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O Segredo da Esposa do Coronel: Grávida de um Escravo… O Marido Dela Descobriu

O Segredo da Esposa do Coronel: Grávida de um Escravo… O Marido Dela Descobriu

O sol poente tingia de um vermelho intenso as colinas ressequidas da imensa herdade de Santa Cruz, no árido sertão baiano. Corria o ano da graça de mil oitocentos e setenta e cinco.

O senhor Coronel Ramiro desmontou do seu cavalo com um baque surdo no pátio de terra batida, levantando uma nuvem de poeira fina.

As suas botas de cabedal polido pisavam o chão com uma autoridade que todos naquelas terras temiam. O chapéu de abas largas lançava uma sombra densa sobre os seus olhos, que agora ardiam como brasas vivas.

Havia regressado mais cedo da cidade, com o peito apertado por causa de um sussurro escutado à porta do armazém. Um murmúrio cruel sobre a sua esposa, a senhora Dona Isabela, e um ventre que crescia muito além do que seria esperado.

Sem proferir uma única palavra, o Coronel atravessou o alpendre de madeira escura. As suas esporas tilintavam no soalho como pesados sinos de alerta, anunciando a tempestade que se avizinhava.

No quarto principal da casa grande, Isabela encontrava-se a costurar à luz fraca de um candeeiro de azeite. O seu vestido de linho claro esticava-se sobre a barriga já bastante proeminente.

Os seus cabelos negros, apanhados num coque severo e ocultos sob uma fina mantilha de renda trazida de Lisboa, tremeram levemente ao ouvir os passos pesados no corredor.

Ela ergueu o olhar, com o rosto tão pálido como a cera das velas. A agulha parou, suspensa no ar pesado do aposento.

Ramiro estacou na soleira da porta. Tinha o lenço de seda sujo de suor atado ao pescoço. Fechou a pesada porta de madeira com um clique metálico que ecoou pelo quarto como uma sentença definitiva.

O silêncio esticou-se entre o casal como a corda de uma viola prestes a romper. Ramiro retirou o chapéu de forma lenta, pendurando-o no espaldar da sumptuosa cama de dossel.

Os seus olhos castanhos e frios, gélidos como o inverno nos planaltos mais altos, fixaram-se impiedosamente na curva suave do abdómen da esposa.

A senhora Dona Isabela sentiu o coração falhar uma batida. Sabia que aquele momento chegaria, mas o terror não deixava de ser paralisador.

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Quem é o pai desta criança que carrega nesse ventre? Murmurou ele, com a voz rouca, impregnada pelo cheiro da aguardente e por uma fúria longamente contida.

Ela engoliu em seco, com as mãos crispadas sobre o pano que costurava. O ar do quarto cheirava subitamente a jasmim murcho e a segredos apodrecidos pelo tempo.

Lá fora, os trabalhadores escravizados terminavam mais um dia extenuante nos canaviais. As foices cortavam a terra seca sob o olhar vigilante e implacável dos feitores.

Isabela levantou-se com visível esforço. O corpete apertado, que teimava em usar para disfarçar a sua condição, forçava-a a uma respiração curta e ofegante.

Casara-se com o senhor Ramiro aos dezassete anos. Era, na altura, viúva de um primo distante, e deixara-se atrair pelo poder que aquele homem detinha sobre terras tão vastas.

Naquela herdade, o engenho de açúcar rangia de dia e de noite, produzindo riqueza incalculável. Contudo, os anos haviam secado o leito conjugal com a mesma inclemência com que o sol de estio seca os rios.

O Coronel, sempre absorto nas suas avultadas dívidas com os bancos e em complexas intrigas políticas, há muito que mal lhe tocava.

Ela, como senhora da casa grande, administrava as criadas e os quintais com mão firme e irrepreensível, mas o vazio no seu peito não parava de crescer.

Até ao dia em que os seus olhos se cruzaram com os de João. Ele era o capataz dos trabalhadores, um homem de pele escura como o café torrado, mas dono de uns olhos verdes e profundos, herdados de algum avô que fugira para a liberdade.

O filho é seu, Ramiro! Mentiu a senhora Isabela, forçando a voz a soar firme, apesar do tremor incontrolável que lhe subia pelas pernas.

O marido riu-se. Foi um riso curto e seco, que a fez gelar por dentro. Aproximou-se dela lentamente. O cheiro a tabaco escuro e a cabedal suado invadiu as narinas da esposa.

Meu? Estou há longos meses sem lhe tocar, mulher, e esse ventre que ostenta não sabe mentir.

Ele estendeu a mão direita, hesitante, e tocou de forma brusca na barriga dela. Isabela recuou de imediato, com o coração a martelar no peito como um pássaro enjaulado.

Lá fora, o sino da pequena capela tocava as Trindades, chamando os fiéis para as orações do final do dia. Mas, ali dentro daquele quarto, apenas restavam sombras alongadas e acusações não ditadas.

Ramiro virou costas e caminhou até à janela. Ficou a observar o grande pátio onde os trabalhadores se arrastavam, exaustos, em direção aos seus alojamentos miseráveis.

João encontrava-se entre eles. Era alto, forte e de postura altiva, carregando um pesado feixe de varas nos ombros. Ao vê-lo, o Coronel sentiu o ciúme subir-lhe à garganta como bílis amarga.

Nas últimas semanas, Ramiro começara a notar os olhares demorados da esposa. Reparara nas suas idas frequentes aos alojamentos, sempre com a desculpa nobre de levar remédios aos doentes.

Eu sei de tudo, declarou ele em tom baixo e ameaçador. É daquele capataz. Aquele homem que a senhora tanto se esforça por proteger das chibatadas.

A senhora Isabela negou com a cabeça repetidamente, mas as lágrimas teimosas acabaram por traí-la. Não chorava de tristeza, mas sim de um medo cru e primitivo, daquele que paralisa a alma.

A noite caiu pesada sobre a herdade. O céu cobriu-se de estrelas cravadas na escuridão, numa noite onde a lua se recusara a aparecer.

Ramiro saiu do quarto pisando firme. Chamou o feitor principal e ordenou, sem apelo nem agravo, que trancassem João no tronco de castigos do engenho.

Isabela ficou sozinha na penumbra. Colocou as duas mãos sobre a barriga e sentiu o leve chutar da criança. Um sopro de vida no meio daquela imensa desolação.

João salvara a vida da patroa meses antes, durante uma febre terrível que a prostrara na cama. Ele entrara furtivamente no quarto durante a madrugada, trazendo ervas curativas da mata.

As suas mãos calosas revelaram ter um dom que curava muito mais do que os remédios amargos do boticário. O cuidado transformou-se em afeto, e o afeto deu lugar a um desejo incontrolável.

Seguiram-se encontros furtivos no velho paiol do milho. Ali, no meio da poeira e do feno, partilhavam sussurros de liberdade num mundo construído sobre correntes e sofrimento.

Lá fora, no pátio escuro, João ouviu as pesadas correntes de ferro tilintarem à volta dos seus pulsos. O feitor, um homem magro e de bigode muito fino, cuspiu no chão de terra com desprezo.

São ordens do patrão. Amanhã terás muito que explicar, disse o feitor, apertando os grilhões.

João manteve-se em absoluto silêncio. Os seus olhos, herdados de uma mãe branca que fora levada à força, fitavam o abismo da noite.

Sonhava frequentemente com os quilombos distantes, comunidades livres escondidas nas montanhas, mas o amor por Isabela mantivera-o ancorado àquela fazenda.

A gravidez mudara o rumo de tudo. Ela prometera solenemente que lhe daria a carta de alforria após o parto, com documentos falsificados para que pudessem fugir para as terras do norte.

Ao romper da aurora, Ramiro voltou a entrar no quarto da esposa. Tinha a barba por fazer e os olhos injetados de sangue. Isabela adormecera num sono inquieto e sobressaltado.

Ele sentou-se na beira da cama. A pesada pistola que trazia no cinto de couro reluziu à luz da manhã.

Diga-me toda a verdade, exigiu ele. Confesse, ou aquele homem desaparece desta fazenda ainda hoje.

Ela acordou num sobressalto, sentando-se com o vestido completamente amarrotado. As mãos tremiam enquanto tentava afastar os cabelos do rosto suado.

Não faça isso, Ramiro, suplico-lhe. Ele não lhe fez mal nenhum. O erro foi apenas meu.

Mas o Coronel já não tinha dúvidas. Um dos rapazes da cozinha vira-os escondidos no estábulo e fora contar ao patrão, movido por inveja e ciúmes infantis.

A traição queimava na alma de Ramiro mais do que o sol do meio-dia queima a pele desprotegida. O dia raiou com um calor insuportável, escaldando os vastos campos de cana.

Isabela desceu aos alojamentos dos escravos com um véu escuro a cobrir-lhe o rosto, alegando estar a fazer a sua habitual ronda de caridade matinal.

Os trabalhadores afastavam-se à sua passagem, murmurando entre si. João, que se encontrava acorrentado ao tronco, ergueu o rosto marcado pela exaustão.

Senhora Dona Isabela, fuja daqui enquanto ainda tem tempo, sussurrou ele, com a voz embargada.

Ela tocou-lhe no rosto com uma rapidez desesperada. Eu vou cuidar de nós, meu amor. Tenha fé.

Mas o feitor rondava por perto, com o chicote enrolado na mão, pronto a intervir. Isabela teve de se afastar, com o coração partido em mil pedaços.

Da espaçosa varanda da casa grande, Ramiro observava a cena com um charuto entalado nos lábios. Os seus planos sombrios fervilhavam na mente calculista.

Tencionava vender João para os garimpos mortíferos do Amapá. Um lugar horrível onde os homens desapareciam nas minas escuras. Ou, talvez, providenciasse um trágico acidente nas engrenagens do engenho.

Isabela era sua esposa, e a herdade era sua propriedade. O Coronel não permitia que ninguém lhe roubasse aquilo que considerava ser seu por direito divino.

A senhora Isabela subiu as escadas a correr, ofegante sob o aperto do espartilho e o peso da criança. Enfrentou o marido com uma coragem que não sabia possuir.

Deixe-me falar com ele uma última vez, pediu ela, com as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto pálido.

Ramiro negou com um gesto brusco, trancando a porta do quarto com a chave. É hoje que resolvemos este assunto para sempre, sentenciou.

A tensão no casarão crescia como uma daquelas nuvens negras que anunciam grandes tormentas. Ao almoço, os pratos de feijão rico e carne seca ficaram intocados sobre a mesa de mogno.

Isabela começou a sentir as primeiras contrações. Eram leves, mas o seu próprio corpo parecia agora querer traí-la, precipitando os acontecimentos.

Ramiro andava de um lado para o outro na sala, com as botas a ecoarem no soalho de madeira maciça.

Porquê, Isabela? Eu dei-lhe tudo. O nome, a casa, o conforto, o respeito desta província inteira.

Ela fixou os olhos nele, carregando toda a complexidade da sua dor. Em tempos, amara o poder daquele homem, mas acabara por odiar o desprezo com que ele a tratava.

O senhor deu-me correntes invisíveis, respondeu ela, com uma serenidade que o surpreendeu.

Ao entardecer, o Coronel mandou chamar o padre da capela vizinha. Não o fez por qualquer devoção cristã, mas sim porque precisava de testemunhas para a sua justiça privada.

João seria interrogado ali mesmo, no salão da casa grande, perante os olhares de todos os presentes. Isabela suplicou que não o fizesse, mas os seus rogos caíram em saco roto.

O sino tocou de novo, soando agora como uma chamada macabra para um julgamento sem apelo. Os escravos interromperam o trabalho, sentindo o ar carregado de tragédia iminente.

O prisioneiro foi arrastado até ao salão. Tinha correntes pesadas nos pés e a camisa rasgada, o que deixava a descoberto velhas cicatrizes de castigos passados.

Ramiro encarou-o de frente, separados apenas pela grande mesa de jantar. Confessa o teu crime, exigiu o Coronel, com a mão a roçar no cabo da arma.

João ergueu o queixo com uma dignidade inabalável. A senhora é livre no seu próprio coração. Ninguém manda nos sentimentos de uma mulher.

Nesse instante, Isabela entrou na sala. Estava extremamente pálida, com a barriga a evidenciar-se como a prova viva do que estava em causa.

O velho padre murmurava orações em latim, benzendo-se repetidamente perante a tragédia anunciada. A mão do Coronel Ramiro agarrou finalmente a pistola.

O ar pareceu parar de circular. Pare, por amor de Deus! gritou Isabela, colocando-se à frente de João.

Mas o tiro não chegou a ser disparado. Ainda não. O Coronel hesitou ao ver, através do tecido claro do vestido, a criança mexer-se no ventre da esposa.

Seria aquele sangue do seu próprio sangue, ou a marca indelével da maior desonra que um homem da sua posição poderia sofrer? A dúvida corroeu-lhe a alma.

A noite avançou implacável. As grossas velas de cera piscavam na sala de jantar. No pátio, os trabalhadores conversavam em sussurros assustados.

Isabela foi novamente trancada no quarto. João regressou ao cruel tronco de tortura. O Coronel bebia conhaque sozinho na varanda, a olhar para o vazio das estrelas.

Decidira que na manhã seguinte tomaria a decisão final. Contudo, um ruído suave na escuridão da casa alterou-lhe os planos. Eram passos leves e apressados.

Alguém tentava aproximar-se dos alojamentos no meio da noite. Na casa grande, Isabela gizava um plano desesperado. Escondera papéis importantes e preparara um cavalo selado.

Mas Ramiro, desconfiado, estava alerta. A porta do quarto rangeu e ele entrou, preenchendo o espaço com a sua sombra imensa. A senhora não vai escapar!

Ela congelou no sítio. Ramiro fechou a porta com um estrondo seco. Os seus olhos, frios como a lâmina de um punhal, fixaram-se nos dela.

Isabela sentiu o ar rarear. Os papéis que segurava caíram-lhe das mãos trémulas, espalhando-se pelo chão encerado.

Pensa que um cavalo e um punhado de cartas falsas a vão levar para longe das minhas mãos? perguntou ele, aproximando-se a passos medidos e aterrorizantes.

A senhora Isabela ergueu o queixo com toda a altivez que conseguiu reunir. Sabe muito bem de tudo, Ramiro. Mas eu não sou uma das suas propriedades.

Ele soltou uma gargalhada baixa. Propriedade? A senhora é a minha esposa. Carrega o meu bom nome para onde quer que vá. E agora, tenciona levar isso? apontou para o ventre dela.

Isabela recuou um passo, esbarrando na cómoda de madeira. Ali perto, a chama de uma vela tremeluzia, projetando sombras medonhas nas tapeçarias portuguesas que forravam as paredes.

Lá fora, o vento começava a uivar por entre as palmeiras altas, carregando os ecos dos lamentos dos que sofriam naquelas terras de trabalho escravo.

Ramiro baixou-se e apanhou um dos papéis que caíra. Desdobrou-o e leu em silêncio. Um barco para o norte, a partir do porto de Salvador. Com ele e com o escravo.

Ele ama-me, afirmou Isabela, com a voz a ganhar uma força inesperada. Não me trata com ordens nem com correntes, como o senhor faz. Ele vê-me como uma mulher de verdade.

Ramiro amassou o papel com fúria e atirou-o para as brasas da lareira. Acha que existe amor na senzala? A senhora delirou, Isabela. Ele é meu, como os cavalos e como a terra.

Ela tentou correr em direção à porta, mas o marido foi muito mais ágil. Agarrou-lhe o braço com violência, puxando-a de volta. O corpo dela embateu contra o dele.

Solte-me imediatamente! gritou ela, debatendo-se com as poucas forças que lhe restavam.

Não o farei antes de decidir o destino de ambos. Posso mandar chicoteá-lo até não resistir, ou vendê-lo. E a senhora ficaria aqui, sozinha com a sua vergonha perante a província.

Isabela engoliu em seco ao pensar no homem que amava, acorrentado lá fora sob a chuva que ameaçava cair. Ele que sonhava com terras livres para lá da mata virgem.

Não fará tal barbaridade. O senhor sabe perfeitamente que esta criança é inocente de todos os pecados, respondeu ela, tentando tocar-lhe na consciência.

Inocente? Aqui não há inocentes, retorquiu ele. Construí este império com o meu suor e a senhora manchou a minha honra. Vá-se embora, sozinha. Deixe o escravo e leve o cavalo.

Era uma armadilha cruel, e Isabela sabia-o. Mulher solteira e com um filho nos braços, acabaria rejeitada por todas as famílias de bem. Fechariam-lhe as portas na cara.

Se eu for, o senhor mandará os seus capangas atrás de mim para me matar.

Talvez, respondeu Ramiro com um sorriso sombrio. Ou talvez queime tudo agora mesmo. O alojamento e o seu amado, consigo a assistir da janela.

Nesse preciso instante, ouviram-se passos pesados no corredor. O novo capataz bateu à porta com urgência. Coronel, temos um problema sério! Há fogo nos restos das colheitas!

Ramiro hesitou por momentos. Olhou para a esposa e apontou-lhe o dedo. Fique aqui. Conversaremos logo que o dia amanheça. Saiu a correr, trancando a porta por fora.

Deixada sozinha, Isabela correu até à janela. Viu, através do vidro embaciado, as labaredas ao longe. O fogo era a distração perfeita, iniciada pelos aliados de João.

No quarto contíguo, havia uma antiga passagem secreta que dava para as cavalariças, construída no passado para fugas discretas. Isabela não hesitou um segundo.

Rastejou com dificuldade, abriu o painel de madeira e desceu as escadas poeirentas. O ar húmido dos estábulos envolveu-a. Encontrou João, que já fora libertado na confusão.

Temos de fugir agora! O cavalo está pronto! sussurrou ela, agarrando-lhe as mãos marcadas pelo ferro.

Correram protegidos pela escuridão da noite. Atravessaram os canaviais cortantes, que rasgaram o vestido de linho e feriram a pele da senhora. A chuva começou a cair copiosamente.

Ouviram os latidos furiosos dos cães de caça. Ramiro soltara as matilhas. A lama tornava cada passo um calvário, mas o amor pela vida que estava para nascer dava-lhes forças.

Chegaram à margem do rio caudaloso. Havia um pequeno barco de madeira escondido por João, semanas antes, entre os juncos densos da margem.

Isabela sentiu uma dor lancinante trespassar-lhe o ventre. Dobrou-se sobre si mesma. Não temos muito tempo, gemeu, segurando-se ao braço forte do companheiro.

De repente, Ramiro surgiu por entre as árvores húmidas. Trazia a arma empunhada. Acabou a vossa fuga. Volte para casa, Isabela, e eu prometo esquecer o que aconteceu hoje.

Era uma promessa vazia e envenenada. João, num gesto de profunda coragem, pegou num velho facão que deixara no barco e colocou-se à frente da mulher que amava.

Deixe a senhora partir em paz, Coronel. Ela não lhe pertence mais, declarou João, com a voz a sobrepor-se ao barulho da chuva miudinha.

Cego pelo ódio e pela ofensa ao seu orgulho desmedido, Ramiro disparou. O estrondo ecoou pela noite, mas a bala perdeu-se na escuridão. João avançou num salto felino.

Os dois homens colidiram na lama escorregadia. Num instante de distração do Coronel, João conseguiu desarmá-lo com um golpe certeiro. Ramiro caiu, humilhado e sem forças.

Vão-se embora, gritou o Coronel, cuspindo sangue na terra molhada. Vão, antes que eu mande matar-vos a sangue frio e sem piedade!

João ajudou Isabela a entrar no barco vacilante. Remaram com todo o vigor contra a forte correnteza do rio escuro, enquanto as terras da fazenda desapareciam na névoa da madrugada.

Alguns dias mais tarde, no bulício do porto de Salvador, Isabela deu à luz um menino saudável. O choro da criança misturou-se com o som das gaivotas e do mar salgado.

Para escapar à vingança que sabiam não tardar, conseguiram passagem num navio mercante rumo ao norte. Enfrentaram o mar alto, disfarçados de camponeses em busca de melhor sorte.

As semanas que se seguiram foram marcadas pelo frio e pela incerteza. Encontraram abrigo nos distantes quilombos da mata atlântica, protegidos por homens e mulheres livres.

Muitos anos volvidos, longe dos canaviais manchados de sangue e do peso das falsas conveniências, Isabela observava o seu filho correr livre por entre as árvores centenárias.

A senhora, outrora prisioneira do luxo e de um casamento sem amor, descobrira que a verdadeira riqueza não se guardava em cofres de ferro, mas sim num coração liberto de todas as correntes.