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Milionári M*ta Ex-Amante em Iate de Luxo — Ela Possuía Vídeos e Cobrou R$ 4 Milhões*

Beatriz pisou no deck da luxuosa embarcação numa tarde de sexta-feira e nunca mais retornaria viva. A noite de 15 de março de 2015 estava abafada na costa fluminense. O oceano tranquilo espelhava as luzes do porto enquanto o barco de 20 m se aprontava para sair.

Beatriz, com 38 anos, especialista em questões fiscais com consultoria própria na capital paulista, entrou na embarcação levando uma bagagem para o fim de semana e a convicção de que sairia dali com R$ 4 milhões de reais. Ela tinha proximidade com Ricardo há aproximadamente 2 anos. Tinha conhecimento sobre cada esconderijo dos 120 milhões que o fisco desconhecia completamente.

Possuía duplicatas de documentos, códigos de aplicações em territórios protegidos e registros de áudio incriminadores. Beatriz imaginava que esse poder era sua blindagem. Na realidade, selava seu destino. Às 10 da noite daquela sexta-feira, o aparelho celular dela parou de funcionar. A derradeira marcação de GPS indicava posição em pleno centro da Baía. Ninguém na Marina testemunhou sua saída no sábado, ninguém no domingo.

Na segunda pela manhã, quando a embarcação voltou solitária ao ancoradouro, Ricardo informou às autoridades:

“Beatriz partiu na véspera utilizando o bote inflável.”

As câmeras do porto mostravam outra realidade ou simplesmente não mostravam coisa alguma. Inexistia qualquer registro de Beatriz abandonando o barco por qualquer via.

O bote permaneceu conectado à embarcação durante toda a estadia. 15 dias mais tarde, equipes subaquáticas das forças navais descobriram um cadáver a 15 m de profundidade, enroscado em formações rochosas a 800 m da praia. O reconhecimento foi imediato. Beatriz ainda portava o relógio dourado que comprara para celebrar sua maior vitória profissional.

O relatório médico legal indicou morte por asfixia através de estrangulamento. Havia sinais claros de enforcamento manual no pescoço. O cadáver exibia também ferimentos consistentes com imobilização violenta nos braços. Os pulmões estavam secos. Beatriz falecera antes de submergir. No dispositivo móvel resgatado junto aos restos mortais, especialistas descobriram uma mensagem jamais transmitida.

Estava guardada nos rascunhos, registrada em 15 de março, às 9:47 da noite. A destinatária era a irmã de Beatriz. O texto continha apenas 11 palavras que transformariam o curso da apuração:

“Se algo me acontecer, foi ele, Ricardo, guarda isso.”

O que transcorreu nas derradeiras horas daquela consultora? Por qual razão uma mulher astuta aceitou o convite de alguém que ela própria estava coagindo? Beatriz veio ao mundo em Ribeirão Preto, interior paulista, em 1977.

Descendente de um contador e uma educadora, cresceu observando o pai mergulhado em balanços e formulários tributários. Aos 17, já auxiliava no estabelecimento da família. Aos 22, diplomou-se em jurisprudência pela principal universidade estadual. Especializou-se em legislação fiscal e edificou prestígio firme entre empreendedores que necessitavam de alternativas discretas para dilemas tributários intrincados.

Em 2013, Beatriz inaugurou sua própria consultoria na principal Avenida Paulistana. Mantinha meia dúzia de colaboradores e um portfólio de clientes exclusivo. Suas tarifas eram altas porque proporcionava resultados concretos. Seus pares a caracterizavam como minuciosa, cautelosa e totalmente profissional. Jamais confundia vida particular e ocupação até encontrar Ricardo.

Ricardo completara 54 anos quando contratou Beatriz para gerenciar sua separação conjugal. Magnata do ramo de extração mineral, a bater a fortuna explorando depósitos de nióbio nas Minas Gerais. Oficialmente, seu capital declarado somava 40 milhões. Extraoficialmente, conforme Beatriz apuraria nas semanas posteriores, esse montante era somente a superfície.

A separação de Ricardo era conflituosa. A consorte Helena demandava divisão equitativa do patrimônio. Ricardo necessitava de uma advogada que compreendesse como ocultar recursos sem deixar evidências. Beatriz era essa profissional.

Durante meses de colaboração, encontros em estabelecimentos hoteleiros e refeições que ultrapassavam o necessário, o vínculo profissional atravessou limites. Beatriz obteve acesso total às finanças de Ricardo. Conhecia cada corporação fantasma no istmo centro-americano, cada aplicação codificada na Europa, cada remessa mascarada de assessoria internacional. Quando a separação se concluiu em setembro de 2014, Helena ficou com 8 milhões e a propriedade na serra.

Ricardo preservou o restante intacto graças ao serviço de Beatriz. O relacionamento amoroso prosseguiu por mais três meses após a separação. Ricardo prometia abandonar tudo e reconstruir a vida ao lado de Beatriz. Em dezembro, sem notificação prévia, retornou para Helena.

Justificou-se para Beatriz:

“Preciso manter as aparências diante dos parceiros comerciais e da elite mineira.”

Beatriz foi descartada como uma questão resolvida. Ela discordou. Nos meses subsequentes, Beatriz organizou toda a documentação que possuía sobre a existência financeira de Ricardo, dispunha de correspondências eletrônicas, acordos, demonstrativos e gravações de diálogos.

O arsenal era suficiente para aniquilar não só a reputação dele, mas para assegurar uma sentença por fraude fiscal e branqueamento de capital. Em fevereiro de 2015, Beatriz apresentou seu ultimato. Desejava 4 milhões em compensação por silêncio total. A resposta de Ricardo surgiu uma semana após a exigência.

Telefonou para Beatriz às 7 da noite de uma quarta-feira e sugeriu um encontro presencial:

“Não vou negociar quantias por telefone. Proponho um fim de semana na embarcação na costa, onde poderemos dialogar com privacidade e alcançar um entendimento civilizado.”

Beatriz vacilou inicialmente e mencionou à irmã caçula, Carla, que não depositava confiança total na proposta. Carla tentou dissuadi-la:

“É perigoso encontrar-se sozinha com alguém que você está extorquindo.”

Beatriz replicou:

“Eu tenho salvaguardas.”

Não detalhou quais. Na quinta-feira, 12 de março, Beatriz retirou R$ 15.000 em papel moeda de sua aplicação bancária. Adquiriu um aparelho telefônico descartável numa loja de tecnologia num shopping paulistano.

Registros financeiros e de crédito demonstram que também comprou um dispositivo de armazenamento de 64 GB numa livraria adjacente. As autoridades nunca localizaram esses objetos. Na manhã de sexta-feira, Beatriz abandonou seu apartamento no bairro nobre às 10 horas. Uma moradora do pavimento superior a observou entrando no elevador com uma bagagem de rodas azul. Beatriz aparentava serenidade.

Vestia trajes leves de estação quente e lentes escuras. Informou:

“Vou passar o fim de semana no litoral.”

O percurso até a costa demora aproximadamente 4 horas partindo da capital. Registros de pedágio demonstram que o automóvel de Beatriz atravessou a praça de Paraty às 2:30 da tarde.

Chegou à Marina por volta das 3 horas e estacionou no segundo nível subterrâneo do estacionamento coberto. Câmeras de vigilância captaram Beatriz caminhando rumo ao cais às 3:23 da tarde. Transportava a mala azul com a mão esquerda e uma bolsa de praia no ombro direito. Parecia conferir o celular enquanto se deslocava. É o último registro dela com vida.

A embarcação de Ricardo, denominada Horizonte Azul, estava atracada na doca 7. Tinha capacidade para 12 ocupantes, três suítes e equipe de até quatro funcionários. Naquele fim de semana específico, inexistia equipe a bordo. Ricardo dispensara todos sob o seguinte pretexto:

“Desejo isolamento total para um encontro de negócios.”

Testemunhas locais observaram Beatriz embarcar desacompanhada às 3:40. Ricardo já se encontrava a bordo. A embarcação zarpou às 4 horas e sumiu no horizonte em direção à Baía. Quando Carla percebeu a impossibilidade de comunicação com a irmã, já era domingo à noite. Discou inúmeras vezes para o celular de Beatriz. Todas as tentativas caíam na secretária eletrônica.

Na segunda de manhã, Carla formalizou a ocorrência na delegacia do bairro, relatando o desaparecimento. As autoridades inicialmente trataram o caso com ceticismo. Beatriz era adulta, solteira e viajara voluntariamente. Desaparecimentos de pessoas maiores de idade raramente recebem prioridade imediata. Foi somente quando Carla mencionou o nome de Ricardo e sua conexão com a irmã, que os investigadores começaram a se interessar.

Ricardo foi encontrado na segunda à tarde em sua residência na capital mineira. Recebeu os policiais com aparente espanto ao saber que Beatriz estava desaparecida. Confirmou que ela embarcara na embarcação na sexta-feira, porém garantiu:

“Ela partiu no sábado pela manhã, e solicitou ser deixada numa praia adjacente porque desejava encontrar uma conhecida que estava hospedada num resort da área.”

A versão de Ricardo gerou a primeira trilha equivocada da investigação. Policiais consumiram dois dias verificando estabelecimentos hoteleiros na região costeira em busca dessa suposta conhecida. Nenhuma hospedagem tinha hóspedes com qualquer ligação conhecida com Beatriz.

A conhecida simplesmente inexistia. Enquanto isso, Ricardo contratou um dos gabinetes de advocacia criminal mais prestigiados da capital fluminense. Seus advogados orientaram que não prestasse mais declarações sem acompanhamento legal. A cooperação inicial transformou-se em silêncio estratégico. A investigação enfrentou outro empecilho.

As câmeras de vigilância da Marina haviam apresentado falhas técnicas justamente no fim de semana em questão. O sistema de gravação sofrera uma pane que corrompeu arquivos de sábado e domingo. Técnicos da empresa de segurança não conseguiram recuperar as imagens. As autoridades suspeitaram de sabotagem, mas não puderam provar.

Os primeiros dias de investigação geraram mais interrogações que respostas. Onde estava o celular de Beatriz? Por que Ricardo dispensara toda a tripulação? Quem era a suposta conhecida que Beatriz iria encontrar? E por que um magnata com 120 milhões necessitava resolver pessoalmente uma questão que poderia delegar a intermediários? O delegado encarregado do caso, Alberto, tinha 23 anos de experiência na corporação policial.

Já investigara crimes passionais envolvendo fortunas e percebeu rapidamente que a história de Ricardo não se sustentava. O cadáver de Beatriz foi descoberto no dia 29 de março de 2015. Mergulhadores da capitania realizavam exercício de treinamento quando localizaram restos humanos presos entre formações rochosas a 800 m da costa e 15 m de profundidade.

O estado de decomposição dificultou o reconhecimento visual. A confirmação veio através de registros odontológicos e um exame genético solicitado pela família. O laudo do Instituto Médico Legal fluminense foi conclusivo quanto à causa do falecimento: asfixia mecânica por estrangulamento. As marcas no pescoço indicavam pressão manual, não uso de cordame ou instrumento. O legista responsável documentou também ferimentos nos pulsos compatíveis com imobilização forçada.

Beatriz fora imobilizada antes de falecer. Inexistia água nos pulmões, o que significava que já estava morta ao entrar na água. O corpo fora lançado no oceano para dificultar a descoberta. O peso de uma corrente de âncora ainda estava preso ao tornozelo direito de Beatriz, quando mergulhadores a encontraram.

A corrente se soltara parcialmente de um lastro de chumbo, permitindo que o corpo flutuasse até ficar preso nas rochas. Se a amarração tivesse resistido, Beatriz provavelmente jamais seria encontrada. A descoberta do cadáver transformou o caso de desaparecimento em investigação de homicídio. Ricardo foi convocado a prestar novo depoimento, agora como investigado.

Seus advogados acompanharam a sessão inteira e orientaram o cliente a permanecer em silêncio sobre detalhes específicos do fim de semana. A equipe de perícia retornou à embarcação Horizonte Azul com mandado de busca. O barco havia sido lavado e encerado após o retorno à marina. Ainda assim, peritos encontraram vestígios de sangue em frestas do piso da cabine principal.

O sangue pertencia a Beatriz. Carla autorizou que as autoridades acessassem os dados do celular da irmã. O aparelho foi recuperado junto ao corpo, protegido por uma capinha impermeável. Apesar de duas semanas submerso, o cartão de memória permaneceu intacto. O conteúdo desse cartão mudaria completamente a investigação.

O celular de Beatriz continha centenas de arquivos organizados em pastas com datas e códigos. Havia cópias digitalizadas de acordos, demonstrativos bancários, correspondências eletrônicas e planilhas.

Cada documento relacionava-se às atividades financeiras de Ricardo. A consultora havia construído um dossiê completo sobre a fraude fiscal do empresário, mas o conteúdo mais relevante estava numa pasta chamada proteção. Beatriz guardava vídeos gravados durante encontros íntimos com Ricardo.

Eram 17 arquivos em que ambos apareciam em hotéis e na própria embarcação. Em alguns vídeos, Ricardo fazia comentários sobre suas corporações offshore e o capital escondido do fisco. Aquelas gravações eram material para coação e para comprovação de crimes fiscais simultaneamente. No aplicativo de mensagens, peritos recuperaram conversas entre Beatriz e Ricardo.

O histórico revelava uma deterioração progressiva do relacionamento. Mensagens inicialmente carinhosas davam lugar a cobranças e ameaças veladas. Em uma troca de fevereiro, Beatriz escreveu:

“Necessito de segurança financeira após tudo que realizei por você.”

Ricardo respondeu:

“Vamos resolver isso pessoalmente.”

A mensagem mais importante, porém, estava nos rascunhos.

Às 9:47 da noite de 15 de março, Beatriz começou a digitar uma mensagem para a irmã. O texto dizia:

“Se algo me acontecer, foi ele, Ricardo, guarda isso.”

A mensagem jamais foi enviada. Algo interrompeu Beatriz antes que apertasse o botão de enviar. As autoridades estimaram que a morte ocorreu pouco tempo depois, ainda na noite de sexta-feira.

Com base nas evidências, o delegado Alberto solicitou ao Ministério Público a decretação da prisão preventiva de Ricardo. O promotor responsável concordou que havia indícios suficientes de autoria e materialidade. Em 3 de abril de 2015, Ricardo foi preso em sua residência na capital mineira. A defesa impetrou habeas corpus no Tribunal de Justiça Fluminense, alegando ausência de provas diretas. O pedido foi negado por unanimidade.

O desembargador relator destacou em seu voto que as circunstâncias do caso apontavam fortemente para a culpabilidade do empresário. Ricardo permaneceu preso preventivamente enquanto a investigação era finalizada. O Ministério Público tinha prazo para oferecer a denúncia formal. A investigação ganhou novo impulso quando a Receita Federal abriu procedimento próprio contra Ricardo.

Os documentos encontrados no celular de Beatriz foram compartilhados com auditores fiscais. O dossiê revelava um esquema de sonegação que movimentara mais de 80 milhões em 10 anos. As corporações de fachada no istmo centro-americano estavam registradas em nome de laranjas, mas acordos assinados por Ricardo deixavam clara sua participação.

Aplicações na Europa recebiam transferências mensais disfarçadas de pagamentos por consultorias inexistentes. A Receita Federal calculou que Ricardo devia mais de 30 milhões em impostos não pagos. Esse novo desdobramento fortaleceu a tese do Ministério Público. A promotora Daniela argumentou que Ricardo tinha motivação clara para eliminar Beatriz.

Não se tratava apenas de uma ex-amante inconveniente. Beatriz possuía provas que poderiam destruir o patrimônio dele e mandá-lo para a prisão por crimes fiscais. Os advogados de defesa tentaram desqualificar as evidências. Alegaram que os vídeos e documentos haviam sido obtidos ilegalmente por Beatriz e não poderiam ser usados no processo criminal. O juiz responsável rejeitou a preliminar.

Determinou que as provas eram lícitas porque não haviam sido produzidas pelo Estado, mas pela própria vítima para a proteção pessoal. A família de Beatriz acompanhava cada desenvolvimento do caso. Carla tornou-se porta-voz informal, concedendo entrevistas à imprensa e cobrando celeridade na justiça. Os pais da vítima, já idosos, preferiram manter-se afastados dos holofotes.

A reconstrução dos últimos movimentos de Beatriz ocupou semanas de trabalho pericial. Análises de torres de celular confirmaram que o aparelho dela havia sido desligado enquanto a embarcação ainda estava próxima à costa. A última comunicação com antenas ocorreu às 10:03 da noite, quando o barco navegava a aproximadamente 3 milhas náuticas da Marina. O Ministério Público reuniu depoimentos de funcionários de Ricardo.

Um marinheiro que trabalhava na embarcação há 6 anos afirmou:

“Nunca antes o patrão havia dispensado toda a tripulação. Sempre mantinha ao menos um piloto a bordo.”

A exceção ocorreu justamente no fim de semana em que Beatriz desapareceu. Ricardo era conhecido no meio empresarial como negociador implacável.

Construiu sua fortuna comprando jazidas minerais de pequenos proprietários por valores abaixo do mercado. Usava táticas de pressão e intimidação para fechar acordos favoráveis. Antigos sócios o descreviam como alguém incapaz de aceitar derrota. A investigação revelou que não era a primeira vez que Ricardo enfrentava problemas com mulheres.

Uma ex-namorada havia registrado boletim de ocorrência contra ele em 2009 por ameaças. O caso fora arquivado após a mulher retirar a queixa. Outra ex-funcionária processara a empresa dele por assédio moral em 2011. O processo foi encerrado mediante acordo financeiro e cláusula de confidencialidade.

O perfil psicológico traçado pelas autoridades apontava para um homem acostumado a resolver problemas com dinheiro ou intimidação. Quando Beatriz exigiu 4 milhões, Ricardo provavelmente calculou que seria mais econômico eliminá-la do que pagar. Afinal, o pagamento não garantiria silêncio permanente. Uma chantagista poderia sempre voltar pedindo mais. A promotora Daniela apresentou denúncia por homicídio qualificado.

As qualificadoras eram motivo torpe e recurso que dificultou a defesa da vítima. Ricardo teria assassinado Beatriz para evitar exposição criminal e financeira, aproveitando-se do isolamento na embarcação em alto mar. O julgamento foi marcado para outubro de 2016. Ricardo permaneceu preso preventivamente durante todo o período. Suas tentativas de obter liberdade provisória mediante pagamento de fiança foram negadas repetidamente.

O juiz considerou que havia risco de fuga. Dada a fortuna do réu e suas conexões internacionais, a defesa preparou estratégia baseada em ausência de testemunhas diretas do crime. Ninguém vira Ricardo matar Beatriz. Não havia confissão. As provas eram circunstanciais, embora numerosas.

Os advogados argumentaram perante o tribunal:

“Beatriz poderia ter caído acidentalmente da embarcação e se afogado. As marcas de estrangulamento seriam resultado de tentativa frustrada de reanimação.”

O Ministério Público considerou essa tese absurda. Beatriz havia sido estrangulada até a morte, amarrada com corrente de âncora e lançada ao mar. Nenhum acidente explicava esse conjunto de fatos.

O julgamento de Ricardo ocorreu na segunda vara criminal da comarca litorânea em 17 de outubro de 2016. O Tribunal do Júri foi composto por sete cidadãos selecionados entre moradores da região. O processo durou 3 dias de debates intensos. A promotora Daniela apresentou as evidências em ordem cronológica. Começou pela relação entre Ricardo e Beatriz.

Passou pela extorsão e terminou com a descoberta do corpo. Exibiu ao júri os vídeos encontrados no celular de Beatriz com as partes íntimas desfocadas. Reproduziu a mensagem não enviada, mostrou fotos do corpo e do laudo pericial. Funcionários de Ricardo testemunharam que o patrão agira de forma estranha naquele fim de semana.

O zelador da Marina declarou:

“Ricardo retornou sozinho na segunda-feira e parecia nervoso. Lavou pessoalmente o convés da embarcação, tarefa que sempre delegava à tripulação.”

Um mecânico notou que faltava uma seção de corrente de âncora, substituída por uma nova dias depois. A defesa tentou criar dúvidas sobre a cronologia do crime.

A defesa argumentou que Beatriz poderia ter deixado a embarcação no sábado, conforme Ricardo declarara:

“Ela poderia ter encontrado outra pessoa na região e sido morta por desconhecido.”

A corrente de âncora poderia ter sido perdida em incidente anterior não reportado. Os peritos do Instituto Médico Legal foram convocados a explicar suas conclusões. Confirmaram que as marcas no pescoço de Beatriz eram incompatíveis com afogamento ou queda acidental.

A pressão havia sido aplicada de frente, por mãos humanas, durante tempo suficiente para causar morte. A vítima tentara se defender, evidenciado por fibras de pele masculina sob suas unhas. O DNA coletado das unhas de Beatriz foi comparado com amostra de Ricardo. O resultado foi positivo.

O material genético encontrado no corpo da vítima pertencia ao réu. Após 15 horas de deliberação distribuídas em dois dias, o júri retornou com veredicto. Por cinco votos a dois, Ricardo foi considerado culpado de homicídio qualificado. A juíza presidente passou à dosimetria da pena.

A juíza Patrícia proferiu sentença em 18 de outubro de 2016. Considerou as circunstâncias do crime, os antecedentes do réu e as qualificadoras reconhecidas pelo júri. Ricardo foi condenado a 23 anos de reclusão em regime inicialmente fechado por homicídio qualificado.

A pena ficou abaixo do máximo previsto porque Ricardo era réu primário e tinha residência fixa. A juíza destacou em sua fundamentação:

“O crime foi friamente planejado. Ricardo atraiu Beatriz para local isolado, dispensou testemunhas e executou o homicídio com método calculado para ocultar o corpo.”

Apenas falhas na amarração impediram que Beatriz desaparecesse para sempre. A defesa recorreu ao Tribunal de Justiça Fluminense, alegou nulidades processuais e questionou a admissibilidade das provas obtidas do celular. Em março de 2018, a Segunda Câmara Criminal negou provimento ao recurso por unanimidade. Os desembargadores consideraram que as provas eram lícitas e que o júri agiu com base em evidências robustas. Um novo recurso foi interposto ao Superior Tribunal de Justiça.

Em dezembro de 2019, a Quinta Turma também negou provimento. O ministro relator destacou que não cabia a revisão de matéria fática em instância superior. A condenação transitou em julgado em janeiro de 2020. Ricardo cumpre pena na penitenciária Evaristo de Morais em São Gonçalo.

Terá direito à progressão para regime semiaberto após cumprir 2/5 da pena, desde que apresente bom comportamento. Pelos cálculos, isso ocorreria por volta de 2025. A Receita Federal concluiu o procedimento administrativo separado contra Ricardo. Ele foi autuado por evasão fiscal no valor de 40 milhões entre tributos devidos, juros e multas. Os bens em seu nome foram bloqueados para garantir o pagamento.

A fortuna que ele tentou proteger, assassinando Beatriz, agora pertence parcialmente ao Estado. A embarcação Horizonte Azul foi vendida em leilão judicial por R$ 1.200.000. O apartamento de Ricardo na capital mineira foi arrematado por três milhões. As corporações offshore tiveram ativos repatriados compulsoriamente. O corpo de Beatriz foi sepultado em Ribeirão Preto, sua cidade natal.

Carla visitava o túmulo toda semana, nos primeiros anos após o crime. Beatriz acreditou que conhecer os segredos de Ricardo lhe dava poder sobre ele. Subestimou o que homens fazem para proteger o que consideram seu.