Posted in

A História Completa de Denis Nilsen, o Serial K!ll.er que Foi Descoberto por uma Privada Entupida

Esse homem matou pelo menos 12 rapazes dentro do próprio apartamento em Londres. Guardou os corpos lá por semanas, às vezes por meses inteiros. Conviveu com os cadáveres como se fossem companhia, cozinhou partes deles, tomou banho com eles na banheira e ainda dormiu ao lado de alguns. E o mais impressionante: não foi a polícia que descobriu tudo isso. Foi uma simples privada entupida no andar de baixo de um prédio residencial tranquilo no norte de Londres que acabou revelando um dos casos mais sombrios e perturbadores da história criminal britânica.

Eu sou Marcos Campos e hoje vamos mergulhar fundo na história de Denis Andrew Nilsen, um homem que entre 1978 e 1983 assassinou pelo menos 12 jovens em Londres, talvez até 16 segundo suas próprias confissões. Ele mantinha os corpos dentro de casa, desmembrava alguns na banheira e jogava os pedaços no vaso sanitário. Tudo veio à tona não por uma investigação brilhante ou por uma denúncia anônima, mas porque a privada do vizinho de baixo simplesmente parou de funcionar. Essa é uma história que mistura solidão extrema, trauma de infância, sexualidade reprimida e uma frieza emocional que ainda assombra psiquiatras forenses e criminologistas mais de 40 anos depois. Como um servidor público respeitado, sindicalista combativo e dono de uma cachorrinha adorada pelos vizinhos se transformou em um dos serial killers mais prolíficos do Reino Unido? Por que a polícia demorou quase cinco anos para perceber, mesmo com vítimas escapando e indo prestar queixa? E o que torna esse caso tão único que continua sendo estudado até hoje? Vamos aos fatos, do começo ao fim.

Existia uma casa no número 23 da rua Cranley Gardens, em Muswell Hill, um bairro residencial tranquilo no norte de Londres. Era o tipo de rua com casinhas geminadas, telhados pontudos, jardins bem cuidados na frente, onde os vizinhos competiam para ver quem mantinha o gramado mais bonito. Mas o número 23 era uma exceção. O jardim estava tomado pelo mato, a fachada precisava de pintura urgente e o interior da casa não estava muito melhor. Em algum momento, alguém havia dividido a propriedade em seis pequenos apartamentos para aluguel. A manutenção era quase inexistente. A imobiliária responsável cuidava apenas do básico, e a dona verdadeira morava do outro lado do mundo, provavelmente uma investidora que nunca colocava os pés no lugar.

Em fevereiro de 1983, cinco pessoas moravam naquela casa. No térreo vivia um casal: ela atendente de bar, ele pedreiro, além de duas jovens estrangeiras que dividiam um quarto. No sótão, adaptado como um pequeno apartamento com cozinha e banheiro próprios, morava o quinto inquilino. Ele tinha 37 anos, era alto, magro, andava um pouco curvado, com os ombros caídos. Trabalhava como servidor público em um centro de emprego do governo. Saía cedo de casa de terno cinza, voltava no fim da tarde, passeava com sua cachorrinha e quase não recebia visitas. Para os vizinhos de baixo, ele era apenas “o cara do sótão”: silencioso, educado, discreto. As vizinhas do térreo chegaram a subir uma vez para tomar café com ele meses antes. Na conversa rápida, descobriram que ele preferia ser chamado de Des.

Na quinta-feira, 3 de fevereiro de 1983, Jean Alcock, o pedreiro do térreo, notou que a privada estava entupida. Tentou desentupir com produtos caseiros, mas não adiantou. No dia seguinte, sua namorada deixou um bilhete avisando os outros moradores para não usarem o vaso. Chamaram um encanador, que prometeu voltar no sábado. Ele tentou, mas não resolveu e recomendou uma empresa especializada: a Dyno-Rod, famosa em Londres por desentupimentos complexos.

A Dyno-Rod só apareceu na terça-feira, dia 8 de fevereiro, cinco dias depois do entupimento inicial. Nesse intervalo, no domingo anterior, o inquilino do sótão estava vivendo um pesadelo macabro. Ele cortava um corpo em quatro partes na sala de seu apartamento. Tinha colocado a cabeça para ferver em uma panela no fogão e guardado os outros pedaços em sacos plásticos dentro do armário. A cada dia que passava com a privada entupida e os vizinhos reclamando, ele sabia exatamente o que estava acontecendo. Ele havia jogado restos humanos no vaso nos últimos dias e meses. Sabia que mais cedo ou mais tarde alguém desceria até o bueiro para investigar.

Por volta das 18h15 daquela terça-feira, já escuro por causa do inverno londrino, o técnico da Dyno-Rod chegou. Ele desceu pelo bueiro lateral da casa, uma profundidade de cerca de 4 metros. Jean Alcock segurava a lanterna de cima. O técnico sentiu um cheiro estranho. Quando chegou ao fundo, a lanterna iluminou uma camada esquisita no piso. Ele pegou um pedaço e subiu para examinar melhor. Não era excremento. Era carne humana. Ele voltou para casa, ligou para o gerente e combinaram de retornar na manhã seguinte.

Antes de ir embora, o técnico fez uma pergunta aparentemente inocente: algum morador tinha cachorro? Às vezes as pessoas jogam ossos ou carne crua no vaso e entope. O inquilino do sótão, que havia descido para acompanhar o movimento, respondeu calmamente que tinha uma cadelinha, mas jamais jogaria carne na privada. O técnico aceitou a explicação e foi embora.

Naquela mesma madrugada, os vizinhos do térreo ouviram barulhos: alguém descendo a escada, a porta da rua abrindo, sons metálicos de tampa de bueiro sendo arrastada. Era o homem do sótão, descendo com lanterna e sacos plásticos para retirar o que conseguia do cano. Ele jogou os pedaços por cima da cerca num terreno baldio atrás da casa. Pensou em comprar frango frito no Kentucky Fried Chicken para confundir os encanadores, mas desistiu. Bebeu rum a noite inteira, cogitou suicídio, pensou em fugir, mas no final decidiu apenas esperar.

Na manhã de 9 de fevereiro, o técnico voltou às 9h15. Levantou a tampa do bueiro e viu que o piso estava mais limpo. Desceu novamente e puxou mais pedaços de carne e ossos. A namorada de Jean Alcock contou o que ouvira na madrugada. Decidiram chamar a polícia.

O detetive Peter Jay chegou por volta das 11h. Levou os fragmentos para o Hospital Charing Cross, onde o patologista forense Professor David Bowen confirmou: eram partes humanas, provavelmente do pescoço e da mão de um homem. Às 16h30, Jay e dois colegas esperavam o inquilino do sótão voltar do trabalho. Ele chegou às 17h40. Os policiais subiram com ele. Jay disse que era por causa dos canos. O homem demonstrou surpresa e perguntou se eles eram do controle sanitário. Jay explicou que eram da polícia e que os pedaços encontrados eram humanos. O homem respondeu calmamente: “Que coisa horrível”. Jay olhou nos olhos dele e pediu para parar de enrolar. O homem apontou para o armário e disse que havia dois sacos plásticos ali dentro. O cheiro confirmava tudo.

No carro, a caminho da delegacia, o detetive Steve McCusker fez a pergunta decisiva: “Estamos falando de um corpo ou dois?”. O homem respondeu sem alterar a voz: “Nada disso. Acho que são uns 15 ou 16 desde 1978”.

Na sala de interrogatório, o detetive Jay precisou repetir a pergunta. O homem confirmou: três corpos em Cranley Gardens e cerca de 12 ou 13 no endereço anterior, em Melrose Avenue. Seu nome completo era Denis Andrew Nilsen.

Advertisements

Nilsen nasceu em 23 de novembro de 1945 em Fraserburgh, uma pequena cidade portuária no nordeste da Escócia. Filho de mãe escocesa e pai norueguês, cresceu em uma casa simples com a mãe e os irmãos após o pai ausente. O grande pilar emocional da sua infância foi o avô materno, Andrew Whyte, um pescador sindicalista que o levava para passear no porto, ensinava a empinar pipa e contava histórias do mar. Em outubro de 1951, quando Denis tinha quase 6 anos, o avô morreu de ataque cardíaco no barco. O corpo foi velado em casa, no mesmo quarto onde as crianças dormiam. A mãe, sem querer chocar o menino, disse que o avô estava “dormindo”. Ninguém explicou a morte. O garoto passou meses esperando o avô voltar. Anos depois, Nilsen escreveria que aquele momento estilhaçou sua personalidade para sempre. Ele passou a vida procurando aquela companhia perdida.

Aos 15 anos, alistou-se no Exército Britânico como cozinheiro. Serviu 11 anos, inclusive em Berlim Ocidental durante a Guerra Fria. Descobriu sua homossexualidade, mas viveu com vergonha profunda na cultura militar da época. Saiu do Exército em 1972, tentou a Polícia Metropolitana de Londres, mas durou apenas um ano. Trabalhou como segurança e, em 1974, conseguiu emprego em um centro de emprego do governo. Tornou-se sindicalista combativo, conhecido por defender colegas com agressividade. Era articulado, irônico e respeitado no trabalho, mas não tinha amigos íntimos fora do escritório.

Em 1976, mudou-se para Melrose Avenue, no noroeste de Londres, com um namorado que logo foi embora. Ficou sozinho com sua cachorra Bleep. Bebia muito, ouvia música clássica e ópera. Começou a ter fantasias necrófilas: cobria-se de talco para parecer pálido, pintava os lábios de azul e se deitava fingindo ser um cadáver.

Em 30 de dezembro de 1978, tudo mudou. Nilsen encontrou Stephen Dean Holmes, um garoto de 14 anos, em um pub. Levaram-no para casa. O menino dormiu. Nilsen teve medo de acordar sozinho e o estrangulou com uma gravata. Depois afogou-o na banheira para garantir. Nos dias seguintes, lavou o corpo, dormiu com ele, tirou fotos. Meses depois, enterrou-o debaixo do assoalho e mais tarde queimou os restos no quintal.

A partir daí, o padrão se repetiu. Kenneth Ockenden, Martin Duffey, Billy Sutherland, Malcolm Barlow e muitos outros. A maioria eram jovens marginalizados, sem família próxima, sem documentos. Nilsen convidava para beber, conversavam, ouviam música. Quando dormiam, ele os estrangulava. Lavava os corpos, dormia com eles, às vezes mantinha-os por semanas. Sem jardim no novo apartamento em Cranley Gardens, começou a desmembrar na banheira e jogar pedaços na privada.

Foi essa prática que entupiu o cano e levou à descoberta. Em 9 de fevereiro de 1983, a polícia subiu com ele até o apartamento. Nilsen apontou para o armário e confessou calmamente. No caminho para a delegacia, revelou o número chocante de vítimas.

O julgamento começou em outubro de 1983. Nilsen foi condenado a prisão perpétua. Em 1994, a sentença foi alterada para “whole life order”, prisão perpétua sem possibilidade de liberdade. Ele morreu em 2018, aos 72 anos, de complicações após cirurgia.

O caso de Denis Nilsen continua sendo estudado porque revela como a solidão extrema, combinada com trauma não resolvido, pode gerar monstros silenciosos. Ele matava por companhia. Queria que alguém ficasse. E pagou o preço mais alto por isso. Um homem respeitado de dia, um assassino de noite. Descoberto não por genialidade policial, mas por uma privada entupida. A história mais bizarra e triste do crime britânico moderno.