A Sombra da Ala M: O Mistério de Eduardo Borges
Trabalho no cemitério municipal de Paranaguá desde o ano de 1999. São, portanto, vinte e sete anos dedicados a caminhar entre o silêncio dos que já partiram e a dor dos que ficaram. Você deve imaginar que, depois de tanto tempo a conviver diariamente com a morte, com as covas abertas e as lápides frias, nada mais tenha a capacidade de assustar um homem como eu. A rotina cria uma espécie de carapaça, uma insensibilidade necessária para que possamos almoçar depois de enterrar uma criança ou dormir tranquilos depois de fechar um jazigo antigo. Mas o que aconteceu em 2015 mudou tudo. Quebrou essa carapaça. Eu não apenas senti algo; eu vi. E se você acha que sabe o que acontece atrás dos portões de ferro de um cemitério quando o sol se põe e os portões se fecham, prepare-se, porque o que eu vou te contar agora, eu nunca vi nada igual em quase três décadas de profissão.
O meu nome é Carlos Eduardo Silva, tenho 52 anos e sou, atualmente, o funcionário mais antigo em atividade no cemitério municipal de Paranaguá. Já vi muita coisa nesse tempo todo — choro de viúvas, brigas por herança na beira da cova, rituais estranhos deixados nas encruzilhadas — mas tem coisas que a gente nunca esquece. Tem coisas que marcam a gente para o resto da vida, como uma cicatriz na alma. Vou contar uma história que aconteceu comigo, que começou lá atrás, no ano de 2002. Já faz mais de vinte anos, mas eu lembro de cada detalhe, de cada cheiro, de cada sensação, e às vezes, até hoje, isso me faz perder o sono nas noites mais silenciosas.
Tudo começou no final de um enterro específico, o enterro de um homem chamado Eduardo Borges. Lembro-me bem que era um dia de semana comum, com aquele sol pálido de fim de tarde. A gente estava terminando o serviço, jogando a última camada de terra e fechando o túmulo dele com a laje de concreto. Trabalho normal, braçal, nada de diferente da rotina. Ou pelo menos era para ser assim. Mas, retrospectivamente, percebo que tinha algo estranho naquele enterro. Eu não percebi na hora, talvez pelo cansaço, talvez pelo hábito. Só fui entender a dimensão daquilo depois, quando as coisas inexplicáveis começaram a acontecer.
O enterro foi tranquilo demais. Calmo demais. Pois é, a família estava lá, claro, umas dez ou quinze pessoas vestidas de preto, mas o silêncio era pesado, denso, quase palpável. As pessoas olhavam para o caixão de madeira envernizada descendo à cova, mas não era aquela tristeza desesperada de perda, nem o alívio de quem vê um sofrimento acabar. Era outra coisa. Era como se tivessem que estar ali por obrigação social, mas não quisessem, como se houvesse um desconforto coletivo, uma vontade de virar as costas e correr. Eu e o outro funcionário, enquanto limpávamos as pás, comentamos depois:
“Que enterro esquisito, né? Parece que ninguém sentia falta do defunto.”
Os primeiros dias depois do enterro do tal Eduardo Borges foram aparentemente normais. A gente voltou para a rotina de varrer as folhas, caiar os meios-fios e abrir novas covas. Mas, sutilmente, eu comecei a sentir uma coisa diferente no ar. Não sei explicar direito com palavras lógicas. Era como se o cemitério tivesse mudado a sua vibração. O ar parecia mais pesado, mais espesso, difícil de respirar em certos cantos.
Aí começou a história que mudou tudo e que foi o primeiro aviso do que estava por vir. Foi umas duas semanas depois do enterro do Eduardo Borges. A gente sempre se encontrava de manhã cedo na sala dos funcionários, um cômodo pequeno com cheiro de café velho e armários de metal enferrujados. Era a hora sagrada da troca de turno. O vigia da noite estava terminando o seu plantão e a gente da manutenção estava chegando para trabalhar.
O vigia naquela época era um cara chamado Roberto. Trabalhava aqui há uns cinco anos, um sujeito boa praça, tranquilo. A gente sempre conversava sobre tudo: falava do campeonato de futebol, reclamava das esposas, falava das dificuldades da vida. Às vezes, ele contava rindo que algum maluco ou adolescente bêbado tinha tentado pular o muro para entrar no cemitério de madrugada para fazer graça. Mas naquele dia, a atmosfera na sala era diferente.
A gente entrou na sala rindo de alguma piada, e o Roberto estava sentado num banco de madeira, imóvel. Parecia cansado, mas não era cansaço de sono. Era um cansaço de alma, muito profundo. E tinha algo no rosto dele que me fez parar de rir na hora. Dava para ver que ele não estava bem. Ele estava com a cara branca, pálida como cera, e os olhos meio arregalados, fixos no nada, como se tivesse visto algo que os olhos humanos não deveriam ver.
“Bom dia, Roberto. Tudo certo?”, eu perguntei, colocando a minha mochila no armário, tentando quebrar o gelo.
Ele demorou um pouco para responder. Parecia que a mente dele estava longe, ou presa em algum momento da noite anterior. Só ficou olhando para a gente, com aquele olhar vazio. Depois, suspirou fundo, um som trêmulo, e disse:
“Aconteceu uma coisa essa noite, Carlos.”
Nós paramos o que estávamos fazendo e prestamos atenção. O Roberto não era de inventar moda. Ele começou a contar. Disse que estava fazendo a ronda de rotina lá pelas 3:15 da manhã. Tudo estava silencioso, como sempre fica de madrugada num cemitério — aquele silêncio absoluto onde até o som dos nossos passos parece um estrondo. Aí, ele ouviu um som estranho. Parecia vir da Ala M, uma das partes mais antigas e arborizadas do cemitério. Um barulho que ele não conseguia identificar direito. Não era vento balançando as árvores, não era bicho correndo no mato, era outra coisa. Um som humano, mas não exatamente.
Ele pensou, logicamente, que alguém tinha pulado o muro sem ele ver. Isso acontece às vezes. Gente bêbada, vândalos, ou algum maluco querendo fazer rituais. Então, ele fez o procedimento padrão: pegou a lanterna pesada de metal e foi ver o que era.
Quando começou a se aproximar da Ala M, a luz da lanterna, que estava com pilhas novas, começou a ficar fraca, amarelada. Ele disse que bateu na lateral da lanterna, pensando que era algum mau contato, mas não resolveu. A luz ia morrendo aos poucos. E foi aí, na penumbra, que ele viu.
Tinha alguém lá.
Parecia um homem parado entre os túmulos de mármore. Mas tinha algo estranho na figura. O Roberto, ao nos contar, gaguejava, não conseguia explicar direito a física da coisa. Disse que a figura estava parada, estática, mas era como olhar para alguém através de uma janela embaçada em dia de chuva, ou como se a figura fosse feita de fumaça densa. Não tinha contornos definidos.
Ele disse que tentou manter a postura de autoridade e chamou:
“Ei, senhor! O cemitério já está fechado! O senhor não pode ficar aqui!”
A figura não respondeu. Não se mexeu um milímetro. Só ficou ali, parada, emanando uma presença que fazia o ar ficar gelado. Então, o Roberto resolveu se aproximar mais. Ele tinha que tirar a pessoa dali, era o trabalho dele, a responsabilidade dele. Mas quando ele deu mais uns passos decididos na direção do vulto, a lanterna apagou completamente. Morreu.
Por um segundo, ou talvez uma eternidade, ficou tudo escuro. Um escuro total, sem lua, sem estrelas, apenas o breu do cemitério. O coração dele disparou. Quando a luz da lanterna voltou a piscar e acendeu sozinha, segundos depois, não tinha mais ninguém lá. O facho de luz cortou a escuridão, iluminando as lápides e as cruzes, mas o espaço estava vazio.
Ele disse que procurou desesperado, rodou a lanterna para todos os lados, andou pela Ala M inteira, olhou atrás dos túmulos grandes, subiu nas árvores com o foco de luz, olhou em todo canto. Nada. A pessoa tinha sumido. Evaporado. Não tinha para onde correr, os muros eram altos e distantes, não tinha como sair dali tão rápido sem fazer barulho de passos no cascalho, mas tinha sumido.
Ele terminou de contar a história e ficou olhando para a gente, com as mãos tremendo levemente sobre os joelhos, esperando a reação. A sala, infelizmente, explodiu em risadas. O ser humano tem essa mania de rir do que tem medo ou do que não compreende.
“Ah, Roberto, tá de brincadeira com a gente!”, disse um colega.
“Fantasminha camarada? É, deve ter bebido ontem antes do turno, hein?”, outro funcionário gritou, dando um tapa nas costas dele.
Todo mundo riu alto, tentando afastar o clima pesado. Acharam que era piada, que o Roberto estava inventando história de pescador para assustar a gente no começo do dia. Mas eu não ri. Eu olhei para o rosto dele, fixamente, e vi que ele não estava rindo. Nem um sorriso amarelo. Os olhos dele não mentiam. Ele tinha visto alguma coisa. Alguma coisa que tinha assustado ele de verdade, no fundo da alma. Um homem feito, calejado, que trabalha a noite inteira sozinho num cemitério há anos não se assusta fácil com sombras ou gatos vadios. Mas ele estava aterrorizado.
Eu não ri. Só fiquei olhando para ele e vi o medo cru. Era medo de verdade.
“Pode rir, pessoal”, ele disse, levantando-se devagar, pegando a sua marmita vazia. “Podem rir à vontade. Mas eu vi o que eu vi.”
Ele pegou a mochila dele, colocou nas costas e foi embora sem falar mais nada, sem se despedir como de costume. A gente continuou a brincadeira mais um pouco, mas quando todo mundo saiu da sala para pegar as ferramentas e ir trabalhar, ficou aquela coisa no ar. Aquele clima estranho, aquela dúvida suspensa, como se no fundo ninguém tivesse certeza absoluta se era piada ou não.
Eu fui fazer o meu trabalho de capina, mas o dia inteiro fiquei pensando no que o Roberto tinha contado e o que podia ser aquilo. Na época eu não sabia, era ignorante sobre essas forças, mas eu ia descobrir da pior forma possível. As coisas estavam apenas começando.
Os meses foram passando, arrastados. A história do Roberto virou uma lenda interna, uma piada recorrente entre a gente. Toda vez que alguém ia trabalhar na Ala M, os outros brincavam pelo rádio ou gritavam de longe:
“Cuidado com o fantasma, hein! Não esquece a lanterna e o alho!”
Esse tipo de coisa a gente ria. Mas o Roberto não achava graça nenhuma. Ele continuava trabalhando, porque precisava do emprego, mas mudou. Ficou um homem mais calado, mais fechado, introspectivo. O brilho no olhar tinha sumido.
Aí começaram a acontecer outras coisas inexplicáveis com outras pessoas. Primeiro foi com o Seu Alberto, um senhor antigo de casa. Ele estava trabalhando na Ala M, fazendo a manutenção e limpeza num túmulo de granito. Era meio-dia, sol a pino, céu azul, nada de clima de terror. De repente, ele largou tudo e voltou para a sala dos funcionários, cambaleando. A cara dele estava branca como papel.
“Que foi, Seu Alberto?”, eu perguntei, correndo para ampará-lo.
“Comecei a passar mal, Carlos”, ele disse, sentando-se com dificuldade e colocando a mão na testa. “Uma dor de cabeça forte, terrível. E do nada. Não aguentei, as pernas falharam e tive que parar.”
A gente achou que era insolação, o sol estava castigando. Calor forte, falta de água, pressão baixa, essas coisas normais da idade. Mas ele jurou, com convicção, que não era isso. Disse que a dor veio de repente, como uma martelada, quando ele estava bem no meio da Ala M, perto de um certo túmulo. Era como se alguém tivesse apertando com força a cabeça dele com um torno mecânico.
Algumas semanas depois, foi a vez da Dona Ana. Ela trabalhava na limpeza e conservação dos jardins. Mesma coisa. Passou mal na Ala M, com uma enxaqueca súbita, tontura labiríntica e um mal-estar gástrico. Teve que ir embora mais cedo, carregada.
Aí começou a aparecer mais gente com os mesmos sintomas, sempre, invariavelmente, na Ala M. A dor de cabeça súbita e intensa, a tontura repentina que fazia o mundo girar, aquela sensação ruim no peito que obrigava as pessoas a pararem o que estavam fazendo e saírem dali. Não era todo dia, não era matemático, mas quando acontecia, era sempre no mesmo lugar geográfico.
E não era só com a gente, funcionários. Os visitantes também começaram a reclamar. A administração do cemitério começou a receber ligações estranhas. Gente dizendo que tinha passado mal quando foi visitar o túmulo de um parente naquela ala. Uma senhora ligou furiosa dizendo que desmaiou lá e ninguém ajudou. Outra disse que o filho dela, uma criança, começou a vomitar do nada sempre na mesma área e melhorava assim que saía do portão.
A coisa começou a se espalhar como uma doença. Era como se aquilo, seja lá o que fosse — energia, entidade, gás — estivesse crescendo, tomando conta do terreno aos poucos. Primeiro era só a Ala M. Depois começou a aparecer gente passando mal na Ala L, que fica do lado, depois na Ala N. Como uma mancha de óleo que ia crescendo devagar na água.
Mas o pior, o que realmente embrulhava o estômago, foram os dias em que aquele cheiro aparecia. Nossa Senhora, aquilo era de matar. Aconteceu duas vezes marcantes em todo esse tempo.
A primeira vez foi uns seis meses depois do enterro do Eduardo Borges. Cheguei de manhã cedo para o trabalho, o orvalho ainda na grama, e senti logo na entrada um odor insuportável, denso, muito forte. Muito ruim. Parecia cheiro de bicho morto, de carniça exposta ao sol, mas pior, muito pior. Tinha um fundo químico, algo podre e adocicado ao mesmo tempo. Era um cheiro que dava ânsia de vômito imediata. Todo mundo sentiu. Visitantes reclamaram tapando o nariz com lenços. A administração ficou desesperada, com medo de fiscalização sanitária.
“Tem que descobrir o que é isso agora!”, o chefe falou, nervoso.
A gente achou, com razão técnica, que era algum túmulo com problema de vedação. Às vezes a terra cede com a chuva, aparecem rachaduras no concreto, o gás vaza. O corpo fica exposto e dá cheiro. Já aconteceu antes, é natural do processo biológico. A gente sabe lidar com isso. Fizemos hora extra naquele dia, eu e mais dois funcionários experientes. Passamos o dia inteiro verificando túmulo por túmulo na área afetada. Olhamos tudo. Terra, estrutura de alvenaria, tampas de granito, rejuntes. Procuramos rachadura, buraco de bicho, qualquer sinal de problema.
Nada. Absolutamente nada.
Não tinha nada errado fisicamente. Nenhum túmulo com problema, nenhuma explicação lógica. E o mais bizarro: no dia seguinte, quando chegamos, aquele cheiro podre tinha sumido completamente. O ar estava limpo, com cheiro de terra molhada e flores, como se o odor nunca tivesse existido.
A segunda vez foi uns dois anos depois. Mesma coisa. Cheiro de decomposição impressionante, horrível, que impregnava na roupa. A gente verificou tudo de novo, reviramos o cemitério. Nada. Ninguém conseguia explicar de onde vinha aquele cheiro fantasma, por que aparecia do nada e sumia assim. Não fazia sentido nenhum na nossa cabeça.
Mas a gente continuava trabalhando. Cemitério não para, a morte não tira férias. E o Roberto… ele continuou no turno da noite, mas estava diferente, muito diferente do homem que conhecemos. Ele não falava mais da história que tinha visto, não contava mais piadas, não interagia. Chegava de manhã para passar o bastão, trocava de turno e ia embora rápido, de cabeça baixa, sem papo, sem brincadeira, nada. Os olhos dele tinham mudado permanentemente. Parecia cansado o tempo todo, olheiras profundas, com medo o tempo todo, olhando por cima do ombro, como se estivesse carregando um peso invisível nas costas.
Um ano depois daquela noite fatídica que ele viu a figura, o Roberto pediu demissão. Não avisou nada antes, não cumpriu aviso prévio. Chegou um dia, foi na administração, entregou o uniforme e pediu para sair. Disse que tinha arrumado outro emprego melhor. A gente tentou falar com ele, curiosos.
“Que emprego, Roberto? Onde você vai trabalhar? Vai ganhar mais?”
Ele não respondia direito, evasivo, só dizia que estava saindo e que precisava mudar de ares.
No último dia dele, eu tentei conversar uma última vez. A gente estava sozinho na sala dos funcionários enquanto ele limpava o armário.
“Roberto…”, eu comecei, baixando o tom de voz. “O que aconteceu mesmo naquela noite? Pode me contar a verdade agora que vai embora?”
Ele parou de guardar as coisas. Virou-se e me olhou. Os olhos dele estavam fundos, cansados de quem não dorme em paz. Ele abriu a boca para falar, hesitou, fechou. Ficou em silêncio uns segundos, pesando as palavras. Depois disse só isso, com uma seriedade que me gelou:
“Carlos, se você um dia ver alguma coisa estranha aqui, sai. Não fica. Não tenta entender, não tenta ser herói. Só sai. Corre.”
Ele pegou a mochila velha e foi embora. Nunca mais voltou. A gente tentou falar com ele depois de um tempo, ligamos para o número dele, mandamos mensagem, perguntamos aos conhecidos. Nada. O Roberto simplesmente sumiu do mapa, como se tivesse evaporado igual à figura que ele viu. Na época a gente achou estranho, mas deixou para lá. Cada um com sua vida, né? A vida segue.
Mas hoje eu entendo. Hoje eu sei. O Roberto tinha visto algo, algo que assustou ele de verdade e que o estava consumindo. A fuga dele era um aviso. Um aviso grande, claro, gritado na nossa cara. Mas ninguém acreditou. A gente não quis entender. Achou que era exagero de gente medrosa. Se eu tivesse prestado atenção no aviso do Roberto, muita coisa poderia ter sido diferente. Eu poderia ter evitado o que aconteceu comigo. Mas ninguém prestou atenção.
Os anos foram passando. 2003, 2004, 2005… uma década se foi. Os enterros continuavam, o trabalho continuava, a Ala M continuava dando problema esporádico, gente passando mal, aquele clima ruim, mas a gente se acostumou. Sabe como é? O ser humano se adapta. Quando uma coisa vira rotina, por mais bizarra que seja, você para de dar importância. Vira “coisa do lugar”.
Até que chegou o dia em que tudo mudou para mim. Era 2015. Fazia mais ou menos treze anos do enterro do Eduardo Borges. Eu já estava com 41 anos, mais velho, mais experiente. Naquele dia, eu tive que ficar até mais tarde. Uma família tinha pedido uma reforma urgente num túmulo na Ala S, que fica um pouco afastada. Era um serviço grande, revestimento, tinha que terminar naquele dia impreterivelmente. Então fiquei após o expediente.
Era por volta das 17:40 da tarde quando aconteceu. E foi aí, então, que eu entendi. Entendi o aviso do Roberto, entendi o medo dele, porque agora era a minha vez.
Eu estava trabalhando na reforma, concentrado, misturando massa. Serviço pesado. Tinha que trocar a tampa, consertar a estrutura lateral, limpar tudo. A família queria deixar bonito para o Dia de Finados que estava chegando. Trabalho demorado, suado, mas eu estava quase terminando. O sol já estava baixo, alaranjado no horizonte, criando sombras longas. O cemitério começava a ficar vazio, silencioso. Os visitantes tinham ido embora, os outros funcionários do dia também. Eu estava sozinho naquela quadra. Ou pelo menos era para estar.
De repente, senti algo. Uma presença. Sabe quando você sente, biologicamente, que tem alguém olhando para você? Aquela sensação física na nuca, aquele arrepio que sobe pelos braços, os pelos que se eriçam? Era isso. Só que mais forte. Muito mais forte e invasivo.
Pensei: “Não deve ser nada. O cemitério sempre dá essa sensação na gente, é sugestão.”
Já tinha sentido isso muitas vezes nesses anos todos, mas dessa vez a qualidade da sensação era diferente. Era pesada, maliciosa. A sensação não passava, ficava mais forte, como se algo estivesse bem atrás de mim, parado, respirando no meu pescoço, me olhando fixamente.
Continuei trabalhando, tentando focar na espátula e no cimento. Tentei ignorar, mas não conseguia. O coração começou a bater mais rápido, descompassado, as mãos começaram a suar frio, a pá escorregava. Aquela sensação só aumentava, como um grito silencioso de alerta.
Aí eu pensei: “Vou me virar. Tenho que olhar. Não vai ter nada, nunca tem. Vou olhar, vai estar vazio como sempre e vou rir de mim mesmo.”
Me virei devagar, com a pá na mão, esperando não ver nada além de túmulos e árvores.
Mas eu estava errado.
Tinha alguém ali.
Um homem. Parado a uns cinco metros de mim, entre duas lápides antigas, me olhando.
Meu coração parou por um segundo. Ele estava parado, totalmente estático, como uma estátua de cera. Não piscava, não se mexia com o vento, só olhava. O olhar dele era estranho, não era um olhar normal de uma pessoa viva curiosa. Era vazio, frio, sem brilho, opaco. Era como se ele estivesse me estudando, me analisando como um cientista analisa um inseto, tentando entender alguma coisa sobre mim. Eu nunca tinha visto um olhar assim antes em ser humano nenhum.
Fiquei ali, paralisado, segurando a pá como se fosse uma arma inútil, sem saber o que fazer. Meu corpo tinha travado, o instinto de fuga bloqueado. A sensação era horrível. Era como estar preso num pesadelo, paralisado, mas não tinha nada me segurando fisicamente. Era só aquele olhar magnético.
Uns segundos se passaram em silêncio absoluto. Pareceram horas.
Aí ele começou a andar. Devagar. Muito devagar. Passos lentos, cadenciados, mecânicos. Como se estivesse flutuando ou deslizando, me observando sem piscar enquanto se movia. Os olhos dele não saíam de mim, girando a cabeça para manter o contato visual.
Eu consegui, com muito esforço mental, voltar a me mexer. Respirei fundo, o ar tremendo nos pulmões.
“Calma, Carlos”, pensei. “É só um visitante perdido. Deve ter ficado depois do horário e está confuso. Só isso.”
Tentei falar, exercer minha função. A voz saiu trêmula, fina.
“O senhor… o senhor precisa de ajuda? O cemitério já vai fechar, senhor.”
Ele não respondeu. Não falou nada. A boca nem se moveu. Continuou andando na minha direção e passou. Passou do meu lado, bem perto. Perto demais. Senti um frio antinatural quando ele passou, como se uma porta de freezer tivesse sido aberta nas minhas costas. Um frio que doía nos ossos.
Ele continuou andando em direção à Ala M. Os passos lentos, o corpo meio rígido, sem olhar para trás. Uma sensação de medo primordial tomou conta de mim. Um medo que eu não conseguia explicar racionalmente. Era medo de algo que eu não entendia, algo que não pertencia àquele lugar, ou talvez pertencesse até demais.
Fiquei parado ali, vendo ele sumir na neblina que começava a se formar entre os túmulos da Ala M. O coração batendo forte na garganta, as mãos tremendo incontrolavelmente.
“Termina logo o serviço e vai embora, Carlos”, eu pensei, quase gritando mentalmente. “Termina e sai daqui agora!”
Voltei para o trabalho. As mãos tremiam tanto que quase derrubei a ferramenta no pé. Trabalhei rápido, muito rápido, de qualquer jeito. Não parei para caprichar, não olhei para trás. Só queria acabar logo e correr para a luz da rua.
Quando terminei, já eram quase sete horas da noite. O sol tinha se posto completamente, estava começando a escurecer de vez, aquela luz cinzenta e triste do crepúsculo. Juntei as ferramentas apressado e fui levar para guardar na sala de equipamentos, para depois me arrumar e ir embora correndo.
Comecei a andar. O caminho para a sala era pela Ala K, um corredor reto, e depois virava à esquerda. Caminho que eu fazia todo santo dia há anos. Conhecia de olhos fechados, cada buraco, cada pedra.
Andei, andei, andei… e quando olhei ao redor, para me orientar, o meu sangue gelou.
Eu não estava na Ala K. Eu não estava no caminho da saída.
Eu estava na Ala M.
Como eu tinha ido parar ali? Não fazia sentido geográfico. Eu conhecia aquele cemitério inteiro como a palma da minha mão. Não era possível me perder num trajeto reto. Mas eu estava lá, no coração da Ala M, sem saber como tinha chegado.
E o pior: eu estava parado, exatamente, bem do lado do túmulo de Eduardo Borges.
Meu corpo ficou gelado, as pernas ficaram fracas como gelatina. Olhei para o túmulo, a lápide de mármore cinza com o nome dele gravado em letras douradas que já descascavam: Eduardo Borges. 1960 – 2002.
“Sai daqui, Carlos. Sai agora!”, o meu cérebro gritava.
Tentei me mexer, dar um passo para trás, mas não consegui. Porque senti de novo aquela presença. Aquele frio absurdo. Aquela sensação de que algo estava colado em mim.
Virei devagar, tremendo, e ele estava lá.
Na minha frente. O mesmo homem. Parado, me olhando.
Dessa vez estava mais perto. Muito mais perto. Quase tocando o meu rosto.
Dava para ver o rosto dele com detalhes horríveis agora. Um rosto magro, chupado, olhos fundos com olheiras negras, a pele pálida e cerosa. Mas o pior eram os olhos. Aquele vazio infinito nos olhos. E o cheiro…
Meu Deus, o cheiro.
Era aquele odor insuportável que aparecia no cemitério esporadicamente. Aquela emanação pútrida de carne podre e enxofre. Mas agora estava muito mais forte, concentrado. Entrava pelo nariz, queimava as narinas, descia para a garganta como um gás tóxico, dava vontade de vomitar as entranhas.
A dor de cabeça começou instantaneamente. Uma dor forte, violenta, como se alguém tivesse martelando minha cabeça por dentro com uma marreta de ferro. Minha visão ficou turva de dor.
Aí veio a dor no corpo. Em cada parte do corpo. Nos braços, nas pernas, nas costas, no peito. Tudo doía. Uma dor insuportável, aguda, como se cada músculo estivesse sendo esmagado, torcido, rasgado.
Caí de joelhos no cascalho. As ferramentas caíram no chão com estrondo. Fiz barulho, tentei me apoiar, mas não conseguia me levantar. A dor era demais, paralisante.
E foi aí que começou o pior. A violação final. A voz.
Mas não era uma voz normal, acústica, não estava vindo de fora, da boca dele. Era de dentro. De dentro da minha própria cabeça. Pensamentos que não eram meus começaram a aparecer, a brotar na minha mente. Palavras que eu não estava pensando, frases estranhas, como se alguém tivesse colocado elas lá à força, plantado elas dentro do meu cérebro como parasitas.
“Foi você.”
A voz ecoava no meu crânio.
“Foi você.”
Eu tentava pensar, responder mentalmente: “Não! Não fui eu! O quê?”
“Do que você está falando? Por que fez isso?”, a voz insistia, acusadora, cheia de dor e raiva.
Eu pensava desesperado: “Eu não fiz nada! Eu não sei do que você está falando! Me deixa em paz!”
“Era para ser outra pessoa. Que outra pessoa? Você não pode fazer isso!”
As frases se atropelavam na minha mente.
“Eu não fiz nada! Eu juro! Eu não fiz nada!”
Eu tentava gritar com a boca, verbalizar para quebrar o feitiço, mas as palavras não saíam da minha garganta. Eu estava mudo. Tentava gritar, tentava responder, mas nada saía, só um grunhido sufocado. As palavras ficavam presas e aqueles pensamentos alienígenas continuavam vindo, sendo colocados dentro de mim, como se algo estivesse entrando na minha cabeça, forçando a entrada, arrombando a porta da minha consciência.
Senti, fisicamente, que algo estava tentando entrar no meu corpo. Tomar conta de mim. Invadir cada célula, cada parte de mim. Era uma sensação horrível de violação, de estupro da alma, de estar sendo tomado e possuído por algo que não era eu, algo sujo e desesperado.
A dor piorou. Muito pior. Dores que eu nunca tinha sentido na vida, que eu nem sabia que o corpo humano podia sentir. E junto com a dor, veio a emoção. A angústia era insuportável. Uma tristeza profunda, negra, um desespero sem fim, sem esperança. Era como se todo o sofrimento daquela coisa, anos de dor acumulada, tivesse caído em cima de mim de uma vez só. Não era só dor física. Era dor na alma, um vazio existencial, uma dor que não tinha nome em nenhuma língua humana.
Tentei gritar uma última vez, tentei pedir ajuda a Deus, a qualquer um, mas não conseguia. A voz não saía, o corpo não respondia, convulsionava no chão. As palavras continuavam martelando na minha cabeça, em loop:
“Foi você. Foi você. Foi você.”
Tudo começou a escurecer. A visão ficou embaçada, as dores ficaram distantes, como se eu estivesse me afastando do meu próprio corpo, sendo empurrado para fora. A última coisa que eu lembro nitidamente é de cair no chão frio, a terra úmida no meu rosto, do lado do túmulo de Eduardo Borges, e daquele olhar vazio da figura me encarando de cima.
Depois nada. Tudo ficou preto. O silêncio.
Acordei com a sensação de que alguém estava batendo na minha cabeça com um martelo pneumático. Uma dor forte, pulsante. Abri os olhos devagar, com dificuldade. Tudo estava meio embaçado, girando. Demorei uns segundos longos para entender onde eu estava.
Eu não estava mais na Ala M.
Eu estava na sala dos funcionários. Deitado no chão frio de cerâmica. O corpo todo dolorido como se eu tivesse sido atropelado por um caminhão, a boca seca com gosto de cobre, a cabeça latejando.
“Que sensação é essa?”, pensei. “O que aconteceu comigo?”
Tentei me lembrar. As imagens vieram em flashes violentos na minha cabeça. O homem pálido. A Ala M. O túmulo do Eduardo Borges. Aquela voz dentro da minha cabeça. As dores excruciantes. Mas estava tudo confuso, meio embaralhado, como um pesadelo febril que você não sabe direito se foi real ou se foi delírio.
Tentei me levantar. As pernas estavam fracas, o corpo pesado como chumbo. Consegui sentar, encostei na parede fria, respirei fundo tentando não vomitar. A dor de cabeça era terrível.
“Quem era ele?”, eu pensava. “Ou aquilo? O que era aquilo?”
As perguntas não paravam de vir. “Foi você? Por que fez isso? Era para ser outra pessoa.” O que aquilo queria dizer? Eu não entendia nada. Não fazia sentido nenhum para a minha vida.
De repente, a porta da sala se abriu com estrondo. Quase pulei de susto, o coração disparando.
Era o Marcelo, o vigia do turno da noite, que tinha substituído o Roberto anos atrás. Ele olhou para mim com a cara de espanto total, lanterna na mão.
“Carlos! Você tá bem?”, ele perguntou, visivelmente preocupado, correndo até mim.
“Eu… eu tô…”, respondi, mas a voz saiu fraca, rouca, irreconhecível.
“Rapaz, escutei uns gritos horríveis aqui dentro da sala! Pensei que tinha alguém te atacando, um bicho, sei lá. Vim correndo!”
“Gritos?”, pensei. Eu tinha gritado? Eu não lembrava de ter gritado. Ou tinha? Será que os gritos que eu ouvia na minha mente saíram pela minha boca?
“Que horas são?”, perguntei, confuso.
“Sete e meia da noite, Carlos. Você tá aqui desde que horas?”
Sete e meia. Eu tinha ficado apagado ou em transe por pelo menos meia hora.
“Eu tinha desmaiado…”, murmurei.
“Quanto tempo? Quanto tempo fiquei apagado?”, pensei. “Será que eu sonhei? Será que nunca estive na Ala M depois do trabalho? Será que vim direto para cá, passei mal de cansaço e foi tudo criação da minha cabeça?”
Mas as dores eram reais. O cansaço extremo era real. E aquela sensação… aquela sensação horrível de ter sido invadido, sujo, violado… isso também era real demais para ser sonho.
“Você quer que eu chame alguém? Uma ambulância? A polícia?”, o Marcelo perguntou, pegando o celular.
“Não, não… tô bem. Não chama ninguém. Só… só preciso de um pouco de água.”
Ele trouxe um copo de água gelada. A garganta estava seca, arranhando. A água ajudou a clarear as ideias, mas a dor de cabeça continuava pulsando atrás dos olhos. Fiquei ali mais uns cinco minutos em silêncio, tentando juntar as peças do quebra-cabeça, tentando entender a lógica, mas não conseguia. Estava tudo confuso demais, assustador demais.
“Vou embora, Marcelo”, disse, levantando-me com dificuldade, apoiando na mesa. “Obrigado pela água e pela preocupação.”
“Tem certeza, cara? Você tá pálido. Quer que eu te leve em casa? Posso pedir para o outro vigia cobrir.”
“Não precisa. Já passa. É só cansaço.”
Peguei minhas coisas, as mãos ainda trêmulas, e saí. O ar da noite parecia mais frio que o normal. Fui direto para o meu carro velho no estacionamento. Entrei, fechei a porta, tranquei. Fiquei ali sentado no escuro, segurando o volante com força, só respirando, tentando me acalmar, olhando para os portões do cemitério.
Dirigi para casa devagar, no piloto automático. A cabeça doía, o corpo doía, cada sinaleiro parecia brilhar demais. Cheguei bem, por milagre. Aquela noite não dormi um segundo. Fiquei deitado na cama, olhando para o teto escuro, pensando. Repassando tudo na cabeça mil vezes. Será que tinha acontecido mesmo? Ou foi tudo imaginação de uma mente cansada? Estresse?
No outro dia, estava de volta ao trabalho. Não podia faltar, precisava do dinheiro, tinha serviço para terminar. Mas estava exausto, com olheiras profundas. Parecia que não tinha dormido há dias, que tinha corrido uma maratona.
O dia todo fiquei pensando, distraído. Evitei a Ala M como se fosse radioativa. Fiquei longe dali, trabalhei em outras áreas, na entrada, na administração. Mas não conseguia parar de pensar. A curiosidade e o medo duelavam na minha mente.
Até que, no fim da tarde, criei coragem.
“Vou lá”, decidi. “Tenho que ir. Vou ver o túmulo do Eduardo Borges. Vou ver se tem alguma coisa diferente. Se foi tudo sonho, não vai ter nada, vai ser só pedra e terra. Se foi real… bem, aí eu vou saber.”
Caminhei até a Ala M, o coração batendo forte na garganta, as mãos suando frio novamente. Tinha medo do que ia encontrar, ou do que não ia encontrar. O cemitério estava calmo, silencioso.
Cheguei no túmulo do Eduardo. Parecia normal à primeira vista. A lápide cinza, as letras douradas, as folhas secas em volta. Fiquei ali parado, olhando, sentindo o vento.
“Foi sonho”, pensei, sentindo um alívio imenso. “Então foi só isso. Eu passei mal de estafa, desmaiei na sala e sonhei tudo baseado nas histórias do Roberto.”
Ia virar as costas para ir embora, encerrar o assunto, quando algo chamou a minha atenção na pedra.
Na lateral da lápide, na parte lisa do mármore, tinha algo. Uma mancha. Uma marca.
Me aproximei mais, abaixei para ver melhor, semicerrando os olhos.
Era uma marca nítida. Parecia… parecia uma mão. A impressão de uma mão humana. Cinco dedos longos marcados no mármore frio, como se alguém tivesse passado a mão ali com uma substância oleosa ou queimado a pedra. Não era sujeira de terra, não eram riscos de vandalismo com pedra ou faca. Era uma marca térmica, química, sei lá.
Passei o meu dedo na marca. Senti a textura diferente. Estava ali, real, física.
“Não foi sonho”, pensei, e o chão sumiu dos meus pés. “Não foi imaginação. Foi real. Aconteceu de verdade.”
Senti as pernas ficarem fracas de novo. Sentei no chão, ali mesmo, do lado do túmulo. Fiquei ali só olhando para aquela marca de mão, atordoado.
“O que eu faço agora?”, pensei. “Conto para alguém? Falo para o padre da capela? Para quem? A polícia? Mas falar o quê? Que algo entrou na minha cabeça e falou comigo? Que tem uma marca de mão numa lápide de 13 anos atrás? Iam achar que eu tinha enlouquecido, iam me internar.”
Fiquei ali muito tempo, só pensando, tentando entender a mensagem. Aí veio na minha cabeça, como uma onda, aquela angústia que eu tinha sentido durante o ataque. Aquela tristeza profunda, abissal. Lembrei que não era raiva, não era ódio maligno de demônio de filme. Era sofrimento. Era dor pura. Como se aquela alma estivesse sofrendo demais, como se estivesse presa num ciclo de tormento e confusão, como se não encontrasse paz e estivesse desesperada por ajuda.
“Eduardo Borges…”, falei baixo, olhando para o nome na lápide. “O que aconteceu com você, rapaz? O que fizeram com você? Por que tanta dor?”
Não tive resposta verbal, claro, apenas o vento nas árvores. Mas aquela sensação continuava ali, aquele peso no peito, aquele sofrimento emanando da terra.
E foi aí que eu decidi. Tomei uma atitude, talvez a única que um homem de fé simples como eu podia tomar.
“A única coisa que eu posso fazer é orar por você”, disse em voz alta para o túmulo. “Não sei o que aconteceu. Não sei por que você sofre tanto, nem o que você queria me dizer com aquelas acusações. Mas eu vou orar. Vou pedir para Deus te dar paz, para a luz te encontrar, para você encontrar descanso.”
Juntei as mãos, ali mesmo, ajoelhado na terra, e rezei. Rezei com fervor, com vontade. Pedi para ele encontrar paz, para ele parar de sofrer, para ser perdoado ou perdoar. Quando terminei a oração, senti algo diferente. Não sei explicar direito, mas foi físico. Era como se o ar em volta do túmulo tivesse ficado subitamente mais leve, menos denso. Como se aquele peso esmagador tivesse diminuído um pouco, como um suspiro de alívio.
Levantei, bati a terra dos joelhos. Olhei mais uma vez para a marca na lápide. Ainda estava lá. E eu sabia que sempre estaria.
“Vou voltar”, prometi para a pedra. “Sempre que puder, vou voltar aqui e orar por você, Eduardo.”
E foi o que eu fiz. E é o que eu faço até hoje, fielmente. Sempre que posso, no intervalo do almoço ou antes de ir embora, passo no túmulo do Eduardo Borges. Às vezes é uma vez por semana, às vezes duas, depende do serviço e da correria. Mas sempre vou. Levo flores frescas quando posso, limpo a lápide com cuidado, tiro as folhas secas e oro. Sempre oro.
Nunca soube o que aconteceu com ele em vida. Nunca descobri a história real da morte dele, por que ele sofre tanto, por que aquela alma não encontra paz, o que significavam aquelas perguntas sobre “ser outra pessoa”. Mas eu sinto o sofrimento dele diminuir aos poucos. Sinto a angústia, a dor, mas sinto que a prece ajuda. E isso é muito forte, muito real para mim.
A marca continua lá na lateral da lápide. Nunca sumiu. Chuva não apaga, sol não desbota, produtos de limpeza não tiram. Está ali, permanente. Um testemunho silencioso de algo que aconteceu, de algo que eu vi, de algo que eu vivi na pele.
Nunca vi nada assim antes. Em vinte e sete anos de cemitério, vi muita coisa triste, muita coisa feia, mas aquilo… aquilo foi diferente. Foi um contato real com o outro lado.
Por isso continuo orando. Continuo pedindo para ele encontrar calma, encontrar paz, encontrar descanso eterno. Não sei se as minhas orações de pecador ajudam muito, não sei se ele me ouve onde quer que esteja, mas é o que eu posso fazer. É a minha oferta.
Às vezes, quando estou lá sozinho, orando de olhos fechados do lado do túmulo, sinto aquela presença de novo. Mas agora é leve, sutil. Não é assustadora e violenta como foi naquele dia de 2015. É suave, como se ele estivesse ali do lado, ouvindo, agradecendo em silêncio.
O cemitério continua a sua rotina. A vida continua, ou melhor, a morte continua. Todo dia tem enterro, todo dia tem choro, todo dia tem trabalho braçal. Mas agora eu sei. Sei que tem coisas que a gente não entende com a lógica humana. Coisas que a gente não explica com a ciência. Coisas que estão muito além da nossa compreensão limitada.
E quando eu passo pela Ala M, olho para os túmulos enfileirados e penso: “Quantas histórias estão enterradas aqui? Quantos segredos não ditos? Quantos sofrimentos que ninguém sabe, esperando apenas alguém para ouvir?”
Trabalho no cemitério desde 1999. São vinte e sete anos. Nunca vi nada como aquilo antes e, sinceramente, espero nunca ver de novo. Mas se o Eduardo Borges precisar das minhas orações, eu vou estar lá. Porque algumas almas, perdidas na escuridão, precisam apenas de um pouco de luz e de alguém que se importe para encontrar a paz. E essa é a minha forma de ajudar.
E se você, que ouviu essa história, quiser ajudar também, deixe uma rosa nos comentários. Eu lembrarei de todos vocês quando for orar pelo Eduardo na próxima visita. Quem sabe, com a nossa fé unida, ele finalmente consiga descansar.