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Coronel Sem Fé M@t0u o Padre…Lampião Veio Como Justiça!

“Chegue mais cabra da peste, puxe um banco e já me diga de onde você tá escutando essa história. E te digo, fique atento que essa é das boas.”

O estampido rasgou o silêncio da igreja como um trovão do inferno. O padre Firmino ainda tinha as mãos erguidas em oração quando a bala entrou pelo peito, atravessando o coração que só conhecia a bondade. O corpo magro tombou sobre o altar de madeira, os braços abertos como Cristo na cruz. O sangue escorrendo devagar sobre a Bíblia aberta no Salmo 23. A vela do santíssimo tremeu como se até Deus tivesse estremecido com tamanha blasfêmia.

Coronel Antônio Brasílico soprou a fumaça do cano do revólver, os olhos frios como pedra de cemitério. Cuspiu no chão sagrado da capela, bem ao lado do corpo do padre que ainda estremecia nos últimos suspiros de vida. O povo ajoelhado nos bancos de madeira carcomida não ousava respirar, as mãos trêmulas, segurando os terços, os olhos arregalados de terror puro.

“Cadê teu deus agora, padre?” A voz do coronel ecoou pelas paredes de Adobe como blasfêmia encarnada.

Ele deu três passos até o altar, as botas de couro batendo no chão de barro batido, cada passo soando como martelada em caixão. Agarrou a Bíblia manchada de sangue e a jogou no chão com toda a força.

“Cadê o milagre? Cadê a proteção divina?”

O padre Firmino tentou falar, bolhas de sangue formando nos lábios rachados.

“Perdoo você.”

As palavras saíam fracas, mas carregadas de uma paz que o coronel nunca conheceria. Antônio Brasílico deu uma gargalhada que gerou arrepio até nos cachorros lá fora. Pegou o crucifixo de madeira que o avô do padre tinha esculpido e jogou contra a parede, estilhaçando os braços de Cristo em mil pedaços.

“Não existe Deus nesse sertão, só existe poder. E o poder tá na minha mão.”

Dona Marieta, beata de 80 anos, que nunca tinha faltado uma missa na vida, desmaiou no banco. O menino Zequinha, coroinha de apenas 10 anos, chorava escondido atrás do confessionário, os olhos vidrados no corpo do padre que o tinha ensinado a ler e escrever. O sangue continuava escorrendo, formando uma poça vermelha que refletia a luz trêmula das velas, como se o próprio chão da igreja chorasse lágrimas de sangue.

O coronel virou-se para o povo paralisado de medo.

“Isso aqui é aviso. Quem mexer comigo, quem questionar minha palavra, quem ousar me enfrentar, vai conhecer o mesmo destino. Não importa se é padre, se é velho, se é criança. Num existe perdão de Deus, porque num existe Deus, só existe minha lei.”

Lá fora, o vento da caatinga soprou forte, levantando poeira vermelha que entrou pelas frestas da porta. As cabras baliam inquietas no curral. Os urubus começaram a rodear a torre da igreja, como se já soubessem que a morte tinha feito morada ali. O sino, que sempre tocava às 6 da tarde, permaneceu em silêncio. Nem o sineiro teve coragem de puxar a corda.

Mas o que o coronel Antônio Brasílico não sabia, o que sua arrogância cega não permitia enxergar, era que em algum lugar do sertão bravo, a léguas de distância dali, um homem acordava no meio da noite com um aperto no peito. Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, sentou-se na rede de um salto, a mão instintivamente buscando o punhal debaixo do travesseiro de palha. Maria Bonita acordou assustada ao lado dele.

“Que foi, meu rei? Teve pesadelo?”

Lampião olhou para o céu estrelado através das frestas do telhado de palha. Uma estrela cadente riscou a escuridão naquele exato momento.

“Não foi pesadelo, não, Maria. Foi chamado.”

“E aí, cabra bom do sertão, se tu também acha que tem coisa que nem Deus perdoa, deixa teu curtir aí. Bora mostrar que o povo do Nordeste não aceita desaforo, nem de coronel, nem de ninguém. Se inscreve no canal que essa história tá só começando e garanto que o que vem por aí vai fazer até o diabo se benzer. Aperta esse sininho que Lampião ainda tem muita conta para acertar. Oxente, não vai perder não.”

E foi assim, meu povo, que começou uma das histórias mais arrepiantes do sertão nordestino. Quem conhece essas bandas sabe que certas coisas nunca se esquecem. E o que aconteceu naquela tarde de agosto de 1929 ficou marcado na memória do povo como ferro quente em couro de boi. A capelinha de Nossa Senhora das Dores ficava no povoado de Riacho Seco, bem no meio do nada, entre Pernambuco e Paraíba. Era uma construção simples de adobe e madeira, com um sino rachado que tocava desafinado, mas com fé.

O padre Firmino tinha chegado ali havia 15 anos, mandado pelo bispo de Pesqueira para cuidar daquele rebanho esquecido por Deus e pelos homens. Mas o padre nunca desistiu. Batizava as crianças, casava os namorados, enterrava os mortos e sempre, sempre tinha uma palavra de conforto para quem precisava. Era um homem magro de uns 50 anos, com as mãos calejadas de tanto trabalhar na roça junto com o povo, porque o que a paróquia dava não dava nem para comprar farinha.

Naquela tarde fatídica, o padre estava dando a bênção final da missa quando as portas da igreja se escancararam com violência. O coronel Antônio Brasílico entrou como se fosse dono do mundo, seguido de cinco capangas armados até os dentes. O cheiro de cachaça entrou junto com eles, misturado com suor de cavalo e a prepotência que só os poderosos do sertão conheciam.

“Padre!” berrou o coronel, a voz arrastada pelo álcool. “Num acabou aquela conversa que a gente teve ontem, não.”

O padre Firmino desceu do altar com calma, as mãos ainda segurando o cálice da comunhão.

“Coronel Brasílico, aqui é casa de Deus. Se o Senhor quer conversar, esperamos a missa terminar e conversamos lá fora com respeito.”

O povo prendeu a respiração. Todo mundo sabia o que tinha acontecido no dia anterior. O padre tinha ido até a fazenda do coronel para pedir que ele devolvesse as terras da viúva Sebastiana, que o coronel tinha tomado na marra depois que o marido dela morreu. O padre tinha dito na frente de todo mundo que roubar terra de viúva era pecado mortal, que Deus castigava quem oprimia os fracos. O coronel tinha rido na cara dele.

“Seu padre metido, não existe Deus nenhum. Se existisse, não deixava eu fazer o que eu faço. Eu mato, eu roubo, eu tomo o que eu quero. E cadê o castigo? Cadê o raio que não cai na minha cabeça?”

Agora, dentro da igreja, o coronel avançou pelo corredor central, pisando forte.

“Eu vim aqui na frente de todo mundo para mostrar que o Senhor tá errado, padre. Não existe Deus, não existe castigo, não existe nada além do poder da bala.”

“Prestem atenção no que vou contar, que essa parte é de gelar o sangue.”

O padre olhou pro coronel com aqueles olhos mansos que ele tinha, cheios de tristeza, mas sem medo nenhum.

“Coronel, o senhor pode não acreditar em Deus, mas Deus acredita no Senhor e ele tá vendo tudo que o Senhor faz. Um dia a conta vai chegar e quando chegar num vai ter dinheiro nem poder que pague.”

Foi aí que o coronel perdeu a cabeça de vez. Puxou o revólver da cintura, aquele 38, que já tinha tirado a vida de mais de 20 homens.

“Então vamos ver se teu Deus te protege, padre.”

As mulheres gritaram, os homens se jogaram no chão. O menino Zequinha, o coroinha, tentou correr para a frente do padre, mas o seu Anchieta, o sacristão, segurou o menino pela camisa. O padre Firmino ergueu as mãos, não em rendição, mas em oração.

“Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem.”

O tiro ecoou como se todas as portas do inferno tivessem se aberto ao mesmo tempo. A bala entrou no peito do padre, do lado esquerdo, direto no coração. O padre cambaleou, os olhos arregalados, não de dor, mas de surpresa, como se não acreditasse que alguém pudesse chegar a esse ponto de maldade. Caiu de costas no altar, os braços abertos, a batina preta encharcando de sangue vermelho vivo. A Bíblia que estava aberta no altar recebeu o sangue como se fosse tinta sagrada, manchando as palavras do Salmo 23.

“Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo.”

“Como meu avô sempre dizia, tem hora que até o céu para para olhar.” E naquela hora parecia que o mundo inteiro tinha congelado. O vento parou de soprar. Os passarinhos pararam de cantar. Até as cabras no curral ficaram mudas. O coronel guardou a arma, limpou a mão na calça e cuspiu no chão.

“Cadê teu Deus agora, povo? Cadê o milagre?” Ele chutou o corpo do padre com a bota. “Morreu igual qualquer cachorro, porque não existe Deus, não existe justiça, só existe eu. E quem mexer comigo vai pro mesmo lugar.”

Agarrou a Bíblia manchada de sangue e a rasgou, jogando as páginas sagradas pro alto, como se fosse confete de festa. Pegou o crucifixo de madeira do altar e quebrou no joelho, os pedaços de Cristo caindo no chão, feito lenha pra fogueira.

“Essa igreja agora é minha. Esse povoado é meu. Tudo que vocês têm é meu. E se alguém questionar, vai conhecer o padre Firmino lá embaixo.” Ele riu. Aquela risada de quem perdeu completamente a alma. “Aliás, acho que o padre nem chegou lá embaixo, porque se não tem Deus, não tem céu nem inferno. Morreu e apodreceu e fim.”

Os capangas do coronel também riram. Aquelas risadas vazias de quem vende a consciência por vintém. Zé Baiano, o pior de todos, ainda cuspiu na batina do padre morto. Dona Marieta, que tinha desmaiado, acordou naquele momento e soltou um grito que partiu o coração de quem ouviu.

“Assassino, assassino, o Senhor vai pagar. Deus vai mandar alguém fazer justiça.”

O coronel apontou o revólver para ela.

“Cala essa boca, velha, ou vai fazer companhia pro padre.”

Mas seu Damião, marido dela, se jogou na frente.

“Não atira nela não, coronel. Ela tá fora de si, não sabe o que tá falando.”

O coronel baixou a arma, mas o olhar continuava assassino.

“Deus vai mandar alguém fazer justiça? Quem? Quem vai ter coragem de me enfrentar? Eu sou a lei aqui. Eu sou Deus aqui.”

“E foi assim, meu povo, que o coronel Antônio Brasílico cometeu o maior erro da vida dele. Porque no sertão tem umas coisas que a gente não mexe, não mexe com mãe de ninguém, não mexe com palavra empenhada e, principalmente, não mexe com casa de Deus.”

O coronel saiu da igreja rindo, montou no cavalo baio que tinha e sumiu pela estrada, deixando para trás o rastro de poeira vermelha e o cheiro de pólvora misturado com sangue inocente. O povo ficou paralisado por uns minutos que pareceram horas. Depois, devagar, começaram a se mover. As mulheres choravam baixinho, com medo de fazer barulho. Os homens limpavam as lágrimas com vergonha, sabendo que não tinham tido coragem de fazer nada.

Zequinha, o menino coroinha, foi o primeiro a se aproximar do corpo. Ajoelhou ao lado do padre, pegou a mão fria dele e começou a rezar com a voz trêmula:

“Pai nosso que estais no céu…”

Um por um, o povo foi se juntando. Formaram um círculo em volta do altar manchado de sangue. E ali, naquela igreja profanada, com um cheiro de morte ainda fresco no ar, o povo rezou. Rezou pelo padre Firmino, rezou por justiça, rezou por um milagre. E o milagre, meu povo, já estava a caminho.

Naquela mesma noite, a mais de 100 léguas dali, Virgulino Ferreira da Silva acordou com um sobressalto que quase o jogou da rede. O suor escorria pela testa, o coração batia descompassado no peito como tambor de guerra, e uma sensação estranha apertava o estômago, como se alguém tivesse enfiado uma faca nas tripas e torcido devagar. Maria Bonita acordou no mesmo instante, a mão já buscando o rifle que ficava sempre ao alcance.

“Que foi, Virgulino? Tem gente chegando?”

Lampião se sentou na rede. A respiração pesada, os olhos fixos no nada. Estava acampado num serrote escondido perto de Triunfo em Pernambuco, junto com os 20 homens do bando. O acampamento estava quieto, só o barulho dos grilos e o ronco de Sabonete que dormia feito pedra.

“Não é gente não, Maria.” Lampião passou a mão pelo rosto suado. “Foi outra coisa, algo diferente.”

Maria Bonita acendeu o candeeiro de querosene, a luz fraca iluminando o rosto preocupado do marido. Ela conhecia Virgulino melhor que ninguém no mundo. Sabia quando era pressentimento de emboscada, quando era lembrança ruim, quando era raiva guardada, mas aquilo era diferente. Nunca tinha visto aquela expressão no rosto dele.

“Conta direito, meu rei, o que foi que te assombrou?”

Lampião levantou da rede e caminhou até a beira do acampamento. O céu estava estrelado. A lua minguante mal dava luz. Mas naquele momento exato, uma estrela cadente riscou o céu de ponta a ponta, brilhante como se fosse um risco de fogo no manto da noite.

“Sonhei com uma igreja, Maria.” A voz dele saiu baixa, quase um sussurro. “Uma capelinha pequena de adobe… tinha sangue no altar, muito sangue. E um padre morto com os braços abertos, igual Cristo na cruz.”

“Quem conhece sertão sabe que sonho assim num é sonho comum. Não é aviso, é chamado.”

Maria Bonita sentiu um arrepio subir pela espinha.

“E tinha mais,” continuou Lampião. “Tinha um homem rindo, um coronelzão desses que pensam que são donos do mundo. Ele cuspia na Bíblia, quebrava o crucifixo, zoava de Deus. E uma voz, uma voz que eu nunca ouvi, mas que parecia vir de dentro de mim mesmo, dizia: ‘Vai, faz justiça, mostra que Deus não esqueceu do povo’.”

Maria Bonita se levantou e foi até ele. Colocou a mão no ombro do marido.

“Virgulino, você tá com febre? Comeu alguma coisa estragada?”

“Não é febre não, mulher.” Lampião se virou para ela e Maria viu algo nos olhos dele que nunca tinha visto antes. Não era raiva, não era sede de vingança, era certeza. Uma certeza absoluta do tipo que não se discute. “Eu sei que parece loucura, mas eu sinto aqui dentro.” Ele bateu no peito com o punho fechado. “Que tem algo que eu preciso fazer. Alguém tá me chamando e eu vou.”

O barulho acordou Corisco, que dormia perto. O Diabo Loiro se levantou num pulo já com a mão no rifle.

“Que foi? Tem polícia?”

“Num é polícia não, Corisco,” disse Lampião. “Mas acorda o povo, a gente vai sair daqui.”

“Sair para onde, capitão? A gente ia ficar uns dias descansando aqui.”

Lampião respirou fundo.

“A gente vai para Riacho Seco.”

Corisco franziu a testa.

“Riacho Seco, aquele povoado perto da divisa com a Paraíba? Que é que a gente vai fazer lá? Não tem nada lá, só umas casinhas pobres e uma capelinha.”

“É justamente para lá que a gente vai.” A voz de Lampião tinha aquele tom que todo mundo no bando conhecia. O tom que não aceitava a discussão, o tom da decisão tomada.

“Prestem atenção no que vou contar, que essa parte mostra o lado de Lampião que muita gente não conhece. O rei do cangaço era homem de muitas faces. Tinha a face do terror que fazia coronel e polícia tremer. Tinha a face do protetor que defendia o povo pobre e tinha a face do devoto, que nunca esquecia das orações que a mãe tinha ensinada.”

Lampião abriu o matulão de couro que carregava sempre e tirou de lá um terço de contas pretas, daqueles de 33 contas que representam os anos de Cristo na terra. Era o terço da mãe dele, Maria Lopes, que tinha morrido anos atrás, mas deixado aquela herança de fé pro filho.

“Maria, pega teu terço aí. A gente vai rezar antes de partir.”

Maria Bonita puxou o terço dela de contas de madeira que ela mesma tinha feito. Corisco, mesmo sem entender direito, também pegou o dele. E, um por um, os cangaceiros foram acordando e juntando pro terço da madrugada. Tinha Sabonete com aquele jeitão brincalhão, mais sério na hora da reza. Tinha Virgínio que tinha sido coroinha antes de virar cangaceiro. Tinha Moeda, Mariano, Candeeiro, cada um com sua história, cada um com seus pecados, mas todos com fé em Deus, daquele jeito torto que a vida do cangaço permitia. Dadá, a mulher de Corisco, também se juntou. Ela e Maria Bonita se ajoelharam na frente e Lampião começou a puxar a Ave Maria com aquela voz grave que contrastava com a delicadeza da oração.

“Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco…”

Vozes dos cangaceiros se juntaram, criando um coral estranho ali no meio do mato. Homens e mulheres que viviam da bala e do bacamarte, rezando com a mesma devoção de beata de igreja. Porque no sertão, meu povo, as coisas sempre foram assim. A vida é dura, a morte tá sempre perto e a fé é a única coisa que não pesa na matula.

Depois do terço, Lampião ficou de pé e olhou pro bando todo reunido.

“Vocês estão estranhando eu acordar vocês no meio da noite para ir para um povoado que não tem nada, eu sei. Mas eu vou explicar direitinho.” Ele caminhou pelo meio do grupo, a luz do candeeiro fazendo a sombra dele dançar nas pedras do serrote. “A gente vive nessa vida de cangaço, porque a lei dos homens não presta, porque os coronéis fazem o que querem, roubam, matam. Tomam o que é dos pobres e a polícia não faz nada porque tá no bolso deles.”

Os homens concordaram com a cabeça. Todo mundo ali tinha sua história de injustiça, sua razão para ter largado a vida honesta e pegado o rifle.

“Mas tem umas coisas, meu povo, que a gente não pode deixar passar. Tem umas coisas que são sagradas e uma delas é a casa de Deus.” A voz de Lampião ficou mais dura. “Eu tive um sonho hoje. Não foi sonho comum, não. Foi aviso. Me mostraram um padre morto dentro de uma igreja, sangue no altar, um coronel rindo e zombando de Deus.”

Murmúrios de indignação correram pelo grupo. Cangaceiro podia ser muita coisa, mas desrespeitar a igreja era linha que ninguém cruzava.

“E a voz que eu ouvi no sonho me disse: ‘Vai, faz justiça! Mostra que Deus não abandonou o povo’.” Lampião parou e olhou cada um nos olhos. “Eu não sei explicar direito, mas eu sinto que a gente tem que ir para Riacho Seco. Tem que descobrir se esse sonho era aviso do que já aconteceu ou do que vai acontecer. E se já aconteceu, tem que fazer justiça.”

Corisco deu um passo à frente.

“Capitão, o senhor sabe que eu vou aonde o senhor mandar, mas me diga uma coisa. O senhor acha mesmo que foi Deus que falou com o Senhor?”

Lampião ficou em silêncio por um momento. Olhou pro céu estrelado, onde a Via Láctea desenhava um caminho de luz no escuro.

“Corisco, eu já matei muito homem nessa vida. Já fiz muita coisa que sei que vou ter que prestar conta lá em cima. Mas eu sempre, sempre respeitei igreja, respeitei padre, respeitei o nome de Deus. E se tem um coronel por aí que matou o padre e zombou de Deus, então ele vai conhecer a fúria, não só do cangaço, mas do próprio Deus usando minha mão para fazer justiça.”

Maria Bonita se levantou e ficou do lado do marido.

“Eu vou com você, Virgulino. Sempre vou.”

“Eu também vou,” disse Dadá.

“Conte comigo, capitão,” disse Sabonete.

Um por um. Cada cangaceiro manifestou apoio, porque ali, naquele momento, não era só uma questão de seguir o líder, era questão de fé, era questão de mostrar que tinha coisas que nem o cangaço, com toda sua fama de violência, aceitava.

“Então vamos partir antes do sol nascer”, ordenou Lampião. “Arruma as cargas, verifica as munições, enche os bornais de água. A viagem é longa, uns três dias de cavalgada puxada.”

“O gente, mas como foi que aconteceu?”

Enquanto o bando se preparava, Lampião voltou pra rede dele e pegou o bentinho que usava no pescoço. Era um pequeno saquinho de pano com terra santa de Juazeiro, benzido pelo padre Cícero em pessoa anos atrás, quando ele tinha ido até lá buscar a bênção.

“Padre Cícero”, murmurou Lampião, segurando o bentinho. “Se o Senhor tá aí em cima olhando, me guie nessa missão, me mostre o caminho certo e me dê força para fazer o que precisa ser feito.”

O vento soprou naquele momento, trazendo o cheiro de caatinga, de flor, de mandacaru, de terra seca, esperando pela chuva. E Lampião sentiu aquela mesma certeza que tinha sentido ao acordar. Ele estava sendo chamado, convocado, escolhido para uma missão que ia além da vingança comum, além da justiça do cangaço. Maria Bonita se aproximou com o cavalo dele, o alazão que tinha ganhado de um fazendeiro em Sergipe.

“Tá tudo pronto, meu rei.”

Lampião montou, ajustou o chapéu de couro na cabeça, verificou o rifle e os punhais, mas antes de dar o comando para partir, ele fez algo que surpreendeu até quem já conhecia seus modos. Tirou o chapéu e fez o sinal da cruz.

“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Deus nos guie nessa jornada.”

E assim, meu povo, sob um céu que começava a clarear pro nascente, o bando de Lampião partiu rumo a Riacho Seco. 22 cangaceiros contando as mulheres, cavalgando em fila pelo meio da caatinga, guiados não pelo mapa, mas por um chamado que vinha de um lugar que eles num sabiam explicar.

O que eles não sabiam ainda era que lá em Riacho Seco, enterrado debaixo de uma cruz de madeira tosca, o padre Firmino descansava e que o coronel Antônio Brasílico, bêbado na fazenda dele, contava vantagem pros capangas sobre como tinha matado um padre e desafiado Deus sem receber castigo nenhum. Mas o castigo, compadre, já estava a caminho. Montado num cavalo alazão, armado até os dentes, com o bentinho no pescoço e a certeza de quem cumpre missão divina. Lampião não era anjo, não, mas naquele dia ia fazer o trabalho que os anjos não podiam fazer.

A jornada de três dias foi dura, como a própria caatinga. O sol rachava a terra, o vento levantava poeira vermelha que entrava nos olhos e na garganta, e a água dos bornais ia acabando rápido demais pro gosto de qualquer um. Mas Lampião cavalgava na frente, firme como rocha, sem reclamar, sem parar além do necessário. Na primeira noite, acamparam perto de um olho d’água em Serra Talhada. Enquanto os homens descansavam, Lampião ficou acordado, sentado numa pedra, olhando pro fogo que Sabonete tinha acendido. Maria Bonita veio sentar do lado dele, trazendo um prato de charque com farinha.

“Come alguma coisa, Virgulino. Você não comeu nada o dia todo.”

Lampião pegou o prato, mas mal tocou na comida.

“Maria, tu acha que eu tô ficando doido? Sair no meio da noite por causa de um sonho?”

Maria Bonita riu baixinho. Aquele riso que tinha conquistado o coração do rei do cangaço.

“Se tu tá doido, então eu também tô, porque eu sinto que a gente tá fazendo a coisa certa. E olha, Virgulino, eu te conheço. Tu num é de seguir sonho à toa. Se tu sentiu que era chamado, então era.”

Corisco se aproximou, trazendo notícias que tinha arrancado de um vaqueiro que passava pela estrada.

“Capitão, conversei com um cabra que vem de lá das bandas de Riacho Seco. Ele disse que tá todo mundo falando de um padre que foi morto dentro da igreja faz uns três dias.”

Lampião levantou num pulo, derrubando o prato.

“Morto, como?”

“Levou um tiro no peito, bem no altar. Dizem que foi um coronel, um tal de Antônio Brasílico, homem rico, dono de umas 10 fazendas, mas cruel, que nem cobra cascavel. O padre tinha confrontado ele por causa de umas terras roubadas e o coronel foi lá e matou o homem dentro da casa de Deus.”

O silêncio que caiu no acampamento foi pesado como laje de cemitério. Os cangaceiros que estavam por perto pararam o que estavam fazendo e olharam pro capitão. Virgínio se benzeu três vezes. Dadá tapou a boca com a mão. Maria Bonita pegou no braço do marido.

“Virgulino…”

“Então o sonho não era sonho, Maria, era visão. Me mostraram o que tinha acontecido para eu ir fazer justiça.” A voz de Lampião saiu diferente, carregada de uma determinação que ia além da raiva. Era propósito, era missão.

“Tem mais, capitão!” Continuou o Corisco. “O vaqueiro disse que depois de matar o padre, o coronel rasgou a Bíblia, quebrou o crucifixo, cuspiu no altar, disse que num existe Deus, que ele é a lei naquelas terras.”

“Agora, prestem atenção no que aconteceu em seguida, porque essa parte é importante.”

Lampião caminhou até o centro do acampamento, onde todos puderam ver. Tirou o chapéu de couro, segurou forte com as duas mãos e falou alto para todo mundo ouvir.

“Meu povo, vocês ouviram o que o Corisco disse? Tem um coronel que não só matou um padre, mas profanou a casa de Deus, zombou do santíssimo, desafiou o criador.” Ele fez uma pausa, o olhar varrendo cada rosto iluminado pela fogueira. “Esse tipo de coisa, companheiros, não pode ficar sem resposta, porque se a gente deixa passar, amanhã qualquer sem vergonha acha que pode fazer o mesmo.”

Sabonete deu um passo à frente.

“Capitão, o senhor quer que a gente vá lá e meta bala nesse coronel?”

“Não, Sabonete, num é só meter bala não. Isso aí qualquer um faz.” Lampião colocou o chapéu de volta. “A gente vai até lá, vai descobrir tudo certinho, quantos capangas ele tem, onde fica a fazenda, como é a rotina dele e depois a gente vai dar uma lição que vai ecoar pelo sertão inteiro. Uma lição que vai mostrar que tem certas coisas que nem coronel rico pode fazer sem pagar o preço.”

Moeda, um cangaceiro baixinho, mas valente, que nem jaguatirica, falou:

“E se a polícia tiver por perto, capitão? Riacho Seco é perto de Serra Talhada, sempre tem macacada rondando.”

“Se tiver polícia a gente dá um jeito. Mas isso aqui num é questão de polícia, nem de governo. Isso aqui é questão entre esse coronel e Deus. E eu sou apenas o instrumento.” Lampião tocou no bentinho do pescoço. “Padre Cícero me benzeu com isso aqui e disse que eu tinha uma missão no sertão. Sempre achei que era proteger o povo pobre dos coronéis safados. Mas agora eu entendo que tem mais. Tem a proteção da própria fé.”

“Prestem bem atenção nesse detalhe que vou contar.”

Naquela noite antes de dormir, Lampião pediu que todos rezassem de novo. E dessa vez ele fez uma oração diferente, uma que ele mesmo inventou na hora.

“Senhor Deus do céu e da terra, Pai de todos nós que vivemos nesse sertão tão esquecido, o senhor sabe que a gente aqui já fez muita coisa errada, já tirou vida, já causou dor, já andou por caminhos tortos. Mas o Senhor também sabe que a gente nunca, nunca desrespeitou sua casa, nunca levantou a mão contra seus servos. E agora tem um homem que fez isso, Senhor. Um homem que não só matou seu padre, mas zombou de seu nome, profanou seu altar, desafiou sua existência. Então eu peço, Senhor, use essa mão aqui.” Ele ergueu a mão direita calejada de tanto puxar gatilho. “Para fazer sua justiça. E se a gente tiver que pagar por isso depois, a gente paga. Mas que essa conta seja acertada. Amém.”

O coro de “Amém”, que veio dos cangaceiros, ecoou pela noite adentro.

No segundo dia de viagem, cruzaram com um grupo de retirantes que fugiam da seca. Gente magra, crianças com barriga inchada, mulheres com olhos fundos de tanto sofrer. Lampião mandou parar e distribuiu farinha, charque e rapadura que tinham na carga. Uma velha de uns 70 anos, curvada pelo peso da vida, agarrou a mão de Lampião e a beijou.

“Deus te abençoe, meu filho. Tu é bandido pros ricos, mas é santo pros pobres.”

“Não sou santo não, vó,” disse Lampião com um sorriso triste. “Sou apenas um pecador tentando fazer alguma coisa certa nesse mundo errado.”

“E tu tá indo para onde com esse bando todo?”

“Vou fazer uma visita a um coronel que precisa aprender umas coisas sobre respeito.”

A velha apertou mais forte a mão dele.

“Se for o que eu tô pensando, se for o Brasílico, então pode ir com Deus. Aquele ali é o próprio demônio de calça. Matou meu sobrinho porque o menino não quis vender um pedacinho de terra e agora matou até padre. Oxe, esse homem não tem mais jeito, não. Só a mão de Deus mesmo ou a mão de quem Deus escolher.”

Depois que os retirantes seguiram viagem, Maria Bonita comentou:

“Tá vendo, Virgulino? Até o povo já tá dizendo que tu é a mão de Deus.”

“Não é a mão de Deus, não, Maria. É só a mão de um cangaceiro velho que ainda tem um pingo de fé e que não aceita ver certas coisas acontecerem.”

Mas por dentro, Lampião sentia aquele peso de missão crescendo cada vez mais. Não era só vingança, não era só justiça do cangaço, era algo maior, mais profundo, que ele não conseguia explicar direito, mas que sentia com cada fibra do corpo.

No terceiro dia, já perto de Riacho Seco, Lampião mandou Corisco e Virgínio irem na frente, disfarçados de vaqueiros, para espiar o terreno. Voltaram no fim da tarde com informações detalhadas.

“A fazenda do Brasílico fica a umas duas léguas do povoado,” relatou o Corisco. “Casa grande, bem fortificada, uns 15 capangas morando lá. O coronel não sai muito, fica bebendo e fazendo farra. O povo do povoado tá apavorado. Ninguém sai de casa depois que escurece.”

“E a igreja?” perguntou Lampião.

“Tá fechada. O povo não tem coragem de entrar. Dizem que tem mancha de sangue no altar que não sai de jeito nenhum e que à noite se escuta gemido, como se fosse o padre chorando.”

Sabonete fez o sinal da cruz.

“Isso é alma penada, capitão. Alma que não descansou.”

“Então a gente vai dar descanso para ela,” disse Lampião. “Mas antes eu preciso ver a igreja com meus próprios olhos.”

“Espera aí que essa parte é de arrepiar.”

Naquela mesma noite, Lampião, Maria Bonita e Corisco entraram escondidos em Riacho Seco. O povoado era pequeno, umas 30 casas de taipa, a igreja no meio da praça. Tudo estava escuro, silencioso, como se a própria vida tivesse morrido junto com o padre.

Lampião foi até a porta da igreja. Estava trancada, mas ele tinha jeito com fechaduras. Com um arame abriu em segundos. A porta rangeu ao se abrir, um som que cortou o silêncio da noite como faca em pano. Entraram devagar. Maria Bonita acendeu uma vela. A luz fraca iluminou o interior da capela, e o que Lampião viu confirmou cada detalhe do sonho que tinha tido. O altar de madeira com a mancha de sangue, que parecia ter sido gravada a ferro e fogo, a Bíblia rasgada, jogada no canto, os pedaços do crucifixo quebrado espalhados pelo chão.

Lampião se ajoelhou na frente do altar, tirou o chapéu, colocou no chão ao lado e ficou ali de cabeça baixa, em silêncio. Maria Bonita e Corisco ficaram atrás, respeitando o momento. Depois de uns minutos que pareceram horas, Lampião falou a voz baixa, mas firme:

“Padre Firmino, se a sua alma tá por aqui ouvindo, saiba que vim fazer justiça. O homem que fez isso com o Senhor, que profanou esta casa, que zombou de Deus, vai pagar. Eu juro pela alma da minha mãe, pelos bentinhos que carrego, pela fé que ainda tenho que ele vai pagar.”

“E segundo conta a história, meu povo. E isso eu ouvi de quem estava lá. Naquele exato momento, a vela tremeu, mesmo sem ter vento nenhum dentro da igreja, e uma sensação de paz desceu sobre os três, como se uma mão invisível tivesse tocado nos ombros deles.”

Maria Bonita sussurrou:

“Virgulino, o padre ouviu, ele ouviu.”

Lampião se levantou, pegou os pedaços do crucifixo quebrado e os juntou com cuidado.

“Amanhã a gente conserta isso aqui e depois de fazer justiça, a gente manda buscar um padre novo pro povoado.” Ele olhou pro altar manchado de sangue. “E essa mancha aqui vai servir de lembrança. Lembrança de que Deus não esquece e que sempre, sempre manda alguém para acertar as contas.”

Saíram da igreja com o mesmo cuidado que entraram. Voltaram pro acampamento onde o resto do bando esperava. Lampião reuniu todos e fez o plano.

“Amanhã de manhã cedo, Corisco, você leva cinco homens e cerca a fazenda por trás. Sabonete, você leva outros cinco e fecha a estrada. Eu, Maria, Dadá e o resto vamos pela frente. Quando o sol tiver alto, quando o coronel estiver na varanda tomando cachaça, como faz todo dia, a gente vai bater na porta dele.”

“E se ele reagir?” perguntou Moeda.

“Se reagir, a gente reage também. Mas eu quero ele vivo. Vocês estão ouvindo? Eu quero ele vivo para pagar pelos pecados dele direitinho. Morte rápida é pouco para quem fez o que ele fez.”

Os cangaceiros concordaram. Verificaram as armas, prepararam as munições, afiaram os punhais e antes de dormir, mais uma vez rezaram. Rezaram pelos que iam morrer no dia seguinte, pelos que iam matar, por suas próprias almas, que já estavam pesadas demais. E lá de cima, entre as estrelas, quem sabe o padre Firmino não estava olhando também, esperando pela justiça que a lei dos homens nunca daria, mas que a justiça de Deus, usando as mãos de um cangaceiro, estava prestes a entregar.

O amanhecer ia trazer sangue, ia trazer fogo, ia trazer a fúria do cangaço misturada com a ira divina. E o coronel Antônio Brasílico, que tinha dormido sossegado, achando que tinha vencido até Deus, ainda não sabia que o dia dele tinha chegado.

O sol mal tinha nascido quando o bando de Lampião já estava em posição. A fazenda do coronel Antônio Brasílico era imponente. Casa grande de dois andares, paredes caiadas de branco, varanda larga com rede de tucum, curral enorme com gado gordo, enquanto o povo do povoado morria de fome. Era a cara da injustiça do sertão, opulência construída em cima do sangue e suor dos pobres.

Corisco e seu grupo já tinham cercado os fundos da propriedade, escondidos atrás do chiqueiro de porcos e do galinheiro. Sabonete e seus homens controlavam a estrada, garantindo que ninguém entrasse nem saísse. E Lampião, na frente com Maria Bonita, Dadá, Virgínio, Moeda e Candeeiro, observava da sombra de um pé de juazeiro a uns 200 m da casa.

“Quantos capangas vocês contaram?” perguntou Lampião a Virgínio, que tinha olhos de gavião e não perdia detalhe.

“Uns 12, capitão. Seis no curral, três na varanda, três dentro de casa, todos armados, mas relaxados, num tão esperando visita. E o coronel tá na rede da varanda, igual todo dia. Já começou a beber pelo jeito da garrafa na mão.”

Lampião sorriu, mas não era sorriso de alegria, era sorriso de quem sabe que a caça está no laço.

“Então vamos chegar perto, devagar, usando as árvores de cobertura. Quando eu der o assobio de Sabiá, todo mundo avança junto.”

Maria Bonita checou o rifle pela terceira vez.

“Virgulino, tem muita gente armada aí. Se começar tiroteio…”

“Se começar, a gente termina. Mas eu quero evitar. O coronel, eu quero vivo. Os capangas… Bom, vai depender se eles são espertos ou burros.”

Começaram a avançar. Cada movimento calculado, cada passo silencioso como pisada de onça na caatinga. Lampião tinha aprendido com os índios como se mover sem fazer barulho, como usar a terra a favor, como se tornar sombra quando precisava.

Chegaram a 100 m, 50 m, 30 m. Os capangas na varanda conversavam e riam, completamente desatentos. Um deles contava vantagem sobre uma moça que tinha conquistado, que na verdade tinha forçado, porque capanga de coronel não conquista, toma.

20 m. Lampião podia ver o rosto do coronel Antônio Brasílico agora. Era um homem grande, de uns 50 anos, barriga proeminente de quem come bem enquanto os outros passam fome. Bigode grisalho aparado, roupas caras, anel de ouro no dedo, corrente de ouro no pescoço, riqueza ostentada, enquanto o povo do povoado não tinha nem sapato nos pés.

10 m. O coronel levantou a garrafa de cachaça e gritou:

“Zé Baiano, traz mais uma garrafa aqui, que essa já tá acabando, e chama aquelas duas negrinhas que eu trouxe da fazenda do Teixeira, que eu tô querendo fazer uma festinha.”

Zé Baiano, o capanga que tinha cuspido na batina do Padre morto, apareceu na porta.

“Já vou buscar, patrão. Mas e aquele problema do povoado? O povo tá falando que…”

“Que o quê? Que vão chamar a polícia?” O coronel riu alto. “A polícia tá no meu bolso, seu burro. E o padre morreu e não aconteceu nada. Cadê o castigo de Deus? Cadê o raio que não caiu na minha cabeça?”

Foi aí que Lampião deu o assobio, um assobio perfeito de sabiá laranjeira, idêntico ao do pássaro de verdade. Mas pros cangaceiros era sinal de ataque.

“Ô gente, mas como foi que aconteceu em 3 segundos?”

O bando inteiro saiu da cobertura e avançou. Lampião foi direto para a varanda, o rifle apontado pro peito do coronel. Maria Bonita e Dadá surgiram pelos lados. Corisco e seu grupo invadiram pelos fundos. Sabonete chegou pela estrada com seus homens. Os capangas na varanda tentaram pegar as armas, mas já era tarde.

“Deixa as armas no chão, ou vocês viram peneira?” gritou Lampião.

O coronel Antônio Brasílico quase caiu da rede de susto. A garrafa de cachaça escapou da mão e se espatifou no chão de tábua da varanda. Ele ficou branco como algodão, os olhos arregalados.

“Quem… quem é você?”

Lampião subiu os três degraus da varanda com calma, o rifle nunca saindo do alvo. Tirou o chapéu de couro, revelando o rosto que todo o sertão conhecia.

“Eu sou Virgulino Ferreira da Silva, mas o povo me chama de Lampião e vim aqui fazer uma visita que o senhor estava devendo receber.”

O coronel ficou ainda mais pálido, se é que isso era possível. Todo mundo no Nordeste conhecia Lampião. Todo mundo sabia o que acontecia com quem caía nas mãos dele.

“Lampião, eu não fiz nada com você porque tá invadindo minha fazenda?”

“Não fez nada comigo, não, mas fez com alguém bem mais importante.” Lampião apontou pro céu com o cano do rifle. “Fez com um servo dele.”

Nesse momento, os outros capangas começaram a sair da casa e do curral, mas já estavam cercados por todos os lados. 12 capangas contra 22 cangaceiros experientes. A conta não fechava a favor deles. Zé Baiano, burro como só, tentou sacar o revólver. Corisco foi mais rápido, um tiro certeiro na mão do capanga que gritou de dor e largou a arma no chão.

“O capitão disse para largar as armas. Num disse?”

“Por favor, não.”

Os outros capangas, vendo que não tinha chance, foram obedecendo. Alguns mais espertos já levantavam as mãos. Outros mais burros ainda pensavam em reagir. Lampião nunca tirou os olhos do coronel.

“Manda seus homens largarem tudo e manda rápido, antes que meu povo fique nervoso e comece a atirar sem perguntar.”

O coronel engoliu seco.

“Larguem as armas, todos. Isso é uma ordem.”

As armas começaram a cair no chão. Rifles, revólveres, bacamartes, facões. Moeda e Candeeiro foram recolhendo tudo, jogando numa pilha longe do alcance dos capangas.

“Agora vocês vão se sentar ali naquele curral e não vão se mexer”, ordenou o Lampião. “Quem se mexer leva bala, quem tentar fugir leva bala. Quem respirar errado leva bala. Tô sendo claro?”

Os capangas foram pro curral como gado assustado. Só ficaram na varanda o coronel, Zé Baiano segurando a mão sangrando e o bando de Lampião. Maria Bonita se aproximou e olhou o coronel com desprezo.

“Esse é o homem que matou o padre?”

“É ele mesmo,” confirmou Lampião, “o homem que não acredita em Deus, que matou um padre dentro da igreja, que profanou o altar, que desafiou o criador.”

O coronel tentou manter a pose de valente, mas a voz saiu trêmula.

“Foi só um padre, um padre metido que queria me dar lição de moral. Eu sou o dono dessas terras. Eu faço o que eu quero.”

“Prestem atenção no que aconteceu então, porque essa parte mostra quem Lampião realmente era. Ele não gritou, não xingou, não perdeu a calma, simplesmente baixou o rifle, tirou o bentinho do pescoço e mostrou pro coronel.”

“Tá vendo isso aqui? Foi benzido pelo padre Cícero de Juazeiro, um homem santo, um servo de Deus de verdade. E sabe o que ele me disse quando me deu isso? Disse que eu tinha uma missão, que eu não era só um bandido qualquer, que eu era um instrumento para equilibrar as coisas quando a justiça dos homens falhava.”

O coronel deu um riso nervoso.

“Instrumento de Deus… tu é um assassino, um fora da lei.”

“Sou mesmo. Mas a diferença entre eu e você, coronel, é que eu sei exatamente o que eu sou. Eu sei que vou ter que prestar contas um dia. Eu sei que minha alma tá manchada, mas eu nunca, nunca matei um padre, nunca profanei uma igreja, nunca cuspi no nome de Deus.”

Corisco se aproximou.

“Capitão, o que o Senhor quer que a gente faça?”

“Primeiro amarra esse Zé baiano aí. Ele foi um dos que cuspiu no Padre morto. Depois traz aqui o livro de contas da fazenda. Eu quero ver quantas terras esse coronel roubou.”

Enquanto Virgínio amarrava Zé Baiano num poste da varanda, Sabonete entrou na casa e voltou com um livro grande de couro.

“Achei, capitão. Tá tudo anotado aqui.”

Lampião começou a folhear e quanto mais lia, mais a raiva ia crescendo dentro dele. Terras tomadas de viúvas, dívidas inventadas para roubar sítios de famílias pobres, contratos fraudulentos, gente morta por se recusar a vender. Tudo documentado, porque o coronel era arrogante demais para se preocupar. Afinal, quem ia questionar um homem poderoso como ele?

“Aqui diz que o Senhor tomou o sítio da viúva Sebastiana, a mesma viúva que o padre defendeu, o sítio que o falecido marido dela, o seu João Coragem, tinha comprado com 30 anos de trabalho.”

O coronel deu de ombros.

“Ela devia dinheiro. Ela devia 15.000 réis.”

“O sítio vale 10 contos de réis. Onde tá a justiça nisso?”

“Justiça é quem tem o poder fazer.”

Maria Bonita não aguentou. Deu um tapa na cara do coronel tão forte que o homem quase caiu da rede.

“Justiça é justiça, seu desgraçado. E hoje ela chegou para você.”

Dadá pegou o livro e continuou lendo.

“Capitão, aqui tem mais. Ele tomou a terra do seu Damião, aquele que tentou defender a esposa na igreja. Tomou o sítio do finado Antônio Pequeno, tomou a fazendinha dos irmãos Teixeira. Tudo junto são mais de 1000 hectares roubados.”

Lampião fechou o livro com força.

“Coronel, o senhor não é só um ladrão. O senhor é uma praga. Uma praga que infesta o sertão, que suga o sangue dos pobres, que enriquece com o sofrimento alheio.”

“E daí? Isso é como as coisas funcionam. Sempre foi assim.”

“Não, não é assim que tem que ser.” Lampião se virou para Corisco. “Reúne o povo do povoado. Eu quero que todos venham aqui. Todos. É hora de acertar essas contas.”

Enquanto Corisco ia buscar o povo, Lampião mandou trazer o coronel para dentro da casa. A sala era luxuosa, móveis caros, cortinas de veludo, tapetes da Pérsia. Tinha até um piano, instrumento que o coronel nem sabia tocar, mas que tinha comprado só para ostentar.

“Senta ali,” ordenou o Lampião, apontando para uma cadeira no meio da sala.

O coronel obedeceu, não tinha escolha. Lampião sentou na frente dele, o rifle atravessado no colo.

“Agora o senhor vai me contar com todos os detalhes o que aconteceu na igreja.”

“Eu não vou contar nada.”

Maria Bonita encostou o cano do rifle na têmpora do coronel.

“Vai sim. Ou eu aperto esse gatilho e resolve logo o problema.”

“Maria, calma,” disse Lampião. “Deixa ele pensar um pouco. Às vezes a gente precisa de um tempinho para entender a situação que tá.” Ele acendeu um cigarro de palha e deu uma tragada longa. “Coronel, o senhor tem duas opções. Opção um, conta tudo direitinho, com detalhes, e talvez, só talvez, eu deixe o senhor morrer rápido. Opção dois, não conta. E aí eu vou ter que arrancar a verdade do Senhor do jeito difícil e garanto que não vai ser agradável.”

O coronel olhou pros olhos de Lampião e viu algo que o fez tremer. Não era raiva cega, era algo pior, era convicção, certeza absoluta de quem sabe que está cumprindo uma missão.

“Tá, tá bem, eu conto.”

E então, com a voz tremendo, o coronel Antônio Brasílico contou tudo. Como o padre tinha ido até a fazenda pedir a devolução das terras da viúva Sebastiana, como ele tinha rido e mandado o padre embora, como o padre tinha dito na frente dos trabalhadores que Deus castigaria o coronel, como isso tinha ferido o orgulho dele.

“Aí eu fui até a igreja no dia seguinte, entrei durante a missa e disse para todo mundo ouvir que num existe Deus, que só existe poder e que quem tem o poder sou eu.”

“E o padre, o que ele disse?”

“Ele disse que Deus tinha paciência, mas que a paciência tem limite, que um dia a conta chegaria, que eu podia não acreditar em Deus, mas que Deus acreditava em mim.” O coronel limpou o suor da testa. “Isso me deixou com raiva, muita raiva. Então eu… eu puxei a arma e atirei num homem desarmado dentro da casa de Deus. Eu atirei e depois… depois eu quis mostrar que não ia acontecer nada, que Deus não existe. Então eu cuspi no altar, rasguei a Bíblia, quebrei o crucifixo.”

O silêncio que se seguiu foi pesado. Até os cangaceiros, acostumados com violência, ficaram chocados com o relato. Uma coisa era matar. No sertão, a morte era companheira constante. Outra coisa muito diferente era profanar o sagrado daquele jeito. Lampião se levantou devagar, andou até a janela e olhou lá fora. O povo do povoado já estava chegando, trazido por Corisco. Homens, mulheres, crianças. Vinham com medo, não sabendo o que esperar, mas vinham.

“Traz ele pra varanda,” ordenou Lampião.

Quando o coronel foi colocado na varanda, amarrado agora numa cadeira, o povo viu e um murmúrio percorreu a multidão. A viúva Sebastiana estava lá, magra de tanto passar fome. Seu Damião e dona Marieta ainda de luto pelo padre. Zequinha, o menino coroinha, com os olhos vermelhos de tanto chorar, todos os que tinham sofrido na mão do coronel. Lampião se apresentou.

“Meu nome é Lampião. Vim aqui porque tive um chamado, um chamado para fazer justiça. E justiça é o que vai ter hoje.”

Pegou o livro de contas e começou a ler em voz alta. Cada terra roubada, cada dívida inventada, cada injustiça cometida. A cada nome lido, uma pessoa na multidão chorava, lembrando do sofrimento que tinha passado.

“Esse homem aqui,” continuou Lampião, apontando pro coronel, “não só roubou de vocês, ele matou o padre Firmino, matou dentro da igreja e depois profanou a casa de Deus.”

O povo começou a gritar. Queriam justiça, queriam vingança. Alguns pegaram pedras, prontos para apedrejar o coronel ali mesmo.

“Calma!” Gritou Lampião. “Justiça vai ter, mas vai ser justiça de verdade, não linchamento.”

O povo se acalmou, mas a raiva continuava fervendo nos olhos de cada um. Lampião se virou pro coronel.

“O Senhor disse que num acredita em Deus. Disse que não existe castigo. Então agora eu vou mostrar que o Senhor tava errado, porque Deus existe, sim, e ele mandou eu vir aqui. Não foi coincidência eu ter sonhado com a morte do padre. Não foi coincidência eu ter chegado aqui exatamente agora. Foi chamado divino e eu sou o instrumento da justiça dele.”

O sol já estava alto quando Lampião ordenou que levassem o coronel Antônio Brasílico de volta pra igreja. O mesmo caminho que o coronel tinha feito três dias atrás, montado em seu cavalo baio, cheio de arrogância e cachaça, agora ele fazia a pé, as mãos amarradas para as costas, empurrado pelos cangaceiros, seguido por todo o povo do povoado.

O cortejo era estranho, parecia procissão, mas ao contrário, ao invés de santo sendo carregado, era pecador sendo levado pro julgamento. As mulheres rezavam baixinho, os homens seguravam os chapéus nas mãos, as crianças andavam grudadas nas mães, assustadas, mas curiosas. Quando chegaram na praça da igreja, Lampião mandou parar. A porta ainda estava como ele tinha deixado na noite anterior, entreaberta, mostrando o interior escuro e o altar manchado de sangue.

“Entra”, ordenou Lampião, empurrando o coronel.

“Não, eu não vou entrar aí.”

“Vai sim. Vai entrar e vai se ajoelhar no mesmo lugar onde o padre morreu. Vai pedir perdão.”

“Eu não peço perdão. Eu não fiz nada de errado.”

Maria Bonita deu um empurrão no coronel pelas costas, fazendo ele tropeçar e cair de joelhos logo na entrada da igreja.

“Engatinha então, verme.”

E assim, de joelhos sendo empurrado, o coronel Antônio Brasílico entrou na igreja. O povo foi entrando atrás, enchendo os bancos, ficando de pé nos cantos, querendo ver o que ia acontecer. Lampião fez o coronel parar bem em frente ao altar. A mancha de sangue estava ali, marrom agora, mas ainda visível. Os pedaços do crucifixo quebrado que Lampião tinha juntado na noite anterior estavam arrumados em cima do altar, como um quebra-cabeça macabro mostrando o Cristo despedaçado.

“Olha bem para esse sangue”, disse Lampião. “É o sangue de um homem santo, um homem que só fazia o bem, um homem que te perdoou mesmo enquanto morria. E o que o Senhor fez? Riu, cuspiu, zombou.”

O coronel mantinha a cabeça baixa, não de vergonha, mas de medo. Medo de verdade agora. O tipo de medo que come por dentro que faz as entranhas se retorcerem. Lampião se virou pro povo.

“Gente de Riacho Seco, vocês me chamaram aqui não com palavras, mas com orações, com lágrimas, com a dor de ver a injustiça e não poder fazer nada. Pois bem, hoje a justiça chegou, mas não sou eu quem vai julgar, é vocês.”

Um murmúrio percorreu a multidão. A viúva Sebastiana se levantou tremendo.

“O que o Senhor quer dizer, seu Lampião?”

“Quero dizer que vocês vão decidir o destino dele. Vocês que sofreram na mão dele. Vocês que perderam terras, perderam parentes, perderam a paz. E vocês que perderam o padre.” Lampião apontou pro coronel: “Esse homem aqui cometeu crimes contra vocês e contra Deus. Como vocês querem que a justiça seja feita?”

O silêncio caiu pesado. Ninguém esperava essa pergunta. O povo estava acostumado a obedecer, nunca a decidir. Mas ali, naquele momento, Lampião estava devolvendo o poder para quem sempre teve o poder roubado. Foi seu Damião quem falou primeiro. A voz ainda fraca da idade, mas firme na decisão.

“O padre Firmino era homem de Deus. Ele sempre pregava o perdão, mas tem coisas que num dá para perdoar, não. Num por causa da morte dele, mas por causa de tudo que esse homem fez. Quantas famílias ele destruiu? Quantas crianças choraram fome por causa da ganância dele?”

Dona Marieta se levantou também apoiada no braço do marido.

“Meu filho morreu trabalhando na fazenda dele. Trabalhou três meses sem receber um tostão e quando foi cobrar, levou surra dos capangas. Voltou para casa todo quebrado e morreu uma semana depois. Esse homem tem sangue nas mãos que nunca vai sair.”

Um por um. As pessoas foram se levantando e contando suas histórias, histórias de dor, de perda, de injustiça. E quanto mais falavam, mais o coronel ia murchando naquele chão, percebendo pela primeira vez na vida o tamanho do mal que tinha causado. A viúva Sebastiana foi a última a falar. Aproximou-se do coronel, olhou ele nos olhos e disse com voz firme:

“O Senhor tomou minha terra, a terra que meu marido comprou com 30 anos de trabalho honesto, a terra onde meus filhos nasceram, a terra que era tudo que eu tinha no mundo. O Senhor me deixou na miséria. Meus filhos passam fome todo dia. Mas sabe o que dói mais? Não é nem isso. É saber que o padre Firmino morreu tentando me ajudar, morreu porque teve coragem de enfrentar o Senhor. Morreu porque era homem de bem num mundo de homens ruins.” Ela cuspiu no rosto do coronel: “A minha sentença é que o Senhor sofra. Sofra como meus filhos sofrem. Sofra como o padre sofreu. Sofra até o último segundo da sua vida miserável.”

O povo inteiro gritou apoio: “Justiça, justiça, justiça!”

Lampião ergueu a mão pedindo silêncio.

“A sentença foi dada pelo povo. Agora eu vou executar. Mas antes…” ele puxou o coronel pelo braço, forçando ele a ficar de pé. “Antes o Senhor vai fazer algo que nunca fez na vida. Vai pedir perdão.”

“Eu não vou pedir nada.”

Corisco engatilhou o rifle e apontou pra cabeça do coronel.

“Vai sim. Ou eu mesmo termino isso aqui agora.”

O coronel engoliu seco, olhou ao redor, viu os rostos cheios de ódio e entendeu que não tinha saída.

“Eu… eu peço perdão…”

“Mais alto e de joelhos.”

O coronel se ajoelhou.

“Eu peço perdão pelo que fiz com vocês, pelo que fiz com o padre e por profanar a casa de Deus.”

“E por… por profanar a casa de Deus.”

Mas todos ali sabiam que aquilo não era perdão de verdade, era medo. Era desespero de homem que vê a morte chegando. Não tinha arrependimento naquelas palavras, só terror. Lampião se virou para Virgínio.

“Traz a pá e a enxada que eu vi lá no canto.”

Quando as ferramentas chegaram, Lampião jogou no chão na frente do coronel.

“Agora o Senhor vai cavar. Vai cavar do lado da cova do padre. Vai cavar a sua própria cova.”

O choque percorreu a igreja. Mesmo o povo, sedento por justiça, ficou arrepiado com aquilo. Fazer um homem cavar a própria cova era um dos castigos mais terríveis que existia no sertão.

“Eu… eu não vou fazer isso.”

“Vai sim. Ou eu mando um dos meus fazer e te jogo lá dentro ainda vivo para sentir a terra caindo em cima. Escolhe!”

Com as mãos tremendo, o coronel pegou a pá. Lampião o levou pro pequeno cemitério atrás da igreja, onde o padre Firmino tinha sido enterrado três dias antes. A cruz de madeira tosca ainda estava fresca com o nome do padre entalhado à faca.

“Aqui do lado dele. Começa.”

E assim, debaixo do sol escaldante do meio-dia, o coronel Antônio Brasílico começou a cavar. Cada pá de terra tirada era um esforço imenso. O homem não estava acostumado com trabalho pesado. Tinha passado a vida toda mandando outros trabalharem para ele. As mãos começaram a criar bolhas, os ombros doíam, as costas reclamavam, mas Lampião não tinha piedade.

“Continua. Mais fundo. A cova tem que ter 2 m de profundidade.”

O povo assistia em silêncio. Algumas mulheres choravam, não de pena do coronel, mas pela intensidade daquilo tudo. Os homens mantinham os rostos duros, mas por dentro sentiam uma satisfação estranha. Estava sendo feita a justiça que nunca tinham conseguido fazer. Levou 2 horas, 2 horas de trabalho duro, sol quente, suor escorrendo, mãos sangrando. Mas finalmente a cova estava pronta. O coronel estava exausto, quase caindo.

“Desce lá dentro”, ordenou o Lampião.

“O quê?”

“Desce! Quero que o Senhor sinta como é estar na própria cova. Quero que o Senhor olhe para cima e veja o céu pela última vez.”

Com dificuldade, o coronel desceu, ficou lá no fundo, olhando para cima, vendo os rostos de todos olhando para baixo. E pela primeira vez na vida, ele sentiu o que era ser pequeno, ser insignificante, ser nada.

“Como é que é, coronel?”, gritou o Lampião lá de cima. “Como é que é saber que sua vida tá terminando? Como é que é sentir que não adianta dinheiro? Não adianta poder, não adianta nada?”

O coronel não respondeu. Estava chorando agora. Lágrimas de medo escorrendo pelo rosto sujo de terra.

“Sabe qual é a diferença entre o Senhor e o padre Firmino? O padre morreu perdoando, morreu em paz, sabendo que ia pro lado de Deus. O Senhor vai morrer com medo, sabendo que vai pro outro lado. Pro lado onde os assassinos, os ladrões, os profanadores vão pagar por tudo que fizeram.”

Lampião mandou que puxassem o coronel de volta. Quando ele saiu da cova, mal conseguia ficar em pé. Os cangaceiros o seguraram pelos braços.

“Leva ele de volta para a igreja”, ordenou Lampião.

De volta ao altar, Lampião fez o coronel se ajoelhar uma última vez. Pegou os pedaços do crucifixo quebrado e os colocou na frente dele.

“Esse crucifixo o Senhor quebrou. Cristo o Senhor despedaçou. Agora vai juntar os pedaços. Vai colar com suas próprias lágrimas. Vai reconstruir o que destruiu.”

“Não tem como juntar isso.”

“Exatamente. Assim como não tem como juntar a vida do padre que o Senhor tirou. Assim como não tem como juntar as famílias que o Senhor destruiu. Mas o Senhor vai tentar, vai passar os últimos minutos da sua vida tentando consertar o que quebrou.”

E ali, naquele altar manchado de sangue, o coronel Antônio Brasílico pegou os pedaços de madeira com as mãos trêmulas e tentou juntá-los, mas não colavam, caíam, escorregavam, era impossível. Lampião assistiu por alguns minutos, depois disse:

“Chega, o senhor tentou e não conseguiu, igual não consegue consertar o mal que fez. Chegou a hora da sentença final.”

O povo prendeu a respiração. Maria Bonita e Dadá seguravam os terços rezando baixinho. Os cangaceiros mantinham as armas prontas, caso algum dos capangas do coronel, que ainda estavam presos no curral da fazenda, tentasse algo.

“Coronel Antônio Brasílico, o senhor foi julgado pelo povo de Riacho Seco. Foi considerado culpado de assassinato, roubo, profanação e inúmeros outros crimes. A sentença é morte, mas antes de executar a sentença, eu vou devolver tudo que o senhor roubou.”

Lampião puxou o livro de contas e começou a rasgar as páginas.

“Viúva Sebastiana, sua terra tá devolvida. As escrituras falsas que o coronel fez, eu tô rasgando aqui. Seu Damião, sua fazendinha também tá devolvida, irmãos Teixeira…”

E foi assim, rasgando página por página, devolvendo simbolicamente tudo que o coronel tinha roubado. Depois chamou Sabonete.

“Vai na fazenda, abre o cofre, que eu sei que tem um no quarto do coronel e traz todo o dinheiro aqui. Vamos dividir entre as famílias que foram roubadas.”

Quando o Sabonete voltou com o dinheiro, eram dezenas de contos de réis, uma fortuna. Lampião dividiu entre o povo. Cada família recebeu conforme tinha perdido. A viúva Sebastiana recebeu 10 contos, mais do que suficiente para reconstruir a vida. Os outros também receberam suas partes. O coronel assistia tudo aquilo com desespero. Estava vendo sua vida inteira sendo desfeita, seu poder sendo destruído, sua fortuna sendo distribuída.

“Agora sim”, disse Lampião pegando o rifle. “Agora a justiça tá completa. O senhor perdeu tudo que tinha e agora vai perder a única coisa que ainda resta, a vida.” Lampião apontou o rifle pro peito do coronel, exatamente no mesmo lugar onde o coronel tinha atirado no padre. “Tem alguma última palavra?”

O coronel, com a voz completamente quebrada, disse:

“Deus, Deus existe.”

Foi a primeira vez que ele fez essa pergunta com sinceridade. Não era zombaria, era dúvida real, medo real, necessidade real. Lampião baixou o rifle.

“Existe sim, coronel. E agora o senhor vai conhecer ele pessoalmente e vai ter que prestar contas por tudo que fez.”

Mas então, algo inesperado aconteceu. Zequinha, o menino coroinha de 10 anos, se levantou do banco onde estava. Caminhou até a frente, passou por Lampião e ficou na frente do coronel.

“Seu Lampião!” Disse o menino com a voz tremendo mais firme. “O padre Firmino sempre dizia que a gente tinha que perdoar, que perdoar era o mais difícil, mas era o que Deus queria, e que mesmo pros piores tinha que ter chance de arrependimento verdadeiro.”

Lampião olhou pro menino surpreso.

“Zequinha, esse homem matou o padre, teu padre, o homem que te criou como filho.”

“Eu sei e eu odeio ele por isso.” Mas o menino começou a chorar. “Mas o padre num ia querer que mais sangue fosse derramado no altar dele. Num ia querer que a igreja virasse lugar de execução.”

O silêncio que caiu foi profundo. Todo mundo esperava pela reação de Lampião. Maria Bonita se aproximou e sussurrou:

“Virgulino, o menino tem razão. O padre não ia querer isso.”

Lampião ficou parado, o rifle ainda na mão, olhando pro coronel que estava ajoelhado, olhando pro menino que chorava, olhando pro povo que esperava. E ali, naquele momento, ele entendeu algo importante. Justiça não era só punição. Às vezes justiça era algo maior.

“O senhor tem razão, menino!” Disse Lampião, finalmente, baixando a arma. “O padre Firmino não ia querer mais sangue na igreja dele.” Ele se virou pro coronel. “O Senhor teve sorte. A inocência desse menino te salvou da morte, mas nun te salva da justiça.”

Lampião chamou Corisco e Sabonete.

“Peguem ele. Vamos fazer diferente.”

Levaram o coronel de volta pra fazenda, agora completamente vazia. Os capangas tinham fugido quando viram o que estava acontecendo, sabendo que se ficassem seriam os próximos.

“Essa fazenda agora é do povo de Riacho Seco”, declarou Lampião. “Vão dividir entre as famílias, fazer um trabalho conjunto, todo mundo comendo do que plantar”. Ele olhou pro coronel: “E o Senhor vai embora. Vai sair daqui sem nada, como o povo que o Senhor roubou ficou. Vai sentir na pele o que é ser pobre, ser rejeitado, ser ninguém.”

“Eu… eu não tenho para onde ir.”

“Problema seu. O senhor tinha oportunidade de ser bom, de ser justo, de usar o poder para fazer o bem. Escolheu ser demônio. Agora vai viver como os demônios vivem, sem pais, sem lar, sem nada.”

Mas antes de liberar o coronel, Lampião fez uma última coisa. Pegou uma faca de ponta e na testa do coronel gravou uma cruz pequena, mas profunda, para todo mundo que olhar para a sua cara saber que o Senhor foi julgado e condenado para nunca esquecer o que fez. E para servir de aviso, profanar a casa de Deus tem consequência.

O coronel gritou de dor, o sangue escorrendo pela testa, mas era dor pequena perto de tudo que ele tinha causado.

“Agora vai”, disse Lampião, empurrando ele. “Some daqui! Se eu ver você de novo por essas bandas, aí sim eu termino o serviço e garanto que da próxima vez nem a inocência de um menino te salvará.”

O coronel Antônio Brasílico saiu cambaleando, sem nada, sem ninguém, com apenas a roupa do corpo e a marca na testa. Sumiu pela estrada e dizem que nunca mais foi visto na região. Alguns dizem que morreu de fome na beira de uma estrada, outros dizem que ficou louco, vagando pelo sertão, falando sozinho sobre padres e sangue e justiça divina.

Lampião voltou pra igreja com o bando. O povo estava lá, esperando. Quando ele entrou, todos se levantaram.

“A justiça foi feita”, anunciou Lampião. “Num planejava, mas da forma que o padre Firmino ia querer. O coronel perdeu tudo. Vocês ganharam de volta o que era de direito. E mais importante, vocês recuperaram a dignidade.”

A viúva Sebastiana se aproximou, pegou a mão de Lampião e a beijou.

“Deus te abençoe, Lampião. Tu num é bandido. Tu é anjo.”

“Num sou anjo. Não, dona Sebastiana. Sou apenas um homem tentando fazer o que é certo num mundo que esqueceu o que é certo.”

Lampião olhou pro altar. A mancha de sangue continuava lá. Ele sabia que nunca ia sair e tudo bem, ia servir de lembrança. Lembrança de que o mal tem consequência. Lembrança de que Deus não esquece. Lembrança de que sempre, sempre existe alguém disposto a fazer justiça quando a lei falha.

“Vamos embora, meu povo”, disse Lampião pro bando. “Nosso trabalho aqui terminou.”

Antes de partir, ele foi até o túmulo do padre Firmino, ajoelhou, tirou o chapéu e rezou uma última oração.

“Padre, eu fiz o que pude. Não matei o homem porque o Senhor não ia querer, mas dei a ele castigo pior que a morte. Tirei tudo que ele tinha, inclusive a alma. Espero que o Senhor lá de cima esteja em paz agora.”

O vento soprou naquele momento suave, carregando o cheiro de flor de mandacaru. E Lampião sentiu de novo aquela paz estranha, aquela certeza de missão cumprida. Montou no cavalo alazão, Maria Bonita ao lado. O bando formou a fila e assim como tinha chegado, saiu em silêncio, como sombras da caatinga, deixando para trás uma história que seria contada por gerações.

O povo de Riacho Seco ficou na praça acenando. Zequinha, o menino coroinha, levantou a mão em despedida e Lampião sorriu. Aquele sorriso raro que poucas pessoas conheciam, o sorriso de quem sabe que naquele dia tinha feito algo que valia a pena. E diz a lenda, meu povo, que naquela noite, pela primeira vez, desde a morte do padre, o sino da igreja tocou sozinho. Três badaladas claras que ecoaram pela caatinga adentro. O povo disse que era o padre Firmino lá do céu tocando o sino em agradecimento.

Se foi ou não foi, ninguém pode dizer com certeza. Mas uma coisa todo mundo sabe, naquele dia a justiça foi feita. Não a justiça dos homens, que é falha e corrompida, mas a justiça de Deus, usando as mãos de um cangaceiro que, apesar de todos os pecados, ainda guardava um pouco de fé no coração.

E essa, compadre, é a história verdadeira de como Lampião foi chamado por Deus para fazer justiça, de como um sonho virou missão, de como um bandido virou instrumento divino. E de como um coronel que zombou de Deus aprendeu do jeito mais duro possível que certas coisas nesse sertão bravo nunca devem ser profanadas. Lampião não era bandido, era o braço da justiça que a lei esqueceu e que Deus não abandonou.