
Bandidos invadiram um restaurante antigo e frequentado por veteranos, sem saber que ele era um dos Hells Angels mais perigosos.
O sabor do sangue lembra moedas antigas e asfalto sujo. A maioria das pessoas cospe-o de imediato, mas o senhor Arnaldo apenas engole. É uma colheita familiar. Encostado à vitrine dos pastéis, agora estilhaçada, respira a colónia barata de rapazes que acabaram de cometer um erro fatal.
A gordura nunca sai verdadeiramente com a lavagem. Apenas se acomoda mais fundo nos vincos das mãos. Arnaldo olhou para os seus dedos marcados por cicatrizes, agarrando a espátula. A sua tasca, “O Arnaldo”, era uma ilha esquecida numa estrada secundária do Alentejo. Não era um lugar que as pessoas procurassem, mas sim onde iam parar por acaso.
O sino da porta bateu com um som pesado. Arnaldo não se virou imediatamente. A sua zona lombar irradiava uma dor surda. Chovia lá fora, arrastando o cheiro a pó molhado e gasóleo para dentro da sala.
Três pares de botas bateram no linóleo. Ténis caros, que rangiam de forma irritante. Arnaldo virou as febras na chapa e lançou um olhar por cima do ombro. Pareciam jovens, nos seus vinte e poucos anos, com a arrogância de quem viu demasiados filmes, mas nunca levou um soco na vida. O líder, Carlitos, passou a mão pelas marcas de queimadura no balcão.
“Cheira a um incêndio prestes a acontecer, velhote”, disse Carlitos. O som da sua mão a bater no balcão foi seco, concebido para assustar.
Arnaldo limpou as mãos ao avental. O seu rosto era um mapa de quilómetros difíceis e nariz partido. Os seus olhos não transmitiam medo, apenas exaustão.
“És surdo?” perguntou o rapaz ao lado, cheirando a erva barata.
“Ouço perfeitamente”, respondeu Arnaldo. A sua voz era áspera. “Querem um café?”
Eles deslizaram para as mesas, espalhando-se de forma folgada pelos assentos de napa vermelha. Carlitos inclinou-se para a frente.
“Sabes, tens aqui um cantinho engraçado. Mas as coisas acontecem nestes fins de mundo. Janelas partem-se, coisas ardem… Nós somos vigilantes do bairro. Garantimos a segurança. Por uma pequena contribuição, claro.”
Arnaldo parou de limpar. Já tinha ouvido aquele mesmo discurso décadas atrás. Sentiu uma vibração escura no peito. Tinha passado quinze anos a enterrar o seu passado debaixo de farinha e gordura. Desenterrá-lo significava sangue.
“Não preciso de seguros”, respondeu o velho cozinheiro, virando-lhes as costas.
A indiferença era um insulto. Carlitos levantou-se, o ranger dos ténis a soar violento, e agarrou no pesado açucareiro de vidro. Virou-o ao contrário, derramando o açúcar no chão sujo.
“Se calhar não ouviste bem. Somos os teus novos sócios.”
Bruno, um camionista que estava ao canto, levantou-se para defender o velho, mas foi violentamente empurrado pelos rapazes e caiu com estrondo. A única outra cliente fugiu assustada para a chuva.
O tempo para pensar tinha terminado. Arnaldo não saltou o balcão. Estava velho e os joelhos já não ajudavam. Simplesmente pegou na pesada chávena de cerâmica a ferver e balançou-a num arco curto. A chávena atingiu o nariz de Carlitos com um estalido de cartilagem a ceder. O café negro explodiu sobre o rosto do rapaz, que gritou de pura agonia.
Mas a hesitação dos outros não durou. O rapaz da erva atirou-se por cima do balcão. Arnaldo era demasiado lento. Um punho atingiu-o no rosto. Antes que recuperasse, uma bota atingiu as suas costelas. Ouviu o estalo do osso a ceder. Caiu pesadamente contra o balcão de inox.
Eles não pararam. Enxamearam-no num mar de punhos e botas. Acima de si, ouviu o som da destruição. A vitrine de pastéis desfez-se em mil fragmentos. A caixa registadora foi arrancada. A máquina de café foi rebentada com um pé de cabra, espalhando água a ferver pelo ar.
Arnaldo jazia no chão, focado apenas em respirar. Não estava zangado, apenas esmagadoramente cansado. Finalmente, os rapazes fugiram, deixando-o no silêncio da tasca arruinada.
Não se mexeu durante muito tempo. O cheiro reconfortante do café fora substituído pelo cheiro a fios queimados e ao seu próprio sangue. Rolou e ficou de gatas. A dor nas costelas cortava-lhe a respiração. Ergueu-se com extrema dificuldade. A sua tasca era agora uma carcaça.
Foi coxeando até às traseiras. A porta do seu pequeno escritório estava trancada. Entrou na divisão que cheirava a papelada velha e fumo de cachimbo. No canto, havia um pesado baú com ferragens grossas. Deixou-se cair na cadeira. Tinha desejado que a violência na sua vida estivesse terminada. Tinha trocado o rugido das motos pelo chiar da grelha. Mas o mundo, ao que parecia, não o deixava em paz.
Ajoelhou-se ao lado do baú. Pegou num alicate de corte pesado e cortou o cadeado enferrujado. Abriu a tampa. O cheiro a óleo de motor e cabedal antigo atingiu-o. Puxou o colete de ganga pesada. Nas costas, a grande caveira alada da morte e as letras carmesim do seu antigo motoclube. O emblema reservado a quem tinha feito o trabalho mais negro.
Não o vestiu logo. Sentiu o peso do passado nas pernas. Ele era o senhor Arnaldo, o cozinheiro pacato. Mas era também o Arnaldo, o homem que no passado esvaziava bares inteiros com um taco de bilhar, cujo nome assustava os presidentes de clubes rivais.
Puxou o telefone de disco e marcou um número gravado na memória. Tocou três vezes.
“Estou”, atendeu uma voz rouca e sonolenta.
“Sou o Arnaldo”, disse ele, a voz firme e fria. “Preciso que os rapazes venham cá. Alguém acabou de me acordar.”
As vibrações chegaram muito antes do som. Arnaldo estava sentado num caixote, com o tronco envolto em fita-cola para amparar as costelas partidas. O zumbido de pesados motores em V rasgou a noite. Os faróis varreram a tasca destruída. Cinco homens enormes, vestidos de cabedal negro molhado, entraram pela porta.
À frente estava Dinis. Tinha envelhecido com a mesma dureza, a barba branca presa com pequenos elásticos.
“Este lugar parece um lixo, Arnaldo”, constatou Dinis.
“Estou em remodelações”, grasnou Arnaldo, empurrando-se para cima com um gemido contido.
Dinis entregou-lhe um frasco de aguardente forte. Arnaldo deu um gole que lhe ardeu nas entranhas, aquecendo-o por dentro.
“Três miúdos”, explicou Arnaldo. “O líder bateu primeiro, parti-lhe o nariz. Eles destruíram tudo e fugiram para a velha mina abandonada. Compram erva lá.”
Dinis anuiu, o maxilar endurecido. “Pega no teu material. Vamos na carrinha.”
Arnaldo pegou no pesado colete de cabedal. Ao vesti-lo sobre os ombros, a atmosfera mudou drasticamente. A postura casual dos membros mais jovens do clube deu lugar a um respeito solene. A caveira alada impunha terror e obediência.
Saíram para a noite húmida. Arnaldo entrou na carrinha preta conduzida por Tomás. Dinis e os outros montaram as motos, rasgando o silêncio com um estrondo ensurdecedor. A caravana mecânica seguiu para a velha mina, um esqueleto de chapa onde os miúdos se escondiam nas caravanas apodrecidas.
Apagaram os faróis a meio caminho. O ar ali cheirava a erva e químicos industriais. Arnaldo saiu da carrinha, a lama a sugar-lhe as botas. Caminhou diretamente para a caravana com a luz acesa, esmagando latas de cerveja pelo caminho.
Pontapeou a frágil porta de alumínio, arrancando-a da moldura. A música no interior parou de imediato. Carlitos estava sentado num sofá esfarrapado, a segurar um trapo ensanguentado no rosto arruinado. Os seus dois amigos congelaram na pequena cozinha.
Arnaldo deu um passo em direção à luz. O couro do seu colete rangeu. O miúdo da cozinha olhou para o rosto magoado de Arnaldo, depois para o emblema, para a caveira alada e as letras carmesim. A cor fugiu-lhe do rosto. A garrafa de cerveja escorregou-lhe dos dedos e partiu-se no chão. “Ai, meu Deus”, sussurrou, encolhendo-se apavorado contra a parede.
Carlitos, cego pela dor e pela arrogância juvenil, tentou erguer-se. “Velhote doido! Seguiste-nos? Eu mato-te…”
A frase morreu-lhe na garganta. Dinis saiu das sombras atrás de Arnaldo, segurando um enorme revólver de cano grosso. Tomás bloqueou a saída. Pelos fundos, outros dois membros pontapearam a porta traseira e imobilizaram os outros rapazes.
A constatação atingiu Carlitos como um murro no estômago. Os olhos saltaram das armas para os rostos implacáveis daqueles homens. Os joelhos cederam e ele caiu no sofá, desatando a chorar.
“Tu partiste a minha vitrine dos pastéis”, acusou Arnaldo, num sussurro cortante. Avançou lentamente. Carlitos tremia violentamente, implorando pela vida.
“Nós não sabíamos quem o senhor era. Leve o dinheiro!” apontou para as notas amarrotadas em cima da mesa.
“Eu não quero saber do dinheiro”, disse Arnaldo, sentindo apenas um esmagador vazio. Agarrava o rapaz pela camisa, puxando-o para cima. “Falas em proteger o bairro. És um parasita.”
Arnaldo não lhe deu um soco. As suas costelas não aguentariam, e bater num miúdo a chorar não tinha honra. Em vez disso, agarrou a mão direita de Carlitos, a mesma que entornara o açúcar. Dobrou o pulso do rapaz para trás contra a mesa e baixou a sua pesada bota sobre a mão aprisionada.
O som foi terrível. Ossos pequenos a partirem-se como gravetos secos. O grito de Carlitos quebrou-se num guincho agoniado enquanto caía em posição fetal, embalando a mão desfeita.
“Nunca mais entres na minha tasca”, rosnou Arnaldo.
Dinis avisou os rapazes para saírem do concelho naquela mesma noite, sob pena de serem enterrados vivos na mina. Eles acenaram freneticamente, em pânico. Arnaldo virou as costas à cena patética e saiu para o frio cortante. Encostou-se à carrinha, fechando os olhos, deixando a dor nas costelas ancorá-lo de novo à realidade.
Dinis aproximou-se, acendendo um cigarro na escuridão. “Fizeste o que tinhas a fazer. Se deixas o lobo morder, a alcateia inteira vem no dia seguinte.”
“Eu sei”, respondeu Arnaldo, a voz ríspida. Olhou para as próprias mãos trémulas. “Mas isso não significa que eu goste deste sabor. Tenho uma tasca para limpar.”
Uma hora mais tarde, Arnaldo estava sozinho no centro da sua tasca arruinada. O clube partira, levando a tempestade com eles. Caminhou para o escritório e guardou o colete de cabedal no baú de ferro. Cheirava a chuva e lama agora. Fechou a pesada tampa, mas deixou o cadeado partido em cima. O fantasma estava à solta, já não podia ser trancado.
Voltou à cozinha. Com um latejar constante nas costelas, pegou numa vassoura e começou a varrer os vidros. O som afiado do vidro a raspar no linóleo ecoou pela tasca sombria.
À medida que amontoava os destroços, sentindo o aroma persistente a café e gordura de bacon, encontrou uma pequena e patética réstia de paz. Era o Arnaldo, o cozinheiro, novamente. Mas ele sabia — e a estrada escura lá fora também sabia — que o velho cozinheiro pacato era apenas um disfarce muito silencioso.