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Casal Desapareceu Em Ilha Grande —4 Anos Depois Encontrados Em Ruínas Repetindo A Mesma Frase Sem…

Em 14 de fevereiro de 2019, às 11h22, Renata Drumond Cavalcante enviou uma mensagem de WhatsApp para sua irmã. Ela disse que ela e Fábio haviam chegado bem à Ilha Grande, que a viagem de catamarã tinha sido tranquila, que a pousada era linda e que a praia estava perfeita para o Dia dos Namorados.

A irmã respondeu:

“Vocês esqueceram o protetor solar?”

Renata enviou um emoji de sol e um beijo. Depois disso, mais nada. O celular de Renata ficou mudo por cinco dias antes que a família contatasse a polícia. O celular de Fábio nunca mais foi ligado. As malas estavam no quarto da pousada em Abraão, arrumadas com os documentos dentro. O café da manhã foi servido no segundo dia e não foi tocado.

A chave do quarto estava na fechadura pelo lado de dentro, e nenhum dos dois estava lá. Esta é a história de um casal de Niterói que desapareceu numa quinta-feira de fevereiro em uma das ilhas mais frequentadas do estado do Rio de Janeiro e foi encontrado 4 anos e 2 meses depois, em abril de 2023, dentro de uma construção abandonada nos arredores de Paraty, repetindo a mesma frase curta em voz baixa e sem parar, incapazes de explicar onde estiveram, o que fizeram ou quanto tempo havia se passado.

A Ilha Grande fica na Baía da Ilha Grande, no litoral sul do estado do Rio de Janeiro. É uma ilha de 193 km², sem carros e sem estradas pavimentadas. O acesso é feito por barco, saindo de Angra dos Reis ou Mangaratiba. As praias do lado de mar aberto, Lopes Mendes e as de Dois Rios e Provetá, são separadas da vila principal por horas de caminhada em trilhas por mata fechada.

Não há sinal de celular em grande parte da ilha. A presença policial é limitada. O corpo de bombeiros mais próximo opera a partir do continente. Renata e Fábio conheciam a ilha. Não era a primeira vez que iam. Ela tinha 38 anos e trabalhava como fonoaudióloga em Niterói. Ele tinha 41 e trabalhava como técnico de manutenção industrial.

Ela tinha um cachorro, um apartamento no bairro de Icaraí e planos de se casar no final daquele ano. Eles não eram aventureiros extremos. Eram um casal comum que gostava de caminhadas leves, do mar e de relaxar. O tipo de casal que aparecia no café da manhã da pousada antes das 8h e perguntava à dona qual era a melhor praia do dia.

Nada em suas vidas prenunciava o que aconteceu a seguir. O que os tirou do quarto naquela noite? Por que as malas foram deixadas para trás? O que significava a frase que continuavam repetindo, que levou dias para ser decifrada? E o que aconteceu durante os quatro anos em que ninguém os viu? Quando a Polícia Civil do Rio de Janeiro registrou o boletim de ocorrência, inicialmente classificou o caso como abandono voluntário de domicílio.

Os policiais determinaram que o casal havia simplesmente deixado a ilha por conta própria, sem avisar a pousada, talvez devido a algum desentendimento pessoal. Era uma hipótese que não explicava as malas, não explicava os documentos, não explicava o cachorro que ficou esperando em Niterói com a vizinha que tinha a chave reserva, e não explicava por que os dois celulares carregados na noite anterior, segundo depoimento da dona da pousada, nunca mais foram ligados.

O inquérito foi aberto, depois suspenso por falta de provas, reaberto quando a família contratou um advogado e, em seguida, suspenso novamente. Os nomes de Renata e Fábio foram incluídos no Sinalid, mas em 2019 o sistema ainda apresentava graves deficiências de integração entre os estados. Uma pessoa registrada no Rio de Janeiro não era cruzada automaticamente com registros de atendimento hospitalar em São Paulo ou no sul de Minas Gerais. As fichas existiam, mas a comunicação entre elas nem sempre era possível.

A família de Renata fez cartazes, pagou anúncios em rádios e postou nas redes sociais durante meses. Um programa de televisão regional exibiu uma reportagem de três minutos no primeiro aniversário do desaparecimento. Depois disso, o caso sumiu do noticiário. Quatro anos é muito tempo para esperar sem uma resposta.

É tempo suficiente para que algumas pessoas parem de perguntar, e para que outras comecem a aceitar o que não querem. Aceitaram que a irmã de Renata desenvolvesse ansiedade clínica, que o pai de Fábio envelhecesse de uma forma que a família dizia fazê-lo parecer subitamente doente sem estar doente, e ainda havia algo que a polícia nunca conseguiu explicar.

A dona da pousada, que fez a limpeza no segundo dia, disse que o quarto tinha um cheiro diferente. Não era cheiro de cigarro, nem de perfume. Era um cheiro que ela não soube nomear na época e descreveu ao policial apenas como pesado, como se algo tivesse queimado, mas sem fumaça ou marcas. Você continuou aqui porque sabe que essa história não termina onde parece terminar.

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Renata e Fábio não chegaram à Ilha Grande como turistas de primeira viagem. Eles já haviam estado lá outras três vezes, sempre no verão ou em feriados prolongados, sempre hospedados na mesma pousada familiar em Abraão, sempre com a mesma rotina: café da manhã cedo, trilha de manhã, praia à tarde e jantar no deck de madeira com vista para a baía.

Eram o tipo de casal que sabia pedir suco de caju antes mesmo de sentar, que cumprimentava o barqueiro pelo nome e que levava sua própria ecobag para o mercado da vila. A ilha os conhecia e eles conheciam a ilha, ou pelo menos era o que acreditavam. A pousada onde se hospedaram chamava-se Pousada Maré Mansa, um prédio simples de dois andares com paredes pintadas de amarelo claro e janelas de madeira verde que o salitre ia desgastando aos poucos.

Ficava a menos de 200 metros do cais principal de Abraão, no caminho que corria paralelo à praia antes de subir ligeiramente em direção ao morro. A proprietária, Sônia Aparecida Ferraz, conhecia o casal desde a primeira visita em 2015. Ela se lembrava de que Renata sempre pedia o quarto dos fundos, o número sete, porque tinha uma janela com vista para a mata e era mais fresco à noite.

Ela se lembrava de que Fábio era o tipo de hóspede que ajudava a carregar a caixa de gelo sem que lhe pedissem e que deixava a gorjeta dobrada debaixo do copo sem fazer alarde. Naquela viagem de fevereiro de 2019, os dois chegaram no catamarã das 10h, o mesmo horário que sempre reservavam para quatro noites.

Tinham apenas as duas malas de sempre, uma pequena mochila de trilha e a câmera que Renata carregava desde a primeira vez que viajaram juntos. A câmera era uma DSLR básica que ela usava para fotografar pássaros e plantas nas trilhas. Fábio costumava brincar que ela tinha mais fotos de passarinhos do que de gente.

Na tarde em que chegaram, os dois foram para a praia do Abraão, que é a mais próxima da vila e fica bem em frente ao cais. Não é a praia mais bonita da ilha. As águas são mais calmas do que cristalinas, e a areia tem um tom acinzentado perto da linha d’água. Mas era o lugar onde sempre passavam a primeira tarde, como se precisassem de um período de transição entre a cidade e o mar de verdade.

Ficaram lá até quase as 17h, depois voltaram para a pousada. Tomaram banho e foram jantar num pequeno restaurante a 50 metros do deck da Maré Mansa, que servia peixe grelhado com pirão e farofa de banana. O tipo de comida que Renata dizia não encontrar em nenhum outro lugar.

Sônia os viu chegando de volta por volta das 21h30. Ela disse que eles estavam de bom humor, que Fábio havia feito uma piada sobre a demora do garçom para trazer a conta, e que Renata havia dado aquela sua risada que ela descreveu como o tipo de risada que ilumina a mesa. Eles se sentaram no deck da pousada por mais um tempo, bebendo água de coco que Sônia havia trazido sem ninguém pedir, do jeito que ela fazia com os hóspedes de quem gostava.

Era uma noite quente e parada. O céu estava limpo e a baía refletia as luzes da vila. Era um Dia dos Namorados comum, do tipo que não carrega premonições e só ganha significado quando visto do fim para o começo. A última imagem que Sônia teve dos dois antes do cair da noite no quarto sete foi de um casal sentado lado a lado no deck de madeira, com copos de água de coco nas mãos, olhando para o mar escuro sem dizer muita coisa.

O tipo de silêncio que não precisa de explicação, o tipo que só existe entre pessoas que são íntimas há muito tempo. Ela foi para a cozinha lavar os copos. Quando voltou ao deck, não havia mais ninguém lá fora. A noite estava silenciosa, as cadeiras no mesmo lugar, e a baía continuava a refletir as luzes como antes.

A dona da pousada, Sônia Aparecida Ferraz, foi a última pessoa a confirmar que viu Renata e Fábio em condições normais. Era por volta das 22h10 do dia 14 de fevereiro. Ela os viu saindo do deck e seguindo em direção à estrada de areia que leva até a orla da praia de Abraão. Fábio carregava uma pequena lanterna.

Renata tinha uma blusa de algodão jogada sobre os ombros. Sônia achou que eles iam dar uma volta antes de dormir. Era algo que o casal costumava fazer depois do jantar. Ela foi para a cozinha lavar os copos. Quando voltou ao deck, não havia mais ninguém lá fora. O que se sabe sobre aquela noite é escasso e não se encaixa de forma satisfatória.

A estrada de areia que vai da pousada em direção à praia do Abraão tem cerca de 300 metros de extensão e passa por algumas pequenas casas de moradores e um quiosque que fecha às 22h. Não havia câmeras de segurança ao longo do trajeto. Em 2019, a vila do Abraão não contava com um sistema público de monitoramento eletrônico. Havia uma câmera instalada pela prefeitura no cais, apontada para a área de embarque e desembarque, mas o ângulo não alcançava a rua onde ficava a pousada.

Nenhum dos moradores que a polícia entrevistou nas semanas seguintes afirmou ter visto o casal após as 22h. Uma mulher que morava numa das casas próximas disse ter ouvido passos na areia por volta das 22h15, mas não prestou atenção porque era comum na época de feriados. Ela disse que os passos seguiam em direção ao cais.

Ela disse que depois disso não ouviu mais nada. O cais do Abraão é um lugar diferente à noite em comparação ao dia. De dia há barqueiros, turistas, vendedores de passeios e o barulho constante dos motores. À noite, após a partida do último catamarã, o cais fica quase vazio. Algumas lanternas de pesca ao fundo, o balanço das canoas atracadas, o cheiro de óleo e marisco.

Não há ninguém para supervisionar, ninguém para registrar quem passa. O único barqueiro trabalhando fora do horário normal naquela noite, um homem chamado Evandro que fazia transporte informal entre as praias da ilha, disse à polícia que não havia transportado ninguém de madrugada. Ele disse que ficou na baía até quase meia-noite e não viu nada fora do comum.

O depoimento foi registrado, mas não foi aprofundado. Havia uma trilha que saía de Abraão em direção ao sul da ilha, rumo à praia de Palmas e depois à praia da Biscaia. Era uma trilha de dificuldade moderada que levava cerca de duas horas cada trecho num ritmo tranquilo. À noite, sem um guia e sem equipamento adequado, era uma trilha que não deveria ser tentada.

A vegetação rasteira se fechava de ambos os lados. O chão, coberto de raízes e pedras, ficava escorregadio com o orvalho, e o sinal de celular desaparecia nos primeiros 500 metros. Renata e Fábio sabiam disso. Eles haviam feito aquela trilha duas vezes, sempre durante o dia, sempre com água suficiente e sempre retornando antes das 16h.

O que poderia ter levado os dois a saírem naquela direção à noite, sem bagagem, sem documentos, sem os celulares carregados e sem avisar a ninguém? É uma pergunta que o inquérito registrou, mas não respondeu. E ainda restava descobrir o que a dona da pousada encontrou quando abriu o quarto no segundo dia.

Na manhã de 15 de fevereiro, uma sexta-feira, a funcionária da pousada preparou o café da manhã para o casal do quarto sete às 8h15. Havia pão de queijo, mamão, café com leite e tapioca com queijo coalho, exatamente como Renata havia pedido na chegada. A bandeja foi deixada do lado de fora da porta, num suporte de madeira fixado na parede, como era costume na pousada.

Às nove horas começou a esquentar e o café ainda estava na mesa, então o mamão havia escurecido levemente nas bordas. O café com leite estava frio. A funcionária, uma jovem chamada Edilene, de 26 anos, moradora da vila, bateu na porta duas vezes. Não houve resposta. Ela bateu de novo, mais forte, chamando o nome de Renata. Nada.

Ela tentou a maçaneta com cuidado, sem forçar. A porta estava trancada por dentro, com a fechadura rotativa que os quartos da Maré Mansa tinham desde a última reforma. Era o tipo de fechadura que só podia ser ativada pelo lado de dentro. Edilene desceu e avisou Sônia. Sônia subiu, bateu, esperou, e depois chamou o marido Raimundo, que trabalhava na manutenção da pousada há 12 anos. O Sr. Raimundo tentou abrir a porta pelo lado de fora com uma chave mestra.

Não funcionou porque a fechadura rotativa estava travada por dentro. Então ele removeu as dobradiças externas com uma chave de fenda, o que levou cerca de 15 minutos. Quando a porta cedeu, o quarto estava vazio. Estava arrumado, quase do mesmo jeito que a cama foi feita de manhã, como se ninguém tivesse dormido ali.

As malas estavam fechadas e alinhadas contra a parede. A bolsa de Renata estava em cima da cômoda, com o passaporte, a identidade e o cartão de crédito dentro. A carteira de Fábio estava ao lado, contendo seus documentos e dinheiro em espécie. Os dois carregadores de celular estavam conectados às tomadas com os cabos enrolados neles, sem os aparelhos.

A janela dos fundos estava ligeiramente aberta. Era a janela com vista para a mata que Renata sempre pedia porque entrava uma brisa à noite. A janela tinha tela mosquiteira, mas a tela estava levemente afastada de um dos cantos, como se alguém a tivesse empurrado de dentro para fora. Do lado de fora, a mata começava a menos de três metros de distância.

A cama de folhas caídas entre a janela e as primeiras árvores não mostrava marcas visíveis, mas terra úmida raramente mostra. Sônia ficou parada no meio do quarto por alguns segundos sem falar. Então, pediu a Edilene que não tocasse em nada. Depois, ligou para o número de emergência. Não havia sinal de violência.

Nada estava quebrado, derrubado ou fora do lugar. A única coisa que faltava eram os dois dentro de um quarto que parecia arrumado demais para ter sido ocupado na noite anterior por um casal de férias. E havia o cheiro. Edilene descreveu ao delegado, dias depois, como um cheiro pesado que não conseguia nomear.

Ela disse que não era cheiro de perfume, não era cheiro de cigarro, não era nada que já tivesse sentido antes naquele quarto ou em qualquer outro da pousada. Ela disse que era um cheiro que ficava no fundo do nariz e do qual ela ainda se lembrava semanas depois. O policial anotou; ele não solicitou uma perícia no local.

A janela foi fechada, o quarto foi isolado por dois dias e depois reaberto. O policial que atendeu à ocorrência de desaparecimento chegou à pousada no final da tarde do segundo dia. Chegou num barco da Polícia Civil, numa travessia de 40 minutos a partir do cais de Angra dos Reis, com o sol já baixo e o céu cor de ferrugem sobre a baía.

Era um agente de meia-idade, de cabelo curto, à paisana, que carregava um bloco de notas e um celular que olhava com frequência. Anotou os dados de Renata e Fábio, examinou o quarto, fotografou as malas, os documentos, os carregadores na tomada, abriu a janela dos fundos e olhou para o mato por alguns segundos sem comentar.

Perguntou a Sônia se o casal havia bebido muito na noite anterior. Sônia disse que não, que haviam bebido água de coco no deck e ido dormir. O policial anotou e perguntou se havia histórico conhecido de conflito entre os dois. Sônia disse que não, que eles pareciam bem. O policial anotou, perguntou se tinham dívidas e se a família sabia de problemas financeiros. Sônia disse que não sabia.

O policial anotou e disse que registraria como desaparecimento, mas que a hipótese mais provável era que o casal tivesse partido voluntariamente por algum motivo pessoal desconhecido da pousada, e que muito provavelmente reapareceriam em breve. Ele disse que esse tipo de coisa acontecia com mais frequência do que as pessoas imaginavam, especialmente em feriados, especialmente em lugares isolados como aquele.

Ele disse que a família deveria ligar caso tivesse alguma novidade. O boletim de ocorrência foi registrado na delegacia de Angra dos Reis no dia seguinte, inicialmente classificado como ausência voluntária de adultos. Em 2019, não havia uma delegacia permanente na Ilha Grande. A assistência policial na ilha dependia de deslocamento por barco a partir do continente, o que criava um atraso estrutural conhecido por todos que moravam lá e que raramente era discutido como uma questão de urgência.

A família de Renata, ao saber da classificação do boletim, não acreditou em uma única palavra. A irmã de Renata, Cristiane Drumond, disse ao agente pelo telefone:

“Minha irmã não é o tipo de pessoa que desapareceria sem dar explicações. A Renata liga para a nossa mãe todos os dias, sem falta, às 8h da manhã. O cachorro dela ficou sozinho em casa com a vizinha, e se a Renata fosse sair da ilha, ela teria nos avisado.”

O policial ouviu, anotou e disse que encaminharia o caso ao departamento responsável. O departamento responsável levou três semanas para entrar em contato com a família.

Você conseguiria continuar com sua rotina sabendo que alguém da sua família desapareceu numa ilha e a polícia estava apenas esperando para ver o que aconteceria? A irmã de Renata, Cristiane Drumond, tinha 34 anos na época e dava aulas de português para alunos do quinto e sexto ano numa escola municipal de São Gonçalo.

Era a mais nova das duas irmãs, a que sempre fora mais prática, a que sabia o que fazer numa emergência. Quando a mãe de Renata ligou chorando na manhã de domingo, dizendo que não conseguia falar com a filha há dias, Cristiane já estava fazendo as malas. Ela foi pessoalmente à Ilha Grande três vezes no primeiro mês.

Na primeira viagem, foi sozinha no catamarã das 10h numa segunda-feira, carregando uma pasta com fotos impressas do casal e um caderno onde anotava tudo. Foi até a pousada, conversou com Sônia por mais de duas horas, examinou o quarto sete, caminhou até a beira da praia, perguntou nos restaurantes e quiosques se alguém tinha visto o casal na noite do dia 14. A maioria não se lembrava.

Um garçom disse que achava ter visto um casal parecido naquela noite, mas não tinha certeza. O depoimento não pôde ser verificado. Na segunda viagem, Cristiane foi com dois colegas que se ofereceram para ajudar. Fizeram trilhas com voluntários que ela havia contatado através de um grupo de WhatsApp de moradores da ilha.

Foram até a praia de Palmas e a praia da Biscaia pela trilha do sul. Chamaram pelos dois o tempo todo. A vegetação respondia com o canto dos pássaros e o ranger das árvores ao vento. Não havia nenhum rastro visível. Cristiane deixou fotos do casal coladas em postes, em barracas de artesanato, na entrada do cais, na farmácia, na padaria e no pequeno posto de saúde da vila.

Escreveu o número do seu celular em todas as fotos. Nos dois meses seguintes, recebeu 43 ligações. Nenhuma delas era sobre Renata e Fábio. Contratou um investigador particular recomendado por um colega de trabalho do marido, um homem chamado Robson, que atuava em Niterói e tinha experiência com casos de pessoas desaparecidas.

Robson foi à ilha uma vez, conversou com moradores, fez contato com barqueiros informais, tentou rastrear registros de atendimento médico na região da Costa Verde e trabalhou no caso por dois meses. Quando o dinheiro que Cristiane havia guardado acabou, Robson encerrou o contrato sem ter encontrado nada de concreto. Ele disse que havia a possibilidade de o casal ter embarcado numa lancha informal para o continente, mas que não havia como confirmar isso.

Essa hipótese nunca foi verificada pela polícia. A página que Cristiane criou nas redes sociais para divulgar o caso chegou a quase 12.000 seguidores no auge das buscas, por volta de abril daquele ano. As pessoas compartilhavam, comentavam, mandavam mensagens de apoio e, às vezes, enviavam informações que pareciam pistas, as quais Cristiane anotava e repassava à polícia.

A maioria das pistas não levava a lugar nenhum. Algumas eram de pessoas bem-intencionadas que confundiam rostos em fotos. Uma história envolvia um homem que afirmava ter visto o casal numa rodoviária em Curitiba, o que era geograficamente improvável e nunca foi confirmado. Cristiane escreveu cartas para a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, para o Ministério Público, para a Secretaria de Segurança Pública, para o gabinete do deputado estadual da região e para uma vereadora de Niterói que já havia se pronunciado publicamente sobre casos de desaparecidos.

As respostas que recebeu foram formais, educadas e vazias. Acusavam o recebimento e informavam que o caso havia sido encaminhado ao setor competente. Agradeciam o contato. Cristiane aprendeu naqueles meses a diferença entre uma resposta e uma ação. A diferença era grande, e o espaço entre as duas era onde as famílias viviam, esperando.

E ainda havia a questão do que aconteceria quando o primeiro aniversário do desaparecimento chegasse sem nenhuma novidade. O primeiro aniversário chegou em fevereiro de 2020, com o mundo já se preparando para fechar por causa de algo que ainda não tinha um nome claro nos noticiários brasileiros. Cristiane postou na sua página uma foto de Renata e Fábio na praia de Lopes Mendes, tirada numa viagem anterior à ilha, de costas para a câmera, olhando para o mar.

Foi a foto com mais compartilhamentos porque parecia dizer algo sem precisar de legenda. Recebeu 300 comentários naquele dia. A maioria era de corações e orações. Alguns eram de pessoas que diziam que nunca esqueceriam. Alguns eram de pessoas que a família nunca havia conhecido. Um programa de televisão regional exibiu uma matéria de três minutos sobre o caso no aniversário do sumiço.

Entrevistaram Cristiane numa praça em São Gonçalo, com uma foto do casal ao fundo numa moldura de papelão que o repórter havia levado. A reportagem foi ao ar numa quarta-feira à tarde e gerou mais vários compartilhamentos nas redes sociais. Dois dias depois, o mundo parou completamente por causa da pandemia, e o caso de Renata e Fábio desapareceu das notícias como se nunca tivesse realmente acontecido.

O primeiro ano sem notícias foi o mais difícil de descrever, porque foi o ano em que a família ainda acreditava que algo poderia mudar a qualquer momento. Era uma espera ativa, cheia de adrenalina e planejamento. Cristiane acordava todos os dias com a sensação de que aquele poderia ser o dia. A mãe de Renata, Dona Neusa, de 62 anos, servidora pública aposentada, passava as manhãs sentada perto do telefone fixo que ainda tinha em casa, o mesmo telefone que usava há 15 anos.

Não porque achasse que a filha ligaria para o fixo; era um hábito do corpo, um jeito de ficar perto de algo que não conseguia nomear. O segundo ano foi diferente. Foi um silêncio mais pesado, menos ansioso e mais opaco. A adrenalina havia passado. O que restava era uma espécie de peso constante que não doía de forma aguda, mas que estava sempre lá como uma pedra no meio do peito que você aprende a carregar porque não há outra opção.

O pai de Fábio, Geraldo, de 70 anos, aposentado de uma transportadora em Niterói, passou a acordar às 4h da manhã todas as noites. Foi um hábito que desenvolveu sem perceber no segundo semestre de 2019, e que nunca mais passou. Ele levantava, ia para a varanda do seu apartamento no bairro de São Domingos, em Niterói, e ficava apenas olhando para a rua.

Ele não estava esperando nada específico. Não havia nada pelo que esperar às 4h da manhã numa rua de Niterói. Era um hábito que o corpo desenvolveu sozinho, como se alguma parte dele ainda estivesse de guarda. A mãe de Fábio, Marlene, de 66 anos, parou de participar do grupo de oração da paróquia que frequentava há 20 anos.

Ela não discutiu com ninguém, não explicou exatamente o porquê, apenas disse que estava cansada. Os vizinhos entenderam sem precisar de maiores explicações. A mãe de Renata, Dona Neusa, parou de atender ligações de números desconhecidos, não porque não quisesse notícias, mas porque não suportava mais a mistura de esperança e medo que sentia antes de cada ligação, o segundo entre o primeiro toque e o momento em que atendia, que ela descreveu a Cristiane como o segundo mais longo que existia.

Atender o telefone e descobrir que não era notícia nenhuma doía de uma forma diferente de não saber. E esse modo diferente de sentir tinha se tornado insuportável com o tempo. Cristiane continuou atualizando a página nas redes sociais toda semana, mesmo quando não havia novidades. Postava lembretes, republicava fotos da praia de Lopes Mendes em datas comemorativas, respondia a comentários e agradecia as mensagens de apoio.

Com o tempo, o número de seguidores diminuiu, os compartilhamentos tornaram-se menos frequentes e o algoritmo empurrou a página para baixo. Cristiane sabia disso. Ela continuou mesmo assim, porque parar parecia uma forma de desistência que ela não estava pronta para aceitar. O cachorro do casal, o vira-lata Bruto, que a vizinha havia cuidado nos primeiros meses, acabou ficando definitivamente com ela quando ficou claro que o apartamento em Icaraí seria devolvido ao proprietário.

O contrato de aluguel venceu em agosto de 2019. A família pagou por mais dois meses por conta própria, sem saber o que fazer com os pertences do casal. Então, a irmã de Fábio foi ao apartamento com caixas e guardou o que podia ser guardado. Entregou a chave. O apartamento foi pintado de branco e alugado para outra pessoa em outubro.

Bruto nunca parou de latir quando ouvia o interfone tocar. Era um latido diferente daquele que ele dava para estranhos. A vizinha sabia reconhecer a diferença. Ela nunca discutiu isso com a família deles. Achava que não adiantaria nada. Se fosse você, sua filha ou sua irmã, você acreditaria no que a polícia disse sobre ausência voluntária? O terceiro ano foi marcado por uma espera que mudara de natureza.

Já não era mais a espera ativa dos primeiros meses. Era uma espera que havia se tornado parte da rotina, que havia se integrado ao tecido do dia a dia de todos. A família nunca parou de viver. As pessoas iam trabalhar, comiam, dormiam, pagavam contas, comemoravam aniversários de forma contida, mas algo havia parado de funcionar para cada um deles, de maneiras diferentes em cada caso, e nunca mais seria a mesma coisa, não importava o que acontecesse.

O terceiro ano também foi o ano em que Cristiane foi a um psicólogo pela primeira vez. Sua ansiedade havia se intensificado a ponto de ela acordar com taquicardia. O psicólogo disse que o que ela estava vivenciando tinha um nome claro: luto suspenso, o luto de quem ainda não pode chorar a perda porque não sabe como.

Era um dos estados mais difíceis de processar porque não tinha data de início nem fim à vista. Cristiane levou esse conceito para casa, pensou sobre isso por dias, e não se sentiu mais leve. Mas sentiu-se menos sozinha no que estava sentindo.

No dia 3 de abril de 2023, numa terça-feira de manhã, um morador chamado Natalino Pereira da Costa, de 64 anos, agricultor e criador de galinhas, foi aos fundos de sua propriedade rural, nos arredores de Paraty, no trecho do Vale do Perequê-Açu, que fica entre a rodovia BR-101 e o início da Área de Proteção Ambiental da Serra do Mar, para verificar uma cerca que havia caído após as chuvas do fim de semana anterior.

A propriedade era grande, com quase seis acres de pasto e mata secundária, e a parte dos fundos não era visitada com frequência. Foi lá que ele os viu. O antigo moinho de farinha ficava numa clareira parcialmente oculta pela vegetação que havia crescido ao redor nas últimas décadas.

Era uma construção de pedra e barro sem telhado, com paredes que chegavam à altura do peito em alguns lugares e que haviam desmoronado completamente em outros. A propriedade pertencera a um parente distante de Natalino, falecido na década de 1990, e a construção estava em ruínas há pelo menos 15 anos.

Natalino ia lá de vez em quando para checar se havia ninhos de marimbondo ou entulho jogado por estranhos. Ao chegar à clareira, ele ouviu, antes de ver, um som baixo e contínuo vindo de dentro das paredes. Ficou parado por um momento, achando que pudesse ser um animal. Em seguida, aproximou-se devagar por um lado onde a parede havia desabado totalmente, criando uma ampla abertura.

Dentro da construção, sentados no chão de terra batida, encostados na parede dos fundos, havia dois adultos. Eles estavam lado a lado, com os ombros se tocando, os olhos abertos, vestindo roupas que Natalino descreveu como velhas e gastas, do tipo que não eram de marca nenhuma, com cores desbotadas como roupas que passaram por muita chuva e muito sol.

Estavam descalços, com os pés escuros de terra, e ambos falavam ao mesmo tempo, no mesmo ritmo, em voz baixa, repetindo a mesma coisa sem parar. Natalino os chamou. Nenhum dos dois reagiu. Ele chamou mais alto, mas nada. Ele entrou na construção com cuidado e se ajoelhou na frente dos dois. Os olhos deles estavam abertos, mas não estavam focados nele.

Era como se ele não estivesse lá. Ele correu de volta para a casa principal e ligou para o corpo de bombeiros. Os bombeiros chegaram 40 minutos depois, em duas viaturas que saíram do quartel de Paraty com quatro agentes. Eles seguiram Natalino pela estrada de terra até a clareira. Quando entraram na construção e viram os dois, um dos oficiais parou na entrada por um momento antes de avançar.

Não era o tipo de cena que encontravam com frequência. Renata e Fábio estavam vivos, respirando regularmente, seus pulsos eram palpáveis, não reagiam ao toque ou aos chamados, e continuavam a repetir, em voz baixa, rítmica, sem variação, a mesma sequência de palavras. Os bombeiros registraram a hora, 9h43, acionaram o SAMU e se prepararam para a remoção.

Você se lembra do que foi dito no começo? A resposta está mais perto do que parece. Os primeiros dias de internação no hospital municipal Dr. Élcio de Souza Lima, em Paraty, foram de avaliação e estabilização. Os médicos trabalharam inicialmente sem saber a identidade dos dois.

Eram dois adultos sem documentos, sem pertences e sem nenhum objeto que pudesse identificá-los. O chamado de remoção entrou como dois adultos em estado de dissociação encontrados em área rural. Foi somente quando a polícia de Paraty cruzou a descrição com os registros do Sinalid, naquela mesma tarde, que os nomes surgiram.

A confirmação demorou algumas horas a mais por causa de uma questão burocrática de acesso ao sistema, que ainda não estava totalmente integrado no estado do Rio de Janeiro para cruzamento automático. Quando o delegado de Paraty conseguiu acessar o boletim de ocorrência de desaparecimento registrado em Angra dos Reis em 2019, ele ficou em silêncio por alguns segundos, lendo-o antes de ligar para o hospital.

Renata e Fábio estavam desnutridos. Os médicos descreveram o estado nutricional como consistente com um período prolongado de ingestão insuficiente de alimentos, mas não com inanição total.

Havia sinais de que os dois haviam comido algo nos dias ou semanas que antecederam o encontro, embora não fosse possível determinar o quê; eles haviam perdido peso de forma significativa, mas não ao ponto que seria esperado de alguém que não se alimentava adequadamente há 4 anos. Ambos tinham ferimentos antigos nos pés, o tipo de lesão que se forma pelo uso contínuo sem calçados em solo irregular, cicatrizes de cortes e bolhas que haviam curado e retornado várias vezes.

Tinham marcas nos braços que os médicos identificaram como consistentes com contato repetido com vegetação, o tipo de arranhão que o mato denso produz ao se caminhar sem proteção. Algumas marcas eram antigas, outras pareciam mais recentes, mas não havia como datá-las com precisão. O grau de desorientação foi classificado pela equipe de psiquiatria como dissociação severa com componente amnésico.

Nenhum dos dois reconhecia o ambiente hospitalar ou os profissionais que os atendiam. Respondiam ao som de seus próprios nomes com uma leve alteração no ritmo da respiração, mas sem virar a cabeça ou demonstrar compreensão. Não reconheceram fotografias de familiares que os médicos lhes mostraram nos primeiros dias como parte do protocolo de avaliação, e continuavam repetindo a frase.

A equipe médica tentou transcrevê-la no primeiro dia, mas o som era baixo e o ritmo era contínuo, sem pausas entre as repetições, dificultando a identificação de onde uma terminava e a outra começava. Um dos médicos usou o gravador de seu celular para registrar. Na tarde do segundo dia, depois de ouvir a gravação várias vezes em velocidade reduzida, conseguiram separar as palavras com precisão suficiente para transcrevê-las.

A frase era curta. Tinha cinco palavras. Não fazia sentido imediato para nenhum dos profissionais presentes. O médico que fez a transcrição anotou no prontuário e depois chamou a polícia, que, por sua vez, contatou a família.

Foi assim que Cristiane ficou sabendo. Ela chegou ao hospital na tarde do terceiro dia, após uma viagem de ônibus de quase quatro horas de São Gonçalo até Paraty, com parada em Angra dos Reis.

Ela veio sozinha porque a mãe de Renata não conseguira sair da cama ao receber a notícia, não por doença, mas por um colapso emocional que o médico da família descreveu como reação ao choque de uma notícia que era, ao mesmo tempo, esperada e inesperada. O médico encontrou Cristiane num corredor do hospital antes de ela entrar no quarto.

Ele explicou o quadro clínico dos dois, explicou a dissociação, explicou que o prognóstico era reservado, mas que havia elementos positivos. Depois ele pegou o prontuário, abriu numa página específica e leu a frase em voz alta. Cristiane ficou parada por alguns segundos sem dizer nada, e então pediu ao médico que repetisse. Ele repetiu.

Ela ficou olhando pela janela do corredor, que dava para um corredor interno de concreto sem nenhuma vista específica. Depois ela chorou de um jeito que o médico, em depoimento posterior à polícia, descreveu como diferente do choro que estava acostumado a ver em parentes de pacientes graves. Não era desespero, não era alívio, era algo para o qual ele não tinha uma palavra técnica para descrever.

Levou alguns minutos para que Cristiane conseguisse falar novamente. Então, ela explicou ao médico de onde vinha aquela frase, por que ela a reconheceu e o que ela significava para Renata. A frase não será revelada aqui porque a família pediu que não fosse. O que se sabe é que era algo que existia entre as duas irmãs desde a infância.

Uma frase de um contexto específico, de um dia específico, que Cristiane descreveu como um dos piores dias que as duas haviam vivido juntas antes de Renata crescer e construir sua própria vida. Uma frase que não fazia sentido para ninguém fora da família, que era desconhecida de Fábio, segundo Cristiane, o que confirmou a certeza do investigador, e que Renata nunca havia mencionado para ninguém além da irmã.

Esse detalhe foi incluído na investigação, mas permaneceu sem explicação. Os exames realizados nas primeiras semanas de internação trouxeram resultados que os médicos descreveram em seus relatórios com linguagem técnica e cuidadosa. Lidos separadamente, cada resultado tinha uma explicação plausível.

Tomados em conjunto, formavam um quadro que nenhum deles havia encontrado da mesma forma em outro paciente. Os marcadores biológicos de envelhecimento celular tanto de Renata quanto de Fábio indicavam um processo de envelhecimento mais lento do que o esperado para o período desde o desaparecimento. Não era uma diferença enorme.

Não era algo que saltasse aos olhos numa primeira leitura. Era uma diferença sutil nos marcadores dos telômeros e indicadores de estresse oxidativo, que o médico responsável pela análise descreveu no relatório como estatisticamente inconsistente com a idade cronológica dos pacientes e o tempo de exposição relatado. O relatório recomendou exames adicionais em um laboratório especializado.

Esses exames foram solicitados. Os resultados demoraram meses para chegar. Quando chegaram, confirmaram a inconsistência, mas não foram capazes de explicá-la. Como mencionado, o estado nutricional era incompatível com quatro anos de ausência de refeições regulares. Os médicos calcularam que, dado o estado em que foram encontrados, os dois deviam ter tido acesso a alguma forma de alimento nos meses ou semanas anteriores.

Não havia como determinar o que eles haviam comido, nem onde. A análise do conteúdo estomacal no momento da admissão mostrou resíduos consistentes com frutas silvestres e algo de origem animal que o laboratório não conseguiu identificar com precisão. As marcas no corpo eram todas explicáveis individualmente.

As lesões nos pés eram consistentes com caminhada prolongada sem sapatos. As marcas nos braços eram consistentes com contato com vegetação densa. Havia uma cicatriz no ombro esquerdo de Fábio que os médicos não conseguiam explicar, não por causa de seu formato — era uma linha fina de aproximadamente 12 cm de comprimento —, mas por causa de como havia cicatrizado, que era diferente do padrão normal de cicatrização de cortes causados por objetos cortantes.

O médico anotou no prontuário que era uma cicatriz atípica de origem indeterminada e não voltou ao assunto nas semanas seguintes. Nenhum dos dois, mesmo após recuperar progressivamente a capacidade de comunicação básica nas primeiras semanas de internação, foi capaz de oferecer um relato coerente do que havia acontecido entre fevereiro de 2019 e abril de 2023.

Quando questionados, eles ficavam em silêncio por longos períodos. Às vezes diziam que não se lembravam. Às vezes diziam que havia algo que estavam tentando alcançar mentalmente, mas que escapava antes que pudessem agarrar. Certa vez, Fábio disse ao psiquiatra que era como tentar lembrar de um sonho depois de acordar; a memória estava lá, mas desaparecia enquanto ele tentava olhar diretamente para ela.

Renata disse ao psiquiatra, em uma das primeiras sessões em que conseguiu manter uma conversa contínua, que sentia ter passado muito tempo dentro de um lugar, um lugar com cheiro de terra e floresta, que havia muito silêncio, que não havia dor, que não havia frio, que havia algo que ela percebia como uma presença, mas que não conseguia descrever de forma mais precisa do que isso.

O psiquiatra registrou o depoimento com cuidado e não tirou nenhuma conclusão diagnóstica além daquelas sustentadas pelos dados clínicos. Os médicos registraram tudo, concluíram o que puderam baseados no que tinham e deixaram um espaço em branco no final de cada relatório relevante que ninguém assinou, onde as perguntas que os dados geravam, mas não respondiam, permaneciam como questões abertas num processo que ninguém sabia como encerrar.

O delegado responsável pela investigação em Paraty enviou os laudos ao Instituto Médico Legal no Rio de Janeiro para uma segunda análise. O IML confirmou os achados sem adicionar nenhuma informação nova. A Polícia Civil do Rio de Janeiro, que havia registrado o desaparecimento em 2019, reativou a investigação e começou a cruzar informações com o que fora encontrado em 2023.

O processo de cruzamento de dados levou meses, em parte devido à burocracia entre delegacias de diferentes distritos, em parte devido ao número de anos que haviam passado, e em parte devido à descontinuidade dos registros. O Ministério Público foi informado, acompanhou a situação, mas não indiciou ninguém porque não havia ninguém para indiciar; não havia evidência de crime contra as duas pessoas.

Havia apenas a ausência prolongada e o retorno inexplicável. Dois fatos que, juntos, não constituíam crime e, separadamente, não eram nada que o sistema penal soubesse classificar. O inquérito foi formalmente encerrado em novembro de 2023 por falta de provas para determinar o que havia ocorrido.

Não foi arquivado definitivamente. Foi suspenso com a possibilidade de reativação caso surgissem novos elementos. Era a formulação jurídica para dizer que ninguém sabia e que ninguém tinha perspectiva de saber. Renata e Fábio receberam alta do hospital em agosto de 2023, após quatro meses de acompanhamento psiquiátrico e clínico em Paraty e, posteriormente, em Niterói.

Para onde foram transferidos quando a condição clínica deles permitiu a mudança? A dissociação havia diminuído gradualmente. Ambos recuperaram a capacidade de se comunicar, de reconhecer um ao outro e de se orientar no tempo. Eles reconheceram a família, reconheceram fotos antigas, reconheceram a cidade onde viviam, mas não recuperaram a memória do período que havia desaparecido.

O psiquiatra responsável pelo caso classificou o quadro como amnésia dissociativa prolongada, um diagnóstico que descrevia o que havia acontecido, mas não explicava o porquê, nem o que havia produzido o estado em que os dois foram encontrados. A frase que eles repetiam quando foram encontrados não voltou depois que a dissociação diminuiu.

Os dois nunca mais a repetiram em nenhum contexto. Quando Cristiane perguntou a Renata, durante uma de suas primeiras longas conversas, se ela sabia de onde a frase vinha, Renata a encarou por alguns segundos.

“Eu não sei. Tem algo que sinto que deveria saber, mas não consigo alcançar.”

A conversa parou por aí. Eles voltaram a morar em Niterói, não no apartamento em Icaraí, que havia ficado vago durante os anos de ausência e que havia sido ocupado por outros dois inquilinos nesse período. Eles se mudaram para a casa da mãe de Renata, em São Francisco, um bairro de casas antigas e ruas largas às margens da Baía de Guanabara, onde Dona Neusa vivia há 30 anos.

Era um sobrado com azulejos brancos na fachada e uma jabuticabeira no quintal que dava frutos o ano todo em novembro. Renata e Fábio ocuparam o quarto que fora de Renata quando ela era criança. O casamento que haviam planejado para o final de 2019 nunca foi remarcado. Não houve separação, não houve rompimento.

Os dois simplesmente não tocaram mais no assunto, e a família não perguntou. Era o tipo de decisão que pertencia a eles, e ninguém de fora poderia entender sem saber o que eles sabiam, que era muito pouco. Fábio voltou a trabalhar depois de alguns meses em um ritmo reduzido. Ele encontrou uma empresa de manutenção de equipamentos industriais em Niterói, que o contratou inicialmente como prestador de serviços, sem vínculo empregatício formal, para ver como ele se adaptaria.

Segundo o gerente, que supervisionou o processo, ele se adaptou de forma funcional. Fazia o seu trabalho, não conversava muito com os colegas, almoçava sozinho, não parecia hostil, apenas parecia presente de um jeito que era ligeiramente diferente de como as pessoas costumam ser. Renata não voltou a atender em seu consultório de fonoaudiologia.

O consultório havia sido formalmente fechado em 2020, quando ficou claro que a ausência seria prolongada. Os pacientes haviam sido encaminhados para outros profissionais. O registro no conselho da profissão havia sido mantido ativo pela família por dois anos e depois deixado expirar. Renata não fez nenhum movimento para reativá-lo. Quando a mãe perguntou, com cuidado, se ela pensava em voltar a trabalhar na área, Renata respondeu:

“Ainda não sei.”

Disse isso sem angústia. Falou como quem espera que algo interno se acomode antes de tomar uma decisão. Cristiane desativou sua página nas redes sociais no dia em que a irmã saiu do hospital. Ela publicou uma última mensagem simples, dizendo que Renata e Fábio estavam de volta e que a família pedia privacidade.

Não disse mais nada. Não explicou o que havia acontecido. Não havia como explicar. A conta foi desativada. Ela disse a um amigo, depois, que não havia mais nada para publicar. Disse isso sem amargura, sem alívio visível, simplesmente como alguém constatando um fato que existe, mas que não pode ser descrito adequadamente.

Bruto, o cachorro, ficou com a vizinha. A vizinha se ofereceu para devolvê-lo quando soube que os dois haviam retornado. Renata pediu a ela que ficasse com ele, dizendo que Bruto já estava acostumado. A vizinha continuou com o cachorro. Às vezes, quando a janela de Dona Neusa estava aberta e Renata estava no quintal, Bruto latia do outro lado da rua com aquele latido incomum. A vizinha fechava a janela.

A construção abandonada no Vale do Perequê-Açu foi inspecionada pela polícia nas semanas seguintes à descoberta. Não foi encontrado nenhum pertence do casal, nenhum objeto, nenhum documento, nem qualquer indicação de como haviam chegado lá ou de quanto tempo haviam permanecido. O chão de terra batida não guardava impressões úteis.

As paredes de pedra e barro não tinham marcas. A clareira ao redor tinha uma vegetação que havia crescido intacta, de forma visível, levando um dos agentes a registrar que não havia sinais de ocupação humana prolongada no local. Uma conclusão que contradizia diretamente o fato de que dois seres humanos foram encontrados sentados dentro daquelas paredes numa manhã de abril.

A contradição foi registrada, mas não resolvida. Natalino Pereira da Costa, o morador que havia chamado os bombeiros, foi interrogado pela polícia três vezes. Na terceira vez, o delegado perguntou se havia algo que ele não havia mencionado antes, qualquer detalhe que parecesse insignificante, mas que fugisse do normal.

Natalino pensou por um momento e, então, disse que o lugar cheirava diferente quando ele chegou naquela manhã, que havia um cheiro que ele descreveu como terra depois da chuva, mas forte, como se algo tivesse revirado a terra. Ele disse que não havia chovido nos três dias anteriores. O investigador anotou. A propriedade de Natalino fica a aproximadamente 90 km da Ilha Grande, em linha reta, separada pela baía e por uma faixa de continente que inclui um trecho de serra e de Mata Atlântica densa.

A distância por estrada, contornando a baía pela BR-101, é de cerca de 140 km. Não há trilha conhecida ligando a ilha ao Vale do Perequê-Açu. Não há rota terrestre direta. Para ir do Abraão, na ilha, até onde os dois foram encontrados, seria necessário pegar um barco até o continente, viajar uma distância significativa e chegar a um ponto que não tem acesso direto por via pública.

Como essa jornada foi feita? Por quem e sob quais condições, a investigação não determinou. O Vale do Perequê-Açu permaneceu como sempre foi. A mata fechada nas duas margens do rio, o cheiro de terra molhada depois das chuvas de verão, o som dos sapos à noite que começa antes de escurecer completamente e continua até o amanhecer sem parar.

A construção abandonada continua lá. Natalino a visita de vez em quando para checar a cerca, mas não fica mais tempo do que o necessário. Ele não explicou por quê, apenas disse que não ficaria. Hoje, quando você fecha a porta da frente e sabe onde cada pessoa amada está, é fácil esquecer o que significa não saber.

O que significa esperar 5 dias para registrar um boletim de ocorrência porque a polícia diz que eles provavelmente voltarão em breve. O que significa ligar para um número e ouvir o tom de chamada ir até o fim, sem atender, sem cair na caixa postal, sem nada. O que significa esperar 4 anos num silêncio que se torna mais espesso a cada semana que passa sem uma resposta.

Renata e Fábio estão de volta. Eles estão em Niterói, na casa de Dona Neusa, com a jabuticabeira no quintal, que dará frutos em novembro, como todos os anos. Eles estão vivos, estão funcionais, estão na mesma situação que qualquer pessoa pode estar, seguindo em frente. Mas há perguntas que continuam sem resposta e que não encontrarão respostas em nenhum inquérito, em nenhum laudo, em nenhuma conversa que ainda não aconteceu.

O que aconteceu entre fevereiro de 2019 e abril de 2023 é o intervalo de tempo que existe nos documentos oficiais, nos prontuários médicos, nos anos que se passaram na vida de cada membro da família, e que não existe em nenhum lugar na memória dos dois que o viveram por dentro. Cristiane ainda acorda, às vezes, no meio da noite, não com ansiedade aguda como antes, mas com uma espécie de quietude que ainda não sabe interpretar direito.

Ela diz que é diferente de como dormia antes de 2019. Ela diz que algo mudou nela, algo que não pode ser desfeito. Ela não diz isso com amargura. Ela diz isso como quem descreve uma paisagem que conhece bem. Dona Neusa voltou a atender chamadas de números desconhecidos. É uma pequena mudança. É a única que ela menciona quando alguém pergunta como ela está.

Seu Geraldo ainda acorda às 4 da manhã, mas agora, depois de sentar na varanda por alguns minutos, volta para dentro e consegue dormir de novo. Ele considera isso uma melhora. A família concorda. A história não termina com uma explicação. Ela termina com perguntas que permanecem abertas e com pessoas que aprenderam a carregá-las em silêncio ou que nunca conseguiram resolvê-las.

Termina com um casal que voltou de algum lugar que não existe em nenhum mapa e que provavelmente nunca saberá de onde veio. Termina com uma frase de cinco palavras que duas irmãs conhecem e que mais ninguém sabe de onde surgiu. E termina com uma construção de pedra e barro nos arredores de Paraty, com o telhado aberto para o céu e o chão de terra, onde o vento entra por todos os lados e onde às vezes Natalino para na beira da clareira, olha por alguns segundos e vai embora sem entrar.

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