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Barco Com 7 Pescadores Sumiu No São Francisco — 15 Anos Depois Achado Com A Mesa Posta Para O Jantar

Em 14 de novembro de 2008, por volta das 4 da tarde, o barco Santa Marta saiu do porto de Pirapora, norte de Minas Gerais, com sete homens a bordo. Iam fazer o que faziam toda a semana: descer o rio São Francisco até a altura de Buritizeiro, pescar durante a noite e voltar no dia seguinte com o barco carregado.
Mulher do mestre do barco, dona Iracema Botelho Reis, ficou parada no barranco até a embarcação sumir na curva do rio.
Disse depois que acenou, mas que o marido não viu. O Santa Marta era um barco de madeira de 12 m, motor a diesel, casco pintado de azul e branco.
Tinha sido reformado dois meses antes.
levava combustível para ida e volta, rede de espera, espinhel, caixa de isopor com gelo e mantimentos para dois dias. A tripulação era formada por pescadores experientes, homens entre 34 e 61 anos de todos nascidos e criados às margens do velho Chico. Conheciam cada banco de areia, cada remanso, cada trecho onde a correnteza apertava.
Nenhum deles era novato. Nenhum deles tinha motivo para não voltar. O barco não voltou no sábado, não voltou no domingo. Na segunda-feira, quando a família de seu Arlindo Mendes da Cruz, o mais velho da tripulação, foi até a capitania fluvial registrar a preocupação, o funcionário de plantão pediu calma. disse que atraso de pescador era coisa comum, que o motor podia ter dado problema, que eles podiam ter parado numa ilha para esperar o tempo melhorar. O tempo naquela semana estava limpo, não havia chovido, o rio corria manso. A busca oficial começou só na quarta-feira, durou 11 dias.
Percorreram 140 km rio abaixo. Não encontraram o barco, não encontraram destroços.
E não encontraram um colete, um remo, uma lata de sardinha boiando. Nada.
Sete homens e uma embarcação de 12 m desapareceram no maior rio inteiramente brasileiro, como se nunca tivessem existido.
15 anos depois, em março de 2023, um grupo de vaqueiros que tangiam gado pela margem esquerda do São Francisco, na altura do município de Bom Jesus da Lapa, no oeste da Bahia, a mais de 600 km de Pirapora, avistou o casco de um barco encalhado num braço morto do rio, meio encoberto pela vegetação de vársia.
O capim tinha crescido ao redor. As raízes de uma gameleira começavam a envolver a proa. Parecia abandonado havia muito tempo. Quando os vaqueiros subiram a bordo, encontraram algo que nenhum deles conseguiu explicar. A mesa do convés de popa estava posta. Havia pratos de alumínio dispostos em círculo e talheres ao lado, um bule de café esmaltado no centro e copos de plástico virados para baixo, como se alguém tivesse arrumado tudo para uma refeição que nunca aconteceu.
Não havia corpos, não havia sinais de luta, não havia sangue. Os objetos pessoais dos sete pescadores, sandálias, camisas, uma carteira com documentos, um rádio portátil com as pilhas corroídas, estavam organizados como se os donos tivessem saído por um instante e fossem voltar. O nome no casco, desbotado, mas legível, dizia Santa Marta. A matrícula correspondia ao barco desaparecido em Pirapora, 15 anos antes. O rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e percorre mais de 2700 km até desaguar no Oceano Atlântico, entre Sergipe e Alagoas.
É o rio da integração nacional, o rio dos barranqueiros, dos remeiros, uma das carrancas de proa e das histórias que o povo ribeirinho conta à noite, quando o vento para e a água fica escura.
É também o rio onde pessoas somem, onde barcos afundam sem explicação, onde o silêncio do sertão encontra a imensidão de uma lâmina d’água que, em certos trechos, se abre como um lago sem margens visíveis. Os sete homens do Santa Marta não eram aventureiros, eram trabalhadores, homens que sustentavam famílias com o que o rio dava, homens que saíam de madrugada e voltavam com as mãos, cheirando a peixe e a lodo. Homens cujos nomes não apareceram nos jornais grandes, cujas famílias esperaram em silêncio, primeiro com esperança, depois com medo, depois com algo que não tem nome. Essa coisa que fica quando a esperança vai embora, mas a certeza não chega. E esta é a história do desaparecimento do barco Santa Marta e dos sete pescadores de Pirapora, do que o rio levou, do que as famílias fizeram, do que a polícia não encontrou e do que apareceu 15 anos depois num braço de rio esquecido com a mesa posta para o jantar. Se esse tipo de história te faz parar e pensar no que acontece longe das câmeras nos rios e estradas deste país, você pode se inscrever no canal e deixar sua opinião nos comentários.
A partir daqui, a história avança devagar. Cada detalhe importa. Cada nome tem uma família por trás. O que acontece quando sete homens desaparecem e o rio não devolve nada? nem um corpo, nem uma explicação.
Até onde vai uma mulher que recusa a palavra viúva? Porque nunca viu a prova do que todo mundo já aceitou. O que significa encontrar um barco intacto com a mesa posta? Se 15 anos depois e nenhum sinal de quem estava a bordo. Estamos em Pirapora, norte de Minas Gerais, em novembro de 2008.
O rio corre devagar nessa época. O calor já passou dos 35º.
As canoas de alumínio brilham no barranco. Os pescadores conhecem o São Francisco como conhecem o quintal de casa. E ninguém naquela tarde de sexta-feira imagina que sete deles não vão voltar.
Sebastião Botelho Reis tinha 52 anos e era o mestre do barco. Na beira do rio, todo mundo o chamava de Tião marinheiro, apelido que veio do pai e do avô, ambos barqueiros de profissão. Sua família pescava no São Francisco, havia três gerações. Tião conhecia o rio como poucos. sabia onde o fundo era de pedra, onde era de areia fofa, onde a correnteza mudava de humor sem aviso.
Tinha mãos largas e calosas, pele queimada de sol, esse um jeito quieto de falar que fazia os outros homens obedecerem sem precisar levantar a voz.
Naquela sexta-feira de novembro, ele subiu no Santa Marta com a mesma naturalidade de quem sobe na própria varanda. vestia uma camisa azul desbotada, bermuda de brm e um chapéu de palha que a mulher vivia pedindo para ele trocar.
Levava no bolso da bermuda um celular simples, daqueles de flip, que quase nunca usava, porque no rio não pegava sinal mesmo. Ao lado de Tião embarcou Arlindo Mendes da Cruz, de 61 anos, o decano da tripulação. Seu Arlindo já tinha percorrido o São Francisco de Pirapora até Juazeiro na Bahia, nos tempos em que os vapores ainda faziam a linha comercial. Conhecia o rio velho, o rio de antes das barragens, e falava dele com uma reverência que os mais jovens às vezes confundiam com superstição.
Era viúvo, havia 8 anos e morava com a nora, dona Conceição, e dois netos pequenos numa casa de alvenaria, no bairro Santos do Mon, a quatro quadras do rio. tinha artrose nos joelhos e dor nas costas, mas nunca recusava uma pescaria.
Dizia que o dia que parasse de ir pro rio era o dia que morria de vez. Levava consigo uma garrafa térmica de café, um rosário no bolso e um canivete com cabo de osso que o pai tinha lhe dado quando ele tinha 12 anos. O terceiro era Geraldo Soares dos Anjos, o mais novo do grupo, com 34 anos. Geraldo era genro de Tião. Tinha casado com a filha mais velha do mestre, uma moça chamada Lúcia, e fazia parte da tripulação havia 6 anos. Era um homem forte, de ombros largos, que trabalhava como pedreiro durante a semana e pescava nos fins de semana para complementar a renda. Tinha dois filhos pequenos, um de quatro e outro de 2 anos. A mulher contou depois que na manhã daquela sexta-feira, Geraldo acordou mais cedo que de costume, tomou café em pé na cozinha e ficou um tempo olhando os meninos dormirem antes de sair. Não disse nada especial. Não se despediu de um jeito diferente. Só ficou ali parado, olhando e depois saiu. Os outros quatro eram Nivaldo Pereira Gomes, de 47 anos.
mecânico de motor diesel e responsável pela manutenção do Santa Marta.
Eriivaldo Cardoso de Souza, de 43, que trabalhava como ajudante de Tião havia mais de uma década e era conhecido na beira do rio como Valdo Calado, porque quase não falava. José Antônio da Silva, de 38, apelidado de Zé Piranha por causa de uma cicatriz no dedo indicador da mão esquerda, resultado de uma mordida de piranha quando tinha 15 anos. e Ademir Ferreira Lopes, de 41, pai de quatro filhos, no que naquela semana estava substituindo outro pescador que tinha ficado doente.
Ademir quase não foi. A mulher dele, dona Marlene, contou depois que ele estava com uma gripe forte na quinta-feira e que ela pediu para ele ficar em casa. Ademir disse que precisava ir porque o dinheiro da semana dependia daquela pescaria. Tomou um chá de limão com mel, vestiu uma jaqueta por cima da camiseta e saiu de casa antes do almoço. Dona Marlene ficou na porta e disse: “Tchau, Deus te acompanha”. Ele respondeu sem virar. Volta logo. Sete homens, sete histórias, sete famílias que ficaram na margem, olhando o rio, levar embora o que tinham de mais importante. Nenhum deles era rico.
Nenhum deles tinha inimigos conhecidos.
Nenhum deles tinha motivo para fugir, para se esconder, para desaparecer.
Eram homens comuns, mas do tipo que o Brasil inteiro conhece. O vizinho que acorda cedo, que pega o ônibus lotado ou a canoa no escuro, que volta sujo e cansado, e que senta na porta de casa no fim do dia para tomar uma cerveja e ver o sol ir embora. eram invisíveis para o mundo, mas para quem ficou eram tudo. O porto de Pirapora, em novembro de 2008, não era um cais organizado com atracadouros numerados. Era um barranco de terra batida na margem direita do São Francisco, com troncos fincados na lama servindo de amarração, e uma rampa de concreto rachado, por onde os barcos maiores desciam para a água.
Cheirava a peixe seco, a óleo diesel e aquela umidade grossa que sobe do rio no fim da tarde, quando o sol começa a descer atrás dos buritizais. O Santa Marta estava atracado ali desde amanhã, não enquanto os homens carregavam os apetrechos e conferiam o motor pela última vez. Pirapora naquela época era uma cidade de pouco mais de 50.000 1 habitantes, espremida entre o serrado e o rio, vivendo do comércio miúdo, da pesca e do turismo tímido que aparecia no período de férias.
A ponte marechal Hermes ligava a cidade a Buritizeiro, do outro lado do São Francisco, e de noite, quando o trânsito parava, dava para ouvir o som da água batendo nos pilares de concreto. Era uma cidade onde todo mundo se conhecia.
onde as notícias corriam mais rápido que qualquer carro, onde o rio não era paisagem, era sustento, caminho e para muitos destino. Naquela sexta-feira, o céu estava limpo e o calor apertava desde cedo. O termômetro da farmácia na Praça Melo Viana marcava 37º às 2as da tarde. Dois homens foram chegando ao porto ao longo do dia, cada um no seu ritmo. Tião foi o primeiro por volta das 11 da manhã. Desceu de bicicleta pela rua do porto, encostou a bicicleta num poste e começou a conferir o barco.
Verificou o nível de óleo do motor, testou a bomba de porão, amarrou as redes no convés e arrumou as caixas de isopor na proa. Seu ar lindo chegou logo depois. trazido pelo neto mais velho numa moto. Nivaldo veio a pé carregando uma caixa de ferramentas e um galão de diesel reserva. Os outros foram aparecendo ao longo da tarde, cada um trazendo sua contribuição. Farinha, sal, café, rapadura, uma garrafa de cachaça que Zé Piranha escondeu embaixo de uma lona. Entre 2as e três da tarde, enquanto esperavam o calor afrouxar um pouco, os homens sentaram na sombra de uma mangueira próxima ao barranco.
Fumaram te conversaram sobre o nível do rio, sobre os pontos de pesca, sobre o preço do surubim no mercado de Montes Claros. Seu Arlindo contou uma história sobre um jacaré que tinha visto na semana anterior, perto da ilha do Jatobá. Tian ouviu em silêncio, conferindo a previsão do tempo no rádio portátil que levava sempre. O boletim dizia tempo estável para os próximos três dias, sem chuva, sem vento forte, condições ideais para pescar. Por volta das 4 da tarde, Tião deu o sinal. Os homens subiram a bordo. O motor diesel do Santa Marta torciu duas vezes antes de pegar, soltando uma nuvem de fumaça preta que se misturou com o ar quente da margem. Nivaldo ajustou a rotação. Tião assumiu o leme. O barco se afastou do barranco devagar, cortando a água barrenta numa linha reta em direção ao centro do rio. Dona Iracema ficou no barranco e com uma mão na cintura e a outra levantada.
Acenou até o barco virar na curva lá embaixo, onde o rio faz uma volta larga antes de seguir rumo ao norte. A última coisa que viu foi o chapéu de palha do marido, recortado contra o sol da tarde.
Depois, o rio ficou vazio. Duas outras mulheres estavam no barranco naquela hora.
Dona Marlene, mulher de Ademir, que tinha vindo trazer um agasalho extra porque sabia que o marido estava gripado, e uma vizinha, dona Teresa, que tinha descido para comprar peixe fresco de outro barco que estava chegando. As três ficaram conversando ali por alguns minutos depois que o Santa Marta sumiu de vista. Dona Teresa comentou que o rio estava bonito, manso, bom de pescar.
Dona Iracema concordou. Dona Marlene disse que esperava que o Ademir não piorasse da gripe. Depois cada uma foi para a sua casa no para a sua rotina, para o seu pedaço de vida comum, que naquele momento ainda estava inteiro.
O barco desceu o rio durante a tarde e entrou na noite. Ninguém sabe exatamente a que horas chegou ao ponto de pesca planejado, provavelmente perto da Ilha do Retiro, um trecho conhecido dos pescadores de Pirapora, a cerca de 30 km rio abaixo, onde o São Francisco se alarga e forma remansos profundos, bons para surubim e dourado. Era ali que Tião costumava ancorar. Era ali que os homens armavam as redes, acendiam o fogareiro e esperavam a noite passar, ouvindo o barulho da água e dos bichos da margem.
Era ali que, em teoria, tudo deveria ter acontecido como acontecia sempre, mas algo não aconteceu como sempre e ninguém sabe o quê. Na manhã de sábado, dona Iracema acordou às 5 horas, como fazia sempre. Mo colocou a água para ferver, tirou o pó do coador de pano e ficou parada na cozinha, olhando pela janela dos fundos que dava para o quintal e mais ao longe para a faixa escura do rio. Tião devia chegar até o meio-dia.
Ela já tinha separado a bacia grande para lavar o peixe e deixado o alho descascado na pia.
Ao meio-dia o barco não apareceu. Às duas da tarde também não. Iracema não ligou para ninguém. Sabia que atraso no rio era coisa que acontecia. Mas quando o sol se pôs e o céu ficou vermelho sobre Pirapora, ela sentou na cadeira de plástico do quintal e ficou ali em silêncio até escurecer de vez. O domingo amanheceu igual. Café no coador de pano, janela dos fundos, rio lá embaixo correndo indiferente. Iracema foi até o porto no meio da manhã e perguntou aos outros pescadores se alguém tinha notícia do Santa Marta. E ninguém tinha.
Um barqueiro chamado Tonho Verdura, que tinha saído para pescar na sexta à noite e voltado no sábado de manhã, disse que não tinha cruzado com o barco de Tião em nenhum momento. Não tinha visto luz de embarcação no trecho da Ilha do Retiro, não tinha ouvido o motor. Iracema voltou para casa com um aperto no peito que ela descreveu depois como um bicho que senta no estômago e não sai. Aquela noite, pela primeira vez em 32 anos de casamento, ela dormiu com a luz da cozinha acesa e a porta da frente destrancada.
Na segunda-feira de manhã, dona Conceição, nora de seu Arlindo, saiu de casa às 7 horas e foi direto à Capitania Fluvial. Conceição era uma mulher prática, de fala firme e olho seco.
Tinha criado os dois filhos do primeiro casamento sozinha antes de se juntar com o filho de seu Arlindo. Ali sabia que esperar sem fazer nada era o mesmo que aceitar o pior. Levou os documentos do sogro, uma foto e o número de matrícula do barco que tinha anotado num pedaço de caderno. Na mesma manhã, dona Marlene foi à delegacia registrar o desaparecimento de Ademir. Dona Lúcia, filha de Tião e mulher de Geraldo, tentou ligar para o celular do pai 16 vezes entre sábado e segunda-feira.
Todas as chamadas caíram na caixa postal. O desespero não veio de uma vez.
Veio aos poucos como a água que sobe no barranco quando o rio enche de noite, sem barulho, sem aviso, mas constante.
Cada hora que passava sem notícia, era uma hora a mais de silêncio que pesava no peito daquelas mulheres. Cada barco que aparecia na curva do rio e que não era o Santa Marta era uma pequena morte repetida. E cada telefonema que tocava e que não trazia a voz dos maridos, dos pais, dos sogros, era uma confirmação muda de que algo tinha saído do lugar. E o pior era que ninguém sabia o quê. Não havia tempestade para culpar, não havia acidente visível, não havia nada, só o rio correndo como corria sempre, levando água, levando tempo, levando o que restava da esperança. A capitania fluvial de Pirapora funcionava numa sala pequena, no segundo andar de um prédio comercial na Avenida Governador Magalhães Pinto. Tinha dois funcionários civis e um militar da Marinha que revesavam turnos. A sala tinha uma mesa de fórmica, um computador antigo, um mapa laminado do São Francisco, pregado na parede com taxinhas e um ventilador de teto que fazia mais barulho do que vento. Quando dona Conceição chegou ali na segunda-feira de manhã e com a certidão de casamento do sogro e a foto 3×4 tirada num estúdio de Pirapora, o atendente pediu que ela preenchesse um formulário e aguardasse. Conceição preencheu tudo com letra miúda e caprichada.
Entregou, perguntou quando iam começar a procurar. O funcionário disse que ia encaminhar o comunicado para a base da Marinha em Belo Horizonte e que a orientação era aguardar um prazo razoável antes de acionar busca formal.
Conceição perguntou o que era um prazo razoável. O funcionário disse que dependia. Conceição perguntou: “Depende de quê?” O funcionário não soube responder. Na terça-feira, as famílias se reuniram na casa de dona Iracema.
Estavam ali as mulheres dos sete pescadores, alguns filhos, um cunhado de Nivaldo e o pastor da igreja que dona Marlene frequentava.
A reunião não teve pauta nem coordenação. E foi o que acontece quando pessoas desesperadas se juntam na mesma sala. Cada um falou o que sentia.
o que achava, o que tinha medo de dizer em voz alta. Dona Lúcia chorou do começo ao fim. Dona Marlene rezou em silêncio.
Dona Iracema ouviu todo mundo e depois disse com uma voz que era mais cansaço do que raiva, que no dia seguinte ia até a delegacia, até a prefeitura e até a porta do quartel dos bombeiros, se fosse preciso. Que ela não ia ficar parada esperando uma resposta. que ninguém queria dar. A busca oficial foi autorizada na quarta-feira, 19 de novembro, 5 dias depois da saída do Santa Marta. A capitania fluvial mobilizou uma lancha de patrulha e dois barcos de apoio. O corpo de bombeiros de Pirapora destacou uma equipe de quatro homens. A Polícia Militar cedeu dois soldados. Essa operação foi coordenada por um sargento da Marinha que tinha experiência em buscas fluviais no Pantanal, mas que nunca tinha trabalhado no São Francisco.
A área de busca foi definida como o trecho entre Pirapora e a cidade de São Francisco, 140 km rio abaixo, que era o alcance máximo estimado para o combustível que o Santa Marta levava. A operação de busca desceu o São Francisco de lancha, de barco a motor e em alguns trechos de canoa com motor de Percorreram 140 km em 11 dias, parando em cada comunidade ribeirinha, cada barranco habitado, cada ilha onde pescadores costumavam acampar. falaram com barranqueiros em São Romão, com sitiantes em manga, com um grupo de carvoeiros que trabalhava numa fazenda na margem esquerda, perto de Januária.
Ninguém tinha visto o Santa Marta e ninguém tinha ouvido motor à noite.
Ninguém tinha encontrado nada boiando. O rio naquele trecho corre largo e lento, com visibilidade de mais de 1 km em dia claro. Um barco de 12 m pintado de azul e branco não é algo que passe despercebido.
Os bombeiros mergulharam em três pontos onde o rio forma poços profundos.
Trechos onde a correnteza cava o fundo e onde, em teoria um barco poderia ter afundado sem deixar rastro na superfície.
A visibilidade debaixo d’água era quase nula. A água do São Francisco, naquela época do ano, carregava sedimento de barro que reduzia o alcance visual a menos de 1 m. Os mergulhadores desceram até 12 m de profundidade e não encontraram nada, nem casco, nem motor, nem destroços, nem corpos. O fundo do rio era lodo e pedra, nada mais.
Ao longo dos 11 dias de busca, meia equipe visitou 32 comunidades ribeirinhas e entrevistou mais de 150 pessoas. pescadores, barqueiros, lavradores, donas de casa, crianças que brincavam na beira do rio. A resposta era sempre a mesma: não vi, não ouvi, não sei. Num trecho do rio perto da cidade de Manga, um velho pescador chamado Joaquim Tapera disse à equipe de busca que na noite de sexta-feira tinha ouvido um barulho estranho vindo do rio, algo entre um estalo forte e um trovão seco, que durou poucos segundos e depois parou. Perguntaram que horas eram. Ele disse que não sabia, que não tinha relógio, mas que era depois da meia-noite, porque o galo já tinha cantado uma vez. Perguntaram de que direção vinha o som. Ele apontou para o meio do rio e disse: “De lá, do escuro.” O depoimento de Joaquim Tapera foi anotado no relatório de busca e mas não levou a nenhuma conclusão. Ninguém mais ouviu o barulho. Não havia evidência de explosão, de colisão ou de qualquer evento que pudesse ter produzido aquele som. O relatório registrou a informação como relato isolado e sem confirmação.
No 11º dia, o sargento responsável pela operação reuniu a equipe na margem do rio, perto de São Francisco, e comunicou o encerramento da busca ativa. Os recursos estavam no limite, o combustível estava acabando, os homens estavam exaustos e o rio não tinha devolvido nada. O relatório final da Capitania Fluvial, datado de 30 de novembro de 2008, registrou o desaparecimento da embarcação Santa Marta e de seus sete tripulantes como sinistros sem causa determinada e sem localização de vítimas ou destroços.
A última linha do relatório dizia: “Encerram-se as buscas na presente data, graficando o caso à disposição para reabertura mediante fato novo.” Fato novo levaria 15 anos para surgir um. O boletim de ocorrência foi registrado na delegacia de polícia civil de Pirapora, sob o número que ficaria gravado na memória de pelo menos três das famílias envolvidas.
O delegado titular, um homem de meia idade chamado Dr. Valmir, ouviu dona Iracema durante 40 minutos, anotando tudo em folhas de papel ao maço com caneta azul. Ouviu dona Conceição, que foi mais direta e mais dura nas respostas. ouviu o filho mais velho de Eriivaldo, Reginaldo, que tinha 19 anos e trabalhava como ajudante de pedreiro, e que entrou na sala com os olhos vermelhos e as mãos tremendo, mas que falou com uma clareza que surpreendeu o próprio delegado. Anotou os nomes, as idades, as descrições físicas, as roupas que provavelmente vestiam e pediu fotos.
encaminhou o ofício para o IML de Montes Claros e para a capitania e disse com uma franqueza que doeu mais do que qualquer silêncio, que sem corpo e sem embarcação, a investigação ficaria limitada.
Limitada. A palavra ecoou na sala da delegacia como se tivesse batido nas paredes e voltado. Dona Iracema não respondeu. Dona Conceição respirou fundo e perguntou se limitada significava que não iam fazer nada. O delegado explicou com paciência e sem sinismo que a polícia civil não tinha estrutura para a busca fluvial, que esse trabalho cabia à capitania e aos bombeiros, que a delegacia podia investigar hipóteses criminais, sequestro, assalto, homicídio, mas que para isso precisava de indícios, de pistas, de algo concreto.
E não havia nada concreto. Não havia sequer um pedaço de madeira boiando. E o inquérito foi aberto como desaparecimento de pessoas. As linhas de investigação eram três: acidente fluvial com naufrágio, ação criminosa de terceiros e desaparecimento voluntário.
A terceira hipótese foi descartada rapidamente. Sete homens com famílias constituídas, sem dívidas graves, sem antecedentes, sem motivo aparente para assumir juntos. A segunda hipótese foi investigada de forma superficial. A polícia ouviu alguns informantes sobre a atividade de pirataria no Rio, mas não encontrou conexão direta com o caso. A primeira hipótese, naufrágio, permaneceu como a mais provável, mas sem prova material era impossível confirmá-la. Em março de 2009, 4 meses depois do desaparecimento, o Ministério Público de Minas Gerais solicitou informações sobre o andamento do inquérito. A delegacia respondeu que não havia fatos novos. O MP recomendou a manutenção do inquérito em aberto, mas na prática o caso ficou parado. Os autos foram guardados numa pasta de papel pardo, numa estante de aço na sala de arquivos da delegacia de Pirapora, entre centenas de outros processos que ninguém consultava.
As famílias receberam a notícia do arquivamento por meio de um ofício simples, entregue pelos Correios, sem explicação adicional. Dona Iracema leu o papel duas vezes, dobrou com cuidado e guardou numa gaveta da cômoda do quarto, junto com a certidão de casamento, os documentos de Tião e uma foto dos dois tirada no aniversário de 30 anos de casados. Não chorou, não gritou, não rasgou o papel, apenas guardou e fechou a gaveta. Conceição foi até a delegacia no dia seguinte e pediu para falar com o delegado. Ele não estava. Ela deixou um bilhete na recepção que dizia: “Nós vamos continuar procurando com ou sem vocês”. E procuraram. Depois do primeiro ano, a vida em Pirapora continuou para todo o mundo, menos para as famílias dos sete. A cidade não parou, o rio não secou, os barcos continuaram saindo e voltando, mas sete casas ficaram diferentes. Dona Iracema não trocou a fechadura da porta da frente, porque Tião levava a chave no bolso e ela tinha medo de que se ele voltasse não conseguisse entrar.
A mulher de Geraldo Soares dos Anjos, dona Lúcia, filha de Tião, passou a trabalhar como faxineira em três casas para sustentar os dois filhos. Nunca pediu pensão por morte, porque nunca aceitou que o marido tivesse morrido.
Para pedir pensão, precisava de uma certidão de óbito. Para ter a certidão, precisava de um corpo ou de uma declaração judicial de morte presumida.
Lúcia se recusou a entrar com o pedido.
Disse à família que fazer isso era o mesmo que matar Geraldo com a própria mão. Dona Marlene, mulher de Ademir, foi a que mais sofreu com a parte burocrática.
Precisava do dinheiro. Tinha quatro filhos entre 6 e 14 anos. O mais velho, um menino chamado Velisson, largou a escola para trabalhar numa oficina mecânica no centro de Pirapora e ajudar em casa.
Dona Marlene tentou dar entrada na pensão por morte pelo INSS, mas o processo emperrou porque não havia certidão de óbito. A funcionária do posto do INSS em Pirapora explicou com gentileza, mas sem solução, que sem a declaração de morte presumida, o sistema não liberava o benefício. Marlene precisou contratar uma advogada da Defensoria Pública para entrar com o processo judicial.
O pedido levou três anos para ser julgado. Três anos em que ela lavou roupa para fora, fez faxina, vendeu bolo de pote na porta do colégio dos filhos e dormiu 4 horas por noite. A mulher de Nivaldo, dona Rosângela, teve um destino diferente. Seis meses depois do desaparecimento, ela saiu de Pirapora com os três filhos e foi morar com uma irmã em Montes Claros. não aguentou ficar na cidade. Disse que não conseguia olhar para o rio sem sentir que ele ia devolver o marido a qualquer momento e que essa espera estava acabando com ela por dentro. Em Montes Claros, arrumou emprego numa padaria e recomeçou a vida na medida em que isso é possível quando uma parte da vida ficou presa num rio a 150 km de distância. As mulheres de Erivaldo e de Zé Piranha permaneceram em Pirapora.
continuaram morando nas mesmas casas, frequentando a mesma igreja, comprando no mesmo mercadinho.
De vez em quando se encontravam na rua e trocavam um olhar que dizia mais do que qualquer conversa, um olhar de quem compartilha uma coisa que ninguém de fora entende. A textura de viver com uma ausência que não tem forma, que não tem data, que não tem certidão.
Piracema foi a que mais resistiu.
Continuou morando sozinha na casa do bairro São Sebastião, mantendo tudo como Tião tinha deixado. A bicicleta dele ficou encostada no mesmo lugar. As ferramentas de pesca ficaram penduradas no barracão dos fundos. O chapéu de palha reserva, ele tinha dois. Ficou no prego atrás da porta do quarto. Iracema lavava a casa todo sábado, como sempre fez. cozinhava para uma pessoa e mas ainda colocava dois pratos na mesa por força de hábito. Às vezes de noite ia até o quintal, sentava na cadeira de plástico e ficava olhando na direção do rio sem ver nada, porque entre a casa e a margem havia quarteirões inteiros de casas. Mas ela olhava mesmo assim, como se esperar fosse um ofício, como se a espera por si só mantivesse alguma coisa viva. A ausência dos sete homens moldou a vida de quem ficou de uma forma silenciosa e permanente. Não houve reportagens grandes na televisão, não houve como nacional. O caso apareceu nos jornais regionais durante uma ou duas semanas e depois sumiu, como somem tantas histórias de gente comum em cidades pequenas do interior do Brasil.
Os nomes dos Sete Pescadores de Pirapora nunca foram pronunciados num telejornal de rede nacional. Suas fotos nunca apareceram numa tela grande e suas famílias nunca foram entrevistadas por um repórter de terno. O que restou foi o silêncio e o rio. Com o passar do tempo, os boatos foram crescendo ao longo das comunidades ribeirinhas, como cresce o mato na beira d’água. Devagar, mas sem parar. Uns diziam que o Santa Marta tinha sido abordado por piratas do rio, grupos que assaltavam embarcações de carga no trecho entre Januária e Carinhha.
Outros diziam que os sete tinham se envolvido com transporte de mercadoria ilícita e que a coisa tinha dado errado.
Havia quem dissesse que o barco tinha batido num tronco submerso e afundado de noite, sem tempo de ninguém gritar. E havia também as histórias mais antigas, aquelas que o povo ribeirinho conta baixinho, olhando para o rio, sobre o nego d’água, sobre barcos que somem em noite de lua cheia e sobre o São Francisco cobrar o que é dele. A hipótese da pirataria não era absurda.
No trecho do médio São Francisco, entre o norte de Minas e o oeste da Bahia, havia relatos frequentes de assaltos a embarcações nos anos 2000. Barcos de carga que transportavam mantimentos para comunidades isoladas eram abordados por grupos armados em lanchas rápidas, geralmente à noite em trechos onde o rio era largo e a margem desabitada.
Os assaltantes levavam tudo, diesel, alimentos, motores e às vezes agrediam os tripulantes. Em alguns casos, houve mortes. A Polícia Federal chegou a investigar uma rede de pirataria fluvial no São Francisco em 2006, mas a operação resultou em poucas prisões e a atividade continuou de forma dispersa. Para as famílias do sete, a hipótese da pirataria era ao mesmo tempo, a mais assustadora e a mais aceitável.
Assustadora porque implicava violência, sofrimento, morte. Aceitável porque dava uma explicação, uma causa, um responsável, algo contra o que direcionara a raiva e a dor. Mas não havia provas. Nenhum grupo reivindicou o ataque. Nenhum informante mencionou o Santa Marta. Nenhum objeto do barco apareceu à venda nos mercados clandestinos da região. A hipótese do envolvimento com droga surgiu de forma mais insidiosa.
Começou como um comentário solto num bar de pirapora feito por alguém que ninguém depois soube identificar.
A história cresceu, que Tião tinha dívidas, que o barco fazia viagens que não eram só de pesca, que os sete estavam transportando mercadoria para alguém em Januária. Nada disso tinha base. A polícia investigou e não encontrou conexão. As famílias dos sete nunca apresentaram sinais de renda incompatível. Maptião vivia numa casa simples. Geraldo era pedreiro. Ademir vivia de bico em bico. A acusação era cruel e gratuita, do tipo que nasce quando as pessoas precisam de uma explicação e não encontram uma limpa. É mais fácil aceitar que alguém se meteu onde não devia do que aceitar que o mundo é um lugar onde sete homens podem simplesmente desaparecer sem razão. Dona Iracema soube dosat e não disse nada em público, mas contou depois a uma vizinha que aquilo doía mais do que o desaparecimento em si. Disse que podiam falar o que quisessem do rio, do vento, do azar, da vontade de Deus.
Mas que falar que o marido dela era bandido era uma coisa que ela não aceitava e que se tivesse que escolher entre nunca saber o que aconteceu e aceitar uma mentira, ela preferia nunca saber. Os anos foram passando, o rio continuou correndo, as estações se repetiram: seca, chuva, seca chuva. E com elas o nível do São Francisco subia e descia, cobrindo e descobrindo bancos de areia, ilhas, troncos submersos, segredos.
Os filhos dos pescadores desaparecidos cresceram. Os mais velhos se casaram, alguns tiveram filhos. Visson, o filho mais velho de Ademir, virou mecânico e abriu uma oficina pequena na saída de Pirapora, na estrada para Montes Claros.
Os dois filhos de Geraldo foram criados por dona Lúcia com a ajuda de dona Iracema.
O mais velho batizado Sebastião, em homenagem ao avô, entrou para a Marinha Mercante aos 18 anos. Quando a mãe perguntou porque queria trabalhar no Rio, ele respondeu: “Porque o rio me deve uma resposta.” Em 2012, a Defensoria Pública conseguiu a declaração de morte presumida para seis dos sete desaparecidos.
Dona Lúcia foi a única que não assinou.
Manteve Geraldo como desaparecido no sistema. A declaração de morte presumida permitiu que as outras famílias finalmente acessassem pensões, seguros nos casos em que havia e resolvessem questões patrimoniais que estavam travadas. Para o estado, seis dos sete homens estavam oficialmente mortos. Para as famílias, nenhum deles estava. Seu Arlindo teria feito 75 anos em 2022. A nora dona Conceição, fez uma missa na igreja do bairro e acendeu sete velas, uma para cada homem do Santa Marta.
Depois da missa, foi até o barranco do rio e ficou ali parada durante 20 minutos olhando a água. Não jogou flores, não rezou em voz alta, apenas ficou ali como quem visita um lugar que é ao mesmo tempo um túmulo e uma dúvida.
em Pirapora com o tempo. E que o caso dos sete pescadores virou uma daquelas histórias que todo mundo conhece, mas ninguém comenta sem ser perguntado. As crianças que nasceram depois de 2008 ouviam falar do Santa Marta como ouviam falar de assombração, algo distante, meio real, meio lenda. Os adultos sabiam que era verdade, mas evitavam o assunto perto das famílias. O rio seguia ali, imenso e indiferente, como sempre. Em março de 2023, três vaqueiros da fazenda Boa Sorte, município de Bom Jesus da Lapa, oeste da Bahia, seguiam a pé pela margem esquerda do São Francisco, tangendo um lote de gado nelori, que precisava cruzar um trecho de vársia alagada. O mais velho dos três, um homem chamado Valdomiro Pereira, foi o primeiro a ver o casco entre a vegetação.
Pensou que fosse um barco de pesca abandonado, coisa comum naquele trecho, mas quando se aproximou, no percebeu que o barco estava inteiro. O casco não tinha rombo, o motor estava no lugar e em cima do convés de popa, protegida por uma lona de plástico, que o tempo tinha descolorido, mas não tinha arrancado, havia uma mesa posta. Valdomiro tinha 58 anos e trabalhava com Gado desde os 14.
conhecia aquele trecho do rio como conhecia as rugas da própria mão. Disse depois que passou por ali dezenas de vezes ao longo dos anos e que nunca tinha visto aquele barco. Isso não significava que o barco não estivesse ali. A vegetação de vársia no São Francisco é densa e muda, de forma com as cheias, mas significava que se o barco estava ali havia muito tempo, estava bem escondido.
Os três vaqueiros subiram a bordo com cuidado. O convés estava coberto de folhas secas, magalhos finos e uma camada de limo verde que indicava exposição prolongada à umidade.
Mais debaixo da lona de plástico, no convés de popa, as coisas estavam preservadas de uma forma que nenhum dos três soube explicar. Havia sete pratos de alumínio dispostos em círculo sobre uma tábua de madeira que servia de mesa.
Ao lado de cada prato, um garfo e uma colher. No centro, um bule de café esmaltado de cor verde, com a tampa encaixada. Ao redor do bul, sete copos de plástico virados de boca para baixo.
O jeito que qualquer dona de casa do interior coloca os copos para não entrar poeira. Era como se alguém tivesse arrumado tudo para uma refeição e depois sumido. Valdomiro abriu o bully. Estava vazio. Os pratos estavam vazios. Não havia comida, não havia restos, não havia nada que indicasse que a refeição tinha sido servida e a mesa estava posta, mas ninguém tinha comido. No resto do barco, as descobertas eram igualmente desconcertantes.
Na cabine da proa, onde os pescadores costumavam guardar os pertences, havia sacolas plásticas organizadas com cuidado. Dentro de cada sacola, roupas dobradas, camisas, bermudas, chinelos.
Uma das sacolas continha uma carteira de couro com documentos em nome de Nivaldo Pereira Gomes com RG e CPF legíveis apesar do tempo. Outra sacola tinha um rádio portátil com as pilhas corroídas pelo ácido. Havia também um par de óculos de grau, uma bolsa de nylon com anzóis e linhas e um caderno espiral com anotações sobre pontos de pesca, nomes de ilhas, profundidades, datas escritas em letra miúda, que o mofo não tinha apagado completamente. O motor diesel estava no lugar com a hélice parcialmente enterrada no lodo e o tanque de combustível estava vazio. As redes de pesca estavam enroladas no convés, secas e endurecidas, mais inteiras. A caixa de isopor que servia para guardar o peixe estava na proa, aberta, vazia e limpa por dentro. Não havia marcas de impacto no casco, não havia sinais de fogo, não havia buracos, rachaduras ou deformações que sugerissem colisão ou encale violento. O barco parecia ter sido estacionado ali com cuidado, ancorado num ponto raso, onde a água mal cobria o fundo e depois abandonado.
Não havia sangue, não havia sinais de luta, não havia marcas de tiros, facadas ou qualquer tipo de violência. E sobretudo não havia corpos, nem dentro do barco, nem nas proximidades, nem na água ao redor. Os sete homens tinham simplesmente desaparecido, deixando para trás tudo o que carregavam: roupas, documentos, ferramentas de comida preparada para ser servida. como se tivessem se levantado da mesa ao mesmo tempo e caminhado para dentro do rio.
Valdomiro ligou para o dono da fazenda de um telefone fixo. O dono da fazenda ligou para a delegacia de Bom Jesus da Lapa. A delegacia ligou para a polícia civil em Salvador.
Em menos de 48 horas, o braço morto do rio onde o Santa Marta estava encalhado, virou cena de investigação. A polícia civil da Bahia isolou o barco e acionou a perícia de Salvador. A identificação da embarcação levou menos de uma semana.
O número da matrícula na capitania correspondia ao Santa Marta, registrado em Pirapora, desaparecido em novembro de 2008.
A notícia chegou às famílias por telefone 15 anos depois. Dona Iracema atendeu a ligação sentada na mesma cadeira de plástico do quintal. O, quem ligou foi um investigador da Polícia Civil de Minas Gerais que usou palavras cuidadosas, mas que não conseguiu responder a única pergunta que ela fez.
E os homens, doutor, onde estão os homens? O investigador não soube responder. Ninguém soube. A perícia criminal de Salvador enviou uma equipe ao local que permaneceu três dias examinando o barco. O laudo preliminar confirmou o que os vaqueiros já tinham observado. Não havia sinais de violência, não havia restos humanos, não havia manchas de sangue visíveis a olho nu ou sob luz ultravioleta.
A estrutura do casco estava íntegra. O motor apresentava desgaste compatível com o tempo de exposição, mas não apresentava danos mecânicos que indicassem falha súbita. As amostras de limo e sedimento recolhidas do casco foram enviadas para análise laboratorial e mas os resultados não trouxeram nenhuma informação relevante sobre a cronologia ou as circunstâncias do encale. O que a perícia não conseguiu explicar foi a preservação dos objetos pessoais. 15 anos de exposição ao clima do sertão baiano. Sol intenso, chuvas torrenciais.
Umidade constante deveriam ter destruído roupas de algodão, documentos de papel e objetos de plástico. Mas a lona que cobria o convés de popa, embora descolorida, tinha funcionado como uma proteção razoável. E a posição do barco, num braço morto, parcialmente coberto pela copa de uma gameleira grande, tinha criado uma espécie de sombra natural que reduziu a incidência direta do sol.
Mesmo assim, o grau de preservação era incomum. O caderno espiral, com anotações de pesca, por exemplo, tinha páginas mofadas, mais legíveis, pois a carteira de Nivaldo estava ressecada, mais inteira. Os pratos de alumínio estavam oxidad nas bordas, mas dispostos na mesma posição em que foram encontrados. A mesa posta foi o detalhe que mais intrigou os investigadores.
Sete pratos, sete garfos, sete colheres, sete copos, dispostos em círculo como para uma refeição compartilhada, mas sem comida, sem restos, sem marcas de uso. A perícia levantou duas possibilidades.
Ou a mesa foi posta para uma refeição que nunca aconteceu, os homens desapareceram antes de comer ou a mesa foi posta depois por alguém como uma espécie de encenação. A segunda hipótese foi descartada por falta de evidência e por falta de motivo. Quem faria isso? E por quê? A primeira hipótese era a mais lógica, mas também a mais perturbadora.
Se os homens desapareceram antes da refeição, o que os tirou do barco? E por que deixaram tudo para trás? Roupas, documentos, dinheiro, objetos pessoais?
Pessoas que fogem levam coisas. Pessoas que são sequestradas deixam sinais.
Pessoas que caem na água deixam marcas.
Pessoas que morrem deixam corpos. Os sete pescadores do Santa Marta não deixaram nada disso. Deixaram uma mesa posta e o silêncio. A notícia do achado se espalhou por Pirapora em questão de horas. Antes que a polícia emitisse qualquer comunicado oficial, o telefone de dona Iracema já estava tocando sem parar. vizinhos, parentes, conhecidos, todos queriam saber se era verdade, se tinham encontrado o barco, se tinham encontrado os homens. Iracema repetiu a mesma frase para cada pessoa que ligou.
Acharam o barco, mas não acharam ninguém. Na semana seguinte, dona Conceição viajou até Bom Jesus da Lapa para ver o barco com os próprios olhos.
Lhe foram quase 12 horas de estrada desde Pirapora, BR135 até Montes Claros, depois BR251 até Salinas, depois Estrada estadual até a Baahia. Conceição foi com o neto mais velho de seu Arlindo, um rapaz de 20 e poucos anos que dirigia um Fiat Uno emprestado.
Chegaram ao local no fim da tarde, quando o sol já estava baixo, e a luz dourada do sertão baiano cobria o rio de uma cor que parecia de outro tempo. O barco ainda estava ali isolado com fita da polícia.
Conceição pediu permissão para subir a bordo. O policial que fazia a guarda hesitou, mas acabou permitindo. Ela subiu pelo convés da proa, segurando na borda com as duas mãos, e caminhou devagar até a popa. Viu a mesa posta, viu os pratos, viu os copos virados para baixo. Ficou parada ali durante muito tempo, olhando sem falar. O neto ficou embaixo na margem. esperando. E quando ela desceu, tinha os olhos secos, mas o rosto mudado. Algo nele tinha endurecido de vez. Ela disse ao neto dentro do carro, na estrada de volta, eles estavam se preparando para comer. Estavam todos juntos e alguma coisa veio e levou eles, não sei o quê, mas sei que não foram embora porque quiseram. A Polícia Civil de Minas Gerais reabriu o inquérito original após o achado do barco. Novas diligências foram solicitadas. A Polícia Civil da Bahia compartilhou o material pericial.
O Ministério Público de Minas Gerais designou um promotor para acompanhar o caso. Mas a reabertura não trouxe respostas novas. Trouxe mais perguntas.
Como o barco percorreu mais de 600 km rio abaixo sem ser visto por ninguém. O Santa Marta saiu de Pirapora e apareceu na altura de Bom Jesus da Lapa, num trecho do São Francisco que fica em outro estado. Entre os dois pontos, o rio passa por dezenas de cidades e comunidades ribeirinhas.
Passa por São Romão, Januária, Manga, Itacarambi, Carinhanha, Serra do Ramalho, lugares onde há portos, há pescadores, a gente vive olhando para Serágua. Um barco de 12 m pintado de azul e branco, navegando rio abaixo, com ou sem tripulação, deveria ter sido avistado por alguém em algum momento, mas ninguém viu, ou ninguém disse que viu. Havia também a questão da navegação. Se os homens desapareceram perto de Pirapora, como sugeriam as circunstâncias, o barco teria descido 600 km sozinho à deriva, sem tripulação.
Em teoria, isso era possível. O São Francisco tem trechos longos de correnteza constante e um barco solto poderia descer durante dias ou semanas, nem empurrado pela água. Mas um barco a deriva bate em coisas, encalha em bancos de areia, fica preso em vegetação, roda em remansos, não percorre 600 km numa linha limpa e vai estacionar num braço morto, como se alguém tivesse guiado ele até ali. A alternativa era que alguém de fato tivesse guiado o barco até aquele ponto. Mas quem e por quê? E onde estavam os sete homens que deveriam estar a bordo? O laudo pericial final foi entregue em julho de 2023.
Tinha 34 páginas e concluía com uma frase que resumia 15 anos de silêncio.
Não foi possível determinar as causas e circunstâncias do desaparecimento dos sete tripulantes da embarcação Santa Marta. Tampouco a dinâmica que resultou na localização da embarcação no ponto em que foi encontrada.
Em Pirapora, o achado do barco não trouxe alívio e trouxe uma forma nova de dor, a dor de quase saber, de chegar perto da resposta e encontrar outra pergunta, de ver com os próprios olhos o lugar onde os homens estavam, o que os homens tocaram, o que os homens prepararam e não saber o que veio depois. Dona Iracema recebeu de volta a carteira de Tião. Estava dentro de um saco plástico lacrado com um número de protocolo colado do lado de fora. Ela abriu o saco na mesa da cozinha, tirou a carteira e ficou segurando durante muito tempo. Dentro havia o RG de Tião, o CPF, uma foto dos dois, a mesma do aniversário de 30 anos, e uma nota de R$ 20 dobrada em quatro. Iracema olhou para a nota e disse: “Para ninguém em particular. Ele sempre guardava uma nota no fundo da carteira. Dizia que era pro caso de precisar voltar para casa de qualquer jeito. A nota estava ali. Tião não. No Dona Lúcia recebeu a notícia do achado do barco por telefone num sábado de manhã enquanto estendia a roupa no varal dos fundos.
O filho mais velho, Sebastião, o que tinha entrado na marinha mercante, estava embarcado e só soube três dias depois, quando o navio atracou em Vitória, e ele conseguiu sinal de celular. Ligou para a mãe e ficaram os dois em silêncio durante quase um minuto antes de alguém falar. Sebastião disse: “Mãe, acharam o barco do vovô.” Lúcia disse: “Eu sei, meu filho.” Sebastião perguntou: “E agora?” Lúcia respondeu: “Agora nada. Agora é a mesma coisa de antes, só que pior. Dona Marlene, que aquela altura já tinha os quatro filhos crescidos e trabalhava como auxiliar de cozinha num restaurante na BR365, recebeu a notícia pelo grupo de WhatsApp da família. leu a mensagem, de largou o celular no balcão e foi para o banheiro dos funcionários.
Ficou ali 10 minutos. Quando voltou, a colega de trabalho perguntou se estava tudo bem. Marlene disse que sim, que era só uma tontura. Não contou nada. Não chorou na frente de ninguém. Chorou em casa, de noite, sozinha, como fazia desde 2008.
Dona Conceição foi a única que transformou a dor em ação. Depois de voltar de Bom Jesus da Lapa, procurou a imprensa regional. Deu entrevista para uma emissora de TV de Montes Claros e para um jornal online de Pirapora.
Contou a história do começo ao fim, mostrou as fotos, mostrou os documentos, mostrou o bilhete que tinha deixado na delegacia em 2009. Nós vamos continuar procurando com ou sem vocês. Pediu que o caso fosse reaberto de verdade, mas que alguém explicasse como um barco desaparece com sete homens e reaparece 15 anos depois com a mesa posta e sem ninguém a bordo. A repercussão foi moderada. A história circulou nas redes sociais durante algumas semanas. Um canal de YouTube sobre casos inexplicados fez um vídeo que teve 200.000 1 visualizações.
Um blogueiro de Belo Horizonte comparou o caso com o do Mary Celeste, o navio americano encontrado à deriva no Atlântico em 1872, intacto, com a mesa posta e sem tripulação.
A comparação era imperfeita, mas a imagem era poderosa. Um barco fantasma no São Francisco com pratos arrumados para um jantar que ninguém comeu. O inquérito permanece aberto até hoje. Não há suspeitos, não há corpos, não há explicação oficial.
As famílias dos sete pescadores continuam vivendo em Pirapora e em Montes Claros, e carregando o peso de uma ausência que não tem forma e não tem fim. O barco Santa Marta foi recolhido pela capitania fluvial e levado para um depósito em Juazeiro, na Bahia, onde permanece como evidência material de um caso que ninguém conseguiu resolver.
O rio São Francisco continua correndo, largo, lento, indiferente, passando por cidades que dormem cedo e acordam com o som da água, levando sedimento, levando peixe, levando tempo, guardando o que ninguém encontrou. Dona Iracema Botelho Reis completou 74 anos em outubro de 2023.
Continua morando na mesma casa. Continua com a bicicleta de Tião encostada no mesmo lugar. Continua com a fechadura da porta da frente sem trocar. Continua sentando na cadeira de plástico do quintal de noite, olhando na direção do rio que não dá para ver. Alguém perguntou a ela depois do achado do barco, n se agora ela aceitava que o marido não ia voltar. Ela ficou em silêncio durante algum tempo, depois disse: “Eu não aceito nada, eu só espero. É a única coisa que eu sei fazer. A nota de R$ 20 que Tião guardava na carteira para voltar para casa de qualquer jeito, está agora na gaveta da cômoda, junto com a certidão de casamento, os documentos e a foto do aniversário de 30 anos. A gaveta está fechada. A casa está quieta. O rio corre lá embaixo, como correu ontem, como vai correr amanhã. E os sete pratos de alumínio dispostos em círculo para uma refeição que nunca aconteceu, continuam sendo a última imagem que alguém teve dos sete homens do Santa Marta, sentados juntos, prontos para comer, num barco que o rio levou para longe e que o tempo não conseguiu explicar.