Teresa Morais acordava às 6 da manhã desde que se lembrava. Não porque precisasse. A distribuidora tinha gerentes para o dia a dia. O jardim da casa no setor marista tinha um rapaz que vinha às terças. Acordava cedo porque Cláudio sempre havia acordado cedo e o corpo não havia aprendido a fazer diferente.
Cláudio morreu dois anos antes, numa quinta-feira de agosto. Ela tinha saído para o salão às 2 da tarde e voltado às 5. Ele estava na poltrona com o controle remoto na mão, a televisão ligada sem volume, a cabeça levemente inclinada para o lado. Ela pensou que havia dormido. Chamou o nome dele uma vez, depois duas. O terceiro, Cláudio, saiu com outra voz, uma que ela não reconheceu como sua.
Foi AVC. O médico disse que tinha sido rápido. Teresa ficou olhando para um ponto fixo na parede cor de creme do corredor do hospital enquanto o médico falava e achou que a palavra rápido deveria servir de consolo e não servia. Cláudio havia construído a distribuidora em 30 anos.
Começou com um caminhão e dois funcionários. Terminou com uma frota, um galpão no distrito agroindustrial de Goiânia e 23 pessoas na folha. Era metódico, de poucas palavras. Quando morreu, havia dinheiro suficiente para que Teresa não precisasse se preocupar com nada pelo resto da vida e silêncio suficiente para que isso não ajudasse muito.
Ela reorganizou o que podia, manteve a rotina, mercado às sextas, missa aos domingos, almoço na casa a cada 15 dias com Renata e Diego. A casa de quatro quartos era grande demais para uma pessoa só, mas Teresa não cogitou sair. Era a casa que Cláudio havia escolhido e cada cômodo ainda tinha o peso dele.
Renata tinha 33 anos e dava aula de artes numa escola particular no setor bueno. Era da mãe e o nariz, do pai, a teimosia. Casou três anos antes com Diego Sanchez, rapaz de Anápolis que ela havia conhecido numa festa e de quem havia gostado de imediato, com aquela segurança dos filhos únicos quando tomam uma decisão.
Teresa havia tentado gostar de Diego da mesma forma. Não havia conseguido completamente. Havia algo nele que escapava toda vez que ela tentava nomear. Não era maldade, era outra coisa. Diego era personal trainer numa academia no setor bueno. Tinha 25 anos e um sorriso que funcionava bem em fotos.
Havia tentado outros caminhos antes, representante comercial, assistente de construtora em Anápolis, dois semestres de administração que não foram adiante. Nada durava mais de um ano. Havia sempre uma explicação razoável, uma oportunidade melhor no horizonte que nunca chegava de fato. Renata pagava a maior parte do apartamento financiado no setor sul sem reclamar.
Diego prometia que as coisas melhorariam. Prometia desde antes do casamento. Quando a academia reduziu o quadro e Diego ficou sem clientes fixos, Renata foi falar com a mãe. Disse que Diego precisava de uma renda enquanto procurava algo estável, que Teresa tinha a chácara em Trindade com espaço de sobra, que seria temporário.
Teresa ouviu em silêncio e disse que tudo bem. Não porque achasse boa ideia, porque era o que a filha precisava. Diego começou a aparecer na chácara às 7 da manhã, terças, quintas e sábados. Era pontual e isso a surpreendeu. Montava o circuito no terreiro ao lado do paiol, ajustava o peso, explicava o exercício com paciência e ficava na distância certa.
Perto o suficiente para corrigir a postura, longe o suficiente para não incomodar. Nas primeiras semanas, as conversas eram sobre treino, sobre o joelho que Teresa havia machucado numa queda, sobre o ritmo adequado para uma mulher de 60 anos. Diego ouvia com atenção e lembrava os detalhes de uma sessão para outra.
Foi num sábado de outubro que algo mudou, sem fronteira clara. Teresa havia mencionado de passagem que o portão do pomar estava com a dobradiça quebrada há semanas. Não era um pedido, era daquelas observações que a gente faz em voz alta sem esperar nada. Na hora do almoço, enquanto ela arrumava a cozinha, Diego sumiu por 20 minutos.
Voltou com as mãos sujas de ferrugem e o portão funcionando. Teresa foi agradecer. Ele estava limpando as mãos numa flanela velha, de costas para ela. Quando se virou, não disse que não havia sido nada. Não fez o gesto de quem dispensa agradecimento. Ficou quieto um momento, olhando para ela com uma atenção que ela não conseguiu classificar.
“A senhora não deveria estar tão sozinha assim”, disse ele.
Disse com calma, como quem observa o tempo lá fora. Teresa não respondeu. Ficou parada no terreiro enquanto Diego dobrava a flanela, colocava sobre a bancada do paiol e caminhava em direção ao carro. Só quando o motor pegou, ela percebeu que havia ficado olhando o tempo todo.
Os almoços de domingo na casa do setor marista tinham começado ainda na época de Cláudio e nunca tinham parado. Arroz com pequi, frango caipira, a toalha bordada que Teresa usava só nos finais de semana. Depois da morte de Cláudio, ficaram menores. Renata, Diego, eventualmente a vizinha dona Nair com pudim.
Era o tipo de tradição que se mantém não porque alguém decide, mas porque ninguém tem coragem de ser o primeiro a encerrar. Com Diego indo à chácara três vezes por semana, alguma coisa mudou nos domingos. Ele passou a chegar antes de Renata com a desculpa de ajudar.
Teresa passou a preparar as coisas que ele havia comentado gostar. Frango com alho mais tostado, um suco de caju ela havia parado de fazer há anos. Não eram gestos calculados, ou pelo menos não pareciam. Eram ajustes pequenos que a gente faz quando quer que alguém se sinta bem-vindo. E Teresa havia se desacostumado tanto a querer isso que não reconheceu o sinal na própria mão.
As conversas depois do treino começaram a durar mais. Diego perguntava sobre a distribuidora, sobre como Cláudio havia construído o negócio, sobre os planos para a chácara. Teresa respondia com detalhes que não dava a mais ninguém. O gerente que suspeitava de desvio, mas não conseguia provar. A reforma do galpão emperrada há meses, as noites em que revisava os balanços e se sentia ao mesmo tempo segura e perdida.
Porque os números fechavam, mas Cláudio não estava mais ali para validar nada. Diego ouvia com atenção, fazia as perguntas certas, retomava o assunto na semana seguinte, como quem havia ficado pensando. O dinheiro começou a aparecer de forma natural, como acontece quando a gente aprecia alguém e quer facilitar.
Diego mencionava um problema de um jeito que a solução parecia surgir sozinha. R$ 300 para suplemento, 600 para uma conta atrasada, mais uma vez para o carro. Pequenas quantias que Teresa pagava sem calcular. Era dinheiro que ela tinha. Era um homem que tornava os dias menos compridos.
Renata notou que a mãe estava diferente, mais animada nos domingos, mais arrumada nas manhãs de terça, menos na defensiva quando o nome de Diego entrava na conversa. Atribuiu ao fato de ter companhia regular. Teresa estava sozinha havia dois anos. Renata disse isso para Tatiane numa tarde de quarta.
Depois das aulas, enquanto tomavam café na cantina da escola. Tatiane ficou em silêncio um momento antes de dizer que era ótimo mesmo. Não acrescentou nada, mas Renata conhecia Tatiane a tempo suficiente para saber quando ela estava segurando alguma coisa. Numa quinta à noite, Renata tentou ligar para Diego e não conseguiu.
O telefone chamou cinco vezes e foi para a caixa postal. Tentou de novo 15 minutos depois. Nada. Ligou para a mãe. A linha estava ocupada. Quando conseguiu falar com Teresa meia hora depois, ela disse que havia estado conversando com uma prima de Cláudio que morava em Catalão. Renata disse que entendeu e mudou de assunto. Não sabia bem o que havia para entender, mas era a coisa mais fácil a dizer.
Na semana seguinte, Tatiane mandou mensagem numa sexta à noite:
“Vi que o carro do Diego estava estacionado perto da casa da sua mãe agora há pouco. Passei ali saindo da reunião de pais.”
Era sexta-feira. Renata estava na escola até às 8 por causa de um planejamento pedagógico. Diego havia dito que ia dormir cedo, que estava cansado. Renata ficou olhando para a mensagem por um tempo que ela não teria conseguido medir. Depois digitou que ele devia ter ido ajudar com alguma coisa e guardou o celular na bolsa.
Dois dias depois, numa segunda de manhã, ela separou a roupa para lavar. Esvaziou os bolsos das calças de Diego, como sempre fazia, chave de catraca, às vezes uma nota amassada. No bolso da jeans, que ele havia usado no sábado, havia um papel dobrado em quatro. Ela abriu sem pensar. Era o endereço da chácara em Trindade, escrito à mão com a letra miúda de Teresa e embaixo um horário:
“Sábado, 7hs.”
Renata ficou parada com o papel na mão, depois o dobrou devagar, colocou no bolso como havia encontrado e enfiou a calça na máquina junto com o resto da roupa. Renata esperou três dias depois de encontrar o papel antes de dizer alguma coisa. Havia uma diferença entre saber e falar, e enquanto não falasse, existia ainda a possibilidade de ter entendido errado.
Confrontou Diego numa tarde de domingo depois que Teresa havia subido para descansar. Diego negou com uma fluência que indicava prática. Disse que o papel era uma anotação de treino, que Teresa havia pedido para ele verificar uma coisa na chácara naquele sábado, que Renata estava criando problema onde não havia nenhum. Disse que ela estava trabalhando demais, que estava cansada, que estava vendo coisa onde não tinha nada.
A conversa terminou sem resolução, com Diego calmo e Renata, com a certeza de que ele havia respondido tudo sem responder nada. Na manhã seguinte, ela foi até a casa da mãe sem avisar. Teresa estava na cozinha com o café na mão quando Renata entrou pela porta dos fundos.
O que se seguiu durou quase uma hora. Teresa não negou completamente. Disse que era complicado, que havia coisas difíceis de explicar, que Renata não estava entendendo a situação. Renata perdeu o controle que havia tentado manter. Disse que Diego estava usando ela, que aos 60 anos ela estava se jogando num homem de 25, que o pai havia morrido há 2 anos e ela estava destruindo o que ele havia construído por alguém que não valia nada.
Teresa ficou de pé junto à pia com uma expressão que Renata nunca havia visto no rosto dela. Não era raiva, era algo mais frio, mais resolvido. Quando Renata terminou, Teresa disse que precisava de tempo para pensar. Renata saiu batendo a porta com uma força que sacudiu os vidros da janela da cozinha. No carro, ficou 10 minutos sem conseguir ligar o motor.
Na semana seguinte, Diego pediu separação. Renata não dormiu nessa noite, nem na seguinte. Ligou para Tatiane às 11 da noite e ficou no telefone por 2 horas. Tatiane disse que ela precisava de um advogado bom e rápido. Renata perguntou com qual dinheiro. O apartamento estava financiado, as parcelas em dia porque ela pagava.
Diego não tinha patrimônio nenhum. Mas havia contratado um advogado de um escritório no setor bueno caro, especializado, do tipo que fecha processo em tempo record. A única pessoa capaz de pagar por aquilo era Teresa. Renata tentou falar com a mãe, ligou segunda, terça, quarta. Na quinta, Teresa a atendeu uma vez e disse que não estava em condições de conversar, que precisava de espaço.
Depois não atendeu mais. No grupo de WhatsApp das antigas amigas da família, as mensagens começaram a aparecer. Frases que diziam:
“Cada um sabe de si e não cabe a nós julgar.”
Que tinham o efeito exato de julgar sem assinar o nome. Dona Nair ligou para Renata uma vez. Deu voltas durante 20 minutos e não disse nada de concreto. O silêncio ao redor de Renata foi se alargando com uma eficiência que ninguém havia precisado organizar.
Numa manhã de terça, Renata foi até a distribuidora no distrito agroindustrial e pediu para falar com a mãe. A recepcionista, uma moça que Renata conhecia desde a adolescência, olhou para ela com uma expressão que misturava constrangimento e pena e disse que a senhora Teresa havia deixado instrução de que não estava disponível.
Renata ficou parada do outro lado do guichê, olhando para o corredor que levava à sala da mãe. O mesmo corredor de sempre, a mesma plaquinha no final com o nome de Cláudio que Teresa nunca havia mandado trocar. Agradeceu e saiu sem dizer mais nada.
Tatiane aparecia no apartamento com marmita e ficava enquanto Renata conseguia comer alguma coisa. Em duas semanas, Renata havia emagrecido, o que levaria meses para recuperar. Dormia mal, acordava às 3 da manhã com o coração acelerado e não conseguia voltar. Continuava dando aula porque precisava, porque as contas não iam esperar o processo terminar.
Seus alunos notavam que ela estava diferente e não sabiam como perguntar. Ela tampouco sabia como responder. O processo de divórcio avançava com uma rapidez que o advogado de Renata, indicado por uma colega da escola, sobrecarregado, com uma mesa cheia de outras causas, tinha pouca margem para conter.
Diego não queria o apartamento, dizia. Diego só queria que as coisas fossem resolvidas logo. Diego tinha pressa. Num sábado de manhã, o cartório do setor central de Goiânia registrou o casamento civil de Teresa Morais, 60 anos, e Diego Sanchez, 25. Nenhum familiar presente. Duas testemunhas contratadas que não conheciam nem um nem outro.
O cartorário olhou para o casal, olhou para os documentos, carimbou e não disse nada. O casamento virou assunto no setor marista em menos de 24 horas. Os grupos de WhatsApp do condomínio transbordaram ainda no sábado à tarde. Na segunda-feira, a notícia havia chegado à escola. Uma mãe de aluno chamou Renata de lado no corredor antes da primeira aula, com aquela expressão de quem quer ajudar e ao mesmo tempo quer confirmar os detalhes.
Renata foi ao banheiro, ficou 5 minutos olhando para o espelho e voltou para a sala. No intervalo, pediu licença médica à coordenadora. A coordenadora disse que, claro, que ficasse o tempo que precisasse e olhou para ela com um cuidado que Renata não tinha forças para receber. Nos 14 dias que se seguiram ao casamento, Renata tentou falar com a mãe seis vezes.
Na terceira tentativa, Teresa a atendeu. A conversa durou menos de 2 minutos. Disse que estava bem, que não havia nada a discutir, que as coisas haviam sido resolvidas como ela julgou certo. Renata tentou dizer alguma coisa e a ligação caiu. Na quinta tentativa, Diego atendeu o celular de Teresa, ouviu Renata pedir para falar com a mãe e desligou sem responder.
Na distribuidora, Diego começou a assinar documentos como cônjuge. O gerente de quem Teresa havia desconfiado por anos recebeu Diego numa tarde de terça com uma cordialidade que indicava que o recebimento havia sido esperado. Diego solicitou acesso às contas correntes da empresa e pediu os balanços do último trimestre. Renata soube por uma funcionária que a conhecia desde menina, que mandou um áudio de 30 segundos falando baixo, como se alguém pudesse ouvir. Renata ouviu três vezes.
Ficou sentada na beira da cama com o celular na mão por um tempo longo. Depois abriu a conversa com a mãe e começou a digitar. Escreveu que não estava bem, que precisava ver ela, que tinha medo, não sabia do que exatamente, mas havia um peso no peito que não aliviava, que dormia mal, que acordava às 3 da manhã com a certeza de que alguma coisa estava errada sem conseguir nomear o quê.
Escreveu que, independente de tudo que havia acontecido, ela era filha dela, que não havia como apagar isso, que só queria conversar, que tinha medo. A mensagem ficou marcada como entregue. Não foi lida naquela noite. Na manhã seguinte estava marcada como lida. Nenhuma resposta. Tatiane ligou nessa tarde para saber como Renata estava.
Renata disse que estava tentando organizar as coisas, que havia mandado mensagem para a mãe. Tatiane perguntou se ela havia respondido. Renata disse que não. Tatiane disse que ia passar mais tarde. Renata disse que não precisava. Tatiane disse que estava indo de qualquer jeito. Passaram duas horas juntas.
Tatiane trouxe pão de queijo de uma padaria no setor, aquela que Renata gostava desde a faculdade. Comeram as duas sem falar muito. Quando Tatiane foi embora, Renata ficou parada na porta até o elevador fechar. Nos dias seguintes, Tatiane mandava mensagem toda manhã e Renata respondia breve, mas respondia. No 13º dia, a resposta foi mais curta do que de costume.
No 14º dia, às 8 da noite, Tatiane ligou. Caixa postal. Ligou de novo às 9, caixa postal. Mandou mensagem:
“Renata, tô tentando te ligar. Me responde nada.”
Às 10:30:
“Tô preocupada. Só me diz que você tá bem.”
Silêncio. Na manhã seguinte, o síndico do condomínio bateu na porta do apartamento de Renata, depois que a vizinha do andar de baixo subiu para reclamar do barulho de água correndo há horas. Bateu duas vezes, chamou o nome, esperou. A porta cedia levemente a cada batida. O trinco não estava encaixado.
Empurrou devagar. O apartamento estava em silêncio. Na cozinha, a torneira aberta, um copo de vidro quebrado no chão e no corredor, visíveis a partir da entrada os pés de Renata. A delegada Sheila Monteiro chegou ao apartamento do setor sul às 11 da manhã com uma perita e um agente. O síndico a havia acionado uma hora antes.
Protocolo padrão para a morte em circunstâncias a esclarecer. A expressão que se usa quando a cena ainda não disse o suficiente para ser classificada. O que ela viu parecia suicídio. Renata Morais, 33 anos, encontrada no corredor do próprio apartamento.
Uma cartela de ansiolítico na mesinha de cabeceira com quatro comprimidos faltando. Nenhum sinal visível de invasão, nenhuma nota. Mas havia coisas que não fechavam. O copo quebrado na cozinha. A louça estava lavada e empilhada, com o cuidado de quem tem o hábito de deixar tudo organizado. E no chão, um copo de vidro partido em três pedaços com os cacos espalhados num raio que indicava queda de altura, não de descuido.
O restante do apartamento estava organizado demais para uma mulher que, segundo tudo que Sheila havia apurado com vizinhos naquela manhã, estava em colapso há semanas. Roupas dobradas, mesa limpa, travesseiro faltando da cama. O celular de Renata estava na mesa de centro com a bateria em 42%. Mas não registrava nenhuma mensagem enviada, nem ligação feita nas últimas 6 horas antes da morte.
Nenhuma atividade, como se o telefone tivesse sido colocado ali depois. O IML determinou a causa da morte dois dias depois. Não havia intoxicação por medicamento em dose letal. A causa era asfixia mecânica por sufocamento, pressão sobre a face com objeto de superfície macia. Os ansiolíticos encontrados na mesinha não haviam matado ninguém.
Haviam sido posicionados depois da morte. Sheila pediu o histórico de contatos do celular de Renata. O que encontrou foi um registro dos últimos dias, construído quase inteiramente numa direção. Renata enviando, ninguém respondendo. As seis tentativas de ligar para a mãe. A mensagem não respondida:
“Mãe, eu não estou bem. Preciso te ver. Tenho medo. Não sei do quê, mas tenho medo.”
Marcada como lida 18 horas antes da morte. As mensagens de Tatiane na noite anterior, cada vez mais urgentes, todas sem resposta a partir das 20 horas, Sheila foi até a casa no setor marista no terceiro dia. Diego abriu a porta de calça de moletom e camiseta, tranquilo, com a expressão de quem está em casa, e recebe uma visita esperada.
Teresa apareceu logo atrás no corredor com as mãos entrelaçadas na frente do corpo. Sheila anotou aquilo. Não a postura, a expressão. Teresa parecia contida, surpresa, não parecia destruída. Diego falou primeiro. Disse que estavam arrasados, que Renata estava muito mal nos últimos tempos, que havia tentado ajudar, mas ela havia se afastado de todo mundo. Disse que era uma tragédia.
Disse a palavra com uma naturalidade que Sheila também anotou. A operadora de telefonia entregou os dados de localização do celular de Diego com ordem judicial dois dias depois. Na noite da morte de Renata, o sinal do aparelho havia permanecido 42 minutos num raio de 200 m do condomínio dela, entre 20:30 e 21:19.
Diego havia dito a Sheila que naquela noite havia ficado em casa, que havia saído apenas para comprar água numa farmácia perto da Avenida T4. O sinal do celular não era compatível com a Avenida T4. Uma câmera de posto de combustível na Avenida T63 havia gravado na noite em questão. O técnico identificou um veículo com cor, modelo e placa compatíveis com o carro de Diego, passando às 20:11 em direção ao setor sul, retornando às 21:22.
Sheila enviou um agente para revisar as caçambas de entulho das obras nos arredores do condomínio de Renata. Na segunda caçamba, a dois quarteirões do prédio, o agente encontrou uma sacola plástica de supermercado fechada com nó. Dentro havia um travesseiro, fronha de algodão branco com barra azul na borda, o mesmo padrão dos que estavam no quarto de Renata, exceto que este tinha uma mancha escura e irregular numa das extremidades.
Dobrado dentro da fronha, havia um par de luvas descartáveis de borracha. O laudo voltou em quatro dias. As luvas continham material biológico compatível com Renata Morais. Na superfície externa, impressões digitais parciais. O sistema identificou Diego Sanchez. Diego Sanchez foi preso 12 dias depois da morte de Renata.
Os agentes o encontraram no apartamento do setor marista. Ele não havia ido embora. Não havia feito nada que sugerisse alguém que sente urgência de desaparecer. Abriu a porta quando tocaram a campainha, ouviu a leitura do mandado e virou de costas para colocar as mãos para trás. Não disse nada. Teresa foi conduzida à delegacia no mesmo dia para depoimento.
Seu advogado garantiu que ela não sabia de nada, que havia sido manipulada por um homem que se aproveitara da sua vulnerabilidade. Ela não foi indiciada naquele momento. O julgamento começou 4 meses depois, no Fórum de Goiânia, na sala do Tribunal do Júri da segunda vara criminal. No Brasil, crimes dolosos contra a vida são julgados pelo júri popular.
Sete jurados comuns que decidem por maioria. A sala estava cheia desde a primeira sessão. Professoras da escola de Renata, moradores do setor sul, conhecidos da distribuidora que haviam acompanhado Cláudio construir o negócio por 30 anos, estavam sentados nas fileiras de trás, sem saber muito bem como processar o fato de estarem ali.
Tatiane chegou na primeira sessão e ficou até a última. Sentou-se sempre na mesma fileira, perto da entrada. Teresa sentou-se do lado oposto, acompanhada apenas pelo advogado. A promotora construiu o caso com uma precisão que não deixava espaço para improviso. Apresentou os laudos do IML, asfixia por sufocamento, medicamentos posicionados post-mortem.
Apresentou os dados de localização do celular de Diego, os 42 minutos a 200 m do condomínio de Renata. Apresentou as imagens da câmera na Avenida T63, apresentou as luvas com o DNA de Diego e o material biológico de Renata. Depois apresentou o motivo. Com Renata viva, o patrimônio que Cláudio havia construído seria dividido entre mãe e filha.
Com Renata morta sem descendentes, tudo ficaria com Teresa e por via do casamento, sob o alcance de Diego. Os registros bancários mostravam que Diego havia tentado fazer Teresa assinar uma procuração de poderes amplos sobre as contas da distribuidora três dias antes da morte de Renata. Teresa havia hesitado, havia pedido tempo para pensar.
Dois dias depois, Renata estava morta. A promotora leu em voz alta a última mensagem que Renata havia enviado para a mãe. A sala ficou em silêncio enquanto as palavras eram lidas.
“Tenho medo, não sei do quê, mas tenho medo.”
Com a mesma sequência exata em que Renata havia digitado, breve e sem pontuação, como quem escreve quando já não tem mais energia para escrever direito. Tatiane subiu ao banco das testemunhas numa tarde de quarta.
Falou da Renata, que conhecia desde a faculdade, de como havia assistido ao afastamento progressivo das últimas semanas, das marmitas que levava ao apartamento porque Renata havia parado de comer, das mensagens que ficavam sem resposta, da ligação que havia feito na noite da morte e que havia ido direto para a caixa postal.
O advogado de defesa sugeriu que Renata estava em crise e poderia ter se machucado. Tatiane olhou para ele um momento antes de responder. Disse que conhecia a Renata há 11 anos e que ela não era uma pessoa que desistiria sem avisar ninguém. Teresa testemunhou na última sessão antes do julgamento pelo júri.
Disse que havia sido enganada, que Diego havia manipulado seus sentimentos num momento de vulnerabilidade, que não havia sabido que ele representava qualquer perigo para a filha. A promotora ouviu com paciência, depois perguntou se Teresa havia recebido a mensagem em que Renata dizia que tinha medo. Teresa disse que sim.
A promotora perguntou se havia respondido. Teresa ficou em silêncio por um momento longo o suficiente para que o silêncio respondesse por ela. Depois disse que não. O tribunal não a condenou criminalmente, mas o que ficou na sala naquele momento não era uma absolvição. O júri deliberou por 9 horas.
Diego Sanchez foi condenado por homicídio qualificado, motivo torpe e meio que dificultou a defesa da vítima. A pena foi de 22 anos, tinha 25 no dia da sentença. Teresa saiu do fórum sozinha, sem Diego, sem Renata, sem o advogado que havia ido embora logo após a leitura. Desceu a escadaria de mármore com o olhar no chão e entrou no carro sem olhar para ninguém.
Seis meses depois do julgamento, a escola onde Renata havia dado aula inaugurou uma placa no corredor da sala de artes. Tatiane compareceu. Alguns alunos de anos anteriores também foram. A diretora disse algumas palavras. Teresa não havia sido convidada e mesmo que tivesse sido, não apareceu.
A placa dizia:
“Renata Morais, professora de artes. Ela ensinava seus alunos a enxergar o que estava na frente deles.”