
Em 14 de agosto de 2009, às 15:22 da tarde, o piloto Renato Tavares de Souza fez contato por rádio com a base do Corpo de Bombeiros em Campos do Jordão e confirmou que tinha visual dos três alpinistas.
Estavam numa saliência rochosa no lado leste do pico dos marins, há aproximadamente 2100 m de altitude e um deles parecia estar ferido na perna.
Renato informou que ia iniciar a aproximação pelo vale e pediu-a que mantivessem o canal aberto. A base confirmou, disse copiado e aguardou.
Foram as últimas palavras registradas daquele helicóptero. Ninguém ouviu mais nada. Não houve chamada de emergência.
Não houve sinal de transponder, não houve explosão visível, coluna de fumaça ou destroços avistados por qualquer morador das comunidades rurais ao redor.
O helicóptero simplesmente parou de existir no radar e no rádio ao mesmo tempo, né? como se tivesse sido apagado do céu. Os três alpinistas que esperavam resgate eram Fábio Mendonça Leitão, de 31 anos, Cláudia Regina de Brito, de 28, e o irmão dela, Marcos Vinícius de Brito, de 25.
Tinham saído de cruzeiro dois dias antes para uma travessia de três jornadas entre o pico dos marins e a pedra da mina. Um roteiro exigente, mas conhecido entre montanhistas experientes da região. Fábio era o guia. tinha feito aquele trajeto pelo menos nove vezes.
Cláudia e Marcos eram praticantes regulares, bem equipados, com experiência suficiente para não entrar em pânico diante de um imprevisto. O imprevisto veio no segundo dia, quando Marcos escorregou numa encosta de pedra solta e fraturou a tíbia esquerda. Não conseguia andar. Fábio acionou o resgate por telefone satelital às 11:40 da manhã do dia 14 e que a ligação durou 2 minutos e 17 segundos. Ele informou as coordenadas, descreveu a lesão e disse que tinham água e comida para mais um dia. Pediu que mandassem um helicóptero, porque a descida por terra era inviável com o ferido. O helicóptero decolou de Campos do Jordão às 14:55, 45 minutos de voo, uma tripulação de três pessoas, o piloto Renato, o copiloto e socorrista tenente Gilmar Aparecido Ramos e o médico de resgate Douglas Figueiredo Reis. Seis pessoas no total que deveriam estar em casa naquela noite. Nenhuma delas foi encontrada. A Serra da Mantiqueira se estende por três estados: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. É uma das formações montanhosas mais antigas do Brasil, com vales profundos cobertos por mata atlântica densa, de trechos de campo de altitude, onde o vento corta o rosto, e gargantas de pedra que engola em qualquer som.
Em certas áreas, a vegetação é tão fechada que um objeto do tamanho de um carro pode ficar invisível a menos de 20 m de distância.
O pico dos marins com seus 2421 m fica no município de Piquete, no interior de São Paulo. É uma das montanhas mais procuradas por trilheiros do Sudeste, mas o lado leste, justamente onde os três alpinistas estavam, é menos frequentado, mais íngreme e quase sem trilha marcada nos trechos baixos.
Quando a neblina desce e na mantiqueira ela desce sem aviso, a visibilidade cai para menos de 10 m em questão de minutos. Não foi um acidente de montanha com explicação técnica, não foi uma queda de helicóptero com destroços identificáveis. Então, se não foi um caso que a polícia resolveu em semanas, nem em meses. Foi a história de seis pessoas que desapareceram num raio de poucos quilômetros quadrados, numa região que deveria ser conhecida o suficiente para não guardar esse tipo de segredo e que 15 anos depois continua guardando.
Nada na vida dessas seis pessoas fazia pensar que terminariam como um número de protocolo numa delegacia do interior de São Paulo. Renato era piloto há 12 anos.
Fábio era guia certificado.
Cláudia tinha acabado de passar num concurso público em Guaratinguetá.
Marcos ia se casar em novembro. Douglas tinha uma filha de 2 anos. Gilmar estava a 8 meses da aposentadoria. Eram pessoas com planos. com gente esperando em casa, com mesa posta para o jantar. Se esse tipo de história faz você repensar o que significa confiar que alguém vai voltar, considere se inscrever no canal e deixar a sua opinião nos comentários. A partir daqui, a história avança devagar.
Cada detalhe importa e precisa ser contado na ordem em que aconteceu. Por quanto tempo uma família aguenta esperar quando o Estado diz que não há mais onde procurar? O que acontece com um resgate que precisa ser resgatado e ninguém sabe de onde começar?
Em que ponto a esperança deixa de ser força e passa a ser peso?
Estamos na Serra da Mantiqueira, em agosto de 2009.
O inverno seco deixou o mato crestado nos campos de altitude, mas nos vales a mata continuava fechada, verde escura, impenetrável.
O corpo de bombeiros de Campos do Jordão operava com três helicópteros. Naquela tarde, dois estavam em manutenção. O terceiro era o que Renato pilotava. E Fábio Mendonça Leitão deixou o carro estacionado no pátio de terra da Pousada São Miguel, na entrada de Piquete, às 5:30 da manhã do dia 13 de agosto. O pátio era pequeno, de chão batido, com uma mangueira enrolada num gancho de ferro e um banco de madeira onde os hóspedes costumavam sentar. para amarrar as botas antes de sair. O dono da pousada, seu Antônio Caetano, homem de uns 60 e poucos anos, magro, com as mãos marcadas pelo trabalho na roça, viu os três saírem com mochilas, cargueiras e bastões de caminhada. Ofereceu café numa garrafa térmica que Cláudia aceitou com um sorriso e guardou no bolso lateral da mochila. Fábio assinou o caderno de hóspedes com a mesma letra. miúda de sempre e anotou como fazia toda vez a data prevista de retorno. 15 de agosto, fim da tarde. Seu Antônio viu os três subirem à estrada de terra que levava ao ponto de ataque da trilha e voltou para dentro. Tinha café para coar e toalhas para trocar. Não pensou mais naquilo até dois dias depois, quando a polícia bateu na porta. Fábio conhecia aquele caminho como conhecia a rua de casa. tinha começado a fazer trilha aos 19 anos, quando um colega de faculdade o convidou para subir o pico dos marins num feriado prolongado. A experiência mudou alguma coisa dentro dele. Não era só o esforço físico, nem a paisagem, era o silêncio.
O tipo de silêncio que só existe acima de 2.000 m, quando o vento para e o mundo inteiro parece segurar a respiração. Depois daquela primeira vez, Fábio voltou mais oito vezes. Fez curso de guia de montanha em Petrópolis.
Comprou o equipamento adequado, estudou meteorologia básica, aprendeu a ler carta topográfica e a usar GPS de mão numa época em que a maioria dos trilheiros ainda se orientava por marcos de pedra e intuição. Era metódico, era cuidadoso, era o tipo de pessoa que conferia as costuras da barraca antes de cada viagem e que carregava kit de primeiros socorros completo com tala inflável, analgésico, injetável e cobertor térmico. Ninguém que o conhecesse diria que Fábio era imprudente. Ninguém que soubesse o que ele sabia sobre aquela serra acharia que algo podia dar errado numa travessia de rotina. Cláudia e Marcos tinham começado a acompanhar Fábio nas trilhas dois anos antes, quando Cláudia e ele começaram a namorar. Marcos era mais novo, mais expansivo, o tipo de rapaz que fazia amizade com qualquer pessoa no caminho e que parava para fotografar cada pássaro diferente que aparecia. Nicláudia era mais reservada, mais focada, mais parecida com Fábio no jeito de encarar a montanha, como uma coisa que se respeita, não que se conquista. Os dois tinham se encaixado bem no ritmo de Fábio. Não reclamavam do peso da mochila, não pediam para parar a cada meia hora, não subestimavam o frio da madrugada nos acampamentos de altitude.
Eram, nas palavras de um amigo em comum que depois deu depoimento à polícia, o tipo de grupo que qualquer guia gostaria de levar. Naquela manhã de 13 de agosto, o céu estava limpo e a temperatura marcava 6 graus. O ar seco do inverno deixava a vegetação rasteira dos campos de altitude com uma cor de palha quebradiça, estalando sob as botas. A trilha até o primeiro ponto de parada era de aproximadamente 6 horas, de subindo por um trecho de mata fechada que depois se abria em campos limpos com vista para o Vale do Paraíba. Fábio ia na frente, como sempre, Marcos no meio, Cláudia atrás no ritmo dela, com o bastão na mão direita e a garrafa térmica de seu Antônio, presa por um mosquetão na alça da mochila. Não tinham pressa. Tinham três dias. Tinham comida, água filtrada, barraca para dois e um saco de dormir extra para Marcos, que sentia mais frio que os outros. Tinham tudo o que precisavam para uma travessia segura. Pelo menos era o que parecia. No fim da tarde do primeiro dia, os três montaram acampamento num platô de campo de altitude a cerca de 1900 m, protegido do vento por um paredão de pedra natural que formava uma espécie de meia lua. O chão era de terra seca, firme, bom para fincar estacas.
Fábio escolheu o ponto com cuidado, como sempre fazia, longe da borda, longe de árvores isoladas que pudessem atrair raio, perto o suficiente de um córrego raso que descia entre as pedras e fornecia água limpa. Montaram a barraca antes de escurecer. Marcos acendeu o fogareiro e esquentou uma sopa instantânea que dividiu com a irmã enquanto Fábio conferia o GPS e anotava as coordenadas no caderninho de capa dura que levava em todas as viagens. O céu estava estrelado de um jeito que só se vê em altitude, sem poluição luminosa, sem nuvem, com a Via Láctea cortando o escuro de ponta a ponta. A temperatura caiu para perto de zero durante a noite, mas dentro da barraca, com os sacos de dormir e o isolante térmico, os três dormiram bem. Marcos roncou. Cláudia riu baixinho e empurrou o irmão com o pé. Fábio dormiu por último e, como era seu costume, ficava acordado até ter certeza de que o vento não ia derrubar a barraca e que o fogareiro estava completamente apagado.
Tudo corria dentro do planejado. Foi na manhã seguinte que tudo mudou. Acordaram por volta das seis, com o sol batendo na lona da barraca e o frio já perdendo força. Tomaram café, desmontaram o acampamento e começaram a descer por um trecho de rocha solta para contornar o lado leste do Marins, rumo à crista que ligava os dois picos da travessia. Era um trecho que Fábio conhecia e que exigia atenção. Pedras soltas, inclinação acentuada, vegetação rala que não oferecia apoio. Ele avisou os outros para pisarem só onde ele pisasse e para manterem distância entre si, para que uma queda não arrastasse ninguém junto.
Marcos ia no meio, como sempre. estava a uns 15 m abaixo de Cláudia, quando pisou numa laje coberta de limo que parecia firme, mas não era. O pé direito escorregou primeiro, depois o esquerdo.
Marcos tentou se segurar com as mãos, mas a pedra estava molhada de orvalho e os dedos não encontraram nada.
escorregou uns 4 metros em costa abaixo, até que a perna esquerda bateu de lado numa rocha saliente.
O barulho foi seco. Cláudia ouviu de cima e soube antes de ver que não era um tombo qualquer. Fábio, que estava mais abaixo, subiu correndo. encontrou Marcos sentado com o rosto branco, segurando a perna com as duas mãos e respirando pela boca rápido, tentando controlar a dor. A tíbia estava fraturada. Dava para perceber pela posição do pé que estava virado num ângulo que não era natural.
Marcos não gritou. disse só uma coisa em voz baixa e quase envergonhado.
Acho que quebrei Fábio. Fábio agiu rápido. Tinha treinamento para aquilo.
abriu o kit de primeiros socorros, aplicou uma dose de analgésico intramuscular para segurar a dor e imobilizou a perna com os dois bastões de caminhada e uma faixa de esparadrapo largo, montando uma tala improvisada que mantinha o osso no lugar sem apertar a circulação.
Marcos não podia andar, não podia descer, não podia ser carregado por duas pessoas num trecho daquele, sem risco de piorar a fratura ou de provocar outra queda. Fábio olhou para Cláudia e os dois entenderam sem precisar falar. A descida por terra estava descartada.
precisavam de resgate aéreo. O telefone satelital era um Iridium 955, modelo robusto e confiável, que Fábio carregava em todas as travessias longas.
Na tinha comprado o aparelho usado de um colega guia que trabalhava com expedições na Chapada Diamantina e que garantiu que o sinal funcionava em qualquer ponto do Brasil, desde que houvesse céu aberto. Fábio ligou para o 193 às 11:40 da manhã. A ligação foi redirecionada para a central do Corpo de Bombeiros em Campos do Jordão, que era a base mais próxima com capacidade de resgate aéreo em montanha. Fábio falou com clareza, deu as coordenadas exatas que tinha anotado no GPS, descreveu a lesão.
Informou que o ferido estava estável, consciente, hidratado, mas sem condições de locomoção. Disse que tinham água e comida para mais um dia. Pediu que mandassem um helicóptero o mais rápido possível. Do outro lado da linha, o operador anotou tudo, repetiu as coordenadas para confirmar e disse que o helicóptero sairia assim que possível e pediu que mantivessem o telefone satelital ligado e que sinalizassem a posição com algo visível do alto. Fábio disse que tinha um pano vermelho na mochila. O operador disse que era suficiente. A ligação durou 2 minutos e 17 segundos.
Depois disso, Fábio desligou o aparelho para economizar bateria e guardou no bolso interno da jaqueta. Sentou ao lado de Marcos, ofereceu água e disse que o helicóptero vinha. Marcos fechou os olhos e encostou a cabeça na pedra.
Cláudia ficou de pé, olhando para o vale com os braços cruzados e o rosto fechado. Nenhum dos três disse mais nada por um bom tempo. Esperaram. Na base do corpo de bombeiros em Campos do Jordão, o pedido de resgate chegou no meio de um dia calmo. Não havia outras ocorrências em andamento. O comandante de plantão, capitão Sérgio Luís Nogueira, avaliou a situação e autorizou a decolagem para o início da tarde, depois que a equipe médica estivesse pronta e as condições meteorológicas fossem reavaliadas.
O helicóptero era um esquilo AS350B2, prefixo PPIEN MHR, aeronave robusta e bem adaptada para operações em altitude. Tinha passado por revisão técnica completa 40 dias antes, com todos os itens aprovados, sem ressalva. Os registros de manutenção estavam em dia. O tanque foi abastecido pela manhã. O equipamento de resgate, maca, cordas, mosquetões, cinto de segurança, kit médico, foi conferido peça por peça, pelo tenente Gilmar Aparecido Ramos, que era o copiloto e socorrista designado para o voo. Gilmar tinha 48 anos, 22 deles no Corpo de Bombeiros, estava a 8 meses de completar o tempo para a aposentadoria. Era um homem calado, esse de poucos amigos e muita competência, conhecido na base por nunca deixar um detalhe passar. O médico de resgate era Douglas Figueiredo Reis, 34 anos, pai de uma menina de dois que trabalhava em regime de plantão no SAMU de Taubaté e que fazia escalas voluntárias com os bombeiros sempre que podia.
Douglas tinha entrado no helicóptero pela primeira vez havia três anos e desde então participava de pelo menos duas operações por mês. Não era um novato. Renato Tavares de Souza era o piloto. 41 anos, 12 deles voando para o corpo de bombeiros com mais de 4.000 horas registradas em caderneta. A maioria dessas horas tinha sido acumulada em operações de serra. Resgate em pico, transporte de feridos em áreas de difícil acesso, busca em mata fechada.
Renato conhecia a mantiqueira vista de cima como poucos. Ele sabia onde o vento mudava de direção, onde as correntes ascendentes ficavam traiçoeiras, onde a neblina se formava mais rápido e por quais vales era seguro voar e por quais não era. Quando decolou às 14:55, o céu sobre campos do Jordão ainda estava parcialmente aberto, com nuvens altas e vento fraco. Mas as estações meteorológicas de piquete e passa 4 do outro lado da serra já indicavam formação de neblina nos vales do lado leste. Renato verificou os dados antes de subir. Sabia que a janela de tempo era estreita. Sabia que se a neblina fechasse antes da aproximação, teria que abortar e voltar. Decolou mesmo assim, porque havia um rapaz com a perna quebrada esperando numa pedra a 2100 m de altitude. E porque era isso que ele fazia, ia buscar quem precisava ser buscado. A esposa de Renato, Luciana, estava em casa naquela tarde e em Campos do Jordão, preparando o jantar. tinha feito arroz, feijão e frango grelhado, e deixou o prato dele coberto com um guardanapo de pano na mesa da cozinha. O prato ficou ali a noite inteira, ninguém tocou. Às 15:22, 27 minutos depois da decolagem, Renato fez contato por rádio com a base. A transmissão foi captada com clareza. A voz dele era firme, sem tensão, no tom funcional de quem está executando um procedimento técnico. Informou que tinha visual dos três alpinistas.
estavam numa saliência rochosa, como esperado, e um deles acenava com um pano vermelho. Disse que ia iniciar a aproximação pelo vale, entrando por baixo da crista para evitar turbulência nas bordas do paredão. O operador de rádio da base, Cabo Erivaldo dos Santos Lima, l registrou a transmissão no livro de ocorrências com a hora exata e respondeu com o procedimento padrão.
copiado. Mantenha contato. Depois disso, Erivaldo esperou 5 minutos, 10. Tentou contato às 15:30.
Nenhuma resposta. Tentou de novo às 15:37.
Silêncio. Uma terceira tentativa às 15:44.
Nada. A frequência estava aberta, o equipamento funcionava, mas do outro lado não vinha som nenhum, nem voz, nem estática, nem ruído de motor, nem o clique do botão de transmissão sendo pressionado por engano. Era como se o rádio tivesse sido desligado ou como se não existisse mais nada do outro lado para transmitir. Às 15:50, o cabo Eriivaldo comunicou ao capitão Nogueira que o helicóptero não respondia havia quase 30 minutos. O capitão perguntou se havia alguma possibilidade de falha no rádio. Eriivaldo disse que era possível, mas que o aparelho de bordo tinha sido testado antes da decolagem e que o protocolo previa contato a cada 10 minutos durante operação em serra. Três tentativas sem resposta em sequência era procedimento para acionamento de emergência. O capitão autorizou às 16:05, a base de campos do Jordão comunicou oficialmente a Força Aérea Brasileira e ao Senipa que o helicóptero PPMHR havia perdido contato durante operação de resgate na região do Pico dos Marins.
A partir daquele momento, o resgate precisava de resgate e ninguém sabia exatamente onde começar. A operação de busca começou oficialmente às 17:10 do mesmo dia 14 de agosto, pouco mais de uma hora depois da perda de contato.
Duas equipes terrestres saíram simultaneamente, uma de Piquete pelo lado paulista e outra de Passa 4 pelo lado mineiro. eram grupos mistos de bombeiros e policiais militares equipados com rádio, lanternas de longo alcance e GPS de mão. O plano era subir até a linha de crista por caminhos diferentes e varrer os dois lados do vale leste, onde Renato tinha informado que faria a aproximação.
Mas o sol pôs às 17:38 naquele dia, e em menos de uma hora a serra estava escura.
Escura de verdade. Escura de um jeito que quem nunca esteve numa montanha à noite, sem lua, sem luz artificial num raio de quilômetros, não consegue imaginar.
As equipes avançaram até onde foi possível e montaram acampamento de espera em dois pontos diferentes, a cerca de 16 m de altitude, para retomar a busca com a primeira luz da manhã. Na manhã do dia 15, dois helicópteros da Força Aérea decolaram da base de Guaratinguetá e começaram a sobrevoar a área de cães farejadores foram trazidos de São Paulo por uma equipe especializada. Equipes do SAMU se posicionaram em pontos de apoio nas estradas rurais ao redor da serra, prontas para atender qualquer resgate. O perímetro de busca foi definido inicialmente como um raio de 10 km a partir das coordenadas informadas por Fábio. sobrevoaram o vale leste do Marins em passadas baixas, com os observadores pendurados na porta lateral, procurando qualquer reflexo metálico, qualquer mancha de cor diferente na copa das árvores, qualquer sinal de impacto no solo, nada.
Expandiram o raio para 15 km. Cobriram os contrafortes da pedra da mina, os fundos de vale, os trechos de mata fechada entre as duas montanhas. Nada.
Sobrevoaram as estradas de terra, os pastos de gado nas fazendas mais isoladas, os leitos secos dos córregos de inverno, e nada, nenhum destroço, nenhuma marca de impacto, nenhum rastro de combustível no solo, nem nas copas das árvores, nenhuma peça de metal.
Nenhum fragmento de fuzelagem, nenhum pedaço de roupa, nenhum corpo. As equipes terrestres fizeram o mesmo.
Subiram por trilhas e por dentro da mata, abrindo caminho com facão em trechos onde não havia passagem. Os cães farejadores trabalharam durante horas, mas a altitude, o vento e a secura do inverno dificultavam o rastreamento de odores. Em três dias de busca intensiva, com mais de 100 pessoas envolvidas, não foi encontrado absolutamente nenhum vestígio da aeronave, nem dos seis ocupantes. Nenhum morador das comunidades rurais ao redor, e foram entrevistados mais de 40, relatou ter ouvido barulho de explosão, estrondo de queda ou motor em dificuldade.
Seu Joaquim Pereira da Fonseca, ntiante que morava num rancho de pau a pique a 4 km da base do Marins, disse aos bombeiros que estava no terreiro lavando roupa quando o helicóptero passou por cima da casa dele no meio da tarde.
ouviu o barulho do motor, olhou para cima, viu a aeronave seguindo na direção do pico. Depois disso, não ouviu mais nada, nem barulho de motor, nem silêncio súbito, nem nada que chamasse atenção.
Disse que achou que tinha ido embora por outro caminho. Só soube do desaparecimento no dia seguinte, quando os bombeiros chegaram na porta dele.
Amanhã do dia 16, dona Marlene de Brito chegou à delegacia de Piquete. Tinha saído de cruzeiro antes do sol nascer, no banco de trás de um Gol Prata, dirigido por uma cunhada que não disse uma palavra durante os 40 minutos de estrada. O marido Osvaldo ia no banco da frente e com as mãos apoiadas nos joelhos e o olhar fixo no asfalto. Dona Marlene carregava uma pasta de plástico com os documentos dos dois filhos, RG, CPF, carteira de trabalho do Marcos, diploma de faculdade da Cláudia, fotos 3×4 tiradas no estúdio de uma galeria comercial em Cruzeiro.
não sabia exatamente para que serviam aqueles papéis naquela situação, mas sentiu que precisava levar, que precisava mostrar para alguém que os filhos dela existiam, que tinham rosto, que tinham nome, que eram gente de verdade. A delegacia de Piquete era um prédio térrio com fachada descascada e uma viatura estacionada na frente, que parecia não sair dali havia semanas. O delegado titular Dr. Antônio Carlos Prado Meirelles, acumulava função com a delegacia de cachoeira paulista e não estava presente quando a família chegou.
E um investigador de plantão pediu que esperassem. Dona Marlene esperou sentada num banco de madeira no corredor, segurando a pasta no colo durante 1 hora 40 minutos até o delegado aparecer. Ele recebeu a família numa sala pequena. sem ventilador, com uma mesa de fórmica e três cadeiras de plástico. Explicou com paciência e com o cuidado possível que o caso estava sobional dos bombeiros e da Força Aérea, que a Polícia Civil tinha aberto inquérito, que todas as medidas estavam sendo tomadas. Dona Marlene ouviu tudo em silêncio. Depois perguntou se podia subir à serra para procurar os filhos. O delegado disse que não era recomendável, que a área estava sendo vasculhada por equipes treinadas, que a presença de civis poderia atrapalhar as buscas. E dona Marlene olhou para ele por um instante longo e perguntou de novo. O delegado não respondeu. Osvaldo colocou a mão no ombro da mulher. Dona Marlene guardou a pasta debaixo do braço, levantou e saiu. Na porta da delegacia parou, olhou para a serra que se via ao fundo e ficou ali de pé imóvel durante vários minutos. A cunhada esperou no carro sem buzinar. Na mesma semana, a família de Fábio Mendonça Leitão viajou de Taubaté a Piquete. A mãe dele, dona Teresa, era professora aposentada, viúva.
e vivia sozinha num apartamento pequeno no centro de Taubaté. Fábio era filho único. Dona Teresa chegou à delegacia acompanhada por uma vizinha e por um sobrinho que morava em Guaratinguetá.
Prestou o depoimento formal, entregou fotos recentes do filho ou se informou os dados do carro estacionado na Pousada São Miguel e assinou os papéis que pediram para assinar. saiu da delegacia sem chorar. Chorou depois no carro na volta, quando a vizinha parou num posto de gasolina na Dutra para ir ao banheiro. E dona Teresa ficou sozinha no banco do passageiro por 3 minutos.
Nesses 3 minutos chorou tudo o que tinha segurado o dia inteiro. Depois limpou o rosto, ajeitou o cabelo e ficou em silêncio até Taubaté.
A família da tripulação do helicóptero vivia uma dor diferente, mas não menor.
Luciana, sa esposa de Renato, ficou sabendo da perda de contato por telefone, ligação do próprio capitão Nogueira, às 17:30 do dia 14.
Estava em casa com o jantar pronto, esperando o marido voltar. O capitão disse que havia uma situação em andamento, que Renato estava envolvido e que estavam tomando todas as providências.
Luciana perguntou o que significava situação em andamento. O capitão explicou. Luciana sentou na cadeira da cozinha e ficou ali. Não desligou o telefone. Foi o capitão que desligou depois de dizer que manteria contato. A filha de Douglas, a pequena Manuela, tinha do anos e não entendia porque o pai não veio dar boa noite. A mulher de Douglas, Patrícia, disse para ela que o papai estava trabalhando. Disse a mesma coisa no dia seguinte e no outro. e no outro. Até que parou de dizer qualquer coisa, porque a menina parou de perguntar.
A mulher de Gilmar, Donivoni, morava em Taubaté e soube pelo noticiário. Estava assistindo ao jornal regional quando apareceu a manchete sobre o helicóptero desaparecido.
Reconheceu o prefixo da aeronave antes de ouvirem o nome do marido. Ligou para a base e confirmaram. Dona Ivone desligou o telefone, desligou a televisão e foi para a cozinha lavar a louça. Lavou prato por prato, talher por talher, com uma calma que ela mesma não conseguiu explicar depois.
Disse meses mais tarde a uma assistente social que a acompanhou, que naquele momento o corpo dela decidiu que ia continuar funcionando, mesmo que a cabeça quisesse parar. disse que lavou a louça inteira, secou, guardou cada peça no lugar e só depois sentou e entendeu o que tinha acontecido.
Mas entender, nesse caso, é uma palavra grande demais. Ninguém entendia. Ninguém entende até hoje. 31 dias depois do desaparecimento, em 14 de setembro de 2009, o Corpo de Bombeiros encerrou formalmente a operação de busca.
O relatório final foi assinado pelo comandante regional, coronel Hélio Marques Teixeira, e tinha 18 páginas.
registrava que foram percorridos 86 km quadrados de terreno, empregadas 14 equipes terrestres em regime de revezamento, realizados 47 sobreos com aeronaves militares e do próprio corpo de bombeiros e utilizados três grupos de cães farejadores cedidos pela Polícia Militar de São Paulo e pelo exército. A conclusão era técnica e breve. Não foram localizados vestígios da aeronave PPMHr, nem dos seis ocupantes. A causa do desaparecimento permanecia indeterminada.
O relatório sugeria que a aeronave pudesse ter caído em área de mata densa de difícil acesso, com a fuzelagem ocultada pela vegetação, mas reconhecia que nenhuma evidência física sustentava essa hipótese. O caso seguiu para o SENIPA, Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, que abriu investigação paralela sobre o desaparecimento da aeronave. N os investigadores do SENIPA trabalharam com os dados disponíveis.
Última posição conhecida por rádio, condições meteorológicas registradas naquela tarde, histórico de manutenção da aeronave, perfil do piloto e características do terreno. Analisaram imagens de satélite da região captadas nos dias seguintes ao desaparecimento.
Consultaram especialistas em dinâmica de voo em serra e em acidentes com helicópteros em terreno montanhoso.
A conclusão do relatório preliminar emitido 8 meses depois era semelhante à dos bombeiros. Sem destroços localizados, não era possível determinar a causa do acidente. O SENIPA classificou o caso como desaparecimento em voo e manteve a investigação aberta, em caráter pendente. Até hoje, o relatório final nunca foi publicado. Os inquéritos policiais sobre os três alpinistas foram abertos em piquete e em cruzeiro. O de piquete tratava do desaparecimento em si, registro de ocorrência. Depoimentos das famílias, relato do dono da pousada. Cópia da gravação da ligação feita pelo telefone satelital que foi recuperada dos registros da central dos bombeiros. O de Cruzeiro focava na vida pregressa de Fábio, Cláudia e Marcos. Se havia dívidas, conflitos, ameaças, qualquer coisa que pudesse sugerir que o desaparecimento não fosse acidental. Não havia, não havia nada. eram três pessoas comuns com vidas organizadas, sem inimigos, sem problemas com a justiça, sem motivo nenhum para desaparecer voluntariamente.
Em menos de 6 meses, os dois inquéritos estavam praticamente parados, não por negligência dos investigadores, mas porque não havia nenhuma linha de investigação para seguir. sem corpo, sem destroço, sem testemunha, sem pista. Um inquérito policial é um papel que fica numa gaveta esperando que alguma coisa aconteça. E nada aconteceu. Em 2011, 2 anos depois do desaparecimento, a família de Fábio Mendonça Leitão entrou com pedido judicial de declaração de morte presumida.
Dona Teresa precisava resolver questões práticas. O apartamento do filho estava no nome dele. O carro continuava estacionado na pousada São Miguel, sem que ninguém pudesse retirá-lo legalmente. Havia um seguro de vida cujo pagamento dependia de certidão de óbito.
O juiz da vara cível de Taubaté concedeu o pedido após ouvir o Ministério Público e analisar o relatório dos bombeiros.
Fábio Mendonça Leitão foi declarado oficialmente morto em 23 de março de 2011, Ne data de óbito presumida em 14 de agosto de 2009.
Dona Teresa recebeu a certidão por correio dentro de um envelope pardo numa terça-feira à tarde. Colocou o envelope na mesa da sala e ficou olhando para ele durante um tempo que ela depois não soube calcular. abriu, leu, dobrou o papel, guardou na mesma pasta onde mantinha a certidão de nascimento do filho. Disse para a vizinha no dia seguinte que assinar a morte de um filho cujo corpo você nunca viu é o tipo de coisa que nenhum cartório deveria pedir para uma mãe fazer. Dona Marlene recusou. recusou naquele ano e continuou recusando nos anos seguintes. Disse que enquanto não visse um corpo, enquanto não tocasse num corpo, enquanto alguém não colocasse na frente dela alguma coisa que provasse que os filhos estavam mortos, ela não assinava nada. Não era teimosia, era uma coisa mais profunda, mais silenciosa, mais pesada que teimosia.
Era a última forma de resistência que restava a uma mãe que não tinha mais nada a fazer seão se recusar a aceitar o que todo mundo ao redor já tinha aceitado. O marido Osvaldo entendia, nunca pressionou. Quando alguém da família sugeria que era a hora de seguir em frente, Osvaldo olhava para a pessoa e dizia uma frase que repetiu tantas vezes que virou uma espécie de lema da casa. seguir em frente para onde se a gente não sabe onde eles estão? Durante os três anos seguintes, Osvaldo subiu à serra quatro vezes. Organizou buscas por conta própria com grupos voluntários formados por montanhistas, moradores da região e membros de uma associação de famílias de desaparecidos sediada em São Paulo, e alguns poucos amigos que não tinham medo de mato fechado e de caminhar o dia inteiro sem encontrar nada.
Saíam de cruzeiro antes do amanhecer, de caminhonete com mochilas, água, comida e ferramentas de trilha. Subiam por acessos que as equipes oficiais não tinham usado. Caminhos de caçador, trilhas de tropa de mula, passagens que só os moradores antigos conheciam.
Vasculharam fundos de vale, onde a mata era tão densa que o sol não chegava ao chão. Desceram gargantas de pedra, onde a humidade criava uma camada de musgo escorregadio em cada superfície.
Procuraram qualquer coisa, um pedaço de metal, um fragmento de tecido, uma sola de bota, um pedaço de mochila, qualquer vestígio que pudesse indicar que alguém ou alguma coisa tinha caído ali. Não encontraram restos de acampamentos antigos, latas de conserva oxidadas, provavelmente de tropeiros ou de caçadores que passaram por ali anos antes. Uma bota de couro curtido, rígida de humidade e de tempo, que Osvaldo recolheu e levou até a delegacia de Piquete para verificação.
Não era de nenhum dos seis, era velha demais, décadas velha. Encontraram também numa clareira natural, a uns 2 km da base do Marins, uma fogueira apagada há muito tempo, com pedras dispostas em círculo e restos de carvão que o mato já estava cobrindo. Pode ter sido de qualquer pessoa em qualquer época, não significava nada. Mas Osvaldo fotografou tudo, anotou as coordenadas num caderno e guardou. guardava tudo, como se cada registro, cada foto, cada anotação fosse um argumento contra o silêncio que a serra insistia em manter. Na quarta e última busca, me em 2014, Osvaldo voltou da serra com dor no peito. Não disse nada para dona Marlene.
Foi ao médico na segunda-feira sozinho.
O médico pediu exames. Os exames mostraram o que meses de esforço físico, noites mal dormidas e 5 anos de angústia ininterrupta tinham feito com o coração de um homem de 61 anos que não parava.
Osvaldo não subiu mais à serra depois daquilo, não porque desistiu, mas porque o corpo não deixou. continuou acompanhando à distância por telefone os poucos voluntários que ainda se dispunham a procurar. Continuou ligando para a delegacia de piquete a cada dois ou três meses para perguntar se havia novidade. A resposta era sempre a mesma: Não havia. Em 2024, 15 anos depois do desaparecimento, o caso continua oficialmente aberto, aberto no sistema do SENIPA, que nunca publicou o relatório final sobre a aeronave PPMHR, aberto nos registros da Polícia Civil de São Paulo, onde os inquéritos de piquete e de cruzeiro permanecem em situação de diligências pendentes, que é o termo técnico para dizer que não há nada para investigar, mas ninguém quer assinar o arquivamento.
Aberto no Sinalid, o Sistema Nacional de Localização e identificação de Desaparecidos, onde os nomes de Cláudia Regina de Brito e Marcos Vinícius de Brito ainda constam como não localizados.
O nome de Fábio foi retirado do sistema em 2011, quando a morte presumida foi declarada. Os nomes dos três tripulantes do helicóptero constam em registros separados, vinculados à investigação aeronáutica.
Não há destroços, não há restos mortais e não há caixa preta. Helicópteros daquele modelo não eram obrigados a carregar gravador de voo naquela época.
Não há imagem de satélite que mostre a aeronave após o último contato por rádio. Não há explicação técnica. aceita por todas as partes. O SENIPA nunca descartou oficialmente a possibilidade de falha mecânica, mas também nunca a confirmou. A hipótese de desorientação espacial por neblina foi mencionada no relatório preliminar como cenário plausível, mas sem evidência direta. A possibilidade de que a aeronave tenha atingido uma parede de rocha em condições de visibilidade zero e que os destroços tenham ficado cobertos pela vegetação, foi considerada, mas nunca comprovada, porque os destroços nunca foram encontrados. Aí a pergunta que ninguém conseguiu responder em 15 anos continua sendo a mesma.
Como é possível que um helicóptero de meia tonelada com seis pessoas a bordo desapareça a poucos quilômetros de cidades habitadas numa das regiões mais percorridas por montanhistas no Brasil e nunca seja encontrado. Dona Marlene ainda mora na mesma casa em Cruzeiro. É uma casa simples, de alvenaria, com um quintal onde Osvaldo costumava cuidar de um pé de jabuticaba que os filhos tinham plantado quando eram crianças. A árvore continua lá, dá fruta todo ano. Dona Marlene colhe sozinha numa bacia de alumínio que sempre foi a mesma e distribui para os vizinhos. O quarto de Cláudia continua com a porta fechada, mas não trancada. A cama está feita com a mesma colxa que Cláudia usava. O guarda-roupa tem as mesmas roupas na prateleira, nas seus livros que Cláudia estava lendo antes de sair, um romance que ficou aberto na página 142 com o marcador no lugar. Ninguém mexeu, ninguém fechou o livro, ninguém dobrou a página. O quarto de Marcos é diferente.
Dona Marlene entrou nele algumas vezes nos primeiros anos para limpar, para arejar, para manter o cheiro de gente viva num espaço que já não tinha gente.
Depois parou de entrar. disse que cada vez que abria a porta, a ausência ficava maior em vez de menor. O celular de Marcos, um Nokia antigo que ele deixou em casa antes da travessia, porque na serra não pegava sinal, ainda está na gaveta da cômoda da sala junto com o carregador e o manual de instruções. A bateria morreu há anos, ninguém jogou fora. Osvaldo morreu em 22 de junho de 2021, de infarto fulminante na sala de casa e sentado na mesma poltrona onde costumava assistir ao jornal. Tinha 68 anos. Dona Marlene estava na cozinha quando ouviu um barulho surdo e encontrou o marido caído de lado, com os olhos abertos e a mão direita ainda apoiada no braço da poltrona. O SAMU levou 22 minutos para chegar. Não havia mais nada a fazer. Osvaldo foi enterrado no cemitério municipal de Cruzeiro num jazigo que ele mesmo tinha comprado anos antes com três vagas. Uma para ele, uma para a mulher e uma que ficou vazia, porque os filhos que deveriam estar ali nunca voltaram para ocupá-la. Dona Marlene foi ao enterro com a mesma roupa que usava em casa, porque não teve tempo de trocar e porque disse depois não fazia diferença. Ficou de pé diante do caixão, sem chorar, segurando a mão de uma sobrinha que veio de Lorena para o velório. Não é quando alguém se aproximou para dizer aquela frase que todo mundo diz: “Ele descansou, ele está em paz.” Dona Marlene olhou para a pessoa e disse em voz baixa: “Que paz nenhuma enquanto os meninos não fossem encontrados.” Disse meninos como se Cláudia e Marcos ainda tivessem 20 e poucos anos, como se o tempo dentro daquela casa não tivesse passado. Como se a única coisa que o relógio marcasse fosse a distância entre o dia em que saíram para a serra e o dia em que não voltaram. Passaram-se os anos e a casa de cruzeiro continua de pé, com o pé de jabuticaba no quintal, com os quartos fechados, com celular na gaveta.
Dona Marlene faz as coisas do dia, café, almoço, varrer a calçada, conversar com a vizinha pelo muro, assistir a novela das 9 ve sem prestar muita atenção. Vai à missa aos domingos. Não por fé renovada, mas por costume e por companhia.
acende uma vela para cada um dos filhos e outra para Osvaldo. Quando alguém pergunta se ela ainda acredita que vão ser encontrados, dona Marlene não responde, fica em silêncio por um momento e depois muda de assunto. Não é que tenha perdido a esperança, é que a esperança, em algum momento que ela mesma não sabe identificar, deixou de ser uma coisa que se sente e passou a ser uma coisa que se carrega.
Como uma mochila que ninguém vê, mas que pesa do mesmo jeito. Em Taubaté, dona Teresa morreu em 2019, aos 82 anos, de complicações de uma pneumonia.
Morreu sem saber o que aconteceu com o filho. A vizinha que a acompanhou durante todos aqueles anos, disse que dona Teresa nunca mais falou em Fábio depois de 2012. Não por esquecimento, não por superação, mas porque o silêncio se tornou a única forma suportável de conviver com aquilo.
A casa dela foi vendida pelo sobrinho que cuidou do inventário. Os pertences de Fábio, roupas, livros, equipamentos de trilha, o caderninho de capa dura onde anotava as coordenadas de cada acampamento. foram colocados em caixas de papelão e guardados num depósito em Guaratinguetá.
Ninguém abriu as caixas desde então. Em Campos do Jordão, a base dos bombeiros mudou de endereço em 2016. Os helicópteros foram substituídos por modelos mais novos. Os operadores de rádio que trabalharam naquele dia já se aposentaram ou foram transferidos.
O cabo Eriivaldo, que foi a última pessoa a ouvir a voz de Renato pelo rádio, pediu baixa em 2013 e se mudou para o interior de Minas, para uma cidade pequena perto de São Lourenço.
disse a um colega na despedida que nunca ia esquecer o som daquele silêncio no rádio, que de vez em quando, à noite ainda achava que ia ouvir a voz do Renato dizendo copiado, e que esse é o tipo de coisa que não sai da cabeça de um homem, por mais anos que passem. Luciana, a esposa de Renato, refez a vida.
Casou-se de novo em 2015, mudou-se para Taubaté, trabalha como secretária numa clínica de fisioterapia.
Não fala do primeiro marido com frequência, mas guarda uma foto dele na carteira, uma foto 3×4 de uniforme, com aquele sorriso meio torto que ele tinha quando achava a graça de alguma coisa.
Patrícia, a mulher de Douglas, criou a filha sozinha. Manuela tem 17 anos hoje, sabe o que aconteceu com o pai, mas sabe da maneira que uma criança aprende, aos poucos, em pedaços, sem a história completa. E Patrícia nunca sentou com ela para contar tudo de uma vez. Disse que vai contar quando Manuela perguntar.
Manuela ainda não perguntou, pelo menos não com todas as palavras. Dona Ivone, a mulher de Gilmar, continua morando em Taubaté, no mesmo apartamento, com os mesmos móveis. A farda de gala de Gilmar continua pendurada no guarda-roupa dentro de uma capa de plástico, como se ele fosse vestir na semana que vem. A serra continua lá. O pico dos marins continua recebendo trilheiros nos fins de semana, com grupos que sobem pelo lado oeste e tiram fotos no cume com o Vale do Paraíba ao fundo. O lado leste continua menos frequentado, mais fechado, mais silencioso. A neblina continua descendo sem aviso. O mato continua crescendo sobre tudo o que cai.
E em algum lugar daquelas montanhas, num fundo de vale, numa garganta de pedra e debaixo de uma copa de árvore que ninguém nunca afastou, pode estar a resposta que seis famílias esperam há 15 anos. Ou pode não estar. Pode ser que a mantiqueira tenha guardado esse segredo de um jeito que nenhuma busca, nenhum sobrevo nenhum cão farejador e nenhuma tecnologia consiga desfazer. Pode ser que algumas perguntas não tenham resposta e que o máximo que se pode fazer é continuar perguntando em silêncio para que pelo menos alguém lembre que houve uma pergunta.
Hoje, quando a gente sai de casa de manhã e sabe que vai voltar à noite, quando a gente manda uma mensagem para alguém e recebe resposta em minutos, quando a gente ouve o barulho de um helicóptero no céu e nem olha para cima, é fácil esquecer o que significa não saber, o que significa esperar sem prazo, não é? O que significa um rádio que fica em silêncio e nunca mais volta a transmitir.
A história não termina com uma explicação, termina com seis nomes, três famílias, uma serra que não devolve o que engoliu e um silêncio que, depois de 15 anos, já faz parte da paisagem.