Atenção, bem-vindos a esta jornada por um dos casos mais perturbadores registrados na história do Pará.
Em 1910, Belém do Pará vivia o declínio do ciclo da borracha. Os barões já não ostentavam a mesma opulência. As mansões começavam a mostrar rachaduras em suas fachadas, e as sombras pareciam mais longas nas calçadas de pedra portuguesa do centro histórico. Foi nesse cenário de decadência velada que o nome Jurema apareceu pela primeira vez nos registros da cidade.
Na manhã de 23 de março daquele ano, uma mulher indígena foi encontrada vagando pela Praça da República. Seus pés descalços deixavam marcas úmidas no calçamento. Ela não falava português, apenas murmurava palavras em Nheengatu, a língua geral amazônica. As autoridades locais a levaram para o recém-inaugurado asilo para alienados nos arredores da cidade.
No livro de registros, uma nota sucinta: “Mulher indígena encontrada em estado de perturbação mental. Nome dado: Jurema, idade aproximada: 30 anos, sem documentos ou pertences.” O Dr. Augusto Menezes, médico-chefe da instituição, escreveu algo em seu diário pessoal que nunca chegou aos registros oficiais: “A indígena apresenta marcas circulares nos pulsos e tornozelos. Não são ferimentos recentes, mas cicatrizes antigas, consistentes com imobilização prolongada.”
Seus olhos encaravam o vazio, como se pudessem ver algo além das paredes. Por seis dias, Jurema permaneceu em silêncio absoluto, sentada na beira da cama de ferro, olhando pela pequena janela com grades em direção ao rio.
No sétimo dia, uma enfermeira chamada Joana Silva ouviu a indígena cantando baixinho enquanto traçava intrincados padrões circulares na poeira do chão. A enfermeira relatou que, ao se aproximar, Jurema ofegou e disse claramente em português:
“Eles ainda estão lá, todos eles, na Casa de Madeira Vermelha.”
Coincidentemente, naquela mesma semana, o jornal A Província do Pará publicou uma nota curta sobre a chegada de uma expedição científica do Rio de Janeiro. O grupo era liderado pelo antropólogo Rodrigo Ferreira, que viera estudar as comunidades indígenas na região do Alto Xingu e fizera uma parada estratégica em Belém para reabastecer suprimentos e contratar guias locais.
Registros portuários mostram que, em 3 de abril de 1910, Rodrigo partiu no navio a vapor São José com destino a Santarém, a primeira parada de sua expedição rumo ao interior. Entre os documentos encontrados décadas depois nos Arquivos da Sociedade Geográfica Brasileira, uma carta do antropólogo mencionava brevemente: “Antes de deixar Belém, fui informado sobre uma mulher nativa que poderia servir como intérprete. Ao visitá-la no asilo local, encontrei-a em estado catatônico. Algo no olhar daquela mulher me perturbou profundamente. Ela agarrou meu pulso com força surpreendente e murmurou algo sobre uma casa de madeira vermelha. Os médicos me garantiram que era apenas delírio febril.”
Os registros do asilo para alienados mostram que Jurema permaneceu internada por mais três semanas. As notas do Dr. Menezes indicam melhora progressiva e aquisição gradual da fala em português. Em 27 de abril, uma nota intrigante aparece: “Paciente relata ter trabalhado como empregada doméstica em uma residência na área do reduto. Forneceu um endereço para verificação.” O endereço mencionado era uma casa na Rua dos Mundurucus, conhecida no bairro como a casa de madeira vermelha.
A propriedade pertencia a Alberto Santos, um comerciante de borracha que havia feito fortuna durante o auge do ciclo econômico. Em 1908, Alberto havia partido para a Europa com a esposa e três filhos, supostamente para o tratamento de saúde da mulher, que sofria de tuberculose. A casa foi deixada aos cuidados de empregados.
Motivado por curiosidade científica, o Dr. Menezes decidiu visitar o endereço indicado por Jurema. Em suas notas particulares, ele descreveu: “A casa permanece fechada. As janelas estão cobertas com tábuas pregadas por dentro. Conversei com vizinhos que relataram não ver nenhuma atividade na residência por pelo menos um ano.”
O último funcionário visto foi o caseiro, um homem chamado Jerônimo, que também desapareceu sem explicação. Uma semana depois, em 4 de maio, os registros mostram que Jurema recebeu alta do asilo e foi liberada aos cuidados de um comerciante local chamado Manuel Pereira. Manuel, dono de uma mercearia no bairro da Campina, havia perdido a esposa recentemente e precisava de alguém para ajudar nas tarefas domésticas e nos negócios.
Registros paroquiais indicam que Manuel era viúvo de Maria Pereira, falecida em dezembro de 1909 de febre amarela. Durante os dois meses seguintes, não há menções a Jurema em nenhum registro oficial da cidade. Em julho de 1910, no entanto, um boletim de ocorrência registrado na Delegacia Comercial detalha o desaparecimento de Manuel Pereira.
De acordo com o relatório assinado pelo delegado Francisco Nunes, o lojista não abriu sua mercearia por três dias consecutivos, o que levou os vizinhos a alertarem as autoridades. Quando a polícia entrou na residência de Manuel, encontrou a casa vazia. Não havia sinais de violência ou luta. A cama estava feita, e havia comida preparada na cozinha.
O único detalhe perturbador era um desenho a carvão na parede dos fundos: círculos concêntricos, semelhantes aos que Jurema costumava desenhar no asilo. Também não havia rastros de Jurema. A polícia iniciou uma busca discreta. O desaparecimento de um comerciante de classe média não era prioridade em uma cidade onde a elite ainda exercia influência absoluta sobre as autoridades.
O caso teria sido completamente esquecido se não fosse por um evento subsequente. Em agosto de 1910, o corpo de um homem foi encontrado boiando perto do Ver-o-Peso, o mercado principal da cidade. O corpo estava em avançado estado de decomposição, mas documentos encontrados em seus bolsos o identificaram como Manuel Pereira.
O laudo médico assinado pelo Dr. Paulo Cordeiro indicou morte por afogamento, sem sinais óbvios de violência. Um detalhe, porém, chamou a atenção: marcas circulares nos pulsos, lembrando cicatrizes de cordas ou amarras. O detetive Francisco Nunes, responsável pela investigação do desaparecimento, observou em um relatório confidencial: “O afogamento parece acidental, mas as marcas nos pulsos sugerem que a vítima pode ter sido mantida em cativeiro antes da morte. Não há pistas sobre o paradeiro da mulher indígena que vivia com ele. A natureza das marcas nos pulsos do comerciante tem uma semelhança perturbadora com as observadas na indígena quando ela foi internada no asilo.”
Enquanto isso, na casa de madeira vermelha na Rua dos Mundurucus, o silêncio permanecia. Vizinhos relataram à polícia que ocasionalmente viam luzes fracas nas frestas das janelas durante a madrugada, apesar de a casa permanecer oficialmente desabitada. Uma vizinha, Dona Josefina Batista, afirmou ter ouvido lamentos como o de uma criança chorando vindo da casa abandonada.
A polícia realizou uma inspeção superficial, mas encontrou apenas quartos vazios e muita poeira. Em setembro de 1910, a casa foi finalmente aberta para inventário, após notícias da França confirmarem a morte de Alberto Santos e de toda a sua família em um acidente de trem perto de Paris. Como o comerciante não havia deixado herdeiros no Brasil, suas propriedades foram destinadas a leilão para pagar dívidas acumuladas nos últimos anos, quando os preços da borracha começaram a despencar no mercado internacional.
O oficial de justiça Antônio Vieira, responsável pelo inventário de bens da Casa de Madeira Vermelha, registrou em seu relatório: “Residência em estado de abandono, com móveis cobertos por lençóis. Encontrados no porão, sete baús trancados.” Ao abri-los, constatou-se que continham apenas terra úmida.
O relatório oficial não menciona, mas em conversas posteriores com amigos próximos, Antônio confessou ter sentido um odor enjoativo emanando dos baús e uma sensação de estar sendo observado enquanto fazia o trabalho. A casa foi leiloada em outubro e adquirida por um comerciante português que havia chegado recentemente a Belém.
Valentim Oliveira, o novo proprietário, iniciou extensas reformas no imóvel, removendo diversos elementos originais, incluindo o piso de madeira do porão, que foi substituído por cimento. Durante as obras, um dos operários encontrou um diário escuro encadernado em couro embutido em uma parede falsa no porão.
O caderno foi devolvido ao seu novo proprietário, que, após folheá-lo brevemente, decidiu entregá-lo à polícia. O diário foi anexado aos arquivos da delegacia comercial e permaneceu esquecido por décadas. Em 1962, durante uma reorganização dos arquivos históricos da Polícia Civil do Pará, o historiador Carlos Mendonça encontrou o diário.
O documento estava em nome de Jerônimo Cardoso, o caseiro desaparecido da casa de madeira vermelha. As anotações, cobrindo o período de janeiro de 1908 a março de 1910, revelavam uma história perturbadora. Segundo o diário, quando Alberto Santos partiu para a Europa com a família, deixou instruções específicas para que Jerônimo cuidasse não apenas da casa, mas também de assuntos pendentes no interior.
As anotações iniciais mencionavam apenas manutenção da propriedade e pagamentos a fornecedores. Em julho de 1908, no entanto, o tom das anotações mudou drasticamente: “O Sr. Gaspar retornou hoje do Alto Xingu com a encomenda do patrão. Trouxe cinco nativos, três homens e duas mulheres. Conforme instruído, eu os alojei no porão. O patrão quer que eles aprendam português e costumes civilizados antes de seu retorno. Uma das mulheres, a quem os outros chamam de Jurema, parece entender algumas palavras do nosso idioma.”
As anotações seguintes descreviam o confinamento dos indígenas no porão da casa. Jerônimo registrou que Alberto Santos havia feito fortuna não apenas com a borracha, mas também fornecendo espécimes humanos para colecionadores europeus interessados em estudos antropológicos.
Os indígenas eram mantidos em cativeiro até aprenderem o suficiente do idioma e dos costumes para serem apresentáveis como espécimes domesticados. Em janeiro de 1909, Jerônimo escreveu: “Os homens morreram. O último sucumbiu à febre ontem. Eu os enterrei nos grandes baús no porão, conforme instruído para tais casos. As mulheres estão resistindo, especialmente Jurema. Ela observa tudo com olhos que parecem estar escondendo algo. Não preciso mais mantê-la amarrada. Ela sabe que não há para onde fugir.”
Ao longo dos meses seguintes, o diário registrou a morte da segunda mulher e a mudança progressiva no comportamento de Jurema, a única sobrevivente. “Ela agora fala português com fluência surpreendente. Às vezes a observo desenhando círculos no chão do porão. Quando pergunto o que significa, ela apenas sorri.”
Em dezembro de 1909, uma anotação alarmante: “Sonhei de novo com os olhos dela me encarando no escuro. Acordo todas as noites sentindo como se alguém estivesse de pé ao lado da minha cama. A casa faz barulhos estranhos. Os ratos no porão parecem mais agitados.”
A penúltima anotação, datada de 20 de março de 1910, dizia: “Não aguento mais. Círculos aparecem desenhados por toda parte, até em lugares onde tenho certeza que ela não poderia alcançar. Ontem a encontrei sentada na minha cadeira na sala de estar, perfeitamente imóvel, como se estivesse me esperando. Quando perguntei como ela saiu do porão, ela apenas disse:”
“Eu nunca saí. Estou sempre aqui.”
“Amanhã vou libertá-la. Não importam as consequências.” A última anotação de 22 de março continha apenas uma frase: “Ela estava certa. Eles nunca saíram. Estão todos aqui. Sempre estiveram.”
Esta foi a última anotação de Jerônimo. No dia seguinte, 23 de março, Jurema foi encontrada vagando na Praça da República. O historiador Carlos Mendonça publicou um pequeno artigo sobre o caso na revista do Instituto Histórico e Geográfico do Pará em 1963. A publicação gerou pouco interesse acadêmico e foi logo esquecida. Carlos, no entanto, continuou intrigado com o desfecho da história.
O que havia acontecido com Jerônimo e qual foi o destino final de Jurema após a morte de Manuel Pereira? Em 1966, durante pesquisas nos arquivos do antigo asilo para alienados, Carlos encontrou uma pista surpreendente. Um laudo médico datado de novembro de 1910 descrevia a internação de uma mulher não identificada, encontrada vagando perto do cemitério da Soledade.
Segundo o documento, a mulher não falava, apenas desenhava círculos concêntricos no chão. A descrição física coincidia com Jurema. Uma observação do médico chamou a atenção do historiador: “A paciente exibiu comportamento peculiar. Durante a noite, funcionários relataram vê-la conversando com pessoas invisíveis em um idioma desconhecido. Em certas ocasiões, foi necessário contê-la, pois insistia em cavar o chão com as próprias mãos.”
A paciente permaneceu internada até março de 1911, quando faleceu de causas não especificadas. A certidão de óbito mencionava apenas falência múltipla de órgãos. Ela foi enterrada como indigente no próprio terreno do asilo, uma prática comum na época.
Carlos Mendonça decidiu visitar o local onde ficava a casa de madeira vermelha. A Rua dos Mundurucus havia mudado drasticamente nas últimas décadas. A antiga residência de Alberto Santos não existia mais. Um pequeno prédio comercial, construído na década de 1940, erguia-se agora no local. Conversando com moradores antigos do bairro, o historiador ouviu relatos de que o prédio tinha um histórico de problemas: vazamentos constantes no térreo, problemas elétricos inexplicáveis e alta rotatividade de inquilinos.
Um senhor idoso, morador da região há mais de 60 anos, confidenciou a Carlos:
“Ninguém fica naquele prédio por muito tempo. Dizem que à noite se ouvem sons como arranhões vindo do porão. E algumas pessoas juram ter visto uma mulher indígena parada na esquina, olhando fixamente para o prédio.”
Intrigado pelos relatos, Carlos obteve permissão para examinar a planta original do prédio comercial. Ele descobriu que, durante a construção, o porão da antiga casa não havia sido completamente destruído, mas apenas coberto com uma camada de concreto sobre a qual o novo prédio foi erguido. Em setembro de 1967, o prédio passou por reformas estruturais após problemas crônicos de infiltração.
Operários no local quebraram parte do térreo para investigar a origem dos vazamentos e fizeram uma descoberta macabra. Acima de tudo, encontraram sete baús de madeira em avançado estado de deterioração. A polícia foi chamada ao local. Quando os baús foram abertos, restos mortais humanos foram encontrados, identificados por antropólogos forenses como pertencentes a cinco pessoas: três homens e duas mulheres, aparentemente de origem indígena.
Junto com os restos do que parecia ser o corpo de uma mulher mais jovem, foi encontrado também um esqueleto menor, indicando uma possível gravidez no momento da morte. Mas foram os restos encontrados no sétimo baú que mais perturbaram os investigadores. O esqueleto pertencia a um homem adulto caucasiano, com evidências sugerindo que ele havia sido enterrado vivo.
A posição dos ossos de suas mãos, erguidas acima do crânio, sugeria que a vítima havia tentado desesperadamente escapar do baú. Fragmentos de tecido encontrados junto aos restos mortais correspondiam ao tipo de roupa usada por trabalhadores domésticos no início do século. Os investigadores concluíram que aqueles eram provavelmente os restos mortais de Jerônimo Cardoso.
O caso foi arquivado como um crime histórico sem possibilidade de resolução atual em janeiro de 1968. Os restos mortais foram transferidos para o Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Pará para estudo e eventual sepultamento adequado. Carlos Mendonça, no entanto, continuou sua investigação por conta própria.
Ele visitou o local onde o asilo para alienados havia funcionado anteriormente, agora ocupado por um hospital público. Ele conseguiu localizar os antigos registros de sepultamento do terreno da instituição entre 1900 e 1915. No registro correspondente a março de 1911, encontrou a nota sobre o sepultamento da paciente não identificada, presumivelmente Jurema.
Uma nota adicional escrita a lápis na margem do documento dizia: “A paciente proferiu palavras antes de falecer. A enfermeira de plantão registrou o que entendeu: Círculo completo, todos retornam.”
O historiador também localizou descendentes de Manuel Pereira, o comerciante encontrado morto no rio. Uma das netas do homem, Luíza Pereira, mostrou a Carlos um objeto perturbador, preservado pela família: um pequeno círculo trançado feito de fibra vegetal, encontrado entre os pertences de Manuel após sua morte. Segundo Luíza, sua avó acreditava que o objeto havia sido feito por uma mulher indígena que morou brevemente com seu avô antes de ele morrer.
Ao examinar o objeto, Carlos notou que o padrão das fibras formava exatamente o mesmo desenho dos círculos que Jurema costumava fazer no chão, conforme descrito nos registros do asilo. Em 1968, Carlos publicou um livro detalhando sua investigação, “O Caso Jurema: Morte e Sobrevivência nos Calabouços da Belle Époque”.
A obra teve circulação limitada e foi criticada por historiadores tradicionais que questionaram a metodologia e as conclusões do autor. Um mês após a publicação, Carlos Mendonça desapareceu. Segundo amigos, ele havia mencionado planos de escavar o local onde Jurema fora enterrada no antigo asilo, em busca de evidências adicionais.
Seu corpo nunca foi encontrado. O terreno onde ficava a casa de madeira vermelha passou por diversas transformações ao longo das décadas seguintes. O prédio comercial foi demolido na década de 1980 e hoje abriga uma agência bancária. Funcionários do banco relatam ocasionalmente problemas inexplicáveis com o sistema elétrico do prédio, especialmente no andar térreo.
Alguns mencionam uma sensação persistente de estarem sendo observados quando trabalham sozinhos no local. Em 2008, durante a instalação de um novo sistema de ar-condicionado na agência, operários encontraram, embutido em uma parede, um pequeno pacote contendo um círculo trançado feito de fibra vegetal, semelhante ao que pertencera à família de Manuel Pereira.
Junto ao objeto havia um pedaço de papel amarelado com uma única frase escrita em caligrafia antiga: “Não procurem mais. Estamos todos aqui.”
O objeto foi entregue ao Museu Paraense Emílio Goeldi, onde permanece catalogado como um artefato indígena de origem desconhecida, possivelmente do início do século XX. Curiosamente, funcionários do museu relatam que o objeto ocasionalmente muda de posição na vitrine durante a noite, embora o sistema de segurança não registre a presença de ninguém.
Nas imediações da agência bancária, moradores mais antigos ainda contam histórias sobre uma mulher indígena vista ocasionalmente de madrugada, caminhando descalça pelas calçadas de pedra portuguesa. Dizem que ela desenha círculos invisíveis no ar enquanto anda e que seus olhos, quando fixados em alguém, parecem ver muito além da pessoa.
Em 2010, exatos 100 anos após os eventos originais, uma pesquisadora da Universidade Federal do Pará, interessada na história indígena, decidiu investigar o caso como parte de um projeto sobre a memória e resistência dos povos nativos durante o ciclo da borracha. Ao visitar o Arquivo Histórico do Estado em busca de documentos relacionados, a pesquisadora relatou um incidente estranho.
Segundo seu testemunho a colegas, enquanto examinava antigos boletins de ocorrência sobre a casa na Rua dos Mundurucus, sentiu uma presença atrás de si. Virando-se, não viu ninguém, mas notou que alguém havia desenhado um círculo perfeito na poeira sobre a mesa ao seu lado. A pesquisadora abandonou o projeto pouco tempo depois, alegando motivos pessoais.
O caso de Jurema permanece um sussurro na memória coletiva de Belém, um eco distante dos horrores silenciados da época de ouro amazônica. Nas noites de lua nova, os mais velhos dizem que, se alguém passar pela esquina onde ficava a casa de madeira vermelha e prestar atenção ao vento que sopra do rio, poderá ouvir um lamento baixo na língua Nheengatu, como se alguém estivesse contando uma história antiga que insiste em não ser esquecida.
E se você estiver caminhando sozinho pelas ruas do centro histórico de Belém nas primeiras horas da manhã e sentir que alguém está lhe observando, não olhe para trás. Dizem que os olhos de Jurema têm o poder de prender a alma de quem os olha diretamente, condenando-a a vagar para sempre pelos mesmos círculos de horror que ela percorreu em vida.
Pois, como ela mesma teria dito em seus momentos finais:
“O círculo nunca se fecha, apenas gira e gira e gira.”
Em 2012, um ex-funcionário do asilo, José Ribeiro, então com 93 anos, deu uma entrevista a um programa de rádio local sobre histórias antigas de Belém. Quando questionado sobre casos memoráveis que presenciara durante a juventude, ele mencionou a mulher indígena que desenhava círculos.
“Eu era apenas um jovem auxiliar de limpeza quando ela esteve lá pela segunda vez. Lembro que os médicos a mantinham em um quarto isolado, não porque fosse violenta, mas porque os outros pacientes pareciam perturbados com a presença dela. Ela tinha um jeito de olhar para as pessoas como se pudesse ver através delas.”
José relatou um incidente particularmente perturbador.
“Uma noite, quando fui limpar o corredor perto do quarto dela, a vi sentada no chão completamente imóvel. Ao redor dela havia círculos perfeitos desenhados com algum tipo de pó escuro. Quando perguntei de onde vinha aquele material, ela apenas sorriu e disse:”
“Da terra onde eles descansam.”
No dia seguinte, o Dr. Cordeiro examinou o pó e concluiu que era terra misturada com… cinzas. O estranho é que não havia como ela ter obtido aquele material dentro do asilo. O testemunho de José incluiu outro detalhe perturbador. Na manhã em que Jurema foi encontrada morta, ele estava de plantão e foi um dos primeiros a entrar no quarto.
Seu corpo estava deitado no centro de um grande círculo desenhado no chão, suas mãos posicionadas sobre o abdômen como se protegessem algo. O médico, que examinou o corpo, comentou discretamente com a enfermeira-chefe que o útero da mulher apresentava sinais de uma gravidez recente. Isso causou alvoroço entre os funcionários, pois era impossível que ela tivesse engravidado durante a internação.
Alguns especularam que talvez ela já estivesse grávida quando deu entrada, mas não havia menção a isso nos registros de admissão. A entrevista de José Ribeiro reacendeu o interesse pelo caso. Uma jornalista investigativa chamada Márcia Santos começou a pesquisar os eventos relacionados a Jurema, Alberto Santos e a Casa de Madeira Vermelha.
Por meio de contatos na França, ela conseguiu localizar documentos relacionados à morte de Alberto Santos e de sua família em Paris. Para sua surpresa, os registros franceses contavam uma história diferente daquela que circulava em Belém. De acordo com os arquivos da polícia de Paris, Alberto Santos chegou à cidade em 1908 com a esposa e apenas dois filhos, não três, como constava nos registros brasileiros.
A família ficou em uma mansão nos subúrbios parisienses, onde viveram discretamente por quase dois anos. Em abril de 1910, vizinhos alertaram as autoridades sobre a falta de atividade na propriedade. Quando a polícia entrou na casa, encontrou os corpos de Alberto, de sua esposa e de seus dois filhos. O relatório policial indicou suicídio coletivo por envenenamento.
Entre os pertences de Alberto, foi encontrada uma carta escrita em português, parcialmente traduzida nos arquivos franceses: “Não consigo mais suportar os sonhos. Toda noite vejo os olhos dela me encarando na escuridão. Ouço os choros das crianças vindo dos baús enterrados. Jerônimo escreve que ela escapou. Mas sei que não é verdade. Ela nunca precisou escapar porque nunca esteve verdadeiramente aprisionada.”
“Ela está em toda parte agora, especialmente dentro de mim. Entendi tarde demais o significado dos círculos. Não são desenhos, são portais. E através deles eles vêm me visitar todas as noites. Minha única esperança de paz é levar minha família comigo…” antes da carta terminar abruptamente. Um comentário do investigador francês questionava: “Possível delírio causado por doença tropical. Verificar se o falecido tinha histórico de malária ou febre amarela.”
Márcia ficou intrigada com a menção a dois filhos nos documentos franceses, quando os registros brasileiros claramente indicavam três filhos. Investigando mais a fundo, ela descobriu nos arquivos da paróquia da Sé, em Belém, os registros de batismo dos filhos de Alberto: Pedro, nascido em 1896, Antônio em 1899, e Helena em 1903.
Eles teriam viajado para a França com apenas dois filhos? O que havia acontecido com o terceiro? A resposta veio de uma fonte inesperada. Em 2013, durante a reforma de uma antiga mansão no bairro da Cidade Velha, que seria transformada em museu, operários encontraram uma caixa de metal embutida em uma parede. Dentro havia um diário pertencente a Elisa Santos, esposa de Alberto.
As anotações do diário, que cobriam o período de 1907 a 1908, revelavam um lado obscuro da família Santos que nunca viera à tona. Elisa escreveu sobre os experimentos que seu marido conduzia no porão de casa com indígenas trazidos do interior. Inicialmente, ela expressou horror pelas atividades do marido, mas gradualmente suas anotações mostraram uma mudança perturbadora de perspectiva.
“Alberto diz que é tudo em nome da ciência, que os selvagens são espécimes, não pessoas. Tentei acreditar nele, tentei ignorar os sons subindo do porão à noite, mas ontem, quando desci para pegar comida, vi nos olhos dela algo que me assombra desde então. A mulher que eles chamam de Jurema olhou para mim como se soubesse de todos os meus segredos.”
Em uma anotação particularmente perturbadora, datada de dezembro de 1907, Elisa escreveu: “Helena passa horas olhando pela fresta da porta do porão. Quando pergunto o que ela está observando tão atentamente, ela diz que a mulher bonita ensina canções. Alberto proibiu a menina de se aproximar, mas ela sempre dá um jeito. Hoje a encontrei sentada no corredor, desenhando círculos concêntricos, idênticos aos que as mulheres indígenas fazem no chão do porão.”
A última anotação, de fevereiro de 1908, continha apenas uma frase: “Não podemos levar Helena conosco para a Europa; ela não é mais nossa filha. Ela pertence a algo que eu não compreendo.”
Márcia Santos publicou suas descobertas em uma série de reportagens, que causaram sensação em Belém. Sua investigação levantou uma questão perturbadora. O que havia acontecido com Helena, a filha mais nova dos Santos, que aparentemente não viajara com a família para a Europa?
Em busca de respostas, Márcia visitou os arquivos do antigo orfanato Santa Luzia, para onde crianças abandonadas eram levadas no início do século XX. Entre os registros de 1908, encontrou a entrada de uma menina identificada apenas como H.S., de aproximadamente 5 anos, trazida por um homem que se identificou como funcionário de uma família que partira para a Europa.
A descrição física correspondia à idade que Helena teria na época. As anotações das freiras indicavam que a menina raramente falava, exceto quando estava sozinha, ocasiões em que era ouvida cantando em um idioma estrangeiro. Um comentário da Irmã Conceição mencionava: “A criança tem o hábito peculiar de desenhar círculos perfeitos no chão. Quando questionada sobre o significado, ela apenas responde que é assim que eles voltam.”
H.S. permaneceu no orfanato até 1918, quando aos 15 anos foi adotada por uma família do interior. O registro de adoção mencionava que a jovem havia sido levada para uma fazenda na região de Santarém. Depois disso, seu rastro se perdeu completamente, ou quase completamente.
Em 2015, Márcia recebeu uma carta anônima contendo uma fotografia amarelada. A imagem, datada de 1929, mostrava uma jovem de traços mestiços, parcialmente indígenas, segurando um bebê nos braços. Ao fundo, via-se a fachada de uma casa de madeira. No verso da fotografia, uma inscrição: “Helena e seu filho, Santarém, 1929.”
Junto com a foto, havia um pequeno recorte de jornal de Santarém datado de 1962, noticiando a morte de uma parteira local conhecida como Dona Helena do Círculo. De acordo com a breve nota, ela era famosa por desenhar círculos de cinzas ao redor de mulheres em trabalho de parto para protegê-las dos espíritos.
A reportagem mencionava que, apesar de ter vivido na região por décadas, pouco se sabia sobre seu passado, exceto por rumores de que ela viera de Belém quando jovem. Márcia tentou rastrear possíveis descendentes de Helena em Santarém, mas encontrou apenas histórias fragmentadas sobre uma curandeira que conhecia canções antigas e que tivera vários filhos, todos com o dom de ver além.
Um idoso na região lembrava-se de ouvir em sua infância que os filhos de Dona Helena tinham olhos que pareciam ver através das pessoas. Em 2016, durante uma reforma do prédio que hoje ocupa o local da casa de madeira vermelha, engenheiros decidiram realizar uma inspeção completa das fundações devido a problemas recorrentes de infiltração.
Ao escavar abaixo do nível do porão original, encontraram algo inesperado: um pequeno compartimento selado, não registrado em nenhuma planta conhecida do edifício. Dentro do espaço, preservado pelo isolamento, havia vários artefatos: uma boneca de pano com traços indígenas, vários círculos trançados de fibras vegetais de diferentes tamanhos, e um caderno de desenhos infantis.
Os desenhos, aparentemente feitos por uma criança pequena, retratavam repetidamente a mesma cena: uma mulher com longos cabelos negros, cercada por círculos concêntricos, com pequenas figuras humanas posicionadas entre as linhas dos círculos. Na última página do caderno, uma frase escrita em caligrafia infantil: “Mamãe Jurema, me ensine a cantar para que eles voltem.”
Especialistas em grafologia compararam a escrita com amostras conhecidas da caligrafia de Helena Santos dos registros escolares preservados no orfanato Santa Luzia. A semelhança era inegável. O arqueólogo urbano responsável pela escavação, Dr. Paulo Martins, escreveu em seu relatório: “As evidências sugerem que este espaço secreto pode ter sido usado como uma espécie de santuário improvisado. O arranjo dos objetos segue um padrão circular. É possível que a criança Helena tenha criado este espaço como forma de manter uma conexão com a mulher indígena Jurema, com quem aparentemente desenvolveu um forte vínculo durante o período em que Jurema foi mantida em cativeiro na casa.”
Em outubro de 2017, um evento bizarro trouxe o caso de volta ao noticiário. Uma jovem estudante de antropologia, pesquisando o caso Jurema para sua dissertação de mestrado, visitou o Museu Paraense Emílio Goeldi para examinar o círculo de fibra encontrado em 2008. De acordo com a equipe do museu, a jovem passou várias horas observando o artefato e fazendo anotações.
No dia seguinte, a estudante não compareceu ao seu compromisso agendado no arquivo histórico. Preocupados, colegas foram ao seu apartamento e a encontraram sentada no centro da sala, desenhando círculos concêntricos no chão com cinzas. Ao redor dela havia dezenas de folhas de papel cobertas com o mesmo padrão circular, algumas contendo frases escritas em uma caligrafia que não era a sua: “Estamos todos aqui. O círculo nunca se fecha.”
A jovem foi levada para um hospital psiquiátrico, onde permaneceu em observação por várias semanas. Os médicos diagnosticaram um caso de psicose induzida por estresse, possivelmente desencadeada pelo intenso envolvimento com o caso que estudava. Ao receber alta do hospital, a estudante abandonou sua pesquisa e mudou-se para outro estado, recusando-se a falar sobre o que havia acontecido.
O último capítulo conhecido desta história ocorreu em janeiro de 2018, quando arqueólogos da Universidade Federal do Pará realizaram uma escavação no local do antigo asilo, agora parcialmente ocupado por um estacionamento. O objetivo era localizar e identificar restos mortais humanos de pacientes enterrados no local entre 1900 e 1930 para eventual transferência a um cemitério adequado.
Entre os vários restos mortais encontrados, um em particular chamou a atenção. Os ossos de uma mulher enterrada em 1911 estavam dispostos no centro de um círculo perfeito, formado por uma substância escura que, mesmo após mais de 100 anos, ainda era visível no solo argiloso. Análises laboratoriais identificaram o material como uma mistura de cinzas vegetais e terra com alto teor de ferro, diferente do solo natural da região.
Ainda mais surpreendente foi a descoberta de que a mulher havia sido enterrada com um feto em desenvolvimento em seu ventre, algo completamente ausente dos registros oficiais de óbito. Testes de DNA comparando o material genético desses restos com amostras coletadas de pertences pessoais preservados de Helena Santos revelaram uma correspondência parcial sugestiva de parentesco próximo.
A conclusão dos pesquisadores foi tão perturbadora quanto inevitável. Jurema estava grávida quando morreu no asilo, e o pai da criança que ela carregava era geneticamente relacionado a Helena Santos, levantando a possibilidade de que Alberto Santos, durante o período em que manteve a indígena em cativeiro, a tivesse abusado.
“Isso explicaria o abandono da filha mais nova antes da viagem para a Europa,” escreveu a pesquisadora Lúcia Campos, coordenadora do estudo. “Se Helena desenvolveu um vínculo com Jurema durante seu cativeiro e se Alberto temia que a menina pudesse eventualmente revelar o que testemunhou na casa, faria sentido não levá-la com a família.”
Em abril de 2018, o caso tomou um rumo inesperado quando um pescador encontrou flutuando no rio um pequeno círculo trançado de fibras vegetais, idêntico àqueles associados ao caso Jurema. Preso ao objeto havia um pedaço de papel dobrado contendo uma lista de nomes. A lista começava com Jerônimo Cardoso e terminava com Márcia Santos, a jornalista que havia investigado o caso anos antes.
Entre esses dois nomes estavam listados todos aqueles que de alguma forma haviam se envolvido com a história ao longo dos anos: Dr. Menezes, Manuel Pereira, o historiador Carlos Mendonça, funcionários do museu e até a estudante de antropologia que foi internada em 2017. Alguns nomes estavam riscados, outros, incluindo o de Márcia, permaneciam intactos.
A polícia tentou entrar em contato com Márcia apenas para descobrir que ela havia desaparecido duas semanas antes, após informar aos colegas que estava seguindo uma última pista no caso Jurema. Seu apartamento foi encontrado vazio, exceto por dezenas de folhas de papel espalhadas pelo chão, todas cobertas com o mesmo padrão circular.
Em sua última postagem nas redes sociais, Márcia havia escrito enigmaticamente: “Finalmente entendi o significado dos círculos. Não são símbolos ou desenhos, são mapas, e agora sei para onde levam.” Ela nunca foi encontrada.
Os vários artefatos relacionados ao caso Jurema — os círculos trançados, o caderno de desenhos de Helena, o diário de Jerônimo, as páginas com círculos deixadas por Márcia — foram reunidos em uma exposição temporária no Museu Paraense Emílio Goeldi em 2019. Durante os três meses em que esteve aberta ao público, a exposição foi marcada por incidentes estranhos: luzes que falhavam inexplicavelmente, alarmes de segurança acionados sem causa aparente, e visitantes relatando uma sensação de estarem sendo observados enquanto examinavam os objetos.
O evento mais perturbador ocorreu na noite de encerramento da exposição. O segurança em patrulha noturna relatou ter visto uma mulher indígena parada na frente da vitrine principal. Segundo seu testemunho, quando ele se aproximou para informá-la de que o museu estava fechado, a mulher virou-se e o encarou com olhos que pareciam perfurar sua alma.
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, ela simplesmente desapareceu. As imagens das câmeras de segurança não mostraram nenhum sinal de qualquer outra pessoa além do próprio guarda. No entanto, às 3h33 da manhã, todas as câmeras registraram simultaneamente uma falha que durou alguns segundos. Quando reabriram, a vitrine contendo os círculos trançados estava vazia. Os itens nunca foram recuperados.
Hoje, mais de 100 anos após os eventos originais, o caso da mulher indígena Jurema continua a fascinar e perturbar aqueles que se aventuram a estudá-lo. Historiadores, antropólogos e entusiastas do sobrenatural debatem a verdadeira natureza dos eventos. Alguns veem na história um retrato brutal do tratamento dispensado aos povos indígenas durante o ciclo da borracha.
Outros veem algo mais inquietante: a possibilidade de que, sob certas circunstâncias, o horror e o sofrimento possam deixar uma marca tão profunda na realidade que continuam a ecoar através das décadas. Nas ruas antigas de Belém, particularmente nas madrugadas silenciosas, ainda há quem afirme ter visto uma mulher de longos cabelos negros caminhando descalça pelas calçadas de pedra, sempre desenhando círculos invisíveis no ar.
Dizem que quando seus olhos se encontram com os de um observador incauto, eles revelam um conhecimento antigo e aterrorizante, o tipo de conhecimento que ninguém deveria possuir. E se você visitar o local onde antes se erguia a casa de madeira vermelha, agora ocupado por um moderno prédio comercial, talvez perceba que, em certas manhãs após noites chuvosas, marcas circulares inexplicáveis aparecem no chão, como se algo abaixo da superfície estivesse tentando desenhar um mapa para encontrar o caminho de volta.
Pois, como Jurema teria dito: “estamos todos aqui, sempre estivemos”. M.