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Garimpeiro desapareceu no Pará em 1982 — 30 Anos Depois, Imagem de Satélite Revela Algo Perturbador

15 de março de 1982, região de Itaituba, Pará. Ademir Correa Bastos limpou o suor da testa com as costas da mão, que estava suja de terra vermelha. O calor de março de 1982 fazia de cada movimento uma batalha contra o vapor que subia do solo encharcado da Floresta Amazônica. Aos 34 anos, Miro, como era conhecido entre seus companheiros, carregava em seu rosto marcado pelo sol os sinais de alguém que havia passado a vida inteira cavalgando esperanças no subsolo do Pará.

A região de Itaituba fervilhava de atividades desde o final da década de 1970. A descoberta de ouro no rio Tapajós havia transformado aquela parte da Amazônia em um formigueiro humano. Homens vinham de todos os cantos do Brasil carregando picaretas. Sonhos e a certeza de que uma grande fortuna estava a apenas uma bateia de distância. Miro havia chegado lá três anos antes, vindo de Goiás, onde a terra não rendia mais nada.

Na manhã daquele 15 de março, ele acordou se sentindo diferente. Seus companheiros de tenda notaram: Ademir estava inquieto, mas não do seu jeito habitual. Era uma agitação contida, como alguém guardando um segredo grande demais para caber no peito. Para o café da manhã, farinha d’água, charque e café preto forte. Ele mal tocou na comida.

“Miro, você parece ter visto um fantasma!” brincou Zé Pequeno, um garimpeiro baixo e falante que havia se tornado seu parceiro mais próximo.

Ademir forçou um sorriso e balançou a cabeça.

“Isso não é nada, talvez apenas pensando por aqui.” ele disse.

Mas aquilo não era verdade. Na tarde anterior, ao seguir uma trilha abandonada cerca de 12 km floresta adentro, Ademir havia encontrado algo que o manteve acordado. Um veio de quartzo diferente de tudo que já tinha visto, não apenas pela quantidade de ouro visível a olho nu, mas também pela estranha formação geológica ao seu redor.

A rocha se estendia em linha reta por metros, como se tivesse sido cortada por mãos humanas, formando um desenho quase geométrico no meio da selva. O local ficava em uma clareira natural perfeitamente circular, onde as árvores pareciam ter crescido ao redor de um espaço vazio, deixando o céu completamente visível.

Ademir tinha experiência suficiente para saber que aquilo não era normal. Em 20 anos de garimpo por todo o Brasil, ele nunca tinha visto nada parecido. Ele decidiu não contar a ninguém ainda. Os garimpos eram lugares onde amizades eram desfeitas por muito pouco, e segredos valiam seu peso em ouro, às vezes literalmente.

Miro planejou retornar ao local sozinho, desta vez com o equipamento adequado para fazer um levantamento mais detalhado. Se suas suspeitas se confirmassem, talvez ele tivesse encontrado o que procurava há tanto tempo: uma mina rica o suficiente para lhe permitir voltar para casa com dignidade. Por volta das 7 da manhã, Miro terminou de arrumar sua mochila. Ele pegou o essencial: picareta, bateia, lanterna, algumas ferramentas menores, água para dois dias e comida suficiente para não precisar caçar. Ele disse aos companheiros que retornaria no dia seguinte antes do anoitecer.

“Se eu não aparecer até amanhã à noite, me procurem na trilha do Sítio Velho.” ele disse, referindo-se a uma rota conhecida que levava a locais de mineração abandonados.

Essa foi a última vez que alguém viu Ademir Correia Bastos vivo. Conforme a noite caía e os sons da floresta se enchiam com o coaxar de sapos e cigarras, Miro já estava caminhando pela mata há horas, seguindo marcações que havia feito nas árvores no dia anterior. A cada passo, a vegetação ficava mais densa, e a sensação de estar sendo observado se intensificava.

Mas ele conhecia aquela paranoia. Era comum entre homens que passavam muito tempo sozinhos na selva. O que Ademir não sabia era que, naquele exato momento, seus passos o estavam levando para um lugar onde a linha entre descoberta e desaparecimento se tornaria perigosamente tênue. A primeira pessoa a se preocupar foi Zé Pequeno.

Na manhã do dia 17 de março, quando o sol já estava alto e não havia sinal de Miro, ele começou a fazer perguntas nos alojamentos. Os garimpeiros tinham uma regra não escrita: o atraso de um dia poderia ser explicado por mil motivos. Ferimento leve, chuva forte, necessidade de acampar por segurança. Dois dias já era motivo de preocupação.

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“Alguém viu o Miro ontem?” Zé perguntou de tenda em tenda, sempre obtendo a mesma resposta.

“Não.” respondiam os outros garimpeiros.

Na região do garimpo, as notícias viajavam rápido, mas nem sempre eram confiáveis. Em poucos dias, três versões diferentes sobre o desaparecimento de Ademir começaram a circular. A primeira, e mais aceita, era que ele havia se perdido na mata e provavelmente fora atacado por algum animal selvagem.

Onças eram raras, mas ataques de cobras ou acidentes com jacarés não eram incomuns. A segunda versão era mais sombria. Miro havia encontrado ouro de verdade e fugido durante a noite, deixando seus companheiros para trás e levando sua descoberta em silêncio. Essa teoria ganhou força porque alguns garimpeiros juravam que ele andava agindo de forma estranha nos últimos dias, como se estivesse escondendo algo.

A terceira possibilidade era a mais temida, embora raramente fosse dita em voz alta. Ademir havia sido assassinado por outros garimpeiros que descobriram seu achado. Conflitos por territórios de mineração eram comuns, e mais de um homem já havia desaparecido na região sem deixar rastros. Zé Pequeno organizou as primeiras buscas no dia 18 de março.

Cinco homens se espalharam pela mata, seguindo as principais trilhas conhecidas, gritando o nome de Miro e dando tiros para o ar, um sinal combinado para que ele respondesse caso estivesse ferido e impossibilitado de se mover. Eles retornaram de mãos vazias. A família de Ademir só soube de seu desaparecimento uma semana depois, quando um conhecido que trabalhava nos correios de Itaituba trouxe a notícia.

Dona Conceição, sua mãe, uma mulher de 58 anos que morava em uma casa simples em Anápolis, Goiás, ficou arrasada.

“Meu filho não desapareceria assim,” ela repetia a quem quisesse ouvir.

“Ele sempre mandava cartas, sempre.” ela completava.

Era verdade. Ademir escrevia para casa religiosamente uma vez por mês, falando sobre seu trabalho, enviando algum dinheiro quando podia e prometendo voltar assim que as coisas melhorassem. A última carta havia chegado em fevereiro, otimista e cheia de planos. O irmão mais novo de Miro, João Batista, decidiu viajar. João chegou a Itaituba no final de março e ficou atônito com o que encontrou. Uma cidade que parecia ter surgido do nada, cheia de homens sujos, bares improvisados, casas de madeira construídas em uma semana e prostitutas que cobravam em ouro.

João foi à delegacia local, mas a cena que encontrou foi desanimadora. O delegado, um homem cansado chamado Osvaldo Ferreira, trabalhava em uma pequena sala empilhada de papéis e denúncias de roubos, brigas e desaparecimentos.

“Olhe, meu jovem,” disse o delegado sem tirar os olhos da papelada.

“Garimpeiros desaparecendo na floresta acontece toda semana. Ou eles aparecem ou não. Não temos recursos para ficar procurando pessoas na floresta.” concluiu o oficial.

A resposta irritou João, mas ele sabia que discutir não levaria a lugar nenhum. Ele decidiu procurar por conta própria. Durante duas semanas, ele percorreu acampamentos de garimpeiros, conversou com dezenas de pessoas e até contratou alguns homens para buscar em áreas mais distantes. Tudo em vão.

Uma das conversas mais perturbadoras foi com um garimpeiro veterano chamado Manoel Nunes, conhecido como Manoel do Machado por causa da ferramenta que sempre carregava no cinto.

“Seu irmão estava se metendo onde não devia,” disse Manoel numa tarde, enquanto bebiam cachaça em um bar de madeira.

“Ouvi dizer que ele andava fazendo perguntas sobre lugares em que não se devia tocar.” continuou ele.

João tentou descobrir mais detalhes, mas Manoel se calou.

“É melhor você voltar para sua terra, rapaz. Às vezes é melhor não saber.” aconselhou o velho.

Frustrado e sem dinheiro para continuar a busca, João Batista voltou para Goiás em maio de 1982. Ele levou consigo apenas algumas roupas que Ademir havia deixado no barraco e a promessa de que voltaria assim que conseguisse juntar mais recursos.

Mas a vida continuou, e as promessas se tornaram mais difíceis de cumprir. João casou-se, teve filhos e abriu um pequeno negócio. Dona Conceição morreu em 1989, sem nunca ter sabido o que aconteceu com seu filho. O desaparecimento de Ademir Correa Bastos tornou-se apenas mais uma das muitas histórias tristes que a corrida do ouro do Tapajós produziu.

Na década de 1980, nos bares de Itaituba, o nome de Miro ainda era lembrado de tempos em tempos, sempre acompanhado de teorias contraditórias. Alguns diziam que ele tinha sido visto anos depois em Roraima. Outros juravam que ele havia se tornado um eremita na floresta. Havia até quem garantisse que ele tinha se mudado para o Suriname com uma fortuna em ouro, mas a verdade permanecia enterrada na floresta junto com os segredos que só a Amazônia conhece.

Trinta anos podem passar como um sopro ou como uma eternidade, dependendo de quem está contando o tempo. Em 2012, a região de Itaituba estava irreconhecível. O garimpo selvagem dos anos 80 havia dado lugar a operações mecanizadas e legalizadas. A cidade tinha crescido, ganhado asfalto em algumas ruas e até um pequeno shopping center.

Muitos dos homens que haviam dividido tendas com Ademir Correia Bastos já estavam mortos. Outros haviam migrado para diferentes partes do país, e poucos ainda se lembravam do garimpeiro que desapareceu na floresta em março de 1982. Zé Pequeno era uma dessas pessoas. Aos 71 anos, aposentado e vivendo em uma casa simples na periferia de Itaituba, ele ainda tinha uma memória afiada para as coisas do passado.

Ocasionalmente, quando encontrava algum conhecido dos velhos tempos, a conversa sempre acabava voltando para os anos dourados, e o nome de Miro invariavelmente surgia. Foi em uma manhã de setembro de 2012 que tudo mudou. O Dr. Ricardo Palmeira, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), estava analisando imagens de satélite da região amazônica como parte de um projeto de monitoramento de desmatamento.

Não era um trabalho glamoroso. Consistia principalmente em comparar fotografias aéreas de diferentes períodos, identificar onde a floresta havia sido derrubada e calcular as taxas de destruição. Ricardo trabalhava em uma sala sem janelas no campus universitário de São José dos Campos, cercado por monitores e mapas. Naquele dia em particular, ele estava examinando uma área no sul do Pará quando algo chamou sua atenção.

Na tela do computador, em meio ao vasto verde da floresta, apareceu uma forma que não deveria estar ali, uma clareira. Uma clareira perfeitamente circular, com aproximadamente 150 metros de diâmetro, mostrava padrões geométricos em imagens que não pareciam naturais nem compatíveis com o desmatamento comum.

“Mas que diabos é isso?” murmurou Ricardo, ajustando o zoom da imagem.

O que ele viu o intrigou. No centro da clareira havia estruturas lineares dispostas de forma quase simétrica, formando desenhos que vagamente lembravam uma cruz ou uma estrela. Ao redor delas, pequenos pontos metálicos refletiam a luz do sol, criando brilhos visíveis, mesmo na imagem de satélite. Ricardo verificou as coordenadas 4° 16′ 42″ S, 56° 11′ 38″ W.

Localizava-se em uma área de mata densa, cerca de 30 km a nordeste de Itaituba. Não havia estradas oficiais por perto, nem concessões de mineração ativas registradas para aquela área. Intrigado, o pesquisador decidiu investigar mais a fundo, sobrepondo imagens de diferentes períodos e descobrindo algo ainda mais estranho. A clareira não existia nas fotografias de 1975; ela aparecia parcialmente formada em 1985 e estava completamente definida em 1990.

Mas depois disso, as imagens mostravam que a vegetação havia começado a crescer novamente, como se o local tivesse sido subitamente abandonado. Ricardo levou a descoberta ao seu supervisor, o Dr. Carlos Mendonça, um experiente geógrafo que passara décadas estudando a ocupação humana na Amazônia. Carlos analisou as imagens com crescente interesse.

“Isso não é um padrão de desmatamento legal,” disse Carlos, apontando para as formas geométricas.

“E também não parece com garimpo típico. Olhe para essas estruturas lineares. É como se alguém tivesse construído algo ali, mas seguindo um plano.” completou.

Os dois pesquisadores decidiram incluir a descoberta em um relatório a ser enviado aos órgãos de fiscalização ambiental. Mas antes disso, Carlos sugeriu que tentassem identificar exatamente o que havia acontecido naquele local.

“Seria interessante conversar com as pessoas da região. Alguém deve saber de algo.” ele sugeriu.

A primeira pessoa que contataram foi o historiador local José Ribamar, um professor aposentado que mantinha um pequeno arquivo sobre a história de Itaituba. José conhecia bem a época dos garimpos e tinha contato com muitos veteranos daquele tempo. Quando Ricardo e Carlos mostraram as coordenadas e as imagens a José Ribamar, o historiador ficou pensativo.

“Essa região aqui, deixe-me ver, fica na área para onde os garimpeiros costumavam ir nos anos 80. Havia muito garimpo ilegal por aqui.” ele comentou.

José prometeu fazer algumas pesquisas e entrar em contato se descobrisse algo relevante. Três dias depois, ele ligou para os pesquisadores com uma informação surpreendente.

“Vocês não vão acreditar,” disse José ao telefone.

“Conversei com uns velhos conhecidos, e um deles se lembra de um garimpeiro que desapareceu exatamente nessa região em 1982. Um sujeito chamado Ademir, que os companheiros chamavam de Miro.” explicou ele.

A coincidência era perturbadora demais para ser ignorada. Ricardo e Carlos decidiram que uma expedição ao local era necessária. Em outubro de 2012, uma pequena equipe composta pelos dois pesquisadores, José Ribamar e dois guias locais partiu de Itaituba em direção às coordenadas identificadas na imagem de satélite.

O que eles encontraram lá mudaria para sempre a percepção do desaparecimento de Ademir Correia Bastos. A expedição levou dois dias para chegar ao local. Mesmo com GPS e equipamentos modernos, a Floresta Amazônica continuava sendo um labirinto de trilhas que se perdiam, rios que mudavam de curso e vegetação que crescia rápido o suficiente para apagar qualquer rastro em questão de meses.

Quando finalmente emergiram na clareira circular identificada nas imagens de satélite, o grupo permaneceu em silêncio por longos minutos. O lugar era ainda mais impressionante pessoalmente do que nas fotografias aéreas. A clareira tinha exatamente 147 metros de diâmetro. Ricardo fez questão de medi-la com precisão. As árvores ao redor formavam um muro verde quase perfeitamente circular, como se tivessem crescido respeitando uma fronteira invisível.

No centro, cobertos por 30 anos de folhas mortas e vegetação rasteira, estavam os restos do que havia sido claramente uma construção humana. O Dr. Carlos Mendonça foi o primeiro a se abaixar e começar a remover os detritos orgânicos. Sob a camada de folhas apareceram estruturas de madeira podre dispostas em padrões geométricos, vigas organizadas na forma de uma estrela de seis pontas, com cada ponta direcionada a um ponto cardeal específico.

“Isso não foi feito por acaso,” murmurou Carlos.

“Alguém planejou isso com muito cuidado.” ele constatou.

José Ribamar, que havia passado décadas ouvindo histórias sobre os garimpeiros, estava visivelmente perturbado.

“Em 40 anos ouvindo sobre a época da corrida do ouro, eu nunca tinha ouvido ninguém mencionar nada parecido.” desabafou o historiador.

A descoberta mais intrigante ocorreu quando Ricardo, vasculhando a vegetação na ponta sudeste da estrutura, encontrou um objeto semienterrado que fez seu coração disparar. Uma bateia de metal enferrujada, mas ainda reconhecível, com as iniciais A, C, B gravadas à mão na lateral. Ademir Correia Bastos chamou José Ribamar em voz baixa.

“É ele,” confirmou José.

Mas a bateia era apenas o começo. Nas horas seguintes, a equipe descobriu outros objetos espalhados pela clareira: restos de ferramentas de mineração, fragmentos de tecido que poderiam ter sido roupas, uma lata completamente enferrujada com data de validade de 1982 e algo que os intrigou: pedaços de metal que não pareciam ferramentas, mas sim partes de algum equipamento mais sofisticado.

O achado mais perturbador foi descoberto por um dos guias locais, Raimundo Silva, um homem experiente que conhecia a floresta como poucos. Em uma área parcialmente escondida pelas próprias mãos, Raimundo encontrou o que parecia ser um abrigo. A estrutura improvisada, restos de madeira e lona, sugeria que alguém havia morado lá por um longo período.

“Olhem isso,” disse Raimundo, apontando para marcações feitas na madeira.

Eram riscos organizados em grupos de cinco, como alguém contando os dias. Ricardo contou 127 marcas, 4 meses e uma semana, calculou o Dr. Carlos.

“Alguém ficou aqui por mais de 4 meses.” concluiu o pesquisador.

A descoberta mais chocante ocorreu no final do segundo dia de investigação. José Ribamar examinava uma área perto do que parecia ter sido uma fogueira quando seu pé tocou em algo enterrado sob a terra fofa. Era um caderno protegido dentro de um saco plástico que havia miraculosamente resistido ao tempo e à umidade.

Com as mãos trêmulas, José abriu a sacola e retirou um simples caderno escolar de capa azul desbotada. As páginas estavam úmidas, mas a tinta ainda estava legível. Na primeira página, uma caligrafia familiar: Ademir Correia Bastos, março de 1982. O caderno continha anotações que mudaram completamente a compreensão do que havia acontecido com Miro.

As primeiras páginas descreviam sua descoberta. Não apenas um veio de ouro, mas uma estranha formação geológica que parecia conter outros minerais raros. Ademir havia encontrado algo que, de acordo com seus cálculos amadores, valia muito mais do que qualquer descoberta feita na região até então. Mas as anotações posteriores revelavam uma obsessão crescente.

Miro havia decidido não retornar ao garimpo. Em vez disso, ele começara a construir uma estrutura no local, planejando extrair o material sozinho e em segredo. Ele temia que, se contasse aos outros garimpeiros, seria assassinado ou expulso da descoberta. As páginas do meio do caderno mostravam desenhos detalhados da construção que ele estava erguendo, a mesma estrutura em forma de estrela que a equipe havia encontrado.

Ademir tinha conhecimentos básicos de engenharia adquiridos na juventude trabalhando na construção civil em Goiás e havia desenhado um sistema primitivo, mas funcional, para a extração mineral. As últimas anotações, datadas de julho de 1982, revelavam uma mudança de tom. Ademir começou a escrever sobre vigilância e pessoas procurando por ele. Ele descobrira que sua ausência prolongada havia atraído atenção e suspeitava que outros garimpeiros estavam tentando encontrá-lo.

A última entrada no caderno era perturbadora. 15 de julho.

“Eles estão perto. Posso ouvir vozes à noite. Vou enterrar tudo e partir na próxima lua nova. Se algo me acontecer, pelo menos que isso fique para contar a história.” escreveu Ademir.

A expedição retornou a Itaituba com mais perguntas do que respostas. As descobertas na clareira foram relatadas às autoridades competentes, mas 30 anos após o desaparecimento, não havia mais nenhuma investigação criminal a ser realizada. Ademir Correa Bastos foi oficialmente declarado morto, e seus restos mortais nunca foram encontrados.

Mas a história não terminou aí. José Ribamar decidiu procurar Zé Pequeno, o último companheiro vivo de Miro. Quando o velho garimpeiro soube das descobertas na clareira, seu rosto empalideceu.

“Eu sempre soube que havia algo estranho naquele desaparecimento,” disse Zé, sentado na varanda de sua casa, olhando para o horizonte.

“Miro era inteligente demais para se perder na mata e corajoso demais para fugir de medo.” ele refletiu.

Zé então contou algo que nunca havia revelado antes. Na época do desaparecimento, alguns garimpeiros haviam comentado sobre movimentações estranhas na área onde Miro costumava trabalhar. Homens armados que não eram garimpeiros nem policiais fazendo perguntas sobre descobertas recentes.

“Nós nunca falamos sobre isso porque, bem, naquela época não se faziam muitas perguntas se você quisesse continuar vivo.” confessou Zé Pequeno.

A descoberta da clareira e do caderno de Ademir gerou um curto documentário feito por uma TV local, que foi ao ar em 2013. A história atraiu a atenção nacional por alguns dias, gerando especulações sobre o que realmente havia acontecido com o garimpeiro desaparecido. Algumas teorias sugeriam que Miro havia descoberto uma jazida de minerais raros e sido eliminado por interesses corporativos ou criminosos que queriam controlar a área.

Outras apontavam para a possibilidade de que ele tivesse conseguido escapar e viver escondido na floresta por meses antes de se mudar para outro lugar. Mas a imagem de satélite que revelara a clareira continuava sendo o elemento mais intrigante de toda a história. Por que uma estrutura tão elaborada e geometricamente perfeita havia sido construída no meio da floresta e por que havia sido abandonada tão de repente?

Ricardo Palmeira, o pesquisador que fez a descoberta inicial, desenvolveu sua própria teoria. Ademir Correia Bastos descobriu algo valioso o suficiente para justificar meses de trabalho solitário na floresta, mas quando percebeu que estava sendo caçado, tentou preservar sua descoberta, construindo essas estruturas como uma espécie de marco. Talvez ele planejasse voltar um dia, quando fosse seguro.

A clareira permanece lá até hoje, sendo lentamente recuperada pela floresta. As coordenadas 4° 16′ 42″ S tornaram-se uma espécie de lenda local. Alguns aventureiros ainda tentam chegar ao local, em busca de pistas sobre o ouro que Ademir pode ter deixado para trás.

Mas talvez a verdade mais perturbadora seja que em algum lugar na vasta Amazônia ainda jazem segredos enterrados esperando para serem descobertos por olhos que sabem onde procurar, e que algumas dessas descobertas podem ser perigosas demais para aqueles que as fazem. O desaparecimento de Ademir Correia Bastos deixou uma pergunta que ecoa até hoje.

Quantas outras histórias como essa ainda estão escondidas sob as copas das árvores, esperando por uma imagem de satélite ou um capricho do destino para trazê-las de volta à luz? A Amazônia guarda seus segredos zelosamente, mas de tempos em tempos ela permite que um deles escape, apenas o suficiente para nos lembrar de que ainda há muito que não sabemos sobre o que acontece quando os homens desaparecem na imensidão verde, levando consigo descobertas que o mundo talvez nunca devesse conhecer.