O universo do jornalismo esportivo brasileiro, que já costuma ser palco de debates acalorados, viveu recentemente um dos seus momentos mais tensos dos últimos anos. O epicentro da discórdia envolve duas figuras que compartilharam os mesmos corredores no passado: Thiago Leifert e Milly Lacombe. Em uma transmissão ao vivo que rapidamente se tornou viral, Leifert não poupou críticas a colegas da profissão, com foco especial na comentarista Milly Lacombe, acusando-a de desonestidade intelectual e de espalhar narrativas falsas sobre Neymar. A reação de Milly, no entanto, veio acompanhada de provas, expondo falhas graves na fundamentação do ataque de Leifert e levantando questões urgentes sobre ética e o papel do comunicador na era das redes sociais.
O Ponto de Partida: A Live da Discordia
A polêmica começou quando Thiago Leifert, em uma live extensa, resolveu “colocar ordem na casa”. O comunicador atacou diversos colegas que, na sua visão, realizaram análises bizarras sobre a convocação de Neymar para a Seleção Brasileira. Leifert defendeu que tais posicionamentos — como a crítica ao técnico Ancelotti ou a afirmação de que o Brasil não gosta de Neymar — seriam passíveis de demissão.
Para Leifert, o limite da liberdade de expressão foi ultrapassado quando se afirmou que o país “odeia” o jogador. Ao citar Milly Lacombe, ele não apenas relembrou um erro cometido por ela no passado, envolvendo Rogério Ceni — o qual ele afirma já ter perdoado —, como também sustentou que ela havia sido demitida por tal episódio. Segundo Leifert, o caso de Milly seria uma demonstração de que o jornalismo perdeu o rigor e a responsabilidade.
A Defesa de Milly Lacombe: Entre Mentiras e Fake News
Ao tomar conhecimento da live, Milly Lacombe não se esquivou. Em um vídeo que contou com a colaboração da jornalista Alicia Klein, a comentarista desconstruiu ponto a ponto o discurso de Leifert. O primeiro e mais contundente argumento de Milly foi a denúncia de que Leifert utilizou fake news para atacá-la.
Leifert atribuiu a Milly um texto com o título “Neymar defenderá um país que não gosta dele”. Segundo a comentarista, tal artigo jamais foi escrito por ela. O que ocorreu, na verdade, foi a criação de uma manchete falsa por terceiros, que circulou nas redes e foi usada por Leifert como prova de uma opinião que ela nunca expressou. Ao ser confrontado por Milly via mensagem privada, antes mesmo de ela gravar sua resposta, Leifert permaneceu em silêncio. A comentarista destaca a ironia: alguém que se coloca como o grande defensor do “jornalismo responsável” utilizou informações falsas para promover um linchamento virtual.
O Fantasma do Erro de 20 Anos Atrás
Outro ponto central do embate é a recorrência do caso Rogério Ceni. Milly reconhece que cometeu um erro grave no passado, sobre o qual já pediu desculpas inúmeras vezes, enfrentou processos e sofreu as consequências profissionais na época. No entanto, ela levanta uma reflexão necessária: por que o erro de uma mulher é constantemente lembrado, enquanto erros masculinos são frequentemente ignorados ou levam a promoções?
Milly esclarece um ponto fundamental: ela não foi demitida do SporTV por causa daquele episódio. Após o ocorrido, ela foi removida temporariamente de certas funções, retornou a comentar outros jogos e, posteriormente, recebeu um convite da Record para cobrir a Champions League, optando por pedir demissão. A insistência de Leifert em afirmar que ela foi demitida não é apenas um erro fático, mas, na visão de Milly, uma tentativa deliberada de pintar um retrato de incompetência que não condiz com a realidade de sua trajetória.
A Questão de Gênero e o “Masculinismo” no Jornalismo
Além da questão factual, o embate trouxe à tona uma discussão sobre a estética da autoridade. Milly Lacombe aponta para o cenário da live de Leifert: bonecos de Marvel e Star Wars ao fundo. Ela sugere que esses elementos compõem uma “masculinidade madura” aceita e validada pela sociedade. A comentarista convida o leitor a imaginar a reação pública caso uma mulher abrisse uma câmera cercada de bonecas, reborn babies ou elementos tradicionalmente associados ao feminino.
Essa análise toca em um ponto nevrálgico do jornalismo esportivo: o ambiente é, historicamente, um bastidor construído por e para homens, onde o julgamento sobre a credibilidade feminina é muito mais severo. Milly questiona se a facilidade com que Leifert atacou uma colega de profissão com dados falsos não seria, em parte, fruto dessa estrutura que protege certos nomes e coloca outros sob suspeita constante.
O Reflexo do Futebol na Sociedade
O embate entre os dois transcende a figura de Neymar. Neymar tornou-se apenas o combustível para um incêndio que envolve as novas dinâmicas de poder no jornalismo esportivo. De um lado, temos um comunicador que utiliza o alcance de milhões de seguidores para ditar quem é ou não é jornalista; do outro, uma comentarista que aponta a falta de zelo com a verdade por parte de quem prega a ética.
A tristeza de Milly ao ver o comportamento de alguém com quem já compartilhou experiências profissionais — e a quem ela admirava profundamente — reflete o abismo em que o debate público se transformou. Onde antes havia troca de ideias e respeito profissional, hoje parece existir apenas a polarização e a busca pelo “nocaute” virtual.
Conclusão: O Jornalismo precisa de menos “lives” e mais apuração
O episódio deixa uma lição amarga. Quando o comunicador, independente de sua relevância, abandona o princípio básico da checagem para atacar um desafeto, ele não está apenas manchando a reputação do outro, mas destruindo a sua própria credibilidade. O uso de informações falsas, a insistência em narrativas superadas e o tom de superioridade moral não constroem um jornalismo melhor — apenas reforçam um ciclo de toxicidade.
O público, que assiste a esse “acerto de contas” em tempo real, acaba perdendo o foco no que realmente importa: a análise séria do futebol e o debate saudável sobre o esporte. Se Thiago Leifert deseja ser, de fato, o guardião do bom jornalismo, o primeiro passo seria reconhecer as falhas em seu próprio discurso e pedir desculpas pela propagação de fake news. Até lá, o debate continua girando em torno de egos, enquanto a verdade permanece como a maior vítima da vez.