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OBRIGADA A ENGRAVIDAR DO GIGANTE: A Noite que Mudou a Vida da Sinhá.

A chuva fustigava as telhas coloniais da Casa Grande, assemelhando-se a dedos impacientes. No interior do quarto fechado à chave, dois corpos tremiam, não de frio, mas de terror. Elisa encontrava-se encolhida contra a cabeceira da cama, com os dedos brancos a cravar-se nos lençóis de linho. Balu mantinha-se de pé junto à porta, a cabeça a roçar o teto baixo, os ombros largos a obstruir a fraca luz da lamparina.

No exterior, os passos do coronel Firmino ecoavam no corredor de tábuas envernizadas, num vaivém contínuo, qual carcereiro a aguardar a execução de uma sentença. Aquela não era a primeira ocasião em que um senhor de escravos se servia de corpos alheios para solucionar os seus problemas. Tampouco seria a última. Contudo, naquela noite de abril de 1852, na fazenda Santa Eulália, algo de diferente estava prestes a ocorrer, algo que o coronel Firmino jamais poderia conceber ao trancar aquela porta.

Ele julgava conhecer a fragilidade da sua esposa, julgava compreender a natureza dos homens que adquiria no mercado do Valongo. Julgava ter o poder de controlar tudo: a terra, o café, os ventres, os destinos. Mas estava enganado.

Três horas antes, Firmino tinha arrastado Elisa pelo braço através da varanda, os seus dedos a marcar a pele alva dela como ferros em brasa. Ela tropeçava no vestido de seda azul, os sapatos de cetim a escorregar no chão de pedra polida.

“És minha mulher há sete anos,” cuspiu ele as palavras com a boca distorcida pelo conhaque. “Sete anos e o teu ventre continua vazio. O meu nome vai extinguir-se comigo por tua culpa.”

Elisa não ripostou. Sabia que qualquer resposta apenas agravaria a situação. Firmino não procurava diálogo. Procurava uma plateia para o seu rancor. Atirou-a para o interior do quarto de hóspedes, aquele que se situava no final do corredor, longe dos ouvidos das escravas. A cabeça dela embateu na cabeceira da cama. Estrelas brancas explodiram na sua visão.

“O problema não reside em mim.” Firmino prosseguiu, ajeitando o colete de veludo encarnado. “Consultei o médico em São Paulo. A minha semente é fraca, afirmou ele. Demasiado fraca para fecundar o teu útero delicado.”

Ele riu-se. Um som desprovido de alegria.

“Contudo, eu necessito de um herdeiro. Esta fazenda não pode ficar sem dono.”

Elisa ergueu-se, cambaleante, a segurar a parte lateral da cabeça.

“O que estás a insinuar?”

“Estou a dizer que vou solucionar isto da forma como os antigos solucionavam.” Firmino dirigiu-se à janela, com as mãos cruzadas nas costas. No exterior, a senzala era uma mancha escura contra o céu violeta do entardecer. “Vou trazer um reprodutor. Vais deitar-te com ele. Vais dar-me o filho que o teu corpo se recusa a gerar do meu sangue.”

O quarto andou à roda. Elisa agarrou-se ao poste da cama.

“Enlouqueceste.”

“Enlouqueci.” Firmino virou-se lentamente. O rosto iluminado pela lamparina. Havia algo pior do que raiva naqueles olhos. Havia cálculo. “Sou prático. O filho vai nascer no seio do meu casamento. Vai ter o meu apelido. Ninguém tem de saber que o sangue não é meu. Vais criar essa criança como se fosse nossa. E ninguém nunca vai proferir uma palavra sobre este assunto.”

“Eu não me vou sujeitar a isso.” A voz de Elisa era um fio ténue.

Firmino cruzou o quarto em três passadas. Agarrou-lhe no queixo com força, as unhas a cravarem-se na pele macia.

“Vais sim, porque se não o fizeres, mando chicotear todas as escravas até a carne se soltar dos ossos, uma por dia. A começar pela pequena Ana, aquela a quem ensinaste a ler às escondidas.”

Elisa sentiu a bílis subir. Ana tinha apenas 12 anos.

“És um monstro.”

“Sou um homem que sabe o que quer.” Largou-lhe o rosto com um empurrão. “E escolhi o exemplar perfeito para a tarefa. Balu, o mais robusto que alguma vez adquiri. Alto, musculado, sadio. Sangue de primeira.”

O nome caiu no quarto como uma pedra em água estagnada. Balu. Elisa apenas o conhecia de vista. Era impossível não dar por ele. Media quase dois metros de altura, com ombros que pareciam esculpidos em jacarandá. Laborava na lavoura mais pesada, a carregar sacos que outros homens não conseguiam erguer sozinhos. Falava escassamente, e ainda menos olhava nos olhos.

“Ele é demasiado possante,” sussurrou Elisa, mais para si mesma. O pânico começava a inundar-lhe o peito como água a encher um porão.

Firmino esboçou um sorriso. Era o sorriso de quem acabara de vencer uma aposta.

“Precisamente. Tu és demasiado frágil. Talvez não suportes um homem com aquela envergadura, mas vais tentar. E se sobreviveres, vais dar-me um filho forte.”

“Desejas ver-me sofrer?”

“Desejo um herdeiro.” Firmino caminhou até à porta. “O que sentires no processo não me diz respeito.”

Saiu, batendo com a porta. Elisa ouviu a chave a rodar na fechadura pelo lado de fora. Ouviu os seus passos a descerem a escada. Ouviu a sua voz a berrar ordens no pátio.

“Tragam o Balu. Lavem-no, vistam-lhe roupa lavada e levem-no para o quarto das traseiras.”

Ela deslizou até ao chão, a abraçar os joelhos. O vestido de seda azul espalhou-se à sua volta como água. As lágrimas brotaram, silenciosas, quentes, inúteis. Meia hora volvidos, escutou passos pesados a subirem a escada. Passos distintos, mais morosos, mais pesados. A porta abriu-se. A silhueta de Balu obstruiu toda a luz do corredor. Ele entrou curvado, como se tentasse minorar a própria envergadura. Vestia calças de algodão grosseiro e uma camisa branca. Roupas que Elisa reconheceu como sendo do próprio Firmino, repuxadas até ao limite nas costas largas de Balu. Atrás dele, surgiu Firmino, a segurar a lamparina.

“Têm a noite inteira. Pela manhã quero saber se cumpriram a ordem.” Olhou para Balu. “Se ela ficar demasiado maltratada, regressas ao tronco. Se ela não engravidar no prazo de três meses, vais para o mercado de escravos em Santos.”

Balu não proferiu palavra. Permaneceu imóvel como uma estátua de pedra. Firmino colocou a lamparina na mesa de cabeceira. Olhou para Elisa uma derradeira vez.

“Aceitaste casar comigo para salvar a fazenda falida do teu pai. Agora vais aceitar isto para salvar a vida dela e das outras.”

A porta bateu, a chave rodou. Ficaram os dois, o gigante e a boneca de porcelana, o escravo e a senhora, o condenado e a refém. Elisa ergueu os olhos lentamente. Balu estava imobilizado a três metros de distância, as mãos gigantescas cerradas ao longo do corpo. A luz da lamparina desenhava sombras profundas no seu rosto: maçãs do rosto proeminentes, maxilar quadrado, olhos encovados que ela não conseguia decifrar. Ele não se moveu. Ela aguardou o avanço, o ataque, a confirmação de todos os seus receios.

Nada ocorreu. Então, Balu teve uma atitude inesperada. Ajoelhou-se no chão de tábuas, vagarosamente, até ficar ao mesmo nível dela. A cabeça dele encontrava-se agora abaixo da dela. E, quando falou, a voz grave encerrava uma suavidade que Elisa jamais julgara possível.

“Eu não pretendo magoar a senhora.”

Os olhos de Elisa ardiam. Enxugou-os com as costas da mão, a manchar a pele clara com rastos de sal. Balu continuava ajoelhado, na expetativa. Não como um cão aguarda a ordem do dono, mas como um homem aguarda permissão para coexistir no mesmo espaço que outro ser humano.

“Sabes por que razão estás aqui?” disse finalmente Elisa. A voz saiu trémula.

“Sei.” Balu baixou os olhos. “O coronel anseia por um filho. Ele é incapaz de o ter. Por conseguinte, eu vou dar-lho.”

A franqueza brutal das palavras cortou o ar. Não havia rodeios, não havia ilusões.

“E tu? Vais submeter-te a isto?”

Balu ergueu o rosto. A luz da lamparina revelou algo nos seus olhos. Não era luxúria, era cansaço. O tipo de cansaço que advém de carregar grilhetas invisíveis durante tanto tempo que os ombros se vergam por si sós.

“Eu não tenho alternativa. Tal como a senhora também não tem.”

Elisa sentiu a veracidade daquelas palavras como um soco no estômago. Ela não tinha alternativa. Ele não tinha alternativa. Dois animais aprisionados na mesma armadilha, colocados ali por um homem que julgava poder comprar tudo.

“Ele afirmou que és demasiado corpulento,” as palavras escaparam antes que ela pudesse contê-las. “Que eu não vou suportar.”

Balu cerrou os olhos por um instante. Quando os abriu novamente, havia algo semelhante a vergonha ali.

“O coronel apraz-se em chamar-me animal, besta, animal de carga. Ele julga que, por o meu corpo ser portentoso, a minha cabeça deve ser ínfima.” O seu maxilar contraiu-se. “Mas eu não sou uma besta, senhora. E a senhora não é uma égua reprodutora.”

O silêncio que se seguiu era denso como melaço. Elisa olhou para as mãos dele, do tamanho de pás, repletas de calos, com cicatrizes brancas a cruzar os nós dos dedos. Mãos que transportavam sacos de sessenta quilos como se fossem travesseiras. Mãos que poderiam partir o seu pescoço num único movimento, mas essas mesmas mãos tremiam.

“Estás com medo?” sussurrou ela, atónita.

“Estou.” Balu não procurou negar. “Medo de a magoar. Medo do que vai suceder se eu não acatar a ordem do coronel. Medo do que vai suceder se eu a acatar.”

Pela primeira vez desde que fora atirada para aquele quarto, Elisa sentiu algo para além de pânico. Sentiu curiosidade.

“O que farias se te fosse dado escolher?”

“Se eu pudesse escolher?” Balu repetiu as palavras como se fossem estrangeiras. Um sorriso melancólico perpassou-lhe pelos lábios. “Eu estaria longe daqui, num lugar onde ninguém é dono de ninguém, onde um homem labora e recebe um salário justo, onde…” ele calou-se como se tomasse consciência de que estava a falar em demasia.

“Onde o quê?”

“Onde eu pudesse conhecer uma mulher pelo facto de ela desejar conhecer-me. Não por imposição de um senhor.”

Elisa sentiu algo de estranho a agitar-se no peito. Empatia, reconhecimento.

“Eu também agiria de forma diferente,” ouviu-se ela a dizer. “Casar-me-ia por amor, não para saldar as dívidas do meu pai.”

Olharam-se, dois prisioneiros a partilhar a mesma cela. No exterior, os passos de Firmino prosseguiam no corredor, num constante vaivém. O som das botas de cabedal no soalho envernizado marcava o tempo como um relógio inexorável.

“Ele vai permanecer aí a noite toda,” murmurou Balu.

“Vai.”

Elisa ergueu-se do chão, com as pernas a vacilar, e caminhou até à janela. Lá fora, a chuva havia cessado. A lua cheia pendia sobre os cafezais, como um olho esbranquiçado.

“Ele quer ter a certeza de que… de que o ato vai ser consumado. E se não o for?” Elisa apoiou a testa na vidraça gélida. “Ele vai maltratar as escravas, vai vender-te, vai engendrar outra forma de me punir pela humilhação de ser um homem estéril.”

“Logo, não há escapatória.”

“Não.”

O silêncio instalou-se novamente, mas desta vez era distinto. Não era o silêncio do temor, era o silêncio da rendição. Elisa voltou-se lentamente. Balu continuava ajoelhado, mas agora observava-a com atenção. Os olhos dele percorriam o rosto dela, não com luxúria, mas com algo semelhante a preocupação.

“Ele asseverou que a senhora não iria suportar a minha compleição,” Balu falou num tom baixo. “E ele está coberto de razão. Se eu atuar como ele idealiza, vou magoar a senhora. Porém…” ele hesitou.

“Porém o quê?”

“Porém, se eu proceder com lentidão? Com precaução… se a senhora me consentir que a trate como cristal, não como lona…” Ele interrompeu-se, à procura das palavras adequadas. “Talvez resulte. Talvez logremos cumprir a vontade dele, sem a destruir no processo.”

Elisa sentiu o rubor a subir-lhe pelo pescoço. Nunca ninguém lhe havia falado sobre isso naqueles termos. Firmino possuía-a como quem bebe o café matinal: célere, sem sequer olhar, mais focado em terminar do que em saborear. A ideia de que alguém pudesse ter desvelo, pudesse encarar o seu corpo como algo frágil e precioso…

“Como é que tens conhecimento dessas coisas?” inquiriu ela, com a voz quase inaudível.

Balu sorriu, e foi um sorriso tingido de tristeza.

“Eu fui casado, senhora, antes de ser comercializado para aqui. Tinha uma mulher na fazenda de onde sou oriundo. Ela pereceu no parto, a criança também.” Ele engoliu em seco. “Eu aprendi a ser afetuoso com ela porque a amava.”

As lágrimas regressaram aos olhos de Elisa, mas desta vez eram de outra natureza. Eram lágrimas pela vida que tinha sido extirpada àquele homem, pela esposa falecida, pelo filho que nunca chegara a conhecer, por todas as crueldades que o sistema esclavagista disseminava como sementes de ódio.

“Lamento profundamente,” murmurou ela.

“Eu também.”

Permaneceram assim durante um lapso de tempo impossível de mensurar. Então, Elisa deu um passo na direção dele, depois outro e outro, até ficar a escassos centímetros de Balu. Ele manteve-se ajoelhado, a aguardar.

“Se somos obrigados a cumprir isto,” disse Elisa, cada palavra a exigir um fragmento da sua coragem, “então, prefiro fazê-lo com alguém que, pelo menos, me encare como uma pessoa.”

Balu ergueu a mão direita devagar, anunciando cada movimento. Quando os seus dedos roçaram a face dela, Elisa preparou-se para sentir a aspereza, mas o toque foi tão leve como o bater de asas de uma borboleta. O seu polegar limpou uma lágrima da bochecha dela.

“Eu vejo a senhora,” murmurou ele. “E irei tratá-la com todo o respeito de que for capaz.”

O coração de Elisa palpitava com tal intensidade que ela teve a certeza de que ele o conseguia ouvir. Não era medo, era algo distinto, algo perigoso. Balu ergueu-se lentamente, acautelando-se para não efetuar movimentos bruscos. De pé, ele era colossal. A sua cabeça quase tocava as vigas do teto, mas em vez de ameaçador, ele parecia comedido, como se estivesse a tentar ocupar o menor espaço possível.

“O senhor está lá fora, na expectativa,” disse Balu, olhando para a porta. “Se não fizermos ruído, se ele não ouvir nada, ele vai entrar. Vai constatar que não cumprimos a sua ordem.”

Elisa compreendeu. Precisavam de dissimular. Precisavam de persuadir o carcereiro do lado de fora de que a sentença estava a ser executada.

“Como procedemos?”

Balu refletiu por um instante.

“A cama. Se eu me sentar na cama, ela vai ranger. O som vai ultrapassar a porta.”

Elisa olhou para a cama de dossel. Madeira vetusta, colchão de palha. Sim, ela rangia. Ela sabia-o porque Firmino a utilizava quando havia hóspedes em excesso na Casa Grande e precisava de quartos suplementares.

“E depois do barulho?”

Depois… Balu desviou o olhar. “Depois faremos o que tem de ser feito, mas ao nosso modo. Com serenidade, com deferência.”

Elisa inspirou profundamente. Era uma loucura, era uma humilhação, era a coisa mais aviltante que um ser humano poderia infligir a outro. Mas, em simultâneo, havia uma estranha intimidade naquele quarto, uma aliança imposta entre dois cativos.

“Está bem,” assentiu ela.

Balu caminhou até à cama. O soalho gemeu sob o seu peso. Ele sentou-se na borda do colchão devagar e a cama reagiu com um rangido longo e agudo. Do lado de fora, os passos silenciaram. Firmino estava à escuta. Balu olhou para Elisa. Ela compreendeu. Caminhou até à cama e sentou-se a seu lado. A cama protestou de novo, outro rangido.

E, então, ocorreu algo inusitado. Balu estendeu a mão, não para a subjugar, mas com a palma aberta, virada para cima. Um convite. Elisa olhou para a mão, depois para o rosto dele. Havia uma interrogação silenciosa naqueles olhos escuros. Posso? Ela colocou a sua mão sobre a dele. Os dedos gigantescos de Balu cerraram-se em redor da mão delicada de Elisa, com uma suavidade que desafiava as leis da física.

“Como era possível algo tão colossal ser tão terno?”

“Eu irei cuidar da senhora,” sussurrou ele. “Dou-lhe a minha palavra.”

E naquele momento, envolvida pela escuridão, pelo odor a chuva que penetrava pela janela, pelo som dos passos do marido do outro lado da porta, Elisa experienciou algo impensável: sentiu-se protegida. A cama rangeu novamente quando Balu a puxou suavemente para si. Elisa cerrou os olhos e sentiu o calor do corpo dele a irradiar como uma fornalha. Sentiu a respiração dele, contida, pausada, na tentativa de não a sobressaltar.

“Eu vou despir o vestido,” sussurrou ela.

“Permita-me ajudá-la.”

As mãos dele encontraram os botões nas costas do vestido de seda azul. Cada botão foi desapertado com uma lentidão quase aflitiva. Balu possuía mãos de trabalhador braçal, mas os dedos moviam-se como se estivessem a desativar uma bomba. Um erro e tudo iria pelos ares. O vestido deslizou pelos ombros de Elisa. Ela deixou-o cair no chão. Ficou apenas com a anágua de linho branco. A luz da lamparina trespassava o tecido fino, delineando a sua silhueta. Balu desviou o olhar de imediato.

“Podes olhar,” disse Elisa, surpreendida com a própria voz.

“Não desejo ser desrespeitoso.”

“Olhar não constitui desrespeito. Não olhar será, talvez, pior.”

Ele ergueu os olhos devagar e quando o seu olhar se cruzou com o dela, Elisa vislumbrou algo que nunca tinha visto no rosto de Firmino. Admiração. Não luxúria, não sentido de posse, mas uma admiração genuína.

“A senhora é formosa,” disse Balu de forma simples.

Havia anos que ninguém lhe dirigia tais palavras. Elisa sentiu as pernas fraquejarem. Sentou-se novamente na cama, a afundar-se no colchão de palha. Balu manteve-se de pé, a aguardar instruções.

“Também tens de te despir,” disse ela, com a voz a tremer.

Ele acenou com a cabeça, puxou a camisa por cima da cabeça e Elisa deparou-se com a realidade. O corpo dele era uma montra de cicatrizes. Marcas de chicote rasgavam-lhe as costas em relevo. Apresentava uma queimadura antiga no ombro esquerdo, muito possivelmente provocada por ferro em brasa. Os músculos estavam definidos não por vaidade, mas por um labor exaustivo. Cada contorno, cada volume era o reflexo de sacos de café, de charruas empurradas, de vedações erguidas sob o sol inclemente. Aquilo não era o corpo de um animal, era o corpo de um resistente.

“Meu Deus!” sussurrou Elisa, a levantar a mão. Tocou numa cicatriz que descia diagonalmente pelas costas dele. “Quem foi o autor disto?”

“O feitor da fazenda de onde provim.”

“Porquê?”

“Porque defendi a minha mulher quando ele tentou bulir com ela.”

Elisa sentiu ódio, puro e cristalino. Não por Balu, mas pelo mundo que consentia que tais atrocidades ocorressem. Ergueu-se e colocou-se diante dele. Mesmo com Balu de pé e ela descalça, o topo da cabeça dela mal atingia o peito dele.

“Deita-te,” pediu ela suavemente.

Balu acatou. Deitou-se na cama, o colchão a gemer sob a sua corpulência. Ficou de costas, o olhar fito no teto, as mãos pousadas ao longo do corpo. Elisa subiu para a cama, ajoelhou-se a seu lado. O coração martelava.

“Não sei o que fazer,” confessou.

“Eu sei.” Balu virou a cabeça para a encarar. “Mas apenas o farei com o seu consentimento.”

“Eu consinto.”

E então, com uma delicadeza que desmentia tudo o que o mundo propalava sobre homens como ele, Balu ergueu-se. Os dedos dele descobriram o rosto dela. Começaram por desenhar a linha do maxilar, desceram pelo pescoço, pressentiram a pulsação acelerada na base da garganta. Elisa cerrou os olhos. A sua respiração era sôfrega, intermitente.

“Serenidade,” murmurou Balu. “Eu procederei com lentidão.”

Ele atraiu-a para se deitar a seu lado. Os corpos ficaram lado a lado no colchão exíguo. A disparidade de tamanhos era absurda. Ele ocupava três quartos da cama, mas em vez de se sentir sufocada, Elisa encontrou algo de reconfortante naquela proximidade. Balu virou-se de lado, a apoiar-se no cotovelo. Olhou para ela de cima, a luz da lamparina a criar sombras no seu rosto.

“Se lhe causar dor, a senhora avisa-me e nós paramos. E se o coronel se aperceber, inventamos um estratagema.” Ele acariciou os cabelos castanhos de Elisa, que agora se espraiavam sobre a almofada. “Mas eu não vou infligir dor à senhora apenas porque ele assim o determinou.”

Elisa agarrou-lhe no pulso. Sentiu os músculos tensos, o pulsar vigoroso.

“Não és o que eu imaginava.”

“O que imaginava?”

“Um monstro. Ele advertiu-me de que eras perigoso.”

Balu esboçou um sorriso desprovido de alegria.

“Eu sou perigoso, mas não para a senhora.”

Ele moveu-se com vagar, cada gesto telegrafado. A mão dele deslizou pela lateral do corpo dela, a sentir-lhe as curvas através da anágua fina. Elisa arquejou, não de dor, mas de surpresa. O toque era firme, contudo suave e seguro.

“Despe-ma,” sussurrou ela, a agarrar na bainha da anágua.

Balu prestou auxílio. Puxou o tecido para cima, revelando a pele alva banhada pela luz dourada. Quando retirou a anágua, dobrou-a cuidadosamente e colocou-a na cadeira junto à cama. Elisa encontrava-se nua, vulnerável, desprotegida e Balu limitou-se a contemplá-la. Não com avidez, mas com reverência.

“A senhora é irrepreensível,” declarou ele.

Nunca ninguém lhe tinha dirigido tal elogio. Firmino encarava-a como uma obrigação, como algo de que se faz uso e depois se guarda no armário. Balu debruçou-se. O calor do corpo dele envolveu-a como um manto e então, de forma inesperada, ele beijou-lhe a testa. Um beijo casto e reverente.

“Porquê?” questionou Elisa, intrigada.

“Porque a senhora é merecedora.”

As lágrimas irromperam de novo, mas ela conteve-as. Não pretendia chorar naquele momento. Desejava sentir. Ansiava por compreender o que significava ser tocada por alguém que a valorizava. Balu desceu, depositou um beijo na têmpora dela, a seguir na face, depois no canto da boca. Cada beijo era uma interrogação, cada pausa, uma solicitação de anuência. Elisa virou o rosto, encontrou os lábios dele e o mundo imobilizou-se.

O ósculo foi tudo aquilo que ela ignorava existir. Não foi impetuoso, não foi precipitado. Foi uma exploração, uma revelação. Os lábios dele eram macios, a barba por fazer roçava-lhe a pele com suavidade. Ele sabia a terra e a chuva. Quando se apartaram, ambos estavam ofegantes.

“Não devia ter feito isso,” disse Balu, com a voz rouca.

“Porquê?”

“Porque agora aspiro a mais.”

Elisa puxou-o de volta.

“Então tira mais.”

O que se desenrolou em seguida foi um turbilhão de emoções. As mãos colossais de Balu aventuravam-se por território vedado, mas cada toque era ponderado. Ele memorizava-a. Os seus dedos descobriram recantos que ela própria ignorava possuir. Recantos que retribuíam com ardor, com arrepios, com pequenos sons que se evadiam da sua garganta. A cama rangia. E rangeria muito mais. No exterior, Firmino ouvia e sorria com satisfação. Finalmente. Finalmente o animal cumpria o seu propósito. Mas ele ignorava, não fazia a mínima ideia de que, no interior daquele quarto, não reinava a violência, mas sim a delicadeza. Havia duas almas a encontrarem-se no único reduto de liberdade que o mundo lhes concedera.

Balu percorreu o corpo de Elisa, a beijar cada centímetro de pele: o pescoço, a clavícula, o declive entre os seios, o ventre suave. Ela contorcia-se, as unhas a cravarem-se nas costas cicatrizadas dele.

“Vou avançar agora,” preveniu ele, a reposicionar-se para a fitar de frente. “Pode ser doloroso no início.”

“Eu confio em ti.” E esta foi a frase mais convicta que Elisa proferira em toda a sua vida.

Balu posicionou-se devagar, com uma lentidão angustiante. Ele penetrou centímetro a centímetro, a interromper sempre que sentia a tensão dela, a aguardar que ela relaxasse antes de prosseguir. Elisa susteve a respiração. Sentia pressão, desconforto, mas não havia dor aguda, não havia dilaceração. Apenas a sensação de estar a ser preenchida de uma forma que nunca concebera ser possível.

“Olha para mim,” pediu Balu.

Ela abriu os olhos, encontrou o olhar dele e, naqueles olhos, havia algo que transcendia o desejo carnal. Havia uma ligação. Moveram-se em uníssono. Um ritmo vagaroso, ditado não pela pressa, mas pela sintonia. Balu suportava o próprio peso nos antebraços, a acautelar-se para não a asfixiar. O suor começava a cintilar na pele de ambos. A cama rangia como uma embarcação fustigada pela tempestade. Os sons inundavam o quarto. Respiração ofegante, gemidos contidos, a fricção da pele contra a pele.

Lá fora, Firmino escutava e convencia-se de que o seu estratagema estava a resultar. Mas, no interior do quarto, desenrolava-se um cenário completamente distinto. Elisa sentia o corpo inteiro a latejar. Uma pressão intensificava-se no baixo-ventre, algo que se avolumava como uma vaga gigante. Os dedos dela agarraram os ombros de Balu, as unhas a traçarem meias-luas avermelhadas.

“Não compreendo o que se está a passar,” ofegou ela.

“Deixa que aconteça.”

E aconteceu. O orgasmo fulminou-a como um raio. Cada músculo do seu corpo contraiu-se, a seguir relaxou, para depois se contrair novamente. Ela mordeu o ombro de Balu para abafar o grito, a experienciar ondas de prazer que ignorava existirem. Balu segurou-a com firmeza, manteve o ritmo e, instantes depois, ela sentiu que ele também se contraía. Um gemido grave escapou-lhe da garganta, o corpo todo enrijeceu antes de desfalecer. Ele rebolou para o lado, trazendo-a consigo. Ficaram enlaçados, a cadência dos batimentos cardíacos a abrandar progressivamente. Nenhum dos dois proferiu palavra durante um longo período. Por fim, Balu rompeu o silêncio.

“Não causei dor à senhora, pois não?”

Elisa ocultou o rosto no peito dele.

“Fizeste precisamente o oposto.”

Adormeceram assim, enlaçados. Dois fugitivos a encontrarem refúgio um no outro.

Retomando.

Adormeceram assim, enlaçados. Dois fugitivos a encontrarem refúgio um no outro. Às cinco da manhã, quando o sol despontou, Firmino destrancou a porta. Encontrou os dois ainda na cama. Elisa aconchegada pelo lençol. Balu já de pé a vestir-se.

“A tarefa está concluída?” inquiriu Firmino, olhando para a esposa.

Elisa não respondeu, limitando-se a desviar o olhar.

“Excelente.” Firmino esboçou um sorriso. “Balu, regressa à senzala. Elisa, vai assear-te. Temos um herdeiro em gestação.”

Balu saiu sem olhar para trás, mas antes de transpor a soleira da porta, apertou a mão de Elisa uma derradeira vez. Uma promessa calada.

Os dias converteram-se em semanas. Elisa sangrou no mês subsequente e Firmino grunhiu de exasperação. Mandou trazer Balu vezes sem conta, sempre com o mesmo simulacro. A porta trancada, o coronel no corredor, os rangidos da cama. Contudo, a cada encontro algo se transformava. Balu e Elisa encetaram diálogos. Ele narrava a sua infância numa fazenda do interior, sobre a mãe que cantarolava enquanto semeava. Ela narrava o pai endividado, sobre os bailes em São Paulo, onde era exposta como mercadoria. Riam-se de forma absurda, logravam rir, e o contacto, que se iniciara como imposição, metamorfoseou-se em desejo autêntico.

Ao terceiro mês, Elisa sentiu o enjoo, a seguir a vertigem, depois a ausência da menstruação. Encontrava-se grávida. Quando o comunicou a Firmino, ele explodiu em festejos. Ordenou a matança de um boi, distribuiu cachaça pelos escravos, redigiu missivas aos familiares a anunciar a vinda do herdeiro. Contudo, não tornou a convocar Balu ao quarto. O escravo regressou à sua condição: escravo. Voltou à lavoura, aos sacos de café, à invisibilidade.

Elisa vislumbrava-o de longe, por vezes, a laborar sob o sol inclemente, a transpirar, a existir meramente como um instrumento. E sentia mágoa. Magoava-a porque carregava no ventre o filho dele. Magoava-a porque dava por si a pensar nele durante a noite. Magoava-a porque, pela primeira vez na sua existência, compreendia o significado de ansiar por alguém, não apenas com o corpo, mas com a alma.

Certa tarde, no quinto mês de gestação, Elisa desceu até ao pomar nas traseiras da Casa Grande. Era um local recôndito, ladeado por jabuticabeiras seculares. E ali se encontrava ele. Balu carregava um cesto de frutos. Ao avistá-la, estacou. Ficaram a fitar-se por um tempo imensurável.

“Como está a senhora?” inquiriu ele, por fim.

“Bem.” Elisa pousou a mão na barriga, já proeminente. “A criança está a medrar. O nosso filho.” A palavra ficou suspensa no ar. Nosso. Elisa deu um passo em frente. “O meu pensamento detém-se em ti.”

“O meu também. Este sentimento é condenável.”

“Eu sei.” Balu assentou o cesto no chão. “Mas não consigo refrear-me.”

Ela aproximou-se mais. Ficaram a centímetros de distância. Demasiado perto para ser considerado adequado, demasiado longe para ser gratificante.

“Quando a criança vier ao mundo,” sussurrou Elisa, “ela vai herdar os teus olhos, o teu nariz… e o Firmino vai educá-la como se fosse sangue do seu sangue.”

“Tenho consciência disso.”

“Vais contemplá-la a crescer sem nunca poderes assumir a paternidade.”

“Tenho consciência disso.” As lágrimas brotaram-lhe dos olhos. Balu ergueu a mão, limpou-as com o polegar, repetindo o gesto da primeira noite. “Mas ela terá a intuição,” afirmou. “No seu íntimo, saberá que foi concebida com amor, não por imposição.”

Elisa atirou-se para os braços dele e Balu amparou-a. Segurou-a a ela e à barriga, envolvendo os dois num abraço: a mulher que amava e o filho que nunca poderia reclamar como seu. Permaneceram assim até escutarem passos a aproximar-se. Balu afastou-se de imediato, baixou o olhar, reassumiu a postura de escravo. Elisa enxugou as lágrimas, reassumiu a postura de sinhá. E o mundo continuou a sua rotação, alheio ao amor clandestino que florescia na penumbra.

O nono mês fez-se anunciar com um calor abrasador. Janeiro convertia a fazenda numa fornalha. Elisa passou os derradeiros dias prostrada na cama, com o ventre colossal a tornar qualquer movimento num suplício. Firmino contratou os serviços de uma parteira de Campinas, uma mulher negra e corpulenta de nome Dona Benedita, afamada por possuir mãos abençoadas. Chegou numa carroça puxada por mulas, munida de ervas, panos lavados e da experiência amealhada em trezentos partos.

“O bebé tem um tamanho considerável,” observou após examinar Elisa. “O parto afigura-se moroso, contudo a senhora denota robustez.”

Firmino não contemporizou.

“Faça o que for estritamente necessário. Exijo o meu filho com vida. E quanto à esposa…” Benedita esteve prestes a questionar, mas conteve as palavras. Conhecia bem a engrenagem do mundo.

As contradições tiveram início numa madrugada de lua nova. Elisa despertou encharcada, não em suor, mas num líquido tépido que lhe escorria pelas pernas. Soltou um grito. Firmino acordou, aturdido.

“O que se passa?”

“O bebé está a chegar.”

Ele vociferou para que a Casa Grande despertasse. As escravas acorreram. Dona Benedita foi convocada do quarto de hóspedes. Em escassos minutos, o aposento de Elisa transformou-se num palco de guerra. Água a ferver, panos lavados e alguém a segurar-lhe as pernas. Benedita comandava como um general. Elisa berrava. A dor era uma fera com garras a dilacerá-la por dentro. Cada contração afigurava-se uma vaga que a submergia.

“Respira, menina,” ordenava Benedita com firmeza. “Respira e faz força.”

“Não sou capaz.”

“És capaz, sim.”

Lá fora, na senzala, Balu escutava os gritos. Sentou-se na esteira onde pernoitava, com os punhos cerrados. Tinha plena consciência do que estava a ocorrer. Sabia que estava de mãos atadas. Os outros escravos olhavam-no com comiseração.

“Reza, Balu.” Aconselhou um ancião. “Suplica à mãe de Deus que a proteja.”

Balu cerrou os olhos. Ignorava se acreditava em Deus, porém rezou ainda assim.

No quarto, Elisa fazia força, impelia até sentir os músculos a rasgarem-se, até a visão se turvar, até julgar que iria sucumbir.

“Já se avista a coroa!” gritou Benedita. “Mais um esforço titânico!”

Elisa concentrou a energia que lhe restava, gritou, empurrou e o bebé escorregou para o exterior, num jorro de sangue e fluido. O choro ecoou pelo quarto.

“É um varão!” anunciou Benedita, erguendo a criança à luz da lamparina.

Firmino explodiu em gargalhadas.

“O meu filho, o meu herdeiro!”

Benedita cortou o cordão umbilical, limpou o recém-nascido, envolveu-o num pano albo e depositou-o nos braços de Elisa. E Elisa fitou-o. O bebé apresentava uma tez mais escura que a sua. Não era negro, mas detinha um tom trigueiro. Consequência inegável da miscigenação. Os olhos, ainda cerrados, anteviam-se grandes e negros, o nariz largo, os lábios carnudos. Era a imagem de Balu em miniatura. Elisa sentiu o coração apertar-se. Amor e pavor em simultâneo.

Firmino abeirou-se, observou o filho e franziu o sobrolho.

“A tez dele é escura.”

Fez-se silêncio.

“Há crianças que nascem com esta tonalidade.” Apressou-se Benedita a justificar. “A pele vai aclarando com o tempo. É derivado do sol, do calor, é perfeitamente normal.”

Firmino não pareceu convencido. Retirou o bebé dos braços de Elisa, segurou-o contra a luz, inspecionou-o de um lado e do outro.

“Os olhos?” murmurou. “Quando ele abrir os olhos, eu terei a certeza.”

“Certeza de quê?” inquiriu Elisa, a simular inocência.

Firmino encarou-a com desconfiança.

“Se ele partilha efetivamente do meu sangue.”

O pavor paralisou o corpo de Elisa. Caso Firmino suspeitasse, caso ele o comprovasse, não restavam dúvidas sobre o que faria. Ditaria a morte de Balu. Quiçá assassinasse o próprio bebé. E quanto a ela, bem, ela seria enjeitada.

“Ele é seu filho,” ripostou ela com voz firme, a despeito do pânico. “O senhor próprio ordenou a sua conceção.”

“Ordenei a tua gravidez, não ordenei que te afeiçoasses.” As palavras caíram como chumbo. Firmino restituiu o bebé a Benedita. “Zela por ele. Exijo ser informado assim que ele abrir os olhos.” Saiu e bateu a porta com estrondo.

Benedita contemplou Elisa com comiseração.

“A criança é fruto do escravo, não é?”

Elisa não respondeu. Não era necessário.

“Já presenciei cenários idênticos.” Benedita suspirou. “Senhores que violentam as esposas… culmina sempre em tragédia.” Ela embalou o recém-nascido. “Qual será o nome dele?”

“Francisco.” Elisa acariciou a cabecinha do filho. “Em memória do meu avô.” Contudo, no seu íntimo, o verdadeiro nome era outro: Filho de Balu.

Os dias subsequentes foram pautados pela tensão. Firmino consumia mais álcool do que o habitual. Escrutinava o bebé com um olhar de águia. Media, comparava, nutria suspeitas. Francisco chorava durante a noite. Elisa amamentava-o, a sentir o pequeno peso tépido contra o peito, e a interrogar-se sobre como resguardar aquela vida.

Uma semana mais tarde, os olhos do bebé abriram-se. Eram castanhos, a roçar o negro, precisamente iguais aos de Balu. Firmino constatou e teve a certeza. Naquela mesma noite, convocou Balu à Casa Grande. O escravo ingressou pela porta das traseiras, com a cabeça pendida. Firmino aguardava-o no escritório, sentado atrás da secretária de jacarandá, com uma garrafa de conhaque a meio a seu lado.

“Lançaste-lhe o olhar?” disparou Firmino, sem preâmbulos.

Balu manteve-se calado.

“Eu incumbi-te de um serviço, de fecundar a minha esposa, contudo, tu excedeste as tuas funções, não foi?” Firmino ergueu-se. “Tocaste-lhe como se te pertencesse. Semeaste essa semente movido pelo desejo e não pela obrigação.”

“Cumpri com as suas ordens.”

“Fizeste mais do que isso!” Firmino arremessou o copo de conhaque contra a parede. O vidro despedaçou-se. “Aquele bebé possui os teus traços, o teu nariz, os teus olhos. Qualquer pessoa que o observe perceberá que ele não é meu.”

“Nesse caso, tire-me a vida.” Balu levantou a cabeça pela primeira vez. “Mas deixe a sinhá e a criança em paz.”

Firmino riu-se. Um som desprovido de alegria.

“Matar-te seria um desperdício de recursos. Estás avaliado em 400.000 réis. Irei vender-te. Existe um fazendeiro em Minas Gerais que adquire escravos problemáticos. Envia-os para as minas de ouro. De lá não há retorno.”

O sangue de Balu gelou nas veias.

“Para quando?”

“Para amanhã. A carroça parte ao romper da aurora.”

Balu cerrou os punhos. Por uma fração de segundo, ponderou desferir um ataque. Seria capaz de quebrar o pescoço de Firmino com uma só mão. Poderia encetar uma fuga. Poderia, mas conteve-se, ciente de que qualquer reação sua ditaria a desgraça de Elisa. E também a de Francisco.

“Permite-me despedir?” inquiriu em voz baixa.

“De quem?”

“Dos meus companheiros de senzala.”

Firmino anuiu com um gesto de mão.

“Tens cinco minutos. Posteriormente, ficas enclausurado no depósito até amanhã.”

Balu retirou-se, dirigindo-se à senzala com passos pesados. Os restantes escravos acolheram-no num silêncio sepulcral. Tinham a noção exata do que implicava ser vendido para as minas: representava uma condenação a uma morte lenta.

“Zela pela Sinhá,” recomendou Balu a uma escrava idosa de nome Joana. “E pela criança. Protege-os.”

Joana anuiu, com lágrimas a assomarem-lhe aos olhos. Balu deitou-se na esteira, fitou o teto de palha e, pela primeira vez em largos anos, chorou. Não por si, mas pela imensidão daquilo que estava a perder.

Ao raiar da manhã, antes do sol despontar, foi enfiado na carroça, com as mãos e os pés agrilhoados, como se de uma fera se tratasse. A carroça passou rente à Casa Grande e, na janela do andar superior, Elisa segurava Francisco. Balu ergueu o olhar. Os seus olhos cruzaram-se com os dela. Nenhum esboço de aceno. Estavam impedidos de o fazer, mas naqueles olhares estava contido tudo: o amor, a aflição, o juramento. A carroça dobrou a esquina e Balu desvaneceu-se. Elisa estreitou o filho contra o peito e desfez-se em pranto.

Firmino observava-a a partir da porta.

“Cessa com esse choro. Tens um herdeiro para educar.”

“Este herdeiro jamais o reconhecerá como pai,” retorquiu Elisa com a voz impregnada de veneno.

Firmino encolheu os ombros.

“Crescerá ostentando o meu apelido, isso é o que tem relevância.” Virou-lhe as costas, abandonando-a à sua solidão com o filho, a única réstia que lhe restava de Balu.

Os meses que se seguiram traduziram-se numa existência destituída de sentido. Elisa consagrava-se a Francisco com um zelo obsessivo, mas cada vez que pousava os olhos no filho, a imagem de Balu assaltava-a: o olhar dele, o sorriso rasgado quando finalmente irrompeu, a forma como os dedinhos roliços dele se enroscavam nos seus, tal e qual o pai fizera naquela noite primordial. Firmino apercebia-se disso e repudiava-o. Tentou estabelecer laços com o menino em raras ocasiões. Envolvia Francisco com uma postura rígida, como quem segura um objeto de extrema fragilidade que receia danificar apenas por possuir um valor incalculável. Contudo, o bebé irrompia em pranto. Chorava ininterruptamente no seu colo. Com Elisa, Francisco distribuía sorrisos. Com Joana, a velha escrava que auxiliava nas lides, adormecia sereno. Porém, na presença de Firmino, berrava como se pressentisse a peçonha que corria nas veias do indivíduo.

“Esta criança nutre um ódio por mim,” constatou Firmino numa certa noite, após mais um ensaio infrutífero de embalar o filho.

“As crianças têm a perceção das coisas,” respondeu Elisa, arrebatando-lhe Francisco. “Elas distinguem quem é genuíno.”

A mão de Firmino ergueu-se. Por um breve instante, Elisa temeu que ele a esbofeteasse, mas ele conseguiu reprimir-se. Limitou-se a cerrar o punho e a afastar-se com passos pesados.

Seis meses volvidos sobre o nascimento de Francisco, chegou uma missiva. Era proveniente do fazendeiro de Minas Gerais. O selo encontrava-se violado. Firmino já se havia inteirado do conteúdo. Arremessou a carta sobre a mesa de jantar diante de Elisa.

“O teu amante pereceu,” anunciou ele com gélida indiferença.

O mundo suspendeu o seu curso. Elisa agarrou na carta com as mãos a tremer. A caligrafia era cursiva e polida.

“Sr. Firmino, é com pesar que o informo de que o escravo Balu faleceu no passado dia 15 de agosto em consequência de um sinistro nas minas. Uma detonação extemporânea originou um desmoronamento. O corpo foi sepultado de acordo com as praxes locais.”

As palavras desvaneceram-se. Elisa deixou a carta cair. Balu estava morto. O pai de Francisco, o homem que a tocara com delicadeza, o homem que transmudara a obrigação em amor. Morto.

“Agora tudo chegou ao fim,” declarou Firmino, enquanto mastigava um pedaço de carne. “Esta ridícula fantasia terminou. Ele era apenas um escravo, um reprodutor. E agora nem isso é.”

Elisa ergueu-se da mesa, dirigiu-se ao quarto, trancou a porta e soltou um grito. Gritou até sentir a garganta a dilacerar-se. Gritou até lhe faltar o fôlego. Gritou perante a iniquidade, a crueldade, um mundo que aniquilava tudo em que ela tocava. Joana subiu os degraus mais tarde e bateu levemente na porta.

“Sinhá, dá-me licença?”

Elisa abriu. Joana entrou com Francisco nos braços. O menino encontrava-se em pranto.

“Creio que ele pressente a dor da senhora.”

Elisa pegou no filho e apertou-o com veemência.

“Ele partiu, Joana. O pai dele partiu.”

“Eu tenho conhecimento, minha filha. Eu tenho conhecimento.”

“Como é que eu lhe vou revelar isto, ao Francisco? Como é que eu lhe vou dizer que o pai pereceu nas minas por ordem do meu marido?”

Joana suspirou.

“A senhora não lhe revela nada. Pelo menos não por agora. A senhora cria este menino, ensina-o a ser resiliente e, quando ele atingir a idade adulta, quando tiver discernimento, aí sim, a senhora partilha a verdade.”

“Que verdade? A de que ele é fruto de um ato de amor e não de crueldade.”

Elisa derramou as suas lágrimas no ombro da velha escrava e Francisco, ainda um bebé, pousou a sua mãozinha gorducha no rosto da mãe, num gesto terno, como se procurasse enxugar-lhe o pranto, replicando a atitude que Balu tivera noutros tempos. Quinze anos decorreram. Francisco tornou-se num jovem robusto e de elevada estatura. Aos quinze anos, igualava o porte do pai, beirando o metro e oitenta, com ombros largos e mãos avantajadas. A tez, que Dona Benedita garantira que iria clarear, manteve-se trigueira, os olhos de um castanho escuro e o nariz de abas largas. Era inegável a sua ascendência: era filho de Balu. Contudo, Firmino persistia na sua farsa.

Apresentava Francisco como seu sucessor legítimo. Instruiu o jovem nas artes da equitação, do tiro e no comando dos escravos. Francisco acatava as ordens, mas sem fervor. Havia nele um traço que Firmino nunca logrou subjugar: a empatia. Francisco dialogava com os escravos, memorizava os seus nomes e inquiria sobre os seus familiares. Quando um feitor se excedia nos castigos, Francisco intrometia-se.

“Tal não se justifica.” Advertia ele com uma voz que já se tornava grave.

Firmino repudiava tal atitude.

“És demasiado brando, um cobarde. Até parece que correm nas tuas veias…”

A frase ficava sempre suspensa, mas Francisco compreendia. Tivera sempre a intuição de que algo não estava bem, de que não pertencia àquele meio. Numa tarde de novembro, Francisco deparou-se com a mãe sentada na varanda, a contemplar o horizonte. Contava agora 42 anos, os cabelos a começarem a grisalhar, mas mantinha a sua formosura.

“Mãe, posso colocar-lhe uma questão?”

Elisa voltou-se.

“Com certeza.”

Francisco sentou-se junto a ela.

“Porque motivo não me assemelho ao coronel?” A interrogação ficou a pairar no ar. Elisa tinha a certeza de que este momento chegaria. Preparara-se durante anos a fio, mas a dor persistia.

“Porque não és filho dele.”

Francisco não evidenciou espanto, limitando-se a assentir, como se validasse uma desconfiança antiga.

“Então, de quem sou filho?”

Elisa inspirou profundamente.

“De um homem de bem. Um homem que foi obrigado a conhecer-me, mas que optou por me tratar com deferência. O seu nome era Balu. Era um escravo. E…” Elisa apertou a mão do filho. “…era mais homem do que qualquer senhor que eu já tenha conhecido.”

Francisco manteve-se em silêncio, a assimilar a revelação.

“O coronel tem conhecimento?”

“Tem. Sempre teve.”

“É essa a razão do seu ódio por mim?”

“Ele não nutre ódio por ti. Ele odeia aquilo que tu representas. A evidência de que ele não é o homem prepotente que aparenta ser.”

Francisco observou as suas próprias mãos. Avultadas, vigorosas, de tez morena. Mãos moldadas pelo trabalho. Não as mãos de um fidalgo.

“Onde se encontra o meu pai neste momento?”

Elisa sentiu a dor antiga a ressurgir.

“Faleceu nas minas de Minas Gerais. O coronel enviou-o para lá aquando do teu nascimento.”

“Ele assassinou-o.”

“Ele assassinou muita gente, Francisco. É essa a ordem das coisas.”

Francisco cerrou os punhos.

“Eu recuso-me a viver desta forma. Recuso-me a ser senhor de escravos. Recuso-me a carregar este apelido manchado de sangue.”

“Nesse caso, não o carregues.” Elisa voltou-se para o fitar nos olhos. “Quando atingires a maioridade, quando o coronel falecer, muda o rumo das coisas. Liberta os escravos, aliena a fazenda. Vive a existência que o teu pai teria vivido, caso lhe tivessem concedido a oportunidade.”

“Como era ele?”

Elisa esboçou um sorriso. Um sorriso melancólico, mas autêntico.

“Brando, forte, atencioso. Ele tocou-me como se eu fosse de cristal e amou-me como se eu fosse um tesouro.”

Francisco abraçou a mãe.

“Lamento profundamente.”

“Pelo quê?”

“Por o teres perdido. Por eu nunca ter tido a oportunidade de o conhecer.”

“Tu conheceste-o.” Elisa segurou o rosto do filho. “Em cada momento que prestas auxílio a alguém mais vulnerável, em cada instante que contestas a atrocidade, em cada ocasião que optas pela amabilidade, estás a conhecer o teu pai. Porque tu és o seu espelho.”

Permaneceram ali até ao pôr do sol. Três anos depois, Firmino sucumbiu a um AVC fulminante. Tombou da cadeira durante a ceia e nunca mais despertou. Francisco, aos dezoito anos, assumiu a herança na sua totalidade. A fazenda, os escravos, os débitos, o apelido enxovalhado. A sua primeira ação foi convocar todos os escravos para o pátio central.

“Sois livres,” proclamou ele, exibindo os documentos de alforria. “Podem partir ou permanecer e laborar a troco de um salário. A decisão é vossa.”

O silêncio foi cortante. Sucedeu-se o pranto e os abraços. Joana, agora perto dos setenta anos, ajoelhou-se e beijou os pés de Francisco.

“Ergue-te, Joana,” pediu ele com brandura. “A partir deste momento, ninguém mais se ajoelha perante mim.”

Muitos escravos partiram. Outros decidiram ficar. Francisco fracionou parte das terras e distribuiu-as entre eles. Com o decorrer do tempo, a Fazenda Santa Eulália metamorfoseou-se de um emblema de tirania para um laboratório de emancipação. Elisa acompanhou esta transformação. Faleceu aos 65 anos, serena, com a mão enlaçada na do filho. Nos seus últimos momentos, murmurou:

“Salvaguardaste o legado dele.”

Francisco sepultou a mãe junto a uma jabuticabeira secular, a mesma árvore que testemunhara os encontros furtivos de Elisa e Balu durante a sua gravidez. Mandou erguer uma lápide modesta: “Elisa Maria dos Santos, 1810-1875. Amada mãe, mulher de bravura, cujo amor transcendeu as grilhetas.” E, a seu lado, Francisco plantou uma outra árvore, mais pequena, mais jovem.

“Esta é para ti, pai,” proferiu ele ao vento. “A ti, que nunca conheci, mas que trago em cada ação minha.”

Décadas volvidas, já na velhice, Francisco narrava esta história aos seus netos, que o escutavam embevecidos.

“O coronel julgava deter o controlo sobre tudo,” rematava Francisco. “Acreditava que a minha mãe não suportaria o meu pai. Assumia que os corpos eram meros instrumentos. Mas laborou em erro. O amor é indomável e a humanidade, por muito que tentem asfixiá-la, encontra sempre uma via para florescer.”

Um dos netos inquiriu: “O avô guarda rancor dele? Do coronel?”

Francisco ponderou: “Sinto comiseração. Ele desfrutou de uma vida inteira rodeado de poder, mas finou-se sem nunca ter experienciado o que os meus pais viveram naquele quarto encerrado à chave. A genuína liberdade.”

Os netos não captaram o sentido na sua plenitude, mas preservariam a história e passá-la-iam adiante. Há histórias que carecem de ser rememoradas, não com o fito de exaltar o sofrimento, mas para prestar tributo àqueles que, mesmo aprisionados, optaram pelo amor.

Francisco alcançou a provecta idade de 83 anos. Extinguiu-se durante o sono, rodeado pelos seus entes queridos. Reza a lenda que, no seu derradeiro suspiro, um sorriso lhe aflorou aos lábios, como se tivesse vislumbrado algo ou alguém que o aguardava. Quem sabe um homem de estatura invulgar, com ombros largos e mãos delicadas, a estender-lhe a mão.

“Vem, meu filho. Chegou a hora de conheceres o teu verdadeiro pai.” E Francisco partiu ao seu encontro.

A Fazenda Santa Eulália perdura até aos nossos dias. Atualmente, alberga um museu. Os visitantes percorrem os seus espaços, captam fotografias, e debruçam-se sobre os painéis informativos que narram a epopeia do café no Brasil Império. Contudo, uma ínfima minoria detém o conhecimento da autêntica história da sinhá e do escravo, do coronel despótico e do filho que enveredou por um caminho distinto. Esta narrativa não figura nos anais oficiais. Reside nos murmúrios das árvores, na brisa que acaricia os cafezais, na memória preservada pela tradição oral. E agora, encontra-se partilhada consigo, para atestar que, mesmo nas eras mais sombrias, o amor desbrava o seu trilho e que a verdadeira omnipotência não reside na subjugação, mas sim na libertação.

Resta um último capítulo desta narrativa por desvendar. Vinte anos após o passamento de Francisco, um homem apresentou-se na Fazenda Santa Eulália. Aparentava quarenta anos de idade, de tez escura e envergava vestes modestas, mas irrepreensivelmente limpas. Bateu à porta da habitação principal, agora residência de João, neto de Francisco, um jovem de 25 anos.

“Em que posso ser útil?” inquiriu João.

O forasteiro descobriu a cabeça.

“O meu nome é Benedito. Sou, ou melhor, fui filho de um homem chamado Balu.”

O sangue de João gelou-lhe nas veias. Reconheceu de imediato aquele nome: era o bisavô que nunca chegara a conhecer.

“Faça o favor de entrar,” convidou ele.

Benedito transpôs a soleira, declinou as ofertas de café e água, e permaneceu de pé na sala, a rodar o chapéu nas mãos inquietas.

“O meu pai legou-me uma história no seu leito de morte,” encetou Benedito. “Revelou que gerara um filho numa fazenda em São Paulo. Um filho com quem nunca pôde privar, mas que amou desde o primeiro vagido.”

João sentou-se, de forma compassada.

“O seu pai não sucumbiu nas minas?”

“Pereceu, sim. No entanto, o seu passamento ocorreu 7 anos após a notícia transmitida ao coronel. Ele resistiu à derrocada. Permaneceu encurralado nas galerias durante três dias, até ser resgatado. A lesão pulmonar foi severa, mas sobreviveu.”

“Qual o motivo para o silêncio?”

“O fazendeiro de Minas Gerais era indiferente ao seu destino. Aos seus olhos, Balu já figurava nos registos de óbito. Optou por manter a farsa.” Benedito acomodou-se, por fim. “O meu pai contraiu matrimónio com uma escrava alforriada. Dessa união nasci eu e a minha irmã. Contudo, o seu primogénito nunca lhe saía do pensamento. Francisco. Murmurava o nome durante o sono.”

As lágrimas assomaram aos olhos de João.

“O meu avô… a sua alma rejubilaria com esta revelação.”

“Eu tenho a certeza. É esse o propósito da minha visita.” Benedito extraiu um objeto do bolso. Tratava-se de uma diminuta estatueta de madeira, esculpida artesanalmente, que figurava um homem a segurar uma criança. “Foi o meu pai quem a concebeu. Afirmava que representava ele próprio a segurar Francisco, o filho que nunca pôde acalentar.”

João recebeu a estatueta com veneração. A obra era rústica, talhada por mãos desprovidas de técnica refinada, mas exalava amor. Um amor tão intenso que dilacerava a alma.

“Posso ficar com ela?”

“É esse o intuito da minha viagem. Entregar-lha.” Benedito ergueu-se. “E também para lhe transmitir que o meu pai finou-se em paz. Pois, não obstante a privação da liberdade, não obstante a separação do filho, vivenciou instantes de amor genuíno. E isso, asseverava ele, possuía um valor incomensurável, superior a todo o ouro do mundo.”

João acompanhou Benedito até à porta. Envolveram-se num abraço. Dois netos cujas histórias se entrelaçavam de forma inextricável.

“Agradeço a sua vinda,” proferiu João. “Agradeço a sua existência. O senhor e a sua família são a prova cabal de que o meu bisavô deixou uma herança de bondade neste mundo.”

Benedito partiu. João nunca mais cruzou o seu caminho. A estatueta, no entanto, permaneceu. Foi transmitida de geração em geração. Hoje, ocupa um lugar de destaque numa vitrina do museu da Fazenda Santa Eulália. A placa descritiva refere: “Escultura que simboliza o elo paternal. Obra atribuída a Bumbi (1859), propriedade da família Santos Silva.”

Os visitantes contemplam-na. Alguns registam a imagem. Poucos compreendem o seu real significado. Contudo, aqueles que estão familiarizados com a história detêm-se, observam com maior atenção e partem transmutados, porque assimilaram um princípio basilar. O amor perdura. Subsiste mesmo perante as tentativas de o aniquilar. Resiste mesmo quando sujeito a correntes e a distâncias. Resiste mesmo quando soterrado por falácias e mutismo. O amor perdura e perpetua a sua história.