Em 1989, em Natal, Rio Grande do Norte, Maria das Dores Silva, uma dona de casa de 42 anos, saiu de manhã para fazer as compras no mercado do bairro e nunca mais regressou a casa. A sua família procurou-a desesperadamente durante 14 anos, até que, em 2003, uma vizinha deparou-se com algo completamente inexplicável na sua própria habitação, revelando a terrível verdade sobre o que sucedera a Maria.
O caso chocou a comunidade de Natal e expôs segredos sombrios que ninguém ousaria imaginar. Numa manhã soalheira de 15 de junho de 1989, nas ruas agitadas do bairro de Cidade Alta, em Natal, Rio Grande do Norte, Maria das Dores Silva desapareceu sem deixar rasto. Era uma quinta-feira banal, com a temperatura a rondar os 28 graus, e ela havia saído às 8 da manhã para fazer as compras da semana no mercado de São José, rotina que mantinha todas as quintas-feiras há mais de uma década.
Contudo, desta feita, Maria das Dores jamais tornaria a casa. O que teria acontecido a esta dedicada dona de casa? A resposta permaneceu um mistério durante 14 longos anos, até que uma descoberta absolutamente incompreensível na habitação de uma vizinha desvendou uma verdade de tal forma perturbadora que abalou os alicerces de toda a comunidade de Natal. Maria das Dores Silva tinha 42 anos e era casada há duas décadas com João Batista Silva, funcionário público que exercia funções como auxiliar administrativo na Câmara Municipal de Natal.
O casal tinha três filhos: Carlos Eduardo, de 18 anos, que trabalhava como ajudante numa oficina mecânica; Ana Cristina, de 15 anos, estudante do ensino secundário; e Pedro Henrique, de apenas 12 anos, ainda a frequentar o ensino básico. A família residia numa habitação modesta de três quartos na Rua das Flores, número 123.
Tratava-se de uma construção característica da década de 70, com um quintal nas traseiras e uma varanda na fachada principal. João Batista auferia um ordenado modesto, mas que chegava para prover ao sustento do agregado familiar. Maria das Dores era uma dona de casa exemplar, reconhecida em toda a vizinhança como uma mulher laboriosa, devota e inteiramente dedicada aos filhos. Levantava-se impreterivelmente às 5h30 da manhã para preparar o pequeno-almoço da família, punha a casa em ordem, lavava a roupa no tanque do quintal e dedicava-se a uma pequena horta onde cultivava coentros, cebolinho e pimentos.
Aos domingos, a família reunia-se para assistir à missa das 9 horas na igreja de Nossa Senhora da Apresentação, paróquia onde Maria das Dores integrava o grupo de mães e colaborava ativamente nos bazares de beneficência. Em 1989, Natal atravessava um período de forte expansão urbana. A cidade contava com cerca de 600.000 habitantes e o bairro de Cidade Alta era tido como uma zona de classe média-baixa, caracterizado por ruas calcetadas, casas geminadas e um comércio local bastante dinâmico.
O Brasil vivia os derradeiros anos da Nova República e o Estado do Rio Grande do Norte era governado por Geraldo Melo. Tratava-se de uma época em que as donas de casa ainda efetuavam as suas compras diariamente nas mercearias de bairro, dado que raras eram as famílias que dispunham de um frigorífico com capacidade para armazenar alimentos por um período alargado.
A comunidade de Cidade Alta pautava-se por uma forte união. Toda a gente se conhecia. As crianças brincavam na rua até ao cair da noite e as vizinhas punham a conversa em dia nos passeios, ao final da tarde. Maria das Dores era estimada por todos e não hesitava em estender a mão a qualquer vizinho que necessitasse, quer fosse emprestando um pouco de açúcar, tomando conta de uma criança adoentada ou levando uma refeição a quem passasse por dificuldades.
Na manhã do dia 15 de junho de 1989, Maria das Dores despertou, fiel ao seu hábito, às 5h30 da manhã. Preparou café com leite para a família, fritou ovos e aqueceu o pão francês que havia adquirido na padaria na véspera. João Batista saiu para o trabalho às 7h15 da manhã. Carlos Eduardo dirigiu-se à oficina às 7h30, Ana Cristina partiu para a escola às 7h45 e Pedro Henrique às 8 horas em ponto.
Após a saída de todos, Maria das Dores lavou a loiça do pequeno-almoço, varreu a casa e fez as camas. Por volta das 7h50, trocou umas palavras com a D. Francisca, a sua vizinha do lado direito, debruçadas sobre o muro baixo que demarcava as propriedades.
“Bom dia, comadre Francisca. Como passou a noite?” indagou Maria das Dores enquanto estendia alguma roupa no estendal.
“Olá, Maria. Passei bem, graças a Deus. Vais ao mercado hoje?” retorquiu a D. Francisca.
“Vou, sim. Preciso de comprar carne para o almoço e umas coisitas que fazem falta. O João pediu-me para lhe trazer daquela mortadela de que ele tanto gosta.”
“Então, vai com Deus, minha filha. Se trouxeres alguma coisa da quitanda do Sr. António, avisa-me que eu acerto as contas contigo mais tarde.”
Este viria a ser o último diálogo que alguém manteve com Maria das Dores Silva. Exatamente às 8 horas, transpôs a porta de casa, munida da sua carteira castanha de napa e de um saco das compras de tecido azul adornado com flores amarelas. Usava um vestido cor-de-rosa pálido, sandálias rasas pretas e um pequeno crucifixo dourado ao peito, presente de João Batista por ocasião do casamento.
O seu destino era o mercado de São José, situado na Rua Grande, a uns meros seis quarteirões da sua residência. Um trajeto que conhecia de cor e salteado, percorrendo-o pelo menos três vezes por semana há mais de dez anos. O itinerário não oferecia complexidade: descer a Rua das Flores, virar à esquerda para a Rua dos Estudantes, prosseguir em frente até à Praça da Bandeira e virar à direita em direção à Rua Grande.
Várias pessoas testemunharam a sua passagem naquela manhã. A D. Carmen, dona da padaria da esquina, fez-lhe um aceno à sua passagem. O Sr. Joaquim, o sapateiro, também a saudou da porta da sua oficina. Os relatos foram unânimes em afirmar que aparentava normalidade, tranquilidade, caminhando ao seu ritmo habitual. Contudo, a partir do instante em que Maria das Dores dobrou a esquina da Rua dos Estudantes com a Praça da Bandeira, ninguém mais a avistou.
Evaporou-se como se a terra se tivesse aberto para a engolir. Se está a apreciar este caso, por favor, subscreva o canal e ative o sino de notificações para não perder mais histórias como esta. Quando o relógio marcou as 11 horas da manhã e Maria das Dores ainda não havia regressado, João Batista começou a inquietar-se.
Por norma, as compras não lhe tomavam mais de uma hora, após a qual regressava para confecionar o almoço. Ligou para casa durante a pausa laboral, mas do outro lado da linha, obteve apenas o silêncio. Ao meio-dia, Ana Cristina regressou da escola e deparou-se com a casa deserta. Achando estranha a ausência da mãe, telefonou ao pai para a Câmara Municipal.
“Pai, a mãe não está em casa e o almoço não está feito. Isto nunca aconteceu,” relatou Ana Cristina, com uma voz carregada de apreensão.
João Batista abandonou o local de trabalho de imediato e rumou a casa. Encontrou Ana Cristina e Pedro Henrique a aguardarem-no na sala, ambos visivelmente agitados. Carlos Eduardo chegou da oficina uns minutos volvidos. A família deu início a uma busca sôfrega.
O primeiro local a ser batido foi o mercado de São José, com o intuito de apurar se alguém teria avistado Maria das Dores. Interrogaram todos os lojistas que com ela privavam: a D. Rute da quitanda, o Sr. António do talho, a D. Severina da loja de tecidos. Ninguém lhe pusera a vista em cima naquela manhã. João Batista e os filhos refizeram o trajeto entre a habitação e o mercado, inquirindo todo aquele que com eles se cruzava.
Bateram à porta de hospitais, centros de saúde e até mesmo da morgue da cidade. Nada. Maria das Dores tinha simplesmente desaparecido. No dia que se seguiu, 16 de junho, João Batista formalizou o desaparecimento na esquadra de pessoas desaparecidas de Natal. O inspetor Marcelo Fernandes tomou o caso a seu cargo e deu início a uma investigação exaustiva.
As diligências iniciais passaram por inquirir todos os vizinhos, lojistas e potenciais testemunhas que pudessem ter avistado Maria das Dores. As autoridades policiais efetuaram igualmente uma triagem dos registos hospitalares de toda a área metropolitana de Natal, englobando Parnamirim e São Gonçalo do Amarante.
“Isto é assaz bizarro,” confidenciou o inspetor Fernandes a João Batista. “Um ser humano não desaparece desta forma, sem deixar rasto. Ela sofria de algum problema de saúde, tinha algum diferendo a nível familiar ou com os vizinhos?”
João Batista afiançou que a esposa gozava de boa saúde, sem antecedentes de patologias mentais ou físicas de relevo. O matrimónio era harmonioso, isento de desavenças de maior, e a ela não se lhe conheciam inimizades.
Ao longo dos primeiros meses de averiguações, as autoridades equacionaram diversas teorias. A premissa inaugural assentava na hipótese de Maria das Dores ter sido vítima de um acidente e sofrido perda de memória. Os hospitais de toda a região voltaram a ser contactados, abarcando as cidades de João Pessoa, na Paraíba, e Recife, em Pernambuco. A segunda linha de investigação ponderava a hipótese de rapto. Se bem que a família Silva não detivesse avultados recursos financeiros para fazer face a um pedido de resgate, afigurava-se plausível que os meliantes se tivessem equivocado quanto à sua condição económica.
Contudo, não foi formulada qualquer exigência de resgate. Uma terceira via admitia a possibilidade de Maria das Dores ter encetado uma fuga por vontade própria. O inspetor Fernandes esmiuçou esta teoria, escrutinou as contas bancárias, dialogou com familiares afastados noutros Estados e encetou buscas por indícios que apontassem para o planeamento de uma fuga.
Sem sucesso.
“Ela não se fez acompanhar de peças de vestuário adicionais, documentos ou de uma quantia monetária que suplantasse o necessário para as compras,” esclareceu o inspetor à família. “Tal constatação torna a hipótese de fuga voluntária altamente improvável.”
A investigação conheceu um recrudescimento quando um indivíduo em situação de sem-abrigo declarou ter presenciado uma mulher, cujas características se coadunavam com a descrição de Maria das Dores, a ser coagida a entrar num veículo de cor azul na manhã do seu desaparecimento.
No entanto, quando as autoridades diligenciaram no sentido de inquirir novamente a testemunha, esta havia-se esfumado da zona. Os meses sucediam-se sem o vislumbre de qualquer pista sólida. A família Silva estipulou uma recompensa no valor de mil cruzados novos, uma quantia de monta para a época, em troca de informações que conduzissem a Maria das Dores. Cartazes exibindo a sua fotografia foram afixados um pouco por toda a cidade de Natal e nas localidades limítrofes.
João Batista não deitou a toalha ao chão. Em todos os fins de semana, acompanhado pelos filhos, encetava buscas na esperança de encontrar Maria das Dores. Percorreram bairros de lata recônditos, encetaram diálogos com indivíduos em situação de sem-abrigo e visitaram feiras em cidades do interior. Alimentavam a esperança de a encontrar com vida algures, talvez desorientada ou a braços com perturbações de memória.
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Carlos Eduardo contraiu matrimónio em 1993, união da qual nasceram dois filhos. João Batista optou por não voltar a casar. Em todas as noites, mantinha a luz da varanda acesa, na esperança de ver Maria das Dores transpor a porta de casa. O seu guarda-roupa permaneceu intocado e os seus objetos de uso pessoal foram conservados com exatidão nos locais onde ela os deixara. A comunidade de Cidade Alta também não deixou cair no esquecimento a memória de Maria das Dores.
Ano após ano, no dia 15 de junho, a D. Francisca encarregava-se de organizar uma missa por intenção de Maria das Dores na igreja de Nossa Senhora da Apresentação. O anseio de a encontrar com vida, ou de, no mínimo, a família obter um desfecho que explicasse o sucedido, permanecia latente. Em 1995, decorridos seis anos sobre o seu desaparecimento, as autoridades receberam uma denúncia anónima que dava conta da presença de uma mulher, a viver na condição de pedinte em Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte, e cujas características iam ao encontro da descrição de Maria das Dores.
João Batista e Carlos Eduardo empreenderam de imediato uma viagem até Mossoró, apenas para concluírem que se tratava de um equívoco. Episódios análogos repetiram-se com o passar dos anos. Em 1997, foi referenciada uma mulher a padecer de amnésia em Campina Grande, na Paraíba. Em 1999, o alerta recaiu sobre uma mulher avistada numa feira em Caruaru, em Pernambuco. Revelaram-se todas pistas infrutíferas.
Durante todo este período, uma vizinha da família Silva distinguia-se por um comportamento peculiar. A D. Lúcia Santos habitava a residência confinante à da família Silva, do lado oposto da rua. Tinha 55 anos à data de 1989 e vivia de forma solitária desde o falecimento do seu esposo em 1985. A D. Lúcia pautava-se por ser uma mulher de trato reservado, de parcas palavras para com os vizinhos e cujas saídas de casa eram uma raridade.
A sua subsistência dependia de uma parca pensão de sobrevivência, levando um estilo de vida modesto. A sua casa encontrava-se invariavelmente fechada, com as janelas resguardadas por cortinados e um portão de grande envergadura a obstruir a visão para o quintal. O aspeto que suscitava maior estranheza residia no facto de a D. Lúcia deter conhecimento de pormenores atinentes ao desaparecimento de Maria das Dores que não haviam sido objeto de divulgação pública.
Em conversas informais com os vizinhos, tecia comentários do tipo:
“A pobre da Maria deve ter sofrido os horrores, ou, pelo menos, agora já não padece mais.”
Quando instada a explicar a origem da sua convicção na morte de Maria das Dores, a D. Lúcia contornava invariavelmente o assunto ou atribuía a afirmação a uma mera intuição.
Apesar de alguns vizinhos acharem a sua atitude insólita, ninguém nutriu desconfianças sérias a seu respeito. Em março de 2003, passados 14 anos desde o sumiço de Maria das Dores, a D. Lúcia Santos, à data com 69 anos, foi internada no Hospital Walfredo Gurgel, em consequência de problemas cardíacos de elevada gravidade. O corpo clínico comunicou a Teresa Santos, sua sobrinha, que os dias da tia estavam contados.
Teresa era o único familiar chegado da D. Lúcia e residia em João Pessoa. Deslocou-se até Natal para prestar auxílio à tia naqueles que viriam a ser os seus derradeiros dias. Perante a perspetiva de um internamento prolongado da D. Lúcia, Teresa decidiu instalar-se na casa da tia em Cidade Alta. Foi nesse contexto que Teresa fez uma descoberta que viria a alterar o curso de toda a história.
No dia 22 de março de 2003, enquanto procedia a limpezas na casa da D. Lúcia, Teresa decidiu pôr em ordem o quarto situado nas traseiras da habitação, divisão que permanecia invariavelmente trancada à chave. A D. Lúcia havia-lhe facultado a chave, justificando que o quarto albergava meramente “velharias pertencentes ao meu falecido marido”. Ao abrir a porta, Teresa deparou-se com um cenário que desafiava qualquer lógica.
A totalidade do vestuário de Maria das Dores Silva encontrava-se ali, meticulosamente arrumado num guarda-roupa. Eram vestidos, saias, blusas, sapatos e até mesmo lingerie, peças que se apresentavam asseadas e em bom estado de conservação, como se tivessem sido sujeitas a lavagem num passado recente. Mas a surpresa não se ficava por ali. Dispostos sobre uma pequena mesa posicionada ao centro do quarto, repousavam objetos de uso pessoal de Maria das Dores: a sua carteira castanha de napa, o crucifixo dourado que exibia ao pescoço, uma pulseira em prata, oferta da sua filha Ana Cristina, e ainda o saco das compras azul com o padrão de flores amarelas que a acompanhava no dia em que desapareceu. Teresa entrou em estado de choque. Como era possível a tia deter na sua posse aqueles bens? Qual teria sido o destino de Maria das Dores? Sobre o tampo da mesa, jazia um caderno contendo uma carta manuscrita da autoria da D. Lúcia. O conteúdo da missiva desvelava uma verdade de tal modo hedionda que fez Teresa estremecer durante a leitura.
A confissão da D. Lúcia trazia a lume a verdade factual sobre o desfecho de Maria das Dores Silva. A motivação por detrás do crime assentava em premissas que ninguém lograria conceber: um ciúme patológico e uma inveja desmedida por uma vizinha que aparentava usufruir da vida idílica que a D. Lúcia sempre ambicionara. No seu testemunho escrito, a D. Lúcia confessava observar a família Silva há anos a fio, impelida pelo sentimento de inveja. Maria das Dores personificava, aos seus olhos, a mulher detentora de tudo aquilo de que ela própria fora privada: um marido extremoso, filhos dedicados e um núcleo familiar coeso.
Desde o decesso do seu cônjuge, a existência da D. Lúcia pautava-se pela solidão e pela amargura, fatores que potenciaram um ódio de estimação em crescendo por Maria das Dores. A carta relatava que, na manhã de 15 de junho de 1989, a D. Lúcia encontrava-se à janela quando avistou Maria das Dores a sair de casa para se deslocar às compras. Tomou a decisão de segui-la, sem qualquer premeditação aparente, movida tão-somente por um sentimento de ira irracional.
Ao ver Maria das Dores passar pela Praça da Bandeira, a D. Lúcia abordou-a, simulando uma indisposição.
“Ai, Maria, vale-me! Estou a sentir-me tão mal.”
Maria das Dores, cuja natureza prestável era por todos reconhecida, prontificou-se, no imediato, a prestar auxílio. A D. Lúcia queixou-se de dores no peito e solicitou a Maria das Dores que a acompanhasse até casa.
Dada a proximidade e o facto de serem conhecidas de longa data, Maria das Dores acedeu ao pedido sem hesitar. Encetaram juntas o caminho de regresso à Rua das Flores. Uma vez transposta a soleira da porta da casa da D. Lúcia, consumou-se um ato atroz. Na sua missiva, a D. Lúcia redigiu:
“Ao vê-la ali na minha sala de estar, a irradiar beleza, felicidade e envolta pelo amor da família, algo explodiu no meu íntimo.”
“Apropriei-me de um martelo que se encontrava sobre a mesa e desferi um golpe na cabeça dela. Ela caiu inanimada e não voltou a dar sinais de vida.”
A D. Lúcia assassinara Maria das Dores movida, pura e simplesmente, pela inveja e pelo ciúme. O pós-crime fê-la entrar em pânico, sem saber o que fazer com o cadáver. A solução que congeminou passou por sepultá-lo no quintal da sua residência, encobrindo-o com uma pequena horta que se apressou a cultivar.
No decurso daqueles 14 anos, a D. Lúcia preservou o guarda-roupa e os pertences de Maria das Dores, numa espécie de troféu com contornos macabros. Dedicava-se a lavar e a cuidar das peças de vestuário, como se nutrisse a crença de que Maria das Dores haveria de regressar para as reaver. Teresa dirigiu-se, de imediato, à esquadra de polícia para entregar a carta e os objetos. O inspetor Marcelo Fernandes, que liderara a investigação inicial e ainda ali exercia funções, ficou petrificado com a revelação.
A 25 de março de 2003, munidas de um mandado de busca e apreensão, as autoridades procederam a escavações no quintal da casa da D. Lúcia. Com o apoio do Instituto de Polícia Científica do Rio Grande do Norte, localizaram os restos mortais de Maria das Dores, exumados a uma profundidade de 1,5 metros, sob uma singela plantação de alfaces.
Os exames realizados pelo Instituto de Medicina Legal atestaram a causa da morte: traumatismo cranioencefálico infligido por um objeto contundente, cenário que encontrava total correspondência com a confissão da D. Lúcia. Confrontada com os factos no hospital, a D. Lúcia prestou confissão integral às autoridades. Declarou ter suportado o fardo da culpa durante 14 anos e expressou o seu alívio por, finalmente, poder trazer a verdade a público antes de sucumbir.
“Nutri, em permanência, um sentimento de inveja relativamente à Maria,” confessou a D. Lúcia ao inspetor Fernandes. “Ela era possuidora de tudo aquilo por que eu ansiava: uma família que lhe devotava amor, filhos que se preocupavam com ela, um marido leal. A minha condição era pautada pela solidão, pela amargura, pelo esquecimento. Naquele dia, a visão da sua felicidade fez-me perder o controlo sobre a raiva.”
A D. Lúcia foi objeto de acusação formal pela prática de homicídio qualificado por motivo fútil.
Não obstante, face ao caráter terminal do seu estado de saúde, acabou por falecer no hospital a 5 de abril de 2003. Tinham decorrido apenas duas semanas sobre a descoberta das ossadas de Maria das Dores, pelo que a D. Lúcia não chegou sequer a ser presente a tribunal. A elucidação dos factos inerentes ao desaparecimento de Maria das Dores Silva teve um impacto avassalador na comunidade de Cidade Alta.
Ao longo de 14 anos, as buscas haviam-se estendido a locais recônditos, quando, em abono da verdade, ela encontrava-se sepultada a uma distância de escassos 20 metros da sua própria morada. João Batista, agora com 66 anos, viu finalmente o enigma que envolvia o paradeiro da sua esposa dissipar-se. Muito embora a dor da perda se tenha agudizado, manifestou que a descoberta da verdade e a possibilidade de conceder a Maria das Dores um funeral digno lhe haviam restituído a paz.
“Durante a totalidade destes anos, alberguei, ininterruptamente, a esperança de a ver regressar a casa,” confessou João Batista por ocasião do funeral. “Neste momento, posso, ao menos, ter a certeza de que o seu sofrimento foi breve e tenho um local no cemitério para a visitar.”
Os descendentes de Maria das Dores exteriorizaram, igualmente, sentimentos ambivalentes que transitavam entre o alívio e a indignação. Ana Cristina, à data com 30 anos e já casada, partilhou o seu desabafo:
“É de uma atrocidade ímpar tomar conhecimento de que a nossa mãe pereceu às mãos de uma pessoa que integrava o nosso círculo de conhecimentos e merecia a nossa confiança.”
“A D. Lúcia esteve presente nas nossas diligências de busca e nas missas celebradas por alma da nossa mãe. Como terá sido capaz de manter semelhante farsa durante tanto tempo?”
Pedro Henrique, agora com 26 anos, complementou:
“Aquilo que mais me repugna é a causa subjacente: a nossa mãe foi morta porque alguém se sentiu corroído pela inveja da nossa família. Trata-se de um aspeto que a minha mente nunca logrará assimilar.”
O caso mereceu grande destaque na imprensa nacional e despoletou debates centrados na problemática da saúde mental e nos riscos inerentes à inveja e ao isolamento social. Profissionais da área da psicologia aventaram a hipótese de a D. Lúcia sofrer, em alta probabilidade, de patologias do foro psiquiátrico não diagnosticadas, quadro que terá conhecido um agravamento decorrente da solidão e de um processo de luto mal resolvido, na sequência da perda do marido.
O bairro de Cidade Alta sofreu uma transformação indelével. A casa da D. Lúcia foi objeto de transação imobiliária por parte da família e, anos mais tarde, votada à demolição. No terreno onde a habitação esteve edificada, foi erigido um pequeno memorial dedicado à memória de Maria das Dores Silva. O funeral de Maria das Dores teve lugar no cemitério do Alecrim, em Natal, a 10 de abril de 2003.
As exéquias fúnebres contaram com a presença de centenas de pessoas, entre as quais se contavam vizinhos, lojistas e populares que se haviam associado às buscas no decurso daqueles longos anos. Na tranquilidade da eternidade, onde não subsistem lugar para a dor nem para o sofrimento, Maria das Dores Silva alcançou o derradeiro repouso, libertando-se em definitivo da violência que cerceou a sua passagem terrena. A família reconforta-se na crença de que a alma desta mulher inocente se encontra agora em paz, e de que, num tempo futuro, se dará o reencontro com todos aqueles que lhe devotaram amor nesta vida.
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