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Pai e filha mantinham relação proibida dentro de casa: o plano de vingança que chocou Canindé

No sertão do Ceará, a cidade de Canindé é mundialmente conhecida pela devoção religiosa, especialmente pelo Santuário de São Francisco das Chagas, que atrai milhares de peregrinos todos os anos. No entanto, em 2021, a cidade parou por um motivo completamente diferente. Não foi uma festa religiosa ou uma romaria que mobilizou a população, mas um caso familiar tão chocante que repercutiu em todo o Brasil. No bairro da Palestina, uma casa comum escondia segredos que iam muito além do que os vizinhos poderiam imaginar. O que parecia uma família normal escondia uma rede de violência, abuso psicológico e um relacionamento proibido que culminou em uma tentativa de homicídio planejada.

O protagonista masculino dessa história é Jaelson Camelo de Oliveira, que tinha 39 anos na época dos fatos. Antes de tudo vir à tona, Jaelson tinha um histórico controverso. Ele chegou a ser conselheiro tutelar da cidade, cargo de grande responsabilidade destinado a proteger crianças e adolescentes. Porém, foi expulso do cargo após retirar uma criança da guarda legal da mãe e entregá-la ao pai, que era seu amigo pessoal, contrariando decisão judicial. Esse episódio já revelava um homem disposto a ignorar a lei quando lhe convinha.

Sua companheira era Maria Aparecida Barroso de Souza, de 36 anos, que trabalhava como agente de microcrédito. Aos olhos da comunidade, ela era uma mulher trabalhadora, respeitada e dedicada. O casal vivia com uma jovem, Ana (nome fictício para preservar a identidade da vítima), filha de Jaelson de um relacionamento anterior, e uma criança pequena. Para quem observava de fora, tratava-se de uma família comum no interior do Ceará.

A história de Ana com o pai começou de forma conturbada. Sua mãe lutou durante anos para que Jaelson reconhecesse a paternidade. Quando Ana tinha 10 anos, a Justiça determinou a realização de exame de DNA, que confirmou a paternidade. A partir desse momento, Jaelson mudou radicalmente o comportamento em relação à filha. Ele passou a pressionar insistentemente para que a menina fosse morar com ele. A mãe de Ana resistiu por muito tempo, alegando não confiar na índole do ex-companheiro, mas aos 12 anos da jovem, acabou cedendo diante das ameaças e da insistência constante.

Foi dentro dessa casa, no bairro da Palestina, que o impensável aconteceu. Segundo relatos posteriores, Jaelson e Ana mantinham um relacionamento íntimo. A própria Ana, em depoimento, confirmaria posteriormente que o relacionamento teria começado quando ela já tinha 18 anos, versão também sustentada por Jaelson. Porém, uma entrevista concedida por Ana em 2021 gerou controvérsia ao sugerir que o relacionamento poderia ter iniciado quando ela ainda era menor de idade.

Maria Aparecida, a esposa de Jaelson, vivia um inferno doméstico. Em depoimento à polícia, ela descreveu anos de violência física e psicológica extrema. Relatou que Jaelson a ameaçava constantemente, dizendo que a mataria caso tentasse deixá-lo ou denunciá-lo. O medo era tão grande que ela chegou a pensar em tirar a própria vida. Foi nesse contexto de desespero que ela conheceu Antônio Erilson da Silva Lopes, de 26 anos, que mantinha um relacionamento extraconjugal com Ana.

Erilson tornou-se a peça-chave na tragédia. Durante um encontro íntimo a três, organizado pela própria Ana, ele descobriu, ao acender a luz, que o outro homem era Jaelson, o pai dela. O choque foi devastador. Profundamente perturbado, Erilson decidiu contar tudo a Maria Aparecida. A revelação foi a gota d’água para a mulher, que já vivia sob constante terror. Juntos, eles planejaram a morte de Jaelson.

Maria Aparecida teria sido a idealizadora do plano. Erilson atuou como intermediário, contratando dois executores: Israel de Souza Silva, de 20 anos, e um adolescente de 17 anos. O valor combinado pelo crime girou entre R$ 3.000 e R$ 5.000. No dia 29 de junho de 2021, Jaelson consertava o portão de casa quando foi abordado pelos atiradores. Vários disparos foram efetuados. Ana, ao tentar proteger o pai, foi atingida por uma bala que ricocheteou e acertou seu olho, causando a perda parcial da visão.

Jaelson foi gravemente ferido no abdômen e transferido para Fortaleza, onde ficou internado na UTI do Instituto Dr. José Frota. Os executores foram presos em flagrante. A investigação do delegado Daniel Aragão revelou rapidamente os mandantes. As mensagens e conversas nos celulares foram determinantes. Tanto Maria Aparecida quanto Erilson confessaram o planejamento do crime.

A prisão dos dois, em setembro de 2021, chocou a cidade. O motivo — o relacionamento incestuoso entre pai e filha — dividiu Canindé. Grande parte da população simpatizava com Maria Aparecida, entendendo seu ato como uma reação extrema a anos de sofrimento e humilhação. Já a família de Jaelson exigia que ela respondesse pelo crime.

Maria Aparecida conseguiu liberdade provisória, argumentando bons antecedentes, residência fixa e a necessidade de cuidar do filho pequeno. Erilson, porém, permaneceu preso por mais tempo, o que gerou revolta de sua família. Os executores tiveram destinos menos divulgados pela imprensa.

O caso ganhou ainda mais complexidade quando o delegado passou a investigar se Ana era menor de idade quando o relacionamento com o pai começou. Tanto Jaelson quanto Ana afirmaram que tudo começou após os 18 anos dela. Porém, uma entrevista de Ana sugeriu que o relacionamento tinha três anos, o que colocaria o início quando ela tinha 17 anos. Mesmo assim, como o incesto entre adultos não é tipificado como crime no Brasil, não foi possível enquadrar Jaelson criminalmente com base apenas nos depoimentos.

Jaelson deixou Canindé após se recuperar. Pouco se sabe sobre seu paradeiro atual ou sobre o relacionamento com Ana. Até o momento, não houve julgamento definitivo dos envolvidos no crime de tentativa de homicídio.

O caso de Canindé expõe as complexidades das relações familiares, os limites entre o moral e o jurídico, e a dor de mulheres vítimas de violência doméstica que veem poucas saídas para seu sofrimento. Mostra também como uma cidade marcada pela fé reage quando o impensável acontece dentro de uma casa aparentemente normal.

A tragédia deixou marcas profundas: uma jovem que perdeu a visão de um olho, um homem gravemente ferido, uma mulher que trocou anos de terror por uma acusação de homicídio, e uma cidade que precisou confrontar seus próprios valores e julgamentos. Anos depois, o caso ainda gera debates sobre justiça, moralidade e os ciclos de violência que muitas vezes permanecem invisíveis atrás das portas de casas comuns.