
O cheiro de churrasco na casa do meu irmão Gilmar era de dar água na boca. Picanha, maminha, cerveja importada gelada. A família toda estava reunida no domingo rindo alto. Eu, Sebastião, estava sentado na ponta da mesa com um prato vazio na frente e um nó na garganta. Eu vestia a minha melhor camisa, mas ela já estava poída no colarinho. Minhas mãos queimadas do forno da padaria artesanal que eu tentava manter na garagem de casa tremiam. Esperei o momento em que todos estavam servidos para falar. Gilmar, Sueli, minha voz saiu baixa. Eu precisava falar com vocês. É urgente.
Gilmar limpou a gordura da boca com as costas da mão. Fala logo, Tião. Se for para pedir dinheiro emprestado de novo para comprar farinha, já aviso que o caixa tá fechado. Sueli riu, ajeitando o colar de ouro. É, Tião, você precisa aprender a administrar melhor seus pãezinhos. Deus ajuda quem cedo madruga, mas quem não tem competência não se estabelece. Respirei fundo. Não é farinha, é saúde. O médico disse que eu estou com catarata avançada. Se eu não operar em duas semanas, posso perder a visão do olho direito. A cirurgia custa R$ 5.000. O SUS vai demorar meses e eu não posso esperar.
Olhei nos olhos deles, meus irmãos, sangue do meu sangue. Gilmar tinha acabado de trocar de caminhonete. Sueli tinha voltado da Europa semana passada. R$ 5.000 para eles era troco de pinga. Eu pago assim que puder. Completei. Juro. Gilmar soltou uma gargalhada seca. 5.000. Tião, você acha que dinheiro nasce em árvore? Eu tenho funcionários para pagar, tenho impostos, não posso descapitalizar a empresa por causa do seu olho, mas Gilmar. Você comprou uma lancha mês passado. Eu disse, isso é investimento em lazer, é diferente. Ele gritou.
Virei para a Suellei. E você, mana? Sueli fez sinal da cruz. Ai, Tião, me perdoa. Todo o meu dinheiro tá aplicado num fundo imobiliário que não pode mexer. E outra, doenças são provações. Talvez você precise orar mais em vez de pedir dinheiro. Eles voltaram a comer a picanha, ignorando meu desespero. Eu me levantei. Tudo bem. Obrigado pela provação. Saí da casa do meu irmão com a certeza mais dolorosa da minha vida. Eu estava sozinho.
O que eles não sabiam é que a minha visão estava perfeita. O laudo médico que eu mostrei era falso, uma montagem que pedi para um amigo fazer. E o que eles nem sonhavam é que no bolso daquela camisa poída estava o comprovante de saque de 40 milhões da Mega Cena, que eu já tinha depositado numa conta sigilosa três dias antes. Eu pedi 5.000. Eles me negaram a visão. Agora eles iam ver quem enxergava melhor o futuro. Essa história mostra que às vezes é preciso se fingir de cego para ver quem realmente está ao seu lado.
Meu nome é Sebastião. Sou padeiro desde os 15 anos. Amo o que faço. O cheiro do pão saindo do forno às 5 da manhã é a minha vida. Sempre fui o irmão pobre. O Gilmar enriqueceu com postos de gasolina. Dizem as más línguas que adulterando o combustível no começo. Mas quem sou eu para julgar? A Sueli casou com um fazendeiro e vive de renda. Eu fiquei cuidando dos nossos pais até eles falecerem. Gastei minhas economias com remédios e cuidadores, enquanto Gilmar e Sueli só apareciam no Natal para comer e criticar. Quando nossos pais se foram, fiquei com a casa velha da família que estava caindo aos pedaços e eles ficaram com os terrenos valorizados. Divisão justa, disseram eles, já que você já mora na casa. Eu aceitei para não brigar.
Continuei minha vida simples. Vendia pães caseiros, roscas e bolos na vizinhança. Mas a situação estava difícil. O forno industrial quebrou, a farinha aumentou. Eu estava vivendo no limite. Foi num dia de desespero depois de queimar uma fornada inteira por causa do termostato quebrado que joguei na loteria. Usei os números da data de nascimento da minha mãe e o número da casa velha. Ganhei 40 milhões. Quando descobri, sentei no chão da cozinha sujo de farinha e chorei por duas horas. A primeira coisa que pensei foi: “Vou reformar a casa do Gilmar, vou pagar uma viagem para Sueli, vou ajudar todo mundo”.
Eu ainda tinha o coração bobo, mas na mesma noite recebi uma mensagem da Sueli no grupo da família. Tião, vê se corta a grama da casa da mãe. Passei lá na frente e tá um matagal. Desvaloriza o bairro. A gente não tem tempo para isso. Você que não faz nada o dia todo podia cuidar. Aquilo me feriu. Eu trabalhava 14 horas por dia amassando pão. Para ela eu era um vagabundo. Foi aí que decidi. Não vou contar. O dinheiro pode ser uma bênção ou uma maldição. Se eu contasse agora, eles virariam meus melhores amigos. Eu queria saber se eles me amavam pelo Sebastião ou pelo saldo bancário.
Decidi criar o teste da catarata. Era uma mentira plausível. Eu já usava óculos fundo de garrafa, que na verdade eram só para leitura, mas eu fingia que não enxergava bem de longe. Preparei o terreno. Durante uma semana comecei a esbarrar nas coisas, a pedir para lerem mensagens para mim. Tião tá ficando cego, comentou Gilmar no almoço. Velhice é uma droga. Ninguém ofereceu ajuda. Ninguém disse: “Vamos no oftalmologista”. Só constataram o fato como se eu fosse um móvel quebrando. Fui validar o prêmio em outra cidade para não levantar suspeitas. O gerente do banco, Sr. Otávio, foi a única alma viva que soube. Seu Sebastião, o senhor quer investir tudo? Quero, Senhor Otávio, mas deixa 50.000 na conta corrente e me arruma um extrato falso, zerado para eu levar no bolso.
Voltei para casa com a conta recheada e o coração blindado. Chegou o domingo do churrasco. Eu fui com a esperança. Juro que fui lá no fundo. Eu queria que o Gilmar dissesse: “Claro, irmão. Toma aqui o dinheiro, opera essa vista”. Eu queria que a Sueli dissesse: “Vamos orar, mas vamos pagar também”. Se eles tivessem me emprestado os 5.000, eu teria dado 5 milhões para cada um na semana seguinte. Mas a ganância deles me poupou R$ 10 milhões. Saí da casa do Gilmar naquele domingo me sentindo um lixo, não pela recusa do dinheiro, mas pelo desprezo. Investimento em lazer. Minha visão valia menos que o lazer dele.
Caminhei pelas ruas do meu bairro simples, chutando pedrinhas. Passei em frente à casa da dona Jura. Dona Jura era uma senhora de 60 anos, viúva, que vendia marmitas para os peões das obras vizinhas. Ela acordava às 4 da manhã, igual a mim. Ela estava no portão lavando a calçada. Oi, Tião. Que cara é essa, homem? Parece que comeu pão amanhecido. Eu parei, olhei para ela. Oi, Jura. É problemas. Problema de dinheiro ou de saúde? Ela perguntou desligando a mangueira. Os dois. Tô precisando operar à vista, meus irmãos… bem, eles não puderam ajudar.
Dona Jura secou as mãos no avental. Quanto é, Tião? 5.000. Ela assobiou. É dinheiro, hein? Mas vem cá, entra. Vamos tomar um café. Tem bolo de fubá quentinho. Entrei na cozinha dela. Era simples, mas limpíssima. Cheirava a cravo e canela. Sentamos. Ela me serviu o café. Tião, eu não tenho 5.000, disse ela olhando nos meus olhos. Você sabe, a venda de marmita é apertada, mas eu tenho uma economia que eu estava guardando para trocar o fogão industrial que tá vazando gás. Ela levantou, foi até um pote de arroz no armário e tirou um maço de notas enrolado num elástico. Aqui tem R$ 1.200. É tudo o que eu tenho guardado. Leva.
Eu gelei. Jura? Não é pro seu fogão. Você trabalha com isso. O fogão eu remendo com durepoxi, Tião. O olho a gente não remenda. Se você ficar cego, como vai fazer seus pães? Pega. É emprestado, tá? Quando você puder, me devolve em pão. Ela colocou o dinheiro na minha mão. Mãos calejadas iguais às minhas. E se precisar do resto, a gente faz uma rifa no bairro. Eu faço feijoada, a gente vende, a gente dá um jeito. Ninguém solta a mão de ninguém aqui. Eu segurei as lágrimas. Aquela mulher que não tinha parentesco nenhum comigo estava me dando suas economias de vida, sacrificando sua ferramenta de trabalho para me salvar, enquanto meu irmão milionário me negou o troco.
Jura, eu não posso aceitar. Vai aceitar sim. Deixa de orgulho. Ela brigou, enfiando o dinheiro no meu bolso. Vai lá marcar esse médico amanhã. Eu aceitei o dinheiro, não porque precisasse, mas porque eu precisava sentir aquele ato de amor. Aquele dinheiro tinha uma energia diferente, pesava mais que os 40 milhões. Obrigado, Jura. Você não sabe o que isso significa. Sei sim, significa que a gente tá junto. Voltei para casa e guardei os R$ 1.200 da dona Jura num envelope separado. Escrevi nele: “Sagrado”.
Na semana seguinte, continuei meu teatro. Liguei para o Gilmar. Gilmar, consegui uma parte. Uma vizinha me emprestou. Faltam 3.800. Você não tem mesmo como ajudar? Tião, já falei! Ele gritou. Para de mendigar. Vende aquele seu carro velho, vende o forno. Se vira. Liguei para Sueli. Sueli, a vizinha ajudou. Que bom. Deus proveu através da vizinha, viu? Não precisou de mim. Glória a Deus. E desligou. Eles eram incorrigíveis. Decidi que era hora de agir. Fui ao banco, saquei dinheiro, contratei uma empresa de reformas de outra cidade.
Cheguei na casa da dona Jura numa terça-feira à tarde. Jura? Preciso te devolver o dinheiro. Já? Mas você operou? Operei um milagre. Fiquei curado de graça. Sorri. Entreguei o envelope com os 1.200 dela e entreguei outro envelope. E isso aqui é o juro. Ela abriu. Tinha um cheque de R$ 500.000. Dona Jura olhou para o cheque. Seus olhos tentavam focar nos zeros. Tião, isso é falso? É pegadinha. 500.000? Não é falso, Jura. É real. Eu ganhei na loteria 40 milhões. Ela caiu sentada na cadeira. O copo de água que estava na mesa tremeu. Misericórdia. E você tava pedindo dinheiro por quê?
Para saber quem merecia estar comigo na bonança. Meus irmãos me deram as costas. Você me deu seu fogão. Me agachei na frente dela. Esse cheque é para você comprar a casa própria, aposentar as panelas, se quiser viajar. É seu. Ela começou a chorar. Chorou tanto que molhou meu ombro. Tião, eu nunca vi tanto dinheiro. Eu só queria te ajudar. Eu sei. Por isso você merece. Mas Tião, e o fogão? Ela perguntou inocente. Eu ri. Esquece o fogão, Jura. Eu comprei o prédio da padaria antiga do centro, aquela grande na esquina. Vou reabrir e quero você de sócia. Você entra com as marmitas e os salgados. Eu entro com os pães e a gente contrata gente para cozinhar para nós. Você vai ser a patroa.
A notícia da sorte da dona Jura vazou rápido. Cidade pequena é assim. Mas eu pedi segredo sobre a origem exata e sobre o meu prêmio total. Dissemos que eu tinha recebido uma herança de um parente distante e que investi no negócio dela. Meus irmãos ouviram boatos de que eu estava com dinheiro, mas acharam que era mentira ou pouca coisa. “Deve ter vendido a casa dos pais para gastar”, disse Gilmar para um primo. Decidi que era hora da revelação oficial. Convidei Gilmar e Sueli para um jantar de agradecimento. Agradecimento pelo quê? perguntou Sueli ao telefone. Você operou? Operei, graças a Deus e a ajuda que recebi. Quero comemorar com a família.
Reservei uma mesa no Palácio de Cristal, o restaurante mais caro da região. Gilmar ficou curioso. Você vai pagar jantar no palácio? Tá podendo, hein, Ceguinho. Vendi umas coisas. Quero reunir a família. Eles foram? Claro que foram. Comida de graça em lugar chique. Eles não perdiam. Chegaram lá vestidos como reis. Gilmar com um relógio dourado enorme, Sueli com um vestido de paetês. Eu estava lá esperando. Vestia um terno azul marinho feito sob medida, que escondi no carro, sapatos italianos e um relógio discreto, mas que custava mais que o carro do Gilmar. Quando me viram, pararam na entrada. Tião! Gilmar franziu a testa. De quem você roubou esse terno?
Boa noite, irmãos. Sentem-se. Dona Jura estava ao meu lado, elegantíssima, com cabelo feito e maquiagem. “O que a marmiteira tá fazendo aqui?”, sussurrou Sueli com nojo. “A dona Jura é minha convidada de honra”, respondi firme. “E minha sócia”. “Sócia de quê? De vender pão amanhecido?” Zombou Gilmar. O garçom serviu champanhe. Um brinde, eu disse, levantando a taça. À visão. À visão, repetiu Sueli. Sim, a capacidade de enxergar quem é quem. Tirei do bolso dois envelopes. Gilmar cresceu o olho. O que é isso? Dinheiro? Não, são as notas fiscais. Coloquei na mesa: nota fiscal da minha nova casa, 3 milhões. Nota fiscal da reforma da padaria, 1 milhão. Nota fiscal do cheque que dei para a dona Jura, 500.000.
Eles pegaram os papéis trêmulos. Tião, de onde saiu isso? Gilmar suava. Da Mega Cena. 40 milhões. Ganhei na semana antes de pedir os 5.000 para vocês. A reação de Gilmar e Sueli foi um estudo antropológico sobre a ganância humana. Primeiro o choque, depois a negação e, finalmente, a bajulação desesperada. Sueli quase engasgou com o champanhe. 40 milhões. Tião, meu irmãozinho querido, por que você não contou antes? A gente teria feito uma festa. Eu não contei porque estava fazendo um teste, respondi cortando um pedaço de filé mignon. Eu disse que ia ficar cego. Pedi R$ 5.000. Vocês tinham, vocês esbanjavam e me negaram.
Gilmar tentou consertar, gaguejando. Veja bem, Tião, não foi negar. Foi uma lição. Eu queria que você aprendesse a se virar, a lutar. Foi pro seu bem. Se eu te desse o dinheiro fácil, você não ia dar valor. Ah, foi uma lição pedagógica. Ri ironicamente. Então eu aprendi. Aprendi que quando a gente tá na pior, sangue não vale nada. O que vale é coração. Apontei para a dona Jura. Essa mulher aqui me deu as economias da vida dela. Ela ia ficar sem fogão para me dar a visão. Por isso ela ganhou meio milhão e metade da minha empresa. Sueli olhou para a dona Jura com um ódio mortal misturado com inveja.
Você deu meio milhão pra vizinha, Tião. Isso é insanidade. Ela é uma estranha. Nós somos sua família. Você tem obrigação moral com a gente. Obrigação moral? Bati a mão na mesa, fazendo os talheres tintarem. Onde estava a obrigação moral de vocês quando nossos pais estavam doentes e eu cuidava sozinho? Onde estava quando eu pedi ajuda para não ficar cego? Mas a gente pode compensar agora, disse Gilmar desesperado. Tião, eu tenho ótimas ideias de investimento. Podemos ampliar os postos de gasolina. Você entra com o capital, eu entro com a gestão. Somos irmãos, cara. Sangue é mais grosso que água.
Sangue é mais grosso que água, mas o dinheiro da dona Jura foi mais grosso que o de vocês. Respondi: “Meu dinheiro já está investido, Gilmar, e não é com você. Chamei o garçom. A conta, por favor.” O garçom trouxe. Paguei o jantar que foi caro. Este jantar é a última coisa que vocês vão ganhar de mim, anunciei, levantando-me. Comam bem, aproveitem o vinho, porque a partir de amanhã o Tião pobre e cego morreu, e o Tião milionário não tem irmãos. Sueli começou a chorar. Você vai abandonar a gente? Eu tô com dívidas, Tião. Aquele fundo imobiliário deu prejuízo. Eu menti. Eu preciso de ajuda.
É, eu disse, imitando o tom de voz dela. Dívidas são provações. Talvez você precise orar mais em vez de pedir dinheiro. Virei as costas. Dona Jura se levantou, ajeitou o vestido e olhou para eles. A marmita amanhã é frango com quiabo. Se quiserem custa R$ 20. Mas para vocês é pagamento adiantado. E saímos deixando os dois lá sentados na mesa de luxo com a comida mais amarga de suas vidas. A vida depois daquela noite mudou completamente. A padaria do Tião e Jura inaugurou um mês depois. Foi um sucesso estrondoso. Não porque eu precisava do lucro, mas porque fazíamos tudo com os melhores ingredientes, sem miséria.
Dona Jura se revelou uma administradora nata. Ela comanda a cozinha com mão de ferro e coração de manteiga. Eu continuo acordando cedo para fazer pão, não por obrigação, mas por amor. A diferença é que agora quando canso, vou para minha casa de campo descansar na piscina e não para um sofá velho com dor nas costas. Gilmar e Sueli sentiram o golpe. A cidade inteira ficou sabendo da história. Dona Jura discretamente contou para algumas clientes fofoqueiras e a notícia correu. Eles viraram a piada da cidade. Os irmãos que perderam 40 milhões por causa de 5.000.
Gilmar começou a ter problemas nos negócios. Os clientes boicotaram os postos dele. Ele teve que vender a lancha e a caminhonete para cobrir rombos. Hoje vive de forma modesta, sempre reclamando da injustiça do irmão. Sueli teve que vender as joias e baixar o padrão de vida. O marido fazendeiro, descobrindo que ela não tinha acesso à minha fortuna, começou a cortar as regalias dela. Eles tentaram se reaproximar algumas vezes. No Natal mandaram presentes. Devolvi todos. Não guardo ódio. Ódio é um veneno que a gente toma esperando que o outro morra. Eu guardo distância, é diferente.
Outro dia estava no balcão da padaria. Entrou um senhor humilde, com óculos quebrados, remendados com fita crepe. Ele pediu um pão na chapa. “Quanto é, moço?”, perguntou ele, contando moedinhas. Olhei para os óculos dele. Lembrei de mim. É por conta da casa, amigo. Eu disse: “Sério?” “Sério. E me diz uma coisa, tá enxergando bem com esses óculos?” “Mais ou menos. Tô precisando trocar, mas tá difícil.” Tirei um cartão do bolso. O cartão da clínica oftalmológica do melhor médico da cidade. Vai lá amanhã. Diz que o Sebastião mandou. Tá tudo pago. Óculos, consulta, cirurgia, se precisar.
O homem chorou. Por que o senhor tá fazendo isso? Porque um dia eu precisei enxergar a verdade e me custou caro. Quero que você enxergue de graça. Dona Jura sorriu lá do caixa. A gente se entende. O dinheiro não serve para construir muros, serve para construir pontes. Mas algumas pontes, como a que ligava eu aos meus irmãos, estavam podres demais para serem reformadas. Foi melhor deixá-las cair. Agora construo pontes novas com gente de verdade. E a vista daqui? Ah, a vista daqui é linda, perfeita, sem catarata nenhuma.