
Ele cobrava para salvar pessoas, mas o destino era o forno. Este é talvez o mais cruel dos assassinos. Muitas pessoas pagaram fortunas a ele esperando escapar dos horrores nazistas, apenas para terminar nas mãos do próprio diabo. Preste muita atenção a esta história. Em uma segunda-feira de manhã, em março de 1944, uma fumaça espessa e negra começou a sair da chaminé de uma grande casa no número 21 de uma rua elegante em Paris.
Era um prédio de três andares com um pátio interno e um antigo estábulo nos fundos, o tipo de lugar que um dia pertenceu à nobreza francesa. Mas, naquela manhã, o que saía de lá não era fumaça de lareira; era algo diferente. O cheiro grudava na garganta, depois descia para o estômago.
Os vizinhos fecharam suas janelas, esperaram 1, 2, 3, 5 dias com a fumaça, e ninguém apareceu para consertar. No sábado, um dos vizinhos atravessou a rua e bateu naquela porta. Ninguém respondeu. Havia apenas um bilhete colado ali. O proprietário avisava que estaria ausente por um mês. O vizinho então chamou a polícia.
Dois policiais chegaram, e os moradores da rua disseram que o dono da casa era um médico que morava em outro endereço, a cerca de 3 km de distância. Disseram também que, nos últimos meses, tinham visto algo estranho ali. Pessoas chegavam àquela casa à noite, às vezes com malas, e então ninguém nunca mais via essas pessoas saindo.
Um homem aparecia regularmente com uma carroça puxada por cavalos, sempre ao amanhecer. A polícia ligou para o médico, o suposto dono da casa. Ele atendeu e disse para esperarem, que estava indo para lá com as chaves da casa. Meia hora passou, uma hora passou e nada aconteceu, e a fumaça continuava.
Os policiais ficaram preocupados com um incêndio e chamaram o corpo de bombeiros. Uma equipe então chegou e, como ninguém abria a porta, um bombeiro escalou a fachada e entrou por uma janela do segundo andar. Ele desceu ao porão, seguindo o odor. Então ele parou. Havia um forno de carvão aceso. Saindo de dentro do forno, como se estivesse acenando, estava um braço humano carbonizado.
No chão, por toda parte, havia pedaços de corpos em diferentes estágios de decomposição, sacos de lona empilhados cheios de fragmentos de ossos e uma banheira de cal virgem contendo restos humanos parcialmente dissolvidos. E no ar, aquele cheiro que os vizinhos vinham notando há dias: carne queimada. Enquanto bombeiros e policiais ainda tentavam processar o que estavam vendo, um homem parou em frente à casa, chegou em uma bicicleta verde e a empurrou em meio à multidão de curiosos.
Ele era magro, pálido, bem barbeado, vestindo um sobretudo cinza-escuro, sem chapéu na cabeça. Ele suava muito. Tinha pouco mais de quarenta anos, com olhos escuros, quase pretos, e uma calma que não combinava nada com a situação. Ele disse que era irmão do proprietário da casa. A polícia o levou ao porão. O homem olhou para os restos humanos espalhados pelo chão, olhou para o forno e disse, sem mudar o tom: “Isso é grave. Minha cabeça pode estar em jogo”.
Então ele fez algo incomum. Ele olhou para os policiais e perguntou: “Vocês são franceses?”. Os policiais acharam a pergunta ofensiva. É claro que eram franceses. E o homem, naquela voz firme, explicou: “Isso foi obra da resistência. Esses corpos eram de alemães e traidores, colaboradores que mereciam morrer”.
E se a polícia desse essa informação aos nazistas, ele e muitas pessoas boas acabariam sendo fuzilados. Era 1944. Paris estava ocupada pelos alemães. A resistência francesa era tratada como uma causa sagrada. Um dos policiais, chamado Tessier, prestou continência ao homem e disse que não mencionaria a visita quando seus superiores chegassem. Ele até aconselhou o homem a fugir, e o homem subiu em sua bicicleta verde e foi embora, pedalando calmamente pelas ruas de Paris.
Essa foi a pior decisão que a polícia francesa tomou em décadas. Eu sou Marcos Campos, e esta é uma história que se passa em um país sitiado pelos nazistas, onde as pessoas gastavam fortunas para escapar dos horrores da guerra nazista e acabavam caindo nas mãos de algo tão ruim quanto. Vamos conhecer essa história muito peculiar, como uma falsa rota de fuga para a América do Sul matou dezenas de pessoas sem que ninguém suspeitasse.
O que a polícia encontrou naquele porão além dos corpos? E quem era realmente o homem da bicicleta verde? É isso que vamos descobrir juntos no episódio especial de hoje. Então, prepare-se para o ritual de engajamento e vamos aos fatos. Para entender o que aconteceu naquela mansão, precisamos voltar um pouco e entender como era Paris sob a ocupação nazista.
Quando a Alemanha nazista invadiu e derrotou a França, o país inteiro mudou da noite para o dia. Paris, a cidade dos cafés e boulevards da liberdade, tornou-se uma cidade de toques de recolher, denúncias e medo generalizado. Soldados alemães patrulhavam as ruas. A polícia de segurança nazista, informantes e a colaboração do regime de Vichy faziam de Paris parecer uma cidade onde qualquer conversa poderia se transformar em uma acusação.
E para aqueles que eram judeus, a situação tornou-se cada vez mais desesperadora. Especialmente a partir de 1942, prisões e deportações tornaram-se uma ameaça real. Muitas pessoas sabiam, ou pelo menos suspeitavam, que ser levado poderia significar nunca mais voltar. Nesse cenário, surgiu um mercado clandestino de fuga. Redes de contrabando, rotas secretas através da Espanha e Portugal, documentos falsificados.
Para aqueles com dinheiro, havia uma pequena e arriscada chance, mas ela existia, de escapar da Europa ocupada e chegar, por exemplo, à América do Sul, onde países como a Argentina recebiam imigrantes. Muitas dessas rotas eram legítimas, operadas por membros reais da Resistência Francesa, que arriscavam suas vidas para salvar judeus e refugiados políticos.
Outras eram golpes de oportunistas que cobravam fortunas e desapareciam com o dinheiro. Mas, como eu sempre tenho mais, certo? Havia uma rota que era diferente de todas as outras. Nessa rota, a pessoa pagava, entregava tudo o que tinha e simplesmente desaparecia da face da Terra, sem deixar rastro, sem uma carta, sem um corpo.
E como Paris estava em guerra, como as pessoas desapareciam todos os dias, presas pela força policial nazista, deportadas, fuziladas, ninguém achava estranho que mais uma família tivesse desaparecido. Era apenas mais um nome em uma lista interminável de desaparecidos. Essa rota tinha até um codinome, Fly Tox. E Fly Tox não era um nome aleatório, era o nome de uma marca popular de inseticida.
Aqueles sprays usados para matar moscas e mosquitos, sabe? E o nome era macabramente apropriado para aquela operação clandestina, uma rede que prometia salvar pessoas, mas terminava em morte. A rede Fly Tox era comandada por um homem que se apresentava como Dr. Eugène. Ninguém sabia seu nome real. E essa era a ideia.
Ele operava através de três intermediários, digamos assim, que circulavam por bares, comunidades judaicas e círculos clandestinos em Paris, oferecendo algo irresistível. Passagem segura para a Argentina via Portugal, com todos os documentos incluídos. O preço: 25.000 francos por pessoa. Uma fortuna na época, dinheiro suficiente para tirar praticamente tudo o que uma família ainda tinha.
Mas para aqueles que fugiam dos nazistas, o dinheiro era o menor dos seus problemas. A vida valia muito mais. Os intermediários instruíam as vítimas a levar tudo de valor que tivessem: dinheiro, joias, casacos de pele, ouro, diamantes — diziam que eles levariam. Eles precisariam disso em sua nova vida.
E assim eles direcionavam as pessoas para uma casa discreta em uma rua elegante em Paris, perto do Arco do Triunfo. Quando a vítima chegava, o Dr. Eugène os cumprimentava pessoalmente. Ele era muito educado, articulado, transmitia segurança. Ele explicava que o governo argentino exigia que todos os imigrantes fossem vacinados antes de entrar no país.
Isso fazia sentido? Ninguém questionava, e então ele aplicava uma injeção, mas não era uma vacina. De acordo com a acusação e a versão mais aceita do caso, era veneno, geralmente descrito como cianeto. O ponto é que, após aquela vacinação, as vítimas nunca mais saíam da casa vivas.
A vítima era levada para um quarto construído sob medida no porão da casa. Este quarto era isolado, trancado por fora e não oferecia saída fácil por dentro. Tinha ganchos de metal nas paredes e um detalhe que os investigadores descreveram como uma das coisas mais sinistras da casa: um olho mágico instalado na parede, usado para observar do lado de fora o que acontecia dentro.
E após a vítima morrer, o Dr. Eugène reunia todos os seus pertences — dinheiro, joias, até roupas — e se livrava do corpo. No início, ele jogava os restos mortais no rio Sena, mas quando os alemães aumentaram as patrulhas ao longo das margens, ele começou a dissolver os corpos em cal virgem e queimá-los na fornalha do porão.
Só para você ter uma ideia da escala do que estava acontecendo lá, quando a polícia finalmente revistou a casa inteira, encontrou 72 malas, 65 kg de pertences pessoais, 1760 peças de roupa — casacos de lã, vestidos, saias, bolsas, ternos masculinos, pares de sapatos. E em meio a tudo isso, um pijama infantil pertencente a uma criança chamada René Néller, que havia desaparecido ali junto com seus pais.
Isso porque a família inteira havia procurado o Dr. Eugène, acreditando que iriam começar uma nova vida na Argentina. Agora você vê quem era o monstro por trás desse homem? De onde ele veio? E como alguém chega ao ponto de montar tal operação? O nome real por trás do Dr. Eugène era Marcel Petiot.
Ele nasceu em 1897 em Auxerre, uma pequena cidade no centro-norte da França. Desde a infância, mostrava sinais de algo fora do comum. Foi expulso de várias escolas por comportamento violento e antissocial. Há relatos de que ele disparou a arma do pai dentro da sala de aula. Na adolescência, foi pego roubando correspondência de uma caixa de correio.
E quando foi levado para uma avaliação psiquiátrica, o diagnóstico foi doença mental. Por volta dos 19 anos, alistou-se no exército francês durante a Primeira Guerra Mundial. Foi ferido e exposto a gás durante uma batalha. E começou a ter episódios. Foi enviado para sanatórios, onde foi preso por roubar cobertores do exército, morfina, carteiras de outros soldados e até fotografias.
Em certo momento, segundo registros militares, ele supostamente colocou uma granada dentro de um cano e colocou o pé na frente da abertura para ser dispensado do serviço devido ao ferimento. Obteve uma pensão por invalidez. Após a guerra, Petiot entrou em um programa. Ele fez um curso de educação acelerada para veteranos. Concluiu todo o curso de medicina em 8 meses e formou-se em dezembro de 1921.
Ele então se estabeleceu em uma pequena cidade chamada Villeneuve-sur-Yonne, onde começou a tratar pacientes enquanto, simultaneamente, abastecia o mercado negro com narcóticos e realizava abortos ilegais. Em algum momento de sua vida nesta cidade, Petiot começou a se envolver com as pessoas ao seu redor de uma maneira cada vez mais perigosa. Em 1926, ele teve um caso com uma mulher chamada Luisette Delaveau, filha de uma paciente idosa sua.
Ela desapareceu em maio daquele ano. Vizinhos disseram à polícia que tinham visto Petiot carregando um baú para dentro de seu carro. A polícia investigou, encontrou evidências insuficientes e encerrou o caso como uma fuga voluntária. Muitos pesquisadores consideram Luisette sua primeira vítima. Mas, em vez de ficar quieto após esse episódio, Petiot fez o oposto: candidatou-se a prefeito e venceu.
Como? Ele pagou alguém para tumultuar o debate eleitoral de seu oponente, fazendo com que ele perdesse o controle da situação. Uma vez no cargo, Petiot desviou fundos públicos, fraudou contratos e conectou a rede elétrica da cidade diretamente à sua própria casa para evitar pagar a conta de luz. Ele foi suspenso de seu cargo em 1931 e, antes de ser oficialmente expulso, mudou-se para Paris.
Em Paris, ele montou um consultório na Rue de Caumartin e construiu uma reputação médica ali usando credenciais falsas. Ele tratava muitos pobres de graça, o que lhe conferia uma imagem de benfeitor. E nos bastidores, ele continuava receitando narcóticos e realizando abortos ilegais. Em 1936, recebeu autoridade para emitir certidões de óbito.
No mesmo ano, foi brevemente hospitalizado por cleptomania. Então veio a Grande Guerra. E a guerra foi a oportunidade perfeita para um homem como Petiot. Enquanto milhões sofriam sob a guerra, Petiot via lucro. Primeiro, começou a emitir certificados falsos de invalidez para cidadãos franceses que eram recrutados para trabalho forçado na Alemanha, o que, em teoria, poderia até ser considerado um ato de resistência.
Mas a partir de 1942, com seus três intermediários, Raoul Fourrier e René-Gustave Nézondet, ele montou a rede Fly Tox, que já mencionei, e começou a matar pessoas sistematicamente. A Gestapo, estranhamente, acabou sendo a primeira a suspeitar da rede de Petiot, ou do Dr. Eugène. Eles não suspeitavam que fosse um esquema de assassinato.
Eles achavam que era uma operação real de resistência ajudando judeus a escapar. Em 1943, um agente da Gestapo chamado Robert Jodieu forçou um prisioneiro chamado Yvan Dreyfus a se infiltrar na rede. Dreyfus entrou e nunca mais foi visto. Quando essa abordagem falhou, a Gestapo enviou outro informante que se infiltrou com sucesso e identificou os três intermediários de Petiot.
Eles foram presos e torturados. Sob tortura, confessaram que o Dr. Eugène era Marcel Petiot. No entanto, eles não tinham informações sobre a resistência porque nunca fizeram parte dela. Mesmo assim, foram presos por oito meses sob suspeita de ajudar judeus a escapar. O próprio homem… Marcel Petiot foi preso pela Gestapo em maio de 1943 e detido até janeiro de 1944. Alguns relatos sugerem que sua libertação envolveu influência ou dinheiro, mas o fato central é que os alemães não conseguiram provar que ele fazia parte de uma rede de resistência. E é aí que entra a cena que vimos no início do episódio. Dois meses após sair da prisão da Gestapo, a fumaça começou a subir da chaminé da casa da Rue Le Sueur.
Petiot, o homem da bicicleta verde, lembra? Ele conseguiu convencer dois policiais franceses, no meio de um porão cheio de cadáveres, de que tudo aquilo era um trabalho patriótico. Depois que Petiot pedalou para longe daquela casa, as coisas começaram a se mover. O comissário Georges-Victor Massu, um veterano de 33 anos de polícia com mais de 3.000 prisões em seu histórico, assumiu o caso e conduziu uma busca minuciosa na casa.
Ele encontrou estruturas preparadas para lidar com restos humanos: o quarto isolado com um olho mágico, a banheira com cal virgem. Ele catalogou tudo, os sapatos… Os vestidos, as malas, os ternos, o pijama do garotinho. Naquela mesma noite, o comissário Massu recebeu um telefonema urgente em sua casa. Ele saiu da cama, vestiu seu sobretudo e atravessou Paris na escuridão do toque de recolher.
Já passava da 1h30 da manhã e Massu ainda estava no local, trabalhando, quando chegou um telegrama da sede da polícia, dizendo: “Ordem das autoridades alemãs: prendam Petiot, lunático, perigoso”. E é aqui que a história toma um rumo que parece ficção. Para a polícia francesa, o fato de a ordem de prisão ter vindo dos alemães era, na verdade, um ponto a favor de Petiot.
Na lógica da época, se os nazistas queriam prender alguém, significava que essa pessoa era inimiga dos nazistas, ou seja, um herói da resistência. A polícia, que já havia libertado Petiot horas antes, agora corria para encontrá-lo. Quando finalmente foram ao seu apartamento na Rue de Caumartin, o lugar estava vazio.
Petiot, sua esposa e filho haviam desaparecido. Em vez de montar uma caçada humana, os investigadores interrogaram os pedreiros que haviam reformado a casa com a chaminé sinistra. Prenderam o irmão Maurice, que confessou ter entregue a cal virgem a pedido de Marcel Petiot. Também prenderam os três intermediários, mas não havia sinal de Marcel.
Petiot permaneceu foragido por sete meses, deixou a barba crescer, mudou de nome várias vezes e se escondeu na casa de amigos, inclusive de um paciente, alegando que a Gestapo estava atrás dele por ter matado colaboradores. Então ele fez a coisa mais audaciosa de sua vida, o que, para um homem que já tinha convencido policiais a ignorar um porão cheio de cadáveres, talvez dissesse muito.
Em agosto de 1944, durante a libertação de Paris, com a resistência saindo das sombras e as forças da França Livre entrando na cidade, Petiot adotou o nome Henri Valeri. Ele se alistou nas Forças Francesas do Interior, a milícia da resistência, e tornou-se capitão — não um capitão qualquer, mas um capitão de contraespionagem e interrogatório de prisioneiros.
Sabe aquela sensação de assistir a um filme onde o vilão está sentado ao lado da polícia ajudando na investigação? Talvez ninguém nem note que é ele mesmo. Bem, Petiot fez isso na vida real, só que em uma escala muito maior. Ele estava literalmente dentro do sistema que deveria estar caçando-o. E as coisas ficaram ainda mais absurdas.
Em setembro de 1944, o jornal Résistance publicou uma reportagem acusatória sobre Petiot intitulada “Petiot, soldado do Reich”. O que qualquer pessoa sensata faria é ficar quieta, mas Petiot, operando como Capitão Valeri, não resistiu e enviou uma longa carta manuscrita ao jornal, defendendo-se e alegando ser um herói da resistência.
A polícia analisou a caligrafia e confirmou que era ele. E agora eles tinham a certeza que não tinham antes. Petiot estava vivo em Paris. Então, circularam a carta pelas forças policiais e não demorou muito para que alguém conectasse a letra e o rosto do Capitão Valeri ao homem mais procurado da França.
E então vem o detalhe mais surreal de toda essa história. Segundo os registros da investigação, quando a polícia montou uma nova equipe de busca para encontrar Petiot, o próprio Petiot, sob a identidade de Henri Valeri, foi convocado para participar da operação. Ele foi escalado para caçar a si mesmo. Em 31 de outubro de 1944, sete meses após pedalar para longe daquele porão, daquela casa de horrores, Petiot foi reconhecido em uma estação de metrô de Paris.
Quando a polícia o revistou, encontrou uma pistola, 31.700 francos e 50 documentos de identidade com sete nomes diferentes. O julgamento de Marcel Petiot começou em março de 1946 no Palácio da Justiça em Paris. Ele enfrentou 135 acusações criminais, incluindo 27 assassinatos. Do outro lado estava uma equipe de promotores públicos e 12 advogados civis contratados pelas famílias das vítimas.
A imprensa transformou o caso em um circo. Notícias chegaram à Suíça, Bélgica, Escandinávia, e Petiot transformou o tribunal em um palco, defendido pelo famoso advogado René Floriot, que tentou pintá-lo como um herói da resistência. Marcel Petiot tomou as rédeas de sua própria defesa, interrompeu o juiz, zombou dos promotores e interrogou as testemunhas como se fosse o promotor.
Quando o juiz Marcelin chamou sua atenção por ele estar fazendo rabiscos ali, de forma algo desdenhosa durante o julgamento, durante os depoimentos, Petiot respondeu que estava ouvindo, mas que aquilo não lhe interessava muito. Sua estratégia era simples e descarada: admitir ter matado 19 dos 27 assassinatos de que era acusado, dizendo que todos eram alemães e traidores da França.
Ele disse que fazia parte de um total de 63 inimigos que ele havia eliminado a serviço da pátria. Quando perguntado sobre a família Néller, a do pijama do garotinho, lembra? Petiot disse que tinha ajudado aquela família a escapar com identidades falsas e que eles não tinham entrado em contato porque eram ingratos. O promotor mencionou o pijama do menino René, encontrado lá na casa dos horrores.
Petiot, imperturbável, disse que o menino tinha dormido com ele na última noite antes da fuga e que a família o deixou para trás porque não queria carregar roupas sujas com suas iniciais bordadas. Ele conseguia contradizer os documentos falsificados quando perguntado sobre um judeu chamado Joachim Guschinow, que havia desaparecido com 500.000 francos em dinheiro, cinco casacos de zibelina e também uma enorme quantidade de ouro e diamantes.
Petiot disse que ele estava vivo e bem na América do Sul. Os promotores perguntaram por que não podiam encontrá-lo, e Petiot sorriu e disse que a América do Sul era um continente gigante e vasto. No quinto dia do julgamento, juízes e jurados visitaram a “Casa da Chaminé”. Enquanto Petiot caminhava por um corredor de policiais e vizinhos hostis, ele olhou em volta e soltou um suspiro.
Que retorno peculiar, não acha? A defesa tentou apresentar grupos de resistência que supostamente trabalhavam com Petiot, mas os grupos que ele citou não existiam. Nenhum líder da resistência conhecia Petiot como membro ativo. As organizações que ele descreveu em detalhes eram fictícias. E quando os promotores mostraram que ele havia lucrado mais de 200 milhões com a confiscação dos pertences das vítimas, equivalente a milhões de dólares, o argumento patriótico desmoronou. O tribunal condenou Marcel Petiot por 26 dos 27 assassinatos, sentenciando-o à morte pela guilhotina. A execução, marcada para maio de 1946, foi adiada alguns dias devido a um problema técnico. O mecanismo de liberação da lâmina estava com defeito.
Quando o dia 25 de maio finalmente chegou, os guardas foram buscar Petiot em sua cela às 4h45 da manhã. Ele estava lá dormindo de costas, com as mãos algemadas sobre o peito e as pernas acorrentadas e cruzadas. Ele usava um pijama de prisão preto e estava em um sono profundo. Eles o acordaram, disseram as palavras que a tradição ditava: “Tenha coragem, seja bravo. Chegou a hora”. Petiot abriu os olhos e encarou o grupo ao seu redor. Seu pescoço estava raspado, sua camisa cortada para expor a nuca. Ele pediu um cigarro. O advogado se apiedou, deu-lhe um seu, e Marcel Petiot fumou. Então ele abraçou o capelão, virou-se para seu advogado e pediu que, se alguém publicasse algo sobre seu caso após sua morte, deveriam incluir uma foto das vítimas, para que talvez alguém, em algum lugar, se lembrasse de vê-las vivas após as datas em que ele as tinha matado.
Ele disse que isso provaria sua inocência. Ele beijou o capelão três vezes na bochecha. Levaram-no para o pátio. A guilhotina estava montada. Ele olhou por cima do ombro para os homens que tinham vindo assistir. Todos estavam vestindo seus melhores ternos e mantinham distância por causa do sangue que poderia espirrar.
Petiot sorriu e disse: “Não olhem, senhores, não será bonito”. Segundos depois, a lâmina caiu. Esse foi Marcel Petiot, o homem que prometeu salvação a famílias inteiras e angustiadas fugindo do horror da guerra. E ele mesmo era o horror de que elas estavam fugindo. O mais assustador de tudo é que Petiot não agiu sozinho ou em segredo.
Ele operou bem debaixo do nariz de vizinhos, policiais, informantes e até da Gestapo, e depois conseguiu se infiltrar no próprio ambiente que deveria estar caçando criminosos e seus colaboradores. Todos olharam para ele em algum momento. Ninguém viu o que ele era. Ou talvez ninguém quisesse ver.
A casa da Rue Le Sueur foi demolida no início dos anos 1950 e substituída por um novo prédio. Os mais de 200 milhões de francos que ele roubou de suas vítimas nunca foram recuperados. E eu sou imensamente grato pela sua companhia. Um beijo do ruivo e nos vemos no próximo episódio.