primeira rachadura no muro de silêncio que cercava o caso veio de uma fonte inesperada, um presidiário cumprindo pena por tráfico de drogas na penitenciária de Aparecida de Goiânia. Ademir Santos, de 45 anos, estava prestes a progredir para o regime semiaberto quando procurou o capelão da prisão, alegando ter informações importantes sobre um crime antigo em Caldas Novas.

Santos havia sido preso em 2015 por comandar uma pequena rede de tráfico que abastecia hotéis e pousadas da região turística e, durante anos, manteve silêncio sobre outras atividades criminosas das quais tinha conhecimento. O capelão, padre Antônio Ferreira, inicialmente tratou o relato de Ademir com ceticismo. Não era raro que presos próximos da progressão de regime inventassem histórias para chamar atenção ou tentar acelerar seus processos. No entanto, quando Ademir mencionou especificamente o nome de Fernanda Duarte e detalhes sobre seu desaparecimento que não haviam sido divulgados publicamente, o padre decidiu comunicar o fato às autoridades. Marina Santos, que desde 2013 mantinha uma vigilância não oficial sobre qualquer informação relacionada ao caso, foi comunicada sobre o depoimento de Ademir em janeiro de 2019. Quando se encontrou com o presidiário, ficou imediatamente intrigada com o nível de detalhes que ele possuía sobre a investigação original e sobre aspectos do caso que apenas pessoas muito próximas aos eventos poderiam conhecer.

“Ademir sabia coisas que nunca foram divulgadas na imprensa. Ele sabia sobre a bolsa encontrada no estacionamento, sobre o dinheiro que estava intacto, sobre a conversa com o homem da tatuagem. Mas o mais impressionante era que ele conhecia detalhes sobre a condução da investigação que apenas policiais envolvidos poderiam saber,” relembra Marina.

Durante três sessões de depoimento realizadas na própria penitenciária, Ademir revelou que no início dos anos 2000 ele trabalhava ocasionalmente como facilitador para turistas que buscavam drogas e prostituição em Caldas Novas. Sua rede de contatos incluía recepcionistas de hotéis, seguranças, taxistas e trabalhadores do setor de entretenimento noturno da cidade. Ademir afirmou que no dia do desaparecimento de Fernanda, ele havia sido procurado por um homem que conhecia superficialmente, alguém que havia utilizado seus serviços algumas vezes nos meses anteriores.

“Esse homem, segundo Ademir, estava visivelmente nervoso e queria desaparecer por alguns dias da cidade. Ele chegou no meu apartamento por volta das 5 da tarde, todo suado, falando que tinha feito uma besteira e precisava sair de Caldas Novas urgente. Ofereceu R$ 500, muito dinheiro na época, para eu arrumar uma carona para ele até Goiânia,” relatou Ademir durante o depoimento.

Ademir descreveu o homem como tendo aproximadamente 38 anos, moreno, com uma tatuagem de âncora no braço direito. Exatamente a mesma descrição fornecida pela turista Carla Mendes em 2002. Mais importante ainda, ele soube fornecer o nome pelo qual conhecia o suspeito, “Márcio”, embora desconfiasse que não fosse o nome real. Durante os anos seguintes ao desaparecimento de Fernanda, Ademir continuou ocasionalmente encontrando Márcio em Caldas Novas, mas notou que ele havia mudado drasticamente seu comportamento. O homem que antes era sociável e expansivo tornou-se retraído e paranoico, evitando contato visual e conversas prolongadas.

“Depois de 2002, o Márcio ficou estranho, sempre olhando por cima do ombro, como se tivesse medo de alguma coisa. Quando a gente se esbarrava na rua, ele fingia que não me conhecia. Isso me fez desconfiar que ele tinha se metido em alguma encrenca séria,” explicou Ademir.

Marina Santos ficou fascinada com as revelações, mas precisava de mais elementos para considerá-las credíveis. Solicitou que Ademir descrevesse com mais detalhes físicos e comportamentais o suspeito, e as informações fornecidas se mostraram consistentes e específicas demais para serem inventadas. Ademir relatou que Márcio tinha uma cicatriz pequena na testa, resultado de um acidente de motocicleta na juventude, usava sempre uma corrente de ouro no pescoço com um pingente de São Cristóvão e tinha o hábito de mascar palito de dente constantemente. Detalhes aparentemente insignificantes, mas que poderiam ser cruciais para uma identificação positiva. Mais importante ainda, Ademir forneceu informações sobre os locais que Márcio frequentava e as pessoas com quem mantinha contato. Segundo ele, o suspeito trabalhava ocasionalmente como guia turístico informal, levando visitantes para passeios nas cachoeiras e pontos turísticos menos conhecidos da região.

“Ele conhecia Caldas Novas como a palma da mão. Sabia de todos os caminhos, todas as trilhas, todos os locais escondidos onde turista nenhum ia. Se alguém quisesse esconder alguma coisa na região, o Márcio saberia exatamente onde,” afirmou Ademir durante seu depoimento.

Marina decidiu investigar discretamente as informações fornecidas por Ademir. Começou visitando estabelecimentos que ele havia mencionado como pontos de encontro frequentados pelo suspeito. Em um bar próximo ao terminal rodoviário, conseguiu confirmar que um homem com as características descritas realmente frequentava o local no início dos anos 2000. O proprietário do bar, seu Joaquim, lembrava-se vagamente de um cliente que correspondia à descrição física fornecida por Ademir.

“Tinha um rapaz que vinha aqui direto, sempre sozinho, sempre meio calado, usava uma corrente de ouro e ficava mascando o palitinho. Parou de aparecer de uma hora para outra. Deve ter sido por volta de 2003 ou 2004,” relatou.

A confirmação independente de detalhes específicos mencionados por Ademir aumentou significativamente a credibilidade de seu depoimento. Marina começou a perceber que finalmente havia encontrado uma pista consistente que poderia levar à resolução do caso de Fernanda Duarte. No entanto, transformar essas informações em uma investigação oficial exigiria habilidade política e persistência. Marina sabia que precisaria construir um caso sólido antes de apresentá-lo a seus superiores, que há anos demonstravam relutância em reabrir investigações antigas. A primeira rachadura no silêncio havia-se aberto, mas ainda seria necessário muito trabalho para transformá-la na avalanche de revelações, que finalmente traria justiça para Fernanda Duarte e paz para sua mãe, Conceição.

Com as informações fornecidas por Ademir Santos, Marina Santos iniciou uma investigação paralela e sigilosa para tentar identificar o misterioso Márcio. Utilizando suas horas de folga e recursos próprios, ela começou um trabalho de detetive que se revelaria crucial para a resolução do caso de Fernanda Duarte. Marina sabia que sua investigação não oficial era arriscada do ponto de vista profissional, mas sua consciência não permitia que ignorasse as primeiras pistas consistentes que o caso havia produzido em 17 anos. Ela desenvolveu uma metodologia sistemática. Durante os finais de semana, visitava estabelecimentos comerciais antigos de Caldas Novas, mostrando um retrato falado baseado nas descrições de Ademir e Carla Mendes. O trabalho de campo revelou-se mais produtivo do que Marina havia imaginado. Em três meses de investigação, ela conseguiu confirmar a existência de um homem que correspondia às descrições físicas em pelo menos cinco estabelecimentos diferentes da cidade.

Mais importante ainda, descobriu que ele havia trabalhado ocasionalmente como guia turístico informal entre 1999 e 2003. A primeira confirmação significativa veio de dona Celeste, proprietária de uma pequena pousada no centro de Caldas Novas. Ela lembrava-se claramente de um homem que levava turistas para passeios nas cachoeiras e pontos menos conhecidos da região.

“Ele aparecia aqui de vez em quando, oferecendo passeios para os hóspedes. Era educado, conhecia bem a região, mas tinha alguma coisa estranha nele. Os turistas gostavam dos passeios, mas eu sempre ficava com um pé atrás,” relatou.

Dona Celeste descreveu o homem como tendo aproximadamente 35 a 40 anos, moreno, com uma tatuagem no braço direito e uma pequena cicatriz na testa. Mais importante, ela lembrava-se de que ele usava uma corrente de ouro com um pingente de São Cristóvão, exatamente como Ademir havia descrito.

“Ele dizia que o nome dele era Márcio, mas nunca mostrou documentos. Sempre pagava tudo em dinheiro, nunca deixava dados para contato. Depois de 2002, parou de aparecer por aqui. Na época, eu nem pensei muito nisso, mas agora que você está perguntando, achei estranho ele ter sumido de repente,” relatou dona Celeste.

Marina descobriu que o suspeito utilizava um Volkswagen Gol branco, modelo final da década de 1990, para transportar turistas. Várias pessoas lembravam-se do veículo que tinha adesivos promocionais de pontos turísticos colados no vidro traseiro. O detalhe era importante porque carros utilizados para transporte turístico informal geralmente eram registrados em órgãos municipais. A investigação nos arquivos da Secretaria de Turismo de Caldas Novas revelou que entre 1999 e 2001, 17 pessoas haviam se registrado como guias turísticos informais. Os registros eram precários, mas Marina conseguiu identificar três indivíduos que possuíam veículos similares ao descrito pelas testemunhas. O primeiro suspeito, Carlos Eduardo Silva, foi rapidamente descartado. Ele ainda vivia em Caldas Novas, trabalhava como taxista e não correspondia às descrições físicas fornecidas pelas testemunhas. Segundo, José Antônio Pereira havia se mudado para Brasília em 2001 e também não se encaixava no perfil. O terceiro nome na lista era Márcio Henrique dos Santos. Os registros indicavam que ele havia se cadastrado como guia turístico em março de 1999 e possuía um Volkswagen Gol branco, ano 1998. O endereço fornecido no cadastro era uma casa alugada no bairro popular que havia sido demolida para dar lugar a um condomínio residencial.

Marina tentou localizar informações adicionais sobre Márcio Henrique dos Santos nos sistemas policiais, mas não encontrou registros criminais ou qualquer documentação que pudesse confirmar sua identidade real. Era como se ele tivesse se materializado em Caldas Novas em 1999 e desaparecido completamente após 2002. A investigação sobre o passado de Márcio Henrique levou Marina a uma descoberta perturbadora. Ela encontrou registros similares de homens com o mesmo nome e características físicas em outras cidades turísticas de Goiás durante a década de 1990: Pirenópolis, cidade de Goiás, Chapada dos Veadeiros. Em todas essas localidades havia registros de um guia turístico informal que correspondia à mesma descrição. Mais alarmante ainda, Marina descobriu que em cada uma dessas cidades havia casos não resolvidos de jovens mulheres que haviam desaparecido durante o período em que Márcio Henrique esteve presente. As conexões eram circunstanciais, mas o padrão era perturbador demais para ser coincidência. Em Pirenópolis, Sandra Oliveira, 23 anos, desapareceu em julho de 1997 após ser vista conversando com um homem próximo às cachoeiras. Em cidade de Goiás, Patrícia Lima, 26 anos, sumiu durante o festival de inverno de 1998. Na Chapada dos Veadeiros, duas jovens, Renata Costa, 24 anos, e Juliana Ferreira, 22 anos, desapareceram em ocasiões diferentes durante o ano de 2000. Marina percebeu que estava diante de um possível serial killer, que utilizava sua profissão de guia turístico para atrair vítimas em locais isolados.

A descoberta era ao mesmo tempo empolgante e aterrorizante. Empolgante porque finalmente havia uma pista consistente para o caso de Fernanda, aterrorizante porque sugeria que outras famílias haviam sofrido a mesma tragédia. A investigadora decidiu que havia chegado o momento de oficializar suas descobertas. Em setembro de 2019, ela preparou um relatório detalhado sobre suas investigações e solicitou uma reunião com o delegado regional, Dr. Roberto Farias. O relatório de 47 páginas documentava meticulosamente todas as evidências coletadas e as conexões entre os casos. Dr. Farias, inicialmente cético, ficou impressionado com a qualidade e consistência das evidências apresentadas por Marina. Depois de revisar o relatório durante uma semana, ele autorizou a reabertura oficial da investigação sobre o desaparecimento de Fernanda Duarte, 17 anos após o caso ter sido arquivado. A reabertura do caso foi comunicada à Conceição Duarte numa manhã fria de outubro de 2019. A mãe de Fernanda, agora com 62 anos e visivelmente debilitada pelo câncer, chorou por quase uma hora ao receber a notícia.

“Eu sempre soube que um dia a verdade ia aparecer. Minha filha não me deixaria desistir,” disse entre lágrimas.

A investigação oficial sobre Márcio Henrique dos Santos estava prestes a começar e com ela a possibilidade real de que o caso de Fernanda Duarte finalmente encontrasse sua resolução. Mas as descobertas que viriam a seguir seriam ainda mais chocantes do que Marina havia imaginado. Com a reabertura oficial do caso em outubro de 2019, Marina Santos finalmente teve acesso a recursos investigativos que haviam sido negados durante sua busca solitária. O delegado Roberto Farias designou uma equipe especializada em casos arquivados para trabalhar sob sua coordenação, incluindo dois investigadores experientes e um analista de inteligência. A primeira ação da equipe foi solicitar à Polícia Federal uma análise detalhada dos padrões de desaparecimentos em cidades turísticas de Goiás entre 1995 e 2005. O pedido foi justificado pela suspeita de que Márcio Henrique dos Santos poderia estar envolvido em múltiplos crimes similares em diferentes localidades. A resposta da Polícia Federal chegou em dezembro de 2019 e confirmou os piores temores da investigação. O relatório identificou 17 casos de jovens mulheres desaparecidas em oito cidades turísticas goianas durante o período analisado. Em 13 desses casos, havia registros de um homem com características físicas similares, trabalhando como guia turístico informal na época dos desaparecimentos.

“Quando vi os números, fiquei chocada. Não estávamos lidando apenas com o caso da Fernanda, mas possivelmente com o serial killer mais prolífico da história de Goiás,” relembra Marina sobre o momento em que recebeu o relatório federal.

A equipe decidiu focar inicialmente no caso de Fernanda, mas mantendo atenção às conexões com os outros desaparecimentos. Marina viajou para Brasília para entrevistar novamente Carla Mendes, a turista que havia fornecido a descrição mais detalhada do suspeito. 17 anos depois, Carla ainda se lembrava claramente do homem e conseguiu fornecer detalhes adicionais.

“Quando a delegada me mostrou as fotos de outros casos similares, eu fiquei arrepiada. O padrão era sempre o mesmo: homem sozinho, se aproximando de jovens que trabalhavam no setor turístico, conversas aparentemente amigáveis. É como se ele tivesse um método bem definido,” disse Carla durante a nova entrevista.

Paralelamente, a equipe iniciou uma busca sistemática por Márcio Henrique dos Santos, utilizando bases de dados nacionais. O nome apareceu em registros de diferentes estados, sempre associado a atividades no setor turístico, mas nunca com documentação suficiente para estabelecer sua identidade real ou localização atual. O investigador Paulo César Rocha, especialista em crimes seriais, integrou-se à equipe em janeiro de 2020 e imediatamente identificou características típicas de assassinos em série organizados no modus operandi do suspeito. Ele escolhia vítimas vulneráveis, trabalhava sozinho, mudava de cidade após cada crime e mantinha uma fachada de normalidade através do trabalho como guia turístico.

“É um perfil clássico,” explicou Paulo.

A primeira pista concreta sobre a localização atual de Márcio Henrique veio de uma fonte inesperada. Em fevereiro de 2020, a Receita Federal comunicou que um homem com esse nome havia declarado imposto de renda em Palmas, Tocantins, entre 2015 e 2019, listando como profissão “prestador de serviços turísticos”. A equipe viajou imediatamente para Palmas e descobriu que Márcio Henrique dos Santos havia trabalhado como guia turístico na região da Ilha do Bananal e do Jalapão entre 2014 e 2019. Mais uma vez, utilizava documentação precária e mantinha um perfil discreto, evitando criar vínculos duradouros com colegas ou empregadores. A investigação em Palmas revelou que o suspeito havia deixado a cidade abruptamente em dezembro de 2019, exatamente no mesmo período em que a investigação sobre o caso de Fernanda havia sido oficializada. A coincidência temporal sugeriu que ele poderia estar monitorando notícias sobre casos antigos ou ter algum tipo de informante.

“Descobrimos que ele tinha o hábito de acompanhar notícias policiais pela internet, especialmente sobre casos arquivados sendo reabertos. Também mantinha contatos em várias cidades onde havia trabalhado. É possível que alguém tenha o alertado sobre nossa investigação,” especulou o investigador Paulo César.

A equipe conseguiu localizar o último endereço conhecido de Márcio Henrique em Palmas, um apartamento pequeno em um bairro periférico que ele havia alugado por 4 anos. O proprietário, Sr. Geraldo, descreveu-o como um inquilino exemplar.

“Sempre pagava o aluguel em dia, mantinha o apartamento limpo, mas raramente recebia visitas ou fazia barulho. Ele era muito reservado, quase invisível. Às vezes eu passava semanas sem vê-lo. Quando conversávamos era sempre educado, mas nunca falava sobre família ou amigos. Achei estranho quando ele apareceu no final do ano passado dizendo que ia se mudar e precisava quebrar o contrato,” relatou o Sr. Geraldo.

A perícia no apartamento abandonado encontrou poucos pertences pessoais, mas descobriu algo significativo: recortes de jornais sobre casos de pessoas desaparecidas, incluindo uma matéria sobre o movimento Fernanda Vive, publicada em 2018. Havia também mapas detalhados de várias regiões turísticas do Centro-Oeste brasileiro. Mais perturbador ainda foi a descoberta de um caderno com anotações manuscritas, contendo informações detalhadas sobre jovens mulheres que trabalhavam no setor turístico de diferentes cidades. As anotações incluíam nomes, idades, rotinas de trabalho e características físicas. Um verdadeiro catálogo de potenciais vítimas. O caderno continha uma entrada específica sobre Fernanda Duarte: “Fernanda, 25 anos, vendedora ambulante, Termas, terças e quintas, bolsa marrom, família em CD norte”.

A precisão das informações confirmou que Márcio Henrique havia observado e planejado sua abordagem à jovem.

“Quando vi aquelas anotações, percebi que estávamos lidando com um predador extremamente organizado e calculista. Ele não agia por impulso, mas planejava cuidadosamente cada ação,” disse Marina ao analisar as evidências encontradas no apartamento.

A descoberta do caderno foi um divisor de águas na investigação. Além de confirmar o envolvimento de Márcio Henrique no desaparecimento de Fernanda, forneceu pistas sobre pelo menos 15 outras jovens que poderiam ter sido suas vítimas ao longo de duas décadas. A equipe solicitou à Polícia Federal a emissão de um mandado de prisão preventiva contra Márcio Henrique dos Santos pelos crimes de sequestro e homicídio qualificado no caso de Fernanda Duarte. Paralelamente, foi emitido um alerta nacional para sua localização e captura. Em março de 2020, exatos 18 anos após o desaparecimento de Fernanda, sua foto foi incluída na lista dos criminosos mais procurados do país. A caçada ao homem que havia aterrorizado famílias em todo o Centro-Oeste brasileiro estava oficialmente em andamento.

A busca nacional por Márcio Henrique dos Santos durou 7 meses intensos, durante os quais a Polícia Federal coordenou operações em 12 estados brasileiros. O criminoso havia demonstrado ao longo de duas décadas uma habilidade impressionante para desaparecer e reinventar sua identidade. Mas a pressão investigativa finalmente começou a cercar suas opções de fuga. A primeira pista sobre seu paradeiro atual veio de uma fonte improvável. Em agosto de 2020, durante a pandemia de Covid-19, o sistema de auxílio emergencial do governo federal flagrou uma tentativa de cadastro fraudulento, usando documentos em nome de Márcio Henrique dos Santos em Cuiabá, Mato Grosso. Embora o cadastro tenha sido rejeitado por inconsistências, forneceu às autoridades uma localização aproximada. A equipe de Marina Santos viajou imediatamente para Cuiabá e iniciou uma investigação discreta na região onde o cadastro havia sido tentado. Descobriram que um homem correspondente à descrição física do suspeito havia sido visto trabalhando como vendedor ambulante de artesanatos nas proximidades do Mercado do Porto, uma das principais áreas turísticas da cidade.

“Ele tinha mudado completamente o modus operandi. Não estava mais trabalhando como guia turístico, mas como vendedor de rua. Deixou crescer a barba, estava mais magro, usava óculos, mas a tatuagem da âncora ainda estava lá,” relata o investigador Paulo César, que participou da operação de localização.

Durante duas semanas, a equipe manteve vigilância discreta na região do mercado. Em 3 de setembro de 2020, finalmente avistaram um homem que correspondia às características físicas de Márcio Henrique. Ele vendia pulseiras e colares artesanais para turistas e mantinha o mesmo comportamento observador e calculista descrito pelas testemunhas de casos anteriores. A abordagem foi planejada cuidadosamente para evitar que o suspeito fugisse ou resistisse à prisão. Às 14:30 de uma quinta-feira ensolarada, quando ele estava distraído atendendo um casal de turistas, agentes da Polícia Federal se aproximaram e efetuaram a prisão sem incidentes.

“Quando mostrei a carteira da polícia e disse que ele estava preso, ele não demonstrou surpresa. Era como se já estivesse esperando por esse momento há muito tempo. Não resistiu, não tentou fugir, apenas perguntou: ‘É sobre as meninas, não é?’” relembra o agente federal Carlos Augusto, que conduziu a abordagem.

Identificado como Márcio Henrique dos Santos, 56 anos, natural de Anápolis, Goiás, o homem foi conduzido à superintendência da Polícia Federal em Cuiabá. Durante a revista pessoal, os agentes encontraram documentos falsos em três nomes diferentes, cerca de R$ 2.800 em dinheiro vivo e um celular com fotos de jovens mulheres que pareciam ter sido fotografadas sem conhecimento. O primeiro interrogatório foi conduzido por Marina Santos, que havia dedicado quase 20 anos de sua vida à captura deste homem. Márcio Henrique inicialmente tentou negar envolvimento nos crimes, mas quando confrontado com as evidências encontradas em seu apartamento de Palmas e os depoimentos das testemunhas, sua postura mudou completamente.

“Depois de 20 minutos de conversa, percebi que ele queria confessar. Era como se estivesse carregando um peso enorme há décadas e finalmente tivesse encontrado alguém para dividir,” descreve Marina sobre o momento da confissão.

Márcio Henrique revelou que havia iniciado suas atividades criminosas em 1995 em Pirenópolis, onde cometeu seu primeiro homicídio contra Sandra Oliveira. Durante 25 anos, ele havia se movido sistematicamente por cidades turísticas do Centro-Oeste, assumindo identidades falsas e utilizando sua aparência confiável para se aproximar de jovens vulneráveis. A confissão sobre Fernanda Duarte foi particularmente detalhada e perturbadora. Segundo Márcio Henrique, ele havia observado a jovem por várias semanas antes de 15 de janeiro de 2002, estudando suas rotinas e horários de trabalho. No dia do crime, aproximou-se dela no Hotel Termas, oferecendo comprar todos os seus produtos por um preço acima do mercado.

“Ele disse que convenceu a Fernanda a acompanhá-lo até o estacionamento para buscar o dinheiro no carro. Uma vez lá, forçou-a a entrar no veículo usando uma faca e a levou para uma área isolada na zona rural de Caldas Novas,” relata Marina, visivelmente emocionada ao recordar os detalhes da confissão.

Márcio Henrique conduziu os investigadores até o local onde havia enterrado o corpo de Fernanda, uma área de mata densa a aproximadamente 15 km do centro de Caldas Novas. O local era praticamente inacessível por estradas convencionais, explicando por que as buscas anteriores nunca haviam alcançado a região. A exumação dos restos mortais de Fernanda Duarte foi realizada em 12 de setembro de 2020, 18 anos e 8 meses após seu desaparecimento. A perícia confirmou a identidade através de registros dentários fornecidos pela família, finalmente encerrando décadas de incerteza sobre seu destino. Durante as semanas seguintes, Márcio Henrique confessou o envolvimento em outros 13 homicídios cometidos entre 1995 e 2015. Cada confissão foi meticulosamente verificada pelos investigadores, que localizaram os corpos de mais oito vítimas em diferentes regiões do Centro-Oeste brasileiro.

A notícia da prisão de Márcio Henrique dos Santos e da localização do corpo de Fernanda Duarte chegou à Conceição numa manhã de setembro de 2020. Marina Santos fez questão de comunicar pessoalmente os desenvolvimentos à mãe da jovem, que havia aguardado por essa resposta durante 18 anos e 8 meses. Conceição, agora com 63 anos e visivelmente fragilizada pela longa batalha contra o câncer, chorou incontrolavelmente ao saber que finalmente poderia sepultar sua filha e que o responsável pelo crime havia sido capturado.

“Minha filha pode descansar em paz agora e eu também posso,” foram suas primeiras palavras após receber a notícia.

O velório de Fernanda Duarte foi realizado em 15 de setembro de 2020, exatos 18 anos e 8 meses após seu desaparecimento. Centenas de pessoas compareceram à cerimônia, incluindo muitos que haviam ajudado Conceição durante anos de busca. O caixão foi coberto por flores azuis e rosas, as cores preferidas de Fernanda, e uma foto dela sorrindo foi colocada sobre a tampa. Durante o velório, Marina Santos fez um pronunciamento emocionado sobre a importância da persistência de Conceição para a resolução do caso.

“Se não fosse pela fé inabalável de uma mãe que se recusou a aceitar o silêncio das autoridades, Márcio Henrique continuaria livre, fazendo novas vítimas. Conceição Duarte ensinou a todos nós que a justiça pode demorar, mas sempre encontra seu caminho,” disse.

O julgamento de Márcio Henrique dos Santos começou em março de 2021 no Tribunal do Júri de Caldas Novas. Devido à gravidade e repercussão do caso, foi necessário reforçar a segurança do fórum e a sessão foi transmitida ao vivo pela internet, permitindo que familiares de outras vítimas acompanhassem o processo. Durante três dias de julgamento, o Ministério Público apresentou evidências devastadoras contra o réu. Além de sua confissão detalhada, foram apresentados os objetos encontrados em seu apartamento, depoimentos de testemunhas de múltiplos casos e laudos periciais que confirmavam sua participação nos crimes. A defesa tentou alegar insanidade mental, mas os exames psiquiátricos confirmaram que Márcio Henrique era plenamente capaz de entender a natureza de seus atos. Os peritos descreveram-no como um psicopata organizado que havia planejado meticulosamente seus crimes durante décadas. Conceição Duarte, mesmo debilitada pela doença, fez questão de comparecer ao julgamento. Em seu depoimento como assistente de acusação, ela descreveu os 18 anos de sofrimento e incerteza que sua família havia enfrentado.

“Não desejo vingança, desejo justiça, que este homem nunca mais possa fazer outras famílias passarem pelo que nós passamos,” disse.

Em 18 de março de 2021, o júri popular condenou Márcio Henrique dos Santos a 35 anos de prisão em regime inicialmente fechado pelo homicídio qualificado de Fernanda Duarte. A sentença foi recebida com aplausos na sala de audiências, marcando o fim de uma das investigações mais longas e complexas da história de Goiás. Posteriormente, Márcio Henrique foi julgado e condenado pelos outros homicídios que havia confessado, recebendo penas que totalizaram mais de 400 anos de prisão. Ele morrerá na cadeia sem possibilidade de liberdade condicional.

A resolução do caso teve impactos profundos nas políticas de segurança de Goiás. Foi criado o Protocolo Fernanda Duarte, que estabelece procedimentos obrigatórios para investigação de desaparecimentos, incluindo ações investigativas que devem ser iniciadas nas primeiras 24 horas e a proibição de classificar casos como fuga voluntária sem investigação adequada. Marina Santos foi promovida a delegada titular e recebeu diversas condecorações por sua dedicação ao caso. Ela continua trabalhando com casos arquivados e tornou-se uma referência nacional em investigações de pessoas desaparecidas. Conceição Duarte faleceu pacificamente em seu sono em dezembro de 2021, 9 meses após o julgamento de Márcio Henrique. Segundo os médicos, ela havia cumprido sua missão e, finalmente, permitiu que seu corpo descansasse. Foi sepultada ao lado de Fernanda, no cemitério de Caldas Novas, reunindo-se finalmente com a filha que nunca parou de buscar.

O movimento Fernanda Vive continua ativo, agora coordenado por outras famílias de desaparecidos e apoiado pela Secretaria de Segurança Pública de Goiás. Já ajudou na resolução de mais de 30 casos arquivados e tornou-se um símbolo da luta contra a negligência investigativa. A história de Fernanda Duarte transformou-se em um marco na luta por justiça no Brasil, provando que a persistência familiar e o trabalho investigativo dedicado podem superar décadas de negligência institucional. Nas águas termais de Caldas Novas, onde tudo começou, hoje existe um memorial em homenagem a todas as vítimas de crimes não resolvidos, lembrando que algumas feridas só podem ser curadas pela verdade. O caso, que começou com o desaparecimento de uma jovem vendedora ambulante, terminou expondo um dos maiores serial killers da história brasileira e mudando para sempre a forma como o país lida com pessoas desaparecidas. A justiça chegou tarde para Fernanda, mas chegou completa, forte e transformadora.