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Fazendeiro M*ta Esposa e Tratorista em Rondônia — Peões Encontraram C*rpos no Pasto

22 de junho de 2001. Dois corpos sob uma lona preta em um pasto de uma fazenda em Rondônia. O sol começava a nascer quando Geraldo, o capataz da fazenda Santa Luzia, sentiu o aroma. Eram 6h40 da manhã de um domingo. O vento soprava do norte, trazendo consigo um cheiro que o povo da roça conhece bem.

O cheiro da morte. Geraldo trabalhou com gado a vida inteira. Ele conseguia distinguir o fedor de um animal morto daquilo que havia encontrado naquela manhã. Ele caminhou lentamente pelo pasto. As botas afundavam na terra úmida da manhã anterior. 200 metros à frente, ele viu a lona. Era preta, do tipo usada para cobrir silos de milho.

Estava caída em cima de algo volumoso demais para ser um animal. O capataz parou a 5 metros de distância. Não havia necessidade de se aproximar mais. Ele correu de volta para a sede, acordou os outros peões aos gritos e mandou o mais jovem buscar ajuda na cidade. Em menos de 2 horas, a Polícia Civil de Rondônia chegou à propriedade.

Quatro viaturas subiram a estrada de terra que cortava a fazenda. O oficial encarregado era um homem de 53 anos chamado Agenor. Ele era policial há 28 anos e conhecia bem esse tipo de cenário. Rural, isolado, perfeito para esconder crimes. Quando levantaram a lona, encontraram Marlene e Renato.

Ela tinha 38 anos, ele tinha 26. Seus corpos estavam lado a lado, como se estivessem dormindo. Mas os ferimentos contavam uma história diferente. Marlene tinha duas perfurações na região do peito. Renato tinha três, todas causadas por arma de fogo de alto calibre. A análise forense inicial estimou que a morte havia ocorrido entre 48 e 72 horas antes.

Isso situava o crime na quinta-feira anterior, 20 de junho. O delegado Agenor caminhou até a sede da fazenda. Precisava falar com o proprietário. Valdecir estava sentado na varanda tomando café, como se fosse apenas mais um dia. Quando viu os policiais se aproximarem, não se levantou. O oficial perguntou onde ele estava na quinta-feira.

Valdecir respondeu que estava na fazenda. Perguntou se conheciam as vítimas. Valdecir confirmou. Marlene era sua esposa há 18 years. Renato era um funcionário contratado há alguns meses. O detetive fez uma última pergunta. Sabia quem tinha feito aquilo? Valdecir olhou para o horizonte, bebeu o último gole de seu café e respondeu em uma voz calma: “Fui eu.”

A confissão veio sem hesitação, sem remorso. Valdecir acreditava que havia agido corretamente. Para ele, havia restaurado sua honra. Aos olhos do sistema de justiça brasileiro, ele havia cometido um duplo homicídio qualificado. Mas o que levou um fazendeiro respeitado a matar a própria esposa e um funcionário? Marlene nasceu em 1963 em uma pequena cidade no interior de Minas Gerais.

Filha de agricultores, ela cresceu entre cafezais e sonhos modestos. Aos 19 anos, conheceu Valdecir em uma festa de São João. Ele era 7 anos mais velho e já havia alcançado o que muitos aspiravam. Tinha adquirido terras em Rondônia durante o programa de colonização da Amazônia. Prometeu a Marlene uma vida melhor. Eles se casaram em dezembro de 1983.

A mudança para Rondônia aconteceu no mês seguinte. Marlene deixou para trás sua família, seus amigos e tudo o que conhecia. Embarcou em um ônibus que levou três dias para cruzar o país. Quando chegou à fazenda Santa Luzia, encontrou uma casa de madeira no meio do nada. Os primeiros anos foram de muito trabalho duro.

Valdecir passava semanas inteiras no pasto cuidando do gado. Marlene cuidava da casa, cozinhava para os peões e tentava se adaptar ao isolamento. O casal não teve filhos. Valdecir nunca explicou o motivo. Marlene aprendeu a não fazer perguntas. Com o passar dos anos, a fazenda prosperou.

A casa de madeira transformou-se em uma sede de alvenaria com quatro quartos. O rebanho cresceu de 100 para 800 cabeças de gado. Valdecir comprou terras vizinhas e tornou-se um dos maiores latifundiários da região. Mas a prosperidade material não trouxe felicidade para Marlene. O marido era um homem de poucas palavras.

Trabalhava das 5 da manhã até as 8 da noite. Quando chegava em casa, jantava em silêncio e ia dormir. As conversas eram sobre a fazenda, o gado, as contas, nunca sobre sentimentos. Marlene tinha uma rotina solitária. Acordava cedo, preparava o café para os funcionários, limpava a casa e cuidava da horta.

À tarde, escutava rádio ou lia revistas velhas que chegavam da cidade uma vez por mês. Aos domingos, ia à missa na capela do vilarejo mais próximo. Era o seu único contato com o mundo exterior. Os vizinhos mais próximos moravam a 15 km de distância. O telefone mais próximo ficava na cidade, a 40 minutos de carro. Marlene vivia em uma bolha de silêncio, cercada por homens rudes e gado.

Em outubro de 2000, Valdecir contratou um novo funcionário. Renato tinha 25 anos e vinha de Cuiabá. Tinha trabalhado em fazendas no Mato Grosso e chegou com boas referências. Seu trabalho seria operar o trator novo que Valdecir havia comprado. Renato era diferente dos outros peões.

Tinha estudado até a segunda série e sabia ler. Gostava de música sertaneja e tocava violão nas noites de folga. Era educado e tratava Marlene com respeito, algo raro naquele ambiente. Nos primeiros meses, o relacionamento deles era estritamente profissional. Marlene servia as refeições. Renato agradecia, nada mais.

Mas gradualmente as conversas ficaram mais longas. Primeiro sobre o tempo, depois sobre música e finalmente sobre a vida. Ninguém sabe exatamente quando a amizade se transformou em algo mais. O que se sabe é que na primeira metade de 2001, Marlene e Renato já planejavam fugir juntos. Na manhã do domingo, 24 de junho, a fazenda Santa Luzia transformou-se em uma cena de crime.

O detetive Agenor isolou uma área de 500 m² ao redor dos corpos. A equipe forense de Porto Velho foi acionada. Os peritos chegaram por volta das 11h. Eram três profissionais especializados em crimes contra a pessoa. Trouxeram equipamentos de coleta de provas e uma câmera para documentar a cena. O primeiro procedimento foi o exame externo os corpos.

Marlene vestia uma blusa azul e calça jeans. Renato usava uma camisa xadrez e bermuda. Ambos estavam descalços. Isso indicava que foram surpreendidos dentro ou perto da sede da fazenda. Os ferimentos de Marlene eram consistentes com tiros de uma espingarda calibre 12. O primeiro projétil atingiu a região esquerda do peito, o segundo, o abdômen. A trajetória sugeria que ela estava de frente para o atirador.

Não havia sinais de defesa em seus braços. Renato tinha três ferimentos, dois no peito e um no ombro direito. A distribuição dos impactos indicava movimentação. Ele provavelmente tentou correr ou se proteger. Os peritos forenses encontraram marcas de arrastamento no pasto, originadas de um ponto a aproximadamente 20 metros de onde os corpos foram encontrados.

O delegado Agenor ordenou uma busca na sede da fazenda. Na sala de armas de Valdecir, encontraram uma espingarda calibre 12 com dois cartuchos deflagrados. O proprietário mantinha as armas devidamente registradas. Tinha porte para três armas de fogo. Na cozinha, a mesa ainda estava posta para o almoço.

Três pratos, três copos, três conjuntos de talheres. Valdecir explicou que havia convidado a esposa e Renato para uma conversa. Disse que queria esclarecer os boatos que circulavam sobre os dois. Os peões foram interrogados individualmente. Geraldo, o capataz, afirmou que viu Valdecir chamando Marlene e Renato na tarde de quinta-feira.

Era por volta das 14h. Disse que o patrão parecia calmo, mas tinha um olhar estranho nos olhos. Outro funcionário chamado Josué disse ter ouvido barulhos altos por volta das 15h daquele mesmo dia. Pensou que era Valdecir espantando urubus do pasto, uma prática comum na região. Não deu muita importância.

Um terceiro peão, Ademir, revelou que Valdecir passou a noite de quinta-feira bebendo sozinho na varanda. Não jantou, não conversou com ninguém. Na sexta-feira agiu normalmente, deu ordens, checou o gado e pagou contas na cidade. O detetive Agenor reuniu as provas: a confissão de Valdecir, os depoimentos dos funcionários, a arma encontrada, os corpos no pasto — tudo apontava para um crime premeditado, executado a sangue frio por um homem que se sentia traído.

But a motivação completa permanecia obscura. O que Valdecir sabia sobre a esposa e o tratorista? Quem lhe contou sobre o caso? E por que escolheu aquele dia específico para agir? A investigação inicialmente considerou outras hipóteses. O detetive Agenor não podia ignorar possibilidades alternativas, mesmo com a confissão de Valdecir em mãos.

Era o procedimento padrão em casos de homicídio. A primeira hipótese alternativa envolvia disputas de terras. A região de Rondônia passava por intensos conflitos agrários no início dos anos 2000. Grileiros, posseiros e fazendeiros travavam batalhas judiciais e, às vezes, violentas. Valdecir tinha inimigos. Um vizinho chamado Erivaldo havia perdido uma ação de demarcação de terras contra Valdecir anos antes.

A disputa envolvia 50 hectares de pasto. Erivaldo jurou vingança publicamente, mas uma checagem rápida descartou seu envolvimento. Ele estava em Porto Velho no dia do crime, hospitalizado para uma cirurgia de vesícula. A segunda hipótese envolvia dívidas. Renato tinha antecedentes criminais em Cuiabá. Uma briga de bar em 1998 resultou em lesão corporal leve.

O chefe de polícia investigou se ele tinha algum envolvimento com agiotas ou grupos criminosos. Nada foi encontrado. A terceira hipótese surgiu de um depoimento inesperado. Uma funcionária doméstica chamada Conceição trabalhou na fazenda até março de 2001. Ela foi à delegacia três dias após o crime. Disse que tinha informações importantes.

Conceição revelou que Marlene sofria abusos de Valdecir. Nada físico, segundo ela, mas humilhações constantes. Valdecir a chamava de inútil por não ter lhe dado filhos. Dizia que ela só servia para gastar dinheiro e proibia visitas de familiares. O detetive perguntou por que Conceição havia deixado o emprego.

Ela respondeu que Valdecir a demitiu quando percebeu que ela era amiga de Marlene. Disse que o patrão não gostava que a esposa tivesse companhia feminina. Essa informação mudou a perspectiva da investigação. Não era simplesmente um crime de paixão motivado por ciúmes. Havia um histórico de controle e violência psicológica.

Marlene vivia sob constante vigilância do marido, mas uma contradição surgiu. Se Valdecir era tão controlador, como pôde não ter notado o envolvimento de sua esposa com Renato por oito meses? A resposta veio de uma fonte improvável. O padre da capela do vilarejo, chamado Antônio, procurou o chefe de polícia na terça-feira seguinte ao crime.

Disse que Marlene havia se confessado com ele em maio de 2001. Sem revelar o conteúdo da confissão, o padre afirmou que Marlene estava determinada a deixar o marido. Havia pedido orientação sobre como proceder. O padre aconselhou diálogo e paciência. Marlene respondeu que já havia tentado por 18 anos.

Disse que havia encontrado alguém que a tratava como um ser humano. O padre ficou preocupado. Conhecia Valdecir e sua reputação de homem violento. Tentou convencer Marlene a agir com cautela. Ela prometeu que seria cuidadosa. Duas semanas depois, estava morta. A hipótese de crime passional foi confirmada. Mas uma pergunta permanecia.

Quem contou a Valdecir sobre o caso? A resposta veio no quinto dia de investigação. Un comerciante da cidade chamado Osvaldo foi à delegacia. Disse que tinha informações sobre o caso, mas pediu anonimato. O delegado concordou. Osvaldo revelou que foi ele quem contou a Valdecir sobre Marlene e Renato.

Não por maldade, segundo ele. Simplesmente comentou o que todos na cidade já sabiam. Aconteceu durante uma conversa casual em um bar. Três dias antes do crime, o comerciante descreveu a reação de Valdecir. Primeiro, silêncio. Depois, um sorriso estranho. Finalmente, uma pergunta: “Há quanto tempo isso está acontecendo?”

Osvaldo respondeu que os boatos circulavam há cerca de dois meses. Valdecir pagou a conta e saiu sem dizer mais nada. O detetive Agenor confrontou Valdecir com essa informação. O fazendeiro confirmou. Disse que já suspeitava há semanas. Havia notado olhares trocados entre a esposa e o funcionário. Notou que Marlene estava diferente, mais feliz, mais vaidosa.

Valdecir disse que começou a observar os dois. Viu quando Renato entregou um bilhete a Marlene na cozinha. Encontrou o bilhete escondido em uma lata de biscoitos. O conteúdo era explícito. Renato dizia que a amava e que eles estavam quase livres. O fazendeiro guardou o bilhete e não confrontou ninguém. Planejou sua vingança em silêncio.

Escolheu uma quinta-feira porque era dia de feira na cidade. A maioria dos peões estaria fora da fazenda, dando-lhes privacidade para agir. Na quinta-feira, 20 de junho, Valdecir acordou às 5h da manhã, como de costume. Tomou café, deu ordens aos funcionários e esperou. Às 13h, quando a fazenda estava praticamente vazia, chamou Marlene e Renato. Disse que precisava conversar sobre o futuro da propriedade. Queria discutir uma possível promoção para Renato. Marlene deveria participar porque cuidava das finanças domésticas.

Ambos aceitaram sem suspeitar de nada. A conversa começou na sala de jantar. Valdecir serviu café. Falou sobre o gado, as próximas vendas e os planos de expansão. Após 20 minutos, mudou o tom. Perguntou-lhes diretamente se tinham algo a confessar. Marlene empalideceu. Renato tentou negar.

Valdecir mostrou o bilhete. O silêncio que se seguiu durou quase um minuto. Então Marlene falou, confirmando tudo. Disse que estava indo embora com Renato e pediu o divórcio. Valdecir levantou-se sem dizer nada, foi até o armário de armas e voltou com a espingarda. Os minutos seguintes foram reconstruídos pelos peritos forenses e pelo depoimento de Valdecir.

O fazendeiro descreveu os acontecimentos com uma frieza perturbadora. Não demonstrou remorso em nenhum momento. Quando Valdecir voltou com a arma, Renato tentou reagir, levantou-se da cadeira e avançou em direção ao fazendeiro. O primeiro disparo o atingiu no ombro direito. A força do impacto o jogou contra a parede.

Marlene gritou e correu em direção à porta dos fundos. Valdecir recarregou calmamente a espingarda e seguiu a esposa pelo corredor. Ela tropeçou no degrau e caiu no chão da varanda. O segundo tiro atingiu-a nas costas, na região abdominal. Marlene ainda tentou rastejar para longe. Valdecir se aproximou. O terceiro tiro foi no peito.

Marlene parou de se mover. O fazendeiro voltou para dentro da casa. Renato havia conseguido se levantar. Estava tentando alcançar o telefone na parede da cozinha. Valdecir disparou mais dois tiros. Os projéteis atingiram o tratorista no peito. Renato caiu ao lado do fogão. Valdecir checou os corpos, confirmou que ambos estavam mortos, limpou a espingarda com um pano de prato, guardou a arma na sala, arrastou os corpos um a um para o pasto e cobriu-os com uma lona que estava no galpão. Todo o processo levou cerca de uma hora.

Às 16h30, Valdecir tomou banho, trocou de roupa e queimou as vestes manchadas de sangue em uma fogueira nos fundos da propriedade. Naquela noite, sentou-se na varanda e bebeu meia garrafa de cachaça. Na sexta-feira, agiu como se nada tivesse acontecido. Foi à cidade pagar contas, conversou com vizinhos e comprou mantimentos.

Quando perguntado sobre Marlene, dizia que ela tinha ido visitar a família em Minas Gerais. No sábado, Valdecir passou o dia na fazenda. Evitou a área onde havia deixado os corpos. Sabia que seria apenas uma questão de tempo até que alguém os encontrasse. Não tentou fugir, não escondeu nenhuma prova. Esperou.

O detetive Agenor perguntou por que ele não havia tentado escapar. Valdecir respondeu que não tinha feito nada de errado. Disse que qualquer homem de verdade faria o mesmo. Afirmou que preferia a prisão a viver desonradamente. Essa mentalidade refletia um código de conduta ainda presente em áreas rurais do Brasil.

A chamada legítima defesa da honra foi usada por décadas para justificar crimes passionais. Até 1991, os tribunais brasileiros frequentemente absolviam maridos que matavam esposas adúlteras, mas em 2001 a legislação e a jurisprudência já haviam mudado. O argumento de legítima defesa da honra não era mais aceito pelos tribunais superiores. Valdecir seria julgado por duplo homicídio qualificado.

O inquérito policial foi concluído em 45 dias. O detetive Agenor reuniu provas materiais, depoimentos e a confissão detalhada de Valdecir. O relatório final tinha 87 páginas. Três qualificadoras foram identificadas: motivo torpe, por ter matado por ciúmes e sentimento de posse; recurso que dificultou a defesa das vítimas, já que ambas foram pegas de surpresa e estavam desarmadas; e feminicídio.

No caso específico de Marlene, o termo feminicídio ainda não existia na legislação brasileira em 2001. A lei que definiu esse crime só seria aprovada em 2015, mas o Ministério Público classificou a morte de Marlene como homicídio qualificado por ter sido cometido contra uma mulher por razões da condição de sexo feminino.

O promotor encarregado do caso era um homem de 42 anos chamado Roberto. Ele tinha experiência em crimes contra a vida e conhecia bem os tribunais do júri de Rondônia. Ele apresentou a denúncia contra Valdecir em agosto de 2001. A defesa de Valdecir ficou a cargo de um advogado da cidade chamado Marcos.

Ele era conhecido por defender fazendeiros em disputas trabalhistas e de terras. Nunca havia trabalhado em casos de homicídio antes. Aceitou o caso porque Valdecir era um cliente de longa data. A estratégia da defesa foi controversa desde o início. Marcos tentou argumentar que Valdecir agiu sob o domínio de violenta emoção, logo em seguida a injusta provocação da vítima.

Se aceito, esse argumento poderia reduzir a pena de um terço a um sexto. O promotor Roberto reagiu veementemente, argumentando que não houve violenta emoção envolvida porque Valdecir planejou o crime por três dias. Também contestou a ideia de injusta provocação. Ter um caso extraconjugal não constitui injusta provocação perante a lei.

O juiz responsável pelo caso era Henrique, da Vara Criminal da Comarca. Ele revisou a denúncia e decidiu pronunciar Valdecir. Isso significava que o fazendeiro seria julgado por um júri popular, conforme estipulado pela Constituição para crimes dolosos contra a vida. A decisão de pronúncia foi publicada em novembro de 2001.

Valdecir permaneceu em prisão preventiva desde o dia do crime. A defesa solicitou a liberdade provisória três vezes. Todas foram negadas com base na gravidade do crime e no risco de fuga. O julgamento foi marcado para março de 2002. A cidade de pouco mais de 20.000 habitantes nunca tinha visto um caso com tamanha repercussão.

Os moradores estavam divididos. Alguns apoiavam Valdecir, enquanto outros o consideravam um assassino covarde. Os meses que antecederam o julgamento revelaram mais detalhes sobre a personalidade de Valdecir. Testemunhas que antes tinham medo de falar começaram a procurar a promotoria. O retrato que surgiu foi de um homem controlador e violento.

Uma ex-funcionária chamada Rosana, que trabalhou na fazenda em 1995, disse que presenciou Valdecir insultando verbalmente Marlene em várias ocasiões. Chamava-a de burra, inútil e outros termos pejorativos. Rosana pediu demissão após três meses porque não aguentava o ambiente. Um vizinho chamado Pedro revelou que Valdecir tinha fama de violento desde jovem.

Nos anos 80, envolveu-se em brigas em bares da região. Uma delas resultou em ferimentos graves em outro homem. Valdecir nunca foi processado porque a vítima retirou a queixa após receber dinheiro. O próprio irmão de Valdecir, chamado Ademar, testemunhou para a acusação. Disse que o relacionamento do irmão com Marlene sempre foi problemático.

Valdecir a tratava mais como uma empregada do que como esposa. Nunca permitiu que ela tivesse o próprio dinheiro ou tomasse decisões sobre a casa. Ademar também revelou que Valdecir traiu Marlene várias vezes ao longo do casamento. Teve casos com funcionárias da fazenda, com mulheres da cidade e até com a esposa de um vizinho. Para ele, isso era um direito do homem, mas não aceitaria o mesmo comportamento de sua esposa.

A defesa tentou descredibilizar esses depoimentos. O advogado Marcos argumentou que eram testemunhos de pessoas com ressentimentos pessoais contra Valdecir. Disse que o histórico do réu era irrelevante para o julgamento deste crime específico. O promotor Roberto discordou. Argumentou que o perfil de Valdecir demonstrava um padrão de comportamento abusivo que culminou nos homicídios. Pediu ao júri que considerasse o contexto mais amplo do relacionamento entre o réu e as vítimas.

Um laudo psicológico foi produzido a pedido da defesa. O psicólogo que examinou Valdecir concluiu que ele não apresentava nenhum transtorno mental que comprometesse sua capacidade de entendimento. Ele era imputável, ou seja, totalmente responsável por seus atos. O laudo também identificou traços de uma personalidade narcisista e dificuldade em lidar com a frustração. Valdecir via a esposa como sua propriedade. A traição representava não apenas uma ofensa pessoal, mas uma ameaça à sua imagem pública. Ele matou para preservar seu status social. Essa análise reforçou o argumento da acusação. O crime não foi o resultado de um momento de descontrole emocional. Foi uma decisão calculada para eliminar duas pessoas que ousaram desafiar a autoridade de Valdecir.

O julgamento começou em 12 de março de 2002, às 9h da manhã. O Tribunal do Júri estava lotado de moradores curiosos, jornalistas regionais e familiares das vítimas e do réu. O conselho de sentença era formado por sete membros, quatro homens e três mulheres. O promotor Roberto fez a primeira sustentação oral. Apresentou as provas materiais, a espingarda, os laudos periciais, as fotografias da cena do crime, leu trechos da confissão de Valdecir e mostrou o bilhete que Renato havia escrito para Marlene.

A argumentação do promotor durou 2 horas. Ele enfatizou que Valdecir teve tempo para refletir sobre suas ações. Planejou o crime por três dias, escolheu o momento ideal, executou friamente as vítimas, depois escondeu os corpos e mentiu sobre o paradeiro da esposa. O promotor também abordou a questão da suposta defesa da honra. Citou a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, que rejeitava esse argumento. Disse que matar por ciúmes não é defender a honra, mas exercer um controle absoluto sobre outra pessoa, mesmo após a morte.

A defesa apresentou então sua versão dos fatos. O advogado Marcos tentou humanizar Valdecir. Falou sobre sua infância pobre, seu histórico de trabalho e sua contribuição para a economia local. Disse que ele era um homem traído que perdeu o controle em um momento de desespero. Marcos também questionou a conduta das vítimas. Sugeriu que Marlene e Renato haviam provocado a tragédia ao terem um caso dentro da própria casa de Valdecir. Disse que qualquer homem se sentiria humilhado naquela situação.

Essa linha de raciocínio gerou protestos na plateia. A irmã de Marlene, que havia viajado de Minas Gerais para acompanhar o julgamento, teve que ser contida por familiares. O juiz Henrique ordenou silêncio e ameaçou esvaziar a sala. O interrogatório de Valdecir durou 40 minutos. Ele respondeu às perguntas com a mesma frieza que demonstrava desde sua prisão. Disse que não se arrependia. Afirmou que faria tudo de novo se fosse necessário. Declarou que Marlene havia escolhido o próprio destino quando decidiu traí-lo.

Os jurados se retiraram para deliberar às 18h. A votação dos quesitos resultou por volta de 1h40. Quando retornaram ao plenário, o silêncio era absoluto. A primeira pergunta indagava se Valdecir havia matado Marlene. Resposta: Sim, por sete votos a zero. A segunda indagava se ele havia matado Renato. Resposta: Sim, por 7 a 0. Os quesitos relativos às qualificadoras também foram confirmados por unanimidade.

O juiz Henrique leu a sentença às 20h15. Valdecir foi condenado a 30 anos de reclusão, inicialmente em regime fechado. Era a pena máxima estipulada no Código Penal Brasileiro na época para o homicídio qualificado. A decisão levou em conta a gravidade dos crimes, a frieza na execução e a ausência de remorso demonstrada pelo réu. O juiz também mencionou que o argumento de legítima defesa da honra era incompatível com os valores constitucionais de igualdade entre homens e mulheres.

Valdecir ouviu a sentença em silêncio. Não esboçou nenhuma reação quando os números foram anunciados. Foi levado de volta à carceragem do fórum e posteriormente transferido para o sistema penitenciário do estado. A defesa recorreu da decisão. A apelação alegava erro na dosimetria da pena e questionava algumas decisões processuais do juiz presidente. O Tribunal de Justiça de Rondônia revisou o caso em setembro de 2002. A condenação foi mantida em sua totalidade.

A fazenda Santa Luzia foi vendida em leilão público para pagar as indenizações às famílias das vítimas. A mãe de Renato, que morava em Cuiabá, recebeu 60 mil reais. A família de Marlene em Minas Gerais recebeu a mesma quantia. O restante dos bens de Valdecir foi bloqueado para cobrir as custas processuais. Os funcionários da fazenda foram dispensados após a venda. Geraldo, o capataz que encontrou os corpos, mudou-se para outra propriedade na região. Disse em entrevista a um jornal local que nunca conseguiu esquecer o cheiro daquela manhã de junho.

Valdecir cumpriu pena em Porto Velho até 2012, quando obteve a progressão para o regime semiaberto. In 2017, foi transferido para o regime aberto. Terminou de cumprir a pena em 2022, aos 73 anos de idade. O caso de Marlene e Renato tornou-se uma referência em estudos sobre violência de gênero em áreas rurais do Brasil.

Pesquisadores apontaram que o isolamento geográfico, a dependência econômica e a cultura patriarcal criam condições propícias para relacionamentos abusivos que podem culminar em tragédias. A legislação brasileira evoluiu desde então. A Lei Maria da Penha, de 2006, criou mecanismos de proteção para mulheres em situação de violência doméstica. A lei do feminicídio, de 2015, tornou mais severas as penas para o assassinato de mulheres motivado por violência de gênero.

Marlene tinha 38 anos quando morreu. Renato tinha 26. Ambos foram sepultados em cerimônias separadas, em cidades diferentes, sem que suas famílias tivessem se conhecido pessoalmente. O caso foi encerrado em 2022, após o indivíduo condenado ter cumprido integralmente a sua pena.