
Paola Correa tinha apenas 18 anos quando o destino a jogou num abismo sem volta. Uma garota comum, nascida e criada em Porto Alegre, numa família simples e sem qualquer ligação com o crime. Mas o coração, quando se apaixona pelo proibido, não escuta conselhos. E foi exatamente isso que transformou sua vida num pesadelo que terminou com ela assistindo, amarrada e desesperada, à escavação da própria cova.
Tudo começou com uma frase que viralizou em áudios e que hoje assombra quem ouve: “Para me pegar tem que ter no mínimo três passagens. E se quiser namorar comigo, namorar sério, tem que ter pelo menos um homicídio, um 33 de tráfico…” Paola falava com naturalidade, quase como se aquilo fosse o mínimo exigido num currículo amoroso. Ela queria um homem “de verdade”, daqueles que mandam no morro, que vivem na adrenalina, que não têm medo da polícia nem da morte. E encontrou exatamente o que procurava.
O nome dele era Nathan Cirangelo, uma figura de destaque no tráfico da região do Bom Jesus, em Porto Alegre. Nathan já estava preso desde 2016, cumprindo preventiva por tráfico de drogas. Mesmo assim, ou talvez justamente por isso, Paola se apaixonou. Aos 17 anos ela começou a se aproximar do mundo do crime. A mãe viu os sinais, alertou várias vezes, implorou para que a filha se afastasse daquelas companhias perigosas. Paola ignorou todos os avisos. Quando completou 18 anos, passou a visitar Nathan oficialmente no presídio. Era o começo do fim.
O que parecia um romance intenso rapidamente se transformou numa prisão invisível. Paola abandonou os estudos, saiu de casa, largou o emprego. Passou a viver em imóveis controlados pela organização criminosa. Seu dia a dia era ditado por horários rígidos, regras impostas e vigilância constante. Nathan, mesmo atrás das grades, controlava cada detalhe: com quem ela falava, onde dormia, como se vestia. O relacionamento era marcado por brigas constantes. Em uma das visitas ao presídio, Paola foi agredida fisicamente na frente dos agentes. Precisou de intervenção para não ser espancada ali mesmo.
Nas redes sociais, os desabafos começaram a aparecer. Postagens carregadas de ironia e medo. “Estou fazendo faculdade no crime”, escreveu uma vez. Ela sabia que estava presa numa armadilha, mas o medo, a dependência emocional e a pressão do ambiente a impediam de escapar. Era como se o mundo do crime tivesse sugado sua identidade. A garota que sonhava com uma vida normal agora vivia sob o jugo de um homem que tratava mulheres como propriedade.
No dia 9 de maio de 2018, após mais uma visita tensa ao presídio, Paola tomou a decisão que selaria seu destino: terminou o relacionamento com Nathan. Para qualquer pessoa comum, o fim de um namoro é doloroso, mas superável. No universo do crime organizado, ser largado por uma mulher é humilhação pública, perda de autoridade, sinal de fraqueza. E havia um agravante: boatos de que Paola estaria conversando com alguém de uma facção rival. Rumores que, verdadeiros ou não, eram suficientes para acender o pavio da violência.
Nathan não aceitou. De dentro da cela, ele articulou friamente um plano de execução. O principal interlocutor na rua foi Bruno Cardoso Oliveira, encarregado de organizar tudo. Dividiram tarefas com precisão militar: quem sequestraria a vítima, quem dirigiria o carro, quem cederia o cativeiro, quem filmaria o crime. O dia escolhido foi domingo, 13 de maio de 2018 — Dia das Mães. Uma ironia cruel.
Na madrugada daquele domingo, Paola viveu o inferno. Recebeu ameaças por telefone sem parar. Desesperada, ligou duas vezes para o 190 pedindo socorro. As chamadas, segundo o inquérito, não foram atendidas. Às 4h da manhã, fez sua última publicação nas redes, expondo o terror que estava vivendo. Às 8h, obedecendo uma ordem de Nathan, ela foi até o ponto combinado. Dois homens da quadrilha chegaram. Ela entrou no carro.
Levaram-na para uma casa na Vila Tamanca, no bairro Lomba do Pinheiro. Lá foi amarrada, dominada e obrigada a falar com Nathan por telefone. Muitos dizem que aquele telefonema foi um verdadeiro “tribunal do crime”. Paola negou as acusações, não se humilhou. Isso só selou ainda mais seu destino. Em seguida, foi transferida para o matagal próximo, onde a cova já estava sendo aberta.
O que aconteceu ali é de arrepiar. Durante quase duas horas, Paola, imobilizada, foi forçada a assistir à escavação da própria sepultura. Imaginem o terror: o som da pá cavando a terra, o buraco ficando cada vez mais fundo, a certeza de que aquele seria seu túmulo. Ela implorava, chorava, mas ninguém se comoveu. Por volta das 17h30, o grupo decidiu encerrar. A câmera foi ligada. Vinícius Mateus da Silva foi o executor dos disparos. Thaís Cristina dos Santos filmou os 11 segundos de horror. O vídeo foi enviado imediatamente para Nathan como prova de que a ordem havia sido cumprida. Em seguida, o arquivo começou a circular nos grupos de mensagem da facção.
A família só percebeu que algo terrível tinha acontecido quando Paola não apareceu no almoço de Dia das Mães e parou de responder mensagens. O desespero tomou conta. Quatro dias depois, o corpo foi encontrado no mesmo matagal, identificado pelas roupas que usava no vídeo. A Polícia Civil agiu rápido. Em poucos dias, identificou os envolvidos. O processo seguiu até o Tribunal do Júri.
Em março de 2023, quase cinco anos após o crime, os seis réus adultos foram julgados. As condenações foram pesadas:
- Nathan Cirangelo, mandante: 36 anos de reclusão
- Bruno Cardoso Oliveira, articulador: 31 anos
- Vinícius Mateus da Silva, executor: 28 anos
- Outros envolvidos receberam penas que variaram de 8 a 16 anos.
Um adolescente também foi julgado na Vara da Infância e Juventude.
Mas as penas não trazem Paola de volta. Não apagam o trauma da família. Não devolvem à mãe a filha que foi embora um dia e nunca mais voltou. A irmã de Paola fez um desabafo forte após o julgamento: o envolvimento com o mundo do crime tem um preço que poucas pessoas conseguem pagar. A sensação de poder, de adrenalina, de “ser alguém” ao lado de um bandido é uma ilusão mortal. Quando a situação foge do controle — e ela sempre foge —, não há volta.
Porto Alegre, cidade que já figurou entre as mais violentas do mundo, viu esse caso como mais um capítulo sangrento de uma guerra entre facções que devora jovens todos os dias. O Presídio Central, conhecido como um dos piores do Brasil, continua sendo um centro de comando do crime organizado. De dentro das celas, ordens de morte são dadas com a mesma frieza de quem pede uma pizza.
Paola não era criminosa. Era uma garota de 18 anos que se deixou encantar pelo perigo. Achou que conseguiria controlar o fogo, mas o fogo a consumiu. Seu caso serve de alerta para milhares de jovens que romantizam o universo do crime nas redes sociais, nos funks, nos stories. “Bandido bom é bandido morto” vira “bandido bom é meu namorado” até o dia em que o bandido decide que você é o problema.
Hoje, o áudio de Paola ainda circula. “Tem que andar todo dia de bil, tem que falar só na vinheta…” As palavras soam como um testamento trágico. Ela queria intensidade, ciúme doentio, violência como prova de amor. Recebeu tudo isso — e pagou com a vida.
A história de Paola Correa é um espelho sombrio da realidade de muitas periferias brasileiras. Meninas que sonham com status, dinheiro fácil e emoção forte acabam virando estatística. Famílias destruídas. Mães que nunca mais comemoram o Dia das Mães da mesma forma.
Que essa tragédia sirva pelo menos para abrir os olhos de quem ainda acha que “amor de bandido” tem final feliz. Não tem. O final é uma cova no matagal, um vídeo de 11 segundos e um silêncio que nunca mais vai embora.