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Fazendeiro do agro viaja ao Pará para cobrar dívida milionária — dias depois, desaparece

Redenção, 14 de junho de 2022. O posto de gasolina na BR-155 funcionava como um oásis no meio do nada. Entre Redenção e Santarém, quilômetros de asfalto esburacado cortavam uma paisagem de pastos infinitos e floresta densa. Era ali que caminhoneiros paravam para abastecer, tomar um café preto e trocar informações sobre as estradas adiante.

Joaquim Santos, caminhoneiro há 15 anos, lembra com precisão do homem que viu naquela tarde chuvosa: alto, com botas cobertas de lama, fumando um cigarro sob o toldo, enquanto a garoa fina molhava o chão de cimento. O homem estava sozinho, encostado em uma Hilux branca, um sinal de Redenção. Ele não falava muito. Joaquim lembra dele mexendo no boné desbotado.

“Ele só perguntou sobre a estrada para Santarém, se estava em boas condições, se eu tinha passado por lá… Parecia preocupado com alguma coisa, sabe? Daquele jeito que alguém com problemas na cabeça diria.” Antônio Rego, 52 anos, proprietário da fazenda São Bento, estava acostumado a longas viagens pelo interior do Pará. Pecuarista desde os 20 anos, herdou a terra do pai e transformou a propriedade em uma das maiores da região.

Um homem respeitado em Redenção, conhecido pela palavra firme e por sempre fechar negócios com um aperto de mão. Mas desta vez foi diferente. Antônio não ia fechar um negócio, ele ia cobrar uma dívida. Três meses antes, ele tinha vendido 800 cabeças de gado Nelore para Paulo Vilela, um pecuarista de Santarém.

O acordo era simples: 3,8 milhões a serem pagos em duas parcelas. A primeira chegou no prazo, a segunda não. As ligações de Antônio para Paulo tornaram-se cada vez mais frequentes. Sempre a mesma resposta: “Na próxima semana acertamos isso, Antônio.” Palavra de homem. As semanas viraram meses. A paciência do fazendeiro de Redenção esgotou-se.

Na manhã daquele 14 de junho, Antônio acordou antes das 5h, como de costume, bebeu café preto na cozinha, conferiu os papéis do gado vendido e guardou tudo em uma pasta marrom. Antes de sair, beijou a testa de sua esposa, Helena, que ainda dormia. “Vou a Santarém resolver aquele assunto com o Paulo”, sussurrou. “Volto amanhã à noite.” Essas foram as últimas palavras que Helena ouviria de seu marido.

A Hilux branca saiu da fazenda às 6h, cortando a estrada de terra que levava à rodovia principal. O caseiro, Sr. Raimundo, acenou do portão. Antônio buzinou duas vezes em resposta, um costume entre eles por mais de 10 anos. A viagem até Santarém levaria cerca de 6 horas.

Considerando as condições da estrada e as paradas obrigatórias, Antônio conhecia cada curva, cada ponte, cada posto de gasolina pelo caminho. Era uma rota que ele tinha feito dezenas de vezes, mas naquele dia algo estava diferente. O ar estava pesado com a umidade, o céu cinza ameaçava chuva desde o início da manhã, e Antônio tinha um pressentimento estranho que não conseguia explicar, como se alguém estivesse observando-o.

Posto de gasolina na BR-155. Após encontrar Joaquim, Antônio encheu o tanque e comprou uma garrafa de água. O frentista, um jovem chamado Carlão, lembra que o fazendeiro checou o celular várias vezes, como se estivesse esperando uma ligação importante. “Ele perguntou se o sinal de celular era bom por aqui”, conta Carlão, limpando as mãos em um pano manchado de graxa. “Disse que precisava ligar para alguém em Santarém para confirmar uma reunião. Mencionei que mais adiante, depois da ponte do Rio Iriri, o sinal fica um pouco fraco.” Às 14h30, Antônio deixou o posto. A chuva leve havia parado, mas nuvens escuras ainda dominavam o horizonte.

Ele ligou a caminhonete e dirigiu pela BR-155, em direção a Santarém, rumo à reunião que mudaria tudo. As rodas da Hilux desapareceram na curva seguinte, engolidas pela vasta extensão verde do Pará. Foi a última vez que alguém viu Antônio Rego. Fazenda São Bento, Redenção, 16 de junho de 2022.

Helena ouviu o galo cantar no quintal. Eram 5h15 da manhã e a cama ao lado da sua estava vazia. Antônio deveria ter retornado na noite anterior, como prometido. Seu celular chamava, mas ninguém atendia. “No início, pensei que ele tivesse decidido ficar mais um dia”, diz Helena, sentada na varanda da casa, com o olhar perdido no horizonte. “Antônio era sempre um homem de palavra, mas negócios são negócios. Talvez tivesse que resolver algo mais por lá.” Mas quando o segundo dia amanheceu sem notícias, Helena soube que algo estava errado, muito errado.

A ligação para a polícia foi feita às 10h. O delegado Marcos Pereira, da delegacia de Redenção, conhecia Antônio há anos. Ele era um homem sério, trabalhador e sem inimigos conhecidos. Ele não era do tipo de pessoa que simplesmente desaparece. “A primeira coisa que fizemos foi tentar rastrear o celular dele”, explica o delegado, folheando o arquivo da investigação sobre uma mesa cheia de papéis. “O último sinal foi captado em uma torre próxima ao município de Rurópolis na madrugada do dia 15. Depois disso, nada.”

As notícias do desaparecimento espalharam-se pela região como fogo em palha. Antônio Rego era respeitado não apenas em Redenção, mas em toda a microrregião. Fazendeiros vizinhos ofereceram ajuda nas buscas. A comunidade mobilizou-se. Seu Raimundo, o caseiro da São Bento, organizou um grupo de busca de mais de 20 homens.

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Eles percorreram a rodovia BR-155 de ponta a ponta. Pararam em todos os postos de gasolina, conversaram com caminhoneiros, checaram pousadas e restaurantes. Ninguém tinha visto a Hilux branca depois do posto onde Joaquim Santos a avistara. “Era como se Antônio tivesse evaporado”, diz Raimundo, coçando a barba grisalha. “Um homem daquele tamanho, uma caminhonete nova, não desaparece assim. Há um elemento humano nisso.”

Enquanto isso, a polícia tentava contatar Paulo Vilela, o devedor de Santarém. O pecuarista inicialmente negou qualquer reunião marcada com Antônio. Disse que não sabia de nada sobre a viagem, que não falava com o fazendeiro há semanas, mas os registros do celular de Antônio contavam uma história diferente. Havia mensagens trocadas entre os dois até 13 de junho, dia anterior à viagem.

Paulo confirmou a reunião: “Amanhã às 16h na minha fazenda. Vai dar tudo certo, parceiro.” Confrontado com as evidências, Vilela mudou sua versão. Admitiu que tinha marcado a reunião, mas disse que Antônio nunca apareceu. “Esperei até as 19h e fui embora.” Ele não fazia ideia do que tinha acontecido. E Paulo estava nervoso durante o depoimento. Lembra o delegado Pereira? “Ele suava profusamente, mexendo nas mãos o tempo todo.” Não era possível dizer se era medo ou culpa.

As primeiras semanas de busca foram intensas. Helicópteros sobrevoaram a região. Mergulhadores vasculharam rios e igarapés. Cães farejadores cobriram trilhas na floresta. Cartazes com a foto de Antônio foram espalhados por cidades em um raio de 200 km. Helena não conseguia dormir. Ela passava as noites sentada na varanda, esperando o som da Hilux subindo a estrada de terra. Seus filhos, Ana Carolina e João Pedro, viajaram de Brasília para ficar com a mãe. A fazenda, antes cheia de vida e atividade, tornou-se um lugar silencioso e sombrio.

“Mamãe perdeu 10 kg no primeiro mês”, conta Ana Carolina, enfermeira de 28 anos. “Ela se recusava a comer. Dizia que papai poderia estar passando fome em algum lugar. Foi o período mais difícil de nossas vidas.” Meses passaram sem respostas. O caso de Antônio Rego tornou-se uma sensação local. Foi assunto de programas policiais na TV.

Dezenas de denúncias chegaram à delegacia, todas falsas. Videntes ofereceram ajuda. Curiosos apareciam na fazenda querendo conhecer a viúva do desaparecido. Helena odiava essa expressão. Ela não era viúva. Antônio estava vivo em algum lugar, esperando uma oportunidade para voltar para casa. Tinha que estar. No final de 2022, as buscas oficiais foram suspensas por falta de pistas. A investigação permaneceu aberta.

Aberta, mas sem qualquer atividade. A vida precisava continuar, mesmo sem respostas. Paulo Vilela vendeu a fazenda em Santarém e mudou-se para Goiás. Disse que não aguentava mais a pressão e as suspeitas, que queria começar uma vida nova longe daquelas acusações. A fazenda São Bento continuou operando, gerida por Helena e seus filhos, mas não era mais a mesma.

O gado pastava nos mesmos campos, o trabalho seguia a mesma rotina, mas algo faltava. Antônio faltava. Em Redenção, o nome do fazendeiro desaparecido tornou-se uma lenda urbana. Motoristas evitavam viajar sozinhos na BR-155. Histórias sobre luzes estranhas na estrada e ruídos de motor nas primeiras horas da manhã começaram a circular nos bares da cidade.

“Algumas noites ouvimos uma caminhonete passando pela estrada”, diz Dona Maria, que mora em uma casa perto da rodovia. “O som do motor, a buzina. Parece que é o Antônio tentando voltar para casa.” Mas Antônio não voltava, e o silêncio que ele deixou para trás gritava mais alto do que qualquer resposta. Rurópolis, Pará, 8 de agosto de 2023.

A seca de 2023 foi uma das mais severas da última década. Os rios recuaram tanto que pedras e troncos escondidos por anos apareceram na superfície. Foi assim que Edson Morais, um pescador de 45 anos, decidiu explorar um trecho do igarapé São Francisco, pelo qual nunca tinha navegado antes.

A água estava tão baixa que era possível andar no meio do rio. Lembra, Edson? Consertando uma rede de pesca no quintal de casa. “Pensei: agora é a chance de ver aquelas poças profundas, onde dizem que tem peixe grande.” Era uma manhã de terça-feira, o sol já forte às 9h. Edson remou sua canoa de alumínio rio acima, observando as margens cobertas de vegetação densa.

O igarapé São Francisco era um afluente menor do Rio Tapajós, um lugar silencioso onde raramente se via alguém. Após duas horas de navegação, algo chamou sua atenção. Preso entre as raízes de uma embaúba, semi-enterrado na lama seca, estava um objeto estranho. Parecia uma garrafa plástica, mas havia algo dentro.

“A primeira coisa que pensei foi: deve ser lixo jogado por aqui”, diz Edson. “Mas quando cheguei mais perto, vi que havia papel dentro da garrafa, e o papel dizia…” Edson parou a canoa e pegou a garrafa. Era uma garrafa de refrigerante transparente, com a tampa bem fechada. Dentro, enrolado e protegido da umidade, estava um pequeno caderno com capa preta, com várias páginas escritas à caneta azul.

O pescador abriu a garrafa ali mesmo. Curioso. As primeiras páginas do caderno continham anotações que ele não conseguia entender: números, iniciais, datas. Mas em uma das páginas, uma frase o fez estremecer: “O que é devido deve ser pago, mas nem sempre com dinheiro.” “Meu coração disparou”, lembra Edson. “Lembrei imediatamente do fazendeiro que tinha desaparecido no ano anterior. Todo mundo falava daquela história. Perguntei-me: será que esse caderno tem algo a ver com o desaparecimento?” Edson guardou a garrafa e voltou para casa o mais rápido possível. Ao chegar em Rurópolis, foi até a delegacia local. O investigador Carlos Mendes ficou intrigado com a descoberta e decidiu examinar o caderno com mais cuidado.

As anotações eram enigmáticas, mas organizadas. Havia listas de nomes com as iniciais A, R, P, V, M, S, J, T. Ao lado de cada inicial, havia valores monetários, alguns riscados, outros circulados. Datas que remontavam a 2019, 2020 e 2021. Parecia uma operação de controle de dívidas. O delegado Mendes analisa cópias do caderno. Alguém mantinha um registro de quem devia o quê, quando foi pago e quando não foi. Era um sistema organizacional muito detalhado.

Uma página em particular chamou a atenção dos investigadores. Estava datada de 10 de junho de 2022, apenas 4 dias antes do desaparecimento de Antônio Rego. A nota dizia: “A R Santarém, 3.8 milhões, última chance.” A conexão era óbvia demais para ignorar. “A R” poderia significar Antônio Rego. O valor correspondia à dívida que Paulo Vilela devia ao fazendeiro, e a data era muito próxima da fatídica viagem.

O delegado Pereira, de Redenção, foi chamado para analisar o caderno. Helena Rego foi chamada para identificar a caligrafia. Ela confirmou. Não era a caligrafia de seu marido. “A letra pertencia a outra pessoa”, diz Helena, folheando as páginas fotocopiadas. “Antônio escrevia diferente, em um estilo mais arredondado. Esta letra era mais angular, mais tensa. Era a letra de alguém que estava anotando coisas importantes, coisas que não podiam ser esquecidas.”

Outras notas no caderno revelavam um padrão perturbador. Havia referências a cobranças especiais e acertos de contas. Nomes de cidades no interior do Pará apareciam ao lado de valores altos: Altamira, Itaituba, Novo Progresso. Uma página inteira foi dedicada a rotas. BR-155, posto do Joaquim, entrada da fazenda V L, estrada secundária, que retorna pelo rio. Parecia um plano de viagem detalhado, com marcos específicos.

“Quem escreveu isso conhecia bem a região”, observa o delegado Pereira. “Ele sabia onde os postos, as estradas secundárias e os rios estavam localizados. Não era alguém de fora da área.” A descoberta do caderno reacendeu as investigações. Paulo Vilela foi chamado para depor novamente, desta vez como suspeito.

Quando confrontado com as anotações, ele negou qualquer conhecimento do caderno. “Nunca vi nada parecido na minha vida”, declarou Vilela, visivelmente nervoso. “Não sei quem escreveu. Não reconheço a caligrafia. Pode ser qualquer pessoa tentando me incriminar.” Mas os investigadores não estavam convencidos. Um exame grafotécnico foi solicitado para comparar a letra do caderno com documentos assinados por Vilela. O resultado seria crucial para o progresso do caso.

Enquanto aguardavam o laudo, outras descobertas surgiram. Moradores da região relataram ter visto atividades estranhas nas semanas anteriores ao desaparecimento de Antônio, com carros desconhecidos circulando em estradas vicinais, sempre à noite. Seu Antônio, xará do desaparecido, morador de uma propriedade perto do igarapé onde o caderno foi encontrado, disse que ouviu barulhos estranhos na madrugada de 15 de junho de 2022. “Era como um motor de carro, mas não na estrada principal”, lembra o fazendeiro. “Vinham lá de baixo, da beira do rio. Achei estranho porque aquela área não é acessível de carro, apenas de canoa.”

O caderno do igarapé tornou-se a primeira pista concreta no caso Antônio Rego. Após mais de um ano sem respostas, finalmente havia algo tangível, algo que poderia levar à verdade. Mas quem teria escrito aquelas notas? Por que o caderno estava no meio da floresta, protegido dentro de uma garrafa? E, mais importante, o que realmente aconteceu com Antônio Rego no final da tarde daquele dia de junho? As respostas vinham lentamente, como a água que recua em um igarapé, revelando segredos que estavam escondidos no fundo.

Fazenda Progresso, estrada rural de Rurópolis. 15 de março de 2024. O incêndio começou como um ponto laranja no horizonte e espalhou-se rapidamente pela vegetação seca. Era a época das queimadas controladas, comuns na região, mas desta vez o vento mudou de direção e as chamas saíram do controle. Foi necessário chamar os bombeiros de três cidades para conter o fogo, que ameaçava espalhar-se pela mata.

Foi enquanto combatia as chamas que o soldado Ribeiro encontrou os destroços da caminhonete. “Estava em um lugar quase impossível de encontrar”, conta o bombeiro, ainda com marcas de fuligem no uniforme, em uma estrada abandonada coberta por vegetação de mais de 2 metros de altura. “Se não fosse pelo fogo, teria permanecido escondida para sempre.”

O veículo estava completamente queimado, sem placas, os pneus derretidos, mas a estrutura era inconfundível. Uma Toyota Hilux cabine dupla. No porta-luvas carbonizado, resistindo ao tempo e ao fogo, uma corrente de ouro e um documento carbonizado, mas ainda legível: um registro de fazenda em nome de Marcelo Silva.

A descoberta foi imediatamente relatada à Polícia Civil. O delegado Pereira chegou ao local duas horas depois, acompanhado por peritos. Seu coração disparou quando viu os destroços. Poderia ser a Hilux de Antônio Rego. “O chassi estava danificado, mas alguns números ainda eram identificáveis”, explica o perito Roberto Alves. “Verificamos com os registros do Detran. Era, sem dúvida, o veículo do fazendeiro desaparecido.”

A corrente de ouro foi mostrada a Helena Rego. Ela a reconheceu imediatamente. Era um presente que ela tinha dado ao marido no aniversário de casamento em 2021. Antônio nunca saía sem ela. “Quando vi a corrente, soube que era verdade”, diz Helena, com a voz embargada. “Meu marido estava morto. Depois de quase dois anos. Finalmente tive certeza.”

Mas quem era Marcelo Silva, cujo nome aparecia no documento encontrado no veículo? A investigação revelou que ele era cunhado de Paulo Vilela e possuía uma pequena propriedade rural na região onde a Hilux foi encontrada. Quando a polícia chegou à casa de Marcelo, em Novo Progresso, ele não estava. Sua esposa, Joana, disse que o marido tinha viajado para Goiás há três meses e não dava notícias. Segundo ela, ele tinha desaparecido.

Joana parecia assustada. Lembra o delegado Pereira? “Ela estava tremendo e não conseguia olhar nos nossos olhos.” Era óbvio que ela sabia de algo. A pressão da investigação e o peso da consciência finalmente quebraram o silêncio de Joana Silva. Uma tarde em abril, ela foi espontaneamente à delegacia e pediu para falar com os investigadores. “Queria dizer a verdade.”

O depoimento de Joana começou lentamente, intercalado por lágrimas e longas pausas. Ela disse que Marcelo tinha chegado em casa na madrugada de 15 de junho de 2022, desesperado e coberto de lama, dizendo que tinha se metido em problemas com Paulo Vilela e que precisava desaparecer por um tempo. “Marcelo estava muito nervoso”, disse Joana, enxugando os olhos com um lenço. “Ele disse que algo terrível tinha acontecido, que não era para ser assim, que o fazendeiro não deveria ter reagido.”

Segundo Joana, seu marido confessou que Paulo Vilela o tinha contratado para assustar Antônio Rego. A ideia era simplesmente intimidar o fazendeiro, fazê-lo desistir de cobrar a dívida, mas as coisas saíram do controle. O plano era simples: interceptar Antônio na estrada de terra perto da fazenda de Paulo, simular um assalto, pegar os documentos da dívida e deixar o fazendeiro abandonado na mata. Em poucas horas, ele seria encontrado e voltaria para casa com uma lição aprendida. “Paulo disse que era só para dar um susto”, continuou Joana, dizendo que Antônio era muito teimoso, que não negociava prazos e que era um homem orgulhoso demais.

Mas quando Marcelo abordou Antônio na estrada, o fazendeiro reagiu, tentou fugir na caminhonete e raspou no rosto de Marcelo. Na confusão, houve uma briga física. Antônio bateu a cabeça em uma pedra e perdeu a consciência. “Marcelo entrou em pânico”, relata Joana, com a voz quase inaudível. “Ele disse que tentou reanimar o fazendeiro, mas que ele não acordava. Foi aí que decidiu esconder o corpo e queimar a caminhonete.”

O corpo de Antônio foi enterrado em uma área isolada da propriedade de Marcelo, perto do igarapé São Francisco. O caderno com as anotações foi jogado no rio dentro de uma garrafa. Marcelo acreditava que a correnteza levaria as evidências embora. “Ele disse que não conseguia dormir”, continua Joana. “Toda noite ela sonhava com o fazendeiro, por isso partiu para Goiás, tentando esquecer o que tinha acontecido.”

Com base no depoimento de Joana, a polícia organizou uma busca na propriedade de Marcelo Silva. Após três dias de escavações, os restos mortais de Antônio Rego foram encontrados a 2 metros de profundidade em uma área de mata densa, a 500 metros de sua casa. A identidade foi confirmada através de teste de DNA. Após 22 meses desaparecido, Antônio finalmente voltaria para casa, não da maneira que Helena esperava, mas ele voltaria.

Paulo Vilela foi preso em Goiânia, onde vivia sob identidade falsa. Confrontado com as evidências e o depoimento de Joana, confessou seu envolvimento no crime. Confirmou que tinha contratado Marcelo para intimidar Antônio, mas negou que a intenção fosse matá-lo. “Tudo deu errado”, disse Vilela durante o interrogatório. “Era apenas para assustar o Antônio, para fazê-lo parar de me pressionar. Nunca quis que ninguém morresse.”

Marcelo Silva continua foragido. A polícia acredita que ele esteja escondido na região de Goiás ou Mato Grosso, possivelmente trabalhando em fazendas remotas. Existe uma recompensa de R$ 50 mil por informações que levem à sua captura. O enterro de Antônio Rego, em uma sexta-feira chuvosa de maio de 2024. Centenas de pessoas compareceram ao cemitério em Redenção, incluindo fazendeiros, funcionários e amigos da família. Toda a comunidade que tinha participado das buscas estava lá para se despedir.

“Foi um alívio”, diz Helena, visitando o túmulo do marido três meses depois. “Terrível, mas um alívio. Pelo menos agora sei o que aconteceu. Antônio pode descansar em paz.” A fazenda São Bento retomou as operações normais. Helena decidiu continuar o trabalho do marido com a ajuda dos filhos. A dívida de Paulo Vilela, o gatilho para toda a tragédia, foi quitada usando os bens que ele possuía.

O caso de Antônio Rego serve para ilustrar como dívidas não resolvidas e orgulho ferido podem levar a tragédias irreversíveis. Em Redenção, ninguém mais fala em usar “sustos” para resolver problemas de negócios. O delegado Pereira, próximo da aposentadoria, considera este o caso mais marcante de sua carreira. Mostra como uma mentira leva a outra, como um crime simples pode transformar-se em uma tragédia. Pense nisso: Antônio morreu por causa de R$ 3,8 milhões de reais, dinheiro que Paulo acabou perdendo de qualquer maneira, mas agora perdeu também a liberdade.

Na BR-155, caminhoneiros ainda param no posto de gasolina onde Joaquim Santos viu Antônio pela última vez. A história do fazendeiro desaparecido tornou-se uma lenda na estrada. Uma lenda que serve como um aviso. No Pará, uma terra de fronteira, nem toda viagem de negócios termina bem. E nas noites de lua cheia, quando o vento sopra forte pelos pastos da fazenda São Bento, Helena jura que ainda pode ouvir o som da Hilux subindo a estrada de terra. Antônio voltando para casa, finalmente em paz.

No Pará, dizem que grandes dívidas não desaparecem, apenas trocam de mãos. Mas e o homem que foi cobrar sua dívida? Ele tornou-se parte da terra que tanto amava, enterrado junto com os segredos que esta região ainda guarda. Quantas outras histórias, como a de Antônio Rego, aguardam descoberta nas estradas infinitas da Amazônia?