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Ele Fez S3XO Com Uma M4CUM BE!RA De 70 Anos Em Belém — 24 Horas Depois Sua Língua Havia Apodrecido

Lucas Arruda tinha 27 anos, era dono de uma câmera Sony que valia mais que o seu aluguel, e havia terminado um relacionamento de 4 anos com uma mensagem de texto numa terça-feira de março. Cinco meses depois, ele estava em um avião para Belém com uma pauta de revista e a sensação de que havia aceitado o trabalho menos pelo dinheiro do que pela necessidade de estar em um lugar onde ninguém soubesse o seu nome.

O calor chegou antes da bagagem. O ar úmido do Pará o atingiu como uma parede morna ao sair do aeroporto, carregado com algo vegetal e fluvial que ele não sabia nomear. O táxi desceu para a cidade velha, e Lucas olhou pela janela com a câmera no colo, deixando a cidade entrar pelos olhos antes de decidir o que enquadrar.

Belém era mais antiga do que ele esperava, mais desgastada e mais bonita. Os casarões com suas fachadas de azulejos coexistiam com o concreto sem cerimônia, e os mangues apareciam nos espaços entre os prédios, como se nunca tivessem saído de lá. Na manhã seguinte, ele foi ao Ver-o-Peso. O mercado ainda estava ganhando forma quando ele chegou, antes das 7h.

Barcos atracavam nos píeres com caixas de pirarucu e açaí, e os vendedores organizavam suas barracas com a eficiência de quem faz isso desde antes de aprender a ler. O cheiro era impossível de descrever em detalhes. Peixe, ervas, fumaça de fritura, a umidade do rio. Lucas tirou fotos por quase duas horas sem parar.

Ele começava a sentir o que estava procurando, a sensação de estar dentro de algo, não observando de fora, quando a voz veio da sua esquerda.

“Essa câmera deve custar o que eu ganhei no mês passado.”

A mulher estava sentada atrás de uma barraca pela qual ele havia passado sem notar. Era diferente das outras, sem peixe ou frutas.

Potes cheios de ervas secas, pequenas garrafadas, pacotes amarrados com palha. Um perfume doce e pesado chegou até ele logo depois que ela falou. Ela tinha cabelos completamente brancos, amarrados num turbante de tecido rústico, um vestido de algodão branco com mangas até o cotovelo e, no peito, um rosário de contas pretas que contrastava com o branco de um jeito que parecia calculado.

A pele era escura e lisa, com as marcas do tempo distribuídas de uma forma que dificultava determinar a idade. Havia uma firmeza nela que não combinava com nenhuma estimativa razoável.

“Estou cobrindo o Círio”, disse Lucas.

Ela assentiu como se confirmasse algo que já sabia.

“Primeira vez em Belém?”

“Sim.”

“Dá para notar. Você fotografa a cidade como alguém que ainda não decidiu se gosta dela.”

Lucas abaixou a câmera. Havia algo na precisão do comentário que o impediu de dar a resposta automática que costumava dar a estranhos. A mulher não estava sendo rude, estava sendo precisa.

“Qual é o seu nome?” Celeste perguntou.

Ela estendeu a mão por cima da barraca, com a palma voltada para cima, não para cumprimentar, mas como se pedisse algo. Lucas olhou para a mão, depois para ela, e não encontrou motivo para recusar. Ele colocou a própria mão sobre a dela. Celeste observou as linhas da palma por cerca de 15 segundos em silêncio.

Então ela soltou a mão com a mesma naturalidade com que havia pedido.

“Você veio procurando uma coisa”, disse ela. “Mas o que vai encontrar é outra.”

“Todo mundo diz isso.”

“Todo mundo diz isso porque é verdade para todo mundo, mas com você tem um peso diferente.”

Lucas não sabia o que fazer com aquilo. Ficou parado ali, a câmera pendurada no pescoço, o cheiro de ervas flutuando em ondas suaves.

Celeste já havia se virado para arrumar um pote na prateleira, como se a conversa tivesse chegado ao seu destino. Ele estava prestes a ir embora quando ela tirou um pedaço de papel dobrado do bolso e o colocou no balcão sem olhar para ele.

“Se quiser entender o que eu disse, venha esta noite. Eu cozinho bem.”

Lucas pegou o papel.

Tinha um endereço no bairro do Jurunas escrito à mão com uma caligrafia firme e inclinada. Ele guardou no bolso e saiu sem entender muito bem o porquê. Passou a tarde vagando pela cidade velha e pelo Largo da Sé. Naquela noite, no quarto do hotel, transferiu as imagens para o computador e começou a editá-las.

Ele estava na terceira foto quando parou. Ao fundo, fora de foco, mas reconhecível, havia uma figura com um turbante branco de pé entre duas barracas, olhando na sua direção. Passou para a quarta foto, tirada de um ângulo completamente diferente, do outro lado do mercado, 40 minutos depois. A mesma figura.

Na quinta foto, a última antes de sair, com o cais ao fundo, ela estava lá de novo, parada, olhando. Lucas encarou a tela por um longo momento, então pegou o celular e digitou o endereço do Jurunas no aplicativo de mapas. O táxi deixou a cidade velha e, em 5 minutos, o perfil da cidade mudou.

Os casarões turísticos ficaram para trás. E o Jurunas apareceu com seu caráter único. Ruas estreitas, muros cobertos de samambaias, a presença constante do rio sentida como uma pressão úmida no ar. Era uma das partes mais antigas de Belém e tinha a densidade de um lugar que não precisava se apresentar.

A casa tinha uma fachada baixa, sem número visível, com um portão de ferro pintado de verde escuro e um jardim que transbordava para a calçada. Não era um jardim decorativo. As plantas eram diferentes, de folhas largas e escuras que Lucas não reconheceu. Flores minúsculas, de uma cor entre o roxo e o vermelho, que exalavam o mesmo cheiro doce e pesado da barraca no mercado.

Celeste abriu a porta antes que ele chamasse. De perto, ela era mais imponente. Havia trocado o turbante por um coque solto que deixava os cabelos brancos caírem levemente sobre os ombros. O vestido era o mesmo branco de sempre. Ela o deixou entrar sem cerimônia. O interior era um acúmulo silencioso de décadas, prateleiras com potes de ervas secas, raízes e pós.

A casa estava cheia de cores que iam do ocre ao verde musgo, fotografias desbotadas em molduras de madeira. Num canto, um altar baixo com velas brancas e amarelas, imagens de entidades que ele não conseguiu identificar, uma cuia de tucumã e flores vermelho-escuras num vaso de barro. O ar na casa era diferente do ar de fora, mais espesso, como se algo dissolvido nele estivesse ausente do ar comum. O jantar foi maniçoba.

Ela a vinha cozinhando há dias, explicou sem ser perguntada, como quem conta o tempo de preparo para que o outro entenda o peso do gesto. Veio acompanhada de arroz, farinha de mandioca e um refogado de jambu que formigou na língua de Lucas desde a primeira mordida.

“É jambu”, ela disse antes que ele pudesse perguntar. “A gente come aqui desde criança.”

Eles conversaram por quase 3 horas.

Celeste fazia perguntas com uma precisão que não parecia curiosidade, mas sim um diagnóstico. Ela perguntou sobre a separação, embora ele não tivesse mencionado nada além do trabalho. Ela perguntou sobre o que Lucas fazia com o corpo quando estava com raiva, sobre qual havia sido a última coisa em que ele havia acreditado de verdade.

Ele se surpreendeu respondendo com honestidade, como se a casa tornasse as defesas muito custosas de manter.

“Ah, os homens da sua idade vêm aqui achando que precisam de aventura”, ela disse, retirando os pratos. “Mas o que eles precisam é de uma pausa, de deixar algo ir embora.”

Depois do jantar, ela trouxe duas cuias. O líquido era escuro, espesso, com uma cor entre o marrom e o preto, e um cheiro que misturava notas ferrosas e doces.

“Chá de força”, ela disse. “Plantas de igapó misturadas com casca de cumaru. Minha mãe me ensinou isso no Marajó quando eu era menina. Na região, chamam assim porque abre o que está fechado.”

Lucas cheirou a cuia. O aroma era denso e antigo, como terra molhada depois da chuva. Ele olhou para Celeste.

Ela bebeu da dela com naturalidade, sem pressa, sem qualquer demonstração de que aquilo exigisse algum gesto especial. Ele bebeu. O efeito não foi como o do álcool, que chegava gradual e barulhento. Foi uma dissolução das bordas, uma onda que começou no peito e se expandiu para as extremidades com uma lentidão quase deliberada.

As paredes pareciam pulsar levemente. A voz de Celeste adquiriu uma ressonância que parecia vir de mais fundo que a garganta. O que se seguiu? Lucas não conseguia reconstruir em ordem. Ele lembrava das mãos dela sobre ele, firmes e frias. Ele lembrava de cânticos em algo que não era português, algo mais antigo, com sílabas que soavam como nomes de lugares que ele nunca vira num mapa.

Ele lembrava da estranha sensação da própria voz fluindo de dentro dele como água derramada, como se algo que ele carregava há anos estivesse sendo cuidadosamente removido. A última imagem que ele reteve claramente foi o teto de madeira escura do quarto e Celeste em pé ao lado da cama, cantando suavemente de olhos fechados.

Ele tentou focar no rosto dela. Havia algo errado ou certo demais, o que talvez fosse a mesma coisa. Ela parecia mais jovem do que quando ele havia chegado. Não de forma dramática, não de um jeito que ele pudesse descrever a alguém depois. Era uma tensão diferente em suas feições, uma luminosidade na pele que não estava lá no jantar, como se as horas tivessem passado ao contrário para ela enquanto progrediam normalmente para ele.

Então, apenas escuridão. Lucas acordou com a certeza de que algo estava errado antes de entender o que era. O quarto estava vazio. A luz branca da manhã de Belém entrava pelas frestas das persianas. Os lençóis estavam frios, como se mais ninguém estivesse na cama há horas. As velas haviam desaparecido e o altar que ele vira pela porta entreaberta durante a noite fora desmontado.

Apenas uma mancha de cera solidificada no chão marcava onde as velas estiveram. A voz de Lucas ao tentar chamá-la saiu errada. Não estava rouca, estava distorcida, como se algo dentro da sua boca estivesse interferindo na formação das sílabas. Ele passou a língua pelos dentes e parou. A dormência era diferente da do jambu do jantar, era mais profunda, vinha de dentro, com um peso que ele não conseguia identificar.

Ele foi até o banheiro, abriu a boca em frente ao espelho e ficou imóvel, incapaz de processar o que via. Sua língua estava escura, não a vermelhidão de uma irritação, mas uma descoloração que ia do roxo ao quase preto, em manchas irregulares que progrediam da ponta até a base. A membrana mucosa por baixo tinha áreas amolecidas com uma textura que não deveria estar ali.

E então o cheiro chegou, azedo, orgânico, úmido, o cheiro de algo morrendo dentro do seu próprio corpo. A dor começou devagar, localizada, precisa, irradiando da língua para a mandíbula e dali para a garganta, com uma insistência que crescia enquanto ele se vestia. A casa fora meticulosamente esvaziada da presença de Celeste.

A cozinha estava limpa, como se nunca tivesse sido usada, as prateleiras sem os potes de ervas, o altar desmontado, as imagens removidas. Até mesmo o cheiro espesso e vegetal que permeava o ar havia se dissipado, substituído pelo cheiro neutro de uma casa fechada. Lucas saiu para a calçada com o estômago embrulhado, abriu o aplicativo de transporte com os dedos trêmulos e esperou na sombra do muro, com a boca ligeiramente aberta, tentando respirar de um jeito que não exigisse mover a língua.

O Hospital Universitário João de Barros Barreto ficava na Avenida João de Barros. A emergência funcionava com o ritmo cansado das sextas-feiras, macas sendo reposicionadas, cheiro de antisséptico misturado com café amanhecido. Lucas chegou com a mão cobrindo a boca e tentou explicar os sintomas a uma jovem enfermeira que o escutava com crescente perplexidade.

As palavras saíam distorcidas, o esforço para articulá-las aumentando a dor a cada frase. Quando ele abriu a boca a pedido dela, a enfermeira não disse nada por um momento. Ela chamou alguém no rádio. O Dr. Renato Bessa chegou em poucos minutos. Meia-idade, óculos de aro fino, mãos de quem trabalha rápido.

Ele examinou a cavidade oral com uma lanterna. Pediu a Lucas que movesse a língua o máximo que pudesse. Apalpou a mandíbula e o pescoço com uma expressão que foi se tornando séria à medida que o exame avançava. Chamou a infectologista sem sair de perto do leito. Ela chegou em 10 minutos e examinou as áreas afetadas em silêncio por tempo demais.

Ela trocou um olhar com o Dr. Bessa, que Lucas interceptou, mas não conseguiu interpretar.

“Nós vamos interná-lo”, disse o médico. “Precisamos dos resultados do laboratório, mas o que está acontecendo exige observação imediata.”

Lucas tentou perguntar o que estava acontecendo. O som que saiu não formou a pergunta inteira. O Dr. Bessa entendeu de qualquer maneira.

“Há sinais de necrose tecidual na cavidade oral. Morte celular localizada. A velocidade com que está progredindo está além de qualquer explicação.”

Lucas encarou o teto enquanto uma enfermeira inseria um acesso intravenoso no seu braço. A palavra se instalou com a frieza de algo irrevogável: Necrose. Ele pensou no chá escuro, na cuia de barro, nas mãos frias de Celeste.

Pensou no jambu do jantar, o formigamento que ele havia atribuído à planta, que agora parecia um ensaio para o que realmente estava acontecendo. Naquela tarde, os resultados do laboratório chegaram. Nenhum agente infeccioso identificável, nenhuma toxina catalogada em qualquer protocolo padrão. A necrose havia progredido quase 2 cm desde a manhã.

Os antibióticos não estavam produzindo nenhum efeito visível. O Dr. Bessa entrou no quarto no final da tarde, fechou a porta e parou diante da cama por um momento antes de falar.

“Senhor Lucas. Nos meus 10 anos de experiência neste hospital, eu vi isso acontecer apenas uma vez.”

Ele fez uma pausa.

“E não terminou bem.”

A delegada Conceição Tavares recebeu a ligação do Dr. Bessa na manhã de sexta-feira. Ela estava na Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa da Polícia Civil do Pará há 14 anos. Conhecia Belém intimamente, tendo percorrido a cidade a todas as horas e não costumava se surpreender. O relato do médico — a necrose sem diagnóstico, a mulher mais velha, a bebida de composição desconhecida — a manteve em silêncio por um momento antes de ela pedir o endereço.

Lucas estava mais fraco do que ela esperava. Sua pele tinha uma palidez acinzentada, e sua boca permanecia levemente aberta porque fechar os lábios aumentava a dor. Conceição colocou um bloco de notas na cama e eles conversaram assim. Ela perguntava em voz alta, ele respondia por escrito, com uma urgência trêmula em sua caligrafia.

Ele descreveu Celeste em detalhes: o turbante de tecido rústico, o vestido branco, o rosário de contas pretas, a casa no Jurunas com as plantas na calçada, as prateleiras de ervas, o altar com imagens de divindades, o chá escuro e espesso, os cânticos num idioma que não era português. Conceição fotografou cada página do caderno antes de sair.

O endereço existia. O vizinho da direita, que estava estendendo roupas no varal quando Conceição chegou, disse que o nome da moradora era Celeste, que ela era muito reservada, que quase nunca recebia visitas e que havia saído antes das 6 com uma pequena mala num táxi.

“O senhor sabe para onde ela foi?” Conceição perguntou.

“Não perguntei. Ela me cumprimentou normalmente, como se fosse só mais uma viagem.”

O mandado de busca chegou em menos de 3 horas. A casa estava meticulosamente esvaziada de vestígios pessoais, sem documentos, sem fotografias, sem correspondência. A cozinha estava tão limpa que parecia esterilizada, as prateleiras de ervas vazias, marcas circulares na madeira onde os vidros repousavam há anos.

O canto do altar estava varrido. A equipe de perícia encontrou nas tábuas do assoalho naquele canto, atrás de um armário que não estava totalmente encostado na parede, uma marca de queimadura na madeira, um símbolo circular com linhas internas desenhadas com precisão, do tamanho de uma mão aberta. Nenhum dos peritos conseguiu classificá-lo. Conceição fotografou o símbolo de quatro ângulos e continuou sua busca.

De volta ao seu escritório, ela abriu os arquivos que o Dr. Bessa havia mencionado. Levou menos de uma hora para encontrar dois casos anteriores. O primeiro era de 2020, em Belém. Um homem de 29 anos internado no hospital Adventista com deterioração progressiva de tecidos na cavidade oral, sem agente infeccioso identificado. Morreu em menos de uma semana por falência múltipla de órgãos de origem indeterminada.

Uma linha nos registros, que quase foi descartada pelo investigador na época, dizia: “A vítima relatou ter passado a noite com uma mulher mais velha, identidade desconhecida, não localizada”. O segundo caso ocorreu em 2022 em São Luís, um turista de 26 anos vindo de Fortaleza, internado no hospital universitário da UFMA, com sintomas idênticos.

Ele morreu quatro dias depois. Havia uma menção a uma mulher de cabelos brancos com quem ele havia jantado, que ninguém viu novamente depois. Conceição alinhou as três fichas na mesa. Três homens jovens e três mulheres mais velhas que desapareceram antes mesmo que alguém pensasse em procurá-las. Três processos de deterioração oral que a medicina não conseguiu explicar.

E agora, Lucas Arruda, ainda vivo no hospital João de Barros Barreto, com necrose já na base da língua e os antibióticos sem apresentar efeito visível. Ela releu os dois casos anteriores, procurando pelo que havia deixado passar. No registro de 2020, encontrou uma anotação da enfermeira que havia atendido o paciente nas primeiras horas.

Uma breve observação registrada com a naturalidade de quem não sabe o que fazer com uma informação que não se encaixa em nenhum campo do formulário: “Antes de perder completamente a fala, o paciente tentou dizer algo repetidamente, a mesma palavra, várias vezes”. Conceição leu, releu, abriu o arquivo de São Luís e procurou um registro equivalente.

Estava lá também, escrito de forma ligeiramente diferente, mas era a mesma palavra. Ela encarou os dois arquivos enquanto o barulho da delegacia continuava ao seu redor, como se nada tivesse mudado. A palavra era “encantamento”. Conceição ligou para o Mestre Benedito Corrêa às 22h. Ela o conhecia há anos. Já havia recorrido a ele em casos envolvendo terreiros, disputas por herança espiritual e eventos que deixavam marcas rituais como única evidência.

Ele tinha 68 anos, era professor aposentado de antropologia da UFPA, praticante de tambor de mina há cinco décadas e exatamente o tipo de pessoa que a polícia chamava quando os arquivos oficiais ficavam sem respostas. Ele morava em Icoaraci, num apartamento com vista para o rio, e abriu a porta já vestido, como se não estivesse dormindo ou como se soubesse que ela estava a caminho.

Conceição resumiu o caso enquanto ainda estava no corredor. Ele ouviu de braços cruzados, com a expressão de quem esperava ouvir aquela descrição mais cedo ou mais tarde.

“Entre”, ele disse.

A sala era a versão maior do apartamento de um homem que passou a vida inteira acumulando livros e se recusava a pedir desculpas por isso. Prateleiras do chão ao teto, cadernos empilhados na mesa, plantas que não pareciam decorativas. Ele foi até uma das estantes, procurou por alguns segundos e tirou um caderno com capa de couro escuro e bordas gastas pelo uso.

“O que você me descreveu tem um nome”, disse ele, sentando-se à mesa e abrindo o caderno numa página marcada com uma tira de tecido vermelho. “Em algumas comunidades do Baixo Tocantins, é chamado de ‘encantamento de língua’. Nas tradições do Tambor de Mina, há termos que não vou reproduzir aqui porque têm conotações rituais. A estrutura é sempre a mesma.”

Conceição abriu o bloco de notas que carregava no bolso.

“Na encruzilhada entre a tradição do tambor maranhense e a pajelança amazônica”, Benedito continuou, “existem práticas preservadas em linhagens específicas, passadas de mulher para mulher através de gerações, quase sempre em comunidades rurais, longe de serem documentadas. O que essas práticas manipulam é o que os mestres mais velhos chamam de o poder da palavra.”

“E o que é isso exatamente?” Conceição perguntou.

“Nessas tradições, a língua não é apenas o órgão da fala. É onde se concentra o axé pessoal, a força vital que um indivíduo acumula ao longo da vida. Há um preparo feito com plantas específicas de igapó e várzea que, quando ingerido durante o contato sexual, abre o que as praticantes chamam de ‘caminho da língua’, um canal por onde a força de um flui para o outro.”

Conceição pensou em Lucas, na cuia de barro e no chá escuro.

“A vítima começa a perder a capacidade de contar o que aconteceu”, disse Benedito. “Literalmente, o órgão que foi explorado é o primeiro a se deteriorar. A abordagem médica trata como uma doença venérea de origem desconhecida, porque se concentra no resultado sem compreender a causa.”

Ele virou uma página do caderno e o empurrou na direção de Conceição. Havia uma ilustração feita à mão, um símbolo circular com linhas internas do tamanho de uma palma aberta. Conceição o reconheceu imediatamente. Era idêntico à marca queimada no piso da casa no Jurunas.

“Esse símbolo delimita o espaço ritual”, disse ele. “A praticante o traça no local onde vai trabalhar. É uma forma de fechar o ambiente para que a energia extraída não se disperse.”

“Que idade pode ter uma mulher que pratica isso há décadas?”

Benedito fechou cuidadosamente o caderno.

“Essa é a pergunta certa. Se o processo funciona como a tradição descreve, aquelas que acumulam a força vital de outros de forma sustentada envelhecem muito mais devagar. Uma mulher que aparenta ter 70 anos pode ser consideravelmente mais velha.”

“Como eu a rastreio?” Conceição perguntou.

“Não por métodos convencionais. Essas praticantes não deixam documentos para trás porque aprenderam há muito tempo que documentos as tornam vulneráveis. Elas mudam de nome, de cidade, às vezes de aparência, tanto quanto conseguem. Mas há algo que não mudam: o tipo de vítima. Um homem jovem, fisicamente saudável, passando por um momento de vulnerabilidade emocional. Essa combinação é o que produz a extração mais eficiente. E o tipo de lugar: cidades grandes, anônimas, com um fluxo constante de forasteiros. Belém, São Luís, Manaus. Cidades onde uma mulher elegante pode circular sem que ninguém lhe faça perguntas.”

Conceição guardou o bloco de notas e se levantou. Benedito continuou sentado com as mãos na mesa, encarando um ponto a meia distância entre ela e a parede.

“Uma última coisa”, ele disse antes que ela chegasse à porta. Conceição parou. “Há 22 anos, quando eu ainda lecionava na UFPA, tive um aluno de pós-graduação que estava pesquisando exatamente esse tipo de prática. Ele fez trabalho de campo em comunidades do Baixo Tocantins por quase um ano.” Benedito fez uma pausa. “Desapareceu durante a viagem de campo. Nunca foi encontrado. Nenhuma explicação, nenhum registro dele deixando o estado, nenhuma notícia depois disso.”

Conceição ficou parada na porta.

“Qual era o nome dela?”

Benedito olhou para ela.

“Celeste.”

Lucas Arruda morreu na madrugada de sábado, às 2h41, enquanto uma chuva fina caía sobre Belém com aquela persistência suave que a cidade conhecia tão bem, batendo contra os beirais do hospital com um ritmo que não se apressava nem parava. O Dr. Bessa estava no corredor quando o alarme soou.

Ele entrou no quarto, confirmou o que já sabia desde quinta-feira, e ficou parado por um momento antes de chamar a enfermeira. No prontuário médico, a causa da morte seria registrada como “falência múltipla de órgãos de origem indeterminada”. A mesma frase que havia concluído os dois casos anteriores. Conceição recebeu a notificação às 3 da manhã.

Ela estava acordada. Havia revisado os arquivos até depois da meia-noite e depois permanecido naquele estado intermediário entre o sono e o pensamento, onde os casos difíceis a mantinham ocupada por dias. Ela leu a mensagem, colocou o celular na mesa e ficou olhando para o teto por um longo tempo.

Nos dias seguintes, ela montou o dossiê completo. Três vítimas confirmadas em Belém e São Luís. Os intervalos entre os casos estavam diminuindo: 3 anos entre o primeiro e o segundo, dois anos entre o segundo e o terceiro, e 18 meses entre o terceiro e Lucas. Um registro de CPF vinculado ao nome “Celeste” levava a um endereço que não existia no sistema.

Uma conta bancária aberta há 3 anos numa agência no centro de Belém, com depósitos regulares em dinheiro e um saque total do saldo 48 horas antes de Lucas dar entrada no hospital. E o sistema de câmeras de segurança no setor do Ver-o-Peso, onde a barraca de ervas funcionava, estava com defeito há semanas. Conceição verificou.

O problema começou exatamente no dia em que Celeste montou a barraca. Ela enviou o dossiê para a Divisão de Investigações Especiais com um pedido formal de investigação. A resposta chegou em três dias. Os casos haviam sido classificados clinicamente como de causas indeterminadas, sem autor identificado, sem provas periciais conclusivas e sem testemunhas capazes de depor.

A solicitação seria incorporada ao banco de dados de incidentes não resolvidos. Conceição leu a resposta duas vezes, imprimiu-a e guardou-a no seu arquivo pessoal em casa, separada dos sistemas oficiais. Ela ligou para o Mestre Benedito naquela noite e disse, sem preâmbulos, que Lucas havia morrido. Benedito ficou em silêncio por um momento.

“Os intervalos que você me descreveu estão ficando mais curtos”, ele disse. “O que ela acumula dura menos do que costumava durar. Ela vai precisar do próximo em breve.”

“Para onde ela foi depois de Belém?” Conceição perguntou.

“Onde você pode encontrar homens jovens sozinhos e ninguém fazendo perguntas difíceis? O que não é difícil de encontrar neste país.”

Conceição olhou para o mapa da região norte do Brasil, preso na parede do escritório, com marcações vermelhas em Belém e São Luís. Pensou nos intervalos. Pensou no estudante que desapareceu há 22 anos, que havia pesquisado o encantamento de língua nas comunidades do Baixo Tocantins e nunca retornou. Pensou em quantas identidades uma mulher poderia construir ao longo de décadas, quantas barracas de ervas em quantos mercados em quantas cidades, quantos homens jovens chegavam procurando por algo que não sabiam nomear.

Manaus? Santarém? Ou de volta a São Luís em algum momento no futuro. Ela conhecia o ritmo certo para não ser associada a nada. Naquela noite, ao fechar a pasta de Lucas Arruda para guardá-la com os outros casos que nenhuma unidade oficial queria manter abertos, Conceição tomou uma decisão que não estava em nenhum protocolo.

Ela manteria o dossiê atualizado em seus próprios arquivos, monitoraria os registros hospitalares das cidades do norte em busca do padrão: vítima do sexo masculino, jovem, deterioração oral de causa indeterminada, mulher mais velha desaparecida. Na próxima vez que esse padrão aparecesse, ela estaria pronta antes que o prontuário médico fosse fechado. Lá fora, a chuva havia parado.

Em algum lugar, num ônibus noturno para Santarém, numa lancha descendo o Rio Tocantins, num terminal de embarque rumo a uma cidade que Conceição ainda não havia marcado no mapa. Uma mulher com cabelos completamente brancos e um rosário de contas pretas caminhava para o seu próximo encontro, com a mesma economia de movimento de sempre, com a mesma certeza de que não haveria ninguém esperando.

Conceição abriu o computador, criou uma busca nos registros hospitalares das cidades do norte, usando os critérios que sabia de cor: necrose oral, causa indeterminada, vítima do sexo masculino, de 20 a 35 anos. Antes de pressionar “enter”, ela notou que o sistema já havia retornado um resultado automático de uma busca anterior que ela havia configurado dias antes. O registro era de 11 horas atrás, numa UPA em Santarém. Ela clicou. Enquanto o arquivo carregava, ela só conseguia pensar em uma coisa:

“Eu não vou chegar tarde desta vez.”