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O caminhão despencou no barranco… e o que o caminhoneiro trouxe nos braços emocionou a todos

Tem coisa que a gente não escolhe. Não escolhe a hora, não escolhe o lugar, não escolhe a curva onde o caminhão vai perder o controle.
Naquela madrugada eu não escolhi cair naquele barranco, mas alguém escolheu por mim. E dentro daquele barranco, no escuro e na fumaça, tinha uma vida esperando que alguém chegasse.
Eu saí de Uberlândia às 11 da noite.
Carga de aço, 42.000 1000 kg, destino Belo Horizonte.
Aquela rota eu conheço desde os 20 e poucos anos, quando ainda ajudava meu pai, o seu Antônio, a fazer a mesma descida na mesma serra. Ele me ensinou a respeitar aquela ladeira. me ensinou que Serra de Minas na época de chuva não perdoa distração, não perdoa excesso de confiança, não perdoa quem acha que já sabe tudo. Eu aprendi, ou pelo menos eu achei que tinha aprendido.
A muriçoca tava bem naquela noite, motor firme, freio respondendo, as marchas entrando como sempre. Eu conheço cada barulho desse caminhão como conheço a própria respiração.
Quando alguma coisa não tá certa, ela avisa. Uma vibração diferente no volante, um assobio que não deveria estar lá, uma resposta estranha no pedal. Naquela noite ela tava calada.
Tava bem e eu tava bem também. Mas antes de entrar na serra, eu parei no posto do coroa para tomar um café.
Coroa é apelido de todos que conhecem Osvaldo, dono do posto há vinte e tantos anos naquele trecho. Homem que já viu de tudo naquela estrada e que tem o hábito de ficar acordado de madrugada porque diz que é quando os caminhoneiros precisam mais de um café e de uma conversa. Eu entrei, pedi o café, fiquei encostado no balcão por uns 10 minutos sem falar muito. O coroa também não falou muito. Era esse o tipo de silêncio bom que existe entre gente que se conhece de longa data. Quando eu ia saindo, ele disse uma coisa que eu não dei muita importância na hora. Disse que tinha passado uma viatura da Polícia Rodoviária umas 2 horas antes, em alta velocidade, seguindo para baixo da serra.
disse que não sabia o que tinha por acontecido, que ninguém tinha parado para falar. Eu bati a mão no balcão, agradeci o café e saí. Não dei importância. Devia ter dado. Tinha passado de meia-noite quando eu entrei na serra. Neblina baixa, daquelas que ficam coladas no asfalto e apagam a linha do meio da pista. Eu reduzi, liguei o Milha, fui entrando devagar. O pantaneiro vinha atrás com distância de segurança no jacaré azul dele. A gente não estava conversando pelo rádio PX, só mantendo a presença, que é o que caminhoneiro bom faz em trecho perigoso.
Você sabe que o outro tá ali, isso já é o suficiente.
O pantaneiro me contou depois que ele viu a muriçoca sair da pista, que ele viu os freios, viu o caminhão derrapar, viu o guard raio ceder, que ele pisou no freio do jacaré com tudo e ficou parado no acostamento sem conseguir respirar por uns segundos, que o rádio PX explodiu de vozes logo em seguida, porque outros caminhoneiros que estavam mais atrás também tinham visto as luzes desaparecerem na encosta, que a primeira coisa que todo mundo gritou foi o meu nome, mas eu não ouvi nada disso.
Na terceira curva da descida, alguma coisa mudou. Não foi um barulho, não foi uma imagem, foi uma sensação daquelas que sobem pelo volante e chegam nas mãos antes de chegar na cabeça. O asfalto embaixo da muriçoca ficou diferente.
Liso demais. Liso de um jeito que asfalto molhado não fica. Eu pisquei o olho e o mundo já tinha mudado de direção.
Olho.
Eu entendi na mesma fração de segundo em que já não havia nada da fazer. Mancha de óleo no meio da pista, invisível na neblina, espalhada pela chuva que tinha caído mais cedo. A muriçoca pesava 42.000 kg. E quando uma carga dessas perde aderência numa descida, não tem braço humano que segure. Eu virei o volante, pisei no freio com tudo, fiz o que meu pai me ensinou, fiz o que 30 anos de estrada me ensinou. Não foi suficiente. O Guard Rail cedeu como papel. Eu ouvi o barulho do metal se abrindo. Senti o caminhão sair da pista e aí o mundo virou uma mistura de escuro e barulho e impacto que não dá para descrever para quem nunca esteve dentro de algo que cai. É como se o tempo parasse e acelerasse ao mesmo tempo.
Você bate, você tomba, você para e aí vem o silêncio.
O silêncio depois de um acidente assim é o silêncio mais pesado que existe. Não é quietude. É a ausência de tudo que existia antes. O motor que você conhece de cor e não ouvia mais porque era parte de você. O barulho do asfalto debaixo dos pneus, o rangido normal da carroceria que acompanha cada curva.
Tudo isso some de uma vez e o que fica é um nada que pesa.
Eu fiquei alguns segundos sem entender onde eu estava. A cabine tinha tombado pro lado direito. O vidro do para-brisa tinha ido. A porta do meu lado estava amassada contra as árvores. Tinha fumaça fina saindo de algum lugar do motor.
Tinha o cheiro de óleo quente e de terra molhada e de mato e de borracha queimada.
Eu tentei mover o braço esquerdo e alguma coisa dentro dele fez um aviso que eu entendi na hora. Partido. Eu tentei o braço direito. Esse obedeceu.
Eu passei a mão no rosto. Sangue, não em abundância, mas o suficiente para saber que tinha alguma coisa aberta na testa.
Eu respirei fundo uma vez, duas vezes, tentei organizar o pensamento. Tô vivo.
Tô aqui. O que vem agora?
Lá em cima, eu ouvia o pantaneiro gritando meu nome. A voz dele vinha de longe, de cima do barranco, misturada com o barulho do motor do jacaré, que ele tinha deixado ligado no acostamento.
Eu tentei responder e não saiu muita coisa. A garganta tinha travado. Saiu só um som rouco, baixo, que não chegaria a lugar nenhum. Mas aí veio outra coisa.
fraco, distante, vindo de algum lugar no escuro do outro lado das árvores que tinham parado a muriçoca, choro de criança. Eu fechei o olho e abri de novo, achando que tinha ouvido errado, que era o barulho da serra, o vento, alguma coisa que o impacto tinha feito com a minha cabeça, mas não. Era choro, era fino, agudo, daquele jeito que bebê chora quando está assustado, mas não está machucado. Eu conheço esse choro. Já ouvi dos meus sobrinhos quando eram pequenos. É o choro de quem precisa de colo, de quem sente que está sozinho num lugar escuro e quer que alguém apareça. Eu não pensei. Não tem muito o que pensar quando você ouve isso. Eu empurrei o que restava da porta com o ombro direito, abri um espaço e saí da cabine arrastando o corpo pelo vidro quebrado e pela lama. O braço esquerdo eu segurei colado no peito. A cabeça latejava num ritmo que eu aprendi a ignorar, mas o choro continuava. E enquanto ele continuasse, eu sabia onde eu precisava ir. O barranco era íngreme, cheio de pedra e raiz molhada. Eu desci mais do que andei, me segurando nas árvores com o braço bom, escorregando na lama, caindo de joelho e [limpando a garganta] levantando de novo.
A lanterna do celular eu tinha perdido no impacto. Eu ia no escuro e no choro, só nisso.
Quando você não tem mais nada que te guia, você vai no que ainda faz barulho.
Você vai no que ainda está vivo.
Foram talvez uns 50 m de descida que pareceram muito mais. Em algum ponto, eu parei de sentir o braço partido, porque o corpo encontrou um jeito de distribuir a dor que não fosse paralisante. Sei lá como o corpo faz isso, mas faz. Você aprende na estrada que o corpo humano aguenta muito mais do que a cabeça imagina quando tem um motivo suficiente para aguentar.
Foi quando eu encontrei o carro.
Um gol branco velho, completamente capotado, com as rodas para cima, encalhado entre duas árvores, uns 30 m abaixo da pista. Ele não tinha sinalização nenhuma, nenhum triângulo, nenhum pisca, nada. O para-choque dianteiro estava destruído, a lataria do teto amassada contra o chão, os vidros das janelas laterais quebrados. tinha chegado ali e ficado no escuro, invisível para quem viesse pela pista. O óleo do motor dele era exatamente o que tinha me jogado no barranco. Eu me aproximei com cuidado. A frente do carro estava destruída.
Tinha um homem preso no banco do motorista, inconsciente, com o rosto machucado, mas com o peito subindo e descendo, respirando.
No banco do passageiro, uma mulher jovem, também inconsciente, com o cinto enrolado de um jeito que eu não gostei de ver. E no banco de trás, presa num bebê conforto que de algum jeito tinha aguentado o impacto. Uma menina pequenininha de poucos meses, chorando com os olhinhos fechados, com os bracinhos agitando no ar, sem um arranhão visível no corpo. Eu fiquei parado, olhando para ela por um segundo, que pareceu muito mais longo do que um segundo.
Tinha neblina, tinha escuro, tinha o barulho do mato e da chuva que voltava a cair devagar. Eu estava com o braço partido, com sangue no rosto, no meio de um barranco, longe da pista, sem ninguém perto. E ali na minha frente tinha uma criança viva que precisava sair daquele carro antes que ele pegasse fogo ou escorregasse mais barranco abaixo. O cheiro de combustível que eu sentia misturado no ar não era coisa para ignorar. Eu abri a porta de trás com o braço direito. Precisei forçar. A lataria estava torta do impacto, mas abriu. Trabalhei o cinto do bebê conforto com uma mão só, devagar, com cuidado, sem pressa, apesar de tudo que o corpo pedia pressa. Quando o cinto soltou, eu peguei ela com o braço direito, segurei no peito, encostei a cabeça dela no meu ombro. Ela continuou chorando por mais uns segundos. aquele choro agitado de susto e depois foi diminuindo. Foi ficando quieta, como se soubesse que tinha chegado alguém, como se o corpo pequenininho dela reconhecesse que estava segura. E aí eu comecei a subir.
Se você quer saber se eu rezei naquela subida, eu vou te dizer que não sei.
Não sei se o que eu fiz era reza ou era só o pensamento de um homem exausto tentando colocar um pé na frente do outro sem cair. Mas eu me lembro de ter pensado no meu pai. Me lembro de ter pensado no seu Antônio descendo essa mesma serra anos atrás, me ensinando a respeitar a ladeira, me dizendo que a estrada pune o descuido, mas também revela o caráter de cada um. Me lembro de ter pensado que se eu fosse cair de novo, pelo menos eu ia cair carregando o que devia carregar.
Lá em cima, o pantaneiro tinha descido até a metade do barranco com uma lanterna.
Atrás dele vieram mais dois caminhoneiros que tinham parado depois do acidente. Eu os ouvi antes de ver a luz. Ouvi os passos quebrando galho seco. Ouvi alguém chamando meu nome.
Ouvi o pantaneiro falar baixo pro outro.
Tá vivo? Ele tá vivo.
Quando a lanterna me alcançou, ninguém falou nada por um tempo. Eu tava parado na lama, cambaleando, com o braço esquerdo colado no peito e a menina no braço direito. Ela tinha parado de chorar. Estava quieta, com os olhos abertos, olhando pro escuro como criança pequena olha para tudo com aquela calma que a gente perde quando cresce e aprende a ter medo das coisas. O pantaneiro chegou primeiro.
Homem grande, mineiro de poucas palavras, que eu conheço faz mais de 10 anos de estrada. Ele ficou na minha frente, olhou para mim, olhou paraa menina e o olho dele encheu. Ele não deixou cair, mas encheu. Eu vi na luz da lanterna que o outro segurava. Ele disse só isso. Me dá ela, xodó.
Eu seguro ela. Me dá. Eu passei a menina para ele e foi quando as pernas resolveram que já tinham feito a parte delas. Eu fui pro chão de joelho.
Não foi uma queda dramática, foi o corpo tomando uma decisão que a cabeça não teve tempo de aprovar. Um dos caminhoneiros me pegou pelo ombro, me amparou, ficou do meu lado enquanto eu tentava recuperar o fôlego. Lá embaixo, o carro ainda estava no lugar.
A mulher que eu soube depois que chamava Ana tinha dado sinal de vida, começado a se mexer. O homem Rodrigo ainda estava preso nas ferragens, mas vivo. O pantaneiro subiu com a menina no colo.
Homem enorme carregando uma coisa pequenininha no meio do barranco, na chuva, na madrugada. Eu nunca vou esquecer essa imagem enquanto eu viver.
No alto, no acostamento, tinha mais gente. O coroa, que tinha sido avisado pelo rádio e chegado com cobertor e água e o telefone do Samu já discando, pegou a menina do pantaneiro, enrolou no cobertor, ficou com ela num canto seco enquanto o resgate não chegava. Ele me contou depois que ficou olhando para ela o tempo todo, que ela não chorou mais, que ficou quieta com os olhos abertos. e que isso era a coisa mais impressionante que ele tinha visto na vida inteira. Eu fui parar sentado no estribo do jacaré do pantaneiro com um pano no rosto e o braço imobilizado como dava. Um dos caminhoneiros mais jovens que eu não conhecia ficou do meu lado e me perguntou como eu tinha encontrado o carro no escuro, como eu sabia onde ir.
Eu falei que eu tinha seguido o choro.
Ele ficou me olhando sem entender direito, com aquele jeito de quem ouviu, mas não processou. Mas eu entendi.
Naquele momento, lá no acostamento molhado, com a sirene do SAMU começando a se aparecer no fundo da serra, eu entendi uma coisa que não precisava de explicação longa. Eu não escolhi cair naquele barranco, mas alguém escolheu por mim.
Foi quando o milagre chegou. O gaúcho tinha vindo de Patos de Minas, estava fazendo a mesma rota e tinha ouvido tudo pelo rádio PX.
30 anos de estrada, Santinha no retrovisor, homem que fala pouco e observa muito. Ele parou o caminhão, desceu, avaliou a cena com aquela calma de quem já viu coisa demais e aprendeu que não adianta se agitar. Olhou pro barranco, olhou para mim, olhou pro coroa com a menina no colo.
Ficou em silêncio por um longo tempo que ninguém sentiu necessidade de preencher.
Aí ele tirou o chapéu, passou a mão na cabeça e falou baixo, quase para si mesmo. Mas todo mundo ouviu.
Deus não manda aviso, ele manda caminhoneiro.
Ninguém respondeu. Não havia o que responder.
O Samu chegou aos 40 minutos. Junto veio uma viatura da polícia rodoviária e logo depois o caminhão do resgate com o equipamento para trabalhar nas ferragens.
Ana foi retirada do carro, ainda atordoada, mas com os sinais estáveis, uma fratura no ombro, um corte na cabeça. Rodrigo levou mais tempo. A porta do lado dele estava completamente amassada contra o banco. Precisou de quase uma hora paraa equipe de resgate abrir espaço suficiente, mas saiu vivo.
A menina foi examinada ali mesmo no acostamento pela enfermeira do SAMU, que levantou os olhos para mim num momento e ficou me olhando de um jeito que eu não soube bem interpretar na hora.
Ela disse que a menina estava bem, sem fraturas, sem cortes, sem nada, como se o acidente tivesse acontecido em volta dela sem tocá-la. Eu fui pro hospital em Conselheiro Lafayete, com o braço partido em dois lugares, cinco pontos na testa e uma costela trincada que eu nem tinha sentido no barranco, porque o corpo às vezes tem a bondade de guardar certas dores para depois. O médico que me atendeu na emergência me perguntou se eu sabia o que tinha feito. Eu disse que sim. Ele disse que não, que eu provavelmente não sabia, porque subir aquele barranco naquelas condições com um braço partido era uma coisa que ele não conseguia explicar clinicamente e que preferia nem tentar. Eu não disse nada. Deixei ele fazer o trabalho dele.
No quarto do hospital, sozinho, com o braço engessado e a costela enfaixada e a testa costurada. Eu fiquei olhando pro teto por um longo tempo, pensando na muriçoca lá no barranco, pensando no seu Antônio que me ensinou aquela serra, pensando no choro que tinha me tirado da cabine quando eu poderia, com toda a legitimidade ter ficado quieto esperando o resgate chegar.
E pensando numa coisa que o policial rodoviário tinha falado antes de eu entrar na ambulância quase de passagem, com aquele jeito cuidadoso de quem não quer dar notícia ruim demais de uma vez.
O motorista que tinha capotado o gol branco, o que tinha jogado o óleo na pista, o que tinha deixado mulher, filha e marido presos no meio do barranco, sem sinalização nenhuma e sem acionar o resgate. Ele tinha fugido, tinha saído do carro, entrado pelo mato e sumido na noite, e ninguém sabia ainda quem era.
Você acha que eu devia deixar essa história morrer ali? que eu devia engolir, me recuperar, pegar a estrada de volta quando o braço sarasse e seguir minha vida como se nada tivesse acontecido.
Se você acha que sim, eu entendo. Tem gente que faz isso. Tem gente que passa por coisa pesada, sobrevive e decide que já é suficiente, que já deu, que a vida segue. Eu respeito quem faz isso. Mas você ainda não sabe o que eu fui descobrir sobre quem era esse homem e sobre quem estava protegendo ele.
Se você já passou por uma injustiça que quase te fez desistir de fazer o certo, deixa nos comentários. Eu quero ler. E se você ainda não se inscreveu no canal, faz isso agora, porque essa história continua e o que vem a seguir eu não vi ninguém esperando. Eu fiquei três dias internado. O braço precisava de cirurgia para colocar um pino. A costela precisava de repouso absoluto e a testa costurada precisava ser acompanhada por causa de um corte que tinha chegado perto demais do osso. Três dias deitado numa cama de hospital, é tempo demais para um homem que passa a vida na estrada. Você começa a pensar em coisa demais, começa a rever cenas, começa a calcular o que poderia ter sido diferente, o que poderia ter dado mais errado, o que dependeu de 1 mil aqui contando em vez de alguém estar contando de você. Pensei na muriçoca.
O pantaneiro tinha me mandado foto pelo celular.
com aquela consideração de amigo que não quer esconder a verdade, mas também não quer machucar de uma vez. A cabine estava destruída. O chassi tinha dobrado no impacto com as árvores. O estribo do lado do motorista tinha sumido. O paralama direito estava a uns 3 m do caminhão, arrancado na descida. Era o tipo de imagem que mecânico olha e balança a cabeça devagar antes de falar qualquer coisa. Eu olhei para aquela foto por um longo tempo. A muriçoca era do meu pai antes de ser minha. O seu Antônio comprou ela em 78, usada de um transportador de Araguari que estava trocando de frota. Passou dois anos reformando ela no quintal de casa nos fins de semana com a ajuda de um cunhado que entendia de mecânica. Quando eu tinha uns 10 anos, eu já dormia dentro da cabine dela no pátio, fingindo que estava fazendo uma viagem longa, inventando cidades, inventando cargas.
Esse caminhão tem mais da minha história guardada do que qualquer outra coisa que eu posso.
Mas a muriçoca era ferro e borracha, a menina era gente.
No segundo dia, o delegado veio me visitar no hospital.
O homem se chamava Bragança. Décio Bragança, delegado responsável pela área onde o acidente tinha acontecido. Homem de uns 55 anos, cabelo grisalho cortado curto, sério, sem ser grosso, com aquele jeito de quem já ouviu muita história e aprendeu que a primeira versão raramente é a completa. Ele veio com um escrivão e um bloco, sentou na cadeira do lado da cama e ficou quase uma hora me ouvindo contar tudo com detalhes. Eu contei tudo. A saída de Uberlândia, o café no posto do coroa, a entrada na serra, a sensação no volante, a mancha de óleo, a queda, o choro, o carro, a menina.
Contei com a precisão de quem passou a vida na estrada e sabe que detalhes importam.
O Bragança ouvia sem interromper, anotava devagar, fazia uma pergunta ou outra nos momentos certos. Ele disse que a investigação estava andando, que as câmeras de um posto de combustível, uns 8 km antes da curva tinham flagrado o Gol Branco, passando às 23:40, com dois adultos no banco da frente e o bebê conforto visível no banco de trás.
tinham conseguido a placa sem dificuldade.
O carro era registrado em nome de um homem chamado Eládio Moura, 42 anos, residente numa cidade a 60 km dali. Eu perguntei se tinham localizado ele. O delegado fez uma pausa pequena antes de responder, daquelas pausas que dizem mais do que a resposta que vem depois.
disse que estavam trabalhando nisso.
Eu entendi a pausa, mas ainda não sabia o tamanho dela. Soube no terceiro dia quando o pantaneiro veio me visitar e ficou mais tempo do que o necessário, rodando o chapéu na mão antes de falar o que tinha vindo falar. Eu deixei ele chegar no assunto no tempo dele. Conheço o pantaneiro faz mais de 10 anos.
Ele não é homem de rodeio. Então, quando ele rodeia é porque o assunto é pesado.
Quando ele falou foi direto: “Xodó”.
Esse Eládio é cunhado do vereador Gilmar Nogueira, da Câmara Municipal daqui da cidade. E estão dizendo que o Gilmar já tá mexendo os pauzinhos para tentar abafar o caso antes de virar processo.
Eu fiquei quieto, olhando pro teto por um tempo. Gilmar Nogueira eu não conhecia pessoalmente, mas conhecia o tipo interior do Brasil tem esse tipo em quantidade.
homem que tem um cargo pequeno, mas usa ele como se fosse o maior do mundo, que conhece o delegado pelo primeiro nome, que almoça com o promotor de vez em quando, que fez favor para meio mundo ao longo dos anos, esperando que quando precisasse os favores voltassem multiplicados.
O tipo de homem que quando um parente faz uma besteira não pensa primeiro no que é certo, pensa primeiro em como conserta sem barulho, sem processo, sem constrangimento público. A família de Ana e Rodrigo não tinha dinheiro. Ele era motorista de aplicativo. Ela trabalhava num mercadinho do bairro.
tinham saído de viagem para visitar a família dela no interior. A menina pequenininha no banco de trás, um carro velho que era o que tinham para andar.
Gente simples, sem contato, sem influência, sem advogado de família, sem ninguém que conhecesse vereador nenhum.
Eu pensei em tudo isso deitado naquela cama de hospital, com o braço engessado e a costela do cada vez que eu respirava fundo demais. E aí eu tomei uma decisão que não é do meu feitio natural. Eu, que sou homem de poucas palavras, que prefere resolver as coisas no silêncio e seguir em frente sem alarde, que aprendi com o seu Antônio que o trabalho fala mais alto do que qualquer discurso, decidi abrir a boca. Mas isso é a próxima parte dessa história. Antes de sair do hospital, na manhã do quarto dia, eu pedi pro pantaneiro me trazer o rádio PX portátil que eu sempre carregava na bolsa de viagem. Ele trouxe sem perguntar para quê.
O pantaneiro é assim.
faz antes de perguntar quando sabe que você tem um motivo. Eu fiquei com o rádio na mão por um tempo, só segurando.
O rádio PX tem uma coisa que quem não é da estrada não entende bem. Ele não é só comunicação, ele é comunidade.
Quando você fala no rádio, você tá falando para todo caminhoneiro que tá naquele canal, naquele momento, em qualquer ponto daquela rota. Pode ser alguém perto, pode ser alguém longe, pode ser alguém que você nunca viu, mas todo mundo ouve. Eu liguei o rádio, ajustei o canal que eu conheço de core e esperei um intervalo de silêncio. Quando veio, eu apertei o botão e falei: “Aqui é o xodó”. Qra xodó falando do hospital de conselheiro Lafaet. Tô bem. Braço quebrado, costela trincada, testa costurada. A muriçoca tá no barranco, mas eu tô de pé. E a menina tá bem? Ela tá bem. O rádio ficou quieto por uns dois, 3 segundos. Aí abriu vozes de caminhoneiro que eu conhecia e de caminhoneiro que eu nunca tinha ouvido na vida. Todos falando ao mesmo tempo, todos mandando notícia boa, todos perguntando se eu precisava de alguma coisa, se a família tinha sido avisada, se o Toninho em Uberaba já sabia.
O milagre entrou no canal com aquela voz de gaúcho que carrega peso de montanha e disse só: “Que bom, doutor!
Que bom! Eu não respondi mais nada, só desliguei o rádio e fiquei quieto. Tem hora que a destrada devolve o que você deu para ela.
Não sempre, não do jeito que você espera, mas devolve.” Naquela manhã, deitado naquela cama com o braço imobilizado e a vista presa no teto branco do hospital, eu pensei em tudo o que tinha acontecido em menos de uma semana. Pensei no óleo na pista, pensei na muriçoca saindo do guard rai no escuro do barranco e no choro que me guiou.
Pensei na menina quieta no meu ombro enquanto eu subia pela lama e pela pedra com um braço só e pensei no homem que tinha fugido, Eládio Moura.
Eu nem conhecia o nome ainda naquela hora. Só soube depois pelo delegado, mas eu já sabia o que ele era. Era um homem que bebeu, pegou o carro, capotou na serra e foi embora pelo mato, deixando a família para morrer no barranco, sem acionar o resgate, sem parar num posto para pedir ajuda, sem fazer nada além de sumir.
agora com o cunhado vereador movendo as peças que sabia mover. O caso corria o risco de ser engavetado antes de virar processo. A família de Ana e Rodrigo ficaria sem resposta. A menina cresceria sem que ninguém fosse responsabilizado pela noite em que ela quase perdeu os dois pais.
E eu, que tinha quebrado o braço e trincado a costela por causa do óleo que o carro desse homem tinha deixado na pista, ficaria em casa me recuperando como se nada tivesse acontecido.
Isso não era uma opção. No dia em que eu recebi alta, o pantaneiro me esperava na porta do hospital, com o caminhão dele estacionado na rua lateral e um marmitex de comida que a mulher dele tinha mandado, porque ele sabia que eu não ia querer parar em restaurante nenhum, com o braço engessado e a cara costurada.
Ess é o tipo de coisa que amigo de estrada faz sem que você peça. Sem cerimônia, sem discurso, só faz. Eu comi sentado no estribo do jacaré, devagar, com uma mão só. O pantaneiro ficou do meu lado fumando um cigarro e olhando a rua sem falar nada por um bom tempo.
Quando ele falou, foi sobre a muriçoca.
disse que um guincho já tinha retirado ela do barranco e levado para uma oficina em conselheiro Lafaete, que o mecânico tinha feito uma avaliação inicial e que o resultado não era o pior possível, mas também não era bom. O chassi tinha dobrado, a cabine precisava ser reconstituída quase inteira. O motor tinha sofrido no impacto e precisava ser aberto para avaliação completa, meses de trabalho, dinheiro que eu não tinha guardado para isso. Eu ouvi tudo e não falei nada por um tempo. Aí eu falei: “E a menina?” O pantaneiro jogou o cigarro no chão, pisou em cima e disse que Ana tinha recebido alta na véspera, que Rodrigo ainda estava internado, mas estável, e que a menina estava com os avós maternos na cidade deles, saudável, sem nada. Ele fez uma pausa e acrescentou que os avós tinham perguntado pelo caminhoneiro que tinha tirado ela do carro, que queriam saber o nome. Eu disse que não precisava de nome nenhum.
Ele me olhou de lado com aquele jeito que o pantaneiro tem quando discorda, mas respeita. Eu pedi para ele me levar até a delegacia. O Bragança não esperava me ver tão cedo. Ele me recebeu na sala dele, me indicou a cadeira e ficou me olhando com aquela expressão de homem que já está calculando o que vem a seguir antes de você abrir a boca. Eu sentei, apoiei o braço engessado na perna e disse o que eu tinha vindo dizer. Eu disse que queria fazer um depoimento formal e completo, que queria que cada detalhe daquela noite ficasse registrado em papel assinado, que sabia que havia pressão política no caso e que queria que meu depoimento fosse o tipo de coisa que não some numa gaveta, porque havia testemunhas de que eu tinha entrado naquela delegacia naquele dia e falado com ele. O Bragança ficou me olhando por um momento sem piscar. Aí ele pegou uma folha, colocou na máquina e disse: “Pode começar.” Eu falei por quase duas horas. Falei tudo que sabia, tudo que vi, tudo que senti naquela noite. Falei sobre o óleo na pista, sobre a queda, sobre o choro, sobre o carro sem sinalização nenhuma.
Falei sobre o cheiro de combustível que me fez tirar a menina rápido antes de qualquer outra coisa.
Falei sobre a subida com o braço partido. Falei com precisão de data, horário, posição na pista, quilometragem aproximada.
30 anos de estrada ensinam você a ser preciso com esse tipo de informação, porque um dia ela importa.
Quando eu terminei, o Bragança leu o depoimento inteiro, pediu que eu conferisse e assinasse. Eu assinei com a mão direita, que era a única que funcionava.
Ele ficou com uma cópia, me deu outra.
Antes de eu sair, ele disse uma coisa que ficou comigo. Disse que abandonar o local de acidente com vítimas é crime previsto no Código de Trânsito Brasileiro, com pena de detenção de 6 meses a 3 anos e que quando há lesão corporal ou morte, a pena aumenta.
Disse que não sinalizar destroço ou veículo parado na pista também é infração gravíssima.
disse que com as câmeras do posto, com o laudo do acidente e com meu depoimento, o caso tinha estrutura suficiente para virar processo, independente de quem fosse o cunhado de quem. Eu agradeci e saí. No caminho de volta pro caminhão do Pantaneiro, eu pensei numa coisa que meu pai costumava dizer. Ele dizia que a estrada é honesta, que ela não favorece ninguém, que ela trata rico e pobre do mesmo jeito, que ela não lê sobrenome, que ela não consulta quem é cunhado de quem antes de decidir o que vai acontecer numa curva molhada. Eu sempre soube que ele tinha razão, mas naquela tarde eu entendi que a estrada pode ser honesta e o que vem depois da estrada?
Nem sempre. Por isso a gente precisa fazer a parte que depende da gente. O pantaneiro me levou até Uberaba, onde o Toninho me esperava no pátio da transportadora com aquele jeito dele de mineiro gordo e bom, que finge que não tá preocupado, mas que você sabe que ficou acordado esperando.
Ele me recebeu com um aperto de mão no braço. Bom, me olhou de cima a baixo, avaliando os estragos com olho de sócio, e disse que a transportadora estava tocando, que as cargas não tinham parado, que ele tinha coberto tudo enquanto eu estava no hospital. Eu disse que sabia.
Ele disse que sabia que eu sabia. E aí a gente entrou no escritório e ele me colocou um café na frente sem perguntar se eu queria. Nos dias que se seguiram, eu fiquei em Uberaba.
O braço engessado me impedia de dirigir e a costela me lembrava da existência dela toda vez que eu tentava fazer alguma coisa mais brusca. Eu tomei conta do que podia tomar conta sentado, ligações, documentação, acompanhamento de cargas, conversa com o mecânico de conselheiro Lafaete sobre o orçamento da muriçoca.
O orçamento chegou numa manhã de terça-feira e eu li duas vezes para ter certeza que tinha entendido certo. Era o valor de um caminhão usado de qualidade razoável. Eu dobrei o papel, coloquei no bolso e não falei sobre ele com ninguém por alguns dias. Não porque estava escondendo, mas porque precisava de tempo para digerir antes de decidir o que fazer. Quando você passa a vida inteira construindo uma coisa e ela fica no barranco numa noite, você não toma decisão importante no calor da hora.
Você espera, você deixa o barulho passar e aí você decide. Foi nessa semana em Uberaba que eu recebi a visita que eu não esperava.
Era uma quarta-feira de tarde, céu encoberto, aquele calor abafado que o Beraba tem quando a chuva ameaça e não vem. Eu estava no escritório da transportadora quando o Toninho entrou com aquele jeito de quem viu alguma coisa do lado de fora e não sabe bem como anunciar. Ele disse que tinha uma família na porta, que queriam falar comigo. Eu saí no pátio da transportadora, do lado de fora do portão de ferro, estavam Ana, Rodrigo e a menina. Ana, eu reconheci pela descrição que o pantaneiro tinha me dado. Jovem, cabelo escuro, braço esquerdo com tipóia, um curativo ainda no rosto. Rodrigo era mais alto, magro, com aquele andar de quem ainda sente dor, mas está tentando mostrar. E a menina estava no colo da Ana de macacão amarelo, com aqueles olhos grandes de bebê que observa tudo como se o mundo inteiro fosse novidade.
Eu fiquei parado na porta do escritório por um segundo. Rodrigo veio até mim.
Ele não disse boa tarde, não disse com licença. Não fez nenhum daqueles preâmbulos que a gente usa quando não sabe como começar. Ele veio até mim, estendeu a mão, eu dei a minha. E ele apertou com as duas mãos dele e ficou assim por um momento sem falar. Quando ele falou, a voz estava diferente de como a voz fica quando a gente está tentando não desabar. Ele disse: “O Senhor salvou minha filha. O Senhor salvou minha família. Eu não sei o que responder quando alguém fala isso. Nunca soube.
Eu disse que fiz o que qualquer um teria feito. Rodrigo sacudiu a cabeça devagar, como quem discorda, mas não tem energia para discutir, e disse que não, que não era qualquer um não, que tinham ficado mais de uma hora naquele barranco sem que ninguém descesse. Eu não respondi a isso. Ana se aproximou com a menina no colo. Ela ficou na minha frente, olhou para mim por um momento e disse que o nome da filha era Graça, que antes do acidente eles tinham um nome diferente escolhido, que não veio à cabeça agora, mas que depois daquela noite eles decidiram que só podia ser graça. Eu olhei pra menina, ela me olhou de volta com aqueles olhos grandes e sérios de bebê, que ainda não sabe que deve ter medo de estranho. E eu pensei sem querer muito naquela noite no barranco, no choro que me guiou no escuro, na cabine destruída que eu saí arrastando o corpo, no braço partido que eu segurei colado no peito, enquanto a outra mão trabalhava o cinto do bebê conforto. Eu estendi o dedo indicador para ela. Ela pegou com a mãozinha inteira, do jeito que bebê pega, e ficou segurando.
Eu não sei explicar o que acontece dentro de um homem quando uma criança faz isso. Mas acontece alguma coisa. Ana perguntou se podia me abraçar. Eu disse que sim. Ela me abraçou com cuidado por causa do braço engessado e ficou assim por um tempo que eu não contei. Eu deixei. Rodrigo me perguntou sobre o processo. Disse que tinham conseguido um advogado, um homem indicado por um sindicato que o cunhado dele conhecia.
que estava acompanhando o caso e que disse que com as provas que existiam o processo tinha base forte. Disse que tinha ouvido que eu tinha prestado depoimento formal na delegacia e que o advogado disse que isso era importante, que depoimento de testemunha presencial com essa consistência de detalhes pesava muito. Eu disse que sabia e que se precisassem de mais alguma coisa da minha parte, era só falar.
Rodrigo me olhou com aquele olhar de homem simples, que não tem muito vocabulário para expressar o que está sentindo, mas que você entende completamente mesmo assim. Ele disse: “Obrigado de um jeito que não era agradecimento de educação, era o tipo de obrigado que carrega peso. Eles ficaram uns 20 minutos. A graça ficou no colo do Toninho por um tempo, que ficou todo feliz com aquilo como fica todo homem gordo e bom quando coloca bebê no colo.
Antes de ir embora, Ana olhou para mim uma última vez e disse uma coisa que eu não esperava. Ela disse que naquela noite, antes de perder a consciência no carro capotado, ela tinha rezado, que tinha pedido que alguém aparecesse, que ela não sabia se rezou para Deus, para Nossa Senhora, para qualquer coisa que estivesse ouvindo. Só pediu que alguém aparecesse porque a graça estava sozinha no banco de trás e ela não conseguia chegar até ela.
Ela disse isso e olhou para mim sem completar a frase. Eu entendi o que ela não completou. Depois que eles foram embora, eu fiquei em pé no pátio por um tempo sozinho. O Toninho entrou no escritório sem falar nada, que era o jeito dele de me dar espaço. O céu ainda estava encoberto, ainda ameaçava chuva, ainda não chovia. Eu pensei no seu Antônio. Pensei no que ele teria dito se estivesse aqui. Meu pai era homem de fé simples, sem ostentação, sem discurso.
Ele não falava muito sobre Deus, mas vivia como quem acredita que cada coisa tem um lugar e cada coisa tem uma hora.
Ele diria que não foi acidente.
Ele diria que a palavra acidente é o que a gente usa quando não quer admitir que não entende o tamanho do plano. Talvez ele tivesse razão. Talvez não. Eu não sou homem de resposta fácil paraa pergunta difícil, mas eu sei que naquela noite tudo que precisava se encaixar se encaixou de um jeito que não tem explicação humana satisfatória.
hora que eu saí de Uberlândia, a hora que o gol capotou, o fato de eu ser coruja e descer aquela serra naquele horário que a maioria dos caminhoneiros evita. O fato de a cabine ter tombado do lado que tombou, que me deixou com o braço direito livre, o fato de o choro ter carregado longe o suficiente pelo barranco molhado para me alcançar dentro da cabine destruída.
Você pode chamar de coincidência. Eu respeito quem chama, mas eu não consigo chamar. Três semanas depois, o Eládio Moura foi preso. O Bragança me ligou pessoalmente para avisar.
disse que tinham localizado ele numa cidade do interior, escondido na casa de um primo e que ele tinha sido detido na manhã daquela terça. disse que a pressão política que existia no início tinha diminuído bastante depois que o caso virou notícia numa rádio regional que um repórter chamado Marcos Aurélio tinha pegado a história e colocado no ar com detalhes que tornavam difícil engavetar qualquer coisa sem que ficasse evidente o motivo.
soube depois que o Marcos Aurélio era um rapaz jovem que cobria a região faz uns 3 anos e que tinha ouvido pelo rádio PX de um caminhoneiro que conhecia sobre um doutor que tinha caído no barranco e saído com um bebê no braço.
Ele foi atrás da história, encontrou o Bragança, encontrou a família de Ana e Rodrigo, encontrou o Coroa e o Pantaneiro como testemunhas. A história foi ao ar numa semana.
Quando a rádio toca numa cidade de interior, todo mundo ouve.
Não tem como abafar o que todo mundo já ouviu.
O vereador Gilmar Nogueira deu uma nota dizendo que nunca interferiu em investigação nenhuma e que lamentava o ocorrido. Ninguém que conhecia a história acreditou muito na nota. Mas o que importava era que o processo estava andando, que o Eládio estava preso respondendo por abandono de incapaz, por omissão de socorro, por deixar a pista em condições perigosas, sem sinalização.
O advogado de Ana e Rodrigo me ligou para dizer que o depoimento que eu tinha prestado na delegacia foi um dos pilares da denúncia. Eu ouvi tudo isso e não senti o que algumas pessoas esperam que a gente sinta nessas horas. Não sentia aquela satisfação de quem ganhou, aquela sensação de vitória que aparece em filme quando o vilão é levado algemado. O que eu senti foi mais simples e mais quieto do que isso. Senti que a coisa certa tinha acontecido, que a família daquela menina ia ter uma resposta, que o processo existia e tinha sustentação.
Isso era suficiente para mim.
A muiçoca ficou na oficina por 4 meses e meio. Eu acompanhei cada etapa pelo telefone com o mecânico, um homem chamado Evaristo, que tinha sido indicado pelo Toninho e que trabalhava ferro como quem tem respeito pelo que faz. Cada atualização que ele me dava, eu ouvia com atenção. Cada decisão sobre o que reformar e o que substituir, eu participei.
Não porque eu entendo de tudo, mas porque aquele caminhão é parte de uma história que é maior do que eu. O pino no braço eu tirei depois de dois meses.
A costela liberou antes. A testa ficou com uma cicatriz fina na altura da sobrancelha esquerda, que o médico disse que ia diminuir com o tempo. Não diminuiu muito, mas eu não me incomodo. Cicatriz de estrada faz parte. No dia em que a muriçoca ficou pronta, eu fui até conselheiro Lafayet buscar ela. O Evaristo me esperava na porta da oficina com aquele jeito satisfeito de mecânico que fez um trabalho do qual se orgulha e sabe que fez.
Ele me mostrou tudo que tinha sido feito, cada detalhe, cada peça trocada.
cada parte reconstituída.
A cabine estava nova por fora e por dentro. O chassi tinha sido endireitado e reforçado.
O motor tinha saído e entrado revisado.
A pintura vermelha estava igual ao que eu lembro de quando o seu Antônio me mostrou ela pela primeira vez no pátio de casa. Eu fiquei parado na frente dela por um tempo sem entrar. O Evaristo ficou quieto do meu lado. Ele era do tipo que entende quando um homem precisa de um momento. Eu passei a mão na lataria fria, como metal sempre é, mas familiar de um jeito que vai além de familiar. É o tipo de coisa que você não explica, só sente.
Eu entrei na cabine, sentei no banco do motorista, coloquei as mãos no volante, tudo no lugar, tudo como sempre foi. O cheiro de óleo e borracha e couro velho que nenhuma reforma tira, porque já faz parte da estrutura. O barulho do motor quando eu girei a chave, aquele diesel grave e firme que eu conheço como conheço. A voz de pessoa da família. Eu sentei ali por alguns minutos antes de sair da oficina. Pensei na noite da serra, pensei na graça. Pensei no seu Antônio, que comprou esse caminhão em 78 e passou dois anos reformando ele no quintal. Porque acreditava que as coisas feitas com cuidado duram mais do que as coisas feitas com pressa. Pensei no pantaneiro descendo o barranco com a lanterna. Pensei no milagre tirando o chapéu e falando aquela frase que ficou: “Deus não manda aviso, ele manda caminhoneiro.” Eu engrenei a primeira, saí da oficina devagar, virei na rua, peguei a estrada.
A muiçoca respondeu igual a sempre, como se os quatro meses e meio no barranco e na oficina tivessem sido só um intervalo, uma pausa. E agora era a hora de voltar pro que sempre foi o lugar dela. Eu viajei até Uberaba naquela tarde, devagar, sem pressa, prestando atenção em cada detalhe do caminho.
A entrada da cidade. Parei num posto, desci, andei em volta do caminhão, uma vez só olhando. Tudo bem? Tudo no lugar.
O Toninho me esperava no pátio da transportadora.
Quando eu entrei com a muriçoca pelo portão, ele estava de pé do lado de fora do escritório com um café na mão e aquele sorriso de mineiro gordo e bom que não precisa de muita palavra para dizer o que está dizendo. Ele ergueu o café na minha direção, como quem faz um brinde. Eu buzinei uma vez. Naquela noite já em casa, eu recebi uma mensagem no celular. Era de um número que eu não tinha na agenda.
Quando abri, era uma foto. A graça de macacão verde dessa vez, sentada no tapete da sala, com aqueles olhos grandes observando alguma coisa fora do quadro. Ana tinha mandado a foto sem texto nenhum, só a foto. Eu fiquei olhando para ela por um tempo. Aí guardei o celular, apaguei a luz e dormi.
Tem noite que a gente fecha o olho e sabe, sem precisar pensar muito, que fez o que tinha que fazer.
Não pelo reconhecimento, não pelo resultado, não pela história que vai ser contada, mas porque dentro de você existe uma bússola que não mente. E quando você segue ela, mesmo quando dói, mesmo quando custa, ela te deixa dormir.
Meu pai me ensinou isso antes de me ensinar a dirigir à estrada. Ele dizia, vai te colocar em lugares que você não escolheu, vai te dar situações que você não pediu, vai te fazer decidir rápido com o que você tem, não com o que você gostaria de ter. É nesses momentos que você descobre o que você é feito. Não no conforto, não na facilidade, não quando tudo está certo, nos momentos em que tudo está errado e você ainda precisa escolher.
Naquela noite na serra, tudo estava errado, mas a escolha foi certa. E uma menina de nome Graça está crescendo porque ela foi.
Nos dias que se seguiram à volta da muriçoca, eu voltei à rotina devagar.
Não de uma vez, do jeito que a cabeça queria, mas do jeito que o corpo permitia.
A primeira viagem depois do acidente eu fiz curta. Uberaba, Uberlândia, só para sentir de novo o que é estar na estrada com tudo funcionando.
Saí de manhã cedo, antes do sol, que é quando eu sempre prefiro. A estrada de madrugada tem uma honestidade que a estrada de dia não tem. De noite você vê só o que os faróis alcançam. Você vive de momento em momento, de curva em curva, sem a distração do horizonte largo que o dia oferece.
Naquela primeira madrugada de volta, eu fiz o percurso devagar, abaixo da minha velocidade normal, com tensão redobrada em cada trecho que eu conheço de cor.
Não por medo. O medo não é o problema depois de um acidente grave. O problema é a hipervigilância, que é diferente do medo. É você prestando atenção demais em tudo ao mesmo tempo, ouvindo barulho que não existe, sentindo variação no volante que é só imaginação.
Isso passa com o tempo e com a quilometragem.
A estrada cura o que a estrada causou, desde que você não desista dela.
No trecho da serra, eu reduzi bastante.
Entrei na descida devagar, os olhos no asfalto, a respiração controlada.
A noite estava seca, sem neblina, lua alta. Eu passei pela curva onde a muriçoca tinha saído da pista e não parei, mas olhei pro acostamento. O guard rail tinha sido substituído.
A marca na terra onde o caminhão tinha passado ainda estava visível. Uma cicatriz longa na vegetação do barranco que a chuva ainda não tinha apagado completamente. Eu acelerei um pouco depois de passar ali. Não por ansiedade, por respeito. Tem lugar na estrada que você passa, reconhece? e segue. Não fica parado olhando. A vida não fica parada olhando. Cheguei em Uberlândia quando o sol estava nascendo. Fui direto ao pátio da transportadora, estacionei a muriçoca, desci, fui tomar café num boteco da esquina que abre cedo. O dono me conhece faz anos. É homem que não pergunta o que não precisa perguntar.
Ele me viu entrar, colocou o café na frente sem que eu pedisse e voltou pro que estava fazendo. Esse é o tipo de coisa que parece pequena e não é. Numa das manhãs daquela semana, o Bragança me ligou de novo. Disse que o processo estava avançando, que a audiência inicial tinha sido marcada, que o Eládio Moura estava respondendo em liberdade, por enquanto, por conta de um abeias corpos, que o advogado da família do vereador tinha conseguido, mas que o processo seguia. disse que isso era normal, que a maioria dos casos funciona assim, que o caminho é longo, mas o importante é que o caminho existe. Eu perguntei se havia risco de o caso sumir mesmo assim. Ele disse que com o nível de documentação que existia, com depoimento de testemunha primária, laudo técnico do acidente, imagens de câmera de posto e com a repercussão que a rádio regional tinha dado, a janela para assumir era muito pequena.
disse que o Marcos Aurélio, o repórter, tinha continuado acompanhando o caso e que ia cobrir a audiência. Eu disse que era isso. Então, ele disse, é isso.
Antes de desligar, o Bragança disse uma última coisa.
disse que em 22 anos de carreira ele tinha visto muita gente passar por acidente grave na estrada e ficar no carro esperando o resgate. O que é o certo a fazer do ponto de vista da segurança pessoal? Disse que nunca tinha visto ninguém sair de uma cabine destruída com braço partido e descer barranco no escuro seguindo choro de bebê. disse isso não como elogio, mas como observação de homem que está tentando entender.
Eu não soube o que responder. Disse obrigado e desliguei.
Existe uma pergunta que as pessoas fazem às vezes diretamente, às vezes nas entrelinhas, quando sabem o que aconteceu naquela noite. A pergunta é: você sabia que ia conseguir? Você tinha certeza de que ia sair do barranco com ela? A resposta honesta é não. Eu não sabia, não tinha certeza de nada. Eu tinha um braço partido, sangue na cabeça e 50 m de barranco molhado entre mim e a pista. A menina era leve, mas eu tinha uma mão só. Eu podia cair, podia escorregar e cair com ela no braço. Essa possibilidade existia e eu sabia que existia enquanto subia. Mas existe uma diferença entre saber que pode dar errado e deixar isso te parar. Meu pai dizia que coragem não é não ter medo.
Coragem é ter medo e ir de qualquer jeito, porque o que está em jogo vale mais do que o medo.
Eu não me sentia corajoso naquela subida. Eu me sentia exausto, com dor e com uma criança no braço que precisava chegar lá em cima. Simples assim.
O que eu aprendi naquela noite e que eu carrego desde então é uma coisa que caminhoneiro velho sabe, mas que às vezes precisa de uma sacudida para lembrar. Você não controla a estrada, você nunca controlou. Você pode fazer tudo certo, pode ser experiente, pode conhecer cada curva, pode respeitar cada limite de velocidade e ainda assim a estrada pode te surpreender. O óleo que você não viu, a neblina que apagou a linha, o carro parado no escuro sem sinalização nenhuma.
O que você controla é o que você faz depois que a surpresa acontece. E é exatamente nesse momento, quando o mundo virou e você está no fundo do barranco sem saber bem o que está quebrado, que você descobre quem você é, não quem você acha que é, não quem você conta que é nos bares e nos postos, quem você realmente é quando não tem plateia, quando é só você. O escuro e o choro de uma criança que não sabe que você existe, mas precisa que você apareça. Eu não escolhi cair naquele barranco, mas eu escolhi o que fiz quando caí. E essa escolha foi toda minha. Semanas depois, eu estava numa parada de caminhão em Patos de Minas quando o milagre apareceu. Ele entrou, me viu, veio até a mesa onde eu estava comendo. Sentou sem pedir licença, do jeito que caminhoneiro antigo sente que não precisa pedir licença. E pedi um café pro garçom. A gente ficou um tempo sem falar como é o hábito entre a gente que se conhece de estrada.
Aí ele disse que a frase que ele tinha falado naquela noite no acostamento não era dele. Disse que tinha ouvido de um padre num velório faz uns 15 anos no interior do Rio Grande do Sul e que a frase tinha ficado nele sem que ele soubesse bem o porquê. Disse que naquela noite, quando viu a cena no acostamento, a frase veio antes que ele pudesse pensar. Eu disse que era uma boa frase.
Ele disse que era.
Ficou quieto um momento. Aí disse que em 30 anos de estrada, sem acidente, com a santinha no retrovisor e tudo, ele tinha chegado a acreditar que estava protegido porque era cuidadoso, que o cuidado era a proteção.
Naquela noite”, disse ele, “Ele entendeu que o cuidado é necessário, mas não é suficiente, que às vezes a proteção vem de outro lugar e se manifesta de um jeito que a gente não escolheu e não planejou”. Ele olhou para mim e disse: “Você não foi para aquele barranco, você foi mandado.” Eu não disse nada. Ele tomou o café, deixou o dinheiro na mesa, se levantou e foi embora. Eu fiquei sozinho com o prato pela metade e aquela frase na cabeça.
Você não foi para aquele barranco, você foi mandado. Eu não sei se acredito nisso do jeito que o milagre acredita.
Sou homem de pouca certeza nas coisas que não dá para provar, mas eu sei que quando eu olho paraa foto da graça que a Ana me manda de vez em quando, com aqueles olhos grandes e aquela calma de criança que ainda não aprendeu a ter pressa, eu não consigo encontrar uma explicação puramente humana para ela estar viva. E quando eu não consigo encontrar explicação humana, eu paro de procurar e aceito o que existe.
Graça existe. Eu estou aqui. A muriçoca está na estrada. O resto, como meu pai dizia, é conversa de quem tem tempo sobrando para filosofar quando devia estar dormindo antes da viagem. Eu engato a primeira e sigo. É o que a gente faz.