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Jovem Advogado Exemplar Ass@ssina Noiva em Joinville — Segredo Revelado 7 Meses Depois

Na noite de 14 de março de 2010, Fernanda saiu de casa e nunca mais voltou. Ela tinha 26 anos. Trabalhava como fisioterapeuta numa conceituada clínica em Joinville, no norte de Santa Catarina. Vivia sozinha num apartamento alugado no bairro América, a menos de 3 km do centro da cidade. Os seus pais viviam em Blumenau, a pouco mais de uma hora de distância.

Eles falavam ao telefone quase todos os dias. Naquela noite, Fernanda combinara encontrar-se com Lucas, o seu noivo. Os dois estavam juntos há 4 anos e o casamento estava marcado para julho. O catering já estava reservado, os convites enviados e o vestido provado. Para quem via de fora, parecia ser uma relação estável, construída sobre bases sólidas.

Lucas tinha 28 anos. Formou-se em direito pela Universidade da Região de Joinville e trabalhava num escritório de advocacia especializado em direito empresarial. Vinha de uma família tradicional da cidade, conhecida pelo seu envolvimento em trabalhos sociais ligados à igreja local. Era descrito por vizinhos e colegas como educado, prestável e reservado — o tipo de homem que qualquer mãe gostaria de ter ao lado da filha.

Por volta das 20h, Fernanda enviou uma mensagem de texto à mãe, dizendo que ia resolver uns assuntos pendentes com Lucas. A mãe respondeu com um emoji de coração. Essa foi a última comunicação registada entre as duas. Às 22h47, o telemóvel de Fernanda foi desligado. A partir desse momento, não houve mais nenhum sinal de vida da jovem fisioterapeuta, nem chamadas, nem mensagens, nem transações bancárias.

O apartamento permaneceu intocado, com as luzes apagadas e a porta trancada por dentro. Na manhã seguinte, a mãe de Fernanda tentou ligar à filha. O telemóvel foi direto para o correio de voz. Tentou de novo às 11h, e depois ao meio-dia. Às 14h, ligou a Lucas, perguntando se ele sabia onde a Fernanda estava.

“Não a vejo desde a noite anterior”, disse ele. “Ela foi-se embora do encontro por volta das 21h e parecia estar bem.”

Às 17h do dia 15 de março de 2010, Lucas foi à esquadra de polícia de Joinville para participar o desaparecimento da sua noiva. Estava visivelmente abalado. Chorou durante o depoimento.

“Eu não consigo entender o que aconteceu”, disse ele.

A investigação subsequente duraria 7 meses e revelaria que o homem que todos admiravam escondia segredos que ninguém poderia imaginar.

O que aconteceu à Fernanda naquela noite? Joinville é a maior cidade de Santa Catarina. Em 2010, a sua população ultrapassava os 500.000 habitantes. Conhecida pelo seu polo industrial e forte influência colonial alemã, a cidade tinha taxas de criminalidade relativamente baixas para os padrões brasileiros. Os homicídios dolosos eram raros. E casos de desaparecimentos, ainda mais.

Fernanda mudara-se para Joinville 5 anos antes, logo após concluir o curso de fisioterapia pela Universidade Regional de Blumenau. Conseguiu emprego numa clínica especializada em reabilitação ortopédica, onde rapidamente se destacou pelo seu profissionalismo e dedicação aos pacientes.

Os seus colegas descreviam-na como pontual, organizada e discreta. Ela conheceu o Lucas em 2006. Os dois foram apresentados por amigos em comum numa festa de anos. Ele impressionou-a com a sua eloquência e maneiras requintadas. Ela conquistou-o com a sua simplicidade e sorriso fácil. Em poucos meses, estavam oficialmente a namorar.

A relação seguiu o guião esperado. Após dois anos juntos, mudaram-se para casas separadas, mas passavam a maior parte do tempo na companhia um do outro. Em 2009, Lucas pediu-a em casamento durante uma viagem a Florianópolis. Ela aceitou sem hesitar. A data foi marcada para julho de 2010. Os preparativos começaram de imediato. A Fernanda assumiu a maioria das responsabilidades.

Ela visitou serviços de catering, escolheu a decoração e organizou a lista de convidados. O Lucas participava quando podia, mas alegava estar sobrecarregado com o trabalho no escritório. Ela compreendia, ou pelo menos tentava compreender. Foi no início de 2010 que as primeiras fissuras começaram a aparecer. A Fernanda notou que o Lucas andava mais irritado do que o habitual.

Ele respondia rispidamente a perguntas simples. Evitava conversas sobre dinheiro. Quando ela perguntava sobre as finanças do casal, ele mudava de assunto. Em fevereiro, a Fernanda descobriu que tinham sido feitos levantamentos inexplicáveis na conta conjunta que os dois tinham aberto para pagar o casamento.

Mais de 15.000 R$ tinham desaparecido em menos de 2 meses. Quando confrontado, Lucas disse que tinha emprestado o dinheiro a um amigo que estava a precisar.

“Vai ser devolvido em breve”, prometeu.

Ela quis acreditar, mas algo não fazia sentido. Nas semanas seguintes, a Fernanda começou a prestar mais atenção aos hábitos do noivo. Reparou que ele recebia chamadas a meio da noite e saía da cama para as atender na casa de banho, que verificava o telemóvel compulsivamente e que tinha mudanças de humor abruptas sem razão aparente.

Em março, decidiu investigar por conta própria, e o que descobriu mudou tudo. Na segunda semana de março de 2010, a Fernanda conseguiu acesso ao extrato completo da conta bancária pessoal do Lucas. Ela nunca revelou a ninguém como obteve esta informação, mas o que descobriu foi devastador.

Lucas devia 180.000 R$ a vários credores. A maior parte da dívida estava associada a sites de apostas online e a empréstimos obtidos junto de agiotas da região. Os levantamentos tinham começado de forma discreta em 2008, mas intensificaram-se drasticamente a partir de 2009. Nuns meses, ele tinha perdido mais de 20.000 R$ em apostas desportivas.

A Fernanda confrontou o Lucas na noite de 12 de março. A discussão foi intensa. Ele admitiu o vício, mas desvalorizou a sua gravidade.

“Está tudo sob controlo. Eu vou conseguir resolver a situação. Só preciso de tempo”, disse ele.

Ela não aceitou.

“O casamento está cancelado até tu procurares ajuda profissional. Não posso construir uma vida com alguém que mente sobre algo tão sério. Preciso de tempo para pensar”, disse ela.

O Lucas implorou, chorou, prometeu que iria mudar e pediu uma última oportunidade. A Fernanda foi categórica.

“Sem tratamento, não haverá reconciliação.”

Na noite de 14 de março, os dois voltaram a encontrar-se. O local exato do encontro nunca foi oficialmente confirmado. Algumas testemunhas afirmaram ter visto o carro do Lucas estacionado perto da residência da Fernanda por volta das 20h.

Outras disseram ter ouvido vozes alteradas vindas de um veículo no bairro Boa Vista. O facto é que, a partir das 22h47, a Fernanda deixou de existir para o mundo exterior. Nas primeiras 48 horas após a participação do desaparecimento, a polícia tratou o caso como abandono voluntário. A Fernanda era maior de idade, tinha um emprego estável e não havia sinais de arrombamento ou violência no seu apartamento.

A hipótese inicial era que ela tivesse decidido fazer uma pausa temporária após a discussão com o noivo. Mas a mãe de Fernanda insistiu que algo estava errado.

“A minha filha nunca ficaria tanto tempo sem me contactar. Ela tinha compromissos profissionais, pacientes agendados, contas para pagar. Isso não faz sentido”, disse ela.

Na quinta-feira, 17 de março, a Polícia Civil de Santa Catarina abriu oficialmente uma investigação sobre o desaparecimento de Fernanda. O agente encarregado era um veterano com mais de 20 anos de experiência em crimes contra pessoas. O Lucas foi convocado para prestar novas declarações. Apresentou-se acompanhado por um colega advogado da sua firma.

Manteve a mesma versão dos acontecimentos. Nas primeiras semanas da investigação, a polícia concentrou os seus esforços na verificação da hipótese de uma fuga voluntária. Analisaram extratos bancários, registos telefónicos e imagens de câmaras de segurança de estações de autocarros, aeroportos e estações de serviço ao longo de autoestradas que ligam Joinville a outras cidades.

Não encontraram nada. A Fernanda não tinha levantado qualquer dinheiro desde a noite do seu desaparecimento. Não tinha comprado bilhetes, não tinha utilizado cartões de crédito. O seu passaporte ainda estava na gaveta do quarto dela. Todas as suas roupas e bens pessoais permaneciam no apartamento, incluindo documentos, joias e fotografias de família.

Uma linha de investigação alternativa surgiu quando um colega de trabalho da Fernanda mencionou que ela tinha comentado sobre um paciente que estava a exibir um comportamento inadequado. O homem, identificado como um empresário de 53 anos em tratamento por causa de uma lesão no joelho, alegadamente fazia comentários pessoais durante as sessões de fisioterapia. A polícia interrogou o paciente.

Ele negou qualquer envolvimento e apresentou um álibi sólido para a noite do desaparecimento. As câmaras de segurança confirmaram que ele estava num evento corporativo em Curitiba nessa data. A pista foi descartada. Outra teoria ganhou força temporariamente quando um sem-abrigo afirmou ter visto uma mulher com características semelhantes às da Fernanda a entrar num carro escuro na madrugada do dia 15.

A descrição, no entanto, era demasiado vaga para ser útil. A testemunha mostrava sinais de confusão mental e foi incapaz de fornecer detalhes consistentes. Entretanto, Lucas manteve publicamente a postura de um noivo desesperado. Participou em buscas organizadas por voluntários, distribuiu panfletos com a fotografia de Fernanda e deu entrevistas emocionadas à imprensa local, pedindo sempre a quem tivesse informações para contactar a polícia.

Numa destas entrevistas, transmitida por uma estação de televisão regional, o Lucas disse com a voz embargada:

“Eu só quero saber onde ela está. Não consigo dormir, não consigo comer. A minha vida parou.”

A sua atuação foi convincente. Muitos acreditaram nele, mas alguns investigadores começaram a notar inconsistências.

No seu depoimento, o Lucas disse que a Fernanda tinha saído do seu carro às 21h. Noutra declaração, ele alegou que a conversa entre os dois tinha durado até quase às 22h. Pequenas contradições que, isoladamente, podiam ser atribuídas ao stress e à confusão, mas que, quando somadas, começavam a formar um padrão.

O agente encarregado do caso decidiu aumentar a vigilância sobre Lucas. A partir de abril, o noivo da Fernanda começou a ser monitorizado discretamente. Abril e maio de 2010 foram meses de angústia para a família da Fernanda. A mãe desenvolveu insónias crónicas. O pai, que tem hipertensão, precisou de aumentar a dose da sua medicação.

A irmã mais nova, que vivia em São Paulo, tirou licença do trabalho para participar nas buscas. Sem um corpo, não havia certidão de óbito. Sem certidão de óbito, não podia haver funeral. A família vivia num limbo legal e emocional, incapaz de encerrar o seu processo de luto porque não havia confirmação da morte.

O Lucas continuou a participar em eventos relacionados com as buscas. Levava flores para o apartamento da Fernanda e publicava mensagens nas redes sociais pedindo orações. Alguns dos amigos do casal começaram a distanciar-se dele, incomodados com algo que não conseguiam definir. Outros permaneceram ao seu lado, convencidos da sua inocência.

A investigação policial progrediu de forma lenta mas constante. Os peritos analisaram o carro do Lucas à procura de vestígios biológicos. A primeira varredura realizada em março não encontrou nada de conclusivo, mas em maio uma segunda análise, mais detalhada, foi autorizada pelo Ministério Público. Entretanto, a polícia obteve uma ordem judicial para aceder às comunicações eletrónicas de Lucas.

Os registos revelaram um padrão preocupante de atividade noturna em sites de apostas, com perdas acumuladas que excediam os 200.000 R$ ao longo de 3 anos. Havia também mensagens trocadas com credores a exigir pagamentos em atraso, algumas contendo ameaças veladas. O perfil psicológico do Lucas começou a emergir de uma forma que diferia da imagem pública que ele projetava.

Longe de ser um profissional equilibrado e bem-sucedido, estava atolado em dívidas e a viver sob constante pressão de agiotas. A fachada de estabilidade era mantida à custa de empréstimos cada vez mais arriscados. Em junho, a equipa forense concluiu uma nova análise do veículo de Lucas.

Desta vez, utilizando técnicas de luminol e luz ultravioleta, os peritos identificaram manchas de sangue na bagageira que tinham sido parcialmente limpas. O material foi recolhido e enviado para testes de ADN.

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Os resultados do teste de ADN demorariam semanas a ficar prontos. Entretanto, os investigadores continuaram a recolher provas circunstanciais e encontraram algo que não esperavam. Em julho de 2010, durante um mandado de busca na residência de Lucas, os investigadores encontraram um par de ténis de senhora escondido numa caixa no fundo do guarda-roupa. Os sapatos eram da marca e do tamanho que a Fernanda costumava usar.

A mãe da vítima confirmou que o modelo correspondia a um presente que ela tinha dado à filha no Natal anterior. Lucas foi confrontado com a descoberta.

“A Fernanda deixou os ténis no meu carro semanas antes do seu desaparecimento e eu guardei-os por engano”, disse ele.

A explicação era tecnicamente possível, mas não convenceu os investigadores. Nessa mesma semana, os resultados do teste de ADN às manchas encontradas na bagageira ficaram prontos. O sangue correspondia ao perfil genético da Fernanda, obtido através de amostras recolhidas no seu apartamento. O chefe da polícia convocou uma reunião com o Ministério Público para discutir os próximos passos.

Havia provas suficientes para indiciar o Lucas por homicídio, mas o elemento mais importante continuava a faltar: o corpo. Sem ele, a defesa podia argumentar que a Fernanda ainda estava viva e que as provas eram meramente circunstanciais. Tomou-se a decisão de intensificar as buscas em zonas rurais em redor de Joinville. Foram mobilizadas equipas da Polícia Militar e dos Bombeiros.

Cães pisteiros foram trazidos de Florianópolis. Drones equipados com câmaras térmicas sobrevoaram áreas de floresta densa. Em agosto, uma testemunha apresentou-se com novas informações. Um motorista de camião que fazia entregas na zona rural de Joinville afirmou ter visto um veículo semelhante ao do Lucas estacionado numa estrada de terra na madrugada do dia 15 de março.

O local situava-se a aproximadamente 20 km do centro da cidade, numa zona de difícil acesso conhecida como estrada tronco. A polícia concentrou as suas buscas nessa região. Durante três semanas, as equipas procuraram em florestas, riachos e propriedades abandonadas. O trabalho foi exaustivo e frustrante. A densa vegetação dificultava o movimento. As chuvas de inverno tinham alterado a topografia do terreno.

Mas em setembro houve progressos. Um agricultor que morava perto relatou sentir um odor forte e distinto vindo de uma área de densa vegetação na sua propriedade. Não tinha investigado na altura, assumindo que era apenas um animal morto. A polícia dirigiu-se ao local indicado. Na manhã de 23 de setembro de 2010, uma equipa de busca encontrou restos humanos num estado avançado de decomposição numa área densamente arborizada a 18 km do centro de Joinville.

O corpo estava parcialmente enterrado numa sepultura rasa, coberto por folhas e ramos. A localização correspondia exatamente à área descrita pelo camionista que vira o carro de Lucas nas primeiras horas da manhã do seu desaparecimento. A equipa forense foi imediatamente chamada. O corpo foi exumado cuidadosamente para preservar qualquer potencial prova.

Devido ao estado avançado de decomposição, a identificação visual era impossível. Seria necessário recorrer a análises dentárias e de ADN. Enquanto aguardavam os resultados, os investigadores intensificaram a vigilância a Lucas. Ele continuava com a sua rotina de trabalho e frequentava eventos sociais, aparentemente alheio ao cerco que se apertava.

A 3 de outubro, o Instituto Médico Legal de Florianópolis confirmou oficialmente que os restos mortais encontrados eram os da Fernanda. A identificação foi feita através da comparação dos registos dentários da vítima com a arcada dentária da falecida. O relatório da autópsia, apesar das limitações impostas pelo estado de decomposição, indicava sinais consistentes com asfixia mecânica.

Havia fraturas no osso hioide, uma estrutura localizada na região do pescoço, indicando que a vítima tinha sido estrangulada. A mãe da Fernanda foi informada do resultado naquela mesma tarde. Segundo familiares, permaneceu em silêncio por vários minutos antes de começar a chorar. O pai sofreu uma crise hipertensiva e teve de ser levado para o hospital.

O polícia encarregado do caso solicitou que o Ministério Público emitisse um mandado de prisão preventiva contra o Lucas. O pedido baseou-se em provas recolhidas ao longo de sete meses de investigação. O sangue na bagageira, os ténis escondidos, as contradições nos depoimentos, as imagens das câmaras de segurança que colocavam o seu veículo na área onde o corpo foi encontrado.

O juiz da vara criminal de Joinville deferiu o pedido na manhã do dia 5 de outubro de 2010. Lucas foi detido no escritório de advocacia onde trabalhava, às 10h15. Não mostrou qualquer reação. Foi levado algemado para o carro patrulha sob os olhares atónitos dos seus colegas de trabalho. O interrogatório de Lucas foi conduzido pelo detetive encarregado do caso na divisão de homicídios em Joinville.

Um representante do Ministério Público também esteve presente. Lucas contratou um advogado particular, um experiente criminalista de Florianópolis. Nas primeiras horas, Lucas manteve a sua alegação de inocência.

“Eu amava a Fernanda. Eu nunca seria capaz de a magoar. Há uma conspiração para me incriminar”, disse ele.

Chorou repetidamente, mas quando confrontado com todas as provas, algo mudou. O chefe da polícia apresentou as imagens das câmaras de segurança, os relatórios dos peritos e os registos telefónicos. Estes mostravam que não havia forma de manter a alegação de inocência. Depois de consultar o seu advogado, o Lucas decidiu confessar. De acordo com o depoimento prestado à polícia, os acontecimentos da noite de 14 de março desenrolaram-se da seguinte forma.

O Lucas e a Fernanda encontraram-se por volta das 20h numa rua residencial perto do apartamento dela. Ele queria convencê-la a continuar noiva. Ela estava determinada a cancelar o casamento. A conversa evoluiu para uma discussão.

“Eu não consigo voltar a confiar em ti. Mentiste-me durante anos e sinto-me traída”, disse a Fernanda.

O Lucas perdeu o controlo. Nas suas próprias palavras, algo ficou em branco na sua mente. Ele agarrou-a pelo pescoço e apertou. Ela tentou libertar-se, mas não conseguiu. Num espaço de minutos, a Fernanda deixou de se mexer. Quando se apercebeu do que tinha feito, o Lucas entrou em pânico, colocou o corpo na bagageira do seu carro e conduziu sem rumo pelas estradas da região.

Por volta das 2 da manhã, encontrou uma área arborizada isolada e enterrou a Fernanda numa sepultura rasa. Ele voltou para casa, limpou o carro e mudou de roupa. Na manhã seguinte, a farsa do noivo desesperado começou. Durante meses, o Lucas viveu uma vida dupla. Publicamente, ele era um homem devastado pela perda da mulher que amava.

Privadamente, ele carregava o peso do segredo que havia enterrado junto com Fernanda. Quando lhe perguntaram por que ele matou a noiva, o Lucas deu uma resposta que os investigadores consideraram reveladora.

“Ela ia contar a todos sobre as dívidas. A minha família ia descobrir, a minha carreira ia acabar. Eu não podia deixar isso acontecer”, respondeu.

O crime não foi cometido por amor ou ciúme. Foi cometido para proteger uma reputação. Com a confissão de Lucas, o inquérito policial foi concluído em novembro de 2010. O Ministério Público apresentou acusação por homicídio qualificado, tipificado no artigo 121, parágrafo 2º, inciso IV do Código Penal, por ter sido cometido mediante dissimulação ou outro recurso que dificultou a defesa da vítima.

A agravante baseou-se no facto de Lucas ter atacado Fernanda de surpresa, sem lhe dar a oportunidade de reagir ou de pedir ajuda. Além disso, a ocultação de cadáver foi considerada uma circunstância agravante. O julgamento foi agendado para março de 2011, no Tribunal do Júri de Joinville. A data coincidiu com o primeiro aniversário da morte da Fernanda. A sessão durou dois dias.

A acusação apresentou as provas recolhidas durante a investigação, incluindo imagens de câmaras, relatórios de peritos e testemunhos. O procurador argumentou que o Lucas tinha planeado o crime para evitar a exposição pública dos seus problemas financeiros. A defesa tentou atenuar a acusação de homicídio, argumentando que se tratava de um crime passional cometido sob violenta emoção.

O advogado de defesa pediu aos jurados que reconhecessem a circunstância atenuante prevista no artigo 65 do Código Penal. O Lucas testemunhou no segundo dia do julgamento. Ele manteve a sua confissão, mas tentou minimizar a sua responsabilidade.

“Eu amava a Fernanda. Perdi o controlo num momento de desespero e arrependo-me profundamente”, disse ele.

Os jurados não se comoveram. Por voto unânime, Lucas foi considerado culpado de homicídio qualificado. A sentença foi proferida pelo juiz presidente: 24 anos de prisão num regime inicial fechado. A família da Fernanda acompanhou o julgamento em silêncio. Quando a sentença foi lida, a mãe baixou a cabeça e chorou em silêncio.

O pai permaneceu imóvel, olhando fixamente para o homem que tirara a vida da sua filha. O Lucas foi levado de volta para a prisão, onde aguardou julgamento. Ele começaria a cumprir a sua pena no sistema prisional de Santa Catarina. Antes de terminarmos, lembrem-se de subscrever o canal e de deixar um gosto para verem mais casos como este. O caso da Fernanda foi oficialmente encerrado, mas as suas consequências continuariam a repercutir-se durante anos.

Lucas cumpriu a sua pena no complexo penitenciário de São Pedro de Alcântara, na grande Florianópolis. De acordo com registos do sistema prisional de Santa Catarina, ele manteve um comportamento considerado adequado durante o seu período de encarceramento. Não esteve envolvido em quaisquer incidentes disciplinares graves.

Segundo a lei brasileira da altura, os prisioneiros condenados por crimes hediondos podiam ter direito a liberdade condicional após terem cumprido 2/5 da pena, desde que fossem réus primários. Lucas encaixava-se nessa categoria. Após ter cumprido 9 anos e 7 meses de prisão, foi-lhe concedida a progressão para o regime semiaberto.

A família de Lucas nunca fez quaisquer declarações públicas sobre o caso. Os pais venderam a casa em Joinville e mudaram-se para outra cidade. O escritório de advogados onde ele trabalhava emitiu um breve comunicado a lamentar os acontecimentos e a informar que tinha despedido o funcionário imediatamente a seguir à sua detenção. A família da Fernanda também evitou a exposição pública.

A mãe deu apenas uma entrevista, em 2012, a um jornal local.

“A perda da minha filha destruiu a família”, disse ela. “O pai morreu menos de um ano após o julgamento, vítima de um ataque cardíaco. Eu mesma luto diariamente com a depressão.”

O apartamento da Fernanda em Joinville foi desocupado pelos seus pais alguns meses após a confirmação da sua morte. Os seus pertences foram guardados em caixas que nunca foram abertas. O contrato de arrendamento foi rescindido. A propriedade foi ocupada por novos inquilinos que desconheciam o seu historial.

A clínica de fisioterapia onde a Fernanda trabalhava manteve uma foto dela num quadro de avisos de funcionários durante vários anos. Com o tempo e a rotatividade de funcionários, a imagem foi removida. Poucos dos funcionários atuais conhecem a história da colega que foi assassinada pelo seu noivo.

O caso da Fernanda não conduziu a alterações legislativas, nem inspirou campanhas de sensibilização. Não houve protestos públicos nem mobilização social. Foi um crime que aconteceu em silêncio, foi investigado de forma metódica e resultou numa condenação. Um caso resolvido pelo Sistema de Justiça Criminal brasileiro dentro dos parâmetros da legislação atual.

Os autos do processo continuam arquivados no Tribunal de Justiça de Santa Catarina. A investigação policial está disponível para consulta pública, sujeita a restrições para proteção de dados sensíveis. A sentença transitou em julgado em 2012, após os recursos interpostos pela defesa terem sido rejeitados na segunda instância.

Fernanda tinha 26 anos quando morreu. Teria sido fisioterapeuta há 15 anos se estivesse viva hoje. Talvez tivesse casado com outra pessoa. Talvez tivesse tido filhos. Talvez tivesse construído a vida que planeou antes de descobrir quem o homem ao seu lado realmente era. Essas possibilidades morreram com ela numa noite de março de 2010.