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empresários do agro viaja ao Tocantins cobrar dívida de R$ 8 milhões e desaparece sem explicação

 

Empresários do agro viajam ao Tocantins para cobrar dívida de R$ 8 milhões e desaparecem sem explicação 

O que motiva quatro empresários de sucesso a dirigir 500 km pelo interior do Brasil para cobrar uma dívida pessoalmente? Em abril de 2011, essa pergunta ecoou pelos corredores da Associação Comercial de Goiânia, enquanto quatro empresários do agronegócio se preparavam para o que seria sua última viagem de negócios juntos.

Jair Mendonça, 52 anos, pecuarista com propriedades em três estados. Sérgio Valadares, 47, especialista em commodities e exportação de soja. Cláudio Furtado, 44, dono de uma rede de insumos agrícolas. Paulo Naves, 39, o mais jovem do grupo. Contador especializado em operações agrícolas de grande escala.

Unidos não apenas pelos negócios, mas por uma amizade de duas décadas forjada em leilões de gado e feiras agrícolas por todo o país, os quatro homens enfrentavam um problema comum: uma dívida de R$ 8 milhões que parecia impossível de ser resolvida à distância. O devedor era conhecido apenas como Sr. Baltazar, um fazendeiro que possuía extensas terras na região de Peixe, no Tocantins.

Por meses, ele havia prometido resolver o assunto por telefone, sempre com novas desculpas e prazos que nunca eram cumpridos. A transação envolvia a compra de gado Nelore e soja, que já haviam sido entregues, mas o pagamento nunca chegou às contas dos empresários. “Vamos lá resolver isso pessoalmente”, decidiu Jair durante uma reunião na sede de sua empresa, em Anápolis.

Oito milhões não é dinheiro que se perde assim. Na manhã de 22 de abril, os quatro homens entraram na picape Toyota Hilux blindada de Sérgio. O veículo, equipado com rastreador GPS e vidros à prova de balas, havia sido escolhido especificamente para a viagem. Eles sabiam que o interior do Tocantins podia ser imprevisível, especialmente quando se tratava de cobrar milhões em dívidas.

A última imagem deles foi capturada pelas câmeras de segurança do posto de gasolina Ipiranga, nos arredores de Goiânia. Sérgio encheu o tanque enquanto Cláudio comprava água e biscoitos para a viagem. Paulo checou os mapas no celular, tentando localizar a fazenda de Baltazar. Jair permaneceu no banco do passageiro, conversando ao telefone com a esposa, prometendo estar de volta no final da tarde. Eram 10h15 quando a Hilux prata deixou o posto, seguindo em direção ao norte pela BR-153. O GPS indicava 7h30 de viagem até o destino final. Nenhum deles imaginava que aquela seria a última vez que seriam vistos com vida. Às 21h do dia 22 de abril de 2011, quatro telefones tocaram insistentemente em casas de classe média-alta em Goiânia, mas ninguém atendeu.

Marina Mendonça, esposa de Jair, foi a primeira a sentir que algo estava errado. Seu marido sempre ligava no horário combinado, especialmente em viagens de negócios. Quando a meia-noite chegou sem qualquer contato, ela começou a ligar para outros familiares. “Eles prometeram voltar hoje”, disse Carla Valadares ao telefone, com a voz já demonstrando preocupação. “O Sérgio nunca quebra a palavra quando se trata de compromissos em casa.” A primeira tentativa de contato foi através do rastreador do veículo. O sinal havia parado às 14h37 em uma coordenada correspondente a uma estrada de terra a 40 km de Peixe, próximo ao rio Tocantins. Depois disso, apenas silêncio eletrônico. Na manhã seguinte, as esposas se encontraram na delegacia de Anápolis para relatar o desaparecimento.

O delegado Marcelo Tavares, acostumado a casos de rotina na região, inicialmente expressou ceticismo. “Minhas senhoras, é comum em negociações de negócios rurais que as tratativas se estendam por dias”, explicou ele, folheando o boletim de ocorrência, “especialmente quando altas somas de dinheiro estão envolvidas, como vocês estão relatando.” Mas as esposas conheciam seus maridos. Sabiam que nenhum deles desapareceria sem avisar, especialmente Jair, que tinha uma filha de 10 anos esperando por ele em casa para ajudar com a lição de casa de matemática, como faziam toda sexta-feira.

Durante a primeira semana, as buscas concentraram-se na região onde o rastreador havia perdido o sinal. Policiais militares do Tocantins percorreram estradas de terra, conversaram com moradores locais e visitaram propriedades rurais da área. As respostas variavam entre “Não vi nada” e “Uma picape passou por aqui, mas não parou”. O mais intrigante era que ninguém conseguia localizar esse tal de Sr. Baltazar. O endereço fornecido aos empresários levava a uma porteira de madeira sem identificação, em uma estrada que desaparecia em pastagens aparentemente abandonadas. Um caseiro que morava na região disse ter ouvido falar do nome, mas não soube especificar exatamente onde ficava sua propriedade. “É estranho”, comentou o sargento Alves, que comandava as buscas, “uma dívida de 8 milhões e ninguém sabe ao certo quem deve esse dinheiro.”

Após 15 dias, as famílias contrataram investigadores particulares e ofereceram uma recompensa de R$ 100.000 por informações. Cartazes com fotos dos quatro empresários foram espalhados por cidades do interior do Tocantins e sul do Pará. Foi então que as versões contraditórias começaram a surgir. Um peão de uma fazenda próxima às últimas coordenadas de GPS afirmou ter visto a picape prata no final da tarde do dia 22. Segundo ele, havia quatro homens de terno conversando com alguém perto de uma porteira. “Eles pareciam nervosos”, relatou. Depois, seguiram pela estrada. Um comerciante da cidade de Alvorada insistiu que os empresários pararam em seu estabelecimento no início da noite, pedindo direções para voltar à rodovia principal. “Disseram que não encontraram quem procuravam e queriam voltar para Goiás o mais rápido possível”, afirmou. Era impossível que ambas as versões fossem verdadeiras simultaneamente.

Enquanto isso, outros credores começaram a aparecer. Documentos revelaram que o misterioso Baltazar devia somas significativas a pelo menos outras três empresas do agronegócio, totalizando aproximadamente R$ 8 milhões em dívidas não pagas. A cada semana que passava, o desaparecimento assumia contornos mais sombrios. Não era apenas uma cobrança que havia dado errado. Era um quebra-cabeça, onde cada nova peça tornava tudo ainda mais incompreensível.

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Seis meses e doze dias após o desaparecimento, um catador de materiais recicláveis fez uma descoberta que reacenderia as investigações. Benedito Silva, 58 anos, caminhava por galpões industriais abandonados nos arredores de Palmas em busca de sucata, quando notou algo incomum em um edifício que visitava regularmente. A estrutura de concreto, usada anteriormente como depósito por uma transportadora falida, sempre esteve vazia. Mas naquele dia, 4 de novembro de 2011, uma picape ocupava o centro do espaço.

“Achei estranho porque o portão estava sempre aberto e agora estava trancado com um cadeado novo”, contou Benedito posteriormente aos investigadores. “Quando consegui entrar por um buraco na parede dos fundos, vi que havia um carro lá dentro.” A Toyota Hilux prata, ano 2009, estava posicionada quase de forma cerimonial no centro do galpão. As rodas haviam sido retiradas e o veículo repousava sobre blocos de concreto, mas o mais marcante foram as alterações. As placas haviam sido removidas e o número do chassi fora cuidadosamente raspado com uma lixadeira angular.

Benedito, que trabalhara anteriormente em uma oficina mecânica, reconheceu o método profissional utilizado para apagar a identificação do veículo. “Quem fez isso sabia o que estava fazendo”, observou. A Polícia Civil foi acionada e, através do sistema de rastreamento interno e características específicas do motor, confirmou que se tratava da picape pertencente aos empresários desaparecidos.

O interior do veículo contava uma história fragmentada. No banco do motorista, os investigadores encontraram uma pasta de couro vazia com o zíper aberto, a qual as famílias confirmaram pertencer a Cláudio Furtado. Era onde ele sempre guardava contratos e documentos importantes para viagens de negócios. No assoalho do veículo, principalmente na área do porta-malas, havia manchas amareladas que os peritos inicialmente suspeitaram ser sangue. No entanto, exames laboratoriais revelaram algo inesperado: eram resíduos de óleo vegetal, possivelmente óleo de soja. “Parece que eles transportaram algum tipo de carga líquida ali dentro”, explicou o perito criminal Roberto Andrade. As manchas sugerem vazamento de recipientes que continham produtos de soja.

Ainda mais intrigante foi a descoberta de que o galpão havia sido alugado apenas 15 dias após o desaparecimento dos empresários. O inquilino identificou-se como José da Silva e pagou seis meses de aluguel em dinheiro vivo, adiantado. Questionado, o proprietário do imóvel admitiu que não pediu documentos porque o homem parecia honesto e pagou tudo à vista. A descrição física desse José da Silva era vaga: um homem entre 40 e 50 anos, estatura mediana, cabelos escuros e sotaque rural. Características que poderiam se aplicar a milhares de pessoas. As câmeras de segurança da área não cobriam a entrada do galpão, mas um posto de gasolina a 2 km de distância registrou um guincho transportando um veículo coberto por uma lona passando pelo local três semanas antes da descoberta. As imagens mostravam apenas a silhueta de uma picape sendo transportada no final da tarde.

A descoberta da Hilux levantou mais perguntas do que respostas. Por que esconder o veículo de maneira tão elaborada? Por que usar óleo de soja para mascarar outros vestígios? E, mais importante, se alguém se deu ao trabalho de esconder a picape, onde estavam os quatro empresários? O investigador federal Marcos Vinícius, que assumiu o caso após a descoberta do veículo, resumiu o sentimento da equipe de investigação: “É como se alguém quisesse que nós encontrássemos a picape, mas não os donos. Uma mensagem que ainda não conseguimos decifrar.”

O reviravolta neste caso veio de onde menos se esperava: os arquivos de um cartório na cidade de Araguaína. Em março de 2012, quase um ano após o desaparecimento, a escrivã, Dona Cleusa, organizava documentos antigos quando se deparou com uma pasta marcada como “pendências abril de 2011”. Dentro, encontrou contratos de compra e venda de gado que nunca haviam sido registrados. Oficialmente, os documentos revelavam uma operação muito mais complexa do que uma simples dívida de R$ 8 milhões. Na realidade, o chamado Sr. Baltazar era um nome fictício utilizado por um consórcio de três fazendeiros da região, que haviam criado um esquema elaborado para fraudar o setor do agronegócio.

O líder do grupo era Ademar Correia, conhecido na área como uma pessoa influente e com boas conexões políticas. Operando ao lado dele estavam Valdomiro Santos e Aparecido Mendes, todos proprietários legítimos de propriedades rurais, mas envolvidos em transações fraudulentas com empresários de outros estados. O método era sempre o mesmo: apresentavam-se como representantes de um fazendeiro fictício chamado Baltazar. Compravam gado e soja com promessa de pagamento parcelado, revendiam os produtos rapidamente e, em seguida, alegavam que o devedor real havia desaparecido ou morrido.

Mas o arquivo do cartório continha algo ainda mais revelador: um contrato datado de 21 de abril de 2011, um dia antes do desaparecimento dos empresários. O documento mostrava que o grupo havia tentado legalizar uma venda de gado no valor exato de R$ 8 milhões, mas a transação foi cancelada no último minuto. Cleusa, a escrivã, ao ler os documentos com mais atenção, notou uma anotação manuscrita na margem: “Compradores chegaram no dia 22 e cancelaram tudo. A situação foi resolvida de outra forma.” A caligrafia foi posteriormente identificada como pertencente a Ademar Correia.

Confrontado com os documentos, Ademar inicialmente negou qualquer envolvimento. No entanto, quando os investigadores começaram a pressionar seus cúmplices, Valdomiro Santos entrou em pânico e procurou um advogado para negociar uma delação premiada. O que ele revelou foi ainda mais chocante do que as famílias haviam imaginado.

Segundo Valdomiro, os quatro empresários de fato chegaram à fazenda na tarde do dia 22 de abril. Rapidamente, descobriram que Baltazar não existia e que haviam sido vítimas de um golpe elaborado. Jair Mendonça, o mais experiente do grupo, ameaçou processar criminalmente todos os envolvidos e disse ter documentos suficientes para colocá-los na cadeia. “Eles não vieram apenas cobrar”, confessou Valdomiro. “Eles vieram com advogado, contador, tudo documentado. Sabiam que era um golpe e queriam provas.”

A situação escalou rapidamente. Ademar, temendo a exposição de anos de fraudes que poderiam não apenas arruinar sua reputação, mas também comprometer políticos locais que facilitavam suas operações, tomou uma decisão drástica. Os empresários foram mantidos em cativeiro na própria fazenda enquanto o grupo decidia o que fazer. Por três dias, tentaram negociar um acordo de confidencialidade. Eles ofereceram pagar parte da dívida em troca de o pessoal de Goiás retirar o caso e não acionar a justiça. Jair Mendonça recusou qualquer acordo. “Oito milhões é apenas o começo”, disse ele, segundo Valdomiro. “Vocês pagarão tudo o que me devem e aos outros que roubaram.”

Foi então que Ademar decidiu que eles não poderiam voltar para casa. Valdomiro recusou-se a detalhar exatamente o que aconteceu nos dias seguintes, alegando que não estava diretamente envolvido. Apenas disse que os corpos foram “desovados” por Ademar e um quarto homem, o qual ele se recusou a identificar. A picape foi escondida no galpão de palmeiras como forma de despistar a investigação. A ideia era fazer parecer que os empresários haviam desaparecido na estrada, vítimas de roubo ou sequestro, e não em uma fazenda específica. “Ademar disse que era melhor eles encontrarem o carro longe da fazenda”, revelou Valdomiro. “Dessa forma, ninguém suspeitaria de nós.”

Ademar Correia foi preso em sua propriedade rural uma semana após as revelações de Valdomiro. Durante o interrogatório, permaneceu em silêncio, apenas confirmando sua identidade. Aparecido Mendes foi encontrado morto em sua casa três dias depois, em circunstâncias que a polícia classificou como suicídio. Apesar das confissões e prisões, os corpos dos quatro empresários nunca foram encontrados. Ademar levou esse segredo para sua cela, onde cumpre pena de prisão perpétua até hoje.

As famílias obtiveram o reconhecimento legal da morte dos empresários e uma compensação parcial através do leilão das propriedades dos criminosos. Mas o dinheiro nunca compensou a ausência, nem respondeu à pergunta que os assombra até hoje: onde estão os restos mortais de Jair, Sérgio, Cláudio e Paulo?

Todos os anos, no dia 22 de abril, as quatro viúvas reúnem-se na Igreja do Rosário, em Goiânia, para uma missa em memória de seus maridos. Na saída, a mesma pergunta é direcionada aos jornalistas presentes: “Se alguém sabe onde eles estão, por favor, entrem em contato. Nós só queremos dar aos nossos maridos um sepultamento digno.”

Mais de uma década depois, essa simples dívida de R$ 8 milhões continua a ser lembrada no setor agrícola como um aviso: nem todo negócio vale a vida de um homem, e nem toda dívida pode ser cobrada pessoalmente. O caso permanece oficialmente aberto, aguardando o dia em que alguém tenha coragem de revelar onde foram enterrados os quatro empresários que partiram para cobrar uma dívida e nunca mais voltaram para casa.

Dez anos se passaram desde as prisões de Ademar Correia e a morte de Aparecido Mendes, mas o silêncio que envolvia o paradeiro dos corpos dos empresários começou a ser quebrado por vozes inesperadas. Em 2022, o cenário mudou quando Luciano Santos, filho de Valdomiro Santos, decidiu falar publicamente sobre conversas que ouviu entre seu pai e outros homens durante sua adolescência. Agora com 28 anos e formado em agronomia, Luciano procurou o Ministério Público Federal com informações que guardava há mais de uma década.

“Eu tinha 16 anos quando tudo aconteceu”, revelou Luciano em depoimento gravado. “Meu pai chegava em casa nervoso, falando ao telefone com pessoas que eu não conhecia. Em uma noite, ouvi ele dizendo para alguém: ‘O problema está enterrado junto com as cercas antigas, onde ninguém vai procurar’.” A frase, que na época não fazia sentido para o adolescente, ganhou um significado sinistro após as revelações sobre o caso. Luciano explicou que cresceu acreditando que seu pai estava envolvido apenas em negócios ilegais, mas nunca imaginou a verdadeira extensão dos crimes.

O promotor Daniel Reis, responsável pela investigação complementar, decidiu seguir essa nova pista. “Cercas antigas” era uma expressão comum na região para se referir a velhos limites entre propriedades rurais, locais onde detritos e materiais descartados frequentemente se acumulavam. A equipe de investigação iniciou um mapeamento detalhado das propriedades que pertenceram aos criminosos. Utilizando imagens de satélite de 2011 e comparando-as com fotos atuais, identificaram pelo menos 15 locais onde cercas de arame antigas haviam sido removidas ou modificadas nos meses seguintes ao desaparecimento.

Foi então que a tecnologia deu uma contribuição inesperada. O geólogo e perito forense Dr. Marcelo Campos, contratado pelas famílias, utilizou equipamentos de radar de penetração no solo para analisar as áreas suspeitas. Em uma propriedade que havia pertencido a Aparecido Mendes, o radar detectou anomalias no solo em uma área de aproximadamente 20 m². “O que estamos vendo aqui são perturbações na compactação natural do terreno”, explicou o Dr. Campos, apontando para os gráficos em seu computador. “Algo foi enterrado e desenterrado neste local entre 2011 e 2012.”

O local ficava próximo a uma cerca antiga que separava a propriedade de Mendes de uma área de preservação permanente. Era um ponto isolado, visitado apenas por peões durante a estação da seca, e oferecia fácil acesso através de uma estrada de terra pouco utilizada. A autorização judicial para a escavação foi obtida em setembro de 2022.

Durante três dias, uma equipe de peritos criminais, arqueólogos forenses e parentes dos desaparecidos reuniu-se no local para acompanhar os trabalhos. As primeiras camadas de terra revelaram apenas solo e raízes, mas a uma profundidade de 2 metros, os pesquisadores encontraram fragmentos de tecido. Eram pedaços de ternos masculinos preservados pela composição ácida do solo daquela região. Marina Mendonça, viúva de Jair, reconheceu imediatamente um dos tecidos: “É a gravata que dei a ele de presente de aniversário de casamento”, disse ela, com a voz embargada. “Ele estava usando no dia em que viajou.”

Pertences pessoais foram encontrados ao lado dos tecidos, confirmando a identidade das vítimas: um relógio Rolex gravado com as iniciais JM, uma carteira de couro contendo documentos de Sérgio Valadares, um anel de formatura de Cláudio Furtado e um telefone celular que pertenceu a Paulo Naves. Os restos mortais dos quatro empresários foram encontrados em uma vala comum, enterrados de forma rudimentar. O laudo pericial confirmou que todos morreram por asfixia, provavelmente após terem sido mantidos em cativeiro por pelo menos 72 horas antes de serem assassinados.

A descoberta trouxe alívio e uma nova onda de luto às famílias. Finalmente poderiam dar um sepultamento digno aos seus entes queridos, mas também enfrentavam a brutal realidade de como eles passaram seus últimos dias. Ademar Correia, confrontado em sua cela com as novas evidências, finalmente decidiu falar. Em uma confissão detalhada que durou seis horas, ele revelou não apenas os detalhes dos assassinatos, mas também a existência de uma rede de fraudes que abrangia três estados e envolvia outros empresários e políticos locais.

“Eles descobriram coisas que não poderiam saber”, admitiu Ademar. “Não era apenas sobre os 8 milhões. Eles tinham documentos que provariam esquemas que duravam há mais de 5 anos. Isso derrubaria muita gente importante.” A confissão revelou que os empresários foram mortos não apenas pelo dinheiro, mas para proteger uma operação criminosa muito maior, que incluía lavagem de dinheiro por meio de negócios fictícios no agronegócio e sonegação fiscal sistemática.

Em dezembro de 2022, os quatro empresários foram sepultados lado a lado no cemitério Parque da Colina, em Goiânia. Mais de 1.000 pessoas compareceram ao velório, incluindo empresários do agronegócio de todo o país, que viram no caso um símbolo dos riscos enfrentados por aqueles que trabalham honestamente em um setor ainda marcado por práticas predatórias. O presidente da Confederação da Agricultura na época resumiu o sentimento do setor: “Jair, Sérgio, Cláudio e Paulo morreram porque acreditavam que sua palavra e seu contrato ainda tinham valor. Que esta tragédia sirva de alerta para que tais casos nunca mais aconteçam.”

Ademar Correia teve sua pena aumentada para prisão perpétua pelos quatro homicídios qualificados. Valdomiro Santos, que colaborou com a justiça, foi condenado a 20 anos de reclusão, mas obteve o regime semiaberto após 5 anos. Luciano Santos, cujo testemunho foi crucial para localizar os corpos, criou uma fundação que oferece orientação jurídica gratuita a pequenos produtores rurais que enfrentam calotes ou fraudes. “Meu pai cometeu um erro e eu não posso mudar isso”, declarou. “Mas posso tentar evitar que outras famílias passem pelo que estas passaram.”

Hoje, mais de 12 anos após o desaparecimento, o caso continua a repercutir no agronegócio brasileiro como um marco sobre os limites da ganância e da impunidade. As viúvas transformaram o dia 22 de abril em um dia de conscientização sobre fraudes no setor rural, organizando palestras e seminários para empresários. A história dos quatro homens que partiram para cobrar R$ 8 milhões e acabaram pagando com a vida tornou-se um lembrete sombrio de que, por trás dos grandes números do agronegócio, ainda existem pessoas dispostas a tudo para proteger seus interesses ilegais. E talvez esse seja o legado mais importante deixado por Jair, Sérgio, Cláudio e Paulo: a certeza de que a verdade, mesmo enterrada por anos no solo do Cerrado, sempre encontra um jeito de vir à tona.