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“M*tar por Companhia: O Vazio Mortal Dentro Dennis Nilsen”

Matar por Companhia: O Vazio Mortal Dentro Dennis Nilsen

Em uma Londres cinzenta do final dos anos 1970 e início dos 1980, onde jovens marginalizados vagavam em busca de abrigo e um copo de bebida, surgiu um dos assassinos seriais mais perturbadores da história britânica. Dennis Andrew Nilsen, um funcionário público aparentemente educado e solitário, não matava por prazer sádico puro, nem por ganância. Ele matava por companhia. Matava para preencher o abismo negro que consumia sua mente desde a infância. O homem que se tornaria conhecido como “o assassino de Muswell Hill” ou “o assassino gentil” transformou apartamentos modestos em necrotérios particulares, onde cadáveres eram banhados, vestidos, conversados e mantidos como “companheiros” fiéis que nunca iriam embora.

Nascido em 23 de novembro de 1945 em Fraserburgh, Escócia, Dennis Nilsen cresceu em uma família disfuncional. O evento que ele mesmo identificou como o grande trauma de sua vida aconteceu quando tinha apenas seis anos: a morte repentina de seu avô adorado. O menino foi forçado a ver o corpo do avô no caixão aberto. Aquela imagem de um corpo imóvel, pálido, mas ainda “presente”, marcou-o para sempre. “Ele me deixou sozinho”, Nilsen repetiria anos depois em suas confissões e diários na prisão. A partir dali, o conceito de amor e morte se fundiram em sua psique distorcida. Perder alguém significava ficar com o vazio. E o vazio era insuportável.

Adolescente introvertido, Nilsen alistou-se no Exército Britânico como cozinheiro, onde aprendeu habilidades de açougueiro que mais tarde usaria de forma macabra. Após deixar o serviço militar, mudou-se para Londres e trabalhou como funcionário em um centro de empregos, ajudando outros a encontrarem trabalho enquanto sua própria vida interior desmoronava. Ele era educado, falava com sotaque escocês suave, vestia-se bem e raramente chamava atenção. Colegas o descreviam como quieto, mas não ameaçador. Ninguém imaginava que, atrás daquela fachada, existia um homem consumido por uma solidão tão profunda que se tornaria assassina.

Tudo começou em 30 de dezembro de 1978. Nilsen encontrou um jovem irlandês de 14 anos (cujo nome permanece desconhecido em algumas versões) em um pub. Convidou-o para seu apartamento em Melrose Avenue, Cricklewood. Beberam, conversaram. Quando o rapaz adormeceu, Nilsen sentiu o pânico da solidão iminente: pela manhã, ele iria embora. Então, agarrou uma gravata e estrangulou o jovem. Em vez de entrar em pânico, Nilsen sentiu alívio. O corpo não o abandonaria. Ele o banhou, vestiu, sentou-se ao lado dele assistindo televisão, falando como se fosse um amigo vivo. Durante dias, o cadáver ficou no apartamento como um “companheiro silencioso”. Quando o cheiro começou a ficar forte, Nilsen desmembrou o corpo no banheiro, ferveu partes para separar a carne dos ossos e queimou os restos no jardim.

Este ritual macabro se repetiria pelo menos 12 vezes confirmadas (ele confessou até 15 ou 16). Kenneth Ockenden, um jovem canadense de 23 anos, foi o segundo. Conhecido em um pub, convidado para casa, estrangulado enquanto ouvia música. Nilsen guardou o corpo por semanas, tirando-o de debaixo do assoalho para “conversar” e dormir ao lado. Martyn Duffey, de apenas 16 anos, foi afogado na banheira após ser estrangulado. Billy Sutherland, Malcolm Barlow, John Howlett… a lista de jovens vulneráveis, muitos homossexuais, sem-teto ou em situação precária, continua. Nilsen os atraía com promessas de comida, bebida e um teto. Uma vez dentro, a porta se fechava para sempre.

O que tornava Nilsen especialmente aterrorizante era sua normalidade diurna. Pela manhã, ele ia trabalhar, ajudava desempregados a preencherem formulários, sorria educadamente. À noite, voltava para casa onde um ou mais corpos esperavam debaixo das tábuas do assoalho. Ele admitiu em confissões posteriores: “Eu os matava para que não me deixassem. Eles eram bons companheiros quando mortos. Não criticavam, não julgavam, não iam embora.” O vazio em sua mente era tão profundo que a presença física de um corpo quente se transformando em frio parecia a única solução.

Psiquiatras que o examinaram durante o julgamento debateram intensamente. Alguns diagnosticaram transtorno de personalidade narcisista borderline com surtos esquizoides, agravados pelo isolamento social. Outros, como o psiquiatra da promotoria, afirmavam que Nilsen era perfeitamente consciente e responsável – um homem manipulador que escolheu objetificar seres humanos. Nilsen mesmo contribuiu com diários detalhados e desenhos perturbadores, descrevendo o “vazio” como um buraco negro que engolia tudo. Ele falava de uma dissociação entre mente e corpo, onde estrangular alguém era como “colocar uma pessoa para dormir permanentemente” para que a companhia durasse.

Em 1981, ele se mudou para Cranley Gardens, Muswell Hill. O apartamento no andar superior tinha um jardim menor, o que complicou o descarte de corpos. Ainda assim, os assassinatos continuaram. Stephen Sinclair foi uma das últimas vítimas: estrangulado, desmembrado. Nilsen tentou ferver a cabeça no fogão. O cheiro era insuportável, mas ele continuava sua rotina.

O fim veio em fevereiro de 1983, quando vizinhos reclamaram de odores fétidos e drenos entupidos. Um encanador encontrou restos humanos no esgoto. A polícia bateu na porta de Nilsen. Com calma surreal, ele confessou imediatamente: “Vocês vão encontrar partes de corpos aqui. Eu sou o responsável.” Nas horas seguintes, ele guiou os investigadores pelos detalhes chocantes, mostrando onde escondeu cabeças, ossos e órgãos. A frieza com que descrevia cada assassinato chocou até os policiais mais experientes.

Durante o julgamento no Old Bailey em 1983, a Grã-Bretanha ficou horrorizada. Nilsen foi condenado por seis assassinatos (os que tinham provas mais concretas) e duas tentativas, recebendo prisão perpétua com recomendação de no mínimo 25 anos. Ele morreu em 2018 na prisão de Full Sutton, aos 72 anos, de uma ruptura de aneurisma, após anos escrevendo memórias e cartas.

Mas o que realmente movia Dennis Nilsen? Não era apenas necrofilia, embora ele admitisse atos sexuais com os corpos. Era uma necessidade patológica de conexão que a vida normal nunca lhe deu. Seus relacionamentos curtos sempre terminavam em abandono, reforçando o trauma infantil. Matar era a única forma de garantir que “alguém” ficasse. Ele não via as vítimas como pessoas completas, mas como soluções para seu vazio existencial.

Historiadores do crime e psicólogos ainda estudam o caso como exemplo clássico de como solidão extrema, combinada com trauma não resolvido e possível transtorno de personalidade, pode gerar monstros. Nilsen não gritava, não torturava por horas com sadismo visível. Ele matava suavemente – muitas vezes enquanto as vítimas dormiam – e depois tratava os corpos com uma ternura distorcida: barbeava, vestia roupas limpas, colocava música.

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Hoje, o caso inspira livros como “Killing for Company” de Brian Masters (baseado em entrevistas diretas com Nilsen), documentários e séries como “Des”. Ele nos força a confrontar uma verdade desconfortável: o mal nem sempre aparece com chifres. Às vezes, ele usa terno, vai trabalhar pontualmente e só revela sua escuridão quando as luzes se apagam.

Dennis Nilsen carregou até o fim o vazio que tentou preencher com morte. Um vazio que devorou pelo menos 12 vidas jovens e deixou cicatrizes eternas nas famílias das vítimas, muitas das quais nunca tiveram nem mesmo a chance de um enterro digno, pois os restos foram queimados ou jogados no esgoto.

Em um mundo onde a solidão moderna é epidêmica, a história de Nilsen serve como alerta sombrio: o desejo desesperado por conexão, quando distorcido, pode se transformar na mais terrível das companhias – a de um cadáver que nunca dirá não.