Na madrugada de 12 de julho de 2009, um personal trainer foi encontrado morto em Balneário Camboriú. O corpo de Caio foi achado em um quarto de um apartamento de luxo no centro da cidade. Ele tinha 25 anos, porte atlético e uma clientela seleta entre as mulheres mais ricas do litoral de Santa Catarina.
Naquela manhã de domingo, a faxineira que trabalhava no prédio notou que a porta estava entreaberta. Ela chamou o síndico. Juntos, eles encontraram a cena que mudaria a rotina daquele edifício de alto padrão. O rapaz jazia na cama, com múltiplos ferimentos perfurantes pelo torso e braços. Os lençóis brancos estavam encharcados de sangue.
Não havia sinais de arrombamento. Nenhum objeto de valor havia sido levado. O celular da vítima permanecia na mesa de cabeceira, e sua carteira estava intacta na cômoda. A polícia chegou às 9h. O detetive encarregado do caso, um veterano da divisão de homicídios de Balneário Camboriú, observou o apartamento atentamente.
O imóvel era espaçoso, decorado com móveis modernos e pinturas abstratas. Tudo indicava um padrão de vida incompatível com a renda de um personal trainer autônomo. Os peritos começaram a coletar evidências. Havia manchas de sangue no corredor que levava à porta de saída.
O objeto usado no crime foi identificado no local. Uma tesoura de aço inoxidável com cabo de plástico preto foi abandonada ao lado do corpo. O relatório preliminar indicou 17 perfurações concentradas no peito e no abdômen. Os investigadores revisaram as imagens das câmeras de segurança do edifício. As imagens revelaram informações cruciais.
Na noite anterior, às 22h, uma mulher havia entrado no prédio. Ela usava roupas escuras e óculos de sol, apesar do horário. Ela foi direto para o apartamento de Caio. Ela saiu às 3h da manhã, caminhando rapidamente com a bolsa pressionada contra o corpo. O porteiro reconheceu a visitante. Ela era uma visitante assídua daquele endereço. Ela vinha duas ou três vezes por semana, sempre à noite.
Ela chegava em um carro importado e nunca conversava com ninguém. Os moradores locais a reconheciam de vista, mas ninguém sabia seu nome. O processo de identificação levou apenas algumas horas. O carro estava registrado no nome de uma empresária do ramo da beleza. Denise tinha 53 anos, era casada há 30 anos e administrava uma rede de clínicas que faturava milhões.
Na comunidade local, ela era uma mulher discreta e respeitada. Para Caio, era algo completamente diferente. O que aconteceu naquele apartamento? Por que uma empresária de sucesso mataria um jovem com quem mantinha um caso há dois anos? A resposta estava escondida em mensagens de texto, extratos bancários e um segredo que Denise tentou proteger até o fim.
Denise nasceu em Blumenau, no interior de Santa Catarina, em 1956. Era filha de comerciantes alemães que administravam uma pequena loja de tecidos no centro da cidade. Ela cresceu em um ambiente conservador onde o trabalho e a discrição eram valores fundamentais. Casou-se com Marcos, um engenheiro civil que conheceu na faculdade de administração, quando tinha 23 anos. O casal mudou-se para Balneário Camboriú no início dos anos 1980.
A cidade ainda era uma vila de pescadores que começava a receber investimentos imobiliários. Denise identificou uma oportunidade no mercado de beleza. Com um pequeno empréstimo, ela abriu sua primeira clínica em 1985. O negócio prosperou junto com a cidade. Ao longo de duas décadas, Denise construiu uma rede com quatro unidades espalhadas pelo litoral.
Ela oferecia tratamentos faciais, procedimentos corporais e cirurgias plásticas em parceria com médicos renomados. A clientela incluía esposas de empresários, celebridades regionais e turistas de alto poder aquisitivo. O faturamento anual ultrapassava a casa dos milhões de reais. O casamento com Marcos era estável, mas distante. Ele passava a maior parte do tempo em canteiros de obras espalhados pelo estado.
Ela gerenciava as clínicas e cuidava da casa. Os dois filhos do casal já eram adultos e moravam em outras cidades. A rotina de Denise consistia em reuniões de trabalho, jantares sociais e compromissos relacionados à aparência. Foi nesse contexto que Caio entrou em sua vida. O encontro aconteceu em março de 2007, quando Denise decidiu contratar um personal trainer para melhorar seu condicionamento físico.
Um funcionário da clínica recomendou o jovem, que tinha a reputação de ser um profissional dedicado e simpático. Caio era natural de Itajaí, cidade vizinha. Ele havia se formado em educação física dois anos antes e trabalhava de forma autônoma, atendendo clientes em suas casas ou na academia de um hotel cinco estrelas.
Ele era solteiro, morava sozinho em um apartamento alugado e dirigia um carro modesto e financiado. Seu perfil era típico entre os jovens profissionais da região. As sessões de treinamento aconteciam três vezes por semana na academia particular que Denise mantinha em sua mansão. As sessões duravam uma hora e meia. Gradualmente, a relação profissional se transformou em algo diferente.
Denise começou a prolongar as conversas após os exercícios. Ela oferecia café, perguntava sobre a vida pessoal do jovem e demonstrava interesse genuíno. Três meses após a primeira sessão de treino, Denise e Caio se tornaram amantes. A empresária alugou um apartamento de luxo no centro da cidade, perto da avenida principal.
Era um espaço de 120 m² com vista para o mar. O contrato estava no nome de uma das empresas de Denise. Oficialmente, seria usado para receber clientes importantes. O apartamento na Avenida Brasil tornou-se o centro da relação secreta. Denise e Caio se encontravam lá duas ou três vezes por semana, sempre à noite. Ela dizia ao marido que tinha reuniões de trabalho ou jantares com fornecedores.
Ele ajustava sua agenda de clientes para estar disponível. A dinâmica entre os dois ficou clara desde o início. Denise pagava todas as despesas do imóvel. O aluguel era de R$ 4.000 por mês, valor que ela transferia diretamente para a imobiliária. Ela também pagava as contas de luz, água, internet e condomínio.
O apartamento foi mobiliado com itens que ela mesma havia escolhido. Com o tempo, os presentes se multiplicaram. Em agosto de 2007, Denise deu a Caio um carro zero quilômetro avaliado em R$ 80.000. O veículo estava registrado no nome dela, mas ele o usava exclusivamente. Em dezembro do mesmo ano, ela financiou uma viagem de 15 dias para Buenos Aires. Caio foi sozinho, alegando que precisava de férias para descansar.
Os extratos bancários de Denise, obtidos posteriormente pela polícia, revelaram transferências regulares para a conta de Caio. Os valores variavam de R$ 2.000 a R$ 5.000 por mês. O rapaz recebia o dinheiro sem justificativa formal. Não havia contrato de trabalho extra, nem qualquer acordo de prestação de serviços que explicasse os depósitos.
Para seus colegas, Caio atribuía sua melhoria na situação financeira a novos clientes. Ele trocou seu apartamento alugado por um imóvel maior. Comprou roupas de grife, relógios importados e equipamentos de ginástica sofisticados. Ele frequentava restaurantes caros e casas noturnas exclusivas.
Ninguém questionava a origem do dinheiro. Denise, por sua vez, vivia em um estado de constante contradição. Em seus encontros com Caio, ela era afetuosa, generosa e apaixonada. Ele mandava mensagens de texto durante o dia, ligava apenas para ouvir a voz dela, planejava viagens futuras e imaginava um cenário impossível onde os dois poderiam viver juntos.
Aos 53 anos, ela acreditava ter encontrado uma segunda chance no amor. A família de Denise não notou nenhuma mudança significativa. Marcos continuou viajando a trabalho. Os filhos ligavam ocasionalmente. Os funcionários da clínica notaram que a chefe estava de melhor humor, mas atribuíram isso ao sucesso do negócio.
No entanto, algo aconteceu no primeiro semestre de 2009. Denise começou a notar inconsistências no comportamento de Caio. Ele cancelava encontros frequentemente, demorava muito para responder às mensagens e inventava compromissos de última hora. A empresária suspeitou que houvesse outra pessoa envolvida.
Em maio daquele ano, ela decidiu investigar por conta própria. Contratou um detetive particular de Florianópolis, especializado em casos de infidelidade. O resultado chegou três semanas depois. O relatório do detetive confirmou as suspeitas de Denise. Caio estava tendo um relacionamento extraconjugal com uma jovem de 22 anos chamada Fernanda. Ela era estudante de fisioterapia em uma faculdade particular de Itajaí.
Os dois se conheciam desde a adolescência e haviam reatado o namoro há cerca de 8 meses. As fotos anexadas ao relatório mostravam cenas cotidianas do casal. Caio e Fernanda almoçando em um shopping, os dois de mãos dadas em uma praia em Itajaí. Ele entrava no apartamento dela carregando sacolas de supermercado.
As imagens eram de abril e maio de 2009. O detetive também obteve informações sobre os planos do casal. Fontes próximas a Fernanda relataram que Caio pretendia morar com ela até o final do ano. Eles estavam procurando um apartamento maior em Balneário Camboriú. O rapaz havia dito à namorada que sua situação financeira havia melhorado graças a novos contratos de trabalho.
Para Denise, a descoberta foi devastadora. Ela havia investido dinheiro, tempo e sentimentos em um relacionamento que, para Caio, era puramente comercial. O jovem a tratava como uma fonte de renda, não como uma parceira. As mensagens carinhosas, os presentes aceitos com entusiasmo, as noites no apartamento de luxo — tudo fazia parte de um jogo calculado.
A reação inicial de Denise foi de negação. Ela se recusou a acreditar que Caio era capaz de manipulá-la daquela forma. Ela tentou encontrar explicações alternativas. Talvez Fernanda fosse apenas uma amiga. Talvez as fotos tivessem sido tiradas fora de contexto. Talvez o detetive estivesse enganado. Por duas semanas, Denise evitou confrontar Caio.
Ela continuou os encontros no apartamento, observando o comportamento dele sob uma perspectiva diferente. Ela notou detalhes que antes havia ignorado. Ele checava constantemente o celular e saía apressado após os encontros. Ele inventava desculpas para não dormir lá. Cada pequeno gesto confirmava a traição. Em junho, Denise tomou uma decisão.
Ela acessou o celular de Caio enquanto ele tomava banho após um de seus encontros. O que ela encontrou nas mensagens destruiu qualquer esperança restante. Caio chamava Denise de “Velha” ao falar com os amigos. Ele descrevia os presentes que recebia como dinheiro fácil. Ele dizia que conseguiria aguentar por mais alguns meses até juntar dinheiro suficiente para dar entrada em seu próprio apartamento.
Uma mensagem específica chamou a atenção de Denise. Caio escreveu para Fernanda:
“Quando formos morar juntos, eu vou parar com essa bobagem. Só mais um pouco de paciência.”
A data era maio de 2009, três semanas antes da descoberta. Denise devolveu o celular ao seu lugar. Ela não disse nada naquela noite, mas algo dentro dela havia mudado.
As semanas seguintes foram marcadas por um silêncio calculado. Denise continuou a encontrar Caio no apartamento, mantendo a rotina como se nada tivesse acontecido. Por dentro, ela processava a humilhação. 53 anos de vida, três décadas de casamento estável, uma reputação construída com esforço, tudo arriscado por um homem que a tratava como um caixa eletrônico.
O comportamento de Denise no trabalho começou a mudar. Os funcionários da clínica notaram que ela estava mais irritável, cometia erros em reuniões e esquecia compromissos. Uma gerente perguntou se havia algo errado. Denise respondeu:
“Estou apenas cansada.”
Em casa, a situação era diferente. Marcos passava cada vez mais tempo viajando. Os filhos raramente ligavam.
Denise jantava sozinha na maioria das noites, revisando mentalmente as mensagens que havia lido no celular de Caio. A raiva… se misturava com a vergonha. Na primeira semana de julho, Denise tomou uma decisão. Ela confrontaria Caio e terminaria o relacionamento. Ela planejou fazer isso civilizadamente, em uma conversa franca no apartamento.
Ela cortaria os pagamentos, pegaria o carro de volta e seguiria em frente. A humilhação ficaria restrita à esfera privada. Ela marcou o encontro para a noite de 11 de julho, um sábado. Caio confirmou que estaria disponível. Denise passou o dia em casa, ensaiando mentalmente o que diria. Ela queria ser fria, objetiva, mostrar que não estava abalada.
Ela não daria a ele a satisfação de vê-la chorar. Às 21h, Denise saiu de casa, disse ao marido que tinha uma emergência em uma das clínicas, entrou no carro e dirigiu até o centro da cidade. Ela estacionou no subsolo do prédio onde o apartamento estava localizado. Ela subiu pelo elevador de serviço, como costumava fazer para evitar encontros com outros moradores.
Caio a recebeu normalmente. Ele estava vestido casualmente, sem camisa, como era comum em seus encontros. O apartamento tinha pouca iluminação e música de fundo. Ele ofereceu vinho. Denise recusou e declarou:
“Eu preciso conversar.”
O que aconteceu nas horas seguintes seria mais tarde reconstruído pela polícia, com base em depoimentos, análises periciais e no próprio testemunho de Denise.
A conversa começou de forma controlada. Denise explicou o que sabia sobre Fernanda, sobre as mensagens, sobre como Caio a havia usado. Ele tentou se justificar. A discussão aumentou. Vizinhos do andar de baixo relataram ter ouvido gritos por volta das 23h. Um deles descreveu sons de objetos sendo atirados. Ninguém chamou a polícia.
Em edifícios de alto padrão, conflitos domésticos raramente eram denunciados. A reconstrução dos eventos daquela noite foi realizada pela polícia nas semanas seguintes. Denise forneceu sua versão em um depoimento formal, que seria confrontado com as evidências materiais.
Segundo Denise, a discussão durou aproximadamente 2 horas. Caio inicialmente negou tudo, depois admitiu parcialmente. Por fim, ele tentou minimizar a situação. Ele disse que Fernanda era apenas uma amiga, que as mensagens eram piadas, que seus sentimentos por Denise eram reais. A verdade é que ela não acreditou.
A empresária exigiu que Caio devolvesse o carro e desocupasse o apartamento. Ele reagiu com agressão verbal. Ele atacou:
“Você é uma louca! Uma velha desesperada e patética! Você deveria estar grata por eu ter concordado em me relacionar com alguém da sua idade!”
As palavras atingiram Denise com força. Em determinado momento, Caio pegou o celular e ameaçou ligar para Marcos. Ele exclamou:
“Eu vou contar tudo sobre o nosso caso se você não recuar! Vou mostrar as mensagens, as fotos e os comprovantes de transferência!”
A reputação dela seria destruída. O casamento acabaria. Os filhos saberiam que a mãe era uma adúltera. Denise entrou em pânico. Ela tentou tirar o celular das mãos de Caio.
Houve uma breve luta física. Ele a empurrou contra a parede. Ela caiu, batendo o ombro em um móvel. A dor física somou-se à humilhação. O apartamento tinha uma área de serviço nos fundos. Denise levantou-se e caminhou até lá, alegando que precisava de água. No caminho, ela viu uma tesoura no balcão da cozinha.
Era um objeto comum usado para abrir embalagens. Ela pegou a tesoura e a escondeu na mão. Quando ela retornou ao quarto, Caio estava sentado na cama, ainda segurando o celular. Ele estava digitando algo. Denise questionou:
“O que você está fazendo?”
Caio respondeu de forma zombeteira:
“Estou mandando mensagem para a Fernanda, contando a cena patética que acabei de presenciar.”
O que aconteceu a seguir durou apenas alguns segundos. Denise atacou Caio com a tesoura. Os primeiros golpes atingiram seu peito e abdômen. Ele tentou se defender com os braços, recebendo cortes nas mãos e nos antebraços. Ele caiu da cama, ainda vivo. Denise continuou desferindo golpes. O relatório forense contabilizou 17 facadas.
Três atingiram órgãos vitais. A causa da morte foi hemorragia interna maciça. O tempo estimado entre o primeiro golpe e a morte foi de aproximadamente 8 minutos. Denise permaneceu no apartamento por mais 4 horas. Ela lavou as mãos, trocou de roupa, tentou limpar as manchas de sangue, mas não conseguiu. Às 3h da manhã, ela saiu do prédio e voltou para casa.
Na manhã de domingo, a rotina de Denise foi aparentemente normal. Ela acordou às 8h, tomou café com o marido e atendeu ligações de trabalho. Marcos não notou nada diferente. À tarde, ela recebeu a visita de uma amiga para tomar chá. Elas conversaram sobre amenidades por duas horas.
O corpo de Caio foi descoberto por volta das 9h daquela manhã. A faxineira do prédio, que tinha acesso ao apartamento para limpezas semanais, notou que a porta estava entreaberta. Ela encontrou a cena e ligou para o síndico. A polícia foi acionada em seguida. O detetive encarregado do caso chegou às 10h.
Ele era um profissional experiente, com 15 anos de atuação em casos de homicídio. A cena do crime indicava extrema violência, mas também elementos atípicos. Não havia sinais de arrombamento. A vítima estava parcialmente despida. O apartamento pertencia a uma empresa, não a Caio. O primeiro passo foi identificar o proprietário do imóvel. O contrato de aluguel estava no nome de uma das clínicas de Denise.
O gerente da imobiliária confirmou que a empresária era responsável pelos pagamentos. A conexão entre ela e a vítima começou a tomar forma. As câmeras de segurança do edifício foram analisadas. As imagens mostravam Denise entrando às 22h de sábado e saindo às 3h de domingo. Não havia outras visitas registradas durante esse período.
O porteiro confirmou que a reconhecia como uma visitante assídua. O delegado de polícia emitiu uma intimação para Denise comparecer à delegacia. Ela recebeu a notificação na segunda-feira, 13 de julho, às 9h. Ela compareceu acompanhada de um advogado, sem saber exatamente do que se tratava. O marido dela foi apenas informado de que havia uma questão burocrática relacionada ao aluguel de um imóvel.
Na delegacia, Denise foi confrontada com as imagens das câmeras. Inicialmente, ela negou qualquer envolvimento na morte de Caio. Ela declarou:
“Fui ao apartamento para uma reunião de negócios e encontrei o jovem vivo quando saí. Ele é apenas meu personal trainer.”
A versão não convenceu os investigadores.
As evidências indicavam que Denise foi a última pessoa a ver Caio vivo. O intervalo de tempo entre sua entrada e saída coincidia com o momento estimado da morte. Não havia outros suspeitos. O delegado ordenou a apreensão do celular de Denise. A análise das mensagens revelou a natureza do relacionamento entre os dois.
Havia trocas diárias de textos afetuosos, fotos íntimas e planos de encontros. A farsa de uma relação puramente profissional desmoronou em minutos. A investigação avançou rapidamente após a análise dos celulares. O telefone de Caio, encontrado na cena do crime, continha as mensagens que Denise havia descoberto semanas antes.
O telefone de Denise mostrava o histórico completo de seu relacionamento de dois anos. Os investigadores traçaram um perfil detalhado do caso. Denise era uma mulher madura, financeiramente estável, mas emocionalmente carente. Caio era um jovem ambicioso, disposto a explorar a vulnerabilidade de uma cliente mais velha.
O encontro entre os dois criou uma dinâmica destrutiva que culminou em tragédia. Os extratos bancários de Denise foram solicitados pela justiça. Os números confirmaram a extensão dos investimentos no relacionamento. Em dois anos, ela havia transferido aproximadamente R$ 120.000 em dinheiro vivo para Caio. Presentes, incluindo o carro e as viagens, totalizavam outros R$ 1.000.
O valor total ultrapassou R$ 200.000. O detetive particular contratado por Denise foi intimado a depor. Ele entregou um relatório completo sobre Fernanda, incluindo fotos e relatos sobre os planos do casal. O material mostrou que Denise havia descoberto a traição semanas antes do crime. A premeditação começou a tomar forma.
A namorada de Caio foi ouvida como testemunha. Fernanda confirmou o relacionamento e os planos de morarem juntos. Ela disse que Caio nunca mencionou ter um caso com uma cliente mais velha. Segundo ela, o dinheiro dele vinha de trabalhos extras como personal trainer para turistas ricos. Ela chorou durante todo o seu depoimento. A família de Caio, residente em Itajaí, também prestou depoimento.
Seus pais descreveram o filho como um jovem trabalhador e sonhador. Eles sabiam que ele havia melhorado de vida nos últimos anos, mas atribuíam isso aos seus esforços profissionais. Eles não conheciam Denise, nem sabiam da existência do apartamento. Do lado de Denise, a situação era de colapso.
Marcos descobriu o caso por meio da imprensa local, que noticiou a prisão da empresária. Os filhos foram informados por telefone. A família desmoronou em questão de dias. Na quarta-feira, 16 de julho, Denise mudou sua versão dos fatos. Em um novo depoimento, ela admitiu ter matado Caio. Ela descreveu a discussão, a ameaça de exposição e a reação violenta.
Ela disse que perdeu o controle quando ele ameaçou destruir sua vida. O advogado tentou enquadrar o caso como legítima defesa ou forte emoção. O inquérito policial foi concluído em agosto de 2009. Denise foi indiciada por homicídio qualificado, com os agravantes de motivo torpe e uso de meio que dificultou a defesa da vítima.
O Ministério Público de Santa Catarina aceitou o indiciamento e apresentou denúncia formal. A defesa de Denise apresentou uma estratégia baseada em dois pilares. Primeiro, argumentou que Caio era um manipulador que explorou financeira e emocionalmente uma mulher vulnerável. Segundo, sustentou que a violência ocorreu em um contexto de descontrole emocional após graves provocações e ameaças de destruir a vida familiar de Denise.
Os advogados tentaram minimizar os agravantes. Argumentaram que não houve motivo torpe, uma vez que Denise agiu em resposta a uma situação de extrema humilhação, e também contestaram a alegação de que a vítima não pôde se defender, argumentando que Caio era mais jovem e fisicamente mais forte que a ré.
A acusação manteve sua posição. O promotor encarregado do caso argumentou que Denise teve semanas para processar a descoberta da traição. A ida ao apartamento foi planejada. A tesoura foi escolhida deliberadamente. Os 17 golpes demonstraram uma clara intenção de matar, não apenas de ferir. O julgamento ocorreu em março de 2010 no Tribunal do Júri de Balneário Camboriú.
O caso atraiu considerável atenção da mídia regional. A sessão durou dois dias, com depoimentos de testemunhas, apresentação de provas materiais e debates entre acusação e defesa. Denise foi questionada pelos jurados. Ela manteve sua versão de que agiu em desespero, sem planejar a morte de Caio.
Ela descreveu o relacionamento de dois anos, os investimentos financeiros, a descoberta da traição e a humilhação na noite do crime. Ela chorou várias vezes durante seu depoimento. A família de Caio esteve presente em todas as sessões. Sua mãe precisou de amparo quando as fotos da cena do crime foram mostradas. As evidências do crime foram exibidas.
O pai declarou à imprensa que nenhuma condenação traria seu filho de volta. Os jurados deliberaram por 6 horas. Por cinco votos a dois, eles reconheceram Denise como a autora do homicídio qualificado. O argumento de legítima defesa foi rejeitado. A alegação de forte emoção foi parcialmente aceita como fator atenuante, mas não suficiente para anular as circunstâncias agravantes.
A sentença foi proferida na tarde de 12 de março de 2010. Denise foi condenada a 16 anos de prisão em regime fechado por homicídio qualificado. O juiz que presidiu a sessão baseou a sentença nas circunstâncias do crime.
Ele reconheceu que Caio havia explorado Denise financeiramente por 2 anos. Também reconheceu que a ameaça de expor o caso representou uma grave provocação. No entanto, entendeu que nada justificava a violência letal empregada. A defesa recorreu da sentença ao Tribunal de Justiça de Santa Catarina.
Eles solicitaram a redução da pena e a mudança no regime prisional. O recurso foi parcialmente aceito. Em dezembro de 2010, a pena foi mantida em 16 anos, mas o regime inicial foi alterado para semiaberto, considerando que Denise era ré primária e tinha bons antecedentes. A rede de clínicas de estética de Denise foi vendida no final de 2009. Os novos proprietários mantiveram a estrutura, mas mudaram o nome do negócio.
Os funcionários foram mantidos em seus cargos. A marca que Denise construiu ao longo de 24 anos desapareceu do mercado. O casamento com Marcos foi dissolvido em 2010. Ele pediu o divórcio enquanto Denise aguardava julgamento. A divisão de bens foi litigiosa, com disputas sobre imóveis e investimentos. Os filhos do casal se distanciaram da mãe.
Denise cumpriu sua pena no presídio feminino de Florianópolis. Ela obteve progressão para o regime aberto em 2017, após 8 anos de prisão. Passou a cumprir o restante da pena em liberdade condicional, com obrigações de comparecer periodicamente à justiça. A família de Caio nunca se recuperou totalmente. Seus pais mudaram-se de Itajaí para uma cidade menor no interior.
Fernanda formou-se em fisioterapia e casou-se com outro homem anos depois. O apartamento onde o crime ocorreu foi vendido e reformado. Novos moradores ocupam o espaço sem conhecer sua história. O caso de Denise e Caio foi registrado nos arquivos da delegacia de homicídios de Balneário Camboriú como mais um exemplo de crime passional com desfecho fatal.
As motivações eram conhecidas: ciúme, traição, humilhação, vingança. Os personagens eram típicos. Uma mulher madura e apaixonada, um jovem oportunista, um relacionamento construído sobre mentiras. Denise tinha 53 anos quando matou Caio. Ele tinha 25. Um romance de dois anos, R$ 200.000 investidos, 17 tesouradas. No final, restou apenas uma vida interrompida e outra destruída.
O caso foi encerrado.