
A CRUELDADE Sofrida pelas MULHERES nos NAVIO NEGREIROS
No ano de mil setecentos e oitenta e cinco, o porto de Luanda, em Angola, era um cenário de pura desolação e lágrimas incontáveis. Sob um sol inclemente que castigava a terra seca, centenas de almas desesperadas eram brutalmente empurradas para as entranhas dos navios negreiros. Entre elas estava sempre a jovem Amina, uma bela rapariga de dezoito anos, nascida numa pacífica aldeia iorubá do interior africano. Capturada durante violentas guerras tribais fomentadas pela insaciável ganância dos impiedosos traficantes de escravos, foi arrastada sem qualquer misericórdia para o lúgubre galeão Santa Maria das Dores. O seu triste destino ficava selado.
O navio lúgubre partira com quase quinhentos cativos amontoados no porão em condições que a nossa razão humana dificilmente consegue imaginar. O cheiro era logo absolutamente insuportável, revelando uma asfixiante mistura de suor, doença e desespero silencioso. O ar fétido, privado de ventilação adequada, criava um ambiente incrivelmente propício para doenças terríveis como disenteria, escorbuto e varíola. A longa travessia demorava cerca de quarenta dias, mas as tempestades atlânticas prolongavam essa dolorosa agonia. A mortalidade era imensa, ceifando incontáveis vidas inocentes todos os dias. A comida composta por parca farinha e água suja nunca aliviava a fome das almas cativas.
Como tantas outras mulheres jovens e vulneráveis a bordo, a inocente Amina foi cruelmente selecionada para servir os desejos da tripulação. O capitão Duarte, um homem endurecido pelas rotas atlânticas, exibia cicatrizes de inúmeras batalhas e um vício profundo em rum. Para ele, aquelas moças cativas serviam apenas para manter a moral dos seus marinheiros. Todas as noites, após o pôr do sol, Amina e companheiras como Fatou e Zuri eram violentamente levadas aos aposentos escuros dos oficiais. Os marinheiros, fortemente embriagados com cachaça ardente, submetiam as mulheres a constantes violações impiedosas, tentando quebrar o seu nobre e forte espírito.
No porão mergulhado na mais profunda escuridão, dezenas de homens, mulheres e crianças permaneciam severamente acorrentados. As perigosas doenças espalhavam rapidamente por todos os cantos, roubando a vida àqueles que não conseguiam lutar contra tamanha adversidade física. Quando tempestades violentas fustigavam a pesada embarcação, ondas temíveis invadiam completamente o convés. Perante este terror absoluto e a iminência da morte, o impiedoso capitão Duarte ordenava, sem qualquer tipo de hesitação, que os mais fracos fossem atirados imediatamente aos tubarões ainda vivos. A igreja católica local abençoava estes navios, mas permanecia cegamente alheia a estes horrores de sofrimento verdadeiramente inenarrável e diário.
A jovem Zuri, uma rapariga de constituição extremamente frágil, costumava murmurar silenciosas preces sentidas aos seus adorados antepassados. Contudo, completamente consumida pela dor e febres altíssimas, decidiu tragicamente tirar a vida durante a madrugada sombria. Os marinheiros deitaram o seu corpo ao mar entre sonoras gargalhadas cruéis. Fatou, que sempre oferecera feroz e notável resistência aos seus carrascos, engravidara após meses de sofrimento. Numa manhã fatídica, foi amarrada a uma enorme âncora e atirada sem piedade ao vasto oceano. Os seus ecos desapareceram para sempre sob as águas. Amina observou escondida, guardando uma pequena lasca de madeira e jurando vingança.
A dolorosa aproximação da costa brasileira acentuou drasticamente as atrocidades ocorridas a bordo do triste galeão. O terrível capitão marcava agora as mulheres com ferro ardente, declarando a carne como mercadoria para venda. Foi então que, durante uma medonha tempestade noturna, Amina encontrou a tão aguardada oportunidade de justiça sangrenta. Atraiu habilmente um desastrado marinheiro bêbado para as sombras, cravando rapidamente a lasca afiada na sua garganta vulnerável. Sem perder tempo, roubou a faca ensanguentada e libertou os companheiros mais próximos. Um breve motim rebentou imediatamente, enchendo o convés de gritos, fúria imensa e sangue derramado por almas em revolta.
Durante o intenso conflito, vários marinheiros caíram nas águas geladas do oceano implacável. Duarte encurralou Amina furiosamente na proa da embarcação, preparando um golpe final devastador. Contudo, movida por uma energia incrível e pela lembrança de Fatou, ela empurrou o vil agressor diretamente para a morte certa entre os tubarões famintos. Quando o navio atracou finalmente no Rio de Janeiro, reinava um cenário de enorme caos generalizado. No meio dessa confusão monumental do desembarque, Amina disfarçou sua presença como uma simples trabalhadora livre do enorme cais, fugindo silenciosamente rumo à tão sonhada liberdade nas intrincadas ruelas da enorme cidade colonial.
A agitada cidade colonial do Rio de Janeiro apresentava grande divisão entre a riqueza obscena dos poderosos e a miséria extrema dos infelizes cativos. Amina começou humildemente a trabalhar como lavadeira nas encostas íngremes do Morro da Conceição, um local perfeito para o esconderijo seguro de inúmeros fugitivos. Ali conheceu rapidamente uma importante rede de africanos livres e solidários que organizavam perigosas rotas de fuga. Orientada por esses novos e dedicados aliados, caminhou furtivamente pelas noites silenciosas da densa floresta, seguindo com máxima atenção as marcas sagradas e os símbolos ancestrais cuidadosamente esculpidos nos grossos troncos das velhas árvores protectoras.
Após semanas de exaustiva e perigosa caminhada nocturna, chegou finalmente ao esplêndido Quilombo do Camorim. Esta robusta fortaleza de resistência admirável abrigava centenas de almas guerreiras e era liderada pelo nobre angolano Gangazumba, que herdara orgulhosamente o glorioso nome de Palmares. Amina foi acolhida com imenso calor humano por esta comunidade resiliente. Neste santuário mágico de pura liberdade, aprendeu a manejar com espantosa destreza o arco, a faca afiada e a táctica da emboscada perfeita. A lenda da sua vitória naval espalhou celeremente em redor das quentes fogueiras, enchendo os mais velhos de imenso orgulho pelos seus notáveis feitos corajosos.
Os líderes espirituais enxergavam na corajosa rapariga o poderoso espírito de Oxóssi, o glorioso caçador protector. Com o passar rápido dos anos, a jovem converteu sua figura na respeitada líder Amina. Dedicava agora a sua valorosa vida a organizar missões secretas de resgate, disfarçando sempre a imagem de humilde vendedora de quitandas para frequentar os temidos mercados de Valongo. Sussurrava mensagens vitais de pura esperança aos cativos recentes, indicando pacientemente os atalhos seguros para a liberdade. Ensinava incansavelmente as vítimas a transformar o desespero doloroso numa força motriz imparável, devolvendo aquela preciosa dignidade que os brancos lhes haviam cruelmente roubado.
A fama dos seus grandes feitos heroicos continuava a crescer desenfreadamente pelas montanhas verdejantes. Era conhecida poeticamente como a indomável sombra do mar, uma guerreira lendária que escapava brilhantemente às armadilhas das autoridades coloniais. No fatídico ano de mil setecentos e noventa, uma expedição avassaladora e cobarde invadiu traiçoeiramente as terras livres do majestoso Quilombo do Camorim. Caçadores cruéis pagos a peso de imenso ouro atacaram violentamente a comunidade pacífica no preciso amanhecer. Os habitantes lutaram corajosamente com flechas envenenadas e lanças, enfrentando bravamente as balas assassinas que choviam impiedosamente de todos os inúmeros flancos da mata verde densa impenetrável.
Naquele cenário terrível, a destemida Amina assumiu a valente liderança do grupo composto por incansáveis guerreiras. Apesar da tenaz resistência, a pólvora acabou tragicamente por derrotar a enorme bravura de todos. Gangazumba tombou sem vida, defendendo zelosamente a entrada sagrada do acampamento, e o formidável quilombo foi cruelmente incendiado. Com um ferimento no braço, a lendária lutadora conduziu sabiamente as sobreviventes rumo à grandiosa Serra dos Órgãos. Refugiaram os seus corpos no mítico território resistente liderado pelo icónico Manuel Congo, que suportaria com firmeza os duros embates imperiais durante várias décadas de conflitos violentos na vasta e verdejante região sagrada.
Senhores impiedosos ofereceram somas exorbitantes pela captura da indomável mulher, mas a lealdade inquebrável do povo escravizado protegeu perpetuamente o seu sagrado paradeiro. Nos seus derradeiros anos de gloriosa vida, Amina dedicou seu corpo e mente à salvaguarda preciosa da cultura africana. Ensinou aos mais jovens os grandiosos mistérios de divindades como Exu, Oxum e Ogum, mostrando claramente que a verdadeira força nascia da fé inabalável. Transmitia aos fiéis a firme mensagem divina que a crença nos eternos antepassados constituía a mais poderosa das armas contra as cruéis amarras coloniais e a severidade inegável dos castigos brutais e diários constantes.
Enquanto a pesada escravidão continuava impunemente a destruir lares nos leilões sumários e a provocar derramamento infindável de sangue inocente, a heroína envelhecida representava uma inesgotável chama reluzente de dignidade imortal. Faleceu pacificamente no reduto verdejante da majestosa montanha, no limiar do ano de mil oitocentos e dez, rodeada pelo carinho indescritível da sua nova e devota família quilombola. Foi sepultada com as sublimes honras de uma venerável rainha africana sob as raízes robustas de uma esplêndida gameleira sagrada, respeitando profundamente todas as valiosas e ancestrais tradições iorubás que ela mesma tão zelosamente havia mantido plenamente vivas e muito protegidas.
A inesquecível odisseia existencial de Amina prova inequivocamente que mesmo no interior do sistema social mais opressivo, cruel e tenebroso já imaginado, o invencível e resplandecente espírito humano descobre maravilhosamente caminhos luminosos para a insubmissão. O horrendo comércio transatlântico tratava os africanos apenas como simples números, ocultando intencionalmente a dor, os nomes e a bravura superlativa destas notáveis pessoas extraordinárias. Que a memorável lenda da imortal guerreira do Atlântico sirva permanentemente como um tributo profundamente eterno à gloriosa e resistente dignidade da humanidade. Ela sobreviveu às imensas sombras letais da morte marítima para ascender triunfalmente como um grande farol luminoso.