
Na tarde de 1º de março de 2016, o Café de Flore, um estabelecimento pequeno e charmoso localizado perto da Wanda Plaza, no distrito de Baoshan, em Shanghai, vivia um dia aparentemente comum. Clientes conversavam baixo, o aroma de café fresco misturava-se ao cheiro doce de waffles e bolos, e os funcionários atendiam com a rotina habitual de qualquer cafeteria de bairro. Ninguém poderia imaginar que, em menos de uma hora, aquele lugar pacato se transformaria em cenário de um dos casos mais controversos e debatidos da história recente dos idols chineses.
Por volta das 19h, as portas se abriram e entrou uma jovem extremamente bonita, vestida com elegância: jaqueta puffer, saia e meias-calças delicadas que lhe davam um ar de boneca viva. Ao seu lado, uma amiga. A garota era Tang Anqi, conhecida como Tani entre os fãs, membro do grupo SNH48, uma das maiores formações de idols da China na época, inspirada no fenômeno japonês AKB48. Mesmo não sendo a mais famosa do grupo, que chegava a ter dezenas de integrantes rotativos, Tang Anqi era reconhecida nas ruas. Sua beleza clássica, traços delicados e presença de palco conquistavam uma base fiel de admiradores.
As duas subiram diretamente para o segundo andar e escolheram uma mesa específica no canto. Por coincidência — ou não —, era a única mesa de todo o estabelecimento que não estava sob o alcance das câmeras de segurança. A câmera instalada no andar superior ficava posicionada exatamente acima daquele ponto, deixando um ponto cego perfeito. Enquanto Tang Anqi permanecia sentada, a amiga desceu para fazer o pedido: dois cafés, um waffle e um pedaço de bolo de chocolate com recheio generoso.
Minutos depois, o garçom subiu para entregar os itens. Foi nesse momento que ele notou o mau humor evidente de Tang Anqi. Segundo o funcionário, a idol olhou para o bolo e comentou, com tom de desdém: “Nossa, que bolo feio”. Fez ainda outras observações desagradáveis sobre o atendimento. A amiga, visivelmente constrangida, pediu desculpas ao garçom: “Desculpe, ela não está tendo um bom dia, não liga pra isso”. O funcionário deixou as duas sozinhas para conversarem em particular e voltou a atender os clientes no andar de baixo.
O que aconteceu nos aproximadamente 20 minutos seguintes só foi revelado pelo som que invadiu o café inteiro. De repente, gritos desesperados ecoaram do segundo andar. Em seguida, uma figura humana completamente engolida pelas chamas desceu correndo as escadas, debatendo-se violentamente na tentativa de apagar o fogo que consumia sua cabeça, tronco, braços e pernas. Os clientes só perceberam que se tratava de uma pessoa porque os gritos eram lancinantes e o corpo se movia em agonia. Era Tang Anqi.
O pânico foi imediato. Um entregador que acabara de retornar de uma entrega agiu rápido: correu até a despensa, pegou baldes de água e, junto com outros funcionários, jogou várias vezes o líquido sobre a jovem. Foram necessários três ou quatro baldes cheios para controlar as chamas em menos de um minuto. Às 19h40, o gerente do café ligou simultaneamente para a ambulância e para a polícia. Tang Anqi foi identificada pelos clientes que a viram entrar minutos antes — pelas roupas e pelo que restava dos cabelos. Ela ainda estava viva, deitada no chão, chorando baixinho e pedindo ajuda.
Do lado de fora, uma multidão começou a se formar na calçada. Pessoas que passavam pela rua paravam, curiosas ou querendo ajudar, enquanto funcionários tentavam bloquear a entrada para evitar mais caos. A cena era de completa desordem. A idol foi levada às pressas para o Hospital Changhai, onde deu entrada na UTI com queimaduras graves em pelo menos 80% do corpo. O quadro era extremamente crítico.
Horas depois, a agência responsável pela carreira de Tang Anqi publicou um comunicado oficial nas redes sociais informando que a jovem havia sofrido um “acidente grave” e estava internada. O texto pedia privacidade e orações dos fãs. Foi só então que o público em geral soube da dimensão do que havia acontecido.
Para entender melhor o contexto, é importante lembrar como funcionava o SNH48. Assim como o AKB48 japonês, criado em 2005 com o conceito de “idols que você pode conhecer pessoalmente”, o grupo chinês adotou um sistema de muitas integrantes, rotatividade constante e proximidade com o público. Em seu auge, o AKB48 chegou a ter 134 membros. O SNH48 seguia linha semelhante, com treinamentos intensos de dança, canto e atuação. Tang Anqi, nascida em 1992 na província de Hubei, sonhava com a carreira artística desde criança. Em 2013, quando o projeto chinês foi lançado, ela se candidatou e entrou como trainee. Seu esforço foi recompensado: em novembro daquele ano, estreou em um subgrupo e gravou músicas para álbuns. Não era a mais popular, mas tinha fãs leais que admiravam sua dedicação e beleza.
Quando a notícia do acidente se espalhou, os fãs entraram em ação. Muitos foram ao hospital doar sangue. Colegas do grupo também se manifestaram publicamente. Uma delas, Jiang Yuxin (ou nomes semelhantes mencionados em relatos), tentou doar sangue três vezes, mas foi recusada por razões médicas. A agência anunciou que arcaria com todos os custos hospitalares, o que sugeria que a família de Tang Anqi tinha condições financeiras limitadas.
Enquanto a idol lutava pela vida na UTI, a polícia iniciava as investigações. A primeira dificuldade: não havia imagens das câmeras de segurança do exato local da mesa. Isso chamou atenção imediatamente. Seria coincidência a escolha daquela mesa ou algo planejado? Sem vídeos, os investigadores dependeram de depoimentos de funcionários e clientes.
Várias pessoas relataram ter ouvido uma discussão acalorada no andar de cima pouco antes dos gritos. As vozes altas indicavam uma briga entre Tang Anqi e a amiga. O garçom que serviu a mesa mencionou ainda que, no momento do pedido, Tang Anqi brincava com um isqueiro, acendendo e apagando repetidamente, embora ninguém estivesse fumando nem houvesse velas de aniversário.
A versão oficial da polícia foi de acidente: o isqueiro teria vazado fluido inflamável sobre as roupas de Tang Anqi — especialmente a jaqueta puffer e as meias-calças finas —, e ela teria se incendiado acidentalmente ao brincar com o fogo. A jaqueta, feita de material sintético altamente inflamável, teria facilitado a propagação rápida das chamas.
Essa explicação, no entanto, não convenceu os fãs. Experimentos realizados por programas de TV chineses e usuários da internet tentaram reproduzir a situação usando roupas semelhantes. Resultados mostraram que as meias-calças demoravam a pegar fogo mesmo próximas à chama, e a jaqueta, mesmo com fluido derramado, queimava apenas na parte atingida, sendo fácil de apagar ao ser retirada e pisoteada. O fogo descrito nas testemunhas — intenso, que consumiu 80% do corpo em segundos — parecia desproporcional ao que um simples isqueiro poderia causar. Comparações foram feitas com outros casos de queimaduras, como o de uma apresentadora taiwanesa que sofreu 54% de queimaduras em acidente com efeitos especiais explosivos, e o contraste gerou ainda mais dúvidas.
Na internet, teorias proliferaram rapidamente. Uma das mais comentadas apontava que a “amiga” teria levado um líquido inflamável — possivelmente querosene — e, durante a discussão, jogado sobre Tang Anqi antes de acender. Outros usuários especularam que a companheira seria uma fã obsessiva, possivelmente com atração romântica pela idol (usando o termo “T” na gíria chinesa para lésbica mais masculina). Chegaram até a circular supostas informações sobre o endereço e perfis dessa pessoa.
Uma teoria ganhou força especial: a amiga seria uma grande fã, líder de um dos maiores fã-clubes de Tang Anqi, apelidada online de “Miyamoto” (uma japonesa ou chinesa fã dedicada). O detalhe explosivo: o pai dessa suposta fã ocuparia cargo de alto escalão na polícia de Shanghai, responsável por auditoria interna e investigação de corrupção dentro da própria força. Isso explicaria, segundo os teóricos, por que a identidade da amiga nunca foi revelada oficialmente e por que o caso foi rapidamente classificado como acidente.
Tang Anqi passou por múltiplas cirurgias e enxertos de pele. Após semanas na UTI, sobreviveu milagrosamente. Em setembro de 2016, seis meses após o incidente, ela mesma postou uma declaração esclarecendo os fatos: disse que tudo foi um acidente, que brincava com o isqueiro, foi descuidada e acabou se incendiando. Agradeceu aos fãs pelas doações de sangue, mensagens de apoio e orações, afirmando amar a todos e estar eternamente grata.
Muitos fãs, no entanto, continuaram céticos. Por que a amiga nunca foi identificada publicamente? Por que a polícia fechou o caso tão rápido como acidente? Suspeitas de que Tang Anqi teria sido pressionada a manter a versão oficial circularam amplamente, especialmente diante do suposto poder da família envolvida.
Em 2022, um usuário de rede social chinesa publicou uma história fictícia que seguia detalhes impressionantemente semelhantes: uma idol queimada intencionalmente por uma fã obsessiva com relacionamento romântico, cuja família influente na polícia abafou o caso. O pai do personagem seria removido do cargo por corrupção pouco tempo depois — coincidência que fãs relacionaram a um caso real de um chefe de polícia demitido na época.
Mais recentemente, relatos indicam que Tang Anqi teria voltado a criar conteúdo online como VTuber — criadora que usa avatar virtual para manter anonimato —, embora não haja confirmação 100% de que seja ela. Seus fãs torcem para que esteja bem, reconstruindo a vida longe dos holofotes.
O caso de Tang Anqi continua sendo debatido em fóruns, Reddit e redes chinesas. Para uns, foi um trágico acidente causado por descuido. Para outros, um ato de violência abafado por influência. O que permanece inegável é o impacto: uma jovem idol cheia de sonhos viu sua vida mudar para sempre em poucos minutos dentro de um café comum.
O mistério da mesa sem câmera, a discussão ouvida pelos clientes, a rapidez das chamas, o silêncio sobre a identidade da amiga e as teorias que nunca foram completamente descartadas alimentam até hoje a curiosidade pública. Tang Anqi sobreviveu, mas o enigma do que realmente aconteceu naquela tarde de março de 2016 ainda queima na memória coletiva dos fãs de idols chineses.