
Em 14 de setembro de 2019, às 6:22 da manhã, Renato Almeida Vasconcelos enviou uma mensagem de WhatsApp para a irmã.
Dizia que estava saindo de água boa no Mato Grosso em direção à Serra do Tombador, que o céu estava limpo e que tinha uns três dias de trabalho pela frente. A irmã respondeu, perguntando se ele havia levado repelente. Renato mandou um emoji de polegar para cima.
Foi a última mensagem que ele enviou. O carro foi encontrado seis dias depois, estacionado numa estrada vicinal de terra batida a 11 km da entrada principal do Parque estadual da Serra do Tombador. O tanque estava vazio, a mochila, os equipamentos de camping e duas câmeras fotográficas haviam sumido junto com ele. O celular nunca mais deu sinal. Nenhum rastreamento funcionou.
Esta é a história de um fotógrafo de 308 anos, especializado em fauna e flora do sererrado, que desapareceu numa manhã de setembro no interior do Mato Grosso e que foi encontrado 3 anos, 2 meses e 11 dias depois, deitado dentro de uma gruta no sopé da serra, desidratado com sinais de desnutrição severa e com uma das câmeras pendurada no pescoço. Quando os bombeiros revelaram o cartão de memória, encontraram 2437 fotografias, todas do mesmo rosto, um rosto que ninguém até hoje conseguiu identificar. A Serra do Tombador fica no nordeste do Mato Grosso, dentro do parque estadual criado em 2001, numa região de serrado fechado, onde o campo limpo cede lugar a veredas úmidas e mata ciliar densa. O parque tem pouco mais de 75.000 1000 ha. Não tem infraestrutura de trilha sinalizada, não tem base de resgate permanente. A cidade mais próxima com delegacia equipada é água boa, a pouco mais de 60 km por estrada de terra e asfalto esburacado. Nas chuvas de outubro, esse trecho pode levar 3 horas.
Renato conhecia a região. Havia feito duas expedições anteriores pela serra, ambas registradas, ambas com rota informada ao parque e a familiares. Era do tipo que guardava as coordenadas GPSs num caderno de capa dura, que carregava pilhas reserva e que mandava mensagem de checagem toda a noite, não importava onde estivesse. Seus colegas de profissão diziam que ele era o mais organizado entre eles. Diziam também que ele era o mais quieto. O que aconteceu entre a mensagem das 602 e o momento em que o carro foi encontrado sem combustível, 11 km fora da rota que ele havia informado quem ele esperava encontrar naquela parte da serra, num trecho que não constava em nenhum de seus planos documentados, e o que ele fotografou durante 3s anos numa gruta ou o que quer que seja aquele lugar, sem que ninguém soubesse que ele estava vivo. Quando os bombeiros entraram na gruta, Renato não reagiu ao barulho, não gritou, não se moveu, estava deitado de lado sobre uma camada de folhas secas, com a câmera no peito e os olhos abertos. O médico que o atendeu no primeiro momento disse que ele parecia acordado, mas que demorou quase 8 minutos para responder ao próprio nome. A camera estava com a bateria descarregada, o cartão de memória intacto. Quando os técnicos do ML de Água Boa fizeram a leitura do cartão, as imagens apareceram na tela em sequência.
As primeiras eram fotografias do serrado, bromélias, IPs, arárias, imagens de trabalho organizadas com boa composição. As últimas 2400 fotografias eram diferentes. Enquadramento frontal, sempre o mesmo rosto, sempre a mesma expressão, sempre o mesmo fundo de rocha escura. Nenhuma das fotografias tinha metadados de data e hora. Alguém havia desativado o registro automático. Os peritos não souberam dizer quando as imagens foram feitas, nem em que ordem.
Não foi possível determinar se foram tiradas em dias diferentes ou numa única sessão. Renato passou 42 dias internado, recuperou o peso, respondeu a perguntas, mas sobre o que aconteceu dentro da gruta, sobre quem era o rosto nas fotografias e sobre os três anos que passaram entre o desaparecimento e o resgate, ele disse muito pouco. O que disse não convenceu ninguém. A família recebeu de volta um homem vivo, mas a pergunta que nenhum médico, nenhum perito e nenhum delegado conseguiu responder ainda está em aberto. O que Renato Vasconcelos estava fotografando.
E por aquele rosto aparece mais de 2000 vezes em sequência, sem uma única variação de expressão. Você ficou aqui porque sabe que essa história não termina onde parece terminar. Renato Almeida Vasconcelos havia nascido em Rondonópolis em 1981, filho de um técnico agrícola e de uma professora de ensino fundamental.
Cresceu num bairro de ruas de terra que viravam lama vermelha nas chuvas de dezembro, num tempo em que o Mato Grosso ainda era visto de fora como uma fronteira incerta, um lugar onde os mapas terminavam mais cedo do que deviam. As casas daquele bairro eram de bloco aparente, com quintal de chão batido, e as crianças brincavam na rua até que o barulho dos grilos anunciasse que a noite havia chegado de vez. Era esse tipo de infância, sem pressa e sem grade na janela, que o Mato Grosso ainda oferecia nos anos 80 para quem crescia longe do centro. Aprendeu a fotografar com a câmera analógica do pai, uma yaxica que guardava numa caixa de sapato forrada com espuma cortada a mão. Não havia curso formal naquele começo. Havia observação, havia paciência, havia o hábito de acordar cedo e sair com a câmera para o quintal, antes que o calor do Mato Grosso tornasse tudo uniforme, sem sombra e sem profundidade. Como ele costumava descrever para quem perguntava porque sempre saía antes das 6 da manhã, o pai não entendia muito de fotografia, mas entendia de disciplina e não reclamava quando o filho desaparecia com a câmera no pescoço antes do café da manhã. A mãe, dona Conceição, era professora de português numa escola pública do bairro, mulher de poucas palavras fora de sala, mas de palavra firme quando falava. Ela dizia que o filho havia herdado o silêncio do avô materno, um homem do sertão goiano que falava só o necessário e que nunca havia precisado falar mais do que isso. Renato não discordava. cresceu acostumado a ser o mais quieto em qualquer ambiente. E essa qualidade, que poderia ter sido um problema em outras circunstâncias, tornou-se parte essencial do seu trabalho. Anos depois, formou-se em biologia pela Universidade Federal de Mato Grosso em 2005 e trabalhou 2 anos num laboratório de ecologia em Cuiabá antes de decidir que queria fotografar, não catalogar. A diferença para ele estava na distância que cada atividade exigia do objeto estudado. O laboratório pedia afastamento, controle, neutralidade. A fotografia pedia o oposto: presença, proximidade, paciência de ficar parado num ponto por tempo suficiente para que o ambiente esquecesse que você estava lá. A partir de 2008, começou a vender imagens para revistas de natureza, para ONGs ambientais e, eventualmente para publicações internacionais que cobriam o serrado brasileiro. Não ficou rico. O mercado de fotografia de natureza no Brasil nunca pagou o suficiente para que alguém ficasse rico, mas ficou conhecido num circuito específico, o de fotógrafos que passavam semanas no campo sem reclamar, que sabiam montar uma tenda na chuva sem perder o ânimo e que voltavam com imagens que outros não tinham, porque outros não esperavam tempo suficiente para consegui-las.
Seus colegas descreviam Renato com as mesmas palavras, variando apenas a ordem. Calmo, metódico, silencioso. Não era de conversa fácil em festa ou em mesa de bar. desconversava quando alguém tentava prolongar uma discussão desnecessária, não porque fosse grosso, mas porque parecia genuinamente incapaz de entender porque certas conversas precisavam durar mais do que o necessário. Mas no campo, com uma câmera na mão e um bicho parado a 20 m, ele tinha uma qualidade que poucos fotógrafos conseguem desenvolver, a de não existir, a de se tornar parte do ambiente ao redor. Invisível, não sentido literal, mas no sentido de que a fauna e a flora ao redor não percebiam que ele estava lá e continuavam funcionando como se não houvesse nenhum observador. Morava num apartamento de dois quartos no bairro Jardim Petrópolis. em Cuiabá, com uma gata chamada Negunha e uma estante de livros de campo que tomava a parede inteira da sala. A estante misturava guias de identificação de aves com manuais de técnica fotográfica e algumas encadernações finas de poesia concreta que uma namorada havia deixado ali anos atrás e que ele nunca devolveu porque nunca achou o momento certo. Não tinha namorada no período em que desapareceu.
tinha tido uma a 3 anos antes uma veterinária chamada Cíntia, que foi a única pessoa fora da família que ligou pra delegacia no primeiro mês de desaparecimento. A delegacia anotou o contato dela e não ligou de volta.
Solange, a irmã mais velha, morava em Cuiabá também, num bairro diferente, a 40 minutos de carro. Eles se viam aos domingos, quando Renato não estava em campo. Almoçavam juntos na casa dela.
Quase sempre arroz com feijão, frango caipira que ela comprava no mercado, coberto do bairro numa barraca de um senhor chamado seu Cláudio, que guardava os melhores cortes para os clientes conhecidos. e um suco de caju que Renato tomava dois copos sem parar, sempre comentando que em Cuiabá o caju era diferente, mais ácido, mais vivo.
Solange dizia que o irmão era de pouca fala, mas de muita presença, que quando ele estava na sala, a sala tinha outra qualidade, que quando ele sumia para uma expedição longa, o apartamento dela parecia maior do que era e não de um jeito bom. Em setembro de 2019, Renato havia acabado de entregar um ensaio fotográfico para uma ONG de conservação do serrado. O ensaio tratava de espécies de aves em fragmentos de vegetação nativa no nordeste do Mato Grosso. Uma região que estava sofrendo pressão crescente do avanço da fronteira agrícola e que a ONG tentava documentar antes que os últimos remanescentes desaparecem. A editora do projeto havia elogiado o trabalho numa mensagem de e-mail com três parágrafos, o que era incomum naquele ambiente de comunicação inxuta. Renato havia respondido com duas linhas, agradecendo e perguntando se havia prazo definido pro próximo encargo. Três dias depois, ele colocou os equipamentos no Fiat Doblô cinza, trancou o apartamento, deixou ração extra para num pote de plástico ao lado da vasilha de água e saiu de Cuiabá antes do Sol nascer. Esse era o Renato que existia antes de setembro de 2019. Um homem de rotina previsível, trabalho sério e silêncio cultivado.
Nada naquele perfil anunciava o que estava por vir. E é exatamente isso que torna a história mais difícil de entender, porque ela não começa com um sinal de alarme, começa com uma mensagem de WhatsApp, um emoji de polegar para cima e um céu limpo. A irmã de Renato guardou o caderno de capa dura que ele havia deixado sobre a mesa da cozinha antes de partir. um caderno quadriculado, daqueles de 40 folhas que se compra em qualquer papelaria de interior por menos de R$ 10, com a capa dobrada numa das pontas por uso excessivo. A espiral estava um pouco torta no canto superior, do jeito que fica quando a pessoa abre e fecha o caderno sempre pela mesma página.
Dentro, a rota estava descrita com coordenadas numéricas e referências de campo escritas com caneta preta de ponta fina, um açude perto de um barreiro vermelho que aparecia no lado direito da estrada depois do segundo portão. Uma figueira brava caída no meio da estrada vicinal que servia de marco para a entrada da área de serrado que ele pretendia percorrer. um trecho de mata de galeria às margens de um córrego sem nome, onde ele havia fotografado uma ema com dois filhotes dois anos antes e queria voltar para documentar a vegetação ciliar daquele ponto. Renato tinha esse hábito. Deixava uma cópia da rota para a irmã antes de toda a expedição com mais de dois dias de duração. Era um hábito que havia desenvolvido sem combinar com ninguém, de forma silenciosa, como quase tudo que fazia. Solange nunca havia precisado usar aquelas informações. Guardava os cadernos numa gaveta da escrivaninha do quarto, numa pilha organizada por data que até setembro de 2019 tinha sete itens. O oitavo caderno, o da Serra do Tombador, ela tirou da gaveta no dia em que foi à delegacia e nunca mais o devolveu ao mesmo lugar. Quando o carro foi encontrado, Solange pegou o caderno, abriu no mapa que tinha no computador e começou a comparar ponto por ponto. A localização do veículo, uma estrada vicinal a 11 km ao norte da entrada principal do parque, não correspondia a nenhum dos pontos que Renato havia descrito. O açude do Barreiro Vermelho ficava sudoeste da entrada, numa direção completamente diferente. A figueira brava caída ficava numa estrada vicinal que saía no sentido oposto em direção à divisa com o município de Gaúcha do Norte. O cerrado do córrego da EMA ficava dentro dos limites do parque, não estrada de entorno fora do perímetro oficial. Nada batia, nenhum ponto, nenhum referência. Solange levou essa informação à delegacia de Água Boa com o caderno aberto na página certa e o mapa impresso do parque ao lado. O agente que a atendeu naquela tarde olhou pro mapa, olhou pro caderno, olhou de volta pro mapa e disse que aquilo podia significar que o irmão havia mudado a rota no caminho. O que era comum em expedições de campo às vezes obrigam o pesquisador a improvisar novos percursos. Ela disse que não, que Renato nunca fazia isso sem avisar, que avisar era o único compromisso que ele mantinha com rigidez absoluta em todas as expedições que havia feito nos últimos 11 anos. O agente ouviu, anotou a observação no be e disse que ia constar no boletim. O que ninguém perguntou naquele momento era a questão mais direta de todas. se Renato havia mudado a rota, para onde exatamente ele estava indo numa estrada vicinal que saía do parque em vez de entrar nele. O tanque do carro estava vazio quando foi encontrado. O odômetro marcava uma quilometragem coerente com uma viagem de Cuiabá até aquele ponto, mas com um acréscimo que não se explicava pela rota direta. Cuiabá fica a quintesontas minutos de água boa pela BR158.
A distância total registrada no rodômetro era maior do que a viagem direta justificava, com uma diferença de aproximadamente 1880 km, que não havia como atribuir a um desvio de rota simples dentro da área do parque. Ele havia parado em algum lugar no meio do caminho ou havia percorrido um trecho que não estava em nenhum dos planos documentados. A câmera de segurança do último posto de gasolina antes de Água Boa, o posto Serradão, localizado na saída de Canarana, na margem da BR 178, havia registrado o Fiat Doblô Cinzas às 14 R37 do dia 14 de setembro. Renato aparece de costas no vídeo granulado da câmera externa, abastecendo o carro ao lado de uma bomba com teto de fibra verde desbotada. Não faz nenhum gesto fora do comum, não fala com ninguém além do frentista, paga em dinheiro, pega o troco, dobra as notas na mão direita e entra no carro sem olhar para o lado.
Essa foi a última vez que ele apareceu numa câmera. O que aconteceu nas 19 horas seguintes entre o posto de gasolina em Canarana e o momento em que o carro foi estacionado naquela estrada vicinal? Fora da rota prevista, ninguém conseguiu reconstruir com precisão. Não havia câmeras nas estradas vicinais da região. Não havia registro de ligações feitas do celular de Renato. Depois das 14 do dia 14, não havia nenhuma testemunha que o tivesse visto chegar à área do parque. E essa lacuna de 19 horas, que parece pequena, quando se olha de fora, foi a primeira de muitas que o caso não conseguiu fechar nos anos seguintes. Nos primeiros dois dias depois da partida, Solange esperou.
Renato havia dito que ficaria três dias na serra. Atros de um dia eram comuns nesse tipo de trabalho de campo e ela sabia disso por anos de convivência com os hábitos do irmão. Às vezes, o bom material aparecia no momento errado e ele ficava mais um dia para garantir o registro. Às vezes a estrada voltava a ser intransitável depois da chuva e ele esperava secar antes de sair. Isso era normal. Fazia parte. No terceiro dia, começou a ligar o celular, ia direto pra caixa postal. Uma vez, duas vezes, 10 vezes ao longo do dia. Ela deixou o recado na primeira tentativa e depois parou de deixar, porque o recado ficava lá sem resposta e ouvi a própria voz de volta numa caixa postal vazia. tem uma qualidade específica de desconforto que quem passou por isso reconhece sem precisar de explicação. Você conseguiria continuar a sua rotina sabendo que o celular de alguém que você ama está indo pra caixa postal faz dois dias. A maioria das pessoas que passou por isso diz que não. Diz que o telefone começa a parecer um objeto diferente, que a gente para de fazer outras coisas para ficar olhando pra tela, esperando a ligação que não volta, que qualquer barulho parecido com o toque do telefone faz o coração dar um tranco antes mesmo de a pessoa perceber que estava esperando.
Solange foi ao trabalho no quarto dia porque precisava ir, porque a vida não para enquanto a gente espera e porque ficar em casa olhando pro telefone não acelerava nenhuma resposta. Ficou até o meio-dia e voltou para casa. À tarde pegou o carro e foi até Água Boa. Levou 2 horas de estrada como um trecho de 40 km de terra batida que a caminhonete percorreu devagar por causa dos buracos abertos pelas últimas chuvas. chegou na delegacia às 15:20 e esperou 40 minutos numa cadeira de plástico laranja no corredor com o caderno do irmão no colo e a bolsa apertada contra o peito.
Quando foi chamada, contou tudo com calma e na ordem certa. O nome completo do irmão, a data e o horário de saída de Cuiabá, a rota planejada conforme o caderno, o modelo e a placa do carro, a descrição dos equipamentos fotográficos, o hábito de mandar mensagem de checagem toda a noite, sem exceção. O agente de plantão pediu que ela guardasse 72 horas, conforme o procedimento padrão para adultos desaparecidos. Ela disse que já havia esperado 96 horas desde a última mensagem recebida. O agente explicou com paciência que o procedimento da delegacia contava a partir do registro formal do boletim de ocorrência que estava sendo feito naquele momento, que o relógio para a delegacia estava começando a correr agora. Solange assinou o BO. Saiu da delegacia às 17:43.
Do lado de fora, ficou parada por um momento na calçada, esburacada de água boa, com o sol de setembro ainda castigando o asfalto escurecido pela tarde. As vendas do outro lado da rua já estavam fechando, as grades sendo puxadas com aquele barulho de metal que é igual em todas as cidades pequenas do Brasil. Depois entrou no carro e ligou paraa mãe, que morava em Rondonópolis, para dizer que Renato ainda não havia dado notícias e que ela havia registrado um boletim na delegacia. A mãe, dona Conceição, fez silêncio por alguns segundos depois de ouvir. Depois disse que o filho havia feito isso antes, que às vezes ficava sem sinal na serra por dias e voltava sem entender porque que a família havia ficado preocupada. Solange disse que sim, que era provável que fosse isso. As duas concordaram, ficaram um momento em silêncio no telefone. As duas sabiam que não era isso, mas dizer o contrário em voz alta naquele momento teria feito a coisa virar outra coisa e nenhuma delas estava pronta para que virasse. No quinto dia, Solange começou a ligar para hospitais. Ligou pro pronto Socorro de Água Boa, pro hospital regional de Canarana. por o de Barra do Garças, que era o maior da região leste do Mato Grosso. Nenhum havia atendido um homem com aquela descrição nos últimos dias. Ligou também para o IML de Cuiabá e para o de Sinop. Não havia registro de entrada de nenhuma pessoa não identificada nas últimas semanas que correspondesse ao perfil do irmão. No sexto dia, um fazendeiro chamado Benedito Ramos Lacerda ligou para a delegacia de Água Boa, dizendo que havia um carro estrangeiro parado numa estrada vicinal da sua região havia dois dias e que ninguém havia aparecido para buscar.
A delegacia cruzou a descrição com os boletins em aberto e fez a conexão com o registro de Solange naquela tarde. Seis dias é o tempo que levou para que o estado conectasse um desaparecimento a um carro parado a 11 km da entrada de um parque estadual. Em 2019, o Sinalid ainda não tinha integração automática entre estados, e o cruzamento de informações dentro do mesmo estado dependia de alguém em fazer a busca manual no sistema. Esse alguém, naquele caso, foi um agente de plantão que reconheceu a correspondência quase por acaso ao revisar os boletins do dia.
Solange soube do carro por uma ligação da delegacia às 19:15 daquela quinta-feira. O agente disse que haviam localizado o veículo e que ela poderia ir até lá para identificar no dia seguinte. Não disse em que estado estava o carro, não disse se havia algum sinal do irmão, não disse mais nada além do endereço da estrada vicinal e do nome do fazendeiro que havia avisado. Ela foi naquela mesma noite. Não esperou o dia seguinte. Levou 3s horas pela estrada de terra escura, com os faróis do carro iluminando a poeira vermelha que levantava das valetas e o capim alto dos dois lados da estrada, roçando a lataria nas passagens mais estreitas. Quando chegou, o carro estava lá sozinho no meio da estrada, com uma mancha branca de luar caindo em cima do capô. Não havia ninguém por perto. Não havia luz nenhuma além da lua e dos faróis dela.
Solange ficou parada do lado de fora do próprio carro por um tempo. Depois se aproximou devagar, olhou pelas janelas com a lanterna do celular, reconheceu o mapa dobrado no banco do motorista e as botas de borracha amarela no banco de trás. Encostou a mão na lataria do Fiat Doblô. O metal tava frio. Benedito Ramos Lacerda tinha 63 anos. criava gado de corte numa fazenda de 400 alqueir na região de entorno do parque e passava pela estrada vicinal toda manhã numa caminhonete vermelha velha, partindo rumo ao curral por volta das 5:30 da manhã, antes do sol clarear o campo.
Conhecia cada valeta, cada porteira e cada árvore daquela estrada de cor.
sabia quando um veículo era novo naquele trecho, sem precisar pensar muito, na primeira vez que viu o Fiat doblô cinza parado no meio da estrada. Na manhã de uma quarta-feira, achou que era algum pesquisador, algum cara de ONG ou algum técnico do parque que havia pousado ali para passar a noite antes de entrar na mata. Isso acontecia de vez em quando naquela região, mais no período de seca, quando o cerrado ficava mais seco e os pesquisadores de fora aproveitavam para fazer levantamentos de campo. Benedito não deu importância. Passou com a caminhonete devagar ao lado do carro, chegou se havia alguém dentro, não viu ninguém e seguiu pro curral. No dia seguinte, o carro estava no mesmo lugar, mesma posição, mesma angulação, como se não tivesse saído 1 cm desde o dia anterior. Benedito desceu da caminhonete, deu uma volta completa em volta do Fiat, olhou pelas janelas, uma por uma. No banco do motorista havia um mapa rodoviário dobrado no sentido errado, do jeito que fica quando alguém o consulta sem ter tempo de dobrar direito de volta, e um frasco de protetor solar solar fator 50, com a tampa aberta. No banco de trás, uma jaqueta impermeável, verde musgo dobrada com precisão e um par de botas de borracha amarela apoiadas contra a porta. No porta-malas, que estava destrancado, havia uma barraca compacta embalada num saco de compressão vermelho e uma vasilha plástica de 2 L com tampa de rosca encaixada, o tipo que se usa para carregar comida seca no campo, feijão cozido, arroz, farinha. Não havia câmeras fotográficas, não havia mochila grande, não havia nada que sugerisse que a pessoa havia voltado ao carro para pegar pertences antes de ir embora. O tanque estava vazio. Benedito girou a chave que estava no contato, o que o laudo pericial posterior apontaria como uma inconsistência significativa, já que Renato era categoricamente do tipo de pessoa que nunca deixava a chave no carro quando saía. Hábito que Solange confirmou e que colegas de campo confirmaram também. A bateria ainda tinha carga suficiente para ligar o painel. O marcador de combustível foi para zero sem hesitar. Benedito foi até a sede da fazenda, uma construção de tijolo com varanda de cimento e um rádio sempre ligado na estação de água boa e ligou pro sobrinho, que trabalhava num armazém de grãos na cidade. O sobrinho disse para ligar para a delegacia.
Benedito ligou. A delegacia disse que ia mandar alguém ver no dia seguinte. No dia seguinte, um agente foi até o local numa viatura branca empoeirada, fotografou o veículo de vários ângulos com celular, anotou a placa num bloco de papel e voltou para a cidade. A conexão com o boletim de Solange foi feita naquela tarde, quando outro agente em serviço reconheceu a correspondência entre a descrição do veículo no boletim e a placa registrada pelo colega. O IML de água boa fez a perícia do veículo dois dias depois da localização. O laudo registrou ausência de sinais de violência na carroceria e no interior ausência de material biológico externo à superfícies de uso normal e ausência de rastros visíveis saindo do carro em direção ao cerrado. Esse último ponto gerou uma nota de rodapé no documento, porque o perito responsável observou que o solo ao redor do veículo havia sido perturbado por chuva intensa entre o momento do abandono e a chegada da equipe técnica. Não era possível determinar a direção que o ocupante havia tomado ao desembarcar. O que a perícia conseguiu confirmar era que o carro estava naquela posição havia pelo menos cinco dias antes de Benedito notar pela primeira vez. Isso colocava a data de abandono em algum momento entre o dia 14 e o dia 15 de setembro, nos primeiros dias depois da partida de Cuiabá. Renato havia percorrido mais de 600 km, saído completamente da rota que havia deixado anotada para a irmã, estacionado o carro numa estrada vicinal de entorno do parque com o tanque no zero e desaparecido a pé em direção ao cerrado, carregando as câmeras e a mochila com os equipamentos, sem combustível no carro, sem nenhuma forma de transporte alternativa que alguém tivesse visto e sem que ninguém nas proximidades soubesse dizer para qual direção ele havia.
Aquele carro vazio com a chave no contato e as botas de borracha amarela no banco de trás foi o último elemento concreto que a família e a polícia tiveram por três anos inteiros. E ainda faltava descobrir o que o Corpo de Bombeiros encontrou ou não encontrou nos 12 dias de busca que se seguiram. O Corpo de Bombeiros de Água Boa acionou uma equipe de 12 homens na manhã seguinte ao achado do carro. Era uma equipe de busca e salvamento, treinada para operações em mata fechada, com experiência em ocorrências do Parque Estadual e das fazendas da região.
Trouxeram dois cães farejadores, um da raça Labrador e um pastor belga, um drone de reconhecimento com autonomia de voo de 40 minutos por bateria e rádios de comunicação de longo alcance. A equipe foi dividida em três grupos de quatro homens, cada grupo responsável por uma faixa do terreno a partir do ponto de abandono do veículo. O cerrado fechado não coopera com buscas. Quem nunca esteve no serradão do nordeste do Mato Grosso não tem referência precisa de como aquele ambiente funciona quando fecha em volta de quem entra nele. Não é uma floresta no sentido vertical, com dosis altos criando escuridão embaixo, como na Amazônia. é uma densidade lateral horizontal construída de galhos retorcidos de árvores baixas que se cruzam na altura do peito de um adulto de bromelácias terrestres com bordas serrilhadas que arranham o couro cabeludo se a pessoa não abaixar a tempo. De capim navalha que corta o antebraço sem que se perceba de imediato por causa do movimento contínuo da caminhada. O solo, no início de setembro ainda guarda a dureza e a soltidão da seca. A terra farelada que não segura a pegada com facilidade e o vento constante que vem do norte movimenta as folhas de forma contínua, o que interfere na capacidade ofativa dos cães farejadores ao diluir e deslocar os rastros odoríferos. O drone foi utilizado nos primeiros três dias, enquanto o tempo permitiu. Cobriu uma área de varredura de aproximadamente 4 km de raio a partir do carro, em passes sistemáticos que o operador registrou em vídeo. A vegetação do serradão vista de cima forma um tapete verde e cinza, sem clareiras suficientes para identificar uma pessoa caminhando ou parada embaixo.
Não foi identificada nenhuma presença humana, nenhuma fogueira ativa, nenhum equipamento visível acima da vegetação.
No quarto dia choveu uma chuva forte de tarde, daquelas que chegam sem aviso no serradão em setembro, sem que haja nuvem carregada visível pela manhã e que acabam em menos de uma hora deixando o ar com aquele cheiro de terra molhada quente, que é um dos cheiros mais específicos do serrado brasileiro. chuva comprometeu o trabalho dos cães que perderam os rastros que haviam seguido ao longo do dia anterior e inutilizou o drone por dois dias por causa do risco de dano nos componentes eletrônicos. A busca continuou a pé nesse período. Os 12 bombeiros cobriram trilhas abertas por fazendeiros leitos de córregos temporários secos. Bordas de veredas úmidas com palmeiras de buriti, cujas raízes guardam umidade mesmo no pico da seca. Encontraram no oitavo dia uma fogueira antiga num ponto elevado próximo a uma veredinha de Buriti, no setor nordeste da área de busca. O perito que acompanhava a equipe analisou o carvão e os resíduos. A fogueira tinha mais de 30 dias de idade, segundo a estimativa técnica. Não havia como associá-la ao desaparecimento de Renato, que havia saído de Cuiabá há menos de duas semanas. No 12º dia, o coordenador da operação de busca, o tenente Amarildo Pereira, reuniu a equipe e encerrou a busca ativa por falta de elementos que indicassem a localização do desaparecido numa área operacionalmente acessível. A nota formal enviada para a família dizia que as buscas podiam ser retomadas mediante nova solicitação à central de operações do Corpo de Bombeiros ou caso surgissem informações adicionais concretas sobre a última localização do indivíduo. Solange recebeu essa nota por e-mail numa tarde de outubro enquanto estava sentada na varanda do apartamento em Cuiabá com uma xícara de café que já estava fria. Leu uma vez até o final.
fechou o computador com cuidado, ficou olhando paraa cadeira de vim do irmão vazia por um tempo que ela mesma não soube estimar depois, quando tentou descrever aquele momento para terapeuta dois anos mais tarde. O estado havia feito o que estava dentro dos limites do que se faz. E a pergunta que ficou, aquela que nenhum e-mail de encerramento administrativo consegue responder, era a mesma de sempre. O que se faz quando o que foi feito não foi suficiente? Quem assume a busca quando a busca oficial termina? Depois que o Corpo de Bombeiros encerrou a operação ativa, Solange voltou para Cuiabá e ficou três dias sem sair do quarto. Não foi colapso, não foi desistência, foi acúmulo. O tipo de acúmulo que acontece quando uma pessoa segura muita coisa por muito tempo, sem deixar nada vazar, e de repente o peso chega a um ponto onde não tem mais para onde segurar sem que alguma coisa ceda.
No quarto dia acordou, foi direto para a cozinha e fez um café grosso, daquele que fica com uma película quase marrom se formando em cima quando resfria, do jeito que a mãe fazia em Rondonópolis e que ela nunca conseguiu reproduzir exatamente, mas que naquele momento ficou próximo o suficiente. abriu o computador na mesa da cozinha e começou a montar uma planilha, uma planilha com o nome do irmão no cabeçalho, com colunas para contato, data, resposta recebida, pendência aberta, próximo passo. Todos os contatos que havia feito, todas as respostas que havia recebido quando havia recebido alguma, todas as perguntas que ainda estavam sem resposta. A planilha chegou a 147 linhas. Em três semanas de trabalho, a coluna de resolução ficou vazia em todas elas. Se fosse com você, com a sua filha, com o seu irmão, com alguém que você ama de verdade, você conseguiria parar depois de um e-mail de encerramento? A maioria das pessoas diz que não. Mas a maioria das pessoas nunca teve que testar isso na prática com um nome real.
e um telefone que já não toca do outro lado. Solange não parou, entrou em contato com grupos de familiares de desaparecidos no Mato Grosso, que naquela época se organizavam principalmente por grupos de WhatsApp com nomes genéricos e por uma ou duas páginas no Facebook administradas por voluntários que não tinham treinamento formal, mas que tinham experiência.
acumulada de anos de busca paralela, encontrou pessoas que estavam vivendo o mesmo processo, ligar por o mesmo número de delegacia, ouvir que o caso estava em andamento, não receber nenhuma atualização além dessa frase, ligar de novo na semana seguinte e ouvir a mesma coisa. entrou em contato com o SINALID, o Sistema Nacional de Localização e identificação de Desaparecidos, vinculado ao Ministério da Justiça. Em 2019, o sistema ainda funcionava de forma fragmentada entre os estados, sem integração automática de banco de dados que permitisse cruzamento em tempo real de informações entre as unidades federativas. O cadastro de Renato foi incluído na plataforma, mas o mecanismo de busca ativa dependia de um operador humano fazendo cruzamento manual. Se Renato aparecesse num hospital de outro estado sem documentos, a probabilidade de o sistema conectar aquele atendimento ao cadastro dele dependia de alguém pensar em verificar manualmente.
Solange fez essa verificação toda semana durante 3 anos. As terças-feiras, após o jantar com o computador na mesa da cozinha e o telefone do lado, ela atualizava as plataformas, ligava para os contatos que havia cultivado ao longo dos meses e registrava qualquer informação nova na planilha. Nenhuma delas levou a nada naqueles três anos.
Mas ela continuou. voltou à Serra do Tumbador duas vezes por conta própria.
Na primeira, em dezembro de 2019, foi com dois primos mais novos e um amigo de Renato chamado Paulo Salave, um biólogo que havia feito expedições com o irmão e que conhecia a região do parque com detalhes suficientes para servir de guia. Passaram quatro dias no campo cobrindo trechos que os bombeiros não haviam incluído na área de busca oficial por ficarem fora do raio operacional definido. Não encontraram rastros, não encontraram equipamentos abandonados, não encontraram nenhum sinal que indicasse passagem recente de uma pessoa. Paulo identificou duas formações rochosas com aberturas de gruta na base de uma encosta calcária no setor sudeste da serra, numa área que não estava em nenhum dos mapas que a delegacia havia utilizado durante a busca. Solange anotou as coordenadas no caderno quadriculado que havia comprado para substituir os cadernos do irmão como ferramenta de campo. Na segunda vez que voltou à região, em junho de 2021, foi sozinha. ficou cinco dias em água boa, hospedada numa pousada simples perto da rodoviária, com ventilador de teto e café da manhã de pão com manteiga e suco de maracujá. conversou com moradores da região, com peões de fazenda que trabalhavam nos arredores do parque, com um raizeiro que vendia ervas numa raquinha do mercado municipal e que conhecia aquela mata de ouvido pelos sons e pelos cheiros, mais do que pela visão. E conversou com uma professora aposentada chamada dona Filomena, que morava numa chácara a 7 km da entrada do parque, numa casa pintada de amarelo com um jardim de cactus na frente. Dona Filomena disse que havia visto uma luz na encosta da serra em outubro de 2019, poucas semanas depois do desaparecimento de Renato. Uma luz que ficava acesa por horas no meio da madrugada, num ponto onde ela sabia que não havia fazenda, nem estrada, nem nenhuma construção. A luz apareceu por três noites seguidas e depois sumiu. Ela havia achado que era caçador furtivo, uma atividade que acontecia naquela região com regularidade suficiente para que os moradores já não estranhem mais. Não havia contado para ninguém porque não havia parecido importante na época.
Solange anotou aquilo no caderno com a data, o nome da professora, a localização aproximada que dona Filomena descreveu usando as palmeiras de Burite da Vereda como referência e o período em que as luzes haviam aparecido, dois meses depois enviou um relatório de três páginas para o Ministério Público do Mato Grosso, com as coordenadas das grutas identificadas por Paulo Salave, o depoimento de dona Filomena, transcrito com a maior precisão possível e uma lista de seis pontos que ela considerava prioritários para a investigação. O MP respondeu por e-mail que o material seria encaminhado ao delegado responsável pelo inquérito para avaliação e eventual reabertura das diligências.
O delegado responsável pelo inquérito não respondeu naquele ano. O apartamento de Solange em Cuiabá tem uma varanda pequena que dá para um pátio interno com três árvores. Uma mangueira, um pé de jabuticaba que nunca deu fruto suficiente para valer a pena, e um IPA amarelo, que florescia em agosto com uma exuberância que parecia desproporcional ao tamanho da árvore. Ela havia colocado na varanda uma cadeira de vime que era do irmão, uma daquelas de armarinho com almofada de xadrez vermelho e branco, que desbota com o sol e vai ficando com uma cor rosada indefinida depois de alguns meses de exposição. Renato havia comprado aquela cadeira num camelô perto da rodoviária de Cuiabá quando mudou pro Jardim Petrópolis, porque achou que ficaria bem na janela do apartamento dele para ler de manhã. Nunca ficou. A janela do apartamento dele não tinha varanda. A cadeira ficou na varanda de Solange durante os três anos de espera.
Ela não explicou para ninguém porque não a guardou no depósito, nem a doou, nem a jogou fora quando estava fazendo uma limpeza de fim de ano. Não precisava explicar. Algumas coisas ficam onde ficam porque a gente ainda não sabe o que fazer com elas e nomeá-las como abandono seria um gesto que a pessoa não está pronta para fazer. Dona Conceição, a mãe, continuou morando em Rondonópolis durante os três anos. Depois de alguns meses, parou de ligar todavia para Solange, perguntando se havia novidade.
Não porque havia desistido. Havia prendido ao longo de 64 anos de vida numa cidade do interior do Mato Grosso, que certas perguntas gastam a pessoa por dentro quando são repetidas sem resposta. e que preservar a saúde para continuar é também uma forma de continuar procurando. Ela rezava toda a noite, um terço completo com as contas de plástico marrom que estavam na gaveta do criado mudo desde o tempo da avó materna. Tinha uma fotografia de Renato na estante da sala, do lado de um arranjo de flores artificiais de seda, que uma vizinha havia trazido em dezembro do primeiro ano como gesto de solidariedade. A fotografia continuou lá quando as flores foram trocadas.
Continuou quando as flores foram trocadas de novo. Ficou. Cíntia, a ex-namorada, ligou para Solange algumas vezes no primeiro ano. As conversas eram curtas, formais no início, mais abertas com o tempo, mas sempre terminavam no mesmo ponto, sem novidade, sem resposta, sem saber o que dizer para encerrar a ligação de um jeito que não parecesse desistência. Depois do primeiro ano, as ligações foram espaçando, não por indiferença, mas por uma forma de autopreservação que as pessoas constrem quando percebem que o luto de outra pessoa não tem prazo definido para acabar e que ficar presente de forma intensa dentro desse luto tem um custo que nem sempre se consegue pagar indefinidamente.
No terceiro ano, Cíntia mandou uma mensagem de WhatsApp no dia do aniversário de Renato, dizendo apenas que ainda pensava nele. Solange respondeu com obrigada que carregava mais do que cabia em duas sílabas.
Cíntia respondeu com um coração. Ficou nisso. A gata ficou no apartamento de Solange. Ela havia ido buscar o animal dois dias depois que o desaparecimento foi formalmente registrado na delegacia, levando uma caixa de transporte de plástico cinza e a chave reserva do apartamento de Renato que ela guardava desde que ele havia se mudado. A gata estava no apartamento do irmão, bem alimentada, com água disponível, sem sinal aparente de angústia, além de uma ligeira irritação com a presença de uma estranha. Ficou na varanda de Solange durante a primeira semana, olhando para a rua de cima do parapeito, com aquela expressão que os gatos têm quando não estão em casa, mas ainda não se decidiram por nenhuma reação. Depois foi explorando o apartamento novo aos poucos. Com o tempo, encontrou a cadeira de vime e passou a dormir nela como se sempre tivesse sido o lugar dela. Solange deixou que ficasse. O trabalho continuou, porque o trabalho continua sempre independente do que a vida pessoal está fazendo. Porque a conta do aluguel vence no mesmo dia, todo mês, e o empregador não calibra as cobranças de desempenho pelo estado emocional do funcionário. Ela trabalhava como assistente de contabilidade numa empresa de logística que operava rotas de transporte entre Cuiabá e os municípios do norte do Mato Grosso. Num escritório no téério de um edifício comercial com ar condicionado, que chiva quando trabalhava muito e uma janela com vista para o estacionamento coberto, ia e voltava. fazia as planilhas da empresa durante o dia e as do irmão durante a noite na mesa da cozinha com o ventilador de teto girando devagar. Em 2021, 2 anos depois do desaparecimento, Solange entrou numa terapia. Não foi uma decisão imediata, foi uma chegada gradual, o resultado de perceber que estava funcionando, mas não estava bem que havia uma diferença entre as duas coisas que ela não havia parado para medir. A terapeuta, uma mulher de cabelo curto e óculos redondos que atendia numa sala pequena e calma perto da Avenida Getúlio Vargas, foi a primeira pessoa fora da família que lhe perguntou diretamente como ela tava de verdade.
Não como estava o caso, não se havia novidade, não o que a delegacia havia dito na última semana. A terapeuta disse que o tipo de espera que Solange estava vivendo tinha um nome na literatura da psicologia, que pesquisadores chamavam de luto ambíguo, o luto de quem não sabe se tá de luto, de quem vive numa suspensão entre a perda e a possibilidade, sem ponto de ancoragem em nenhum dos dois lados. disse que era considerado um dos estados emocionais mais difíceis de administrar, porque não tem começo e fim definidos, não tem ritual social que marque o início ou encerramento, não tem um momento onde a pessoa possa dizer com alguma legitimidade: “Agora acabou, posso seguir”. Solange disse que sabia o que era aquilo, que havia lido sobre o assunto numa madrugada em Sony, um ano antes, que só havia querido ouvir alguém dizer em voz alta numa sala que não fosse a cozinha do seu apartamento, com o computador aberto e a planilha na tela. O inverno de 2022 chegou em Cuiabá como chega todo o ano, com aquele calor de 40 graus que resseca a mucosa nasal e deixa o ar com um gosto leve de poeira queimada que os moradores de longa data já não percebem mais. Solange havia reduzido o ritmo das verificações semanais no Sinalid para verificações quinzenais.
Ainda atualizava a planilha. Ainda tinha o número da delegacia de água boa salvo no celular sob o nome delegacia Renato.
Não havia desistido. Havia aprendido que procurar por alguém desaparecido não é uma atividade de velocidade constante, que tem ritmos, tem dias em que a energia está disponível e dias em que não está, e que tentar forçar todos os dias de uma só vez com a mesma intensidade gasta uma coisa dentro da pessoa que não se recupera no mesmo ritmo com que foi gasta. Foi num dia de novembro de 2022, uma terça-feira à noite, que o telefone dela tocou com um número de área 66, o Código do Leste do Mato Grosso que ela não reconheceu. Ela atendeu no segundo toque, foi um pesquisador do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o Ien Biru, quem encontrou Renato. O pesquisador se chamava Cláudio Borges Taveira, tinha 41 anos. Era doutor em zoologia com especialização em quirópteros, que é o nome técnico para a ordem dos morcegos, e estava conduzindo uma expedição de levantamento de faestre na base da Serra do Tombador no início de novembro de 2022, dentro de um projeto de mapeamento de cavidades naturais do cerrado financiado pelo ICMB em parceria com uma universidade federal. Cláudio havia identificado durante uma incursão na semana anterior uma colônia de morcegos de ferradura numa cavidade rochosa de pequena dimensão no sopé de uma encosta calcária no setor sudeste da serra, exatamente na área onde Paulo Salavia havia anotado as coordenadas das grutas durante a expedição de busca de Solange em dezembro de 2019. voltou para fazer a contagem da colônia e coletar amostras de guano com uma lanterna de cabeça de alta potência, uma câmera de infravermelho e um gravador de ultrassom para registro de chamadas de ecocalização.
A gruta tem entrada estreta, uma abertura horizontal de pouco mais de 1 m de altura e 70 cm de largura numa formação rochosa coberta de líquinzentos e capim seco que cresce nas frestas. A abertura fica parcialmente bloqueada pela vegetação durante o período chuvoso e só se torna visível com clareza na seca quando o capim recua. Quem passa pela encosta sem procurar especificamente por cavidades não vê a abertura. Cláudio entrou de joelhos, avançou 2 m pelo corredor de entrada com a lanterna apontada para a frente, ajustou a postura quando o teto se abriu na câmara principal e ficou de pé dentro do espaço interno que tem aproximadamente 12 m de comprimento, quatro de largura e três de altura. No ponto mais alto, varreu o chão com a lanterna numa varredura sistemática, começando pela esquerda. Quando a luz chegou ao fundo, viu os pés, dois pés descalços e móveis saindo de trás de uma saliência de rocha no canto direito do fundo da caverna, pés de adulto com a sola escura de terra e a pele seca rachada nos calcanhares. Cláudio ficou parado por alguns segundos sem se mover.
chamou. Ninguém respondeu. Chamou de novo, mais alto. Nenhum movimento avançou devagar na direção dos pés, com a lanterna apontada para o chão na frente de cada passo. E quando dobrou a saliência, viu um homem deitado de lado sobre uma camada espessa de folhas secas acumuladas, com os olhos abertos, a câmera fotográfica pendurada no pescoço pela alça e as mãos cruzadas sobre o peito, com uma naturalidade que pareceu a Cláudio naquele primeiro momento, a de alguém que havia escolhido aquela posição com cuidado. O homem estava vivo, o tórax subia e descia numa respiração lenta, mais regular. Os olhos estavam abertos e fixos no teto de rocha. Não reagiu ao feixe de luz da lanterna nos olhos. Não reagiu a presença de Cláudio a menos de 2 m.
Ficou exatamente como estava. Cláudio saiu correndo da gruta, subiu à encosta o mais rápido que conseguiu até o ponto onde o sinal do rádio funcionava e acionou a central do Iembíbio em Água Boa. O Corpo de Bombeiros levou 2:20 para chegar ao local a partir do acionamento, porque a viatura precisou percorrer 70 km de estrada e depois cruzar três porteiras de fazenda num trecho vicinal sem nome nos mapas.
Cláudio esperou do lado de fora da gruta sem entrar de volta, com o rádio ligado e o gravador de ultrassom no chão ao lado dos pés. Os bombeiros entraram na gruta com maca rígida e kit de primeiros socorros. O médico plantonista que acompanhava a equipe registrou na ficha de atendimento paciente do sexo masculino, adulto, estimativa de 35 a 40 anos, desnutrição moderada a grave, com perda de massa muscular visível, desidratação significativa, hipotermia leve com temperatura central de 35 verbal, o paciente respondeu ao próprio nome apenas na terceira chamada, em voz alta com médico inclinado sobre ele a menos de 30 cm. A câmera que ele carregava no pescoço era uma Canon EOS 90D de corpo preto. A alça tava poída e com um ponto de desgaste estrutural avançado perto do clipe metálico esquerdo. O corpo da câmera tinha marcas de umidade nas vedações, uma camada fina de depósito mineral, calcário nas juntas do gabinete consistente com exposição prolongada ao ambiente de caverna. E o visor traseiro apresentava uma fissura em forma de aranha no canto inferior direito. O número de série verificado pelos peritos posteriormente confirmou que era a mesma câmera que constava na lista de equipamentos que Renato havia levado na expedição de setembro de 2019.
O cartão de memória estava dentro da câmera. No slot de memória CF a bateria estava completamente descarregada.
Renato foi retirado da gruta em Maca, levado até a ambulância e transportado para o hospital regional de Água Boa.
Solange recebeu a ligação ainda durante o transporte, quando o bombeiro que conduzia a operação a acessou pelo número de contato familiar registrado no boletim de ocorrência de 2019. O bombeiro disse que o irmão havia sido localizado dentro de uma cavidade rochosa, no sopé da serra, que estava com vida, que o estado era estável dentro das circunstâncias e que estava sendo transportado agora para o hospital. Solange ficou de pé no meio da cozinha do apartamento com o telefone na mão. Depois que o bombeiro desligou, o ventilador de teto girava.
dormia na cadeira de vime da varanda. A planilha estava aberta no computador na mesa. Ela ficou assim por um tempo que depois não soube calcular. Depois discou para Rondonópolis. Dona Conceição atendeu no segundo toque, como sempre, porque havia aprendido a não deixar o telefone tocar mais do que isso. Solange disse que tinham encontrado Renato, que estava vivo, que estava sendo levado para o hospital agora. Dona Conceição fez silêncio, depois disse com uma voz que soou mais calma do que deveria. Ele está bem? Solange disse que sim, que estava vivo. O que nenhuma das duas disse naquele momento, porque não havia como dizer ainda sem as palavras certas e sem os fatos necessários para sustentá-las, era que contar Renato Vivo e abrir perguntas que a ausência dele havia deixado fechadas, que o silêncio de três anos havia sido de uma forma que ninguém conseguiria explicar direito, mais simples de carregar do que o relato que estava por vir. que o vivo pode falar e que às vezes o que o vivo diz é mais difícil de entender do que o silêncio. Os técnicos do IML de Água Boa que fizeram a leitura do cartão de memória da Câmera de Renato produziram um laudo de 23 páginas. O processo de leitura levou 4 dias por a decisão técnica foi de fazer a análise imagem por imagem com registro individual de cada arquiva no documento para garantir a integridade da cadeia de custódia do material probatório. O cartão de memória era um compact flash de 128 GB de capacidade. Dos 128 GB disponíveis, 94 estavam ocupados. O número total de arquivos de imagem encontrados era de 2.70, todos em formato how, o formato de arquivo não comprimido que fotógrafos profissionais utilizam para preservar a máxima quantidade de informação por imagem e que ocupa significativamente mais espaço do que os formatos comprimidos como JPEG. O laudo descreve em sequência numérica o conteúdo de cada uma das poetas e 87 fotografias.
As primeiras 412 imagens correspondem integralmente ao perfil profissional de Renato, fauna e Flora do Cerrado, registradas com composição técnica cuidadosa, enquadramentos precisos, boa gestão da luz disponível. Algumas das espécies fotografadas nesse conjunto foram classificadas pelos biólogos consultados como registros incomuns para a área do parque, potencialmente relevantes para a literatura científica.
Havia entre essas imagens um gavião do campo em posição de voo rasante a menos de 3 m do solo, uma série de orquídeas epífetas fixadas em bromeliáceas numa posição em comum de orientação norte e um conjunto de 18 fotografias de uma aranha caranguejeira que os especialistas consultados não conseguiram classificar com certeza dentro das espécies já catalogadas para a região do cerrado mato grrossense. A imagem número 413 é diferente de tudo que vem antes dela. É uma fotografia frontal de um rosto humano.
Enquadramento de busto com o fundo de rocha escura, sem detalhes que permitam identificação de localização precisa dentro ou fora da gruta. A expressão é neutra no sentido técnico, sem sorriso, sem contração muscular visível ao redor dos olhos ou da boca, sem nenhuma marcação de emoção identificável. Os olhos estão abertos e voltados diretamente para a objetiva da câmera, com uma precisão de direcionamento que sugere que o fotografado sabia que estava sendo fotografado e escolheu olhar para a câmera. A iluminação é artificial, consistente com o uso do flash embutido da câmera, mas o ângulo de incidência da luz é incomum, ligeiramente ascendente, em vez de seguir o eixo horizontal padrão do flash embutido de uma câmera reflex, a imagem número 414 é idêntica a 413 dentro da resolução de análise disponível para os peritos. A imagem número 415 também o laudo documenta essa sequência de forma contínua até a imagem 28300, com a seguinte observação registrada pelo perito responsável na conclusão do documento. Não foram identificadas variações perceptíveis de expressão facial, posição da cabeça, enquadramento ou iluminação entre os registros consecutivos analisados. O padrão se mantém uniforme ao longo das 2.737 imagens do rosto na extensão total da sequência. O rosto pertence a uma pessoa adulta. O laudo descreve as feições como compatíveis com um indivíduo entre 40 e 60 anos de idade, sem marcas de identificação visíveis, na pele, sem cicatrizes, aparentes, sem piercings, sem nenhum adorno que servisse como elemento de identificação. O sexo biológico não foi determinado com certeza pelo laudo pericial, porque as feições do rosto fotografado são classificadas pelo perito como ambíguas dentro dos parâmetros morfológicos convencionalmente utilizados para essa determinação. tonalidade da pele, nas impressões coloridas incluídas no laudo, aparece como parda, mas os técnicos incluíram uma nota de ressalva de que a qualidade da iluminação artificial com ângulo ascendente poderia alterar significativamente a percepção da cor real da pele na reprodução impressa.
Nenhuma das 2587 fotografias tinha metadados de data e hora ativos. O registro automático de data e hora é uma função padrão de todas as câmeras digitais, ativada por padrão de fábrica e desativada apenas por configuração manual no menu do equipamento. Os peritos verificaram as configurações da Canon Asos 90D e confirmaram que a função de registro de data e hora havia sido desativada manualmente a partir do menu de configurações por ação deliberada do operador do equipamento. Não foi possível determinar quando essa desativação foi feita em relação à criação das imagens. Também não foi possível determinar a ordem cronológica das fotografias. O cartão de memória registra a sequência de gravação dos arquivos, mas sem a âncora temporal dos metadados de data. E ora não há como saber se as 2.7 imagens do rosto foram feitas ao longo de dias, semanas ou meses de permanência na gruta, ou se foram feitas numa única sessão de poucos minutos com o disparador pressionado em sequência rápida. Essa indeterminação temporal foi apontada pelos peritos como a limitação mais significativa do laudo para fins investigativos.
O delegado Marcos Aurélio Feitosa, responsável pelo inquérito reaberto após o resgate, solicitou perícia de reconhecimento facial com base nas imagens do rosto, primeiro pelo banco de dados estadual da Secretaria de Segurança Pública do Mato Grosso e depois pelo Banco de Dados Nacional da Polícia Civil integrado ao sistema do Ministério da Justiça. Ambas as consultas retornaram resultado negativo.
O rosto fotografado não correspondeu a nenhuma entrada nos sistemas consultados. A perícia foi encaminhada também para a Polícia Federal, que verificou os bancos de dados sob sua responsabilidade, incluindo registros de passaporte e de estrangeiros em território nacional. O resultado foi igualmente negativo. O rosto nas fotografias não pertencia a nenhuma pessoa registrada em nenhum dos sistemas que foram consultados. Renato havia permanecido dentro de uma gruta por um período de 3 anos com uma câmera e havia fotografado 2.7, z0 vezes o mesmo rosto de alguém que para os registros do Estado brasileiro. Simplesmente não existia. E há uma questão que você se lembra de ter ficado em aberto desde o início. A câmera estava com a bateria completamente descarregada quando foi encontrada. A Canoos 90D tem autonomia de aproximadamente 1300 disparos por carga de bateria, segundo as especificações do fabricante. Em condições normais de uso, o número total de fotografias no cartão era de 2707.
Isso representa, em cálculo conservador, o equivalente a pelo menos duas cargas completas de bateria, possivelmente mais, dependendo das condições de temperatura e do uso do flash em cada disparo. Dentro de uma gruta calcária, sem nenhuma fonte de eletricidade, sem carregador conectado à rede, sem bateria reserva listada nos equipamentos que ele havia levado. Ninguém soube explicar esse detalhe. Renato passou 42 dias internado no hospital regional de Água Boa. Os médicos trataram a desnutrição, a desidratação e uma infecção fúica nas mãos, provavelmente adquirida em contato prolongado com a umidade e o material orgânico da rocha calcária da gruta. O processo de reidratação levou 4 dias de soro endovenoso. A recuperação da massa corporal foi gradual, monitorada semanalmente. A infecção fúndica cedeu ao tratamento antifúndico oral em três semanas. Não encontraram nenhuma lesão craniana, nenhuma fratura, nenhuma marca de contenção ou amarramento nas extremidades, nenhuma evidência que sugerisse cativeiro ou violência física.
recente os exames neurológicos, incluindo tomografia computadorizada e ressonância magnética feita posteriormente em Cuiabá, não identificaram alterações estruturais no cérebro que explicassem as alterações cognitivas observadas clinicamente. O que os médicos registraram no prontuário em linguagem técnica que o relatório de alta traduz parcialmente era uma dificuldade persistente e significativa na orientação temporal. Renato, nas primeiras semanas de internação, não conseguia informar com precisão em que mês ou em que ano tava. sabia que havia passado tempo dentro da gruta, mas a estimativa que apresentava de forma espontânea era de algumas semanas, talvez um mês. Quando foi informado pela equipe médica da data real e da extensão do tempo transcorrido, não apresentou reação emocional intensa, nem choro, nem agitação. Ficou quieto por um momento, olhando para o teto do quarto do hospital e depois perguntou pela gata.
Solange trouxe uma fotografia de no dia seguinte, impressa em tamanho 105 numa farmácia do caminho.
Renato olhou para a foto por alguns segundos, depois disse que a gata estava mais gorda. Estava o delegado Marcos Aurélio Feitosa, da delegacia civil de Água Boa, ouviu Renato em três sessões formais de depoimento realizadas no período entre a alta hospitalar e a transferência paraa clínica de reabilitação em Cuiabá. sempre com a presença de um advogado indicado pela Defensoria Pública do Mato Grosso. O relato de Renato nas três sessões foi essencialmente o mesmo, com pequenas variações de ordem e de detalhe que os peritos consideraram dentro do padrão esperado para um quadro de memória fragmentada após período prolongado em condições extremas. Ele havia entrado na gruta no segundo dia de expedição para se abrigar de uma chuva forte que havia chegado de repente no final da tarde.
Era tarde, o sol já havia descido além da linha da encosta e o interior da mata estava escuro antes do horário. Achou que a chuva ia passar em uma hora, que esperaria dentro e sairia antes de escurecer completamente. A chuva não passou na hora que esperava, ficou dentro. Quando acordou, estava escuro.
Não havia luz na entrada da gruta. Achou que era noite, esperou amanhecer. disse que tentou sair várias vezes, que saía da gruta e o ambiente externo estava sempre diferente do que havia esperado, que os pontos de referência que conhecia na encosta não estavam onde deveriam estar, que a vegetação em volta da entrada da gruta parecia modificada entre uma saída e outra, que o carro não estava onde havia deixado, que voltava pra gruta e esperava que o ambiente voltasse ao normal. Em algum momento que ele não soube datar, havia uma pessoa dentro da gruta com ele. Não sabia de onde havia aparecido, não tinha ouvido passos nem entrada. A pessoa estava simplesmente lá parada de frente para ele, sem falar. Ele fotografou. A pessoa não se moveu durante a fotografia.
Continuou lá depois. continuou por mais tempo. O delegado perguntou quantas vezes aquela pessoa havia estado na gruta. Renato disse que não sabia, que em alguns momentos lembrava de ter visto a mesma presença várias vezes. Em outros tinha a sensação de que cada vez era a primeira vez que via, embora o rosto fosse sempre o mesmo. O rosto era invariável, era esse detalhe que ele lembrava com maior clareza. O rosto nunca mudava. O delegado perguntou se havia tentado falar com a pessoa. Renato disse que sim. Disse que havia tentado falar várias vezes em momentos diferentes. A pessoa nunca respondeu, nunca se moveu enquanto ele falava.
Ficava parada com aquela expressão que não era nem ameaçadora, nem amigável, apenas presente, apenas lá. O delegado perguntou se havia tentado sair quando a pessoa estava na gruta. Renato ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder. Disse que às vezes havia tentado, que às vezes não havia tentado, que não conseguia explicar a diferença entre esses momentos de uma forma que fizesse sentido para ele mesmo. Quando tentava reconstruir a sequência, o delegado encerrou a terceira sessão sem indiciar nenhuma pessoa. O inquérito foi arquivado por ausência de autoria identificável e por falta de elementos que configurassem a prática de crime contra a pessoa de Renato Vasconcelos. A infecção fúndica, a desnutrição, a desidratação e a desorientação temporal foram classificadas no relatório de encerramento como consequências de exposição prolongada e involuntária a condições ambientais adversas em área de difícil acesso. O laudo das fotografias ficou anexado ao processo como peça documental, sem resolução quanto à indivíduo fotografado ou a natureza das circunstâncias em que as imagens foram produzidas. Renato recebeu alta da clínica de reabilitação de Cuiabá em janeiro de 2023, após 18 dias de acompanhamento multidisciplinar. foi para o apartamento de Solange, porque o apartamento do Jardim Petrópolis havia sido alugado por ela no segundo ano de desaparecimento. Depois que a Defensoria Pública orientou que a manutenção financeira de um imóvel vazio por tempo indeterminado não era sustentável e que a locação formal com cláusula de rescisão, em caso de retorno do titular era uma alternativa legalmente viável. A cadeira de Vim ainda estava na varanda.
desceu da cadeira quando ele entrou pelo corredor, avançou até a altura dos seus pés. Cheirou o calçado por alguns segundos com aquela tensão específica que os gatos têm quando estão verificando algo que reconhecem mas querem confirmar. E voltou pra cadeira.
Renato ficou parado no meio da sala por um momento, olhando para estante de livros da irmã, para a janela, para a varanda com a cadeira e a gata. Depois olhou pro pátio de árvores lá embaixo, para o IPA amarelo, que estava começando a soltar as folhas velhas antes da floração de agosto. Ficou assim por um tempo, sem dizer nada. Depois perguntou se tinha café. Tinha. O inquérito do caso de Renato Almeida Vasconcelos foi arquivado pela Delegacia Civil de Água Boa em março de 2023. Não há indiciados.
Não há hipótese oficial registrada sobre o que aconteceu nos 3 anos entre o desaparecimento em setembro de 2019 e o resgate em novembro de 2022. O laudo pericial das 2.847 fotografias permanece anexado ao arquivo do processo, sem que o rosto registrado em 2335 delas tenha sido identificado por qualquer banco de dados consultado até a data em que este relato foi apurado. O Sinalid encerrou o cadastro de Renato com a nota de status padrão: desaparecido, localizado, estado de saúde, recuperado. Do ponto de vista do sistema, a ficha está fechada. A história para o registro administrativo termina ali. Para Renato, a história não terminou dessa forma. Ele voltou a fotografar seis meses depois do resgate, em maio de 2023, não a Serra do Tombador. Começou com o quintal do apartamento de Solange, com a gata na varanda, com a luz da tarde de Cuiabá entrando pelas venezianas e criando faixas de sombra no chão de cerâmica.
Imagens pequenas, sem encargo, sem cliente, sem prazo. Seu colega Paulo Salave, que foi visitá-lo um sábado naquele mês, disse que as fotos eram boas. diferentes das deantes mais boas, mais próximas, com menos distância entre quem fotógrafa e o que tá sendo fotografado, uma qualidade que sempre havia sido a marca do trabalho de Renato, mas que agora parecia mais intensa, mais deliberada. A canone os 90D que foi encontrada com ele na gruta, ficou retida na delegacia como peça de inquérito durante o período de instrução do processo. Quando o inquérito foi arquivado em março de 2023, Renato solicitou a devolução do equipamento à Defensoria Pública, que encaminhou o pedido formalmente. A delegacia devolveu o corpo da câmera com todos os seus acessórios, mas o cartão de memória Compact Flash com as 2.7 C30, fotografias foi mantido no Arquivo Físico do Inquérito como documento probatório permanente. Uma cópia digital das imagens foi preservada no sistema do IML de água boa. Renato não pediu o cartão de volta, não comentou as fotografias com ninguém, além do que havia dito nas três sessões de depoimento com o delegado. Quando Solange perguntou uma única vez, numa tarde em que os dois estavam na varanda depois do jantar sobre quem era o rosto naquelas imagens, ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois disse que não sabia explicar de um jeito que fizesse sentido para ela, que havia tentado mentalmente muitas vezes, que as palavras que encontrava sempre pareciam erradas. Solange disse que tudo bem, que ele não precisava. Dona Conceição foi a Cuiabá em janeiro de 2023 para ver o filho. Ficou 15 dias no apartamento de Solange, dormindo no quarto de hóspedes, que Solange havia organizado as pressas com um colchão comprado na semana do resgate. Cozinhou arroz, feijão e frango caipira. Todos os dias comprou o frango no mesmo mercado coberto onde Solange comprava na barraca do seu Cláudio, que disse que era uma alegria quando Solange explicou para quem era o frango. Dona Conceição não fez perguntas sobre a gruta, não perguntou sobre as fotografias, não perguntou sobre o que havia acontecido nos três anos. fez perguntas sobre se ele havia dormido bem, se estava comendo na quantidade certa, se queria mais um prato, se o frango não estava salgado demais, se ele precisava de alguma coisa que ela pudesse trazer de Rondonópolis da próxima vez. Na manhã em que foi embora, abraçou o filho por um tempo mais longo do que o abraço de despedida normal, com as duas mãos nas costas dele e a cabeça levemente inclinada contra o ombro, sem dizer nada. Depois entrou no ônibus para Rondonópolis e foi embora. Há histórias que não se fecham porque não tem como fechar e há pessoas que aprendem a carregar o que não fecha sem que isso destrua tudo o mais que ainda funciona dentro delas. Isso não é uma forma de resolver, é uma forma de continuar.