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MANÉ GARRINCHA: A SOMBRIA VERDADE OCULTA POR 43 ANOS

MANÉ GARRINCHA: A SOMBRIA VERDADE OCULTA POR 43 ANOS

Duas Copas do Mundo. O melhor jogador do planeta em 1962. E esse mesmo homem, 21 anos depois, morreu em um hospital público com o fígado destruído e 13 centavos no bolso. Como pode um homem perder toda a sua fortuna em 10 anos? Garrincha não perdeu. Roubaram alguém de dentro da sua própria família, alguém que ele nunca denunciou. E o nome dessa pessoa nunca apareceu em nenhum jornal, nem mesmo hoje.

Mas antes de chegar àquela cama de hospital, há algo que você precisa entender, porque o que aconteceu na madrugada de 20 de janeiro de 1983 não começou ali. Começou 50 anos antes. Pau Grande, 28 de outubro de 1933. A parteira pegou o bebê, olhou para ele por muito tempo e depois ficou quieta. Ela chamou o médico.

O médico examinou o recém-nascido. “A perna direita é 6 cm mais curta, a coluna é torta e os pés são voltados para dentro.” Ele escreveu três palavras no formulário: deformidade congênita múltipla. Ele disse à mãe que o menino precisaria de várias cirurgias. A mãe perguntou quanto custavam. O médico declarou o preço.

A mulher permaneceu em silêncio. “Eu ganhava 30 cruzeiros por mês lavando roupa para outras pessoas.” Cada cirurgia custava 200. Ela caminhou para casa por 2 horas porque não tinha nem dinheiro para a passagem de ônibus. E quando chegou, entregou o recém-nascido à irmã mais velha. A irmã pegou o menino, olhou para ele e riu.

Ela disse que o bebê parecia um passarinho feio do mato. Naquela região, as pessoas chamavam esse passarinho de garrincha. O que aquela menina não podia imaginar era que o apelido sobreviveria ao próprio menino e que, 50 anos depois, estaria gravado em uma lápide sem flores, em um cemitério onde ninguém se daria ao trabalho de ir.

O pai de Garrincha, Amaro, já trabalhava na fábrica há 20 anos quando o menino nasceu. Ele bebia cachaça desde o café da manhã. O álcool não o tornava violento, tornava-o silencioso. Ele chegava em casa, sentava-se de frente para a parede e apenas encarava até adormecer. 12 horas por dia na fábrica, seis dias por semana. Essa era a vida.

Quando ele tinha 15 anos, seu pai lhe deu algo que marcaria toda a sua vida. Não foi um conselho, não foi um abraço, foi uma garrafa de cachaça. E guarde esta imagem, porque foi naquela noite que a morte que chegou 34 anos depois realmente começou. Era dezembro de 1948. Garrincha tinha começado a trabalhar na fábrica.

No primeiro dia, ele voltou para casa exausto, as mãos cobertas de cortes das máquinas. Seu pai já o esperava com uma garrafa na mesa. Ele serviu um copo. Ele falou duas frases. A primeira foi: “Agora você é homem.” A segunda foi: “Bebe.” O menino bebeu, queimou a garganta, sentiu vontade de vomitar, mas o pai, pela primeira vez em anos, riu, colocou o braço sobre o ombro do filho e disse que ele se parecia exatamente com ele.

Naquela noite, o menino aprendeu uma palavra incorretamente. Ele aprendeu que ser homem significava beber, que a cachaça era o laço entre um pai e um filho. 34 anos depois, em uma ala de hospital público, Garrincha estava prestes a morrer, ainda tentando entender corretamente o que aquela palavra significava. Imagine seu próprio pai lhe ensinando isso quando você tem 15 anos.

Garrincha carregou esse fardo pelo resto da vida, e o que veio depois foi pior. Em 1953, um olheiro do Botafogo subiu a montanha para ver outro jogador. Ele esqueceu, de última hora, qual jogador tinha ido buscar. Seu interesse mudou. O garoto das pernas tortas que estava humilhando três defensores sozinho.

Ele levou Garrincha ao estádio do Botafogo no dia seguinte. O garoto tinha 19 anos, nunca tinha saído do campo, não conhecia o Rio, não sabia usar telefone, chegou vestindo calças remendadas e sapatos emprestados. Os treinadores o colocaram para um teste contra Nilton Santos, o lateral-esquerdo titular da equipe que jogava pela seleção brasileira.

Um dos melhores defensores do mundo. Passaram a bola para Garrincha. Ele baixou o ombro, deu um passo à frente e, em 5 segundos, Nilton Santos estava sentado na grama, sem entender o que tinha acontecido. Nilton Santos levantou-se do chão, foi até o treinador e disse: “Contratem esse garoto agora.”

E aqui vem o primeiro detalhe que ninguém costuma contar. Garrincha assinou aquele contrato com sua impressão digital, não com sua assinatura, porque aos 19 anos o garoto que seria o melhor jogador do mundo nem sequer sabia escrever o próprio nome corretamente. Essa impressão digital, aquela pequena marca de polegar, foi o começo de tudo, porque alguém sabia como tirar proveito disso.

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Garrincha estreou pelo Botafogo duas semanas depois, marcou três gols no seu primeiro jogo. Ele driblou cinco defensores em uma única jogada, que as pessoas ainda lembram hoje. Jornalistas escreveram que um fenômeno havia chegado, que suas pernas tortas não eram um defeito, eram uma bênção, que Deus tinha entortado suas pernas deliberadamente para que ninguém pudesse marcá-lo. Mas é mentira.

As pernas de Garrincha foram resultado de uma poliomielite mal tratada na infância. Uma doença que qualquer criança de uma família rica poderia resolver com três cirurgias simples. Garrincha não teve nenhuma porque sua família ganhava menos em um mês do que custava uma consulta. O Brasil preferiu contar a versão bonita da história. Doía.

Mas enquanto Garrincha começava a lotar estádios, algo já estava acontecendo, e ninguém contaria nada disso por 40 anos. Algo que ele mesmo escondeu até o dia em que morreu e que só apareceu em uma fita cassete encontrada 10 anos depois de ser enterrado. Existe uma gravação, de 47 minutos, feita involuntariamente por um jornalista esportivo em 1981, 2 anos antes da morte de Garrincha.

Os dois estavam bebendo. O jornalista tinha comprado um gravador novo e esqueceu de desligá-lo. Nessa gravação, Garrincha confessa quatro coisas. Chegaremos a essas quatro, mas ainda não. A primeira esposa de Garrincha chamava-se Nair. Eles se casaram em 1952. Tiveram a primeira filha 9 meses após o casamento, a segunda no ano seguinte e a terceira 18 meses depois.

Quando Garrincha completou 30 anos, ele já tinha oito filhas com Nair. E é aqui que a história oficial começa a desmoronar. Porque enquanto Garrincha e Nair estavam tendo uma filha no Rio, um menino crescia em Pau Grande que também era seu filho. Um menino que ele tinha gerado aos 18 anos, antes de se casar, com uma vizinha mais velha que era casada com outro homem.

Esse menino viveu os primeiros 30 anos de sua vida acreditando que seu pai era o marido de sua mãe. Até que, em 1979, um vizinho do campo decidiu contar a verdade. O jovem foi ver Garrincha. Garrincha já tinha 45 anos, era alcoólatra, quase acabado. Ele recebeu seu filho, olhou para ele e disse sete palavras que o jovem nunca esqueceu: “Meu filho, você chegou 40 anos atrasado. 40 anos atrasado.”

Ele repetiu essa frase para todos pelo resto de sua vida. Para os 14 filhos que ele reconheceu, para as cinco mulheres com quem viveu. “Você chegou tarde, e é aqui que tudo começa a mudar.” 1958, Copa do Mundo na Suécia. O Brasil nunca tinha ganhado uma. Três finais perdidas. A pressão sobre aquela equipe era imensa. Brutal. Se voltassem sem o título, era melhor nem voltarem. Foi isso que os jornais escreveram, e escreveram a sério.

Garrincha estava na lista, mas os treinadores não queriam colocá-lo para jogar. Eles tinham feito um teste psicológico no garoto. Um psicólogo da comissão técnica perguntou o que ele faria se se perdesse em uma cidade estrangeira. Garrincha respondeu: “Eu nunca me perdi.” Pediram-lhe para desenhar uma figura humana. Ele desenhou uma figura de palito com duas linhas. O psicólogo escreveu no relatório: “Este jogador tem a capacidade mental de uma criança de 12 anos.”

Ele não deveria estar jogando na Copa do Mundo, e adivinhe quem decidiu que ele deveria jogar de qualquer maneira? Não foi o treinador, foi o próprio Nilton Santos. Ele entrou na sala do treinador e proferiu uma frase que mudou a história do futebol mundial: “Se o Garrincha não jogar, eu também não jogo.” O treinador cedeu imediatamente.

Garrincha entrou no jogo na terceira partida contra a União Soviética, aos 24 anos, sua primeira partida em uma Copa do Mundo. E os russos, considerados impossíveis de marcar, nunca entenderam o que tinha acontecido com eles. O Brasil venceu aquela Copa. A equipe retornou ao Rio. 40 milhões de brasileiros nas ruas. Uma carreata que levou 5 horas para chegar ao palácio presidencial.

Garrincha em um conversível acenando, não entendendo o que estava acontecendo. Mas Nair, sua esposa, também estava esperando no aeroporto com a filha de 2 anos nos braços. Ela chegou com um vestido novo, o cabelo feito. Ele não a viu. Havia gente demais. Colocaram Garrincha no conversível e o levaram embora. Nair ficou na estrada por duas horas com a menina chorando nos braços, até que um policial pediu que ela fosse embora porque estava causando um distúrbio. Naquela mesma noite, Garrincha dormiu em um hotel em Copacabana com uma dançarina que tinha conhecido no jantar oficial.

Mas entre 1958 e 1962, enquanto Garrincha era considerado intocável, alguém já estava cuidando do seu dinheiro pelas costas, alguém que ele mesmo tinha trazido para sua vida sem suspeitar de nada. E chegaremos a esse nome em menos de 5 minutos. 1962, Copa do Mundo no Chile. Pelé se machucou no segundo jogo. O Brasil parecia condenado. Garrincha carregou toda a equipe nos ombros e a levou até o título. Dois gols contra o Japão, dois gols contra o Chile no próprio estádio chileno. Brasil, bicampeão.

E Garrincha, oficialmente eleito o melhor jogador do planeta. Ele voltou ao Brasil com 60 milhões de pessoas esperando. O presidente o condecorou no palácio. Contratos milionários apareceram, empresas brigando por sua imagem. Uma marca de cigarros ofereceu uma fortuna. Garrincha assinou tudo sem ler, ainda usando sua impressão digital, porque ainda não sabia como escrever corretamente seu próprio nome.

Em 1963, Garrincha ganhava mais do que o presidente do Brasil. Em 1973, ele não tinha dinheiro para pagar o hospital onde sua mãe, que estava morrendo de pneumonia há 10 anos, estava internada. Isso foi tudo o que restou. E a pergunta que permanece é a única que importa: para onde foi todo aquele dinheiro?

Eu prometi desde o início que você saberia o nome do homem que destruiu Garrincha, aquele que assinou documentos pelas costas dele por 12 anos, que vendeu seu nome. Chegou a hora. Seu nome era Roberto. Roberto era o irmão mais velho de Garrincha. O irmão que tinha ficado em Pau Grande enquanto Garrincha se tornava famoso. O irmão que falava com seu irmão mais novo com afeto e que, quando Garrincha chegou ao Botafogo em 1953, ofereceu ajuda com a papelada, porque ele, Roberto, tinha terminado o ensino primário.

Garrincha aceitou, deu-lhe permissão para assinar contratos em seu nome, deu-lhe acesso à conta bancária, e Roberto, por 12 anos, fez o que nenhum irmão direto teria feito. Ele cobrava uma comissão de 20% em cada contrato, às vezes 30%, às vezes 50%. Ele vendia a imagem de Garrincha para marcas, que pagavam uma fortuna, enquanto Garrincha recebia migalhas.

Ele comprou duas casas em Pau Grande em seu próprio nome. Comprou um carro, comprou terras, tudo com dinheiro que não era dele. Garrincha assinava tudo o que seu irmão colocava na sua frente porque confiava nele. Em algum momento, alguém também começou a falsificar a assinatura completa. Essas assinaturas falsificadas pertenciam ao próprio Roberto. Em 1973, quando Garrincha já estava aposentado, sem um centavo e morando em um apartamento alugado, seu irmão Roberto desapareceu.

Ele foi morar no sul do país com uma nova família, sem avisar, sem deixar endereço, sem devolver nada. Roberto tinha levado até o último centavo, e Garrincha, o homem que tinha sido eleito o melhor do mundo 11 anos antes, acabou pegando emprestado 200 cruzeiros de um antigo colega de equipe do Botafogo para pagar o aluguel daquele mês.

A família nunca falou abertamente sobre isso. Nair sabia, suas filhas sabiam, mas nenhum jornalista brasileiro contou essa história até que um livro acadêmico a mencionou em 2012, quase 30 anos após a morte de Garrincha. E esse livro vendeu 1000 cópias. 1000? Porque para o Brasil, a versão oficial, aquela da cachaça, aquela do Garrincha que se autodestruiu, permaneceu mais conveniente.

Mas a traição do irmão foi apenas a primeira camada, porque enquanto Roberto estava levando o dinheiro, alguém mais estava levando algo ainda mais valioso. E é aqui que tudo muda. Existe um pedaço de papel dobrado em quatro. A enfermeira o encontrou sob o travesseiro de Garrincha, três horas após sua morte, na madrugada de 20 de janeiro de 1983.

Ela abriu o papel, leu e chorou por dez minutos seguidos. Quando ela chamou o diretor do hospital, ele disse para ela guardar, disse para não mostrar a ninguém, disse para não dar nem para a família. Esse documento existe. Atualmente está em uma caixa no Rio de Janeiro com o filho da enfermeira.

O que aquele documento diz muda toda essa história oficial, e você está prestes a descobrir. Mas antes de chegar à papelada, é necessário entender o que aconteceu após a Copa do Mundo de 1962, porque algo já estava acontecendo em sua vida que destruiria tudo em menos de 6 anos. 1962. Garrincha conheceu Elsa Soares em um evento de caridade no Maracanã.

Elsa era a cantora mais famosa do Brasil. Ela tinha 30 anos, já era viúva e já tinha enterrado um filho. Ela era uma mulher marcada pela tragédia. Ela se apaixonou por Garrincha em 15 minutos, e Garrincha se apaixonou por ela naquela mesma noite. O problema era que Garrincha era casado e já tinha oito filhas com Nair.

O relacionamento clandestino durou 3 anos. Tornou-se público em 1965. Em 1966, Garrincha pediu o divórcio de Nair. A igreja o condenou, os jornalistas o atacaram, o povo o xingava nas ruas, mas Garrincha não recuou. O Brasil escolheu Elsa como a culpada. “Elsa destruiu Garrincha.” “Elsa arrastou-o para a cachaça.” Mentira.

Elsa foi a única pessoa que tentou salvar aquele homem por 15 anos. Garrincha não bebia por causa de Elsa. Ele já bebia antes. Ele bebia desde os 15 anos. Ele bebia após cada partida, ele bebia nos hotéis da equipe. Ele bebia no avião da seleção nacional.

Apenas uma coisa mudou em 1966. Ninguém estava mais escondendo. Nair tinha escondido você por oito anos. Ela levantava o corpo dele do chão, esquentava a sopa e mentia para os jornalistas. Quando Nair ficou sozinha, as mentiras acabaram, e Elsa, em vez de continuar escondendo, fez o oposto.

Ele foi hospitalizado três vezes em 1967, quatro vezes em 1968 e uma vez por mês em 1969. Madrugada de 17 de abril de 1969. Estrada Rio-Petrópolis; estava chovendo. O Mercedes de Garrincha a 200 km/h, bêbado. E ele não estava com Elsa, estava com outra mulher, uma dançarina de boate de 22 anos. E no banco de trás, dormindo, estava a mãe de Garrincha, Maria Carolina, a mulher que o tinha segurado em seus braços quando os médicos disseram que ele nunca andaria.

O Mercedes colidiu com um caminhão de carga, capotou três vezes e acabou incrustado em uma árvore. Garrincha foi arremessado através do para-brisa e caiu em uma vala a 15 metros de distância. Ele quebrou três costelas. A dançarina foi lançada pela porta do passageiro. Resgataram-na viva, mas a mãe de Garrincha, que estava dormindo no banco de trás sem cinto de segurança, morreu instantaneamente. 71 anos de idade.

Ele morreu com a cabeça apoiada no encosto do banco, enquanto seu filho bêbado acelerava com uma mulher que não era sua esposa em uma estrada molhada que ele conhecia de cor. Imagine carregar isso dentro. Imagine carregar o peso da morte da sua própria mãe, sabendo que foi culpa sua, até o último dia da sua vida. Garrincha carregou por 14 anos, e após aquela madrugada, a cachaça deixou de ser um vício.

Tornou-se uma forma de não lembrar. O que nunca foi publicado é que a dançarina não era uma desconhecida. Ela era prima de segundo grau de Garrincha, parentes de sangue, e estava grávida de três meses de um filho de Garrincha. Quando a polícia chegou, ela, semiconsciente, pediu ao policial para não chamar sua família. Ele disse: “Pelo amor de Deus, meu pai vai me matar.” Ela perdeu o bebê no hospital naquela mesma noite, mas há algo ainda mais sombrio sobre aquela noite.

A polícia revistou o Mercedes e, no porta-luvas, encontrou um envelope com dinheiro, 50.000 cruzeiros. Uma fortuna em 1969. O envelope tinha um bilhete. O nome no bilhete não era o de Garrincha. O nome era o de seu irmão, Roberto. Garrincha estava levando o envelope para entregar ao irmão em Pau Grande, sem que Elsa soubesse. Quando a polícia chegou, o envelope desapareceu. Foi roubado por um dos policiais antes que a imprensa chegasse. E Garrincha não teve coragem de denunciar, porque denunciar significava admitir que seu próprio irmão estava roubando dele há anos.

Naquela noite, na sala de espera do hospital, enquanto dois médicos confirmavam que sua mãe tinha morrido, Garrincha ligou para Elsa, disse quatro palavras, e Elsa, 30 anos depois, repetiu essas palavras em uma entrevista. As quatro palavras foram: “Eu não sou ninguém mais.” E a partir daquela noite… A partir de então, Garrincha deixou de ser. Sua carreira terminou em menos de seis meses. O Botafogo o dispensou.

A marca de cigarros cancelou seu contrato. As empresas que o tinham perseguido em 1962 fingiram não conhecê-lo. Garrincha jogou por equipes cada vez menores: Corinthians, Flamengo, Olaria. No Olaria, dispensaram-no porque ele apareceu bêbado para um jogo oficial. Ele tinha 39 anos, era 1972. Você sabe quantas pessoas estavam na partida de despedida de Garrincha? Zero.

Não houve partida de despedida, não houve música, não houve homenagem, não houve faixa nas arquibancadas. Um dia, ele simplesmente parou de aparecer para o treino e ninguém ligou para perguntar. A gravação de 47 minutos foi feita em uma dessas noites, em 1981. Garrincha tinha 47 anos, mas parecia ter 70. Ele estava na casa de um jornalista esportivo chamado Wilson Souza.

Os dois estavam bebendo há três horas. Wilson tinha comprado um gravador novo e o deixou sobre a mesa. Garrincha não percebeu e começou a falar sobre coisas que não tinha contado a ninguém em 20 anos. Garrincha relata o que aconteceu na noite em que seu pai morreu. 1957. Amaro estava na cama, morrendo de cirrose, e pediu ao filho uma última dose de cachaça. Garrincha disse não.

Ele disse ao pai que ele ia morrer de qualquer jeito, mas que ele, o filho, não seria o responsável por dar aquele último gole. Ele saiu do quarto, fechou a porta e foi ao bar grande beber várias doses de cachaça. Quando voltou, duas horas depois, seu pai já tinha morrido.

Na gravação, Garrincha chora, chora com uma voz quebrada, e profere uma frase que o gravador captou quase inteiramente. Ele diz: “Eu deixei o velho morrer da sede que ele mesmo me ensinou a ter.” A partir daquela noite, não consegui passar um dia sequer sem beber. Eu bebo cada dose de cachaça por ele, pela cachaça que neguei a mim mesmo.

Existe um caderno de couro preto. Foi encontrado na gaveta do criado-mudo no quarto onde Garrincha passou os últimos seis meses em uma pensão modesta no bairro de Bom Sucesso. O caderno tem 42 páginas escritas com a letra grande de um homem que mal aprendeu a escrever. Na primeira página, o título: “As pessoas a quem tenho que pedir perdão.”

Nas páginas seguintes, 14 nomes. Doze dos catorze já estavam mortos quando Garrincha escreveu: “O primeiro nome é Amaro dos Santos, o pai. Ao lado do nome, apenas uma linha: Eu deixei você morrer sozinho. Eu vou morrer sozinho, assim como você. O segundo nome é Maria Carolina, a mãe. Ao lado, eu levei você à morte sem você saber. O terceiro nome, surpreendentemente, não é Nair, não é Elsa. O terceiro nome é Roberto, o irmão. E ao lado do nome, Garrincha escreveu três palavras que viraram tudo o que sabíamos de cabeça para baixo. As três palavras são: “Eu te perdoo o mesmo.”

“Eu te perdoo igualmente.” Três palavras. O irmão que tinha roubado tudo, aquele que tinha desaparecido em 1973, aquele que tinha levado até o último centavo. E Garrincha, no seu leito de morte, estava pedindo perdão por ele, e não o contrário. Por quê? Porque há algo que a família escondeu por 40 anos. Roberto, o irmão, não tinha roubado o dinheiro por ganância pessoal. Ele tinha roubado para sustentar outra família. Uma família que Garrincha não conhecia. Roberto tinha dois filhos não reconhecidos em Pau Grande, filhos de uma mulher do campo que Roberto tinha abandonado sob pressão de seu próprio pai, Amaro, em 1949.

E por 20 anos, Roberto vinha enviando secretamente dinheiro para essa mulher. Dinheiro que ele tirava da conta de Garrincha, não para si mesmo, mas para aqueles dois filhos. Quando Garrincha descobriu em 1972, foi porque um dos meninos, já um homem de 22 anos, foi até ele para pedir desculpas. Ele falou que o dinheiro vinha dele, que sua mãe tinha contado tudo. Garrincha, naquela tarde, sentado a uma mesa com seu sobrinho que ele via pela primeira vez na vida, disse duas coisas. A primeira foi: “Você não me deve nada.” A segunda foi: “Seu pai foi quem errou, não por roubar, mas por não me contar.”

E a partir daquele dia, Garrincha não foi mais atrás de Roberto. Ele o deixou viver, não o denunciou, não pediu nada de volta. Isso é o que a família escondeu por 40 anos. Não foi para proteger Garrincha, foi para proteger Roberto, que ainda está vivo, que tem 94 anos hoje e em toda a sua vida nunca deu uma entrevista, 94 anos e permanece em silêncio.

A única pessoa viva que sabe o que realmente aconteceu com o dinheiro, com os contratos, com as assinaturas falsificadas, ainda vive em uma grande casa de madeira e ninguém teve coragem de bater em sua porta até hoje. Mas isso nem é a parte mais sombria. A parte mais sombria vem agora. Na noite de 18 de janeiro de 1983, dois dias antes de morrer, Garrincha pediu à Dona Rita, a dona da pensão, uma folha de papel.

Apenas uma, Dona Rita trouxe. Garrincha fechou a porta do quarto. Dona Rita passou pelo corredor duas vezes durante a noite e o ouviu escrevendo lentamente, uma palavra por minuto, como um homem que não estava acostumado a escrever. Na noite do dia 19, Garrincha caiu no chão do seu quarto. Dona Rita chamou uma ambulância. Quando os paramédicos o colocaram na maca, Garrincha pegou a mão de Dona Rita e disse seis palavras: “Diga a Elsa que eu a perdoo.”

Eles o desceram as escadas, colocaram-no na ambulância, e enquanto o levavam, Dona Rita lembrou-se da folha de papel, correu lá para cima, encontrou-a sob o travesseiro e colocou-a no bolso do avental. Quando Garrincha morreu, às 4:20 da manhã de 20 de janeiro, no hospital estadual de Bom Sucesso, a enfermeira Cristina ligou para a pensão e pediu que a Sra. Rita levasse quaisquer pertences pessoais que o homem tivesse ao hospital.

A Sra. Rita levou sua velha mochila, seu caderno e a folha de papel dobrada em quatro. Quando a Sra. Rita entregou no balcão, a enfermeira Cristina abriu a folha na frente dela, leu e começou a chorar. A Sra. Rita perguntou o que estava escrito. Cristina não respondeu, dobrou a folha novamente, colocou-a no bolso do uniforme e correu lá para cima para falar com o diretor do hospital.

O diretor do hospital, Dr. Pereira, leu a folha em seu escritório. Ele releu, chamou a enfermeira e disse que a folha ficaria no hospital e que ela não deveria entregá-la à família. Cristina perguntou por quê. O Dr. Pereira respondeu com duas frases. A primeira foi: “O que diz esta folha? Se se tornar pública, destruirá ainda mais do que já foi destruído.” O segundo pensamento foi: aquele homem já sofreu o suficiente. “Vamos deixá-lo em paz.”

Cristina obedeceu, mas naquela mesma noite, antes de sair do hospital, ela fez uma cópia manuscrita, palavra por palavra, e levou para casa. Ela guardou em uma caixa de sapatos. 27 anos depois, em 2009, quando Cristina estava morrendo de câncer, ela pediu ao seu único filho para abrir a caixa. Dentro estava a cópia e uma folha com instruções. As instruções diziam: “Não publique enquanto Roberto estiver vivo.”

E quando você publicar, faça por Garrincha, por mais ninguém. O bilhete tinha três parágrafos. O primeiro era para Elsa. Garrincha pediu desculpas por ter parado de procurá-la. Ele disse que sabia que ela tinha pago pensão alimentícia por oito anos para o filho não reconhecido deles, sem seu conhecimento, usando seu próprio dinheiro. Ele pediu apenas uma coisa: que quando ela soubesse de sua morte, ela não fosse ao funeral, que ficasse em casa, que cantasse uma música para ele sozinha, que ele ouviria.

O segundo parágrafo era para Roberto. Dizia que ele sabia de tudo, sobre o dinheiro para os filhos não reconhecidos, que ele, Garrincha, perdoava, que dinheiro era apenas papel, que um filho era sangue e que sangue valia mais do que papel. E o terceiro parágrafo, o mais curto, apenas uma linha.

Aquela linha que o Dr. Pereira leu, e foi por causa dela que ele ordenou que o papel não saísse do hospital. A linha tinha sete palavras. E você vai descobrir agora. As sete palavras foram: “Eu me deixei morrer por vocês.”

Eu me deixei morrer por vocês. Por Elsa, que pagou pensão que não era dela. Por Roberto, que sustentou sua família com dinheiro que não era dele. Por Nair, que suportou oito anos em silêncio. Pelas suas 14 filhas, pela mãe que morreu no acidente, pelo pai a quem negou o último gole de cachaça, pelo Brasil que o transformou em um símbolo e depois o soltou no meio do nada.

Garrincha tinha se deixado morrer, ele escreveu, assinou com seu pesar, e um médico em um hospital público decidiu que aquela frase era pesada demais para o país suportar. A pergunta que permanece é: Quem realmente destruiu Garrincha? Não foi Roberto. Roberto só levou o dinheiro, mas Garrincha tinha decidido perdoá-lo. Não foi Elsa. Elsa pagou pensão que não era dela. Não foi Nair. Nair suportou 8 anos sem reclamar. Não foi Amaro, o pai alcoólatra. Não foi Maria Carolina, a mãe que morreu no banco de trás do Mercedes.

Foi uma ideia que destruiu Garrincha. A ideia de que um homem pobre do campo brasileiro, com pernas tortas, poderia salvar um país inteiro de um complexo de inferioridade. A ideia de que um único corpo, uma única vida, poderia carregar o orgulho de 60 milhões de pessoas por 15 anos sem quebrar.

Essa ideia foi mantida por jornalistas, treinadores, presidentes de clubes que o espremeram até a última gota, e torcedores que iam ao estádio para vê-lo driblar. Era como se seu corpo não envelhecesse em todo o país por 15 anos, até que seu corpo não aguentasse mais. Roberto só levou o dinheiro. O Brasil levou a vida.

Em 21 de janeiro de 1983, 150.000 pessoas passaram pelo Maracanã para se despedir de Garrincha. Homens de cinquenta anos chorando como crianças. Depois o cortejo atravessou a serra em direção a Pau Grande. Enterraram-no no cemitério da cidade em uma cova simples com uma placa contendo apenas duas palavras: “Alegria do povo.”

As flores frescas duraram seis meses, as visitas um ano. Hoje, quando um turista chega em Pau Grande, levam-no à estátua de bronze. Ninguém o leva ao túmulo. Existe uma frase que Elsa Soares disse em uma entrevista em 2015, 7 anos antes de morrer. Perguntaram-lhe se Garrincha tinha sido feliz durante os 15 anos que viveram juntos.

Elsa permaneceu em silêncio por muito tempo e depois respondeu: “Garrincha foi feliz por 90 minutos a cada quatro dias quando jogava. O resto do tempo ele era um homem interpretando o papel de Garrincha.” Existem milhões de homens como esse neste exato momento. Homens que aprenderam, como Garrincha, que seu valor depende do que fazem e não de quem são. Homens que sorriem no trabalho e quebram sozinhos no banheiro. Homens que têm sete filhos, mas ninguém para ligar às 3 da manhã.

Garrincha nunca aprendeu a parar, nunca aprendeu a dizer não. Ele nunca aprendeu que um homem vale o que é e não o que produz, e ele morreu sem aprender. Assim como milhões de homens comuns morrem, homens que ninguém lamenta em estádios, mas que morrem da mesma forma, sozinhos, em quartos alugados, com 13 centavos no bolso, sem ninguém na sala de espera.

Se você conhece alguém assim, não os deixe sozinhos esta noite. Ligue para eles, mesmo que atendam mal, mesmo que digam que não precisam de nada, ligue você. Se essa história fez você pensar em alguém, ligue hoje, não amanhã, hoje. E se você quiser continuar ouvindo histórias de ídolos que tiveram tudo e acabaram como Garrincha, inscreva-se no canal, porque a próxima é ainda mais sombria. Tchau.