Por quase 20 anos, um vilarejo inteiro guardou um segredo, mas nenhuma palavra saiu de lá. Era julho de 1929, no cemitério de Vila, no interior da Hungria, quando um grupo de homens começou a cavar túmulos. E o detalhe mais estranho dessa cena nem eram os túmulos em si, era o público. Isso porque toda a aldeia largou o que estava fazendo e foi se aglomerar no cemitério.
“Os jornais locais relataram isso.”
Todos queriam ver o que sairia daquela terra e ficaram lá, em absoluto silêncio, quebrado apenas pelo som das pás batendo na terra seca. Eles ficaram lá, observando os mortos retornarem. O que aqueles homens procuravam sob a terra e o que realmente encontraram é a parte mais insana dessa história.
Eu sou Marcos Campos e a história de hoje aconteceu há quase um século, em um pequeno vilarejo no meio da planície húngara. E isso levanta várias questões, certo? Como assassinatos em série puderam ocorrer por quase 20 anos em um lugar onde todos se conheciam, sem que nenhuma autoridade fizesse uma única pergunta? Por que as primeiras pessoas que tentaram denunciar o que estava acontecendo foram processadas? E por que a escavação, que poderia revelar a verdadeira dimensão de tudo isso, parou tão de repente, justo quando o mundo todo começou a prestar atenção? É isso que vamos investigar juntos. Então, acomode-se e vamos ao que interessa.
As cartas. Em abril de 1929, três cartas chegaram à promotoria real em Souc, a cidade que servia como capital administrativa para uma região rural espremida em uma curva do rio Tisza, no coração da Hungria.
Três cartas sem remetente, cada uma acusando uma mulher de um vilarejo chamado Nagyrév: uma de envenenar o marido, outra de envenenar o marido e o filho, e a terceira de envenenar o filho.
Se você imagina que isso, sei lá, soou um alarme imediato entre as autoridades, saiba que não foi bem assim. A promotoria ordenou que a polícia rural investigasse, e a polícia rapidamente descobriu quem havia escrito as cartas: era uma mulher daquela mesma região.
Mas, como ela não conseguiu substanciar suas alegações e acusações com provas, adivinha quem acabou enfrentando um processo? Sim, a acusadora foi acusada de fazer uma falsa denúncia. Enquanto isso, as verdadeiras acusadas ficaram em casa e o caso morreu por ali mesmo. Mas parece que não foi só esse caso que morreu, entende? E o que aconteceu não foi um incidente isolado.
Historiadores que investigaram o caso, vasculhando os arquivos, encontraram alertas que vinham se acumulando há anos. Cartas anônimas que ninguém investigou a fundo, mortes suspeitas que ninguém quis investigar. Em 1924, um médico da região ficou tão desconfiado da morte súbita de um paciente que solicitou formalmente a exumação do corpo, mas o pedido foi negado por falta de provas.
Em junho de 1929, um morador publicou em um pequeno jornal local que toda a região fofocava sobre envenenamento em massa. O resultado foi um processo por difamação. O padrão incomum, digamos assim, era que a assassina não era responsabilizada, enquanto a pessoa que denunciava o crime sim. Mas as cartas continuavam chegando.
Na promotoria, localizada em uma delegacia de polícia rural, bilhetes anônimos continuavam a aparecer, relatando mortes, alguns com o nome da vítima e o nome da assassina. Em junho de 1929, em uma vila vizinha perto de Nagyrév, uma dessas cartas finalmente tocou em um ponto crucial. A carta acusava um casal de envenenar o pai do marido anos antes.
A polícia finalmente puxou aquele fio e encontrou um morador que tinha ouvido a história da própria nora do falecido. Quando o casal foi preso, algo inesperado aconteceu. Ambos confessaram na hora. Em seguida, um segundo casal foi preso, negou as acusações e, eventualmente, também confessou.
E os quatro prisioneiros apontaram para a mesma coisa: a origem do veneno. Mas para onde essa origem levaria? Eu vou contar a vocês daqui a pouco. O importante saber agora é que, no final de junho de 1929, todos foram levados para Souc. O gelo, digamos assim, após quase 20 anos de queixas que ninguém realmente investigou, finalmente havia sido quebrado.
Mas se o gelo quebrou, o que apareceu por baixo não foram apenas um ou dois crimes isolados, mas uma estrutura que envolvia a vila inteira. Lembra quando eu perguntei no começo como isso durou tanto tempo? A resposta começou com os números. De lá, a Polícia Rural se mudou para Nagyrév, montou uma base no vilarejo e começou a chamar mulheres para interrogatório.
Dezessete só no primeiro lote. As confissões, que começaram gradualmente, aumentaram entre julho e outubro daquele ano, durante três meses de investigação quase ininterrupta nos dois vilarejos: Nagyrév e a vizinha Tiszakürt. As autoridades registraram formalmente 77 acusações de homicídio na promotoria de Souc.
Para se ter uma ideia do que esse número significa, Nagyrév tinha cerca de 1000 habitantes na época. Vale ressaltar que existem outras versões de como esse caso veio à tona, ok? Uma delas relata o depoimento de um estudante de medicina de uma cidade próxima que alegou ter encontrado níveis altíssimos de arsênico em um corpo retirado de um rio.
Outra história, pesquisada e registrada pelo historiador Béla Bodó, autor do primeiro livro acadêmico sobre esse caso, fala de uma carta anônima enviada à redação de um pequeno jornal. As versões se misturam, mas todas levam ao mesmo ponto. Em 1929, o silêncio daquela região finalmente gritou.
E então veio a decisão que transformou uma investigação em um caso global: a abertura do cemitério. É de fato uma ação massiva, uma medida que a Hungria simplesmente nunca havia aplicado antes. Em 22 de julho de 1929, os primeiros túmulos em Nagyrév foram abertos com a presença de um juiz de instrução, especialistas e até um advogado de defesa acompanhando tudo de perto.
É precisamente aqui que a cena do começo do episódio entra na linha do tempo. A paz do cemitério, os túmulos cortando o silêncio, batendo no chão seco, e a vila inteira reunida em volta, querendo ver o que aconteceria. As amostras foram enviadas para análise na capital e o resultado que voltou do laboratório dias depois não exigia interpretação.
Era arsênico, e em grandes quantidades. De acordo com o relatório policial da época, os corpos exumados continham, em média, arsênico suficiente para matar de oito a dez adultos. Em média. E os números que se tornaram populares em todo o mundo falam de um lote inicial de 50 corpos exumados, com arsênico encontrado em 46 deles.
46 dos 50 corpos exumados continham arsênico. Isso definitivamente não foi um crime aleatório, foi? Ficou claro que havia um padrão. Para entender como uma vila daquele tamanho chegou a esse ponto, precisamos voltar quase 20 anos, para um mundo que estava prestes a pegar fogo. O vilarejo de Nagyrév era, e ainda é, um ponto minúsculo na planície húngara, a sudeste de Budapeste, aninhado contra o rio Tisza.
Na década de 1910, como eu disse, viviam cerca de 1000 pessoas lá. Todos plantavam safras, todos se conheciam e nenhum forasteiro tinha motivo para querer estar lá. Era o típico vilarejo pequeno, muito simples. Sabe aqueles lugares onde a estrada simplesmente acaba e você tem que chegar lá pelo interior? Sim, era tão isolado que a vila não tinha médico.
Para se ter uma ideia, a pessoa mais próxima com alguma instrução médica, segundo a reconstituição mais recente do caso, morava a cerca de 8 km de distância e nem sempre conseguia chegar lá. Assim, a pessoa que atuava como médica naquele vilarejo era uma parteira, uma mulher nascida na própria vila que fazia partos em Nagyrév desde 1893 e que, na virada do século, também se tornou a curandeira do vilarejo, tratando doenças e cuidando dos moribundos.
Para todos os efeitos, ela era o tipo de médica que o vilarejo não tinha, e ela era mais do que isso. Em uma comunidade onde as mulheres não tinham com quem contar, a parteira era a pessoa a quem se levava qualquer problema, se é que você me entende. Incluindo aqueles que não se contava a mais ninguém.
Agora, para que essa história faça sentido de verdade, você precisa entender como era ser mulher naquele lugar e naquela época. O casamento não era uma escolha. Longe disso. A família escolhia o marido para a garota, geralmente adolescente, e ela aceitava porque não havia outra alternativa. O divórcio existia no papel, mas para uma camponesa pobre, ligada à família, à terra e à reputação familiar, o divórcio quase nunca era uma opção real.
A mulher entrava no casamento sabendo, de certa forma, que apenas a morte poderia tirá-la dali. Então, em 1914, a Primeira Guerra Mundial engoliu aquele mundo. O Império Austro-Húngaro convocou milhões de homens para o front, e os maridos do vilarejo de Nagyrév também foram. Mas a guerra afetou a vila de uma segunda maneira que ninguém previu.
Como era, em muitos aspectos, um refúgio pacífico, Nagyrév se tornou um ponto de detenção de prisioneiros de guerra: soldados do lado inimigo, capturados no front e enviados para lá. Esses homens circulavam pelo vilarejo com certa liberdade e até trabalhavam nos campos que os convocados deixaram para lutar pelo país.
Esses prisioneiros acabaram se tornando parte da paisagem local, da rotina e, depois, de algumas casas. Bom, porque eles iniciaram romances, sabe, com as mulheres que ficaram lá, os prisioneiros e as esposas dos soldados que foram para a guerra por 4 anos.
Aquelas mulheres viveram uma vida que nenhuma camponesa húngara daquela região jamais havia vivido, gerenciando tudo sozinhas e, pela primeira vez, escolhendo seus próprios companheiros. Mas então a guerra acabou e os maridos retornaram. No entanto, os homens que voltaram àquele vilarejo não eram os mesmos que haviam partido. Muitos voltaram mutilados, doentes e precisando de cuidados constantes.
O exato oposto dos provedores que eles haviam sido. O estresse pós-traumático sequer existia como diagnóstico. Claro, naquela época. O que existia era um homem quebrado dentro de casa, sofrendo as próprias consequências da guerra. E muitos deles voltaram determinados a restaurar a antiga ordem, como se aqueles quatro anos nunca tivessem acontecido.
Os historiadores descrevem o resultado com uma expressão muito precisa: uma situação explosiva. É neste ponto que a história toma um rumo diferente, por assim dizer. Porque a resposta à dor, aos conflitos e à situação explosiva já existia há algum tempo e estava lá, na casa da parteira. O remédio. As mulheres de Nagyrév já levavam tudo para a parteira, não é? Partos, doenças, desgostos, sabe, os conflitos internos dos relacionamentos.
Então, quando a vida com os maridos voltando da guerra se tornou insuportável, muitas mulheres também levaram esse problema para ela. A resposta que saiu daquela casa, segundo o que foi descoberto depois, era que se ele é o problema, existe uma solução simples. Os pesquisadores notaram que a parteira até tinha uma frase costumeira, uma pergunta que ela faria àquelas que chegassem reclamando da vida.
“Por que você está se incomodando com ele?”
A solução era arsênico. É aqui que a química caseira entra, pois ela não comprava veneno pronto; ela mesma o fabricava. O método era assustadoramente simples. Papel pega-mosca, algo que qualquer pessoa podia comprar numa loja de conveniência na época, era fervido na mesma panela onde se fazia a sopa.
Conforme a água aquecia, o arsênico era liberado, formando uma espécie de película fina na superfície. Era a morte sendo preparada no fogão de casa. Depois, bastava recolher essa película, concentrá-la e despejá-la em pequenos frascos. Alguns relatos dizem que o preço variava dependendo do orçamento da cliente, ok? E nos julgamentos subsequentes, até se falou de a parteira cobrar por seus serviços.
E a instrução de uso, quando as pessoas iam procurá-la, era uma simples frase:
“Misture isso na comida ou na bebida.”
E pelos registros, muitas vezes foi feito pouco a pouco, dose a dose. O arsênico é um veneno terrivelmente conveniente; é incolor, inodoro e desaparece em qualquer coisa — sopa, café, conhaque, até na massa de um bolo.
Os sintomas — vômito, dor de estômago, diarreia — eram praticamente idênticos aos sintomas da cólera e das infecções que já matavam pessoas no campo o tempo todo. O homem envenenado morria de uma forma que parecia óbvia para qualquer um que estivesse observando. Uma morte como outra qualquer, um infortúnio.
Mas um bom veneno não era suficiente. O que fez com que o caso de Nagyrév durasse tanto tempo foi o que vinha depois da morte. Considere isso: em um vilarejo sem médico, na prática, era a própria parteira quem determinava a causa da morte, dadas todas as circunstâncias que já expliquei. E o funcionário que examinava os mortos e certificava os óbitos oficialmente era um primo dela.
Em outras palavras, o comércio da morte estava completo, não é? A morte parecia natural, ela declarava a causa e a papelada era repassada à família. Ninguém de fora podia ver nada, porque no papel realmente não havia o que ver. Esse é definitivamente o principal elo dessa cadeia criminosa. E ela garantia uma coisa às clientes, ok? Aquele veneno não deixava rastros no corpo.
Mas aqui reside a ironia que define toda a história: a descoberta. O arsênico pode enganar um médico diante de um paciente, mas não faz o paciente desaparecer. O veneno permanece no corpo, nos ossos, anos após a morte e o enterro. Décadas depois de um funeral, nem os clientes nem a parteira sabiam disso.
E você, que deve se lembrar da cena no cemitério, com todas aquelas escavações, sabe quanto custaria aquela ignorância sobre a duração do arsênico no corpo? Bem, aquele seria um dos casos mais marcantes da história criminal. A primeira morte confirmada relacionada ao arsênico em Nagyrév remonta a 1911.
A vítima era um homem doente, e isso ocorreu três anos antes do início da guerra. Ou seja, o método não teve origem na guerra; as causas foram outras questões. Os maridos voltaram, as esposas estavam fartas e já se relacionavam com os prisioneiros. O que a guerra fez foi dar escala ao problema.
Quando os maridos retornaram do front, homens que antes eram saudáveis começaram a ficar doentes e morrer. Oficialmente, ninguém achou estranho, porque, como vimos, cada morte era registrada no papel como cólera, infecção ou uma doença comum. Dentro da aldeia, no entanto, os pesquisadores descreveram outra realidade: que esse era um costume conhecido por toda a comunidade.
Sim, os próprios acusados resumiram isso à imprensa quando o escândalo estourou, com uma frase que fala por si só.
“Era um costume antigo lá. Fizeram isso antes de nós e farão depois.”
E o fato de ela não ter parado nos maridos pode provar exatamente isso. E é aqui que as coisas ficam realmente feias.
Com o tempo, as mulheres começaram a bater na porta daquela parteira para resolver outros tipos de problemas. Pais idosos que haviam se tornado um fardo ou cuja herança demorava muito a chegar; amantes; e, como os processos mostraram mais tarde, até crianças. Bebês muito doentes, crianças pequenas. O envenenamento tornou-se — e essa palavra está nas próprias fontes húngaras — uma “moda”, uma solução doméstica que passava de cozinha em cozinha.
Quantas vítimas esse esquema fez? Bem, guarde essa pergunta, pois ela é o fim desta história. O que se pode dizer agora é que, por quase duas décadas, o sistema de morte não falhou. Nenhuma investigação séria foi feita, apesar das suspeitas. Nenhuma condenação. Aqueles que tentaram alertar foram processados, como vimos, até que as cartas de 1929 chegaram.
E dessa vez, finalmente, a polícia encontrou aquele pedacinho de papel para puxar o fio de toda a história, desvendando a rede. Seguindo esse fio, voltamos ao final de junho de 1929, quando os dois casais investigados foram presos, confessaram e apontaram para a fonte do veneno.
O rastro levou a polícia a duas mulheres. Vou falar da primeira daqui a pouco, quando comentar sobre o tribunal. A segunda era, evidentemente, a parteira de Nagyrév. A polícia a prendeu, a interrogou e a liberou dias depois por falta de provas.
Há registros de que, após ser solta, ela passou a ser vigiada. A polícia queria ver quem batia na porta dela. Então, em meados de julho, a polícia se mudou para a vila, como eu já disse, e montou uma base. Em seguida, as confissões vieram como uma avalanche, em um verdadeiro efeito de manada.
No dia 18 de julho, uma das mulheres acusadas, que — vejam só — também era parteira, acabou se enforcando. E, na manhã seguinte, 19 de julho de 1929, a polícia marchou novamente até a casa da parteira principal de Nagyrév, dessa vez para prendê-la de vez. Mas ela sabia o que estava por vir.
De acordo com o próprio relato da polícia na época, ela vinha observando a rua havia dias e tinha deixado algo preparado: soda cáustica. Quando os policiais apontaram na esquina e ela percebeu, tomou a mistura. Uma moradora, que era criança na época, contou décadas depois em um documentário que todas as crianças correram atrás dos policiais e, quando todos chegaram, ela já estava morta, deitada ao lado de um poço onde havia deixado o veneno.
O atestado de óbito da aldeia listou a causa da morte como suicídio por envenenamento com soda cáustica. A figura central deste caso saiu de cena sem responder a uma única pergunta no tribunal. Seu nome era Zsuzsanna Fazekas. Tinha 68 anos, nascera ali mesmo, em Nagyrév, em 1861, e atuava no vilarejo desde 1893.
Ou seja, boa parte daquela vila tinha passado literalmente pelas mãos dela, desde o nascimento até a morte. Os vizinhos a chamavam de “Tia Zsuzsi”, e o histórico dela já apresentava um padrão antes do incidente do arsênico, ok? Segundo registros, ela realizava abortos clandestinos, foi levada a tribunal várias vezes por isso e absolvida de todas as acusações.
Muito antes do veneno, Tia Zsuzsi já vira a justiça da região se aproximar dela e sair de mãos vazias repetidas vezes. Eu diria que isso provavelmente a encorajou a continuar com seus esquemas, você não concorda? E ela não foi a única a escolher essa saída, certo? No total, quatro mulheres investigadas tiraram as próprias vidas.
De acordo com a imprensa da época, uma delas enforcou-se na cela antes do julgamento começar. Com a principal suspeita morta e toda a aldeia sob investigação, a justiça húngara enfrentou uma questão de uma magnitude que nunca havia visto antes. Quem exatamente iria pagar e por quantas mortes?
O tribunal. A resposta para tudo isso começou a ser construída em Souc e levou 2 anos. Ocorreram 12 julgamentos principais entre dezembro de 1929 e novembro de 1931. No banco dos réus estavam 28 pessoas: 26 mulheres e dois homens. O primeiro julgamento foi agendado para 13 de dezembro de 1929, com quatro mulheres respondendo juntas. Notem um detalhe na estratégia oficial.
De acordo com os registros, as autoridades dividiram deliberadamente o caso em processos separados, justamente para tentar evitar alvoroço, mas não funcionou nem um pouco. Jornais nacionais húngaros colocaram o caso nas primeiras páginas. Do outro lado do oceano, o New York Times noticiou que este era o maior caso de envenenamento do século, e Nagyrév ganhou o apelido da imprensa que carregaria dali por diante: “A Vila da Morte”.
De repente, o mundo inteiro observava um tribunal na zona rural da Hungria, esperando conhecer os rostos por trás disso. E então veio o primeiro choque, por assim dizer: um dos maiores escritores húngaros da época, Zsigmond Móricz, estava na sala do tribunal. Seu relato descreve a sala lotada e cerca de 20 jornalistas, fotógrafos e ilustradores cobrindo tudo.
O que ele chamou de “olhos do mundo” estavam exatamente ali. E o que ele registrou sobre os réus é a parte mais perturbadora de todo esse caso. Nenhuma figura sinistra, ok? A primeira ré que ele descreve parecia, em suas palavras, como “uma querida avó, uma senhora de roupas pretas, muito bem vestida, diante dos juízes, com as mãos cruzadas como se estivesse na igreja”.
Ela era acusada de matar a própria mãe nove anos antes, depois o marido e depois o amante. Tudo com veneno fervido do papel pega-mosca. Móricz escreveu que, no tribunal, ela parecia uma “criança idosa e ingênua, como uma neta assustada pega numa travessura”.
E nos depoimentos, a linguagem dizia tudo. Elas falavam do veneno como se fosse remédio. É assim que os registros e pesquisas mostram a visão de muitas delas sobre o arsênico: um remédio contra os males da vida, algo dado para fazer um problema desaparecer. Outra ré, a segunda mencionada no relato de Móricz, que entrou na sala de cabeça erguida, testemunhou que a parteira lhe fazia repetidamente a mesma pergunta:
“Por que sofrer com ele?”
E em registros recuperados pela BBC décadas mais tarde, uma das mulheres afirmou que não sentia culpa alguma. Seu marido era um homem muito ruim que a espancava e torturava. E desde que ele morrera, ela havia encontrado a paz. As motivações, à medida que surgiam caso após caso, cobriam todo um espectro: maridos violentos, maridos que voltaram incapacitados da guerra e viviam na dependência das mulheres, disputas por heranças e terras, amantes do período de guerra, parentes doentes que haviam se tornado um fardo.
E há também um processo que mostra como essa rede cruzava os vilarejos. A mesma pessoa que denunciou a história lá em junho de 1929 revelou que a aldeia vizinha tinha a própria parteira envolvida no esquema. Era ela quem revendia a solução de arsênico que, de acordo com as investigações, vinha da casa da parteira principal, Fazekas, ou Tia Zsuzsi, que, àquela altura, já estava morta. Esta segunda parteira, de outra vila, aparece matando o irmão do próprio marido com chá envenenado numa disputa de herança.
Em 1925, ela forneceu o veneno e a ideia para que um jovem matasse o próprio pai, um homem que bebia e ameaçava esbanjar os bens da família. Diz-se que a esposa do rapaz o ajudou. Esse rapaz é um dos poucos homens a se sentar no banco dos réus; por um momento, parecia que o julgamento do século se encaminhava para uma série de condenações, mas ainda há mais.
As confissões, a base de tudo, começaram a ser retiradas uma a uma, e sem confissão, o que restava? A análise forense comprovava a presença de arsênico nos corpos, mas arsênico em um corpo não identifica a mão que serviu o prato, que é provavelmente onde o arsênico se encontrava. Em vários casos, nem a análise química mais cuidadosa produziu um resultado conclusivo.
O desfecho dessa macabra equação mórbida foi que muito mais casos foram abertos do que sentenças proferidas, e a grande maioria terminou sem qualquer punição por falta de provas. Das condenações que restaram, seis foram sentenças de morte; três mulheres foram de fato enforcadas, e uma delas era a parteira da aldeia vizinha, a tal revendedora.
As demais sentenças capitais foram anuladas na apelação. Uma das acusadas foi absolvida, e a Suprema Corte do país converteu as penas das outras em prisão perpétua. Além das sentenças de morte, houve oito condenações à prisão perpétua e outras de tempo fixo, variando de 5 a 15 anos.
Ainda assim, muita coisa ficou impune. Esse foi o total de casos que o sistema de justiça conseguiu fechar para uma região onde só a primeira rodada de exumações havia descoberto 46 corpos envenenados. A sentença apontou para a arquiteta de tudo, a falecida parteira Zsuzsanna Fazekas, consolidando oficialmente sua posição como a figura central de todo o esquema.
As fontes não discordam disso: o método originou-se com ela, o veneno originou-se com ela, mas a extensão exata do seu papel em tudo isso ninguém pode mais medir. Os historiadores explicam o motivo. A principal acusada morreu antes de prestar um único depoimento no tribunal. Não pôde se defender, não pôde contradizer ninguém. E para cada réu sentado naquele banco, quanto mais a culpa recaísse sobre a morta, melhor. A imprensa fez sua parte.
Os jornais da época chamavam as mulheres acusadas de bestas assassinas e monstros, transformando a parteira morta no monstro oficial daquela história. No entanto, pesquisas subsequentes revelam duas coisas que turvam esse cenário: outras mulheres também participaram da distribuição do veneno e ocorreram assassinatos sem qualquer ligação com a parteira principal.
Os jornais até criaram um nome, chamando as acusadas de Legião Juger-Maria, numa referência a uma parteira envenenadora de um caso famoso décadas antes, numa outra cidade húngara. Isso me faz lembrar da frase daquelas mulheres que afirmaram que as mortes ocorreram antes delas e voltariam a acontecer depois. Precisamente porque o que o tribunal julgava, no fim das contas, talvez não fosse apenas a obra de uma mulher ou daquelas mulheres naquele contexto, mas sim um costume. É exatamente isso que nos leva de volta ao cemitério pela última vez.
Aqueles homens com pás e toda a vila em volta assistindo. Agora você sabe o que eles estavam procurando. E também sabe o que encontraram. A parte que falta é aquela que quase nunca é mencionada. Na contagem final, os registros policiais da época totalizam 162 inquéritos. E isso apenas em Nagyrév e na aldeia vizinha. E é aqui que os números começam a entrar em conflito.
Há uma fonte confiável que trata esse mesmo número de 162 como o total de assassinatos atribuídos aos casos. O historiador Béla Bodó, autor do primeiro livro acadêmico sobre o assunto, afirma que considera entre 45 e 50 mortes comprovadas, e as estimativas para toda a região chegam a 300, número que nunca foi confirmado.
Quase 100 anos depois, nem mesmo os números concordam entre si. Sabe por que nunca vão concordar? Porque as buscas pararam. Quando o caso ganhou destaque nacional e se transformou num escândalo internacional, as escavações não prosseguiram nas outras aldeias da região, e os túmulos que poderiam responder à pergunta final permanecem fechados até hoje.
Em 1937, um sociólogo húngaro que viajou por aquela região do interior já a chamava pelo nome com que ficaria conhecida: a “Zona do Arsênico”. Antes de terminar, deixe-me contar como esse caso ficou conhecido na Hungria. Na criminologia húngara, elas entraram para a história como as Envenenadoras de Tiszazug, que é o nome daquela região.
Mas, no resto do mundo, o caso adotou um nome diferente e mais macabro: As Fazedoras de Anjos de Nagyrév. “Fazedora de anjo” é um eufemismo antigo na Europa, que existe em húngaro e em alemão, para as mulheres que realizavam abortos clandestinos ou deixavam morrer bebês indesejados.
A lógica é a antiga ideia de que uma criança que morre vira anjo e vai direto para o céu. Portanto, quem causava essas mortes estava, no fim das contas, “fazendo anjos”. E por alguma razão, esse termo foi historicamente associado a este caso, em parte porque os próprios textos húngaros chamavam Fazekas, a principal parteira, exatamente disso: a parteira fazedora de anjos. Isso acontecia porque ela realizava abortos, lembra?
Quando o escândalo estourou, o apelido ganhou um novo sentido. Aquelas mulheres começaram a transformar em anjos pessoas adultas: maridos, pais, parentes, literalmente mandando o problema para o céu (ou para o inferno, dependendo da pessoa). No fim, restaram dois relatos do que tudo isso significou.
Primeiro, na década de 1950, um historiador preso pelo regime comunista encontrou um homem daquela região na cadeia e ouviu dele que as mulheres de lá matavam seus homens “desde tempos imemoriais”. O segundo foi em 2004, quando uma moradora de Nagyrév, que era criança na época dos julgamentos, deu uma entrevista à BBC sobre o que mudou na aldeia após as revelações.
E o resumo dela foi o seguinte: os envenenamentos diminuíram, e o comportamento dos maridos em relação às esposas melhorou consideravelmente. E aí, quero saber a sua opinião sobre tudo isso, especialmente considerando este contexto. Você vê essas “fazedoras de anjos” como vítimas da situação ou simplesmente como assassinas frias e calculistas?