Aqueles que conheciam Letícia Morais sempre a descreviam da mesma maneira. Uma garota de sorriso fácil, cabelos escuros até os ombros e uma determinação que parecia grande demais para os seus 19 anos.
Filha de uma auxiliar de enfermagem e de um caminhoneiro que passava semanas longe de casa. Letícia havia crescido no bairro dos Pioneiros, uma área de Campo Grande onde as casas têm grades nas janelas e as crianças aprendem cedo a não deixar a porta aberta.
Ela foi a primeira da família a ingressar numa universidade federal, um feito que foi comemorado na casa da família Morais com churrasco, refrigerante gelado e muito orgulho.
O curso era Administração na UFMS. Segundo semestre de 2018, primeiro ano completo. Letícia havia passado no vestibular sem fazer cursinho, estudando até tarde da noite com o celular sempre carregado, a assistir a vídeos no YouTube.
A mãe, Dona Rosângela, guarda até hoje a foto do dia da matrícula. Letícia a sorrir no portão da universidade com a mochila nova que haviam comprado em seis vezes.
“Ela colocava música todas as semanas. Todas as semanas, sem falta. Ele perguntou se eu estava bem, se o meu pai tinha chegado. Ela era uma garota muito carinhosa.” — Rosângela contaria meses depois, com a voz embargada.
O problema começou, segundo colegas, no início de 2019. O professor Henrique Castilho tinha 43 anos, doutorado em gestão de negócios pela USP e lecionava teoria organizacional na UFMS há quase uma década.
No campus, ele era conhecido por duas coisas: aulas densas que poucos conseguiam acompanhar e o jeito que olhava para as alunas. Ninguém formalizava nada. Em ambientes assim, a formalização é rara.
“Todos sabiam que ele tinha um tipo certo. Meninas do primeiro e segundo anos que ainda não sabiam muito bem como o sistema funcionava.” — disse Camila Feitosa, colega de classe de Letícia, em depoimento à Polícia Civil meses depois.
O esquema, como Camila chamava, não era segredo entre os veteranos. Notas generosas eram dadas àquelas que se aproximavam do professor fora da sala de aula. Nada explícito, nada documentado, apenas um padrão que se repetia ano após ano, invisível o suficiente para sobreviver e visível o suficiente para ser sussurrado pelos corredores.
Letícia chegou ao segundo ano com dificuldades. A teoria organizacional era uma matéria complexa e ela trabalhava 4 horas por dia num call center no centro da cidade. A falta de tempo estava a pesar nas notas.
Em fevereiro de 2019, ela tirou 4 (C) na sua primeira prova. Foi depois dessa nota que os colegas notaram a mudança.
Marcos Andrade, que se sentava na mesma fileira de Letícia, lembrou-se de um detalhe específico: o dia em que ela ficou depois da aula.
“O Castilho pediu para falar com ela no escritório dele. Ele disse que era sobre a prova. Eu ofereci-me para esperar lá fora, mas ela disse que não era necessário. Ela saiu 40 minutos depois. Ela parecia diferente, não triste, não feliz, apenas distante, como se estivesse processando algo que ainda não tinha nome.” — disse Marcos.
Nas semanas seguintes, Letícia começou a faltar ao grupo de estudos que tinha com quatro colegas. Parou de responder a algumas mensagens no WhatsApp. Aparecia na aula de óculos escuros, mesmo em dias nublados.
“A nota da segunda prova foi 8,8. Nós notamos, é claro. Mas o que você faz? O que você vai dizer e para quem?” — disse Camila.
Em abril, Letícia mudou a sua foto de perfil no Instagram. Era uma foto tirada num restaurante que nenhum dos amigos reconheceu. Uma mesa de madeira envernizada, uma taça de vinho — o tipo de lugar que não cabia no orçamento de uma estudante que pagava aluguel com bolsa de estudos e emprego.
“Ela estava a sorrir, mas os seus olhos não sorriam junto.” — observaria Camila mais tarde.
A última vez que Rosângela falou com a filha foi na quinta-feira, 9 de maio de 2019, às 21h14. Letícia disse que estava bem, que tinha provas a chegar e que mandaria beijos para o pai quando ele chegasse a casa.
Ele não atendeu na sexta-feira. No sábado, o telefone foi direto para o correio de voz. Na segunda-feira, Rosângela ligou para a universidade. A secretaria informou que Letícia faltava às aulas desde quinta-feira.
Foi então que Dona Rosângela pegou no primeiro autocarro para Campo Grande. Rosângela Morais chegou à rodoviária de Campo Grande às 6h de uma terça-feira, com uma mala pequena, a bolsa apertada contra o peito e a certeza de que algo estava muito errado. Uma mãe aprende a distinguir o silêncio da negligência. O silêncio de Letícia não era descuido.
O apartamento da filha ficava num prédio de dois andares dividido em três unidades no bairro São Francisco, a 20 minutos de caminhada do campus, com aluguel de 800 reais, conta dividida com uma colega chamada Priscila Nunes. Rosângela só estivera ali uma vez durante a mudança, quando ajudou a montar a cama com parafusos que não se encaixavam direito.
Priscila abriu a porta ainda de pijama, olhou para Rosângela com uma expressão que tentou disfarçar o desconforto, mas não conseguiu.
“Ela não está aqui desde quinta-feira. Achei que tivesse ido para a sua casa.” — disse Priscila antes mesmo de ser questionada.
O quarto de Letícia estava arrumado demais. Essa foi a primeira coisa que Rosângela notou. Não era a bagunça de uma partida apressada, pelo contrário, a cama estava feita, as roupas dobradas, mas a escova de dentes não estava no banheiro. O carregador do celular não estava na tomada. A mochila da universidade não estava no lugar de sempre. Alguém tinha se preparado para sair.
“Ela levou alguma coisa.” — Rosângela disse baixinho, mais para si mesma.
“Foi o que notei também. Mas ela não me disse nada. Na quarta à noite, ela estava aqui a assistir a uma série. Na quinta de manhã, fui trabalhar. Quando voltei, o quarto estava assim.” — respondeu Priscila, abraçando-se como se sentisse frio.
O boletim de ocorrência foi registrado na tarde de terça-feira na delegacia do centro. O escrivão explicou, com a paciência mecânica de quem repete a mesma frase várias vezes ao dia:
“Adultos têm o direito de ir e vir, é necessário esperar 72 horas, esse é o protocolo.”
Rosângela não discutiu, assinou os papéis com firmeza e saiu. De volta ao apartamento, passou a tarde a fazer o que a polícia ainda não faria: a fazer perguntas.
Ela bateu de porta em porta, parou colegas na calçada, sentou-se com Camila Feitosa num restaurante perto do campus e ouviu o nome de Henrique Castilho pela primeira vez, pronunciado com o peso que merecia.
“Não tenho provas de nada. Mas todos sabiam que eles estavam a se ver fora da universidade. Ela até comentou uma vez que ele era diferente do que parecia. Ela falou com um tom que me deu arrepios.” — disse Camila, a olhar para o copo de suco no qual não havia tocado.
“Você já os viu juntos?” — perguntou Rosângela.
“Uma vez num carro prata estacionado ali na Avenida Afonso Pena. Ele estava a dirigir, ela estava no banco do passageiro. Estava a anoitecer. Quando ela percebeu que eu havia olhado, desviou o olhar.” — Camila hesitou.
Rosângela anotou tudo num caderninho que comprara no caminho. O tipo de caderninho que usava para anotar receitas e consultas médicas, agora cheio de nomes, horários e detalhes que nenhuma mãe deveria precisar anotar. No dia seguinte, foi à universidade.
O coordenador do curso recebeu-a numa pequena sala com o ar-condicionado muito alto e uma planta artificial na janela. O coordenador, Professor Almério Teixeira, era um homem de óculos finos e linguagem cuidadosa. O tipo de cuidado que protege instituições, não pessoas.
“A senhora compreende que não podemos compartilhar informações de outros professores sem um processo formal.” — disse ele.
“A minha filha desapareceu.” — respondeu Rosângela sem alterar a voz.
“Lamentamos muito, mas a universidade não tem outra opção.”
“O nome dele é Henrique Castilho. Professor daqui. Preciso saber se alguém já reclamou dele antes.” — Ela colocou o caderno aberto em cima da mesa.
O silêncio que se seguiu durou 4 segundos. Rosângela contou a história. O coordenador ajeitou os óculos e disse:
“Isso terá que ser encaminhado à ouvidoria.”
Naquela noite, Rosângela sentou-se na cama da filha com a luz apagada, pegou o travesseiro e o pressionou contra o rosto. Cheirava ao perfume barato que Letícia usava desde os 15 anos, comprado em sachês no mercado.
O celular vibrou. Era uma mensagem de um número desconhecido, sem identificador de chamadas.
“A senhora não deveria estar a fazer essas perguntas na universidade. A sua filha saiu por vontade própria. Deixe-a viver a vida dela.”
Rosângela encarou a tela por um longo tempo. Então abriu o caderno e anotou o número.
Na manhã seguinte, Rosângela encaminhou a mensagem à polícia. A delegada responsável pelo caso, Dra. Fernanda Queiroz, era uma mulher de cabelos curtos e jeito direto, que assumira o boletim de ocorrência dois dias antes.
Quando viu o número desconhecido na tela do celular de Rosângela, a sua expressão mudou levemente. Não muito, apenas o suficiente para confirmar o que a mãe já suspeitava. Aquilo não era coincidência.
“Fez bem em guardar isso. De agora em diante, se entrarem em contato com a senhora por esse número ou qualquer outro desconhecido, por favor, notifique-me diretamente. Não responda, não bloqueie, apenas registre.” — disse Fernanda, a fotografar a tela.
“Você acha que foi ele?”
Fernanda não respondeu imediatamente; cruzou as mãos sobre a mesa.
“A senhora deu-me um nome ontem, e hoje de manhã eu puxei o histórico. Não é a primeira vez que o nome deste professor surge num contexto delicado no campus.”
“E o que fizeram antes?”
“Nada que eu possa discutir agora.” — A delegada levantou-se, sinalizando o fim da conversa. “Mas desta vez é diferente. Desta vez, uma garota está desaparecida.”
O carro prata era um Honda City 2017, com placa de Campo Grande, registrado no nome de Henrique Castilho. Fernanda confirmou isso em 40 minutos de consulta ao sistema, tempo que Rosângela passou sentada num banco de plástico no corredor da delegacia, com o caderno fechado no colo e os olhos fixos no chão de granilite.
Câmeras de segurança foram o passo seguinte. A Avenida Afonso Pena, uma das principais vias da cidade, tinha cobertura razoável. A equipe de Fernanda levou um dia para recolher imagens do período entre 1º de março e 9 de maio, intervalo entre o primeiro contato documentado de Letícia com Castilho e o último sinal de vida da garota.
O Honda City apareceu 11 vezes, três delas com Letícia no banco do passageiro, identificada por suas roupas e cabelo. As imagens eram granuladas, tiradas de cima, mas foram suficientes para confirmar o que Camila havia dito no restaurante.
A última vez que o carro foi visto com Letícia foi na noite de quarta-feira, véspera do desaparecimento. O veículo seguia em direção ao bairro Chácara Cachoeira, a sair do centro da cidade. Depois disso, Letícia não apareceu em mais nenhuma câmera da cidade.
Henrique Castilho foi intimado a prestar esclarecimentos na quinta-feira. Ele chegou acompanhado de um advogado. Um detalhe que Fernanda anotou mentalmente. Um homem que chama um advogado antes de saber do que vai ser acusado é um homem que já sabe do que pode ser acusado.
Ele era mais alto do que Rosângela imaginara. Terno cinza, a barba feita e a postura de alguém acostumado a ser a pessoa mais importante da sala. Sentou-se diante de Fernanda com os braços cruzados e respondeu a cada pergunta com a precisão calculada de quem havia ensaiado.
“Sim, conhecia Letícia Morais, ela era a minha aluna. Sim, havíamos conversado fora da universidade algumas vezes sobre o seu desempenho acadêmico. Não, não havia nada além disso. Não sei onde ela está.”
“O senhor estava com ela na noite de 8 de maio.” — disse Fernanda, virando o monitor para mostrar a imagem da câmera. O veículo dele, a garota no banco do passageiro. “21h47, Afonso Pena com Rui Barbosa.”
Castilho olhou para a imagem, olhou para o advogado, depois de volta para Fernanda.
“Eu dei-lhe uma carona. Deixei-a num ponto de ônibus na Chácara Cachoeira.” — respondeu ele.
“Qual ponto exatamente?”
“Não me lembro o nome da rua.”
“A que horas?”
“Por volta das 22h, 22h30. E depois voltei para casa.”
Fernanda cruzou os braços.
“O senhor mora no Jardim dos Estados, professor. A Chácara Cachoeira fica na direção oposta. Por que foi até lá só para dar uma carona?”
A primeira rachadura apareceu pequena, quase imperceptível, mas Fernanda viu.
“Ela pediu, e eu não me importei.”
Do lado de fora, Rosângela esperava num banco de plástico idêntico ao da delegacia, desta vez na calçada. Camila tinha ido até lá para fazer-lhe companhia. Trouxera dois copos de café numa sacola plástica, do tipo vendido em pequenas garrafas nos mercados do bairro. As duas permaneceram em silêncio por um longo tempo.
“A senhora acha que ele fez alguma coisa com ela?” — perguntou Camila em voz baixa.
Rosângela tomou um gole do café. Estava doce demais, mas ela não disse nada.
“Eu acho que ele sabe onde ela está. E acho que alguém mandou aquela mensagem porque tinha medo do que eu poderia descobrir.” — ela respondeu lentamente.
Camila olhou para os próprios pés.
“Há algo que eu ainda não lhe contei.”
Rosângela virou o rosto para encará-la.
“Na semana anterior ao desaparecimento, ela mandou-me uma mensagem no meio da noite. Eu estava a dormir. Não respondi na hora. Quando acordei de manhã, a mensagem tinha sido apagada.”
“Você lembra do que dizia?”
Camila fechou os olhos por um segundo.
“Dizia: ‘Se eu desaparecer, começa com o carro prata’.”
A mensagem apagada tornou-se uma peça central na investigação. Fernanda Queiroz solicitou um mandado ao juiz de plantão para extrair dados do celular de Camila, não para investigar a testemunha, mas para tentar recuperar o conteúdo excluído.
A tecnologia forense usada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul tinha limitações, e Fernanda sabia disso, mas era o que estava disponível. O relatório chegou quatro dias depois. A mensagem havia sido enviada às 2h31 da manhã do dia 6 de maio e apagada às 7h14 do dia seguinte. Apagada pelo remetente, ou seja, a própria Letícia excluiu a mensagem após enviá-la.
O conteúdo era irrecuperável, mas o horário, o gesto, as madrugadas — tudo aquilo dizia alguma coisa. Ela havia enviado um sinal de socorro e depois se arrependera, ou fora persuadida a se arrepender.
O celular de Letícia recebeu sinal pela última vez às 23h02 do dia 8 de maio, conectado a uma torre de celular no bairro Chácara Cachoeira, exatamente a área mencionada por Castilho. Depois disso, nada. O aparelho havia sido desligado ou destruído. A operadora confirmou que nenhuma chamada havia sido feita ou recebida após esse horário.
Fernanda solicitou acesso aos registros telefônicos de Castilho do mesmo período. O juiz autorizou em 48 horas. Os registros mostraram três ligações feitas pelo professor na madrugada do dia 8 para o dia 9 de maio, todas para o mesmo número. Não estava registrado em nome de uma pessoa física, mas sim de uma empresa de fachada sediada em Dourados.
A investigação, que começara como a busca por uma pessoa desaparecida, estava a assumir uma forma diferente.
Foi Rosângela quem encontrou o caderno. Ela havia ficado no apartamento do bairro São Francisco com a permissão de Priscila, que se mudara temporariamente para a casa da mãe sem conseguir explicar direito o porquê.
“A única coisa é que eu não conseguia dormir lá.” — Priscila dissera.
Rosângela entendia. Algumas ausências ocupam mais espaço do que as presenças. O caderno estava no fundo da gaveta, embaixo do guarda-roupa, sob um suéter dobrado que Letícia usava nos invernos do sul de Mato Grosso em junho.
Era um diário escolar comum, de capa dura azul-escura com o nome escrito à caneta na primeira página. As primeiras páginas eram normais: compromissos, datas de exames, lista de compras. Mas a partir de março, a caligrafia mudou, tornando-se menor, mais comprimida, como se as palavras precisassem caber num espaço menor do que mereciam.
“Ele disse que ninguém vai acreditar em mim, que pareço louca, que foi a minha própria ideia. Fui à lanchonete da universidade hoje e não consegui comer nada. Fiquei a pensar no que ele disse semana passada, que se eu contasse a alguém, ele mostraria as fotos para eles. Que fotos? Ela pegou sem eu saber.”
Rosângela parou de ler na terceira página, fechando o caderno com cuidado, como se ele estivesse prestes a quebrar. Ficou a olhar pela janela. A tarde em Campo Grande lá fora, o calor seco de maio, uma criança gritando de alegria na rua. Ligou para Fernanda sem precisar procurar o número. Já o sabia de cor.
O caderno foi introduzido como evidência na investigação na manhã seguinte. Com ele, a natureza do caso mudou formalmente; deixou de ser apenas um desaparecimento e passou a incorporar uma investigação por assédio sexual, coerção e possível gravação não autorizada de imagens íntimas. Crimes previstos no Código Penal Brasileiro, com penas que Fernanda começou a calcular em voz alta pela primeira vez.
Castilho foi notificado novamente. Desta vez, o advogado chegou antes dele. Nas redes sociais, o perfil do professor continuava ativo. Fotos de conferências acadêmicas, citações de cursos de gestão, uma foto com a família num resort em Bonito tirada durante o Carnaval. Nada fora do comum nos comentários. A vida pública impecável de um homem que havia aprendido a manter fachadas.
Fernanda solicitou o afastamento preventivo do professor à reitoria da UFMS. A administração da universidade respondeu que seria necessário aguardar a conclusão do processo administrativo interno. Fernanda releu o e-mail duas vezes, imprimiu-o e anexou-o ao processo.
Numa noite de sexta-feira, três semanas após o desaparecimento, Rosângela recebeu uma ligação de um número desconhecido, diferente do anterior. Ela atendeu como combinara com Fernanda, em silêncio, deixando o outro lado falar primeiro.
A voz era feminina, jovem e trêmula.
“A senhora é a mãe de Letícia?”
“Sou.” — houve uma longa pausa, com ruído de fundo, talvez uma televisão ou uma rodoviária.
“Eu conheci-a. Passei pela mesma coisa há dois anos. Nunca contei a ninguém porque ele…” — a voz embargou. “Mas quando vi no grupo do WhatsApp que a Letícia tinha desaparecido, precisei ligar.”
Rosângela sentou-se na beira da cama da filha e pegou no caderno.
“Qual é o seu nome?”
“Ainda não posso dizer o meu nome, mas posso dizer uma coisa. Essas fotos que ele mencionou, ele as guarda num laptop antigo. Eu vi. Ele me mostrou para me intimidar.”
“Onde está esse notebook?”
“Fica na sala de estar da casa dele, numa mochila cinza debaixo da mesa.”
Fernanda Queiroz ouviu a gravação três vezes antes de falar. Rosângela havia deixado o celular ligado durante a chamada, um arranjo feito dias antes exatamente para esse tipo de situação. A policial permaneceu em silêncio por um longo momento, com a caneta parada no papel.
“Você fez a coisa certa.” — disse ela, finalmente. “Agora preciso que você não faça nada. Nenhum contato com aquela mulher, nenhuma menção ao notebook, nenhuma palavra com ninguém. E as buscas continuam. Mas isso muda tudo.”
O mandado de busca e apreensão foi solicitado na manhã seguinte, com base em três elementos combinados: o caderno de Letícia, os registros telefônicos a ligar Castilho à empresa de fachada em Dourados, e o depoimento anônimo registrado em ata como fonte confidencial. O juiz assinou em 6 horas.
A operação ocorreu na madrugada de uma terça-feira, quando o sol de Campo Grande ainda não estava a queimar. Quatro policiais, dois veículos descaracterizados, Fernanda na frente. Castilho abriu a porta de pijama. Pela primeira vez desde o início de tudo, não havia advogado presente.
A mochila cinza estava exatamente onde a voz indicara, debaixo da mesa na sala de estar. O notebook estava lá dentro, com senha, mas colado na contracapa, com fita adesiva amarelada pelo tempo, havia um pequeno cartão com uma sequência de números. O tipo de descuido que pessoas muito organizadas cometem por confiarem demais na própria impunidade.
O exame pericial levaria dias. Mas antes de entregar o equipamento ao perito, Fernanda viu uma pasta na área de trabalho com um nome que embrulhou-lhe o estômago. O nome da pasta era “alunas”, no plural.
Rosângela esperava lá fora, na calçada. Quando Fernanda saiu com a mochila lacrada em um saco de evidências, as duas entreolharam-se. Não era alívio, ainda não, mas era algo.
Letícia foi encontrada 73 dias após seu desaparecimento. Estava em Corumbá, a 350 km de Campo Grande, num quarto de pensão perto da fronteira com a Bolívia. Vivia sozinha, com um celular quebrado e 400 reais escondidos dentro do sapato. Ela fugira por vontade própria.
Explicou ao delegado local que Castilho ameaçara divulgar imagens caso ela procurasse a polícia, que ela acreditara nele, que escolhera desaparecer porque parecia mais seguro do que confrontá-lo, e que passara meses com vergonha demais para voltar.
“Eu achei que iam dizer que a culpa era minha.” — disse Letícia, quando as duas se encontraram formalmente dias depois.
Fernanda não respondeu de imediato. Mais tarde, disse apenas:
“Você deixou pistas suficientes para nós o encontrarmos. Isso não é pouca coisa.”
O notebook continha imagens de sete alunas diferentes, tiradas ao longo de quatro anos. A voz anônima, mais tarde identificada como Renata, 24 anos, ex-aluna de 2017, deu um depoimento formal. Outras três mulheres apresentaram-se voluntariamente depois que o caso ganhou repercussão na mídia local.
Henrique Castilho foi indiciado por gravação não autorizada de imagens íntimas, coerção e assédio sexual. O processo administrativo na UFMS resultou em demissão por justa causa. O advogado permaneceu ao lado dele durante todo o processo. A pasta chamada “alunas” tinha uma senha diferente de todas as outras. A investigação pericial levou dois dias para ser concluída.
Fernanda não comentou publicamente o conteúdo, apenas confirmando que havia material suficiente para sustentar cada um dos indiciamentos.
Rosângela ficou em Campo Grande durante três semanas após o retorno de Letícia. Ela dormia no sofá, acordava cedo, fazia café e não fazia mais perguntas do que a filha podia responder.
Na manhã antes de voltarem para casa, as duas sentaram-se na pequena sacada do apartamento. O inverno havia chegado ao sul de Mato Grosso, a trazer um ar seco e um céu muito azul. Letícia segurou a mão da mãe.
“Eu devia ter ligado antes.”
“Sim.” — Rosângela disse simplesmente. “Mas você voltou, e é isso que importa agora.”
O pequeno caderno azul ficou com Fernanda, catalogado como evidência. Letícia pegou no suéter dobrado do fundo da gaveta. Algumas coisas não precisam ser deixadas para trás.