
Pensa aí que o seu marido, com quem você é casada há três décadas, é o pastor mais querido da igreja e da cidade onde vocês moram. O homem que prega sobre fé, família e amor verdadeiro de domingo a domingo, e que volta e meia ainda posta no Facebook cartinhas românticas dirigidas a você, declarando na frente de todo mundo que você é a melhor pessoa que ele conheceu na vida. Só que, da porta para dentro, esse mesmo homem te pressiona toda semana para fazer sexo com outros homens. Quando você resiste, ele te chama de frígida, te culpa quando os encontros não saem como ele planejou e ainda exige que você escreva declarações detalhadas sobre a vida sexual de vocês para ele guardar e ler quando quiser. Totalmente bizarro, não é?
Mas tem mais. Toda vez que você fala em separação, ele encosta o cano de um revólver no próprio queixo só para te fazer medo. Vai que você insiste e ele cumpre a ameaça. Imaginou o que você faria numa situação dessas? Pois é, essa história é real. E numa madrugada de março de 2021, a mulher que viveu isso tudo tomou uma decisão que virou a vida dela, da família e de toda a cidade ao avesso.
Eu sou Marcos Campos e essa é a história completa de Christi Evans, uma mulher que viveu 30 anos de casamento com um pastor carismático, mas que escondia um lado sombrio e controlador. O caso é bem mais complexo do que a primeira impressão pode sugerir, cheio de camadas de abuso psicológico, coerção sexual, manipulação e uma decisão final tomada em meio ao desespero. Vamos aos fatos, do começo ao fim, sem deixar nenhum detalhe de lado.
A cidade é Ada, em Oklahoma, nos Estados Unidos, uma cidadezinha com menos de 20 mil habitantes, do tipo onde todo mundo se conhece e a igreja é o centro da vida social. Ali, o pastor mais querido era David Charles Evans, com cerca de 50 anos na época. Ele havia começado a estudar para ser pastor em 2007, já com meia-idade, e subiu todos os degraus até se tornar o líder titular da igreja batista local em 2015. A esposa dele, Christi Downell Evans, tinha 47 anos. O casal estava casado havia 30 anos e tinha três filhos: a mais velha, Brittany Long, e dois rapazes, um deles chamado Anakin, em homenagem ao personagem de Star Wars, já que David era fã da saga.
Para quem via de fora, o casamento deles parecia o retrato perfeito de uma família cristã. No dia 15 de março de 2021, uma segunda-feira, David publicou no Facebook um longo texto romântico para a esposa. Ele contou que a conheceu quando os dois eram muito jovens, que pediu ela em casamento poucos meses depois de começar a namorar e que, três décadas depois, ainda tentava conquistá-la todos os dias como se fosse a primeira vez. Escreveu que não era dono dela, que não a controlava e que ela era sua parceira em pé de igualdade. Os fiéis curtiram, comentaram e compartilharam. Era exatamente o que se esperava de um pastor exemplar.
Três dias depois, em 18 de março, David postou uma selfie de uma viagem missionária ao México, onde ajudava migrantes na fronteira. Na legenda, disse que estava tentando ser “as mãos e os pés de Jesus”. Ele posou com uma criança vestindo camiseta do Star Wars e brincou sobre o nome do filho. A viagem durou cerca de uma semana. Quando voltou, foi direto para a igreja. No domingo, pregou sobre “guerra espiritual”, dizendo que quem faz a obra de Deus deve esperar ataques do inimigo e que não era para chorar quando isso acontecesse. Cumprimentou os fiéis depois do culto e foi para casa com a esposa.
Poucas horas depois, já passada da meia-noite do dia 22 de março, tudo mudou. Por volta da 1h da madrugada, Christi Evans ligou para a emergência. Com a voz alterada, contou que tinha sido acordada por um barulho alto. Ao abrir os olhos, viu o marido caído na cama, sangrando, com um som de gargarejo saindo da boca. Disse que não tinha visto ninguém, mas que alguém havia invadido a casa e atirado nele.
A polícia chegou rapidamente. Encontraram David deitado na cama do casal, com um tiro na cabeça, sangrando pelo nariz e pela boca. A casa não tinha sinais de arrombamento, nada revirado. Christi explicou que a porta dos fundos provavelmente estava destrancada. A versão de um invasor desconhecido fez sentido no primeiro momento. A notícia se espalhou pela cidade em poucas horas. A igreja entrou em luto, a congregação se reuniu para orar e um comunicado oficial falou de “choque e tristeza profunda”. Christi foi acolhida pelos fiéis. Para todos, era o assassinato covarde de um homem bom dentro da própria casa.
A polícia local chamou o Departamento de Investigação de Oklahoma para ajudar. Quando os agentes entrevistaram os vizinhos, descobriram que, nos dias anteriores ao crime, especialmente durante a viagem missionária de David ao México, um Mustang branco ficava estacionado em frente à casa do casal. Uma câmera de campainha de um vizinho confirmou as imagens. Os investigadores cruzaram os dados e descobriram o dono do carro: Khalil Square, 26 anos.
Quando perguntaram a Christi quem era o homem, ela hesitou, mas admitiu que Khalil era seu namorado. A narrativa simples de um intruso desconhecido desmoronou. Os agentes pressionaram por mais detalhes. Foi então que veio uma das revelações mais chocantes: Christi contou que ela e o marido não tinham um casamento convencional. Há anos eles levavam uma vida sexual secreta, viajando para hotéis e motéis em cidades vizinhas para marcar encontros com outros homens. Segundo ela, a primeira vez aconteceu durante uma viagem a um resort no Texas, onde o uso de roupas era opcional. Ao voltar para o quarto, encontrou o marido na cama com outro homem. Disse que, naquele momento, sentiu que não tinha como recusar.
Foi nesse contexto que ela conheceu Khalil Square. Os três se encontraram em um motel em janeiro de 2021, em um dos encontros organizados por David. Em uma das vezes, Christi deixou discretamente o número do telefone para Khalil. A partir daí, os dois começaram a se comunicar sozinhos. Quando David viajou para o México em meados de março, Khalil passou três noites na casa do casal. Foi nesse período que os dois, segundo Christi, planejaram o assassinato.
Ela contou aos agentes que havia relatado ao amante que o marido era controlador, abusivo verbalmente, que a xingava de frígida, gorda e feia. Disse que queria mais liberdade. Khalil, segundo os documentos do processo, ouviu tudo e respondeu de forma que indicava consentimento. O plano era simples: Christi deixaria a pistola de David e uma caixa de munição do lado de fora da casa, deixaria a porta dos fundos destrancada e combinaria o horário. Na madrugada de 22 de março, Khalil entrou, foi até o quarto e atirou na cabeça do pastor enquanto ele dormia. Christi ficou na sala por um momento, depois foi até o quarto, sentou ao lado do marido agonizante e ligou para a polícia, contando a história do invasor.
Três dias depois, em 25 de março, a filha mais velha, Brittany Long, enviou uma mensagem para a polícia dizendo que a mãe estava indo se entregar. Christi havia confessado tudo para a filha na casa dos avós. Disse que implorou para Khalil matar o marido e que ele puxou o gatilho. Pouco depois, ela dirigiu sozinha até a delegacia e repetiu a confissão. Khalil Square foi preso na mesma noite em uma cidade próxima.
O caso virou manchete nacional. A narrativa inicial era de um triângulo amoroso que terminou em assassinato: uma esposa traidora e um amante jovem que executou o plano. A promotora Tara Portilho disse que Christi tocou Khalil “como se toca um violino”, usando a destreza sexual para manipulá-lo. Surgiram detalhes sobre um seguro de vida de 250 mil dólares. Segundo a defesa de Khalil, Christi teria prometido 160 mil dólares e uma caminhonete nova para os dois viverem juntos depois.
Mas a história ganhou camadas muito mais profundas quando Brittany Long entregou à NBC News quatro anos de mensagens privadas trocadas entre os pais pelo Facebook, de 2017 até poucos meses antes do crime. Nelas, David aparecia muito diferente do pastor romântico das postagens públicas. Em brigas longas, ele chamava a esposa de frígida, culpava ela quando casais de swing não queriam repetir o encontro e exigia que ela escrevesse declarações detalhadas sobre a vida sexual deles. Quando Christi resistia ou falava em separação, ele ameaçava suicídio, encostando o revólver no próprio queixo.
Brittany contou que o pai era abusivo não só com a mãe, mas também com os filhos. O irmão Anakin relatou surras, concussões e castigos humilhantes, como obrigar as crianças a limpar a casa a noite toda. A advogada de defesa de Christi, Joey Miskel, descreveu o casamento como um caso clássico de controle coercitivo: o marido prostituía a esposa, assistia aos encontros e usava ameaças de suicídio para mantê-la presa. Christi estimou que, ao longo de 30 anos, havia sido coagida a fazer sexo com entre 50 e 100 homens diferentes.
A acusação rebateu apresentando cartas que Christi escreveu na prisão, algumas explícitas e sexuais, dirigidas a Khalil e a outro detento. A promotora usou isso para argumentar que ela não era apenas vítima, mas uma manipuladora que continuava o padrão. A defesa respondeu que aquelas cartas eram resultado de décadas de condicionamento sexual.
Christi se declarou culpada de homicídio doloso em abril de 2022, sem acordo com a promotoria. O julgamento do sentenciamento durou dois dias em agosto de 2022. Brittany defendeu a mãe, dizendo que ela já havia cumprido 30 anos de sentença. A mãe de David, Jean Richardson, de 80 anos, disse que mesmo se o abuso fosse verdade, Christi tinha emprego, dinheiro e poderia ter ido embora. O pai de Christi, Eddie Armer, de 78 anos, descreveu a filha como alguém que fugiu do inferno.
O juiz Steven Kessinger condenou Christi à prisão perpétua com possibilidade de condicional, elegível apenas em 2060, quando ela terá 87 anos. Ele considerou o crime de sangue frio, mas reconheceu o quadro de abuso, embora tenha dito que o arrependimento dela era recente. Khalil Square foi julgado separadamente e também condenado à prisão perpétua.
A igreja emitiu comunicados reconhecendo que pastores são humanos e cometem erros. A casa onde o crime aconteceu foi colocada à venda. Os filhos ficaram divididos: Brittany defendendo publicamente a mãe, Anakin confirmando os abusos, mas dizendo que ainda amava os pais.
O caso de Christi Evans não cabe em caixas simples de vítima ou vilã. É a história de uma mulher que entrou no casamento aos 18 anos e passou três décadas aprendendo, da forma mais cruel possível, que seu valor dependia do que o marido decidia. Ela poderia ter ido embora? A mãe de David disse que sim. A defesa disse que o controle coercitivo a convenceu do contrário. O juiz optou por uma pena pesada, mas não perpétua sem condicional.
O pastor David Evans já não está aqui para dar sua versão, apenas as mensagens que deixou. Aquele post romântico de 15 de março de 2021, dizendo que não era dono dela e que viviam em pé de igualdade, hoje soa como um ato falho doloroso diante de tudo que veio à tona.
Essa é uma história que revela como o abuso pode se esconder atrás de sorrisos, sermões e postagens públicas. Uma cidade inteira chocada, uma igreja em luto e uma família destruída. Christi Evans vai passar a maior parte da vida atrás das grades, mas, segundo a filha, mesmo presa ela se sente mais livre do que quando estava casada com o homem que dizia amá-la todos os dias no Facebook.
Casos como esse nos fazem refletir sobre quanto ainda não vemos por trás das fachadas perfeitas. O que você faria no lugar dela? A resposta não é simples. E é exatamente por isso que essa história continua perturbando tanta gente até hoje.