
Vaqueiro desapareceu em 1989, mas o que encontraram escondido 14 anos depois deixou todos em choque.
“Roberto nunca demora tanto assim”, repetia Dona Maria pela vigésima vez naquela tarde de março, secando as mãos no pano de prato enquanto observava o horizonte pela janela. O sol já estava se pondo, banhando os campos da propriedade rural Boa Esperança em tons alaranjados, e não havia sinal do marido.
Era 15 de março de 1989, uma quarta-feira comum no interior do Mato Grosso, a 80 km de Cáceres. Roberto Alves Santos, 34 anos, havia saído antes do amanhecer para inspecionar o rebanho no pasto distante, atividade que realizava há mais de 10 anos, conhecendo cada centímetro daquele território como ninguém.
O calor sufocante grudava na pele como xarope, característico da estação chuvosa que durava mais do que o esperado. As cigarras faziam uma sinfonia ensurdecedora. Entre os ipês floridos, o cheiro de terra úmida se misturava ao cheiro doce do capim. Roberto montara seu amado cavalo castanho, Raio, levando apenas uma bolsa com doces, charque e uma cantil de água, além do facão amarrado à cintura e o laço preso à sela.
“Papai sempre volta”, sussurrou Carlos, o filho mais velho de 12 anos, tentando tranquilizar a mãe. No entanto, sua fala traía uma ansiedade que aumentava a cada hora que passava. A propriedade pertencia ao fazendeiro Augusto Ribeiro desde 1962, uma figura respeitada na área que cuidava de seus trabalhadores. Roberto era considerado o melhor peão da fazenda, habilidoso em laçar um touro bravo na vegetação densa ou localizar uma vaca perdida onde outros nem cogitariam procurar.
Ele crescera naquelas terras, descendente de um antigo capataz, e conhecia cada córrego, cada árvore antiga, cada trilha aberta pelos animais. Quando o sol beijou o horizonte, sem que Roberto aparecesse, Maria sentiu um aperto no estômago, que nada tinha a ver com o vento noturno que começava a soprar. Ela conhecia seu companheiro há 16 anos, desde que se casaram na modesta capela de São José em Cáceres.
E nunca em todo esse tempo ele pernoitou fora sem avisar ninguém. O fazendeiro Augusto chegou à residência dos funcionários por volta das 20h, trazendo mais três peões. Prepararam tochas e lanternas e partiram em direção ao pasto remoto, seguindo a trilha que Roberto costumava fazer. O grupo cavalgou por horas na penumbra, gritando seu nome, ouvindo apenas o eco de suas próprias vozes, perdendo-se na imensidão do cerrado.
Encontraram Raio solto, pastando calmamente perto do córrego de águas claras, ainda com sua sela e equipamento intactos. A bolsa estava amarrada normalmente, mas quando a abriram, encontraram tudo exatamente como Roberto havia organizado naquela manhã. A comida e a água ainda estavam geladas no cantil.
O facão estava caído no chão a poucos metros do animal, como se tivesse se soltado de sua cintura durante uma queda. No entanto, não havia sangue, nem sinais de combate, nem vestígio apontando o destino de Roberto. Era como se ele tivesse simplesmente se desintegrado e evaporado. Naquela noite, enquanto os homens vasculhavam a área com lanternas que piscavam na escuridão, Maria permaneceu acordada na cozinha.
Preparando café para quando seu marido voltasse, porque ele estava voltando, ele precisava voltar. Roberto conhecia aquele território melhor do que qualquer mortal. Mas quando o sol nasceu em 16 de março de 1989, Roberto Alves Santos ainda estava desaparecido, e a fazenda Boa Esperança nunca mais seria a mesma. Ele não foi embora. “Um homem como o Roberto não desaparece assim”, insistia o fazendeiro Augusto, para quem quisesse ouvir.
No entanto, sua voz já não carregava a mesma certeza dos primeiros dias. Duas semanas se passaram desde o desaparecimento, e a operação de busca se tornara a maior mobilização já testemunhada na área. Peões de propriedades vizinhas, bombeiros da capital, polícia militar e até alguns indígenas da região uniram forças para esquadrinhar cada centímetro de floresta, cada ravina, cada cavidade onde um ser humano pudesse ter caído.
Dona Maria já não conseguia comer. Ela ficara tão fraca que suas roupas pareciam penduradas em seu corpo como trapos em uma boneca. Passava os dias vagando pela fazenda, chamando pelo marido, sua voz ficando cada vez mais rouca, até que Carlos, ou uma de suas filhas mais novas, a levava à força para casa. “Mãe, a senhora precisa comer alguma coisa”, suplicava Mariana, de 10 anos, oferecendo um prato de arroz com pequi que a vizinha cozinhara.
Mas Maria simplesmente balançava a cabeça, os olhos fixos na estrada de terra, onde Roberto certamente apareceria a qualquer momento. As especulações se multiplicaram como uma praga. Alguns alegavam que ele fora atacado por um animal selvagem. Embora não houvesse vestígios de sangue ou luta, outros sussurravam sobre dívidas de jogo ou ligações com contrabandistas que atravessavam a fronteira para a Bolívia.
Alguns até sussurravam sobre maldições ancestrais, já que a fazenda fora construída sobre antigos cemitérios indígenas. O detetive Henrique Monteiro, um homem objetivo de 50 anos que conhecia bem os dilemas locais, não acreditava em nenhuma dessas teorias. “Um peão, como o Roberto, não cai em um buraco, não se perde na mata e não abandona sua família”, declarou, acendendo outro cigarro enquanto examinava o mapa da propriedade pela centésima vez.
A investigação revelou detalhes perturbadores. Na manhã de seu desaparecimento, Roberto fora visto conversando com um indivíduo desconhecido perto do curral principal, por volta das 5 da manhã. A testemunha foi Pedro Silva, outro peão, mas sua descrição do estranho era imprecisa. Homem alto, usando chapéu, falava diferente, não era daquela região.
Quando perguntado por que não relatara isso antes, Pedro baixou os olhos. “Achei que não fosse relevante, seu inspetor. O Roberto conversava com muita gente.” A busca se expandiu para além das fronteiras da propriedade. Mergulhadores vasculharam o Rio Paraguai e seus afluentes. Cães farejadores foram trazidos de Campo Grande, mas sempre perdiam o rastro no mesmo ponto, perto do córrego Águas Claras, onde Raio fora localizado.
Seis meses depois, quando as chuvas de outubro… À medida que a busca começava a devastar a região, a busca oficial foi cancelada. O fazendeiro Augusto continuou patrocinando expedições privadas por mais um ano, mas até sua determinação começou a vacilar diante da imensidão do Cerrado e da ausência total de evidências. A vida na fazenda Boa Esperança seguiu, mas nunca mais foi a mesma.
Maria envelheceu visivelmente a cada dia, seus cabelos ficando grisalhos prematuramente, suas mãos sempre tremendo levemente. Os filhos cresceram carregando o fardo da ausência do pai, e Carlos, aos 13 anos, já trabalhava como peão para contribuir com o sustento da família. Em 1991, dois anos após o desaparecimento, um homem apareceu na fazenda, alegando ter visto Roberto em uma cidade no interior de Rondônia.
Maria vendeu suas duas vacas para pagar a viagem até lá, mas encontrou apenas um homem parecido que não era seu marido. Em 1993, um garimpeiro jurou que trabalhara com Roberto em um garimpo ilegal perto da fronteira. Outra viagem… Outra decepção, outro fragmento da alma de Maria se estilhaçando. Os anos se passaram como páginas arrancadas de um calendário: 1994, 1995, 1996.
O fazendeiro Augusto morreu de ataque cardíaco em 1997, e seus descendentes venderam a propriedade para um grupo de empresários de São Paulo. A nova administração não tinha paciência para histórias do passado e demitiu vários funcionários de longa data. Maria e seus filhos foram forçados a se mudar para a periferia de Cáceres, onde ela conseguiu trabalho como empregada doméstica.
Carlos tornou-se soldado no exército. As meninas casaram-se jovens e se espalharam pelo Brasil. A família se desintegrou como um punhado de areia seca jogada ao vento. Mas Maria nunca parou de procurar. Mesmo morando na cidade, ela voltava à fazenda mensalmente, percorrendo os mesmos lugares, chamando o mesmo nome, esperando pelo mesmo milagre que nunca vinha.
Em março de 2003, exatamente 14 anos após o seu desaparecimento, ela estava lá novamente, uma mulher de 52 anos que… Ela parecia ter 70 quando ouviu o barulho de tratores e maquinário pesado vindo da sede da fazenda. Os novos donos haviam decidido modernizar as instalações, e foi então que o impossível aconteceu.
“Cuidado com aquela madeira, está podre!”, gritou Sebastião, o capataz contratado para a reforma, enquanto seus homens começavam a desmontar o curral principal da fazenda. Era uma antiga estrutura de madeira de lei que resistira ao teste do tempo por mais de 40 anos. Era a manhã de 18 de março de 2003, e o cronograma estava apertado.
Os novos donos da fazenda queriam tudo terminado antes do início da estação seca em maio. Currais modernos, cercas de arame galvanizado, um sistema de identificação eletrônica para o rebanho — tudo para transformar a antiga fazenda Boa Esperança em um empreendimento do século XX. Maria chegara cedo, como sempre fazia naquele mês.
Ela observava o trabalho à distância, com o coração pesado, vendo aqueles homens derrubando pedaços da história onde Roberto trabalhara por tantos anos. Cada tábua que caía era como se um pedaço de suas memórias estivesse sendo arrancado. “Dona, a senhora não pode ficar aqui”, disse o supervisor. “Por favor, é arriscado, há maquinário pesado operando.”
Mas ela não se moveu. Permaneceu ali sob a sombra de um pé de pequi, observando o desmantelamento de sua vida passada. Foi Antônio, um dos trabalhadores da equipe, quem primeiro notou algo estranho quando removeram as tábuas da parte inferior do curral. “Ei, Sebastião, venha aqui ver isso”, chamou ele, sua voz estranha apontando para uma das vigas de sustentação.
Sebastião se aproximou e franziu a testa. Entre duas vigas de madeira, no canto mais escuro do curral, havia algo que não deveria estar ali, uma cavidade artificial, como se alguém tivesse removido cuidadosamente parte da madeira para criar um esconderijo. “Isso não é cupim”, murmurou o capataz, passando a mão pela abertura.
A madeira fora cortada com precisão, formando uma abertura retangular de cerca de 30 por 20 cm. E dentro, envolto em lona plastificada, amarelada pelo tempo, estava um objeto. Sebastião removeu o pacote, que estava cuidadosamente embrulhado. Era pesado, do tamanho de uma caixa de sapatos. A lona estava bem amarrada com barbante, e quando foi desenrolada, revelou algo que silenciou todos os homens.
Uma caixa de madeira artesanal, esculpida à mão, com a tampa pregada com pregos pequenos e enferrujados. Na tampa, marcada com ferro de marcar gado, estavam as iniciais: “R.A.S.”. “Roberto Alves Santos, Jesus Cristo!”, sussurrou Antônio, fazendo o sinal da cruz. A notícia se espalhou pela fazenda como fogo em palha. Maria, que fora afastada do local pelos trabalhadores, soube do achado quando viu os homens correndo em sua direção, todos falando ao mesmo tempo, gesticulando excitadamente.
Quando entendeu o que estava acontecendo, suas pernas tremeram. Carlos, que chegara de Campo Grande para visitar sua mãe, teve que apoiá-la enquanto ela cambaleava até o curral, seu coração batendo tão forte que parecia que ia explodir do peito. A caixa jazia em uma tábua improvisada, cercada pelos trabalhadores que a observavam com uma mistura de curiosidade e respeito.
Maria se aproximou lentamente, como se fosse uma relíquia sagrada que pudesse se esfarelar ao menor toque. “Essas são as iniciais dele”, disse ela, sua voz um sussurro. “R.A.S. Roberto Alves Santos. Meu marido sempre assinava assim em documentos.” Sebastião olhou para Carlos, que assentiu. Com uma chave de fenda, o capataz removeu cuidadosamente os pregos da tampa.
O ranger da madeira seca ecoou no silêncio absoluto que se instalara ao redor do curral. Dentro, dispostos com o cuidado de quem sabia que estava deixando uma mensagem para o futuro, estavam os objetos que contariam a verdade sobre o desaparecimento de Roberto Alves Santos. Um caderno escolar azul de capa dura, suas páginas amareladas pela umidade, mas ainda legíveis.
Uma carteira de identidade em nome de Roberto, uma foto de família, um terço de madeira que Maria reconheceu imediatamente. Era o que ela dera ao marido de presente de casamento. E no fundo da caixa, embrulhado em um pedaço de pano que um dia fora branco, um revólver calibre .38 com apenas quatro balas no tambor.
Mas foi quando Carlos abriu o caderno que o silêncio se transformou em algo quase palpável. Na primeira página, na caligrafia caprichada que Maria conhecia tão bem, estava escrito: “Se alguém está lendo isso, é porque já estou morto e finalmente encontraram minha mensagem.”
“Meu nome é Roberto Alves Santos, e preciso contar a verdade sobre o que aconteceu naquele dia, 15 de março de 1989. Não posso morrer sem que minha família saiba que não os abandonei. Eu jamais os abandonaria.” Maria caiu em prantos, mas não eram lágrimas de tristeza, eram lágrimas de alívio. Após 14 anos, ela finalmente saberia a verdade.
O delegado Monteiro, agora aposentado, mas ainda morando em Cáceres, chegou à fazenda no final da tarde. Aos 64 anos, andava mais devagar e seus cabelos estavam completamente brancos, mas seus olhos permaneciam alertas e aguçados. Quando Carlos ligou para contar sobre a descoberta, ele não hesitou em percorrer os 80 km até a fazenda. “Em 30 anos de trabalho policial, nunca vi nada parecido”, disse ele, folheando cuidadosamente as páginas do caderno.
“É como se ele soubesse que ia morrer e decidisse deixar um testemunho.” Maria estava sentada na varanda da antiga sede, agora transformada no escritório da nova administração. Ela segurava o terço de Roberto entre os dedos, enquanto Carlos lia em voz alta as passagens mais importantes do diário. A história que emergia das páginas amareladas era muito diferente de tudo que imaginaram durante aqueles 14 anos.
“15 de março de 1989, 4 da manhã”, a primeira entrada começava. “Não consegui dormir a noite toda. Ontem à tarde, quando fui buscar o gado do pasto do fundo, vi algo que não deveria ter visto. Agora não sei o que fazer.” A caligrafia de Roberto, sempre meticulosa, começou a tremer mais à medida que continuava seu relato. “Vi o fazendeiro Augusto conversando com três homens que não conhecia.
Homens da cidade, de terno e gravata. Não eram fazendeiros. Eles estavam perto do pasto, onde o gado sempre morre, aquela área onde o fazendeiro não deixava ninguém chegar perto, dizendo que era perigoso. Consegui ouvir parte da conversa. Estavam falando sobre mercadoria enterrada, realocação, um problema resolvido.
Um dos homens entregou um envelope grosso ao fazendeiro. Dinheiro, com certeza. Agora entendo por que o gado morre naquela área. Não é doença. Eles enterraram algo lá. Algo que mata os animais quando chegam perto.” Carlos parou de ler e olhou para sua mãe. “Mãe, a senhora lembra daquele pasto que o fazendeiro não deixava ninguém entrar?” Maria assentiu lentamente.
Seu pai sempre achava estranho. Dizia que não fazia sentido deixar um bom pasto sem usar, ainda mais com o bom solo preto de pasto para capim. O detetive Monteiro interveio. “Continue lendo, rapaz. Isso está ficando interessante.” “5:30 da manhã. O fazendeiro apareceu em minha casa, disse que queria falar comigo antes de eu sair para o trabalho.
Ele perguntou se eu tinha visto algo estranho ontem. Fingi que não. Mas ele continuava me olhando com suspeita. Disse que alguns homens da cidade viriam aqui hoje à tarde para resolver alguns problemas. Pediu que eu os acompanhasse até o pasto do fundo, para mostrar a eles. Os locais onde o gado costuma pastar. Estou com medo, Maria.
Se algo acontecer comigo, quero que saiba que é porque descobri algo que não deveria. O fazendeiro sempre foi bom para mim, mas hoje havia algo diferente em seus olhos.” A voz de Carlos falhou ao chegar na próxima parte. “Escondi este caderno e minhas coisas no curral. Se eu não chegar em casa hoje, significa que algo deu errado.
Procure no curral principal, na viga dos fundos, lado esquerdo. Vocês são tudo para mim. Eu não queria deixá-los, mas não posso fingir que não vi o que vi. Maria, meu amor, cuide bem dos meninos. Carlos, seja um bom homem e proteja sua mãe e suas irmãs. Mariana, estude muito para ser alguém na vida. Lúcia e José, obedeçam sempre à sua mãe.
Se vocês estão lendo isso, é porque Deus quis que a verdade viesse à tona. Não busquem vingança. Apenas saibam que os amei até o último momento da minha vida.” O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo canto dos pássaros e pelo barulho distante do gado pastando. O detetive Monteiro fechou lentamente o caderno e suspirou. “Dona Maria, a senhora tem alguma ideia do que seu marido possa ter visto naquele pasto?” Ela balançou a cabeça, enxugando as lágrimas com seu lenço. “Nunca soube de nada, detetive. O fazendeiro sempre foi bom conosco. Mas agora que penso nisso, ele morreu muito rico para quem só tinha gado e plantações.” Carlos pegou o caderno das mãos do detetive. “Tem mais uma coisa aqui no final”, disse ele, folheando até a última página escrita.
“15 de março, 11 da manhã. Voltei do pasto. Vi o que enterraram lá. Tambores de metal com símbolos que não reconheço. Um cheiro químico forte que faz meus olhos arderem.
Agora entendo por que o gado morre. O fazendeiro me ofereceu dinheiro para esquecer tudo. Muito dinheiro. Ele disse que era melhor para mim e minha família, mas não posso aceitar dinheiro sujo. Não posso fingir que não vi. Vou falar com o detetive Monteiro amanhã de manhã. Ele é um homem honesto, saberá o que fazer. Se eu não conseguir falar com ele, se algo acontecer comigo…
Antes de qualquer coisa, pelo menos este testemunho permanecerá. A verdade sempre vem à tona. Mais cedo ou mais tarde.” O detetive Monteiro levantou-se, o rosto grave. “Dona Maria, seu marido era um homem íntegro. Ele morreu porque descobriu algo que poderia ter mudado muito nesta região.” Ele olhou para o horizonte onde o sol começava a se pôr atrás das colinas.
“Agora precisamos descobrir onde ele está enterrado e o que aconteceu com aqueles tambores.” Três dias após a descoberta do diário, uma operação conjunta entre a Polícia Federal, o IBAMA e o Ministério Público desembarcou na fazenda Boa Esperança.
O caso tomara proporções que ninguém imaginava quando Roberto escreveu suas últimas palavras naquele caderno escolar. O Dr. Paulo Costa, procurador federal especializado em crimes ambientais, conduzia as investigações. Ele era um homem meticuloso, de óculos grossos e um jeito de falar comedido, que vira casos semelhantes em outras regiões do país durante os anos 80 e 90. “Na época do desaparecimento do seu marido”, explicou ele a Maria.
Era comum empresas estrangeiras pagarem fazendeiros para enterrar resíduos tóxicos em áreas rurais. O Brasil carecia de fiscalização adequada, e muitos lucravam. “Dinheiro fácil com isso.” As escavações no ‘pasto da morte’, como os vizinhos já chamavam a área, começaram na manhã de 22 de março. Equipamentos especiais de detecção química confirmaram a presença de substâncias tóxicas no solo, enterradas a aproximadamente 2 metros de profundidade.
Quando as máquinas trouxeram à superfície o primeiro tambor de metal, corroído pela ferrugem e com símbolos de caveira pintados em sua lateral, todos sabiam que Roberto pagara com a vida por uma descoberta que poderia ter evitado uma catástrofe ambiental. Eram 47 tambores no total, contendo resíduos químicos altamente tóxicos de uma indústria farmacêutica alemã.
O fazendeiro Augusto recebera o equivalente a 200 mil dólares na época para permitir o despejo clandestino em suas terras. “Seu marido salvou muitas vidas”, disse o Dr. Paulo a Maria enquanto observavam as equipes especializadas removendo os tambores com equipamentos de proteção. “Se essa contaminação tivesse se espalhado para o lençol freático, poderia ter envenenado toda a região.”
Mas a pergunta que atormentava Maria por 14 anos ainda permanecia sem resposta. Onde estava o corpo de Roberto? A resposta veio três semanas depois, através de um telefonema inesperado. O Padre Joaquim, da Igreja de São José em Cáceres, pediu para falar urgentemente com a família de Roberto. “Recebi uma confissão que preciso compartilhar”, disse o padre, um homem de 78 anos que conhecia Roberto desde a infância.
“O senhor Osvaldo Ferreira está hospitalizado em estado grave com câncer de fígado. Ele pediu que chamassem vocês.” Osvaldo Ferreira fora o capataz da fazenda vizinha à Boa Esperança. Um homem respeitado na região, casado, pai de quatro filhos, que frequentava a missa todos os domingos e nunca dera motivo para suspeitas.
No Hospital São Luís, em Cáceres, ele estava irreconhecível. O câncer consumira seu corpo robusto, deixando apenas pele e ossos, mas seus olhos ainda brilhavam com a urgência de quem precisa aliviar a consciência antes de encontrar o Criador. “Dona Maria”, disse ele, sua voz fraca, mas firme, “eu matei seu marido.”
“Não posso morrer sem pedir perdão.” Maria sentiu o mundo girar ao seu redor, mas forçou-se a permanecer de pé. Carlos segurou sua mão, dando-lhe a força necessária para ouvir o que precisava ouvir. “O fazendeiro Augusto me pagou para resolver o problema do Roberto”, continuou Osvaldo, lutando para falar entre os acessos de tosse.
“Ele disse que tinha visto coisas que poderiam destruir a todos nós. Ele me deu 50 mil cruzeiros e disse que era pelo bem da região. Encontrei Roberto no córrego Águas Claras no dia 15 de março. Ele disse que tinha um trabalho a fazer longe da fazenda. Quando desceu do cavalo para conversar, atirei nele pelas costas.”
Maria fechou os olhos e respirou fundo. Após 14 anos, ela finalmente sabia como seu marido morrera. “Enterrei-o no cemitério da minha fazenda, debaixo da mangueira atrás da casa principal. Ninguém nunca suspeitou de nada. Toda semana eu levava flores lá, fingindo que era para decorar o jardim.” Osvaldo Ferreira morreu dois dias depois, levando consigo o peso de um crime que carregara por 14 anos.
Mas sua confissão finalmente permitiu que Roberto fosse encontrado e enterrado com a dignidade que merecia. O corpo estava exatamente onde Osvaldo dissera que estaria. Preservado pelo solo argiloso da região, ainda foi possível identificá-lo pelas roupas que Maria reconheceu imediatamente e pela aliança que ele nunca tirara do dedo.
Em 15 de abril de 2003, exatamente 14 anos e um mês após seu desaparecimento, Roberto Alves Santos foi enterrado no cemitério municipal de Cáceres com honras de herói. Centenas de pessoas compareceram ao funeral, incluindo autoridades federais, ambientalistas e vizinhos, que finalmente entenderam por que aquele homem simples desaparecera.
Na lápide, Maria mandou gravar uma frase simples que resumia toda a história: “Roberto Alves Santos morreu defendendo a verdade.” O fazendeiro Augusto já morrera quando a verdade veio à tona, mas seus filhos foram forçados a indenizar as famílias afetadas pela contaminação e a pagar uma multa milionária pelos crimes ambientais.
A empresa alemã responsável pelos resíduos também foi processada internacionalmente. Maria continuou morando em Cáceres, mas agora com a paz de quem finalmente conhece a verdade. Aos 52 anos, decidiu que ainda tinha muita vida pela frente. Voltou a sorrir, a fazer planos e a acreditar novamente que a vida valia a pena.
“Ele não nos abandonou”, ela sempre dizia quando alguém perguntava sobre Roberto. “Ele morreu sendo o homem íntegro que sempre foi. E isso é tudo o que importa.” Em 2010, sete anos após a descoberta do diário, a área da antiga fazenda Boa Esperança foi transformada em reserva ambiental. Uma placa na entrada conta a história de Roberto Alves Santos, o peão que sacrificou sua vida para proteger o meio ambiente.
Às vezes, quando o vento sopra forte sobre os pastos do Mato Grosso, os moradores antigos da região juram ouvir o som de cascos de cavalo ecoando no horizonte. Dizem que é Roberto montado em seu cavalo, ainda cuidando daquelas terras que amou até o último dia de sua vida. Mas isso talvez seja apenas uma lenda. A verdade, essa sim.
Estava escondida no curral por 14 anos, esperando o momento certo de vir à tona. E quando veio, mudou para sempre a vida de todos que a conheceram.