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MARIDO T*RA A V*DA DO AMNTE DA ESPOSA INF*EL EM BELÉM — NINGUÉM IMAGINOU O QUE VEIO DEPOIS

Ninguém fechou a janela. Foi isso que a vizinha lembrou mais tarde: que a janela da sala do apartamento do terceiro andar estava aberta quando tudo aconteceu. Uma janela pequena com grade de ferro pintada de preto que dava para a rua e permaneceu aberta por horas depois, com a sua cortina de voil branco a balançar ao vento quente de Belém — aquela brisa do rio que entra por todas as frestas no fim da tarde.

Ninguém fechou porque não havia mais ninguém para fechar. Erinaldo havia partido, Cláudia estava no chão, e Márcio, o homem que estivera naquele apartamento por motivos que Erinaldo descobrira três semanas antes, havia partido antes de Erinaldo chegar. Ele partiu, mas deixou algo para trás, algo que a investigação encontraria dias depois.

Um detalhe mudou tudo o que todos pensavam entender sobre o que havia acontecido naquele apartamento em Belém do Pará. Antes de prosseguir, o detalhe que a investigação descobriu dias depois não estava escondido; estava à vista de todos. Estava num lugar onde qualquer um que entrasse naquele apartamento poderia tê-lo visto. Ninguém o viu porque ninguém estava à procura daquela coisa específica. Quando o encontraram, o caso tomou um rumo completamente diferente.

Belém do Pará tem um calor que não é apenas temperatura; é umidade, é peso, é aquele ar espesso da Amazônia que gruda nas roupas e na pele, e que a brisa do Rio Guamá às vezes alivia, mas nunca resolve completamente. É uma cidade que aprendeu a conviver com esse calor de forma específica: janelas abertas, ventiladores a funcionar o dia todo, vida na calçada no fim da tarde, quando o sol baixa um pouco, mas o asfalto ainda retém o calor do meio-dia.

O bairro do Marco fica na zona leste de Belém. É um bairro que tem de tudo. Lojas, escolas, postos de saúde, mercados de bairro todas as sextas-feiras, com aquele cheiro de açaí, peixe fresco e tucumã, que é o cheiro de Belém condensado numa só rua. É o tipo de bairro onde as pessoas vivem há décadas e não pensam em ir embora, porque tudo o que precisam está bem ali.

Erinaldo Tavares tinha 46 anos. Era natural de Castanhal, no nordeste do Pará, mas morava em Belém há 21 anos. Chegou para trabalhar numa empresa de distribuição de bebidas. Começou como entregador de caminhão, subindo na carreira até se tornar supervisor de logística. Era um funcionário de confiança da empresa há 14 anos. Tinha 1,76 m de altura, porte físico robusto, moldado por anos a carregar engradados de bebidas, e mesmo depois de se tornar supervisor, ainda ajudava no carregamento quando a equipa estava desfalcada, por hábito e não por obrigação.

Tinha cabelos pretos com muitos fios grisalhos nas laterais. Um bigode grosso, daqueles que nunca saíram do seu rosto desde os 25 anos. Olhos castanhos escuros com aquela expressão permanentemente atenta que as pessoas às vezes confundiam com desconfiança, mas era apenas o seu jeito. Era um homem de poucas palavras, mas com uma presença sólida. O tipo de pessoa que, ao entrar num ambiente, as pessoas notam sem que precise de fazer nada específico.

Cláudia Tavares tinha 42 anos, era de Belém do Pará, criada no Marco, com cabelos pretos até os ombros, pele morena clara, e aqueles olhos amendoados que são comuns entre as mulheres paraenses. Uma mistura de herança indígena, negra e portuguesa que produziu uma beleza específica que não existe da mesma forma em nenhum outro lugar do Brasil.

Trabalhava como técnica de radiologia num laboratório de diagnóstico por imagem no bairro de Batista Campos. Tinham dois filhos: Thiago, 18 anos, que ingressara na Universidade Federal no início do ano, e Priscila, que estudava numa escola estadual a quatro quarteirões de casa. Moravam num apartamento de dois quartos num prédio de quatro andares na Rua dos Mundurucus.

Terceiro andar sem elevador, com aquela vista dos telhados e copas de árvores que é típica para quem mora no coração de um bairro em Belém. O apartamento era alugado. Moravam lá há 7 anos. Conheciam os vizinhos e eram conhecidos de volta. O casamento durava há 18 anos.

Márcio Figueiredo tinha 38 anos e era analista de sistemas. Trabalhava de casa para uma empresa de tecnologia em São Paulo, uma função ainda relativamente incomum em Belém e que lhe dava uma liberdade de horários que a maioria das pessoas no bairro não tinha. Morava no mesmo prédio que Erinaldo e Cláudia, no segundo andar, um piso abaixo.

Ele havia se mudado para o prédio na Rua dos Mundurucus 18 meses antes do crime, vindo de um apartamento no bairro da Pedreira, no outro lado da cidade, por motivos que explicara vagamente ao síndico do prédio:

“Quero um bairro mais calmo.”

Tinha 1,83 m de altura, magro, com aquele tipo de magreza de quem trabalha sentado o dia todo e às vezes compensa na academia, mas sem muita consistência. Cabelos castanhos claros, óculos finos de armação preta, e aquele visual de analista de sistemas que é discreto e ligeiramente deslocado num bairro como o Marco. Solteiro, sem filhos declarados, recebia poucas visitas — alguém aparecia de vez em quando —, mas ele raramente cumprimentava os vizinhos no corredor, pagava o condomínio em dia e não fazia barulho.

Era o tipo de vizinho que as pessoas descrevem como educado, sem ter muito mais a dizer, porque não há muito o que dizer sobre alguém que só se conhece de passagem no corredor. Até Erinaldo não saber de nada por um tempo, algo que ele depois preferiu não especificar.

A distribuidora de bebidas onde Erinaldo trabalhava tinha rotas longas; às vezes ele saía antes das 6 da manhã e voltava depois das 18h. Às vezes havia reuniões de logística em Ananindeua, cidade vizinha, o que estendia o seu dia até as 20h. A vida de um supervisor de logística numa distribuidora de bebidas em Belém não tem horários fixos.

Cláudia trabalhava das 8h às 17h no laboratório. Chegava a casa por volta das 18h, às vezes 18h30. A rotina deles tinha essa característica: saíam cedo, chegavam a casa no final da tarde, cruzavam-se nos seus lares, mas raramente passavam uma tarde juntos num dia de semana. Márcio trabalhava de casa o dia todo. A investigação concluiria mais tarde que isso havia criado uma janela de oportunidade.

A primeira vez que algo não se encaixou foi numa quinta-feira de maio. Erinaldo tinha saído para uma reunião em Ananindeua que foi cancelada à última hora. O representante da empresa parceira adoecera. O cancelamento foi feito por mensagem de texto às 10h da manhã, quando Erinaldo já estava no trânsito.

Ele voltou para casa, subiu as escadas do prédio e no corredor do segundo andar, ao passar pela porta do apartamento de Márcio, a caminho das escadas para o terceiro andar, ouviu vozes lá dentro. Não era incomum. Márcio às vezes tinha visitas, mas havia uma voz que ele reconheceu. Ele ficou parado no corredor por um segundo. A voz de Cláudia; ela deveria estar no laboratório até as 17h.

Erinaldo ficou no corredor do segundo andar com a sua pasta na mão, com o som do ventilador do corredor ao fundo. Depois subiu, entrou no apartamento, ficou na sala de estar e permaneceu em silêncio por um longo tempo.

Às 18h15, Cláudia chegou com o seu sorriso de sempre e a sua explicação usual sobre o trânsito na Avenida Almirante Barroso. Erinaldo estava na sala.

“Chegaste cedo!”

“A reunião foi cancelada.”

Cláudia foi para a cozinha.

“O jantar está pronto? Posso fazer algo.”

“Não é necessário. Pedi delivery.”

Ela voltou para a sala e sentou-se no sofá. Erinaldo fitou a televisão, que estava desligada.

“Não estiveste no laboratório hoje de manhã?”

Ela fez uma pausa de um segundo.

“Sim, estive.”

“Porquê?”

“Só para perguntar.”

Cláudia olhou-o por um momento e depois foi à casa de banho. Erinaldo ficou na sala com a televisão desligada.

Nos dias seguintes, Erinaldo começou a prestar atenção de uma maneira diferente. Não era um novo tipo de desconfiança; era uma desconfiança que ganhara uma morada específica. Antes, era uma sensação amorfa. Agora tinha um nome e número de apartamento. Segundo andar, apartamento 202. Márcio Figueiredo, que trabalhava de casa, que estava sempre em casa, que ficava no segundo andar, enquanto Erinaldo saía às 6 da manhã para o caminhão.

Erinaldo começou a mapear as coisas, não de forma elaborada; ele era um homem prático, um especialista em logística. Mapeava rotas, mapeava tempo, mapeava janelas de entrega. Isso era tudo o que sabia fazer.

Numa segunda-feira, pediu ao seu assistente para supervisionar a rota da manhã.

“Tenho um compromisso pessoal.”

Ficou no carro estacionado na rua atrás do prédio. Às 9h42, ele viu Cláudia, que deveria estar a caminho do laboratório, entrar no prédio pelo portão lateral. O laboratório ficava no lado oposto da cidade. Erinaldo permaneceu no carro até às 11h15, quando Cláudia saiu pelo mesmo portão lateral. Erinaldo observou-a atravessar a rua e dobrar a esquina. Depois ficou ali a olhar para o prédio, para o segundo andar, por um período de tempo que ele, mais tarde, não saberia precisar.

O que se passa dentro de um homem quando a traição tem endereço certo, quando não é um estranho do outro lado da cidade, mas alguém que vive no andar de baixo, que usa as mesmas escadas, que o cumprimenta no corredor, é algo com uma textura específica. Não é só a traição, é a proximidade da traição. O fato é que, todas as vezes que Erinaldo subira as escadas do prédio nos últimos 18 meses, passara pela porta do apartamento 202.

Erinaldo trabalhou normalmente durante as semanas seguintes. Saía cedo, voltava tarde, planeava as suas rotas, fechava a caixa de logística e respondia aos e-mails do escritório. Por fora, parecia normal.

A filha Priscila, de 15 anos, notou algo uma noite ao jantar. O pai estava diferente de uma maneira que ela não conseguia nomear, mas sentia.

“Pai, está tudo bem?”

“Estou cansado. Uma semana difícil.”

Ela aceitou a resposta. Tinha 15 anos. Há coisas que os adultos carregam dentro de si que as crianças notam, mas ainda não têm as ferramentas para identificar.

Thiago, o mais velho, de 18 anos, estava na universidade. Chegava tarde e saía cedo. Estava naquele período do primeiro ano de faculdade em que a casa vira um hotel e os pais tornam-se apenas cenário. Ele não percebeu nada.

Na noite de sexta-feira, quando tudo aconteceu, caía aquela típica chuva de Belém. Não o tipo de aguaceiro que dura 30 minutos e depois para, mas a chuva fina e constante que perdura por horas, transformando as calçadas em rios rasos e o ar numa névoa quente.

Erinaldo havia dito que iria trabalhar até mais tarde. Havia o fecho do mês na distribuidora e precisavam finalizar os números. Ele não foi trabalhar; ficou num bar a dois quarteirões do prédio, bebeu duas cervejas — apenas duas, ele mesmo disse mais tarde no interrogatório. Ficou a observar a chuva através da porta aberta do bar.

Às 21h30, ele saiu. Não subiu para o terceiro andar; parou no segundo e bateu à porta do apartamento 202. Márcio abriu e viu Erinaldo. A expressão que atravessou o rosto de Márcio naquele segundo, antes que ele pudesse se controlar, foi a confirmação final que Erinaldo precisava, e da qual já não necessitava porque já sabia.

“Erinaldo…” — começou Márcio.

Erinaldo entrou antes que a frase fosse terminada. O que aconteceu dentro do apartamento 202 nos minutos seguintes foi reconstruído pela Polícia Civil de Belém com base na perícia do local, nos depoimentos dos vizinhos que ouviram através das paredes finas do prédio antigo, e nas evidências físicas recolhidas pela equipa de investigação.

Havia uma faca de cozinha na bancada. Márcio estava a jantar quando bateram à porta. O prato ainda estava na mesa com metade da comida. O que Erinaldo fez com aquela faca foi o que os peritos encontraram. Márcio não conseguiu chegar à porta de saída; caiu na sala.

Erinaldo saiu do apartamento, subiu as escadas e entrou no seu apartamento no terceiro andar. Cláudia estava na sala; ela virou-se quando ouviu a porta, olhou para o marido, olhou para as mãos do marido, e entendeu o que havia acontecido no apartamento de baixo. O que Erinaldo disse, o que Cláudia disse, se houve confronto ou se houve silêncio, não foi totalmente reconstruído porque não houve testemunhas diretas.

A vizinha do apartamento ao lado, Dona Nazaré, 63 anos, moradora do apartamento 302 há 12 anos e que ouviu tudo pela parede que separava as salas, disse ter escutado a voz de Erinaldo, muito baixa para entender as palavras durante alguns minutos, e depois silêncio. E então o som da porta a abrir e a fechar. E depois nada.

A chamada para o 190 (emergência) entrou às 22h32. Não veio de dentro do prédio, veio de um telefone público, um daqueles orelhões que ainda existem em alguns bairros de Belém, a três quarteirões da Rua dos Mundurucus. A voz era de um homem.

“Há uma pessoa ferida no segundo andar e outra no terceiro.” — a voz masculina informou, dando a morada do prédio, para depois desligar o telefone.

A operadora tentou ligar de volta para o número do orelhão, mas ninguém atendeu. O SAMU e a Polícia Militar chegaram ao prédio em 13 minutos.

Márcio Figueiredo foi encontrado no chão da sala do apartamento 202 com ferimentos causados por instrumento perfurocortante — a faca de cozinha da própria bancada —, com ferimentos múltiplos, mas ainda com pulsação. Quando os paramédicos chegaram, foi transportado para o Hospital Universitário João de Barros Barreto em estado crítico. Márcio não sobreviveu. Morreu à 0h48 durante uma cirurgia de emergência. Tinha 38 anos.

Cláudia foi encontrada no apartamento do terceiro andar. Ela estava sentada no sofá da sala. Não apresentava ferimentos físicos, mas encontrava-se em choque. Aquele estado específico de choque psicológico em que a pessoa responde quando lhe falam, mas a partir de um lugar muito distante, como se a voz viesse de dentro de um poço.

Quando a policial que entrou primeiro perguntou o que havia acontecido, Cláudia virou o rosto lentamente.

“Ele partiu.”

“Quem partiu? Erinaldo? Para onde?”

Cláudia olhou fixamente para a janela aberta. A cortina de voil branco balançava com o vento quente.

“Não sei.”

Ela foi transportada para a emergência do Marco em observação devido ao choque. Não apresentava ferimentos físicos. Permaneceu sob observação psiquiátrica naquela noite.

A investigação da Polícia Civil de Belém foi aberta imediatamente. O investigador principal do caso era o Dr. Rodrigo Pantoja, 43 anos, com 17 anos de serviço na Polícia Civil do Pará.

Erinaldo havia desaparecido. A chamada do orelhão indicou a direção da Avenida Nazaré. Mas a Avenida Nazaré é uma das principais avenidas de Belém, conectando a vários bairros, ao terminal rodoviário e à área portuária. Foram solicitadas imagens de câmeras de segurança de estabelecimentos da região, incluindo a padaria na esquina da Rua dos Mundurucus.

Às 22h40, um homem que correspondia à descrição de Erinaldo foi visto a caminhar rapidamente, mas sem correr, e sem olhar para a câmera. Depois disso, nada por horas. A família foi contactada. A mãe de Erinaldo em Castanhal disse que o filho não havia ligado. A sua irmã em Ananindeua disse o mesmo. O celular de Erinaldo estava desligado ou sem bateria. As tentativas de localizá-lo não retornaram sinal.

Thiago descobriu o que se passara quando chegou a casa depois da meia-noite. Tinha estado numa festa de calouros e encontrou a polícia no corredor do prédio. Desabou quando a policial explicou o que havia acontecido.

Priscila estava a dormir e foi acordada pela polícia. Uma policial do sexo feminino, como exige o protocolo para menores, sentou-se na cama. Priscila não conseguiu processar as palavras.

“A minha mãe está bem?”

“Sim.” — A policial respondeu.

“E o meu pai?”

A policial não respondeu imediatamente. Priscila entendeu antes mesmo da resposta.

Erinaldo ficou desaparecido durante quatro dias. A investigação trabalhava com o que tinha: fortes evidências físicas, o depoimento de Cláudia assim que pôde falar, os depoimentos dos vizinhos e as imagens das câmeras.

No quarto dia, um pescador que trabalhava numa área de várzea nas margens do Rio Guamá, numa região de difícil acesso a cerca de 40 minutos de barco do centro de Belém, encontrou um homem. O homem estava numa palafita abandonada que os pescadores locais às vezes usavam como abrigo quando a chuva apertava no meio do rio. Ele estava vivo. Encontrava-se em condição física precária, quatro dias sem alimentação regular, exposto ao calor e à umidade da várzea amazônica.

O pescador reconheceu-o pelo rosto que fora mostrado na televisão. Ligou para a polícia do seu próprio celular — cujo sinal milagrosamente funcionava naquela área. A Polícia Civil chegou de barco. Erinaldo estava sentado dentro da palafita. Quando os agentes entraram, ele olhou para eles com a expressão de alguém que esperava a sua chegada. Não fugiu, não resistiu. Vestia as mesmas roupas com que saíra de casa quatro noites antes, encharcadas e cobertas de lama.

“Como chegaste aqui?” — um dos agentes perguntou.

“Fui de ônibus até a cidade velha. Depois paguei a um barqueiro.” — respondeu. Erinaldo olhou para a entrada da palafita, por onde a luz do rio entrava. “Eu não sabia para onde mais ir.”

Foi levado de barco de volta a Belém. Na delegacia de homicídios, Erinaldo Tavares foi formalmente acusado de homicídio intencional. A sala de interrogatório era pequena, com paredes cinzentas e um ventilador de teto que não aliviava o calor dentro do recinto fechado.

O delegado Dr. Rodrigo Pantoja conduziu o interrogatório. Erinaldo havia tomado um banho e mudado de roupa; a polícia havia providenciado. Ele sentou-se e juntou as mãos.

“Você quer um advogado presente?”

“Quero falar primeiro.”

O delegado informou-o dos seus direitos. Quando Erinaldo disse que entendia, contou, por ordem, sobre a reunião cancelada em maio; a voz que reconhecera à porta do segundo andar; as semanas de observação; a segunda-feira em que ficara no carro; as duas cervejas no bar à chuva; e o que se passara no segundo andar.

O delegado ouviu tudo sem interromper. Quando Erinaldo terminou, houve silêncio. Então, o delegado fez a pergunta que mudou o rumo do interrogatório.

“Você ligou para o orelhão depois disso.”

Erinaldo permaneceu em silêncio.

“Você ligou para o 190 do orelhão, deu o endereço, disse que havia uma pessoa ferida no segundo andar e uma no terceiro. Disse a direção que havia tomado.”

Silêncio.

“Por que ligou?”

Longa pausa.

“Por causa da Cláudia. Eu precisava que alguém fosse até ela.”

“Você não machucou a Cláudia. Você subiu para o terceiro andar e não machucou a Cláudia.”

“Não. Mas você ligou para ter a certeza de que alguém iria até ela.”

“Isso mesmo.”

“Você ainda a ama?”

Erinaldo não respondeu; apenas ficou a olhar para as próprias mãos cruzadas sobre a mesa. E foi naquele silêncio, naquela pergunta não respondida, que o delegado Rodrigo Pantoja entendeu que havia uma camada nessa história que ainda não viera à tona.

Foi no terceiro dia após a prisão de Erinaldo que a investigação encontrou o que havia permanecido no apartamento. A equipe forense fizera o levantamento no apartamento 202 imediatamente após o crime; tudo fotografado, catalogado e embalado.

Mas houve uma segunda visita de verificação, um procedimento padrão da Polícia Civil do Pará em casos de homicídio para confirmar que nada fora deixado para trás. O agente que conduziu a segunda visita foi a investigadora Débora Assis, 29 anos, com dois anos de experiência.

No segundo andar, no apartamento de Márcio, a investigadora foi ao quarto, que havia sido checado na primeira perícia forense, mas não totalmente desmontado porque não fora a cena do crime. Embaixo da cama havia uma caixa de papelão comum. Muitas pessoas guardam coisas sob as suas camas.

A investigadora puxou-a para fora. Dentro havia documentos. Documentos de Márcio, contratos de trabalho, comprovantes de residência anterior, extratos bancários e… Uma pasta. Uma pasta de plástico fina e transparente, com um elástico.

A investigadora abriu. Dentro havia fotografias. Fotografias de Erinaldo. Não de Cláudia, de Erinaldo. Erinaldo a sair do prédio de manhã; Erinaldo no estacionamento da distribuidora; Erinaldo num bar de bairro; Erinaldo na feira de sexta-feira. Fotografias tiradas à distância, com uma câmera com zoom.

Havia 17 fotografias com datas diferentes ao longo de vários meses. A investigadora encarou as fotos por um tempo e depois ligou para o delegado de polícia.

O delegado Rodrigo Pantoja permaneceu em silêncio quando as viu. Ficou em silêncio por um longo tempo. Depois, pediu à equipa que reunisse tudo o que pudesse encontrar sobre Márcio Figueiredo. Tudo antes de Belém, antes do Marco, antes do apartamento 202.

O que a investigação descobriu nos dias seguintes não foi o que ninguém esperava. Márcio Figueiredo havia morado anteriormente em Ananindeua — e não na Pedreira, como dissera ao síndico do prédio. Morara na mesma cidade onde a distribuidora de bebidas em que Erinaldo trabalhava tinha um escritório regional.

Márcio não trabalhara como analista de sistemas, mas sim para uma empresa de segurança privada que prestava serviços para várias empresas na região metropolitana de Belém. Entre os clientes dessa empresa de segurança estava a distribuidora onde Erinaldo era supervisor de logística.

A investigação aprofundou-se. Três anos antes do crime, havia um processo trabalhista em andamento contra a distribuidora. Um ex-funcionário alegava irregularidades no fechamento da logística e o desaparecimento de mercadorias que teriam sido encobertas nos relatórios. Os relatórios eram de responsabilidade do supervisor Erinaldo.

O processo havia sido encerrado. O ex-funcionário retirara a queixa por meio de um acordo financeiro cujos termos eram confidenciais. Mas alguém havia contratado Márcio (ou a empresa de segurança onde ele trabalhava) para monitorizar Erinaldo durante aquele período. O monitoramento começara três anos antes do crime e continuara quando Márcio se mudara para o apartamento 202 na Rua dos Mundurucus.

O relacionamento com Cláudia, que a investigação confirmou existir há quase um ano, começara seis meses depois de Márcio se mudar para o prédio. Não havia como provar com certeza absoluta se o relacionamento tinha sido uma parte deliberada da monitorização ou se surgira por si só. Mas as 17 fotografias de Erinaldo na caixa debaixo da cama diziam uma coisa de forma clara: Márcio continuara a vigiá-lo mesmo após o encerramento do processo trabalhista.

Alguém ainda queria saber sobre Erinaldo; alguém que a investigação tentou identificar e que permaneceu nos autos do processo como “mandante não identificado”.

A ação penal foi aberta pelo Ministério Público do Estado do Pará. Erinaldo foi denunciado por homicídio doloso qualificado, com discussão a respeito de circunstâncias agravantes. A defesa, liderada pelo Dr. Augusto Lobato, advogado criminal de Belém com 22 anos de experiência em Tribunal do Júri, trabalhou com três pontos:

Primeiro, a tese de homicídio privilegiado devido à violenta emoção; segundo, o contexto do monitoramento, argumentando que Erinaldo fora vítima de vigilância sistemática por razões que o processo trabalhista ajudava a contextualizar; e terceiro, o fato de Erinaldo ter ligado para um telefone público para garantir socorro.

A defesa argumentou que o pedido de ajuda mostrava que, mesmo nos piores momentos, havia consciência e humanidade nele.

O Ministério Público contestou cada ponto. Houve uma mudança de atitude entre o crime ocorrido no segundo andar e a subida para o terceiro andar; tratava-se de deliberação. Além disso, a fuga de quatro dias configurava uma tentativa de evadir-se à responsabilidade. O monitoramento de Márcio, por mais perturbador que fosse, não justificava um homicídio.

O julgamento pelo Tribunal do Júri ocorreu numa quarta-feira de outubro do ano seguinte, na Vara Criminal de Belém. Sete jurados (três mulheres e quatro homens) ouviram durante 13 horas de julgamento. Cláudia foi ouvida como testemunha do Ministério Público. Entrou na sala com aquela compostura difícil de quem havia ensaiado a cena muitas vezes na cabeça. Sentou-se e respondeu.

O promotor perguntou sobre o seu relacionamento com Márcio. Cláudia confirmou. Disse que começara gradualmente, com conversas no corredor, um café e depois evoluiu. Disse que não planeou aquilo.

“Sabias que Márcio se mudara para o prédio de forma não aleatória?”

Cláudia permaneceu em silêncio. Disse que não sabia na época, só descobriu depois.

“Como reagiste quando descobriste?”

Houve um longo silêncio.

“Não sei como descrever o que senti.”

O promotor não insistiu. O Dr. Augusto Lobato, na sua argumentação oral, foi direto. Falou das 17 fotografias. Falou de um homem que havia sido monitorado durante anos sem o saber, que fora traído dentro do seu próprio prédio por um homem que para lá se mudara com um propósito não totalmente claro; um homem que, apesar de tudo, ligara para um orelhão para garantir que a esposa — a quem não agredira — fosse socorrida.

“Ele pensou na mulher que amava. Isso não justifica o que aconteceu, mas diz algo sobre quem ele é.” — a defesa argumentou.

O promotor focou-se em Márcio, aos 38 anos, cuja vida havia sido ceifada. Argumentou que, independentemente das circunstâncias (o monitoramento, o processo trabalhista ou o que estivesse por trás), ele fora assassinado.

“Não há circunstância que justifique tirar uma vida. Nenhuma.”

Os jurados retiraram-se às 21h50 e retornaram à 1h13 da manhã. A sala ficou em silêncio — aquele silêncio próprio de uma sala de júri à 1h da manhã. O veredicto foi: culpado de homicídio intencional. A qualificadora de motivo torpe foi rejeitada por cinco dos sete jurados; a qualificadora do meio que dificultou a defesa da vítima foi reconhecida por quatro votos; a tese do privilégio foi rejeitada por 4 a 5. O juiz presidente fixou a pena: 12 anos de prisão.

Erinaldo ouviu sentado, com as mãos entrelaçadas. Quando o juiz terminou, procurou pelos filhos na plateia. Thiago e Priscila olhavam para o pai; não acenaram, não sorriram, mas olharam. E às vezes o olhar é tudo o que resta.

Erinaldo cumpre pena na penitenciária estadual em Marituba. Thiago visita-o uma vez por mês e traz-lhe comida. Falam sobre a faculdade e o estágio. Erinaldo escuta, faz perguntas e responde.

Priscila foi apenas uma vez. Passou toda a visita em quase completo silêncio. Na hora de ir embora, abraçou o pai de forma rápida, mas firme. Erinaldo segurou-a por uns segundos. Depois ela saiu.

Cláudia pediu transferência para o laboratório do bairro do Guamá. Mudou-se do apartamento na Rua dos Mundurucus dois meses após o crime, incapaz de passar pelo segundo andar todos os dias. Agora mora com Priscila noutro bairro. Thiago vive no alojamento da universidade, mas visita a mãe aos fins de semana. Eles continuam a ser uma família — com as lacunas que antes não existiam, mas ainda assim uma família.

A janela da sala do apartamento do terceiro andar está fechada agora. O novo inquilino mandou fechá-la, alegando que entrava muito mosquito. A cortina branca de voil foi substituída por um blecaute que escurece o ambiente mesmo de dia.

Dona Nazaré, a vizinha do apartamento 302, escuta o barulho do novo inquilino através da parede. São sons normais: televisão, cozinha, conversas ao telefone. E às vezes, ela para o que está a fazer e escuta. Não pelo barulho, mas pelo contraste com o silêncio que pairara ali durante semanas após aquela noite chuvosa. Um silêncio que ela ainda sente, de vez em quando, mesmo com a vida nova a pulsar do outro lado da parede — essas rachaduras que nunca se fecham sozinhas.