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EX-COVEIRO RELATA TUDO O QUE VIVEU! | História de Terror e Relato Real

Naquela noite fatídica, o silêncio habitual do cemitério foi quebrado. Ouvi passos distintos a ecoar por entre os túmulos de mármore e terra batida. Vi um homem vestido com um fato escuro, o rosto excessivamente pálido, a caminhar devagar, quase a arrastar-se. Ele ergueu a cabeça, fixou o olhar no vazio e disse com uma voz fraca, quase um lamento que parecia vir de outro mundo:

“Estou à procura da minha esposa.”

O sangue gelou nas minhas veias, uma sensação de pavor absoluto percorreu a minha espinha, porque eu mesmo tinha ajudado a enterrar aquele homem no dia anterior.

Chamo-me Aparecido Fonseca, carrego hoje 71 anos nos ombros cansados e, durante muito tempo, a minha ferramenta de trabalho foi a pá, e a minha companheira, o peso do silêncio sepulcral no Cemitério Recanto da Paz, aqui em Porto Velho. Já vi de tudo neste ofício, que muitos consideram amaldiçoado, mas que para mim era apenas o fim da linha. Vi gente a partir cedo demais, vi famílias inteiras a desfazerem-se em lágrimas, vi promessas quebradas proferidas na beira de um túmulo aberto. Mas existe um acontecimento específico que nunca saiu da minha cabeça e que, até hoje, quando fecho os olhos para tentar dormir, volta-me à memória com uma clareza assustadora.

Refiro-me à tragédia de 1984. Era novembro e o calor parecia não dar tréguas nem por um segundo. Quem viveu em Porto Velho naquela época sabe bem do que falo; o ar ficava pesado, denso, húmido, e parecia que o sol queimava a pele mesmo até de madrugada. Eu já estava acostumado a suar em bica em cima das covas, a lidar com velórios carregados de uma dor palpável, mas nada, absolutamente nada, me preparou para o que aconteceu naquele dia 13.

A notícia chegou rápido, a correr de boca em boca, antes mesmo de eu colocar os pés dentro dos portões do cemitério. Um acidente terrível tinha parado a cidade, congelado o tempo. Um carro com um casal recém-casado tinha colidido frontalmente com um camião de grande porte. Toda a gente falava nisso, em cada esquina, em cada café. O acidente ocorreu no fim da manhã e, em questão de minutos, os boatos já corriam pelas ruas poeirentas, cada um a aumentar um detalhe, a tornar a história ainda mais trágica.

Diziam as más línguas e os curiosos que eles tinham saído para viajar em lua de mel, que estavam ainda vestidos de festa, com as roupas do casamento que tinham celebrado horas antes. Outros falavam que tinham passado a noite inteira a celebrar e pegado a estrada cedo demais, vencidos pelo cansaço. O que se sabia de verdade, o facto nu e cru, é que o carro tinha virado um amontoado irreconhecível de ferro retorcido e que o casal fora levado às pressas, entre sirenes e gritos, para o hospital. Eu não os conhecia de perto, nunca tínhamos privado, mas numa cidade como a nossa, no interior, toda a gente acaba por ouvir falar de toda a gente.

O rapaz vinha de uma família tradicional, muito respeitada na região, daquelas com nome e posses, e a moça era vista como uma das raparigas mais bonitas e gentis das redondezas. Diziam que o casamento tinha sido daqueles eventos grandiosos, capazes de parar a cidade, cheio de convidados ilustres, flores exóticas e música que durou a noite toda. Talvez, por isso mesmo, pelo contraste entre a felicidade extrema e o fim abrupto, a tragédia tenha mexido tanto com o imaginário popular. Era como se um conto de fadas tivesse sido rasgado ao meio, brutalmente, sem aviso prévio.

Passei o dia a ouvir pedaços de conversa, sussurros entre os visitantes. As pessoas chegavam ao cemitério com caras pesadas, os olhos baixos, a perguntar se já tinham trazido os corpos, se já havia hora para o enterro. Nós, funcionários, tentávamos manter-nos firmes, profissionais, mas era impossível não ser afetado por aquele clima de consternação coletiva. Lembro-me vividamente da sensação de espera, como se o ar estivesse preso nos pulmões da cidade, toda a gente a aguardar a notícia final, o desfecho. E ela veio, horas depois, pesada como chumbo.

Nenhum dos dois resistiu aos ferimentos. O impacto fora demasiado violento. O corpo do rapaz foi libertado para as cerimónias fúnebres, mas o da noiva não. E é exatamente aqui que começa a parte mais estranha e perturbadora desta história, aquilo que desafia a lógica. O hospital informou, num comunicado confuso, que simplesmente não sabia onde estava o corpo dela. Sumiu. Desapareceu. Assim, sem explicação plausível. Ela tinha dado entrada na emergência junto com o marido. Os dois foram atendidos pelas equipas médicas, os dois foram declarados mortos.

Mas só ele foi encaminhado para a libertação e preparação funerária. Ela não. Foi como se tivesse evaporado de cima da maca, como se nunca lá tivesse estado. Eu, nos meus anos de cemitério, já tinha visto casos de erro burocrático, confusão de nomes, até corpo trocado por engano, mas desaparecer completamente? Nunca. E não fui só eu que fiquei chocado. A cidade inteira ficou atónita, incrédula. A família da moça pressionava a direção do hospital, exigia respostas, gritava por justiça, mas ninguém sabia explicar o inexplicável. O tempo corria, o calor aumentava a urgência, e o enterro precisava de ser marcado.

No fim, diante da impossibilidade de encontrar o corpo e da necessidade de fechar aquele ciclo de dor, decidiram que haveria velório mesmo sem o corpo da noiva. O caixão dela seria mantido fechado, vazio, apenas uma representação simbólica da sua partida. O velório foi marcado para o fim da tarde, quando o sol começava a baixar. Eu cheguei cedo ao cemitério, como sempre fazia para preparar o terreno, mas naquela ocasião parecia que o lugar estava diferente, carregado de uma energia estranha. O ar estava mais pesado, quase sólido, e até os colegas que trabalhavam comigo, homens habituados à morte, estavam calados, a evitar brincar ou comentar coisas à toa, respeitando um medo que não sabiam nomear.

Quando os caixões chegaram, nunca vou esquecer a cena. Vieram lado a lado, carregados por familiares e amigos. O do rapaz era visivelmente pesado, com o peso da carne e dos ossos dentro, exigindo esforço dos que o carregavam. O dela, também fechado, era leve, oscilava nas mãos dos carregadores, vazio. Só de olhar, a gente percebia a diferença, e aquilo parecia gritar para todos os presentes, uma verdade desconfortável. Era impossível não sentir que faltava alguma coisa, que o ritual estava incompleto. Os familiares dividiam-se entre o choro convulsivo e um silêncio carregado de desconfiança e revolta.

Alguns pareciam aceitar a versão do hospital por falta de forças para lutar, outros não se conformavam. Lembro-me de uma tia da noiva, desesperada, a repetir alto que não acreditava na morte, que a sobrinha estava viva em algum lugar, à espera de ser resgatada dos escombros ou do esquecimento. As pessoas tentavam acalmá-la, dar-lhe água, mas a revolta dela refletia o que muitos ali pensavam em segredo. Enquanto os caixões eram colocados na capela do cemitério, percebi algo que nunca mais saiu da minha cabeça, uma sensação visceral.

Normalmente, em velórios, há uma espécie de movimento natural, uma fluidez na dor; pessoas a entrar, a sair, a abraçar-se, a murmurar palavras de conforto e orações. Mas naquele velório específico, parecia que o silêncio engolia tudo, como um buraco negro. Até o choro soava baixo, abafado, como se fosse sufocado por uma mão invisível. O caixão vazio causava um incómodo físico que ninguém conseguia explicar em voz alta, mas que todos sentiam na pele. Eu fiquei de canto, encostado a uma parede, a observar.

Era o meu papel ajudar no que fosse preciso, trazer cadeiras, limpar o chão, mas dentro de mim eu já sentia um arrepio estranho a percorrer a espinha. Eu não sabia explicar racionalmente, mas parecia que o próprio cemitério, a terra consagrada, não queria aquele caixão simbólico. Era como se a terra tivesse consciência de que receberia algo incompleto, uma mentira. E acreditem no que vos digo: a trabalhar tantos anos entre covas e ossos, a gente aprende a sentir quando o lugar reage, quando a atmosfera muda. O dia do enterro chegou, trazendo consigo uma tensão insuportável.

Os caixões chegaram juntos à beira das covas abertas, lado a lado. Um carregava o corpo do rapaz, vítima da fatalidade. O outro, como todos sabiam e sussurravam, estava vazio, oco. Aquela cena marcou-me profundamente, ficou gravada na minha retina. Havia uma diferença gritante entre eles, como se o peso de um fosse a vida encerrada, o ciclo fechado, e o outro fosse apenas madeira sem descanso, uma farsa.

Eu via o desconforto estampado nos rostos das pessoas, nos olhos vermelhos e inchados. Não era só luto, era indignação, era dúvida. Muita gente não aceitava enterrar um caixão sem corpo, achavam um desrespeito, um sacrilégio. O murmúrio corria de um canto a outro da multidão, como uma corrente de vento frio em meio ao calor abafado da tarde. Lembro-me de ter visto alguns parentes a discutir em voz baixa, gestos contidos mas tensos. Uma senhora, que parecia ser irmã da mãe da noiva, estava inconformada, com o rosto banhado em lágrimas de raiva.

Ela dizia, entre soluços:

“Isto não pode ser feito! Estamos a enterrar apenas madeira! Onde está a minha menina?”

Outros tentavam contê-la, abraçá-la, lembrando que era o último desejo da família dar um enterro digno, mesmo que simbólico, para que a alma pudesse descansar. Mas a verdade, nua e crua, é que ninguém estava em paz com aquela decisão. Era como se todos soubessem, lá no fundo da alma, que aquele sepultamento estava errado desde o começo, que violava alguma lei natural.

A cada passo que dávamos em direção à quadra escolhida para o sepultamento, eu sentia o ambiente mudar drasticamente. Normalmente, um cortejo fúnebre traz uma energia pesada, de tristeza, mas também um certo alívio, porque é o momento final, em que a família se despede de verdade e inicia o luto. Só que ali não havia despedida completa. O noivo tinha o corpo presente, a sua história encerrava-se ali. Mas a noiva não. A ausência dela era tão forte, tão presente, que parecia gritar mais alto do que as orações.

Eu percebia olhares de desconfiança lançados para os lados, como se muitos ainda acreditassem que ela poderia aparecer a qualquer momento, viva, a caminhar por entre as árvores. Quando os caixões foram posicionados lado a lado sobre as cordas, o silêncio tomou conta de forma absoluta. Até o choro pareceu cessar por um instante, suspenso no ar. O caixão vazio foi o primeiro a ser baixado à cova. Eu ajudei nas cordas, senti a leveza da madeira, e posso jurar pela minha vida que nunca senti uma resistência tão estranha.

Era leve, fisicamente leve, mas parecia que algo segurava o caixão, impedia-o de descer, como se a própria terra o rejeitasse, como se o solo se recusasse a engolir o vácuo. Arrepios tomaram-me de cima a baixo, os pelos dos braços eriçaram-se, e evitei olhar para os outros coveiros, porque sabia, pelos seus rostos tensos, que não era só eu que tinha sentido aquela força contrária. A terra caiu sobre a madeira com um som oco, diferente, um som de “nada”. As pessoas entreolhavam-se inquietas, perturbadas, e eu sabia que aquele silêncio carregava mais perguntas do que respostas.

Quando o corpo do rapaz foi enterrado logo depois, o ritual foi mais natural, a descida foi suave, o som da terra foi o habitual baque surdo. Mas ainda assim, não havia paz naquele momento. Era como se o caixão vazio ao lado tivesse contaminado tudo com a sua irregularidade. Quando a terra finalmente cobriu os dois caixões, nivelando o solo, o ambiente parecia ter ficado ainda mais pesado, sufocante. O choro misturava-se a um silêncio estranho, como se cada pessoa ali tivesse algo entalado na garganta, um grito ou uma dúvida, e não conseguisse colocar para fora.

Eu já tinha participado de centenas, talvez milhares de enterros até aquele dia, mas nunca, em toda a minha carreira, tinha visto nada parecido. Era como se o próprio cemitério tivesse parado, sustido a respiração, para observar aquele sepultamento incompleto. Alguns parentes permaneceram de pé diante das covas por longos minutos, estáticos, sem se mover, apenas a encarar o chão recém-revirado. Outros afastavam-se depressa, quase a correr, como se não aguentassem permanecer ali nem mais um segundo.

Lembro-me de uma criança, talvez um sobrinho pequeno da noiva, que perguntou em voz alta, com a inocência que só as crianças têm:

“Mas por que é que o caixão dela está vazio?”

O pai tentou puxá-lo para longe rapidamente, tapando-lhe a boca, mas já era tarde. A pergunta ecoou no ar e fez muita gente abaixar a cabeça, envergonhada ou assustada. Não havia resposta que aliviasse aquele vazio, aquela lacuna na realidade. Quando todos foram embora, quando os carros partiram, o silêncio tomou conta do lugar de uma forma avassaladora.

Eu fiquei para trás, como sempre, para finalizar os detalhes, ajeitar a terra, colocar as coroas de flores, limpar ao redor. E enquanto fazia isso, mecanicamente, percebi que até os pássaros tinham parado de cantar. Normalmente, naquela hora da tarde, ao pôr do sol, as árvores do cemitério ficavam cheias de som, de vida. Mas naquele dia não havia nada além de um silêncio sufocante, antinatural. Eu apanhei-me a olhar para os lados várias vezes, com a nítida sensação de estar a ser observado por olhos invisíveis.

Naquela mesma noite, antes de fechar os portões grandes de ferro, voltei a caminhar pelas quadras para conferir se estava tudo em ordem, se não tinha ficado ninguém para trás. Era o meu costume, a minha rotina, mas desta vez cada passo parecia mais pesado, mais difícil. Quando passei perto das covas recém-fechadas do casal, senti um vento frio, gélido, bater no meu rosto. Estranhei imenso, porque o calor do dia ainda não tinha ido embora, o solo ainda irradiava temperatura. O ar de Porto Velho não arrefece de repente daquele jeito, não sem uma tempestade.

Parei por alguns segundos, confuso, a tentar entender a origem daquele frio. E foi nesse exato instante que ouvi o que me gelou até aos ossos. Passos. Passos lentos, arrastados, rítmicos, como se alguém caminhasse entre as fileiras de túmulos, esmagando as folhas secas. Eu parei, segurei firme a lanterna com a mão trémula e chamei, tentando impor autoridade:

“Tem alguém aí?”

O som parou imediatamente. Olhei ao redor, iluminei os cantos escuros com o feixe de luz, os anjos de pedra, as cruzes, mas não vi nada. O meu coração batia acelerado, descompassado.

Recomecei a andar, a tentar convencer-me de que era um animal, e logo depois os passos voltaram, agora um pouco mais próximos, mais nítidos. Era impossível não sentir o arrepio percorrer o meu corpo inteiro, como uma descarga elétrica. Eu sabia que estava sozinho, ou pelo menos, deveria estar. A coragem faltou-me por um instante, as pernas tremeram, mas continuei até ao fim, até ao portão. Não encontrei ninguém, ninguém vivo. Só que aquela sensação de presença não me deixou em paz.

Naquela noite, deitado na minha cama, eu mal consegui pegar no sono. Cada vez que fechava os olhos, via aquele caixão leve, oscilante, a descer para a terra e sentia de novo aquele vento frio que não fazia sentido nenhum. Na noite seguinte ao enterro, eu cheguei ao cemitério já com o coração apertado, uma angústia no peito. O dia tinha sido cansativo, mas não era só o corpo que pesava, era a alma.

Era como se o silêncio do Recanto da Paz me tivesse acompanhado até casa, entrado pelas frestas da porta, a sufocar-me. Eu tentei descansar, mas dormi mal, tive pesadelos confusos. Quando o relógio marcou a hora de ir trabalhar para o turno, senti aquele frio na barriga que nunca tinha sentido antes, nem nos enterros mais pesados de vítimas de crimes ou acidentes brutais. Cheguei cedo, como de costume, para conferir os portões, varrer a entrada e garantir que tudo estava em ordem para a noite.

O sol tinha-se posto fazia pouco tempo e o céu ainda guardava um restinho de vermelho sangue misturado com o azul escuro, quase negro, da noite que chegava. As árvores faziam sombras compridas, distorcidas, e o vento soprava fraco, mas constante, como um sussurro nos ouvidos. Quando a noite caiu de vez e a escuridão tomou conta, comecei a caminhar pelas quadras para a ronda. O barulho dos grilos era o único som que quebrava o silêncio, mas de repente, até eles pareceram sumir, calados por algo maior.

Passei pela área nova, depois pelas covas mais antigas, cobertas de musgo, e tentei, juro que tentei, não olhar para o canto onde estavam os recém-casados. Mas era inevitável, era magnético. Algo me puxava para lá, uma força invisível, e foi nesse caminho que vi a figura. À primeira vista, com a luz fraca da lua e dos postes distantes, achei que fosse alguém atrasado, um visitante que tinha ficado depois do horário a rezar. Um homem caminhava devagar, de cabeça baixa, como se estivesse perdido nos seus pensamentos.

Ele não parecia perceber a minha presença, nem a luz da minha lanterna. Andava de cabeça baixa, passos arrastados no cascalho, como quem não sabe bem para onde ir ou não tem para onde voltar. Aproximei-me com cuidado, receoso, e disse:

“Senhor, já está na hora de fechar os portões. Preciso pedir que saia, por favor.”

Foi quando ele parou. Lentamente, muito lentamente, levantou a cabeça e respondeu num tom baixo, rouco, quase um lamento profundo:

“Estou à procura da minha esposa. Não consigo encontrá-la.”

Naquele instante, o tempo parou. O sangue gelou dentro das minhas veias e senti as pernas a falhar. A voz dele não era normal, não era humana; era fraca, distante, como se viesse de um lugar fundo, de dentro de um poço, cheio de dor e eco. Eu fiquei sem reação por alguns segundos, paralisado. Ao focar a lanterna, percebi o impossível. Era o noivo. O mesmo rapaz, com o mesmo fato de casamento, que eu tinha ajudado a enterrar no dia anterior. Reconheci o rosto, as feições, mesmo pálido, ceroso e sem o brilho da vida.

O olhar dele era vazio, perdido, dois buracos negros que não encaravam diretamente os meus olhos, mas pareciam procurar algo além de mim, através de mim. Ele não tinha ódio no rosto, não tinha ameaça na postura, tinha apenas tristeza. Uma tristeza tão profunda, tão antiga, que cortava o ar ao redor e pesava no peito de quem via. Eu quis dar um passo para trás, fugir, gritar, mas o meu corpo não obedeceu ao comando do cérebro. Fiquei ali, plantado, a tremer dos pés à cabeça, sem conseguir soltar uma palavra sensata.

Ele repetiu, com a mesma voz fraca e dolorosa:

“A minha esposa… Onde está a minha esposa?”

O mundo pareceu calar-se naquele instante. Nenhum vento, nenhum grilo, nenhum carro ao longe. Eu não conseguia acreditar no que os meus olhos viam. O rapaz estava ali, em pé, a poucos passos de mim, com o mesmo rosto que eu tinha visto no caixão durante o velório, o mesmo corpo rígido que ajudara a baixar para a terra e a cobrir com sete palmos de solo.

Mas ele não estava morto e imóvel diante dos meus olhos. Ele andava, falava, procurava, sofria. As olheiras eram profundas, escuras, e a pele parecia sem cor, quase translúcida sob a luz da lanterna. O cabelo desalinhado caía sobre a testa, sujo de terra, como se ele tivesse acabado de se levantar da cova naquele exato momento.

“Eu… eu vi o senhor ontem…” foi tudo o que consegui balbuciar, a voz a falhar, sem nem saber porque disse aquilo, talvez para confirmar a minha própria sanidade.

Ele não me respondeu diretamente, apenas olhou em volta, girando a cabeça mecanicamente, como quem busca alguém desesperadamente na escuridão, e repetiu:

“A minha esposa… Onde está a minha esposa?”

A dor na voz dele atravessou-me como uma faca afiada. Não era um grito de terror, não era fúria vingativa, era um pedido de socorro, um lamento de amor interrompido que parecia vir de dentro da própria terra. Eu quis correr, o instinto de sobrevivência gritava, mas os meus pés pareciam chumbados ao chão.

O meu coração batia tão forte que parecia querer sair pela boca, doía no peito, mas eu não conseguia mover um músculo. O rapaz então deu um passo à frente, na minha direção. Não era um passo ameaçador, de ataque, mas lento, arrastado, como quem carrega o peso do mundo. A cada movimento, eu ouvia um rangido estranho, seco, como se os ossos reclamassem por estarem a mexer-se quando já não deviam.

Ele ergueu o rosto em minha direção e, por um segundo, uma fração de tempo que pareceu eterna, os nossos olhares cruzaram-se. O vazio absoluto que vi nos olhos dele acompanhar-me-ia pelo resto da minha vida. Era como olhar para o abismo, para alguém que não sabia onde estava, nem porque continuava ali, preso. Antes que eu tivesse coragem de dizer qualquer coisa, de rezar ou de gritar, aconteceu o que mais me assustou.

O rapaz simplesmente desapareceu diante de mim. Não foi a correr, não foi a afastar-se para as sombras. Ele dissolveu-se no ar, como fumo, como neblina, como se nunca tivesse estado ali, deixando apenas o vazio. O silêncio que ficou depois foi tão brutal, tão pesado, que me fez perder o equilíbrio e quase cair de joelhos. Fiquei parado, a suar frio, com a roupa a colar ao corpo. Não havia mais passos, não havia mais vento, nem voz. Só eu, sozinho na escuridão, a tentar acreditar no que tinha acabado de presenciar.

Voltei para a guarita, o pequeno posto de vigia, sem olhar para trás, com medo do que poderia ver. Fechei a porta com força, tranquei-a e sentei-me na cadeira velha, a respirar rápido, a tentar acalmar o pânico. A minha mente gritava que era impossível, que eu estava cansado, stressado, que talvez tivesse visto coisas da minha cabeça, alucinações. Mas o meu corpo não mentia. Eu estava gelado, a tremer incontrolavelmente, e cada fio de cabelo do meu corpo estava em pé. Naquela noite, já em casa, não preguei os olhos.

Fiquei a pensar, a revirar na cama, se realmente tinha visto um morto caminhar ou se era eu que estava a enlouquecer aos poucos. Mas no fundo, lá no fundo da minha alma, eu sabia a verdade. O noivo estava perdido, a vagar pelo cemitério, preso, porque o corpo da esposa, a sua amada, nunca tinha chegado até ali para descansar ao seu lado. Depois daquela noite, nada mais parecia igual no Recanto da Paz. As sombras pareciam mais longas, os ruídos mais suspeitos. Eu continuava a cumprir o meu trabalho, porque precisava do salário, mas agora cada passo entre as quadras era acompanhado de um medo constante, uma vigilância eterna.

O rosto do noivo não saía da minha cabeça, aquele olhar perdido, vazio, suplicante, que parecia pedir ajuda que eu não podia dar. Eu perguntava-me o tempo todo se tinha enlouquecido, se estava a inventar aquilo para justificar o meu medo, mas no fundo eu sabia que não. Os colegas de trabalho começaram a notar a minha mudança, o meu silêncio, a minha palidez. Um deles, o Joaquim, um homem simples, perguntou-me certo dia:

“Está a acontecer alguma coisa contigo, Cido? Estás pálido, andas assustado, parece que viste uma alma penada.”

Eu não tive coragem de contar a verdade, com medo de ser ridicularizado. Só balancei a cabeça, negando. Inventei que era cansaço, problemas em casa, mas dentro de mim a verdade queimava como brasa. Eu tinha visto o morto e ele estava à procura da esposa. Passei dias a remoer aquilo, a investigar na minha cabeça, até que decidi conversar com gente mais antiga da cidade, tentar descobrir o que realmente se passava. Fui a uma tasca próxima ao mercado, onde sempre se reuniam velhos conhecidos e fofoqueiros, e puxei conversa despretensiosamente.

A tragédia do casal ainda era assunto fresco, o tema do momento. Toda a gente tinha uma teoria, uma explicação. Um senhor chamado Pedro, que já tinha trabalhado na manutenção do hospital anos antes, disse que acreditava piamente em falha médica grosseira.

“Aposto que esconderam alguma coisa. Vai ver a moça morreu por erro de atendimento, algum medicamento trocado, e para não sujar o nome do hospital ou dos médicos importantes, deram um jeito de sumir com o corpo, de o fazer desaparecer.”

Aquilo deixou-me inquieto, a pensar na corrupção e no medo, mas não era a única versão. Outros diziam, em sussurros, que a família da noiva escondia um segredo terrível. Uma vizinha, a Dona Alzira, uma senhora que sabia da vida de todos, jurava que tinha ouvido comentários estranhos de dentro da casa.

“Dizem que ela tinha uma doença que nunca contou para ninguém e que a família não queria que isso viesse à tona na autópsia. Talvez tenham dado fim no corpo para evitar o escândalo.”

Mas havia também quem acreditasse em algo muito mais sombrio, mais sinistro. Um rapaz que morava perto do cemitério disse com todas as letras, sem medo:

“Essa moça não morreu, não. Foi levada para outro lugar, escondida. E tem gente que acredita que foi contra a vontade dela, que o acidente foi uma oportunidade para alguém a levar.”

Cada história parecia mais absurda e conspiratória do que a outra, mas todas tinham algo em comum, um ponto de convergência. Ninguém aceitava o desaparecimento simples do corpo. Era impossível. Num lugar pequeno como Porto Velho, nos anos 80, onde todos se conheciam, nada passava despercebido. E ainda assim, até hoje, ninguém soube dar uma explicação concreta, uma prova. Enquanto os boatos se espalhavam, eu sentia-me cada vez mais envolvido, como se fizesse parte daquela história.

Não conseguia parar de pensar naquilo. O vazio físico do caixão, o lamento sobrenatural do noivo, a sensação de que o cemitério inteiro guardava uma ferida aberta, a sangrar. Eu sabia que não havia descanso para aquelas almas porque o casamento tinha ficado incompleto na morte. O corpo dele estava ali, a apodrecer na terra, mas o dela não. Naqueles dias, comecei a notar detalhes estranhos durante o meu trabalho. Algumas pessoas que visitavam o cemitério para limpar outras campas reclamavam de ouvir vozes baixas, como alguém a chamar por outra pessoa, um som trazido pelo vento.

Outros juravam a pés juntos que sentiam arrepios inexplicáveis e quedas de temperatura ao passar perto da quadra do casal. Eu sabia que não era a imaginação deles. Eu já tinha visto com os meus próprios olhos que o noivo continuava a vagar, preso no limbo. Passei a evitar aquela parte do cemitério, a dar voltas maiores, mas não adiantava. Sempre que me afastava, algo me puxava de volta, a minha atenção voltava para lá. Era como se o noivo me chamasse de forma invisível, esperando que eu, o coveiro, lhe desse uma resposta que nem eu possuía.

Certo dia, criei coragem e voltei a conversar com os colegas mais velhos. Um dos mais antigos, o velho Batista, um homem de poucas palavras, olhou para mim com seriedade quando mencionei o nome da noiva e as coisas estranhas que se passavam. Ele baixou a voz, olhou em redor e disse:

“Cido, tem coisa aí que não é para ser mexida. Já ouvi histórias demais nesta cidade. O desaparecimento desse corpo não foi por acaso, houve mão humana e talvez mão do diabo.”

“Mas o que o senhor acha que aconteceu?”, perguntei, ansioso por uma luz.

Ele respirou fundo, cuspiu para o chão, olhou para os lados e respondeu:

“Ou esconderam o corpo, ou esconderam a verdade. E quem esconde a verdade, não quer que os mortos falem.”

Os rumores cresciam como erva daninha. Alguns diziam que a família dela tinha levado o corpo para fora da cidade para ser enterrado noutro jazigo, que havia uma briga de herança envolvida que ninguém sabia. Outros juravam que ela ainda estava viva quando foi retirada do hospital e que alguém a escondeu em cativeiro.

Nunca houve prova, nunca houve registo, nunca houve polícia a sério, apenas boatos, histórias que se multiplicavam no ar abafado das ruas. E eu, cada vez mais atormentado, comecei a perceber que estava a ser consumido pelo caso. Às vezes, em casa, no conforto do meu lar, acordava no meio da noite, a suar, ouvindo ou achando que ouvia aquela mesma voz fraca e dolorosa:

“Estou à procura da minha esposa.”

Eu pulava da cama, suado, com o coração acelerado, acendia a luz, mas não tinha ninguém ali. Eu carregava o peso daquele caixão vazio na minha consciência, como se fosse minha responsabilidade resolver o mistério. Talvez porque eu estivesse lá no momento exato em que a terra recebeu o nada. Talvez porque eu tivesse visto com os meus próprios olhos que ele, o noivo, não descansava. Uma certeza cresceu dentro de mim, sólida como uma lápide.

Um enterro incompleto abre uma ferida no tecido do mundo que nunca fecha. O cemitério não guarda apenas corpos, ossos e cinzas. Ele guarda também ausências, histórias interrompidas abruptamente, mentiras enterradas fundo junto com a dor dos vivos. Mesmo depois de tanto tempo, ainda havia noites em que eu sonhava com aquele olhar vazio e desesperado. Com o tempo, outros túmulos foram sendo abertos, outras histórias trágicas chegaram, outros prantos tomaram conta dos corredores do Recanto da Paz.

Mas aquele canto específico, a quadra onde o casal foi “enterrado”, nunca mais foi o mesmo. A relva ali crescia diferente, o ar era mais denso. Era como se a terra tivesse absorvido a angústia daquele sepultamento incompleto. Colegas meus, que vieram depois, diziam que também sentiam coisas estranhas ali. O rapaz que assumiu o meu posto quando me aposentei, um jovem cético, certa vez contou-me, com medo nos olhos, que ouviu passos quando estava sozinho a fazer a ronda.

Disse que, ao olhar para trás, viu uma sombra parada entre as duas covas e que essa sombra parecia olhar para ele, imóvel, estática, como quem espera uma resposta, uma direção. Outros visitantes falavam de vozes, sons baixos, quase sussurros, que chamavam nomes, como quem procura alguém na multidão. Alguns diziam ouvir o nome da noiva, outros o do noivo. Ninguém sabia ao certo de onde vinha o som e poucos tinham coragem de permanecer tempo demais por ali, sentindo a opressão no peito.

O Recanto da Paz, que sempre foi um lugar silencioso por natureza, passou a carregar um tipo de silêncio diferente, carregado. Um silêncio cheio de saudade, de espera eterna, de ausência. Eu mesmo tentei voltar algumas vezes depois que me aposentei, para visitar outros conhecidos ou apenas para relembrar. Mas toda a vez que passava pelo portão, o meu corpo reagia involuntariamente, o ar parecia mudar, ficar metálico, e o peso voltava ao peito. É difícil explicar a quem nunca sentiu, mas quem viveu tanto tempo entre os mortos aprende a reconhecer quando algo ainda está preso entre os vivos, quando a conta não foi fechada.

Eu sabia, com toda a certeza da minha alma, que aquele noivo não descansava. Sabia que o lamento dele ainda rondava o cemitério todas as noites, buscando o que faltava para encontrar a paz. Muitas vezes apanhei-me a pensar se devia ter feito mais na altura, se devia ter procurado o corpo, questionado mais o hospital, feito barulho, ajudado a família a entender o que aconteceu. Mas o que um simples coveiro poderia fazer contra forças tão maiores? A gente só cumpre ordens.

Abre a cova, baixa o caixão e fecha o buraco. O resto, as perguntas, a gente tenta esquecer para conseguir dormir. Hoje, aposentado, com as mãos já cansadas de tanto cavar e os ossos a doer com a humidade, ainda carrego a lembrança vívida daquele olhar. O olhar de um homem que não sabia onde estava, nem por que ainda estava ali, preso à terra. Um olhar que não procurava vingança, não queria mal a ninguém, mas sim descanso, reencontro. Já ouvi dizer que, de tempos em tempos, visitantes deixam flores frescas sobre o túmulo dela, mesmo sem saber ao certo se ela está ali ou não.

É gente que escuta a lenda, a história, e se comove com a tragédia do amor interrompido. Outros acendem velas perto da cruz do noivo, iluminando a pedra fria, como se tentassem iluminar o caminho dele até à esposa perdida na escuridão. Mas nenhuma luz parece durar muito tempo ali. As velas apagam-se sempre antes da hora, tremeluzem e morrem, como se o vento carregasse a dor junto com a chama, ou como se o sopro do noivo continuasse a passar por ali, na sua busca eterna.

Hoje, a olhar para trás, entendo que aquele enterro nunca terminou de verdade. Foi um ritual pela metade, uma cerimónia quebrada, um corpo sepultado e outro desaparecido, um amor interrompido no auge da felicidade, condenado a vagar entre dois mundos. Aprendi no silêncio das covas que não existe paz sem verdade e que promessas quebradas não descansam, nem mesmo depois da morte. O Recanto da Paz continua lá, estático sob o sol e a chuva, a guardar histórias, ausências e a grande pergunta que nunca se calou: o que realmente aconteceu com o corpo da noiva?