Havia algo que não batia certo, algo pequeno, quase invisível. Elisângela Souza tinha 43 anos, com cabelos pretos à altura dos ombros. Tinha aquele ar tranquilo de quem foi criada para aguentar. Todas as quintas-feiras, saía de casa às 18h30 e voltava às 22h, às vezes às 22h30.
Dizia que a culpa era do trânsito na Avenida Paralela. Dizia que a reunião do grupo familiar se tinha prolongado. Dizia muitas coisas. Marcelo Souza ouvia e guardava para si. Era mecânico, um homem de mãos calejadas, com as unhas sempre sujas de uma graxa que o sabão nunca removia por completo. Aos 46 anos, casado há 17, trabalhava na sua própria oficina na Rua Conselheiro Saraiva, no bairro do Lobato, em Salvador.
Acordava cedo, deitava-se tarde, não se queixava muito, mas havia uma coisa que simplesmente não encaixava. E um dia, numa terça-feira de setembro, com aquele calor húmido que se cola à pele desde a manhã, Marcelo descobriu o que era. Se essa história já o fez parar e prestar atenção, o que aconteceu a seguir é ainda mais difícil de explicar.
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Um detalhe que reduziu toda a congregação ao silêncio. Entenderá quando lá chegarmos. O bairro do Lobato fica no coração de Salvador. Não é o bairro mais pobre nem o mais rico. É o tipo de lugar onde todos se conhecem pela alcunha, onde a mercearia da esquina fia aos clientes que lá vivem há anos, onde os churrascos de domingo no quintal ainda são coisa séria. E o som do samba do vizinho entra pela janela sem pedir licença. Marcelo Souza nasceu lá, cresceu lá e abriu a sua oficina lá. A oficina do Marcelo, como todos lhe chamavam, não tinha um nome chique nem uma tabuleta elaborada. Ficava a três quarteirões da casa onde morava com Elisângela e os dois filhos: Breno, de 19 anos, que ajudava o pai aos fins de semana, e Tainá, de 16, que estudava à tarde e passava as manhãs em casa.
Marcelo tinha 1,75 m de altura. Um corpo forte, o tipo de corpo que carrega peso desde os 20 anos. Cabelo ralo à frente, um bigode farfalhudo, olhos escuros com aquela expressão séria que as pessoas por vezes confundiam com arrogância, mas era apenas o seu feitio. O tipo de homem que não desperdiça palavras. Elisângela era diferente.
Elisângela sorria com facilidade e falava com toda a gente. Era daquelas mulheres que conseguia entrar numa sala e fazer a temperatura subir um grau. Não pela sua beleza, mas pela sua presença: o cabelo preto, a pele morena, a figura cheia, tudo revestido com a postura de quem frequentava a igreja há anos.
Trabalhava como auxiliar de enfermagem no centro de saúde do bairro, três turnos por semana. O resto do tempo era dividido entre os filhos, a casa e a Igreja Evangélica Assembleia da Graça, na Rua Minas Gerais, a 8 minutos a pé. Frequentava a Assembleia da Graça há 6 anos.
Marcelo ia às vezes, nos dias dos cultos principais, no aniversário da igreja, naquelas datas que a mulher marcava no calendário com uma caneta vermelha, mas não era um frequentador assíduo todas as semanas. Preferia os domingos em casa, churrascos no quintal e futebol na televisão. Elisângela compreendia, ou fingia compreender. O pastor da igreja Assembleia da Graça chamava-se Robson Ferreira Matos.
Tinha 41 anos, era natural de Feira de Santana, mas vivia em Salvador há quase uma década. Um homem alto, com 1,82 m, magro, com o tipo de rosto que as pessoas chamam de “cara de pastor”. Um sorriso fácil, um olhar firme, uma voz que se fazia ouvir sem precisar de gritar, cabelos pretos com uns fios prateados nas fontes, um fato azul-marinho para os cultos de domingo e camisa de botões durante a semana.
Robson era casado com Débora, de 38 anos, professora de uma escola municipal, e tinham três filhos. Moravam no bairro de Pau Miúdo, a dois bairros de distância do Lobato. Na congregação, Robson era respeitado. Mais do que isso, era admirado. Visitava os doentes, orava pelos enlutados e abria a igreja de madrugada para qualquer um que chegasse em crise.
Era o tipo de pastor que a comunidade defendia com unhas e dentes quando alguém falava mal dele. Elisângela era uma das membras mais dedicadas da congregação. Liderava o grupo de mulheres às quintas-feiras. Organizava os eventos da igreja, ajudava na decoração, na cozinha e nas reuniões dos grupos familiares que aconteciam nas casas dos membros, pelo bairro. Marcelo sabia de tudo isso.
O que ele não sabia era quanto tempo Elisângela e o Pastor Robson passavam sozinhos. A primeira vez que Marcelo pressentiu que algo estava errado foi num sábado de julho. Elisângela tinha ido à igreja para ajudar a organizar o culto de aniversário da congregação. Tinha dito que voltaria ao meio-dia. Voltou às 15h com uma explicação demasiado longa sobre o atraso na compra das decorações.
“O fornecedor não entregou a tempo; houve um problema com o bolo encomendado,” justificou ela.
Marcelo ouviu tudo sem dizer uma palavra, mas algo ficou na sua cabeça. Não era ciúme, diria ele mais tarde. Era uma equação matemática que não batia certo, detalhes que não encaixavam. A forma como ela entrou em casa, ligeiramente agitada, a falar depressa demais, com os olhos a desviarem-se por um segundo antes de se encontrarem com os dele.
Ele não disse nada, ficou calado. Nas semanas seguintes, Marcelo começou a prestar mais atenção. Não de forma ostensiva. Ele não era de dar nas vistas, mas prestou atenção ao telemóvel que ela deixava virado para baixo na mesa de jantar, às mensagens que chegavam tarde da noite e que ela lia na casa de banho, ao perfume diferente que sentiu nela numa quinta-feira quando ela voltou da reunião do grupo familiar — não era o perfume dela, era outro, mais suave, quase impercetível, mas ele notou.
Se tem acompanhado esta história e ainda não subscreveu, faça-o agora. Aqui neste canal, não cortamos o que é importante; contamos a história toda, do princípio ao fim. Subscreva e ative as notificações. Setembro chegou com chuva fraca a Salvador. Aquele chuvisco que não ensopa, mas se agarra ao cabelo e à roupa e deixa tudo com cheiro a terra molhada.
Foi numa terça-feira de setembro que Marcelo decidiu ir à igreja sem dizer a ninguém. Não era dia de culto, era o dia do ensaio do coro que Elisângela tinha mencionado duas semanas antes e de que nunca mais falara. Mas a filha, Tainá, dissera sem pensar durante o jantar:
“Mãe, não há ensaio hoje?”
E Elisângela tinha respondido que sim, que havia, que iria mais tarde.
Marcelo esperou que ela saísse, aguardou 15 minutos, entrou na sua carrinha de caixa aberta, uma S10 branca de cabina dupla de 2015, e conduziu até à Rua Minas Gerais. O portão lateral da Assembleia da Graça estava entreaberto. A luz do salão interior estava acesa. Havia apenas um carro no parque de estacionamento da frente: o Corolla prateado do Pastor Robson.
Não havia outros carros, nem barulho de coro. Marcelo estacionou a S10 na rua de trás. Desceu devagar. Entrou pelo portão lateral, que nunca estava trancado durante a semana. O que ele viu no corredor que levava à sala de reuniões da liderança foi uma cena que não deixava margem para dúvidas.
Não havia ambiguidade, não havia outra forma de explicar. Elisângela e o Pastor Robson estavam juntos, de uma forma que um homem casado e uma mulher casada nunca deveriam estar juntos numa casa de Deus. Marcelo ficou parado no corredor durante alguns segundos. Eles não o viram. Ele saiu pelo mesmo portão por onde tinha entrado, voltou para a carrinha, sentou-se no lugar do condutor, com as mãos no volante e o motor desligado, e permaneceu ali durante 40 minutos sem se mexer.
O que se passa na mente de um homem durante esses 40 minutos é algo que a psicologia tenta explicar e nunca consegue fazer verdadeiramente. Não é raiva, não. É como um colapso silencioso, como quando uma estrutura cede por dentro sem que a fachada mostre nada. O teto racha, mas a parede continua de pé por mais um tempo, por inércia, por hábito, porque não sabe fazer mais nada.
Marcelo Souza ficou ali por inércia durante semanas. Voltava para casa antes de Elisângela, jantava, via televisão, dormia ou fingia dormir ao lado dela, na mesma cama de casal com a colcha azul, que tinham comprado juntos numa loja de cama e mesa no centro comercial Iguatemi, 8 anos antes. Elisângela chegava uma hora mais tarde, dizia que o ensaio tinha sido produtivo, que estava cansada, tomava um duche e deitava-se.
Marcelo não dizia nada, mas algo dentro dele se tinha quebrado e já não voltaria a fechar. Nos dias que se seguiram, Marcelo trabalhou normalmente: abriu a oficina às 7h30, atendeu clientes, mudou óleo, afinou travões, diagnosticou o problema do motor, disse as palavras necessárias, almoçou na barraca da Dona Graça na esquina, tal como todos os dias: arroz, feijão, bife com cebola e sumo de caju. Por fora, tudo parecia igual.
Por dentro, era outra história. Ele começou a juntar as peças, lembrando-se de cada quinta-feira em que ela chegava tarde a casa, de cada mensagem de texto, de cada vez que o nome do pastor surgia numa conversa à mesa do jantar com aquele tom ligeiramente diferente a que ele não conseguia dar um nome na altura, mas que agora tinha um nome cristalino.
Durante quanto tempo aquilo durou? Meses? O ano todo? Mais? A pergunta que mais doía não era “o quê”, era “quanto”. Breno, o filho mais velho, notou que o pai estava a agir de forma diferente. Tentou puxar conversa numa tarde na oficina enquanto ajudava a mudar um pneu.
“Está tudo bem, pai?”
“Estou cansado”, respondeu Marcelo.
Breno não insistiu. Tainá não notou nada. Tinha 16 anos, e o seu mundo girava em torno do telemóvel e dos amigos da escola. Elisângela continuou a ir à Assembleia da Graça todas as quintas-feiras. E continuou a regressar às 22h00 ou 22h30 com as mesmas explicações de sempre.
E Marcelo continuou a guardar tudo para si, mas isso ainda não era o pior. O pior ainda estava para vir numa tarde de outubro, quando Marcelo, ao remexer numa gaveta do seu quarto à procura de um documento do carro, encontrou algo que Elisângela se tinha esquecido de esconder adequadamente: uma folha de papel de caderno dobrada, com a sua caligrafia inconfundível, arredondada, inclinada para a direita, com aquele jeito especial que ela tinha desde a escola.
Era uma carta sem destinatário, sem data, mas perfeitamente clara em tudo o que dizia. Marcelo leu-a uma vez, leu-a duas vezes, depois dobrou o papel de volta como estava, guardou-o na gaveta, fechou-a, saiu do quarto, foi para a cozinha, bebeu um copo de água no lava-loiças, a olhar pela janela para o quintal, onde a mangueira ainda tinha mangas verdes, onde a cadeira de plástico branco, onde costumava tomar café aos fins de semana, estava virada contra a parede.
Ficou ali durante cerca de 5 minutos, depois foi para o anexo das ferramentas nas traseiras da casa, e lá, por entre chaves de fendas, chaves de porcas e o cheiro a graxa que ele conhecia desde menino, Marcelo Souza começou a tomar uma decisão. Se chegou até aqui, já sabe que esta história não vai ter um final fácil. Histórias como esta continuam a acontecer silenciosamente em bairros como o seu, perto de pessoas como você.
Se quer que continuemos a contá-las na íntegra, subscreva o canal. É grátis, é rápido e faz a diferença. A carta que Marcelo encontrou não era uma carta de amor no sentido poético da palavra; era pior do que isso. Era uma carta de planeamento, sobre o futuro. Elisângela escrevia sobre deixar Salvador, sobre recomeçar, sobre os filhos que compreenderiam com o tempo, sobre Robson, que prometera resolver a situação com Débora, sobre uma cidade que ela não nomeava, mas que dava pistas suficientes. Brasília, provavelmente, onde o pastor tinha um cunhado com contactos em igrejas.
Não se tratava de um momento de fraqueza, era um projeto. E Marcelo estava fora desse projeto, completamente fora. Como se os 17 anos de casamento tivessem sido apenas o pano de fundo de uma vida que ela estava prestes a deixar para trás, com a mesma facilidade de quem muda de autocarro.
Nos dias que se seguiram, Marcelo mudou o seu padrão: parou de poupar, começou a planear, não falou com ninguém, não procurou um advogado, não ligou ao cunhado nem ao irmão que vivia em Camaçari. Não procurou aconselhamento na igreja — a igreja a que quase nunca ia, que agora tinha um significado completamente diferente; ficou sozinho com aquilo tudo.
E é exatamente aí que as coisas se tornam perigosas: quando um homem para de falar e começa a calcular. A oficina continuou a funcionar. Os clientes continuaram a chegar. Breno continuou a aparecer aos fins de semana. Elisângela continuou a ir à igreja às quintas-feiras. De fora, tudo parecia igual. Por dentro, havia uma contagem decrescente que só Marcelo conseguia ouvir.
A quinta-feira de outubro em que tudo aconteceu começou como qualquer outra. Céu limpo, 31º. Aquele vento quente que vem do norte em Salvador resseca os lábios e deixa um sabor salgado na boca. Marcelo abriu a oficina às 7h30, bebeu café com pão na barraca da esquina, trabalhou até ao meio-dia e dispensou o seu ajudante Gilson, de 23 anos, que trabalhava com ele há dois anos, mais cedo do que o habitual.
“Vou fechar mais cedo porque tenho um compromisso”, disse ele.
Gilson não perguntou nada, recebeu o pagamento do dia e saiu. Marcelo fechou a oficina às 16h e foi para casa. Elisângela estava no quarto a arranjar-se.
“Vou à reunião do grupo familiar”, disse ela. “Volto às 22h.”
Disse estas coisas com a voz de sempre, da maneira de sempre, como se nada tivesse mudado.
“Tudo bem,” disse Marcelo.
E foi para a cozinha. Esperou que ela saísse, esperou pelo som do portão e esperou mais 10 minutos. Depois foi para a sala das ferramentas. O que Marcelo encontrou no anexo das ferramentas foi uma arma que possuía desde 2011, um revólver calibre .38 registado, que ele mantinha guardado devido ao aumento dos assaltos no bairro naquela época. Nunca o tinha usado antes.
Estava guardado numa caixa de metal trancada, no alto da prateleira, atrás das latas de tinta. Ele abriu a caixa, verificou os cartuchos, colocou a arma no cós das calças, cobriu-a com a camisa, pegou nas chaves da carrinha S10, saiu, conduziu lentamente até à Rua Minas Gerais e estacionou no mesmo lugar da última vez, na rua de trás, fora da vista da estrada principal. Eram 17h40.
O portão lateral estava entreaberto, o Corolla prateado do pastor estava no parque de estacionamento. O que aconteceu no interior da igreja Assembleia da Graça naquela quinta-feira de outubro foi reconstituído pela polícia com base em evidências físicas, depoimentos de testemunhas que ouviram os tiros na rua e a própria declaração de Marcelo Souza na delegacia, horas depois.
Marcelo entrou pelo portão lateral, atravessou o corredor e chegou à sala de reuniões da liderança. Elisângela e o Pastor Robson estavam lá. Quando Marcelo abriu a porta, ambos se viraram. Houve uma fração de segundo de silêncio absoluto. Então, Marcelo puxou o seu revólver. Robson tentou recuar, levantou as mãos e disse algo.
Os peritos nunca conseguiram determinar com certeza o que foi, mas uma testemunha na rua, que ouviu tudo através de uma janela aberta, disse ter ouvido uma voz masculina dizer:
“Pelo amor de Deus!”
Antes de o primeiro tiro ser disparado, a primeira bala atingiu Robson no peito. O pastor caiu contra a parede, deslizou para o chão e não se conseguiu levantar.
Elisângela gritou o nome de Marcelo e tentou mexer-se. Ele apontou-lhe a arma. O segundo e o terceiro tiros foram direcionados a Elisângela. Ela caiu por entre as cadeiras de plástico branco que estavam empilhadas no canto da sala, as mesmas cadeiras que eram usadas nos cultos de domingo e que ela mesma ajudava a arrumar fila por fila durante toda a semana.
Robson ainda estava consciente e tentou falar. Marcelo aproximou-se, disparou novamente e depois ficou no meio da sala durante alguns segundos, com a arma ainda na mão. O cheiro a pólvora misturava-se com o cheiro da cera do chão, e havia aquele silêncio que se segue a um barulho muito forte, um silêncio que parece mais pesado do que qualquer silêncio normal.
Então, saiu, voltou para a sua S10, sentou-se no lugar do condutor e ligou para o 190 ele próprio. O operador do centro de atendimento de emergência atendeu a chamada às 18h08. A voz do homem estava calma, quase monótona. Deu a morada. Disse que tinha baleado duas pessoas dentro da igreja. Disse que estava à espera no carro, na rua de trás. Disse que a arma estava no banco do passageiro.
O operador pediu-lhe que ficasse na linha. Ele ficou. O primeiro carro da polícia chegou à rua Minas Gerais às 18h17, 9 minutos após a chamada. A polícia encontrou Marcelo Souza sentado na carrinha branca S10, com a porta aberta, os dois pés no asfalto e as mãos sobre as coxas. O revólver estava no banco do passageiro, exatamente onde ele dissera que estaria.
Não ofereceu resistência, não tentou fugir, não disse nada além de:
“Eu avisei que estava aqui.”
No interior da igreja Assembleia da Graça, a equipa do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) chegou minutos depois. O Pastor Robson Ferreira Matos foi encontrado no chão da sala de reuniões com três ferimentos de bala. Ainda tinha pulso quando os paramédicos chegaram, mas perdeu a consciência durante o transporte.
Foi declarado morto às 19h42 no Hospital Roberto Santos, no Cabula. Elisângela Souza tinha dois ferimentos. Um no abdómen, outro no ombro esquerdo. Chegou ao hospital consciente, mas em estado grave, e foi submetida a uma cirurgia de urgência nessa mesma noite. Ela sobreviveu. O rebuliço na Rua Minas Gerais começou ainda antes da chegada dos carros da polícia.
Vizinhos no passeio, luzes acesas nas janelas. Um homem de camisola de alças que vive na casa em frente à igreja disse que ouviu três ou quatro barulhos seguidos e, inicialmente, pensou tratar-se de fogo-de-artifício. Depois viu a agitação e percebeu que não era. Dona Fátima, de 62 anos, que vende acarajé numa barraca a 50 metros da igreja todas as quintas-feiras, disse ter visto um homem a sair lentamente pelo portão lateral, sem correr, sem olhar para lado nenhum.
Ninguém sabia ainda o que tinha acontecido lá dentro. A informação espalhou-se pelo bairro do Lobato ao longo da noite, como água a encontrar frestas: lenta e inevitavelmente, a chegar a cada esquina. Breno soube através das redes sociais antes de receber a chamada da família. Estava em casa de um amigo quando viu o nome da rua da igreja aparecer nas histórias de pessoas do bairro.
Ligou ao pai. O telemóvel estava com a polícia. Tainá soube quando a sua tia, a irmã de Elisângela, chegou a casa às 20h, com os olhos vermelhos e a voz rouca. A noite de quinta-feira no Lobato não se pareceu com nenhuma outra noite de quinta-feira que aquele bairro já tivesse vivido. Na divisão de homicídios de Salvador, Marcelo Souza foi formalmente acusado dos crimes de tentativa de homicídio no caso de Elisângela e de homicídio consumado no caso de Robson. Foi indiciado ao abrigo dos artigos do Código Penal Brasileiro relativos a homicídio doloso, com a agravante de motivo fútil e emboscada. A inspetora que conduziu o interrogatório inicial foi a Dra. Carla Menezes, de 38 anos, da unidade especializada em homicídios. A sala de interrogatório era pequena, com paredes bege, uma mesa de fórmica, duas cadeiras e uma câmara no canto superior direito.
O ar condicionado fazia um ruído baixo e constante. Marcelo entrou algemado, sentou-se e cruzou as mãos sobre a mesa. A detetive Carla Menezes olhou para ele por alguns segundos antes de começar.
“Quer que um advogado esteja presente?”
“Não é necessário agora”, disse Marcelo. “Vou falar.”
E falou, recontando tudo por ordem. A primeira suspeita em julho, os meses de observação silenciosa, a visita sem aviso prévio à igreja em setembro, o que viu no corredor, a carta que encontrou na gaveta, a decisão que cresceu lentamente até consumir tudo. Falou sem drama, sem lágrimas, com aquela voz plana de um homem que passou pelo pior e agora simplesmente o descreve.
A inspetora tomou notas e fez perguntas específicas.
“Tentou falar com a sua esposa antes?”
“Não.”
“Porquê?”
(Pausa.) “Porque eu já sabia o que ela ia dizer.”
“E o pastor? Houve algum contacto antes desta noite?”
“Nenhum.”
“Planeou o que ia fazer?”
(Outra pausa, mais longa.) “Fui lá para ver. O que aconteceu, aconteceu.”
A delegada registou a resposta. Sem comentários. No final do interrogatório, Marcelo foi enviado para o CDP, o Centro de Detenção Provisória de Salvador, onde permaneceria durante a investigação policial. Nos dias seguintes, a Assembleia da Graça permaneceu fechada. Uma fita da polícia ainda estava esticada ao longo do portão lateral na manhã de sexta-feira, quando os primeiros membros da congregação chegaram, inseguros sobre o que fazer.
Ficaram no passeio, conversaram em voz baixa; alguns choraram. A morte do Pastor Robson Ferreira Matos abalou a comunidade de uma forma que vai além do próprio crime. Robson tinha sido o rosto daquela igreja durante quase uma década. Foi o homem que batizou os filhos de metade das famílias que lá estavam, que orou à cabeceira dos doentes, que abriu as portas da Assembleia da Graça de madrugada para qualquer pessoa que chegasse desesperada, e que também traiu a confiança de toda uma congregação. Este é o tipo de verdade que uma comunidade leva tempo a processar, porque exige duas coisas ao mesmo tempo: chorar a morte e reconhecer o fracasso. E estas duas coisas não se encaixam facilmente. Débora, a esposa do pastor, foi notificada pela polícia na noite do crime.
“Eu estava em casa com os meus três filhos quando o carro parou em frente de casa.”
A vizinha que estava lá disse que Débora ouviu tudo em silêncio, sentada na beira da cama, sem derramar uma lágrima naquele momento.
“Ela ficou a olhar fixamente para a parede,” disse a vizinha. “Não disse nada durante muito tempo.”
Histórias como esta continuam a acontecer em silêncio. Em bairros como o Lobato, em igrejas como a Assembleia da Graça, em casamentos como o de Marcelo e Elisângela. Se quer que continuemos a contar estas histórias de forma completa, do princípio ao fim, sem cortar o que importa, subscreva o canal. É aqui que elas são contadas. Elisângela Souza esteve internada no Hospital Roberto Santos durante 12 dias.
A cirurgia de urgência realizada na noite do crime correu bem. O ferimento no abdómen atingiu o intestino, mas não os órgãos vitais. A lesão no ombro foi grave, mas tratável. Esteve nos Cuidados Intensivos nos primeiros quatro dias e depois foi transferida para a enfermaria. Breno foi ao hospital na manhã a seguir ao crime.
Ficou na receção durante horas, sem conseguir entrar. Quando finalmente conseguiu a visita, entrou no quarto, olhou para a mãe deitada ali com tubos e ligaduras, e não conseguiu falar. Elisângela foi a primeira a quebrar o silêncio.
“Perdoa-me, filho.”
Breno saiu da sala sem responder. Nunca mais voltou enquanto ela esteve internada. Tainá foi duas vezes. Ficou do lado de fora do quarto em ambas as vezes. A irmã de Elisângela, Rosângela, foi quem ficou. Ficava lá todos os dias. Levava comida, trazia roupas, sentava-se nas duras cadeiras do hospital sem se queixar. Mas também não falava muito. Não havia muito para dizer.
Quando Elisângela teve alta do hospital, não voltou para a casa no Lobato; regressou para a casa da mãe em Periperi, levada pela irmã. Ficou por lá. A velha casa ficou para Breno e Tainá. Os dois tentavam manter algum tipo de rotina. Breno abriu a oficina do pai.
Ainda estava registada em nome de Marcelo, mas alguém precisava de manter as coisas a funcionar. Tinha contas, tinha a renda para pagar. A vida não para só porque ocorreu um crime. O processo criminal contra Marcelo Souza foi instaurado pelo Ministério Público do Estado da Bahia com base na investigação policial concluída pela divisão de homicídios.
Para quem não sabe como funciona: após a polícia concluir a investigação e o delegado indiciar o suspeito, o caso passa para o Ministério Público. São os procuradores quem decide se avançam com a denúncia (que é a acusação formal), se solicitam mais investigações, ou mesmo se arquivam o caso.
No caso de Marcelo, o Ministério Público apresentou queixa por homicídio doloso qualificado por emboscada (Artigo 121, parágrafo 2º, inciso IV do Código Penal) no que diz respeito à morte do Pastor Robson, e homicídio qualificado tentado em relação a Elisângela. A agravante de emboscada foi o ponto mais contestado pela defesa.
O advogado de Marcelo, o Dr. Fábio Landim, criminalista com escritório no centro de Salvador, argumentou que não se tratava de uma emboscada técnica.
“Marcelo não se escondeu simplesmente à espera que as vítimas chegassem. Ele foi ao local onde sabia que eles estariam.”
A agravante correta, segundo a defesa, seria outra. E, ainda assim, argumentaram que havia circunstâncias que deveriam ser consideradas pelo júri. A defesa sinalizou desde cedo que iria a Tribunal do Júri com a tese de “homicídio privilegiado”, que, na lei brasileira, ocorre quando o crime é cometido sob a influência de uma violenta emoção logo a seguir a uma provocação injusta por parte da vítima.
Não isenta da pena, mas pode atenuá-la. O Ministério Público contra-argumentou. Marcelo tinha esperado semanas, tinha planeado, tinha dispensado o empregado mais cedo, pegado na arma e ido à igreja.
“Isso não é uma reação de emoção violenta, é premeditação.”
A “pronúncia” (a decisão do juiz de que o caso irá efetivamente a Tribunal do Júri) foi emitida 8 meses após o crime. Marcelo esteve em prisão preventiva durante todo esse período. O julgamento de Marcelo Souza pelo tribunal do júri ocorreu numa sexta-feira de agosto do ano seguinte, no Fórum Ruy Barbosa, no centro de Salvador. Sete jurados: seis homens, uma mulher. Uma composição que o Ministério Público questionou, mas que foi mantida pelo juiz presidente.
O julgamento durou um dia inteiro, das 8h até quase à meia-noite. Elisângela, que testemunhou pela acusação, entrou na sala de muletas — consequência de uma lesão no ombro que tinha afetado um nervo — e sentou-se na cadeira de testemunhas. Falou com voz firme sobre a sua relação com o pastor, sobre as circunstâncias e sobre a noite do crime.
Os jurados ouviram em silêncio. A procuradora perguntou se Elisângela tinha informado Marcelo da sua intenção de terminar o casamento.
“Não.”
A procuradora perguntou: “Porquê?”
“Porque eu ainda não sabia o que queria fazer”, respondeu Elisângela.
Foi a resposta mais ouvida nos corredores do tribunal durante a pausa para o almoço. O advogado de defesa explorou na sua alegação final a traição como ponto central: o pastor, a quebra de confiança, os 17 anos de casamento destruídos por dentro, e a carta a delinear planos de abandono. Falou aos jurados, a olhar-lhes nos olhos, sem qualquer nota na mão, e falou devagar.
A procuradora rebateu com os factos relativos ao planeamento: a arma recolhida com antecedência, o empregado dispensado, a viagem feita em silêncio. Os jurados retiraram-se às 21h e regressaram às 23h40. O veredito: culpado de homicídio doloso qualificado pela morte do Pastor Robson, e culpado de tentativa de homicídio na pessoa de Elisângela.
A agravante de emboscada foi reconhecida por cinco dos sete jurados. A tese de “privilégio” foi rejeitada. A sentença proferida pelo juiz presidente fixou a pena em 16 anos e 4 meses de prisão em regime fechado. Marcelo ouviu a sentença sentado, com as mãos cruzadas sobre a mesa, com a mesma expressão de sempre.
Não disse nada. Marcelo Souza foi transferido para o complexo penitenciário Lemos Brito, em Salvador, onde cumpre a sua pena em regime fechado. Breno visitou-o uma vez, três meses após a condenação. Sentaram-se lado a lado numa sala de visitas que cheirava a detergente e com o som de grades a bater ao fundo.
Breno levou salgados e refrigerante. Conversaram sobre a oficina, sobre as contas, sobre Tainá, que tinha passado no exame do ENEM. Não falaram sobre o que aconteceu. Não havia maneira. Tainá não foi visitar o pai. Elisângela continua na casa da mãe, em Periperi, mas trabalha num centro de saúde diferente.
Não conseguiu voltar ao Lobato. Ela ainda vai à igreja — uma diferente, mais pequena, noutro bairro. As pessoas lá sabem quem ela é, mas não dizem nada. Mas sabem de uma coisa: a oficina no Lobato continua a funcionar com Breno. O nome na tabuleta ainda diz “Oficina do Marcelo”.
Breno não mudou a tabuleta; não sabe bem porquê. Débora, a viúva do Pastor Robson, vendeu a casinha seis meses após o crime e mudou-se com os três filhos para Feira de Santana, cidade natal do marido, onde a família dele vive. Não deu entrevistas. Não apareceu em nenhum culto da Assembleia da Graça depois daquele mês de setembro. A Assembleia da Graça reabriu três semanas após o crime com um pastor interino de outra congregação.
Os bancos permaneceram a meia capacidade nos primeiros meses. Aos poucos, começou a encher-se de novo. Mas há pessoas que não voltaram, que não conseguem entrar naquela sala de reuniões sem ver o que lá aconteceu. Algumas pessoas nunca mais conseguirão fazê-lo. E o detalhe foi revelado semanas depois, aquele que mencionei no início, que deixou a congregação em silêncio num culto lotado.
Num domingo de novembro, o pastor interino estava a pregar quando uma das líderes do grupo de mulheres pediu a palavra. Tinha 61 anos e frequentava a igreja Assembleia da Graça há 12. Conhecia Elisângela desde o primeiro dia em que ela entrara por aquela porta.
“Eu sabia”, disse ela. Confessou que tinha notado os sinais mais de um ano antes, que tentara falar com Elisângela em privado por três vezes, que Elisângela tinha negado em todas elas, e que ela — por respeito ao pastor, por medo de estar errada, e porque não tinha a certeza absoluta — ficara calada.
“Eu devia ter falado”, disse ao grupo. “Devia ter falado mais cedo.”
Ninguém respondeu a nada. A igreja ficou em silêncio durante algum tempo, um tempo que pareceu mais longo do que realmente foi. Às vezes, o silêncio daqueles que sabem mas não falam é mais poderoso do que o barulho daqueles que agem mal. Às vezes não há diferença entre os dois.
Há uma oficina no Lobato com uma tabuleta que não foi mudada. Há uma mulher em Periperi que vai a uma igreja diferente com a mesma Bíblia antiga. Há duas crianças que dormem na mesma casa onde cresceram, mas agora é uma casa diferente — a mesma disposição, mas residentes diferentes.
Existem três crianças em Feira de Santana que estão a crescer sem um pai e com uma história que ninguém sabe ao certo como lhes será contada quando forem adultas. Há um homem numa penitenciária que acorda todos os dias às 5h30 ao som de grades e que, segundo os que vivem com ele lá dentro, por vezes fica a olhar fixamente para o teto durante longos minutos antes de se levantar.
Ninguém sabe no que ele está a pensar durante esses minutos. Ninguém pergunta. E a sala de reuniões da Assembleia da Graça foi repintada. Paredes brancas, chão de mosaico, cadeiras de plástico rearranjadas em filas. Tudo no seu lugar, tudo limpo. Mas há pessoas que conhecem aquela sala, que sabem o que ali se passou, e que nunca mais olharão para aquelas paredes brancas sem ver outra coisa.
Fendas que não se fecham sozinhas, que nunca se fecham sozinhas. Se esta história chegou até si, se ficou consigo, se o incomodou da forma como a verdade às vezes incomoda as pessoas, deixe aqui um comentário sobre de onde está a assistir e diga-me o que teria feito no lugar de Marcelo, no lugar de Elisângela, no lugar daquela líder que se manteve em silêncio.
Nós lemos tudo e voltaremos com outra história na próxima semana.