
Em 14 de setembro de 2006, às 6:41 da manhã, o piloto Renato Albernis Monteiro fez contato por rádio com a torre de São Gabriel da Cachoeira, no extremo noroeste do Amazonas.
Informou a altitude de cruzeiro, condições visuais limitadas por neblina densa e estimativa de pouso em Cucuí dentro de 45 minutos.
A torre confirmou o recebimento, pediu que mantivesse contato a cada 15 minutos. Renato respondeu com um câmbio firme, sem hesitação. Foi a última transmissão registrada.
O avião era um Cesna 206 branco com faixa azul, prefixo PTKLW, pertencente a uma empresa de táxi aéreo de Manaus, que operava rotas de abastecimento para comunidades ribeirinhas e postos de saúde isolados na fronteira com a Venezuela e a Colômbia. A bordo estavam Renato de 52 anos e dois passageiros.
o enfermeiro Cláudio Veríssimo da Cunha, de 38, e que ia repor medicamentos numa unidade básica de saúde perto de Cucui.
E dona Iracema Batista de Souza, 61 anos, professora aposentada que voltava para a comunidade onde havia nascido depois de três meses internada num hospital de Manaus, tratando uma infecção renal. levava na bagagem de mão um saco plástico com remédios, uma bíblia e uma fotografia emoldurada dos netos. Quando o avião não pousou em Cucui no horário previsto, o responsável pela pista de pouso, uma faixa de terra batida com biruta improvisada, tentou contato por rádio de alta frequência.
Não houve resposta. Ligou por telefone via satélite para a base da empresa em Manaus. A empresa tentou contato com Renato por mais 2 horas. Às 11:20 notificou a Força Aérea Brasileira.
O Salva Serviço de Busca e Salvamento, foi acionado às 13:05.
A busca aérea começou no dia seguinte.
A região onde o monomotor desapareceu é a Serra do Imeri, no coração do Parque Nacional do Pico da Neblina. A terra mais alta do Brasil. O pico da neblina tem 2.99 m de altitude e fica encravado na terra indígena Yanomame. Numa área de floresta amazônica tão densa e tão remota que existem trechos onde nenhum ser humano não indígena jamais pisou. A neblina que dá nome ao pico não é figura de expressão, é uma condição permanente.
Nas altitudes acima de 1800 m, a serra desaparece dentro de nuvens baixas durante a maior parte do ano. Pilotos que conhecem a rota dizem que voar ali é como entrar numa sala escura sem saber onde ficam as paredes. Renato Albernaz Monteiro conhecia aquele corredor aéreo.
Tinha mais de 6.000 horas de voo. A maioria delas na Amazônia. A a maioria delas em condições que pilotos do Sudeste considerariam inaceitáveis. Era um homem calado, metódico, que não bebia, que revisava o avião pessoalmente antes de cada decolagem e que havia recusado voos quando o tempo não lhe pareceu seguro. Sua esposa Marlene costumava dizer que Renato era o único homem que ela conhecia que tinha mais medo de imprudência do que de morrer.
Aquele dia o tempo não estava bom, mas estava dentro do que Renato considerava operável, e a carga era urgente. Dona Iracema precisava voltar. Cláudio levava insulina que não podia esperar. O salvairo buscou durante 11 dias.
helicópteros, aviões de patrulha, imagens de satélite. A floresta devolveu silêncio. Em 25 de setembro, a operação foi oficialmente suspensa. O relatório final registrou aeronave não localizada e causa do desaparecimento indeterminada, tripulantes e passageiros dados como desaparecidos.
A família de Renato recebeu a notícia numa sala da base aérea de Manaus, sentada em cadeiras de plástico branco debaixo de um ventilador que fazia barulho demais. Marlene segurou a mão da filha mais velha e não chorou. pediu uma cópia do relatório, pediu os mapas com as rotas de busca, pediu o nome de cada piloto que havia sobrevoado a área e disse com uma voz que o oficial que a atendeu descreveu depois como a coisa mais firme que ele já tinha ouvido numa situação daquelas.
Se vocês pararam de procurar, eu vou continuar. Ela continuou durante 17 anos. Em março de 2023, um drone de reconhecimento do exército brasileiro, operando numa missão de mapeamento da fronteira norte, que captou imagens aéreas de alta resolução num trecho da vertente oeste da serra do Imeri, a aproximadamente 12 km do pico da neblina.
Entre a copa das árvores, numa clareira que não constava em nenhum mapa, apareciam os restos de uma fuzelagem branca com faixa azul. Ao lado, três círculos escuros no chão. O analista de imagens precisou de dois dias para confirmar o que estava vendo. Eram marcas de fogueiras recentes. O avião estava ali havia 17 anos. Mas alguém, ao que tudo indica, esteve ali muito depois da queda. Esta é a história de um piloto que nunca voltou, de uma família que se recusou a parar de procurar e de uma imagem captada por acaso que reabriu um caso que o Brasil já tinha esquecido e que trouxe mais perguntas do que respostas. Dá se esse tipo de história te faz questionar o que acontece nos lugares do Brasil, onde o Estado não chega, você pode se inscrever no canal e deixar o seu comentário.
A partir daqui, a história avança devagar, porque tudo o que aconteceu entre aquele dia de setembro e aquela imagem de drone precisa ser contado na ordem certa, sem atalhos. O que acontece com uma família quando o corpo não aparece e o luto não pode começar? O que significa procurar alguém numa floresta onde os próprios mapas têm espaços em branco? E o que são aquelas fogueiras ao lado de um avião que ninguém deveria ter encontrado?
Estamos em São Gabriel da Cachoeira, setembro de 2006, a cidade mais indígena do Brasil, encravada no alto rio Negro, a mais de 1800 km de Manaus por via fluvial. Aqui monomotor não é luxo e é a única forma de chegar a tempo. Renato Albernaz Monteiro começou a voar na Amazônia em 1987, quando tinha 33 anos, e uma licença de piloto comercial recémcarimbada que ainda cheirava a tinta. Chegou a Manaus num ônibus vindo de Goiânia com uma mala de roupas, R$ 200 no bolso e uma indicação de um primo que trabalhava no porto. O primo conhecia um dono de táxi aéreo que precisava de pilotos dispostos a voar para onde ninguém queria ir.
Renato era exatamente esse tipo de piloto. Nos primeiros anos, voou rotas curtas entre Manaus e cidades do interior do Amazonas. Tefé, Quari, Barcelos. Pistas de terra improvisadas no meio da mata, onde o piloto tinha que espantar cachorro da faixa de pouso antes de descer. Carregava caixas de remédio, peças de motor de barco, sacos de cimento, professores, enfermeiros.
Não era às vezes um promotor de justiça que ia fazer audiência em comarca que só existia no mapa. O avião era o cordão umbilical entre Manaus e o resto do estado. E Renato era um dos homens que segurava esse cordão. Com o tempo, foi ganhando as rotas mais longas, as que subiam para o noroeste, para o alto rio negro, para a faixa de fronteira com a Colômbia e a Venezuela.
São Gabriel da Cachoeira, Cucui, Iuaretê eram os voos mais difíceis. Não por distância, a maioria não passava de duas horas, mas pela geografia.
A serra do Ieri fecha o horizonte de repente a neblina desce sem aviso e não existe alternativa de pouso. Ou você passa por cima ou volta, não tem meio termo. Renato aprendeu aquele corredor de nuvens como quem decora o caminho de casa no escuro. Sabia em que ponto a neblina costumava fechar e a que altitude o vento mudava de direção. em que horário do dia as correntes térmicas empurravam o avião para baixo sem aviso.
Tinha um caderno onde anotava as condições de cada voo, com data, hora, altitude e observações escritas numa letra miúda que só Marlene conseguia decifrar. Não confiava em equipamento eletrônico. Dizia que instrumento falha, mas instinto não. E que instinto se treina voando, não lendo o manual. Os colegas de profissão respeitavam Renato, mas não o consideravam simpático. Era um sujeito de poucas palavras, que não participava das conversas no hangar depois do expediente e que recusava convites para churrasco com uma naturalidade que não ofendia, mas também não aproximava.
Tinha dois amigos. Um era mecânico de aviação, o outro era piloto aposentado que morava em Presidente Figueiredo. Com esses dois, Renato falava, lecou o resto do mundo operava. Marlene entendia esse silêncio. Ela própria era uma mulher queia as palavras. Tinham se conhecido em 1983 num baile de forró em Goiânia, quando Renato ainda trabalhava como motorista de caminhão e sonhava com o brevê.
Casaram em 1985.
Tiveram duas filhas, Tatiana em 1978 e Lúcia em 1982.
Quando Renato disse que ia para Manaus tentar a vida como piloto, Marlene não discutiu. Arrumou as malas das meninas e foi junto. Nunca reclamou, mas também nunca fingiu que não tinha medo. Toda vez que Renato saía para um voo no alto rio negro, Marlene colocava o rádio na frequência da empresa e ficava ouvindo.
não entendia os códigos, não sabia interpretar as posições, mas reconhecia a voz do marido no meio do chiado.
Enquanto ouvisse aquela voz, estava tudo bem. No dia em que não ouviu, e soube antes de qualquer telefonema que alguma coisa tinha dado errado. Renato tinha 52 anos em setembro de 2006.
Já falava em se aposentar. tinha juntado dinheiro para comprar um sítio perto de Presidente Figueiredo, com um igarapé nos fundos onde queria pescar nas manhãs de sábado. Mostrava o terreno no celular para quem quisesse ver. Tinha planta baixa da casa desenhada à mão num papel de caderno, três quartos, varanda com rede, garagem para o carro que ainda não tinha comprado. Faltavam dois anos, ele dizia, 2 anos e eu largo essa vida.
Faltaram 45 minutos.
O tempo entre a última transmissão e o horário previsto de pouso em Cucui. 45 minutos que separaram a aposentadoria da serra. Iracema Batista de Souza nasceu numa comunidade ribeirinha do Alto Rio Negro em 1945.
Is numa casa de palafita que seu pai havia construído com as próprias mãos antes da enchente grande daquele ano.
Passou a vida inteira entre o rio e a roça. Deu aula durante 31 anos numa escola municipal sem energia elétrica e só saiu daquela região duas vezes na vida, as duas para tratar problemas de saúde em Manaus. A terceira vez deveria ter sido a volta para casa. A comunidade onde dona Iracema morava ficava a 4 horas de barco de São Gabriel da Cachoeira, rio acima, num trecho do rio Negro, onde a água é tão escura que parece café passado e onde o silêncio nas tardes sem vento é tão denso que se ouve o bater de asa de um gavião a 100 m de distância. A escola onde ela havia dado aula era um barracão de madeira com telhado de zinco e três fileiras de bancos e um quadro negro que tinha sido pintado com tinta automotiva por falta de material adequado.
Dona Iracema dava aula de português e matemática para crianças de 6 a 14 anos em turmas multiseriadas, usando livros didáticos que chegavam com 2 anos de atraso e às vezes chegavam mofados.
Ela se aposentou em 2002, aos 57 anos, com um salário que mal cobria os remédios. Continuou morando na comunidade, na mesma casa de Palafita, que agora era mantida por um sobrinho, e continuou dando reforço escolar de graça para os filhos dos vizinhos. Era uma mulher pequena, magra, de cabelo branco, preso num coque que nunca se desfazia, com mãos que tremiam ligeiramente por causa de uma neuropatia que os médicos de Manaus não conseguiram identificar com precisão.
Em junho de 2006, no Dona Iracema foi levada a Manaus de Barco numa viagem que durou três dias, porque uma infecção renal que ela vinha tratando com chá de boldo e antibiótico comprado na farmácia de São Gabriel tinha piorado a ponto de ela não conseguir ficar de pé. foi internada no Hospital Universitário Getúlio Vargas, onde ficou durante quase três meses dividindo o quarto com outras quatro mulheres, comendo comida que ela não conhecia e sentindo uma saudade que, segundo a enfermeira que cuidou dela, era tão visível que parecia doença.
Quando recebeu alta em setembro, a primeira coisa que fez foi perguntar como voltar. O barco demoraria dias, o avião menos de duas horas. A passagem custava mais do que ela recebia num mês, mas a ONG que empregava Cláudio Veríssimo tinha um convênio com a empresa de táxi aéreo e conseguiu incluir dona Iracema no voo que levaria o enfermeiro até Cucuí. Ela embarcou com um saco de remédios, uma Bíblia gasta pelo uso e a fotografia dos netos que havia ficado na mesinha do hospital durante toda a internação. Ninguém sabe o que dona Iracema pensou durante o voo.
Ninguém sabe se olhou pela janela e reconheceu a curva do rio, se rezou, se dormiu. Sabe-se apenas que estava voltando para casa e que nunca chegou.
Na comunidade onde ela morava, a notícia do desaparecimento chegou por rádio três dias depois. O sobrinho que mantinha a casa ouviu a informação numa transmissão da manhã e ficou em silêncio durante o resto do dia. À noite, acendeu uma vela na varanda da palafita, acendeu outra no dia seguinte. E no dia seguinte, a vela ficou acesa na varanda durante semanas, até que a chuva forte de outubro levou o castiçal e ninguém o recolocou. A operação Salvaero mobilizou dois helicópteros do esquadrão pelicano, um avião P95 bandeirulha da FAB e apoio de duas aeronaves civis cedidas por empresas de táxi aéreo da região. O raio de busca inicial foi definido com base na última posição conhecida do PTKLW, na autonomia de combustível restante e nos ventos registrados naquela manhã.
Era uma área de aproximadamente 3.000 km quadrados de floresta contínua, sem estradas, sem clareiras mapeadas e com cobertura de nuvens em 80% dos dias. O primeiro helicóptero decolou de São Gabriel da Cachoeira às 7:15 da manhã do dia 15 de setembro, menos de 24 horas depois do desaparecimento.
A tripulação era experiente em operações de busca na Amazônia, mas mesmo os mais veteranos sabiam que procurar um avião branco numa floresta que vista de cima parece um tapete verde infinito, era como procurar uma moeda no fundo de um rio barrento. A copa das árvores na serra do Imeri chega a 40 m de altura em alguns trechos.
Um Cesna 206 tem 11 m de envergadura.
Mesmo que a aeronave tivesse caído numa clareira, bastavam poucos dias para a vegetação começar a cobrir os destroços.
Nos três primeiros dias, os helicópteros voaram em padrão de varredura sobre a rota estimada do PTKLW, da posição da última transmissão até Cucui. Não encontraram nada. No quarto dia, ampliaram o raio de busca para incluir áreas laterais, considerando a hipótese de que o piloto tivesse desviado da rota por causa da neblina.
No sexto dia, Ná choveu durante todo o período da manhã e os voos foram cancelados.
No sétimo dia, um dos helicópteros civis teve problema mecânico e foi retirado da operação.
No dia, a FAB reduziu o número de horas de voo diárias, alegando limitações logísticas. No 11º dia, a operação foi oficialmente suspensa. 11 dias. É o tempo que o sistema dedicou à busca de três pessoas que desapareceram na floresta mais densa do planeta. 11 manhãs em que os helicópteros decolaram, sobrevoaram uma imensidão verde e voltaram sem nada. 11 tardes em que os pilotos de busca preencheram relatórios com as mesmas palavras: área sobrevoada, nenhum indício visual de destroços, condições meteorológicas desfavoráveis.
Para quem mora em cidade grande, 11 dias pode parecer pouco. Para quem está esperando dentro de uma floresta, se é que alguém estava esperando, 11 dias é uma vida inteira. 11 dias sem comida adequada, sem água tratada, sem saber se alguém está procurando, sem saber se o sinal que você faz será visto por alguém. E depois o silêncio. O silêncio de saber que os helicópteros pararam de vir. O relatório final do salvaero ocupou quatro páginas. Descrevia as condições da busca, as horas voadas, as áreas cobertas e as limitações enfrentadas.
Na última página, numa linguagem burocrática que parecia ter sido escrita por alguém que já havia redigido o mesmo texto dezenas de vezes, constava a conclusão: busca encerrada sem localização da aeronave ou de seus ocupantes.
Recomenda-se manutenção do alerta em caso de novas informações.
novas informações, como se a floresta fosse ligar para avisar. De quando Marlene Ferraz Monteiro voltou do briefing na base aérea com os mapas debaixo do braço, a filha mais velha, Tatiana, de 28 anos, já havia transformado a mesa da cozinha do apartamento no bairro Cidade Nova em Manaus, num escritório improvisado.
Havia um notebook antigo, um caderno de espiral, uma lista de telefones escritos à mão e um mapa rodoviário do Amazonas aberto no centro da mesa, preso com copos nos cantos. A partir daquele dia, a mesa não serviu mais para refeições.
Marlene não tinha formação técnica, não entendia de aviação, de meteorologia, de navegação aérea, mas entendia de persistência.
e entendia de burocracia, porque havia passado 20 anos sendo esposa de piloto de táxi aéreo no Amazonas, o que significava lidar com seguradoras, com a ANAC, com papelada de angar, com mecânicos que prometiam e não cumpriam, né? com empresas que atrasavam salário.
Ela sabia como o sistema funcionava e sabia, acima de tudo, que o sistema não tinha pressa. Nas primeiras semanas depois do encerramento da busca, Marlene ligou para todos os números que conseguiu.
ligou para a FAB, para o SENIPA, para a Polícia Federal, para o Ministério Público Federal em Manaus, para empresa de táxi aéreo, para outros pilotos que conheciam a rota, paraa prefeitura de São Gabriel da Cachoeira, para a FUNAI, para ONGs que atuavam na região. A maioria das ligações terminava da mesma forma, com alguém do outro lado da linha dizendo que entendia a situação, que lamentava profundamente e que no momento não havia mais nada a ser feito. Tatiana cuidava da parte digital. criou pastas no computador com os relatórios que conseguiu obter, com as coordenadas das áreas sobrevoadas e com recortes de jornal, com e-mails trocados com a FAB, com prints de imagens de satélite que ela não sabia interpretar, mas que guardava porque alguém um dia poderia precisar.
Escreveu cartas para programas de televisão, mandou e-mails para jornalistas, tentou contato com a embaixada da Venezuela, porque parte da serra ficava na fronteira e existia a remota possibilidade de o avião ter cruzado para o outro lado. A filha mais nova, Lúcia, de 24 anos, não participava das buscas, não por indiferença, mas por incapacidade.
Lúcia havia entrado numa espécie de paralisia emocional que os médicos mais tarde chamariam de luto complicado.
Não chorava, não falava sobre o pai, não perguntava sobre as investigações.
Ia trabalhar, voltava, trancava a porta do quarto e ficava em silêncio.
Marlene respeitava esse silêncio, mas às vezes de madrugada e quando passava pelo corredor, ouvia a filha chorando baixinho com o rosto no travesseiro.
Nunca bateu na porta. Sabia que certas dores precisam de espaço. A mesa da cozinha ficou assim durante anos. Mapas, papéis, cadernos. As refeições passaram a ser feitas no balcão da pia ou na varanda em pé com prato na mão. As visitas que chegavam ao apartamento estranhavam, algumas perguntavam.
Marlene explicava uma vez com calma e não voltava ao assunto. As que entendiam ficavam, as que não entendiam paravam de vir. A certa altura, por volta de 2010, a mesa ganhou um mapa novo. Não era mais o mapa rodoviário do Amazonas, era uma impressão em tamanho grande de uma imagem de satélite da Serra do Immery, obtida por Tatiana num site americano de georreferenciamento.
A imagem mostrava um mar de verde com variações sutis de tonalidade que, para olhos não treinados não diziam nada.
Mas Tatiana havia aprendido a ler aquele verde. Havia feito cursos online de interpretação de imagens aéreas. Havia conversado com geólogos, com biólogos, com militares aposentados.
Sabia que uma clareira recente tem uma cor diferente de uma clareira antiga?
Sabia que metal reflete luz de um jeito específico. Sabia que a floresta engole tudo, mas não engole na mesma velocidade. Marlene olhava para aquele mapa todas as manhãs antes de sair para o trabalho. Trabalhava como auxiliar administrativa numa clínica odontológica no centro de Manaus. Nunca faltou, nunca pediu licença, nunca deixou o trabalho afetar a busca, nem a busca afetar o trabalho. Eram duas vidas paralelas que ela mantinha funcionando com uma disciplina que assustava quem conhecia a situação. um canto da mesa e debaixo de um peso de papel que era na verdade uma pedra de rio que Renato havia trazido de uma viagem a Barcelos, ficava uma lista escrita à mão por Marlene. Tinha o título Coisas que eu sei e abaixo, em tópicos numerados, tudo o que ela considerava fato confirmado sobre o desaparecimento.
Última posição, horário, condições do tempo, combustível estimado, peso da carga, nomes dos passageiros, número do prefixo, frequência do rádio. Eram 13 itens. Em 17 anos, a lista não mudou.
Cláudio Veríssimo da Cunha Manaus. Tinha chegado de Imperatriz, no Maranhão, em 2001, contratado por uma ONG de saúde que atuava em comunidades indígenas do alto rio Negro. Era solteiro, morava num quarto alugado no bairro Compensa e mandava dinheiro todo o mês para a mãe, os que vivia com uma irmã numa casa simples na periferia de Imperatriz.
Quando o avião desapareceu, a ONG comunicou o fato à família por telefone.
A mãe, dona Nazaré, ouviu a notícia em silêncio e depois perguntou uma única coisa: “Ele tava sozinho?” Cláudio era o tipo de profissional que o sistema de saúde brasileiro produz e depois esquece. Formado em enfermagem por uma faculdade particular de São Luís, com nota mediana e sem indicação, ele sabia desde cedo que seu destino não seria um hospital com ar- condicionado e plantão de 12 horas no litoral. Seria o interior, o Brasil que não aparece no jornal. E foi para lá que ele foi. Nos 5 anos que passou no Alto Rio Negro, antes do desaparecimento, Cláudio percorreu dezenas de comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas, algumas acessíveis apenas por canoa, e levando vacinas em caixas de isopor, fazendo curativos com material improvisado, medindo pressão com aparelhos que já tinham passado da validade de calibração.
Dormia em rede, comia o que ofereciam, aprendia palavras em línguas que não constavam em nenhum dicionário, não se queixava, não publicava fotos nas redes sociais, não era herói na definição que as pessoas costumam usar, era um enfermeiro que fazia o trabalho. A ONG que o empregava era pequena, com sede em Manaus e financiamento internacional que chegava em parcelas irregulares.
Quando o avião sumiu, a organização emitiu uma nota de pesar, comunicou a Polícia Federal e encaminhou os documentos de Cláudio para a superintendência regional do trabalho.
Depois disso, o nome de Cláudio Veríssimo da Cunha desapareceu dos registros da mesma forma que o avião desapareceu da serra, e, sem ruído, sem rastro, sem cerimônia. Dona Nazaré, em Imperatriz, esperou durante meses uma ligação que explicasse alguma coisa. A ligação nunca veio. Em 2007, pediu a um vizinho que era estudante de direito para ajudá-la a entender a situação legal. O vizinho descobriu que não havia boletim de ocorrência em nome de Cláudio na Polícia Civil do Amazonas. O registro existia apenas na Polícia Federal, vinculado ao inquérito da aeronave, não às pessoas. Cláudio era um item no relatório do avião. Não era o sujeito da investigação, era a carga. Dona Nazaré não tinha dinheiro para ir a Manaus, não tinha advogado, não tinha contato com a família do piloto, não tinha acesso à internet, vivia da aposentadoria rural e da ajuda de uma filha que trabalhava como faxineira em Palmas. Em 2009, quando a certidão de óbito de Renato foi emitida por presunção, ninguém informou dona Nazaré de que o mesmo procedimento poderia ser feito para Cláudio. Ela só ficou sabendo disso em 2012, quando uma assistente social da Prefeitura de Imperatriz, durante uma visita de rotina, perguntou sobre a situação do filho e se espantou ao descobrir que legalmente Cláudio ainda estava vivo.
Estava desaparecido, mas vivo. O que significava que dona Nazaré não podia acessar nenhum benefício, nenhuma pensão, nenhum direito vinculado ao falecimento.
A certidão de óbito por presunção de Cláudio foi emitida em 2013, 7 anos depois do desaparecimento.
Depois de um processo que dona Nazaré não acompanhou porque não sabia ler e porque o fórum mais próximo ficava a 40 km de ônibus da casa dela. Assinou com o polegar quando saiu do fórum e disse à filha que a acompanhava. Agora tão dizendo que ele morreu, mas ninguém me mostrou onde. É assim que o Brasil trata os desaparecidos que não tm sobrenome de destaque, que não moram em capitais, que não tem família com acesso a advogado.
Não é por maldade, é por estrutura. O sistema não foi feito para encontrar quem se perde nos espaços em branco do mapa. foi feito para registrar, arquivar e seguir em frente. Entre 2007 e 2014, o caso do PTKLW deixou de existir para o sistema. O inquérito aberto pela Polícia Federal em São Gabriel da Cachoeira foi remetido à superintendência de Manaus, onde ficou numa pilha de procedimentos aguardando diligências que nunca foram realizadas.
O SENIPA emitiu um relatório preliminar, classificando o evento como acidente presumido por impacto contra terreno em condições meteorológicas adversas e sem confirmação de destroços.
A certidão de óbito de Renato foi emitida por presunção judicial em 2009, depois de um processo que Marlene se recusou a assinar e que foi movido pela empresa de táxi aéreo para fins de seguro. A empresa precisava da certidão para encerrar o contrato, acionar o seguro da aeronave e desvinculá-la do registro da ANAC. Era uma questão administrativa para empresa, o avião era uma perda contábil. Para Marlene era o lugar onde o marido estava. A diferença entre essas duas formas de ver a mesma coisa nunca foi resolvida. E Marlene nunca perdoou a empresa por ter tratado o desaparecimento como um trâmite. Nos anos seguintes, o silêncio foi se tornando mais espesso.
Não o silêncio da floresta, esse sempre esteve lá, mas o silêncio institucional.
Os telefones que antes atendiam deixaram de atender e os e-mails que antes eram respondidos com pelo menos uma frase de cortesia passaram a voltar sem resposta.
O delegado da Polícia Federal que havia aberto o inquérito, foi transferido para Belém. O novo delegado não conhecia o caso. O promotor do Ministério Público Federal, que havia acompanhado a busca inicial, se aposentou em 2010.
O substituto tinha 140 processos na mesa e nenhum deles era um avião desaparecido havia 4 anos. Marlene percebeu que o caso estava morrendo quando tentou agendar uma reunião no Ministério Público em 2011 e a secretária perguntou de qual caso se tratava. Marlene disse o número do inquérito. A secretária pediu que aguardasse, voltou 5 minutos depois e disse que o processo estava no arquivo, que precisava ser desarquivado e que isso levaria de 30 a 60 dias.
Marlene agradeceu. No desligou o telefone e ficou parada na cozinha por um tempo que Tatiana não soube precisar.
Depois disse para ninguém em particular.
Eles esqueceram. É uma frase simples, cinco sílabas, mas carrega o peso de quem entende que a partir daquele momento, a busca é dela e de mais ninguém, que o Estado fez o que achou que devia fazer, preencheu os formulários, voou os helicópteros, redigiu os relatórios e seguiu adiante, e que quem ficou para trás ficou sozinho. A vida continuou na cidade nova. Tatiana casou em 2012, teve um filho em 2014, continuou trabalhando como técnica em informática numa empresa de ar condicionado e continuou atualizando as pastas do computador com qualquer informação nova que surgisse, o que era cada vez mais raro. Lúcia se mudou para Porto Velho em 2013, onde arrumou emprego numa loja de material de construção. ligava para a mãe toda semana, mas não perguntava sobre o pai.
Marlene não forçava. Cada uma carregava a ausência do jeito que conseguia.
O apartamento da cidade nova não mudou.
Os móveis ficaram nos mesmos lugares. O rádio que Marlene usava para ouvir as transmissões continuava na prateleira da sala, desligado, coberto por uma camada fina de poeira que Marlene limpava toda sexta-feira com um pano úmido, como se o aparelho ainda servisse para alguma coisa. Talvez servisse, talvez limpar aquele rádio fosse a forma que Marlene encontrou de dizer que ainda estava ali, que não tinha desistido, que o canal continuava aberto, mesmo que ninguém transmitisse do outro lado. Em 2015, Tatiana encontrou na internet um fórum de famílias de vítimas de acidentes aéreos no Brasil. Era um grupo pequeno com menos de 200 membros. né? A maioria parentes de pessoas que haviam morrido em quedas de avião de pequeno porte na Amazônia e no Centro-Oeste.
As histórias eram parecidas: busca curta, relatório inconclusivo, inquérito arquivado, família abandonada. Tatiana começou a trocar mensagens com outras filhas, outras esposas, outros irmãos que carregavam a mesma pergunta: “Onde estão?” Foi nesse fórum que Tatiana conheceu um engenheiro florestal aposentado de Boa Vista, Horaima, que havia perdido o irmão num acidente semelhante em 1998, na Serra do Parima. O irmão pilotava um monomotor que desapareceu durante uma tempestade. Os destroços nunca foram encontrados. O engenheiro, no entanto, havia continuado procurando por conta própria durante 15 anos, usando imagens de satélite e contatos com comunidades indígenas e uma teimosia que Tatiana reconheceu imediatamente como sendo da mesma natureza que a da mãe. Ele não tinha encontrado o avião do irmão, mas tinha desenvolvido um método. E foi esse método que Tatiana decidiu usar. Em agosto de 2016, 10 anos depois do desaparecimento, Tatiana Ferraz Monteiro embarcou num barco fretado em São Gabriel da Cachoeira, rumo à comunidade de Maturacá, a porta de entrada terrestre para a serra do Imeri, levava consigo um guia anomame chamado Davi, um GPS de mão emprestado, mantimentos para 5 dias e uma autorização da Funai que ela havia conseguido. Depois de 14 meses de burocracia, Marlene ficou em Manaus, não por falta de vontade, mas porque o corpo já não permitia. A viagem de barco até Maturacá durou um dia e meio. O rio era largo e lento, e a cor da água variava entre o preto e o marrom escuro, conforme as curvas. E o barulho do motor de popa era o único som constante num mundo de silêncio verde. Tatiana leva no bolso da calça uma cópia plastificada da última foto do pai, tirada no hangar três dias antes do voo, onde Renato aparecia de perfil, conferindo o nível de óleo do motor, com a expressão concentrada de quem faz aquilo pela milésima vez, e, ainda assim confere como se fosse a primeira. Maturacá é uma comunidade ianomame de cerca de 400 pessoas, situada no sopé da serra do Immer, num vale onde o rio Kauabures serpenteia entre pedras escuras. É o ponto de partida para quem quer subir o pico da neblina nos raros períodos em que a trilha está aberta e autorizada.
Tatiana não pretendia subir o pico, pretendia entrar na mata pela vertente oeste e, seguindo uma rota que o engenheiro de Boa Vista havia traçado com base em cálculos de autonomia de combustível e direção de ventos no dia do desaparecimento.
Davi, o guia, tinha 45 anos e conhecia a serra como quem conhece o próprio quintal. tinha subido o pico mais de 30 vezes, acompanhando expedições militares e científicas.
sabia onde havia água, onde a trilha desaparecia, onde a neblina fechava sem aviso. Quando Tatiana explicou o que estava procurando, Davi ouviu em silêncio, olhou para o mapa que ela mostrava e disse que já tinha ouvido falar de um avião. Não daquele avião especificamente, mas de um avião. Disse que antigos da comunidade mencionavam um barulho forte que tinham ouvido muitos anos atrás.
vindo do lado da serra onde ninguém ia.
Um barulho que não era trovão. A expedição durou quatro dias. Da Tatiana e Davi caminharam por trilhas que em certos trechos não eram trilhas. Eram passagens entre árvores que Davi abria com facão e que a floresta fechava de novo em questão de horas. A humidade era de 90% constante. As roupas não secavam, os pés não secavam. O GPS funcionava quando havia abertura na Copa, o que acontecia raramente. A maior parte do tempo, Tatiana seguia Davi, confiando na orientação dele da mesma forma que os passageiros do pai confiavam na orientação do pai. No terceiro dia, chegaram a um trecho da vertente, onde a vegetação mudava. As árvores eram mais baixas, o subbosque mais denso e o chão tinha uma camada de musgo tão espessa, que os pés afundavam a cada passo. Davi parou e disse que não conhecia aquela área. Disse que nunca tinha ido tão longe naquela direção. Mod disse que os antigos falavam que ali era lugar de espírito e que ele não tinha medo, mas tinha respeito. Tatiana quis continuar.
Davi aceitou, mas com uma condição.
Voltariam antes do anoitecer, independentemente do que encontrassem ou não encontrassem. Caminharam por mais 3 horas. Não encontraram nada. Nenhum destroço, nenhuma clareira, nenhum sinal de metal ou de presença humana. Apenas floresta. Floresta densa, fechada, indiferente. No quarto dia voltaram a Maturacá. Tatiana agradeceu a Davi, pagou o valor combinado e embarcou no barco de volta a São Gabriel da Cachoeira. No caderno que levava na mochila, escreveu uma única frase: “Não achei, mas sei que tá lá”. Quando voltou a Manaus, Marlene perguntou como tinha sido. Tatiana contou tudo sem omitir a frustração nem a certeza. Marlene ouviu, assentiu e disse: “A gente continua.
que era uma frase que já havia dito centenas de vezes, mas naquele momento, sentada na cozinha do apartamento da cidade nova, com o mapa de satélite aberto na mesa e o ventilador fazendo barulho, a frase tinha um peso diferente, porque 10 anos tinham passado, porque Marlene tinha 61 anos, porque o corpo doía de manhã de um jeito que não doía antes, e porque continuar a essa altura, Não era mais esperança, era decisão. Em março de 2023, o quinto batalhão de infantaria de selva, sediado em São Gabriel da Cachoeira, realizava uma operação de rotina de mapeamento e vigilância da faixa de fronteira norte.
fazia parte do programa Sisfron, sistema integrado de monitoramento de fronteiras, um drone modelo Hermes 450, operado remotamente a partir de uma base avançada, nos sobrevoava um trecho da vertente oeste da serra do Imeri, quando o sensor óptico registrou uma anomalia na cobertura vegetal. O operador, um sargento de 34 anos, cujo nome foi divulgado, ampliou a imagem e viu o que parecia ser uma estrutura metálica parcialmente coberta por vegetação.
O sargento não estava procurando um avião, estava procurando sinais de atividade ilegal na faixa de fronteira, pistas de pouso clandestinas, acampamentos de garimpo, movimentação de embarcações em áreas restritas. Era uma missão de rotina. o tipo de operação que o exército realiza periodicamente na região norte e que raramente produz resultados que cheguem ao noticiário.
O drone voava a uma altitude de 3.000 m, com câmera de alta resolução apontada para baixo, varrendo faixas de terreno de forma sistemática.
E a anomalia apareceu no canto inferior esquerdo da tela, num frame que o sistema quase descartou automaticamente por estar fora do quadrante prioritário.
O sargento, por procedimento, ampliou a imagem. O que viu foi uma forma retangular, parcialmente branca, parcialmente tomada por vegetação, numa clareira que não constava em nenhum banco de dados cartográfico.
Ao redor, a floresta era contínua. Não havia trilha, não havia rio próximo, não havia nenhuma razão lógica para que existisse uma clareira naquele ponto. O sargento marcou as coordenadas e enviou a imagem para análise na base de São Gabriel. O analista de imagens, um tenente especializado em sensoriamento remoto, solicitou uma segunda passagem do drone pelo mesmo ponto, com resolução máxima. A segunda imagem confirmou a presença de uma estrutura metálica compatível com fuzelagem de aeronave de pequeno porte. Confirmou também algo que a primeira imagem não havia mostrado com clareza. Há aproximadamente 30 m da estrutura, havia três marcas circulares no solo, mais escuras que o terreno ao redor, com diâmetro estimado de 1,5 m cada uma. O tenente consultou o banco de dados de aeronaves desaparecidas na região e encontrou o registro do PTKLW, desaparecido em 14 de setembro de 2006.
As coordenadas do achado estavam dentro do raio de busca original do salvairo, mas numa área que, segundo os registros, havia sido sobrevoada apenas duas vezes durante a operação, ambas em dias de forte cobertura de nuvens.
A informação subiu à cadeia de comando.
Em dois dias chegou ao comando militar da Amazônia em Manaus. Olha, em cinco dias chegou a Fabi. Em sete dias, uma equipe de resgate e perícia foi mobilizada. 17 anos. Aquele avião esteve a 12 km do pico da neblina durante 17 anos. coberto pela floresta, ignorado pelo sistema, invisível para os satélites.
Até que um drone que não estava procurando nada daquilo passou por ali num dia em que as nuvens por acaso, abriram. A equipe de resgate e perícia que chegou ao local dos destroços em abril de 2023, transportada por helicóptero militar até uma clareira natural a 600 m do ponto de impacto, encontrou a fuzelagem do Cesna 206 PTK, LW em estado de deterioração avançada, mas reconhecível.
A asa direita havia se desprendido no impacto e estava a aproximadamente 40 m do corpo principal da aeronave.
A hélice estava enterrada no solo e o motor estava parcialmente coberto por raízes. Dentro da cabine encontraram restos de bagagem, fragmentos de tecido e objetos pessoais irreconhecíveis.
Não encontraram restos humanos no interior do avião, a 32 m da fuzelagem, no perímetro de uma clareira que não parecia natural. As bordas eram regulares demais, como se alguém tivesse cortado a vegetação com ferramentas.
Havia três círculos de terra enegrecida, fogueiras. A análise preliminar de campo indicou que a combustão mais recente não era de 17 anos atrás.
Os resíduos de carvão apresentavam características compatíveis com queima relativamente recente, embora a determinação exata da data dependesse de análise laboratorial.
Ao redor das fogueiras, a equipe encontrou fragmentos de ossos que foram recolhidos para a análise. Encontrou também uma peça metálica que foi identificada como parte da fivela de um cinto de segurança de aeronave.
encontrou um pedaço de tecido sintético azul, que poderia ser fragmento de roupa ou de bagagem, e encontrou a 7 m de uma das fogueiras uma pedra de rio lisa, do tipo que se encontra em leitos de garapé, colocada sobre o que parecia ser uma cova rasa coberta de folhas. A equipe escavou a cova com cuidado.
Encontrou restos óse humanos em estado avançado de decomposição.
A análise de campo não permitiu identificação, mas a posição dos restos sugeria um sepultamento intencional. Os ossos estavam organizados, não dispersos. As fogueiras levantaram mais perguntas do que qualquer outro elemento encontrado no local. Quem fez aquelas fogueiras? Quando se alguém sobreviveu ao impacto e acendeu fogo, e por que não foi resgatado durante os 11 dias de busca? Se morreu ali, quem fez as fogueiras posteriores?
Comunidades indígenas da região, garimpeiros?
Alguém que encontrou os destroços por acaso e usou a clareira como acampamento?
O relatório preliminar da equipe de perícia, entregue ao comando militar da Amazônia em maio de 2023, não respondeu a nenhuma dessas perguntas.
registrou os achados, catalogou os materiais recolhidos, recomendou análise de DNA para os restos ósseos e encaminhou as amostras de carvão para a datação. A conclusão provisória foi que a aeronave PTKLW havia colidido contra a encosta em voo controlado descendente, provavelmente em condições de visibilidade zero, e que pelo menos um dos ocupantes poderia ter sobrevivido ao impacto inicial. A palavra poderia estava sublinhada no relatório. Não era uma conclusão. Se era uma possibilidade que a essa altura ninguém sabia como confirmar ou descartar. A clareira com as fogueiras ficou registrada nas coordenadas militares. As imagens do drone foram classificadas. O acesso ao local foi restringido e as perguntas ficaram no ar. Como a neblina que nunca sai daquela serra. Marlene Ferraz Monteiro recebeu a ligação numa terça-feira de abril de 2023 às 4 da tarde. Estava sentada na varanda do apartamento na cidade nova, o mesmo apartamento de sempre, com o mesmo ventilador de teto que fazia o mesmo barulho de 20 anos atrás. Quem ligou foi um oficial da Fab, um major cuja voz ela não reconheceu, mas cujo tom ela reconheceu imediatamente.
Era o tom de quem vai dar uma notícia que muda tudo e ao mesmo tempo não muda nada. O major explicou que um drone militar havia localizado destroços de uma aeronave na serra do Imeri, que as características eram compatíveis com o Cesna 206, prefixo PTKLW, que uma equipe havia ido ao local e confirmado a identificação da fuselagem, que haviam sido encontrados restos humanos, que o material havia sido enviado para a análise, que o processo de identificação poderia levar meses. Marlene ouviu em silêncio, não interrompeu, não chorou.
Quando o major terminou, ela fez uma pausa longa, o tipo de pausa que quem está do outro lado da linha não sabe se é desconexão ou se é alguém organizando o que vai dizer. E perguntou: “E as fogueiras? De quem são as fogueiras?” O major hesitou. disse que esse aspecto ainda estava sendo investigado. Disse que havia várias hipóteses. Disse que era prematuro tirar conclusões. De Marlene disse que entendia.
Depois perguntou se podia ir ao local. O major disse que não, que a área era de acesso restrito, terra indígena, parque nacional, que não havia condições logísticas para transporte de civis.
Marlene disse que entendia outra vez.
Depois perguntou quando teria o resultado do DNA. O major disse que não podia garantir um prazo. Marlene agradeceu e desligou. Tatiana chegou ao apartamento meia hora depois. Encontrou a mãe na mesma posição, sentada na varanda com o telefone no colo. Marlene contou o que o major havia dito com as mesmas palavras. na mesma ordem, como se estivesse lendo um relatório. Quando terminou, Tatiana sentou ao lado da mãe e as duas ficaram em silêncio durante um tempo que nenhuma das duas soube medir.
Depois, Marlene levantou, foi até a cozinha e olhou para a mesa com os mapas e os papéis e disse: “Eu sabia que ele estava lá. Eu sempre soube, não havia triunfo na voz, não havia alívio. Havia o peso de 17 anos comprimido numa frase de sete palavras. O peso de ter acreditado quando ninguém mais acreditava. o peso de ter mantido a mesa da cozinha ocupada, o rádio limpo, as pastas atualizadas, as ligações feitas, os e-mails mandados, as cartas escritas, a viagem da filha financiada, tudo isso durante 17 anos, sem garantia de que algum dia haveria uma resposta. E agora a resposta tinha chegado.
Mas não era a resposta que ela queria.
Era uma fuzelagem no meio da floresta, restos ósseos numa cova rasa e três fogueiras que ninguém sabia explicar.
Nas semanas seguintes, Marlene tentou obter mais informações.
Ligou para a FAB, para o exército, para a Polícia Federal, para o SENIPA.
As respostas eram sempre variações da mesma frase. A investigação está em andamento. Não podemos fornecer detalhes no momento. Tatiana tentou por outros caminhos, procurou jornalistas, ativou os contatos do fórum de famílias, escreveu para o Ministério Público Federal. A história chegou a alguns veículos de imprensa regionais, mas não ganhou repercussão nacional. Um avião desaparecido em 2006, encontrado em 2023. A notícia era relevante, mas competia com um volume de informação diária que não deixava espaço para histórias que precisavam de contexto para serem entendidas.
O resultado do DNA chegou em setembro de 2023.
Os restos ósse encontrados na cova rasa correspondiam a um indivíduo do sexo feminino com idade estimada acima de 50 anos. E a comparação com amostras genéticas fornecidas pela família de dona Iracema, coletadas do sobrinho em Maturacá, confirmou a identidade. Eram os restos de Iracema Batista de Souza.
Os outros dois ocupantes, Renato e Cláudio, não foram identificados. Os fragmentos ósseos encontrados ao redor das fogueiras eram insuficientes para a análise conclusiva. Poderiam ser humanos, poderiam ser animais. O laudo não soube determinar. A confirmação de que dona Iracema havia sido sepultada, não apenas abandonada, mas sepultada intencionalmente, com os restos organizados numa cova rasa, reforçou a hipótese de que pelo menos uma pessoa havia sobrevivido ao impacto. Alguém retirou o corpo do avião, alguém cavou uma cova, alguém cobriu os restos com folhas, alguém colocou uma pedra de rio por cima. Renato, Cláudio, os dois. E se sobreviveram por quanto tempo? Dias, semanas. E as fogueiras eram sinais de socorro que ninguém viu. Eram fogueiras de sobrevivência para cozinhar, para espantar animal, para ter luz na escuridão absoluta da floresta à noite, ou foram feitas por outra pessoa em outro momento, anos depois, por alguém que encontrou os destroços e usou a clareira como ponto de passagem. A datação do carvão, quando finalmente ficou pronta em novembro de 2023, indicou que a queima mais recente em uma das três fogueiras havia ocorrido entre 2 e 5 anos antes da coleta, ou seja, entre 2018 e 2021. As outras duas fogueiras tinham material mais antigo, compatível com o período de 2006 a 2010.
Isso significava que alguém havia feito fogo naquele lugar, pelo menos em duas épocas distintas, uma logo após a queda, outra mais de 10 anos depois. E quem voltou àquela clareira? E por quê? A Polícia Federal reabriu o inquérito. O SENIPA revisou o relatório. O Ministério Público Federal determinou novas diligências, mas a serra continua coberta de nuvens durante a maior parte do ano. O acesso continua restrito e as respostas continuam debaixo daquela copa de árvores, no mesmo lugar onde estiveram durante 17 anos, esperando por alguém que talvez nunca chegue. Marlene Ferraz Monteiro tem 78 anos, continua morando no apartamento da cidade nova em Manaus. A mesa da cozinha ainda tem os mapas. O rádio ainda está na prateleira.
A lista com os 13 itens ainda está debaixo da pedra de rio. Tatiana visita a mãe todos os domingos. leva o filho que agora tem anos e que conhece a história do avô da mesma forma que se conhece uma história de família, aos poucos em fragmentos e em frases soltas ditas na hora do almoço ou no banco de trás do carro. Lúcia, em Porto Velho, ligou para a mãe no dia em que soube da descoberta.
Chorou pela primeira vez em 17 anos.
Depois pediu desculpa por terse afastado. Marlene disse que não tinha do que se desculpar. Disse que cada um carrega o que pode do jeito que pode.
Dona Nazaré faleceu em Imperatriz em 2021, 2 anos antes da descoberta dos destroços. Morreu sem saber onde o filho estava. morreu com a certidão de óbito por presunção, guardada numa gaveta da cômoda, ao lado de uma foto de Cláudio de Jaleco Branco, tirada no dia da formatura. A única foto que ela tinha dele adulto. O sobrinho de dona Iracema em Maturacá recebeu a notícia da identificação por rádio, da mesma forma como havia recebido a notícia do desaparecimento 17 anos antes. Ouviu Nur ficou em silêncio e à noite acendeu uma vela na varanda da palafita. Dessa vez ninguém tirou. Passaram-se 17 anos entre o momento em que Renato Albernaz Monteiro disse câmbio pela última vez e o momento em que um drone filmou o que restava do avião dele. 17 anos em que a floresta fez o que a floresta faz.
Cobriu, absorveu, silenciou.
17 anos em que o sistema fez o que o sistema faz, registrou, arquivou, esqueceu.
E 17 anos em que uma família fez o que certas famílias fazem, continuou. As fogueiras continuam sem explicação.
Os restos de Renato e Cláudio continuam sem identificação positiva.
A cova de dona Iracema foi marcada com coordenadas militares, mas ninguém sabe se algum dia será possível transladá-la para essa comunidade onde nasceu, onde deu aula, onde queria ser enterrada. A história não termina com uma resposta, termina com uma clareira no meio da floresta, a 12 km do ponto mais alto do Brasil, onde alguém fez fogo e onde alguém enterrou uma mulher que só queria voltar para casa.
Hoje, quando trancamos a porta à noite e sabemos onde está a cada pessoa que amamos, é fácil esquecer que existem famílias para quem essa certeza nunca chegou. Para quem o telefone pode tocar a qualquer momento com uma voz desconhecida, dizendo que encontraram alguma coisa e que essa alguma coisa pode ser tudo ou pode ser nada. Marlene sabe disso melhor do que qualquer pessoa, porque durante 17 anos, toda vez que o telefone tocava, ela atendia antes do segundo toque. E toda vez que não era a ligação que esperava, ela colocava o telefone de volta no gancho, olhava para a mesa da cozinha e dizia para si mesma, e em voz baixa, a mesma frase que disse no primeiro dia, a gente continua. Algumas pessoas esperam a vida inteira, algumas recebem uma resposta que não fecha e algumas aprendem a conviver com o espaço em branco que fica entre a pergunta e o silêncio. Esta foi a história do voo PTK LW, das três pessoas que embarcaram naquela manhã de setembro, da família que não parou de procurar, do drone que encontrou por acaso o que ninguém conseguiu encontrar de propósito, e das fogueiras que ainda ardem na memória de quem sabe que em algum lugar daquela serra alguém tentou ser visto