Posted in

12 Estudantes Desapareceram Na Chapada Dos Veadeiros — 5 Anos Depois Drone Filmou Uma Fogueira Acesa

Em 7 de julho de 2018, um sábado de céu claro e temperaturas amenas, 12 estudantes universitários saíram juntos de um acampamento improvisado na beira da Chapada dos Veadeiros, no noroeste de Goiás. Eram alunos de uma faculdade particular em Brasília. Tinham entre 18 e 23 anos.

Eles tinham cadernos, mochilas, garrafas térmicas e um roteiro de trilha que o monitor responsável havia impresso no dia anterior. Deixaram para trás barracas armadas, panelas sujas e um bilhete escrito à mão em um bloco de notas dizendo que voltariam antes do almoço. Eles não voltaram. Os outros 23 membros do grupo, que ficaram no acampamento por exaustão ou por escolha, esperaram até as 14h, depois até as 17h, e depois até escurecer.

Quando o sol se pôs atrás do planalto e o cerrado escureceu de uma forma que quem não conhece a região não consegue imaginar, o líder da excursão ligou para o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros para relatar o ocorrido. Demorou mais 3 horas para que o Corpo de Bombeiros de Alto Paraíso de Goiás fosse formalmente notificado.

Durante esse tempo, ninguém entrou na mata. Nos cinco dias seguintes, 417 pessoas vasculharam o cerrado, os matagais e os buritizais daquela região. Cães farejadores, um helicóptero da Polícia Militar de Goiás, drones cedidos por voluntários, equipes do ICMBio, famílias que vieram de Brasília, Anápolis, Goiânia, São Paulo e Maranhão.

Doze estudantes haviam entrado na trilha naquela manhã de julho. Nenhum foi encontrado. O caso foi administrativamente arquivado pela delegacia de Alto Paraíso de Goiás em 2020. Após dois anos de investigações infrutíferas, os 12 jovens foram incluídos no Sinalid. Os casos permaneceram em aberto, as famílias ficaram sozinhas.

Em setembro de 2023, cinco anos e dois meses após o desaparecimento, o operador de um drone, sobrevoando a região do Vale do Rio Preto para um levantamento ambiental de rotina, filmou uma fogueira acesa no fundo de um vale de difícil acesso, a aproximadamente 12 km de onde o grupo havia entrado na trilha. De manhã, o sol ainda não havia esquentado.

A fogueira estava organizada, como se alguém soubesse o que estava fazendo. Ao redor da fogueira, havia sombras que o drone não conseguiu identificar com precisão. O vídeo chegou às famílias três dias depois, e às delegacias de polícia dois dias depois disso. A resposta oficial demorou mais de um mês. O que havia naquele vale? A quem pertencia aquela fogueira? E por que, cinco anos após o desaparecimento de 12 jovens naquele mesmo cerrado, as autoridades levaram mais de 30 dias para enviar alguém lá? O que os investigadores encontraram quando finalmente chegaram ao fundo daquele vale não foi totalmente divulgado. O relatório foi parcialmente divulgado à imprensa em novembro de 2023 e parcialmente mantido em sigilo a pedido do Ministério Público de Goiás, que alegou ser necessário para preservar as investigações em andamento.

As famílias receberam um comunicado de duas páginas que levantava mais perguntas do que respostas. Havia sinais de ocupação prolongada naquele local, não apenas de passagem. Em relação à permanência, as cinzas da fogueira indicavam uso recente, mas também uso antigo. A vegetação ao redor havia sido manejada, não cortada, mas organizada, de uma forma que exigia tempo e intenção.

Encontraram pertences pessoais. A delegacia não especificou quais. Encontraram vestígios de pelo menos quatro pares de sapatos de tamanhos diferentes. A delegacia não disse para onde estavam levando. As 12 famílias que esperavam por uma resposta há 5 anos receberam essas informações em uma tarde de novembro, por telefone, sem a presença de um assistente social, sem a presença de um psicólogo, sem que ninguém do estado permanecesse na linha após terminar de ler o comunicado.

A região da Chapada dos Veadeiros possui mais de 240.000 hectares de vegetação de cerrado. É Patrimônio Natural desde 2001. Possui cachoeiras, cânions de quartzo, trilhas fechadas e trechos onde a navegação por GPS perde seu ponto de referência. É um dos locais mais visitados do Centro-Oeste brasileiro.

Também é um dos lugares onde mais pessoas desaparecem sem que ninguém consiga explicar como. Você ficou aqui porque sabe que essa história não termina onde parece terminar. Na manhã de 7 de julho de 2018, o acampamento às margens do Ribeirão dos Couros acordava lentamente. Era inverno no planalto goiano, céu azul, ar seco, temperaturas que pediam agasalho até as 10h da manhã.

O chão estava coberto de folhas secas de pequizeiro, e o ar tinha aquele cheiro de terra e orvalho que só existe naquele tipo de manhã fria do planalto central, quando o sol ainda não chegou forte o suficiente para queimar a umidade da manhã. Os fogões estavam acesos. As barracas, a maioria delas coloridas, daquelas compradas em lojas de camping de shopping, estavam espalhadas de forma desordenada em uma clareira perto do riacho.

Alguns alunos faziam café improvisado, ajoelhados em frente ao fogão com as mãos em volta da caneca. Outros ainda estavam em seus sacos de dormir, as cabeças enterradas nos capuzes dos moletons, sem pressa de levantar. Os 12 que decidiram fazer a trilha naquele sábado se prepararam sem nenhum alarde.

Pegaram as mochilas, que já estavam parcialmente arrumadas desde a noite anterior. Dividiram barras de cereais, encheram garrafas de água no riacho e ajustaram as tiras de suas botas de caminhada. Nenhum deles fez o tipo de cerimônia de despedida que se faz quando se está presente, sabendo que pode ser a última vez. Não havia nada naquele momento que sugerisse que este passeio fosse diferente de qualquer outro passeio de fim de semana.

O bilhete foi escrito no último minuto em uma folha arrancada de um caderno espiral com uma caneta azul. Simplesmente dizia que eles voltariam antes do almoço e para deixar água quente na garrafa térmica. Aqueles que permaneceram no acampamento viram os 12 desaparecerem entre os arbustos do cerrado e voltaram ao que estavam fazendo. Ninguém perguntou a que horas eu deveria voltar.

Ninguém registrou a rota exata, ninguém fotografou o bilhete. Eram jovens em uma viagem de faculdade num sábado de julho num dos parques mais famosos do Brasil. O perigo, naquele momento, não tinha a forma que tomaria horas depois; o grupo que saiu era formado por sete mulheres e cinco homens. As idades variavam de 18 a 23 anos.

Havia estudantes de administração, direito, pedagogia e engenharia civil. A maioria era de Brasília ou cidades vizinhas, como Ceilândia, Taguatinga, Gama e Planaltina. Dois deles tinham vindo de outros estados: Thiago Ramalho Duarte, do Maranhão, e Fernanda Cássia Vilela, de Minas Gerais, de uma pequena cidade perto de Patos de Minas, que ela raramente mencionava porque achava que ninguém a conhecia.

Fernanda tinha 18 anos e era de temperamento forte. Essa foi sua primeira viagem com o grupo da faculdade. Nenhum dos 12 tinha experiência técnica em trilhas de longa distância. Alguns tinham feito pequenas caminhadas em parques urbanos. Tiago tinha ido ao Parque Nacional de Brasília algumas vezes. Nenhum deles havia viajado em trilhas não demarcadas.

Nenhum deles sabia que a trilha que tinham no papel não era oficial. Esse detalhe, que a rota não era oficial, copiado de um grupo de WhatsApp de trilheiros, sem verificação de nenhuma autoridade do parque. Isso só seria confirmado dias depois, quando a investigação já estava em andamento e a delegacia começou a ouvir as testemunhas.

Naquela manhã de sábado, os 12 seguiram pelo caminho que o monitor havia marcado no papel. Passaram por entre os arbustos do planalto e desapareceram do campo de visão de quem ficou. Rodrigo Alves Marcelino tinha 28 anos e trabalhava como monitor de turismo de aventura há três anos quando organizou aquela excursão.

Fiz dois semestres de turismo numa faculdade em Goiânia antes de desistir e começar a trabalhar de forma independente, oferecendo pacotes de fim de semana para grupos universitários, trilhas, cachoeiras, camping e rapel em pequenos cânions no entorno do Distrito Federal. Ele tinha um perfil no Instagram com pouco mais de 2.000 seguidores, com fotos de paisagens da Chapada Diamantina e Serra da Canastra.

Nos comentários, os alunos marcavam amigos dizendo que queriam ir. A excursão de julho de 2018 havia sido organizada 45 dias antes. Rodrigo havia anunciado a vaga num grupo de estudantes de Brasília, cobrando uma taxa por pessoa que incluía transporte, acampamento e o que chamou de trilha guiada. 35 alunos confirmaram presença, 35 pagaram.

O roteiro que ele havia impresso no dia anterior à partida havia sido copiado de uma postagem num grupo de WhatsApp chamado “Trilheiros do Planalto”. O roteiro descrevia uma trilha de aproximadamente 8 km num trecho do parque que margeava o Vale do Rio Preto, com indicações de pontos de referência visuais, uma formação de quartzito em forma de arco, dois buritis gêmeos perto de uma bifurcação na trilha, uma pequena cachoeira e um tempo estimado de ida e volta de 4 horas.

O autor da postagem original não foi identificado. Rodrigo não havia checado com o ICMBio se aquela rota era permitida. Não havia checado se a trilha constava nos registros do parque. Nunca havia feito o trajeto antes. Rodrigo ficou no acampamento naquele sábado porque havia acordado com febre. Eram 37,8ºC quando ele checou o termômetro às 7h da manhã.

Ele tomou um analgésico, bebeu água e ficou na barraca com uma dor de cabeça latejante enquanto os outros 12 se preparavam para sair. Entregou-lhes o roteiro impresso e disse para seguirem os pontos de referência. Disse que o caminho era tranquilo. Disse que deveriam voltar antes do meio-dia para almoçarem juntos nos meses seguintes; Rodrigo seria interrogado pela delegacia de Alto Paraíso de Goiás em quatro ocasiões diferentes.

Sua conduta seria analisada, seu celular seria examinado. Suas postagens em redes sociais seriam tomadas como prova em uma audiência preliminar. Ele permaneceu sob suspeita formal por 18 meses. Em momento algum a delegacia encontrou provas concretas de que ele havia agido de má-fé ou que, na opinião do Ministério Público, tivesse havido negligência.

E a negligência, naquele contexto específico, com aqueles fatos, dentro da moldura das leis brasileiras vigentes em 2018, tinha limites legais que a acusação levou tempo para mapear. Rodrigo deixou Alto Paraíso de Goiás três semanas após o desaparecimento e voltou para Goiânia. Ele deu uma entrevista a um programa de televisão local em agosto de 2018, na qual apareceu visivelmente abatido, com olheiras profundas e voz baixa, dizendo que rezava todos os dias para que os estudantes aparecessem.

Disse que se sentia responsável. Disse que não sabia o que havia acontecido. A entrevista durou 8 minutos. O apresentador agradeceu a todos e passou para o segmento seguinte. Os 23 alunos que ficaram no acampamento passaram a tarde de sábado em um estado que não era exatamente preocupação, mas também não era desespero. Aquele espaço intermediário, a área de espera que fica mais pesada a cada hora que passa, sem notícias, mas que ainda oferece espaço para uma explicação simples: que eles se atrasaram, que pararam em uma cachoeira, que perderam a noção do tempo. Às 14h, um dos alunos foi até a beira da trilha e gritou bem alto. Nenhuma resposta foi recebida. Dos três, dois caminharam 1 km pelo início da trilha antes de decidirem que não tinham equipamento para ir mais longe. Às 17h, o grupo inteiro estava em silêncio ao redor dos fogões. O sinal de celular no acampamento não era confiável; funcionava em alguns pontos da clareira por alguns minutos e depois desaparecia.

Para conseguir uma boa conexão, era preciso subir um trecho de estrada de terra em direção à rodovia, onde os sinais da Claro e da Vivo apareciam com uma ou duas barras. Foi de lá que Rodrigo ligou para o Parque Nacional às 18h42, em pé no topo de uma rocha branca de quartzito à beira da estrada, com o céu já alaranjado atrás do planalto e o Cerrado escurecendo rapidamente à frente.

O funcionário do parque que atendeu a ligação registrou e disse que contataria os bombeiros. O acionamento formal ocorreu às 21h15. Durante esse intervalo de mais de duas horas, nenhuma equipe entrou na trilha. O argumento operacional estava correto. Entrar em uma trilha não demarcada à noite, sem coordenadas precisas e com equipamento insuficiente, criaria mais vítimas do que resolveria.

Era um argumento tecnicamente defensável. Era também um argumento que nenhuma das mães pôde aceitar quando soube, dias depois, que o parque havia sido fechado por 2 horas enquanto seus filhos estavam desaparecidos na mata. Quando os bombeiros chegaram ao acampamento, era quase meia-noite.

Eles chegaram em dois veículos com seis homens no total, carregando lanternas de cabeça, rádios e um mapa físico do parque que não incluía o trecho da trilha não oficial. O sargento Evaldo Junqueira Mota, encarregado da operação, checou o roteiro impresso de Rodrigo, olhou para a escuridão do Cerrado e tomou a decisão que qualquer manual de busca e resgate recomendaria naquelas condições: esperar o amanhecer.

A mata densa à noite, sem trilhas marcadas, a possibilidade de voçorocas e quedas abruptas de terreno tornavam a entrada noturna um risco que ele não estava autorizado a correr com aquela equipe. Naquela noite, os alunos que permaneceram no acampamento tentaram dormir. Alguns conseguiram ficar acordados por algumas horas, enquanto outros ficaram acordados observando as barracas dos 12 que não haviam retornado.

Barracas com suas entradas fechadas, sacos de dormir dobrados dentro, tênis de borracha alinhados na entrada, pequenos frascos de repelente de insetos em pedras, embalagens e sacos de dormir vazios num silêncio que o Cerrado não cobria completamente, porque o Cerrado à noite tem sons, o sapo, o grilo, o vento seco entre os arbustos, mas nenhum deles preenche o tipo de silêncio que se instala quando se espera por alguém que não chega.

As primeiras mães chegaram a Alto Paraíso de Goiás na tarde de domingo. Menos de 30 horas haviam se passado desde o desaparecimento. Elas vieram de carro pela BR-00, depois pela GO-00, uma estrada que corta o cerrado goiano, com longas curvas e um acostamento estreito, onde o asfalto desaparece em alguns trechos e a terra vermelha aparece.

Alguns vieram de ônibus, dois vieram de avião para Brasília. E então dirigiram os 180 km até Alto Paraíso com alguém que não conheciam bem e que havia se oferecido para dirigir. Nenhum deles havia dormido, nenhum deles havia comido direito desde que recebeu a notícia. A maioria passou a noite em claro com o celular na mão, ligando para números que não atendiam, enviando mensagens para grupos que demoravam a responder, assistindo a noticiários locais que ainda não tinham a informação ou tinham uma versão parcial que não correspondia ao que eles sabiam.

Alto Paraíso de Goiás é uma cidade pequena, com pouco mais de 7.000 habitantes, encravada no planalto do Cerrado, conhecida entre os turistas por seu misticismo, cachoeiras e lojas de cristais que se alinham na rua principal. Tem uma praça central com jacarandás, uma farmácia, um posto de gasolina e algumas pousadas simples.

A delegacia fica numa rua lateral, num prédio baixo com paredes amarelas e um portão de ferro verde. O estacionamento na frente tem espaço para quatro carros. No domingo à tarde, havia mais de 20 pessoas dentro e ao redor da delegacia — mães, pais, irmãos, namorados e namoradas — sentados nas cadeiras de plástico da sala de espera, encostados na parede do corredor, alguns do lado de fora na calçada, no sol de julho, que ainda queimava durante as horas mais quentes do dia, mesmo no inverno do Cerrado. A delegada responsável pelo caso, Adriana Queiroz Fonseca, tinha 42 anos, havia trabalhado em delegacias de Goiânia por 15 anos antes de ser transferida para o interior, e era o tipo de profissional que sabia separar o que era urgente do que era necessário. Nas primeiras 48 horas, ela se reuniu com cada família pessoalmente, ouviu cada nome, anotou cada detalhe que cada pai sabia sobre o filho desaparecido: tamanho do sapato, cor da mochila, tipo de jaqueta, se tinha alguma marca no corpo, se tinha algum problema de saúde, se sabia fazer trilha. Após essas 48 horas, o volume do caso a forçou a delegar. Havia uma investigação a ser aberta, testemunhas a serem ouvidas, coordenação com os bombeiros, com o ICMBio, com a Polícia Militar e com famílias de outros estados que solicitavam boletins de ocorrência.

Ela passou o contato diário com as famílias para um assistente chamado Gilberto, que era paciente, mas que não tinha as respostas que as mães precisavam ouvir. Porque as respostas que as mães precisavam ouvir ainda não existiam. As mães entenderam essa mudança sem precisar de explicação.

Elas a entenderam da maneira como se entende quando o sistema funciona da única forma que é capaz de funcionar, que não é a forma que você precisa. Algumas choraram naquele corredor amarelo, outras não. Aquelas que não choraram foram as que demoraram mais para se recuperar, porque guardaram um peso dentro de si que o choro teria aliviado de alguma forma, e que, sem uma saída, se solidificou.

O que você faria se o telefone de alguém que você ama de repente parasse de atender? Se a última mensagem fosse algo simples, um emoji, um “até logo”, um “já volto”, e depois o silêncio. É uma pergunta que nenhuma das mães que chegaram a Alto Paraíso naquele domingo havia feito a si mesma antes.

E é uma pergunta que, uma vez que você se encontra imerso nela, você não consegue tirar da cabeça. Durante cinco dias, a região do Cerrado da Chapada dos Veadeiros sediou a maior operação de busca e salvamento da história recente do estado de Goiás. Um total de 417 pessoas estiveram envolvidas, entre bombeiros, policiais militares, voluntários civis, funcionários do ICMBio e guardas-parques.

Cães farejadores foram trazidos de Goiânia por uma equipe especializada que chegou na manhã de segunda-feira. Um helicóptero da Polícia Militar sobrevoou a região nas três primeiras manhãs, escaneando visualmente os trechos mais abertos do planalto, os cânions às margens do Rio Preto. Equipes do ICMBio, que conheciam aquele parque há anos, que sabiam o nome de cada trilha, de cada afluente, de cada formação quartzítica, percorreram os trechos indicados no roteiro de Rodrigo e as áreas ao redor.

O Cerrado em julho é uma coisa muito específica. É um bioma que, durante a seca do inverno, ganha uma forma que surpreende quem não o conhece. A vegetação rasteira, o chão coberto de folhas secas, o arco, aquele cheiro distante de fumaça vindo das queimadas ao redor.

O campo aberto, que é como se chama o trecho sem árvores altas, permite visibilidade horizontal por dezenas de metros. A mata mais densa e fechada tem arbustos e árvores retorcidas com casca grossa, mas ainda deixa espaço para se movimentar. Não é a Amazônia, não é a Mata Atlântica. É possível ver, é possível ouvir? É possível, em condições normais, encontrar o rastro de uma pessoa? Eles não encontraram nada, nenhum rastro, nenhum objeto, nem um pedaço de roupa pendurado num galho, nem mesmo a marca de um sapato na lama perto de um riacho. O Sargento Evaldo, que coordenou as equipes de bombeiros nos três primeiros dias, disse mais tarde a um repórter da TV Anhanguera que a ausência de rastros foi o que mais o incomodou. Em uma trilha não oficial, com 12 pessoas inexperientes, seria de se esperar que o grupo tivesse deixado sinais para trás, como galhos quebrados, marcas no chão e materiais descartados.

O Cerrado em julho, com seu solo seco, mostra a passagem de pessoas de forma relativamente clara. Doze pessoas juntas deixam um rastro visível por dias. Não havia nada. Esse vazio foi o que os investigadores não souberam interpretar. Havia hipóteses técnicas. O grupo havia feito um desvio por terreno rochoso, onde as pegadas não ficavam visíveis.

Eles haviam descido para um cânion de difícil acesso. Eles haviam chegado a um trecho mais úmido perto do Rio Preto, onde o terreno era diferente. Essas hipóteses foram investigadas. Os cânions foram descidos, as margens do rio foram exploradas e os trechos rochosos foram verificados. Cada hipótese foi testada e descartada por falta de evidências, não porque o oposto tenha sido confirmado.

No quinto dia, com os bombeiros exaustos e os recursos operacionais levados ao limite, o corpo de bombeiros encerrou as buscas ativas. A decisão foi comunicada às famílias em uma rápida reunião em uma sala emprestada da prefeitura de Alto Paraíso, com cadeiras de plástico azul e uma janela com vista para a rua.

A delegada Adriana estava presente, o comandante dos bombeiros estava presente e um representante do ICMBio estava presente. As famílias ouviram o anúncio em silêncio. Uma das mães, Sônia Pereira Brito, de Ceilândia, cuja filha Débora tinha 19 anos, levantou-se e saiu da sala sem dizer nada.

Ficou do lado de fora, na calçada, de costas para a porta, olhando para a praça vazia de Alto Paraíso por um longo tempo. Ninguém foi atrás dela imediatamente. Às vezes, a atitude mais respeitosa que se pode ter é deixar a pessoa estar onde ela está. Em março de 2020, quase dois anos após o desaparecimento dos 12 estudantes, a delegacia de Alto Paraíso de Goiás encaminhou a investigação ao Ministério Público do Estado.

Era um documento extenso, com centenas de páginas de depoimentos, laudos técnicos, relatórios de busca, perícia em celulares, análise de redes sociais, e chegava a uma conclusão que não era bem uma conclusão. Falta de indícios suficientes para indiciar qualquer pessoa, falta de indícios suficientes para determinar o que havia acontecido.

Foi o resultado de dois anos de trabalho que nunca chegaram a uma conclusão. Dentro da terminologia jurídica, essa era a única conclusão honesta possível. O Ministério Público devolveu os autos do processo solicitando mais investigações. Queria que a delegacia investigasse a responsabilidade de Rodrigo com mais profundidade, verificasse se havia outros grupos de trilheiros que haviam percorrido aquela rota em meses anteriores e buscasse informações do Sinalid sobre desaparecimentos semelhantes em áreas de Cerrado nos últimos 5 anos. As investigações foram realizadas de forma mais parcial. O delegado, que havia assumido o caso após a transferência de Adriana Queiroz Fonseca para Goiânia, tinha outras investigações em andamento e poucos agentes disponíveis para pesquisa de campo. Em julho de 2020, exatamente dois anos após o desaparecimento, o caso foi provisoriamente arquivado.

A palavra “provisoriamente” constava do documento. Isso significava que o caso poderia ser reaberto se novos elementos surgissem, mas o arquivamento era real, e a diferença entre um arquivamento provisório e um arquivamento definitivo na prática diária da justiça brasileira pode ser muito menor do que a linguagem jurídica sugere.

As 12 famílias foram notificadas por correio. Uma carta formal em papel timbrado oficial do Ministério Público de Goiás, contendo o número do processo e os termos legais que descreviam o arquivamento do caso. Algumas famílias receberam a carta, outras não, por mudança de endereço, falha na entrega ou motivos que o sistema postal não registra.

Conceição Ramalho Duarte, que morava em Imperatriz e havia mudado de apartamento há seis meses após não conseguir mais pagar o aluguel onde morava quando Thiago desapareceu, soube do arquivamento do caso três meses depois, em uma tarde de outubro de 2020, quando ligou para a delegacia de Alto Paraíso para se informar sobre o andamento do processo.

A atendente consultou o sistema e a informou, com a voz neutra de quem anuncia horários de ônibus, que o caso estava arquivado desde julho. Conceição ficou em silêncio por alguns segundos, agradeceu e desligou. Depois disso, sentou na cadeira da cozinha sabe-se lá por quanto tempo, com o celular na mesa à sua frente, o ventilador ligado e o barulho da rua lá fora.

Você conseguiria continuar com sua rotina depois de uma ligação dessas, depois de dois anos esperando por uma resposta, e então receber a mensagem de arquivamento do seu caso pelo telefone, através de uma voz que não sabia o nome do seu filho, que nunca havia lido uma única linha sobre ele? Não há resposta certa para isso. É algo que cada pessoa que passou por isso respondeu da única forma que conseguiu.

Conceição respondeu da mesma forma que muitas dessas mães responderam, continuando, após o encerramento do caso, seis das 12 famílias decidiram não parar. Não havia um plano formal; havia uma recusa. A recusa em aceitar que dois anos de processos infrutíferos significavam o fim da história. Seis famílias que tomaram essa decisão foram aquelas cujos membros haviam se aproximado durante o tempo em Alto Paraíso e mantiveram contato ao longo dos dois anos de investigação, ligando umas para as outras sempre que havia alguma novidade no caso, quando uma matéria saía na imprensa ou quando alguém tinha um sonho que precisava compartilhar com alguém que entendesse. Eles criaram um grupo de WhatsApp chamado Chapada, Nossos Filhos. Inicialmente, as mensagens eram de apoio, informativas e envolviam o compartilhamento de notícias sobre casos semelhantes. Com o tempo, o grupo tornou-se o centro de uma operação de busca informal.

Arrecadaram dinheiro através de financiamento coletivo em plataformas online, rifas, pedidos de doação e campanhas de financiamento coletivo que arrecadavam apenas alguns reais por vez. Economizando por vários meses, conseguiram juntar dinheiro suficiente para contratar Demóstenes Cavalcante Lima, um investigador particular de Goiânia com 20 anos de experiência em desaparecimentos, que havia trabalhado em casos na Serra da Bodoquena, no Pantanal e nos arredores do Parque Nacional das Emas.

Demóstenes cobrava uma taxa fixa mais despesas de campo. As famílias pagavam em parcelas transferidas todo dia 15 do mês via Pix. Cada um contribuindo com o que podia. Ele trabalhou por oito meses entrevistando moradores de Alto Paraíso e da vila de São Jorge, conversando com guias de trilhas que conheciam o parque, verificando registros de entrada no ICMBio dos meses antes e depois do desaparecimento, cruzando informações com o grupo de WhatsApp de trilheiros de onde a rota havia sido copiada.

Ao final dos 8 meses, Demóstenes entregou um relatório de 42 páginas com hipóteses e lacunas, mas sem uma localização. Disse às famílias, com honestidade profissional, que havia chegado ao limite do que podia fazer sem acesso às ferramentas do Estado. Elas voltaram à Chapada três vezes em 2021 e duas em 2022.

Cada viagem envolvia desafios logísticos em termos de transporte, acomodação e equipamento. Algumas mulheres iam de ônibus, algumas conseguiam carona com conhecidos. Carregavam drones alugados com sistemas GPS mais precisos do que os usados na primeira busca, botas apropriadas e rádios de comunicação. Entraram em áreas que as equipes oficiais não haviam coberto, orientadas pelo relatório de Demóstenes e por informações que moradores locais passavam em conversas.

Para passar o tipo de informação que se obtém num domingo à tarde num bar, quando alguém que conhece o Cerrado há 30 anos fala de um vale fechado onde raramente entra gente, de um antigo acampamento que ficava numa área de difícil acesso, de uma trilha que os índios Vaca Noero usavam antes da demarcação.

Cada volta rendia o mesmo resultado. O Cerrado não havia devolvido nada, mas eles continuaram. Não porque acreditassem racionalmente que aquele fim de semana específico seria aquele que mudaria tudo. Mas porque sair era a única forma de continuar a ser mãe de alguém que desapareceu sem explicação.

E parar significava uma capitulação que nenhum deles conseguia formular para si sem que o chão lhes faltasse. E ainda precisávamos descobrir o que o drone havia descoberto no segundo ano. No dia 17 de setembro de 2023, Marcos Vinícius Teles Aguiar saiu de Alto Paraíso às 7h numa picape branca F270 com a logomarca de uma empresa de consultoria ambiental de Goiânia.

Ele tinha 34 anos, era formado em engenharia ambiental e tinha 3 anos de experiência em levantamentos de vegetação com drone para o ICMBio e para proprietários rurais do entorno do parque. Naquele dia, ele e um colega mapeavam uma área em regeneração de vegetação de cerrado no extremo noroeste do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, numa região de difícil acesso que exigia uma caminhonete 4×4.

E em alguns trechos, é preciso caminhar. O colega dele havia ficado em outro ponto do levantamento. Marcos estava sozinho dentro da picape, estacionada numa área plana de terra, no topo de um morro, com a porta do motorista aberta e a tela de controle do drone apoiada no joelho. O equipamento era um DJI Mavic 3 com câmera de alta resolução e tempo de voo de aproximadamente 45 minutos por bateria.

Marcos havia lançado o drone às 8h22 e escaneava sistematicamente a área abaixo, registrando pontos de vegetação densa e regeneração por tipo de espécie. Às 8h43, o drone cruzou a borda de uma elevação e iniciou a descida visual sobre um vale aninhado entre duas formações rochosas de quartzito branco cobertas por vegetação rasteira.

Mais tarde, Marcos estimou que o vale tinha entre 100 e 120 metros de profundidade e variava em largura. O Rio Preto passava por um trecho daquele vale, invisível da margem superior, mas mais audível para quem estava lá dentro. A vegetação no fundo era mais densa, com buritizais próximos ao rio e cerrado denso e fechado nas encostas.

No centro do vale, em uma área parcialmente aberta, Marcos viu o fogo. Era uma fogueira de 1,5 m de diâmetro, organizada com troncos dispostos radialmente, e ativamente alimentada. A fumaça subia em um fluxo vertical, sinal de que havia pouco vento no fundo do vale, e estava claramente visível na câmera do drone. O fogo não estava apagando nem se espalhando; estava sendo mantido.

Marcos abaixou a altitude do drone e aproximou a câmera. Havia vultos ao redor da fogueira. Eles estavam agachados ou sentados perto do fogo, em um número que Marcos posteriormente estimou estar entre 3 e 4. A resolução da câmera, àquela distância e altitude, não permitiu a identificação precisa de características faciais ou roupas, mas permitiu afirmar que não eram animais.

A postura, o posicionamento ao redor do fogo, a relativa imobilidade — tudo indicava que eram seres humanos. Marcos gravou 4 minutos e 32 segundos de vídeo contínuo antes que o alerta de bateria fraca começasse a piscar na tela e ele fosse forçado a trazer o drone de volta. Quando o aparelho pousou na palma de sua mão, Marcos ficou olhando para a tela por alguns segundos.

Então ele fixou o olhar no horizonte, no ponto do vale que não era visível a olho nu de lá. Então ele olhou de volta para a tela. Ficou sentado na picape por quase 20 minutos antes de conseguir ligar para alguém. Primeiro ligou para o colega que estava a 12 km de distância. O colega sugeriu que ligasse para o ICMBio. Marcos ligou para o ICMBio.

A funcionária que atendeu registrou o relato e disse que o encaminharia ao setor responsável. Marcos perguntou se deveria ligar também para a polícia. A funcionária disse que ele poderia fazer isso se achasse necessário. Marcos ligou para a delegacia de Alto Paraíso, descreveu o que havia visto e disse que tinha o vídeo.

O atendente pediu seu nome, endereço e telefone de contato e disse que um agente entraria em contato. Marcos enviou o vídeo via WhatsApp para o número da delegacia naquela mesma tarde. O vídeo foi entregue. O tique azul permaneceu por dois dias, sem resposta. Você se lembra do que foi dito no início? A resposta para o que havia naquele vale estava mais próxima do que nunca, mas chegar até ela levaria mais tempo do que qualquer uma das famílias previra.

O vídeo do Marcos começou a circular antes que a resposta oficial chegasse. Não porque ele o divulgou publicamente — ele não fez isso, pelo menos não intencionalmente. Mas o colega que havia recebido o arquivo por WhatsApp encaminhou-o a um grupo de WhatsApp de moradores de Alto Paraíso. De lá foi para um grupo de turismo da região do Cerrado, e de lá para um grupo de jornalistas locais.

Em três dias, o vídeo havia chegado a um dos perfis do Instagram que acompanhava o caso dos 12 estudantes desaparecidos desde 2018. O perfil era mantido por Patrícia Mendes Araújo, irmã mais velha de Henrique Araújo, um dos 12 que havia criado a conta em agosto de 2018 e a mantinha atualizada com informações sobre o caso, homenagens ao irmão e pedidos de informações.

Patrícia assistiu ao vídeo em uma manhã de terça-feira em seu apartamento em Taguatinga, onde morava com o marido e dois filhos. Ela assistiu uma vez, assistiu de novo, aumentou o zoom na tela com os dedos, ficou parada por um momento e depois ligou para Conceição Ramalho Duarte em Imperatriz. As seis mães do grupo do WhatsApp Chapada, nossos filhos, assistiram ao vídeo no mesmo dia.

Cada uma teve uma reação diferente. Algumas não conseguiam falar quando tentavam ligar umas para as outras. Algumas diziam que precisavam desligar. Uma disse que não queria ver. Não porque não quisesse saber, mas porque cinco anos de espera fizeram seu corpo desenvolver um mecanismo de proteção que às vezes era mais forte que sua força de vontade.

O vídeo chegou à delegacia de Alto Paraíso por uma via alternativa, entregue por um vereador da cidade que havia recebido o arquivo e o encaminhou diretamente ao delegado de polícia. A resposta oficial do estado ao que foi filmado naquele vale, entretanto, demorou mais de um mês para se materializar em ações concretas.

A resposta oficial ao vídeo de Marcos Vinícius demorou 34 dias. Não porque a delegacia tivesse ignorado o material. O delegado de polícia estava com o arquivo desde a segunda semana de setembro, mas a operação de descida ao fundo do vale exigia planejamento logístico, equipamentos específicos para descida em terreno íngreme, articulação com o ICMBio para acesso a uma área de proteção integral, e autorização judicial para coleta de material em local que poderia ser cena de crime.

Cada uma destas etapas tinha o seu próprio cronograma burocrático e os calendários não se alinharam rapidamente. A equipe chegou ao fundo do vale em 21 de outubro de 2023. Eram sete pessoas: três bombeiros, dois policiais civis, um perito criminal do IML de Goiânia e um funcionário do ICMBio que conhecia aquela região do parque.

A descida demorou aproximadamente 2 horas a partir do ponto de aterrissagem mais próximo, que ficava a 4 km do local filmado pelo drone. O terreno era regular, com pedras soltas de quartzito branco, vegetação que fechava em alguns pontos e abria em outros, e um declive acentuado no final que exigia o uso de cordas. O que eles encontraram no fundo do vale foi documentado num relatório técnico preparado ao longo de novembro de 2023.

O relatório foi parcialmente divulgado à imprensa a pedido do Ministério Público de Goiás, que citou a necessidade de preservar as investigações em andamento. A versão divulgada tinha 11 páginas, a versão completa tinha 37. O que a versão pública confirmou? Havia sinais claros de ocupação humana prolongada naquele local, não apenas de passagem, mas de residência permanente.

Havia restos de fogueiras de várias idades, algumas recentes e outras com meses ou anos, de acordo com a avaliação do perito; a vegetação ao redor havia sido intencionalmente manejada. Galhos podados, espaço aberto para circulação, uma estrutura rudimentar feita de troncos de árvores que poderia ter sido usada como abrigo ou como suporte para algum tipo de telhado.

Eles encontraram fragmentos de pertences pessoais. O relatório descreveu apenas fragmentos de material têxtil e um objeto de plástico rígido, sem especificar cor, marca ou possível dono. Encontraram vestígios de pelo menos quatro pares de sapatos de tamanhos diferentes, impressos num trecho de solo úmido próximo ao curso d’água.

O relatório não especificou para onde as pegadas levavam. O que a versão pública não confirmou foi se havia alguma correspondência entre os objetos encontrados e algum dos 12 alunos desaparecidos, se as pegadas haviam sido seguidas e para onde levavam, ou se havia alguma evidência da identidade das pessoas que ocuparam aquele local.

Havia alguma hipótese investigativa que o Ministério Público considerasse prioritária? As 12 famílias receberam um comunicado de duas páginas elaborado pelo Ministério Público de Goiás numa tarde de novembro de 2023. O comunicado foi entregue por telefone. Um funcionário do Ministério Público ligou para cada família e leu o texto em voz alta.

A chamada durou em média 4 minutos. Por fim, a funcionária perguntava se havia alguma dúvida. Geralmente, as famílias ficavam em silêncio por alguns segundos antes de responder. Algumas disseram que tinham perguntas, mas não conseguiam formulá-las no momento. Algumas agradeceram, uma desligou sem dizer nada. Nenhum nome foi confirmado e nenhum objeto foi descrito com detalhes suficientes para que uma família o reconhecesse.

Nenhuma hipótese foi apresentada como a preferencial. O comunicado concluiu dizendo que as investigações estavam em andamento e que as famílias seriam notificadas se houvesse algum novo desdobramento relevante. Conceição Ramalho Duarte ouviu o anúncio sentada em sua habitual cadeira de cozinha, com o ventilador ligado, o barulho da rua lá fora, seu apartamento de dois quartos em Imperatriz, que havia reformado um pouco com o dinheiro economizado nos últimos anos, mas que ainda mantinha a mesma disposição de móveis de 2018. A foto de Thiago ainda estava na mesma posição na estante da sala. Ela havia trocado a moldura uma vez, porque a antiga tinha amarelado muito, mas a foto ainda era de Thiago com o uniforme da faculdade. Uma tarde, por motivos que ela não lembrava mais, ela sorriu para alguém que estava fora de quadro. Quando o funcionário do Ministério Público terminou de ler e perguntou se ela tinha alguma dúvida, Conceição disse que sim.

Ela perguntou quando alguém voltaria ao vale. A funcionária disse que não tinha essa informação no momento. Conceição agradeceu e desligou. Se fosse com você, sua filha, seu filho, você acreditaria no que o comunicado diz? Você conseguiria ouvir quatro minutos de texto sendo lidos em voz alta por alguém que não sabe o nome da pessoa que você perdeu e aceitar que isso era tudo que o estado tinha a oferecer naquele momento? É uma pergunta que não tem uma resposta confortável, e é uma pergunta que cinco anos de espera tornaram ainda mais difícil de responder com calma. Hoje, Conceição Ramalho Duarte ainda mora no mesmo apartamento de dois quartos em Imperatriz, Maranhão. Ele fará 53 anos em março do ano que vem. Ela trabalha numa padaria no bairro Bacanga, das 6h às 14h. Pega dois ônibus para ir e dois para voltar.

Ao chegar em casa, almoça sozinha, descansa um pouco e cuida das plantas na varanda. Tem um vaso de manjericão, dois de hortelã e uma samambaia que quase deixou morrer em 2021 e que recuperou com cuidado e paciência ao longo de meses. O casaco de Thiago ainda está no cabide em seu quarto. É um moletom cinza da UFMA que ele havia deixado em Imperatriz porque estava calor em Brasília quando viajou e não quis pesar a mochila.

Conceição lavou seu casaco uma vez em 2019 porque estava empoeirado. Ela o esticou, esperou secar, dobrou-o e colocou de volta no mesmo lugar. Ela não sabe por que fez aquilo. Ela não sabe por que não deu certo para alguém. Ela não sabe por que, mas às vezes quando anda pelo corredor e seu casaco está no seu campo de visão, ela diminui um pouco o passo.

A foto de Thiago está na mesma posição na prateleira da sala. Ao lado dela está uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, que a mãe de Conceição lhe deu quando Thiago nasceu, uma pequena estatueta branca de resina com um manto azul levemente desgastado na borda, e um porta-retrato com uma foto de Thiago bebê, em seu colo, com o rostinho de recém-nascido amassado, dormindo com os punhos cerrados.

Conceição não mudou nada. Não porque ela não queira, não porque ela acredite que mexer em algo traz má sorte ou quebra algum tipo de pacto com o invisível, mas porque mexer é uma decisão, e algumas decisões requerem uma certeza que ela ainda não tem. E porque há uma parte dela, não grande, não dominante, mas persistente, teimosa, silenciosa, como um sinal de rádio fraco que você capta de madrugada, quando tudo está quieto, que ainda está esperando.

Não com a mesma intensidade de 2018, não com aquela urgência de mãe que ainda acredita que uma ligação pode chegar a qualquer momento, trazendo a voz do filho, mas com um tipo diferente de espera, mais lenta, mais pesada. A espera de quem entende que talvez não haja resposta, mas que ainda não conseguiu encerrar o capítulo, porque encerrar sem saber o que aconteceu é uma dor que não tem nome na linguagem que ela conhece.

As outras cinco mães no grupo do WhatsApp continuam em contato, enviando mensagens nos aniversários de cada um dos filhos desaparecidos e compartilhando vídeos do pôr do sol quando os tempos ficam mais difíceis. Às vezes, alguém posta uma foto antiga, uma foto do acampamento, de uma das viagens de busca, de uma reunião na delegacia, e fica lá no grupo sem comentários, como um objeto colocado no centro da mesa que todos veem e ninguém precisa nomear.

O grupo Chapada Nossos Filhos continua ativo até hoje. A última mensagem foi enviada há três dias. O inquérito sobre o desaparecimento dos 12 alunos da Chapada dos Veadeiros foi formalmente reaberto pelo Ministério Público de Goiás em dezembro de 2023, após análise do relatório da operação de outubro.

As investigações estão em andamento. Nenhum nome foi confirmado. Nenhuma hipótese foi apresentada publicamente como definitiva. O vale onde a fogueira foi filmada foi visitado pela equipe de outubro e, de acordo com informações não oficiais que circulavam na imprensa local em janeiro de 2024, foi visitado novamente em fevereiro por uma equipe menor.

O resultado dessa segunda visita não foi divulgado. 12 famílias estão esperando. A região da Chapada dos Veadeiros continua recebendo turistas. Nos fins de semana de inverno, os campings próximos ao Ribeirão dos Couros ficam lotados. Grupos de jovens montam barracas coloridas, fazem café em fogareiros e planejam trilhas para o dia seguinte.

A região é linda, e essa não é uma palavra para ser usada levianamente aqui, mas é a palavra certa para descrever o Cerrado em julho com o céu azul escuro do planalto, o cheiro de terra seca, o sol que aquece sem queimar nas primeiras horas da manhã. É um lugar que convida à leveza. É um lugar que, sob sua leveza, guarda uma história que ainda não chegou ao fim.

Há coisas que o Brasil esconde no Cerrado que ninguém nunca encontrará. Há coisas que o Brasil esconde no Cerrado que alguém vai encontrar um dia quando menos esperar, sobrevoando uma área de levantamento ambiental numa manhã de setembro, com uma câmera apontada para um vale que parecia vazio, mas não estava.

O que há no fundo daquele vale? Quem acendeu aquela fogueira para onde levavam os rastros de quatro pares de sapatos? São perguntas que o Ministério Público de Goiás ainda não respondeu publicamente. São perguntas com as quais as 12 famílias lidam há mais de 5 anos. São perguntas que, por enquanto, a região do Cerrado guarda para si.