Recordo-me do dia exato porque era o 72º aniversário do meu sogro. A minha sogra, a Conceição, fitou-me diante de toda a família e atirou:
“O melhor presente que podes dar a esta família é saber o teu lugar, Renata. Tu não construíste nada aqui. Foi tudo obra do meu filho.”
Não ripostei. Apenas sorri e continuei a fatiar o bolo. Porém, aquela frase ficou a ressoar-me na cabeça. Ressoou durante dias, semanas. Seria verdade?
Nessa altura, eu tinha 40 anos. Estava casada com o Lucas há 15 anos. Trabalhava como diretora financeira numa empresa de logística. Auferia um bom salário, muito bom, na verdade: 72.000 por ano, mais prémios. O Lucas era engenheiro civil e o seu vencimento era ligeiramente inferior ao meu, cerca de 60.000.
Quando demos o nó, eu já era proprietária de um apartamento totalmente pago no Morumbi. Era pequeno, um T1, mas era meu, adquirido com o suor do meu trabalho aos 28 anos. O Lucas vivia numa casa arrendada. Decidimos arrendar o meu apartamento e aplicar o dinheiro na aquisição de uma casa mais espaçosa para os dois, registada em nome de ambos. Uma moradia em Pinheiros, próxima do seu local de trabalho, com três quartos, um quintal, belíssima.
Assumi o pagamento da entrada: 300.000, provenientes do arrendamento do meu apartamento e das minhas poupanças. O Lucas contribuiu com 50.000 que havia economizado. O valor remanescente fomos liquidando em conjunto, ao longo de 15 anos de prestações. A nossa regra sempre foi dividir tudo a meias, 50% cada um. Contudo, aos olhos da família dele, eu não passava da esposa, aquela cuja presença ali se devia a um mero golpe de sorte.
Nos primeiros tempos, esforcei-me por compreender. A mãe dele pertencia a outra geração, não é verdade? Nascida na década de 50, fora educada na crença de que o homem é o pilar financeiro do lar. Tinha dedicado a vida inteira às lides domésticas. O seu marido, o meu sogro, exercera funções num banco. Agora encontrava-se reformado. Enfim, não havia problema, cada qual com o seu percurso de vida.
No entanto, o ambiente começou a adensar-se cerca de três anos antes daquele aniversário. Foi quando o meu sogro se deparou com um problema de saúde. Felizmente, não era nada de grave, apenas um susto com o coração. Teve de realizar alguns exames, manter um acompanhamento médico e a minha sogra começou a telefonar ao Lucas a solicitar apoio financeiro.
“Meu filho, tu sabes como as coisas estão. A reforma do teu pai não chega para todas as despesas. Será que podias ajudar com a medicação?”
Evidentemente que podia. E contribuiu com 2.000 mensais. A questão é que o Lucas não me comunicou o facto de imediato. A descoberta ocorreu quando me dispus a realizar a conciliação bancária da nossa conta. Era uma tarefa da qual sempre me incumbira, afinal, a minha área profissional é a financeira. Deparei-me com saídas mensais de 2.000 da nossa conta conjunta, com destino à conta da Dona Conceição Silva.
Ao questioná-lo, o Lucas mostrou-se embaraçado.
“Ah, amor, é para auxiliar os meus pais. Apenas até o meu pai se restabelecer.”
Problema? Prestar auxílio não constituía qualquer problema, de todo. O problema residia no facto de ele não ter conversado comigo previamente. O nosso hábito sempre fora o diálogo sobre todos os assuntos, as decisões eram sempre tomadas em conjunto. E a quantia de 2.000 não era insignificante. Apesar disso, deixei passar. No fim de contas, eram os pais dele, certo?
O problema é que o “até o meu pai se restabelecer” prolongou-se por um ano, dois anos, três anos. Foram 6.000 anuais, de forma contínua. E a minha sogra nunca, mas nunca, me dirigiu uma palavra de agradecimento. Nem uma única vez. Sempre que íamos a casa deles para o almoço de domingo, ela expressava a sua gratidão ao Lucas perante todos.
“O meu filho é de uma bondade e generosidade extremas, cuida tão bem dos pais.”
E eu remetida à invisibilidade, não obstante parte do meu dinheiro estar ali também, dado que 50% daqueles 2.000 provinham do meu bolso. Mas deixei passar, engolia em seco porque amava o Lucas e, lá no fundo, convenci-me de que seria uma questiúncula, um capricho meu sentir-me incomodada.
Até que chegou o tal aniversário. 72 anos do sogro. A família reuniu-se em peso: os irmãos do Lucas, as cunhadas, os sobrinhos. E a minha sogra, a Conceição, resolveu propor um brinde. Ergueu a taça de vinho e declarou, embargada pela emoção:
“Gostaria de expressar a minha gratidão aos meus filhos. Todos vós sois seres excecionais, mas dirijo um agradecimento especial ao Lucas, que jamais permitiu que o seu pai e a sua mãe passassem por privações. Mesmo com todas as suas obrigações, ele sempre colocou a família em primeiríssimo lugar.”
Todos aplaudiram. Eu acompanhei as palmas, pois era o que se esperava, mas no meu íntimo, estava a ferver. Após o brinde, desloquei-me à cozinha para buscar mais gelo, e ela seguiu-me. Foi nesse momento que proferiu aquela frase:
“O melhor presente que podes dar a esta família é saber o teu lugar, Renata. Tu não construíste nada aqui. Foi tudo obra do meu filho.”
Fiquei petrificada. Permaneci ali, imóvel, com a cuvete de gelo na mão, a fitar aquela senhora de 70 anos a declarar-me que eu não tinha construído nada. Eu, que assumia metade de todas as despesas, que tinha suportado o valor da entrada da nossa casa, que dedicava 60 horas semanais ao trabalho. Nada.
Contudo, não a enfrentei. Nem ali, nem naquele instante. Limitei-me a sorrir, anuí com um aceno de cabeça e regressei à sala. O Lucas notou que o meu comportamento estava estranho. Durante a viagem de carro, de regresso a casa, perguntou-me se estava tudo bem.
“Tudo”, retorqui.
Mentira. Não estava nada bem. Nessa noite, fui incapaz de conciliar o sono. Fiquei a matutar, a reviver todos os acontecimentos. Todos aqueles anos. As vezes em que a minha sogra telefonava e pedia auxílio ao Lucas, mas nunca se dirigia a mim. As vezes em que se vangloriava perante as amigas sobre o facto de o seu filho a ajudar, omitindo sempre a minha contribuição. As vezes em que dava conselhos ao Lucas sobre a gestão financeira do lar, ignorando que era eu quem tomava conta de tudo.
E cheguei a uma conclusão: para ela, eu não tinha existência real. Eu era um mero adorno, a esposa do seu filho, e nada mais. No dia seguinte, uma segunda-feira, dirigi-me para o trabalho como habitualmente, mas a minha mente divagava noutras paragens. À hora de almoço, desloquei-me à conservatória. Solicitei uma certidão atualizada da nossa habitação. Pretendia verificar o estado da documentação, os titulares, tudo.
E ali estava, preto no branco: a casa estava registada em nome de ambos, 50% para cada um. Os 300.000 da humilde entrada que eu havia suportado. Os 15 anos de prestações partilhadas.
Mas deparei-me com outro pormenor. O meu apartamento, o pequeno no Morumbi, permanecia em meu nome, exclusivamente meu. Estava arrendado por 3.000 por mês. Todo este montante era canalizado diretamente para uma conta poupança que eu mantinha à parte. Uma conta da qual o Lucas tinha conhecimento, obviamente, mas que era propriedade minha.
Em 15 anos, acumularam-se 540.000, incluindo os juros. Dinheiro no qual nunca havia tocado, que estava a amealhar. Com que finalidade? Ignorava. Talvez para a nossa reforma, para um imprevisto, para algo que desconhecia.
Regressei a casa naquele dia e pus-me a refletir. Se a minha sogra julgava que eu não tinha construído nada, se ela estava convencida de que tudo pertencia ao seu filho… então, talvez fosse chegado o momento de lhe demonstrar com exatidão o que eu tinha erguido. E o que eu era capaz de desmoronar. Não se tratou de uma decisão irrefletida. Esse não é o meu modus operandi. A minha área de especialização são os números, o planeamento, a lógica. Por conseguinte, fiz aquilo em que sou exímia: cálculos.
Na eventualidade de me separar do Lucas, o que resultaria da partilha de bens? A moradia estaria avaliada no mercado em cerca de 900.000. Sendo metade minha e metade dele, corresponderiam a 450.000 para cada um. No entanto, o meu contributo para a entrada fora de 300.000, e o dele de 50.000. Relativamente às prestações, ao longo dos anos, a divisão fora equitativa. Portanto, numa perspetiva estritamente técnica e rigorosa, a minha quota-parte seria superior à dele.
Mas, adiante. Mesmo que se traduzisse apenas em 450.000, acrescidos dos 540.000 que eu detinha na poupança… estaríamos a falar de 990.000. Praticamente um milhão, aos 40 anos de idade, sem qualquer endividamento. Eu teria a possibilidade de reiniciar a minha vida, adquirir um apartamento mais exíguo, investir o remanescente e viver de forma serena. Livre de uma sogra tóxica e da obrigação de ouvir que não construíra nada.
Mas… será que o meu desejo passava por uma separação do Lucas? Essa era a questão fulcral. Pois, a despeito de todas as adversidades, o meu amor pelo meu marido mantinha-se intacto. O cerne do problema não residia nele, mas sim na sua progenitora. Decidi, então, submetê-lo a um teste. Uma semana volvidos os acontecimentos do tal aniversário, abordei o assunto com naturalidade durante o jantar:
“Amor, apercebeste-te de que a tua mãe me dirigiu uma observação algo insólita no aniversário do teu pai?”
O Lucas interrompeu a refeição.
“O que é que ela disse?”
“Disse que eu não construíra nada aqui, que fora tudo obra tua.”
Fez-se silêncio. Ele ficou a olhar para mim, a tentar processar a informação.
“Ela disse isso? Disse isso quando?”
“Na cozinha. Quando fui buscar gelo.”
Mais silêncio. E então, ele teve uma reação inesperada. Sorriu. Não se tratou de um riso sarcástico, mas sim de um riso do tipo: “Ah, a minha mãe é mesmo assim.”
“Renata, tu conheces a minha mãe. Ela pertence a outra época. Não dês demasiada importância.”
Não dar demasiada importância, Lucas? Ela atirou-me à cara que eu não tinha construído nada, ignorando o facto de ter sido eu a suportar a entrada da nossa casa, de assumir o pagamento de metade de todas as despesas e de, mensalmente, destinar parte do meu dinheiro para apoiar os teus pais.
Ele suspirou.
“Eu sei, amor, mas é apenas a forma dela se expressar. Ela não teve intenção de ofender.”
“Ela afirmou, frontalmente, que eu não construí nada.”
“Mas tu sabes que construíste.”
“Eu tenho consciência de que construí. Mas isso não devia ser o que importa.”
Não devia importar. Aquela frase continuava a martelar-me a cabeça. Não devia importar que a sua mãe me tratasse com desrespeito. Não devia importar que ela me tratasse como se eu não existisse. E foi nesse exato momento que tive uma epifania: ele nunca me iria defender. Pelo menos, não verdadeiramente.
Porque, na sua perspetiva, tal como na da sua mãe, aquilo era apenas “o feitio dela”. Mas, para mim… para mim representava desrespeito. Era uma humilhação. E eu estava exausta. Naquela noite, depois do Lucas adormecer, fiquei na sala a magicar. Tinha duas opções: continuar daquela forma, a reprimir os sentimentos e a simular que não me afetava, ou tomar uma atitude.
Mas que atitude? O divórcio? Pôr um ponto final num casamento de 15 anos por causa da sogra afigurava-se como uma medida excessivamente drástica. Surgiu-me então uma ideia diferente. Se a raiz do problema residia no facto de ela considerar que eu não contribuía, de acreditar que tudo pertencia ao seu filho… talvez a solução passasse, pura e simplesmente, por cessar as minhas contribuições e deixá-la constatar a diferença.
No dia seguinte, dirigi-me ao banco e abri uma nova conta, exclusivamente em meu nome. Passei a transferir a totalidade do meu vencimento para lá. Prestei os devidos esclarecimentos ao Lucas:
“Amor, tenho a necessidade de organizar as minhas finanças pessoais com maior rigor. Por isso, começarei a utilizar uma conta autónoma para o meu salário. No entanto, é óbvio que continuarei a depositar a minha quota-parte na conta conjunta, todos os meses.”
Ele não levantou grandes objeções. Limitou-se a aceder com um “tudo bem” e prosseguiu com a sua vida.
A questão é que eu não efetuei qualquer depósito adicional na conta conjunta. Absolutamente nada. Zero. Aguardei pacientemente para verificar quanto tempo decorreria até que ele se apercebesse. Passou-se uma semana. Duas semanas. Três semanas. Findo o primeiro mês, a conta conjunta apresentou um saldo negativo.
Isto porque as despesas ascendiam a praticamente 8.000 mensais e o ordenado líquido do Lucas rondava os 5.500. Deste valor, descontando os 2.000 canalizados para a minha sogra, restavam-lhe 3.500. Uma quantia manifestamente insuficiente.
Enviou-me uma mensagem enquanto eu me encontrava no local de trabalho.
“Amor, a conta apresenta um saldo negativo. Ter-te-ás esquecido de transferir a tua parte?”
Respondi: “Ups, esqueci-me mesmo. Resolvo a situação ainda hoje.”
E transferi 3.000, ou seja, a metade exata das despesas. 3.000 da minha parte, 3.000 da dele. Porém, com a verba de 2.000 destinada à sogra, ele ver-se-ia na contingência de cobrir o montante em falta exclusivamente com os seus recursos: um esforço adicional de 2.500 retirados do seu próprio bolso.
No segundo mês, o cenário repetiu-se. Ele manifestou a sua insatisfação:
“Renata, o orçamento está muito apertado. Será que poderias contribuir um pouco mais?”
“Contribuir para quê?”
“Para o pagamento das despesas.”
“A minha conta está no limite, Lucas. Estou a contribuir com a metade rigorosa: 3.000. O total das despesas fixa-se nos 6.000. Seria suposto estares a contribuir com 3.000 também.”
“Mas eu tenho a responsabilidade dos 2.000 da minha mãe.”
“Ah, sim… Os 2.000 da tua mãe. Uma decisão que tomaste unilateralmente, sem me consultares.”
Um silêncio sepulcral apoderou-se do outro lado da linha.
“Renata…”
“Lucas, não estou disposta a continuar a assumir essa diferença. Se é tua intenção continuar a entregar 2.000 à tua mãe, o ónus é teu. Que essa verba provenha do teu dinheiro, e não do nosso.”
Ficou estupefacto. De alguma forma, ao fim de 3 anos, habituara-se à ideia de que aquele dinheiro era subtraído de forma automática, sem qualquer esforço. No entanto, o esforço também recaía sobre mim e o cansaço da invisibilidade instalara-se.
No terceiro mês, apresentou-me uma proposta.
“Amor, não haverá a possibilidade de reduzirmos ligeiramente a ajuda aos meus pais? Por exemplo, em vez de 2.000, talvez… 1.000?”
“A decisão cabe-te a ti. Os pais são teus.”
“Mas tu dás o teu consentimento, Lucas?”
“Eu nunca externei qualquer concordância ou discordância. Tu simplesmente iniciaste essa prática. Se no presente momento pretendes alterá-la, a decisão é tua. O que não é admissível é solicitares-me agora permissão, quando não o fizeste na fase inicial.”
Ficou sem argumentos.
E foi então que se concretizou o que eu vaticinava. A minha sogra telefonou. Não para mim, mas para o Lucas. Porém, eu encontrava-se a seu lado quando o telefone tocou e escutei toda a conversa em alta voz, dado que ela tinha por hábito expressar-se num tom elevado.
“Lucas, meu filho, qual o motivo da redução deste mês? Apenas enviaste 1.000. O teu pai necessita da medicação.”
“Mãe, estou a atravessar um período de contenção financeira.”
“Contenção financeira? Como é possível? Auferes um bom salário. És proprietário de uma casa. Possuis viatura.”
“Mãe, eu tenho consciência, mas é ela, não é?”
“É a Renata que te está a compelir a reduzir o apoio à tua família.”
Ouvi, mas não emiti qualquer palavra. Limitei-me a fixar o olhar no Lucas, expectante. Na expectativa de verificar se ele sairia em minha defesa.
“Mãe, a questão não se prende com…”
“É evidente que sim. Desde o primeiro momento que tive a perceção de que ela não era a pessoa certa para ti. É uma interesseira. Assume uma postura de sobranceria apenas por ter um rendimento chorudo, mas oblitera o facto de que tudo o que possui foi fruto do teu esforço.”
“Foi fruto do teu esforço…”
Eu custeei a entrada da casa. Assegurei o pagamento de metade de todas as despesas ao longo de 15 anos. Contribuí ativamente para o sustento daquela família juntamente com ele. No entanto, na ótica dela, tudo se devera exclusivamente a ele.
E, o que mais me desolou, foi a total ausência de defesa por parte do Lucas. Limitou-se a afirmar:
“Mãe, abordamos o assunto mais tarde.”
E encerrou a chamada. Olhou para mim com uma expressão suplicante: “Por favor, não inicies uma discussão agora.” E eu não o fiz. Apenas esbocei um sorriso e disse: “Está tudo bem, amor.”
Pois eu já havia tomado uma decisão. No dia seguinte, agendei uma consulta com um advogado. A minha intenção primária não era, necessariamente, o divórcio, mas sim o cabal conhecimento dos meus direitos e das vias legais ao meu dispor. E os esclarecimentos prestados pelo advogado revelaram-se de uma clareza cristalina.
Em primeiro lugar, o imóvel encontrava-se averbado em nome de ambos. Consequentemente, num cenário de separação, a divisão processar-se-ia de forma equitativa (50/50), a menos que eu conseguisse comprovar um contributo desproporcional na fase inicial – prova essa que eu poderia carrear através dos respetivos comprovativos bancários. Verificada essa hipótese, assistir-me-ia o direito de requerer uma partilha proporcional.
Em segundo lugar, o meu apartamento no Morumbi era um bem próprio, adquirido em momento anterior ao matrimónio. Ele não detinha qualquer direito sobre o mesmo.
Em terceiro lugar, a conta poupança com o saldo de 540.000 era igualmente um bem próprio, constituído por capitais provenientes do arrendamento do meu apartamento.
Em quarto lugar, caso eu lograsse demonstrar o desvio de fundos da conta conjunta para a mãe dele sem a minha anuência, tal facto poderia configurar um cenário de má administração do património comum. Não que o meu intuito passasse por instaurar um processo judicial a quem quer que fosse, mas a informação revelava-se útil.
O advogado partilhou ainda uma perspetiva deveras interessante:
“Renata, por vezes a via do divórcio não se afigura como a mais profícua, sendo preferível optar por um distanciamento de cariz financeiro. Tem a faculdade de manter o vínculo matrimonial, procedendo, contudo, a uma separação total do património. Ou seja, efetuar uma separação parcial de bens.”
“Separação parcial de bens?” Nunca tal conceito me havia chegado aos ouvidos. “Como se processa?”
“O casamento mantém-se, mas cada um dos cônjuges preserva a titularidade exclusiva dos seus bens. O imóvel pode ser alienado e o respetivo produto dividido, ou, em alternativa, um adquire a quota-parte do outro. A partir desse momento, cada um assume a gestão autónoma das suas finanças.”
Interessante. Extremamente interessante.
Regressei a casa e debrucei-me novamente sobre os cálculos. Se eu alienasse a minha quota-parte da casa ao Lucas, o valor ascenderia a cerca de 450.000. Adicionando os 540.000 que eu já detinha, o montante global cifrar-se-ia em 990.000. Com essa verba, eu poderia adquirir um apartamento T2 por 300.000 e aplicar o remanescente. Um milhão judiciosamente investido permitir-me-ia viver com desafogo, complementar o meu vencimento e, quiçá, equacionar uma reforma antecipada.
Mas… será que era esse o meu desígnio? O amor que eu nutria pelo Lucas persistia, todavia, o amor-próprio sobrepunha-se, e o cansaço de me anular instalara-se.
Nessa noite, à hora do jantar, interpelei-o:
“Lucas, precisamos conversar.”
O meu tom de voz denunciou, de imediato, a gravidade do assunto.
“Sobre o quê? Sobre nós? Sobre a minha mãe? Sobre questões financeiras?”
“Sobre tudo.”
E desabafei. Desabafei sobre tudo aquilo que me asfixiava. Relatei o que senti quando ela declarou que eu nada havia construído. Relatei o que senti quando constatei a sua inação em minha defesa. Falei sobre os três anos de sangria financeira da nossa conta para auxiliar os seus pais, à revelia de uma decisão conjunta. Falei do cansaço de ser remetida à invisibilidade.
E, no final, comuniquei-lhe: “Pretendo proceder a uma separação parcial de bens.”
Empalideceu.
“O quê? Pretendes divorciar-te?”
“Não forçosamente. Mas desejo separar o nosso património. Alienar a casa, proceder à divisão do capital, e que cada um prossiga com a sua vida financeira de forma independente.”
“Mas… mas qual a razão?”
“A razão é que eu careço de paz, Lucas. E enquanto a tua mãe alimentar a convicção de que tudo o que possuímos foi fruto do teu esforço, eu não terei paz. Assim sendo, prefiro conceder-lhe razão, que cada um retenha o que lhe pertence, e assunto encerrado.”
“Renata, a tua atitude pauta-se pela irracionalidade.”
“Irracionalidade? A minha atitude pauta-se pelo pragmatismo. Fui aconselhar-me com um causídico. Estou ciente dos meus direitos. Tenho a perceção exata do meu contributo e sei que posso emergir desta situação com serenidade.”
Ele desfez-se em lágrimas. O cenário colhera-o de surpresa.
“Renata, rogo-te, não tomes essa atitude. Eu amo-te.”
“O meu amor por ti também permanece inalterado. Mas o amor revela-se insuficiente na ausência de respeito.”
“Eu respeito-te.”
“Respeitas? Se assim é, por que razão nunca te ergueste em minha defesa perante a tua mãe? Por que razão lhe concedes o direito de afirmar que tudo se deve a ti? Por que motivo subtrais capital da nossa conta sem me informares?”
Ficou sem argumentos.
Nessa noite, o sofá serviu-lhe de leito. E eu, pela primeira vez em semanas, desfrutei de um sono reparador. Havia tomado uma decisão, e uma decisão tomada equivale a um peso suprimido.
Nos dias subsequentes, o Lucas esgotou todas as tentativas. Multiplicou-se em pedidos de desculpa, asseverou que iria dialogar com a mãe, comprometeu-se a suspender a ajuda financeira, caso eu assim o exigisse. Contudo, o momento havia passado. A génese da questão não residia na ajuda financeira, mas sim no respeito, na necessidade de ser vista, na premência de ser valorizada. E eu constatara que, para ele, eu ocuparia sempre um lugar de menor relevância face à opinião maternal.
Decorridos dois meses, a habitação foi colocada à venda. O processo foi célere, dada a dinâmica do mercado imobiliário. O negócio concretizou-se por 920.000, o que se traduziu em 460.000 para cada um de nós. Apropriei-me da minha quota-parte, adicionei-a aos 540.000 que detinha na poupança e procedi à aquisição de um formidável apartamento T2 na Vila Madalena, mediante o pagamento a pronto de 350.000. Os restantes 650.000 foram investidos na sua totalidade em produtos de rendimento fixo e em fundos de investimento imobiliário.
Aos 40 anos de idade, conjugando os rendimentos gerados com o meu vencimento, auferia uma quantia a rondar os 100.000 anuais. Pautava-me pela autonomia e independência. O Lucas encetou algumas tentativas de reconciliação, mas eu já me encontrava noutra fase da minha vida. A minha sogra, a Conceição, ligou uma única vez. Atendi a chamada.
“Renata, de que mal te serviste com o meu filho? Aniquilaste a nossa família.”
“Dona Conceição, prestando-lhe o devido respeito, eu não aniquilei coisa alguma. Limitei-me a abandonar um espaço onde a minha pessoa não era tida em devida conta.”
“És uma aproveitadora. Assenhoreaste-te de metade da casa.”
“Assenhorei-me de metade porque assumi o pagamento de metade. Para ser rigorosa, o meu encargo foi superior. Mas não há qualquer problema. Não me encontro na obrigação de lhe prestar provas de nada. É bem provável que te venhas a arrepender.”
“Talvez me arrependa. Contudo, pelo menos arrependerei-me com a salvaguarda de ser dona do meu próprio destino.”
E terminei a chamada. O contacto cessou definitivamente. O Lucas tornou a contactar-me passados seis meses. Tinha iniciado um relacionamento com outra mulher, mais nova, de índole mais submissa – o perfil que a mãe por certo sancionaria. Fiquei genuinamente feliz por ele. Merecia, de facto, alguém que se ajustasse ao figurino que a sua família ambicionava, e eu, por meu turno, merecia alguém que me valorizasse na minha plenitude.
Transcorreram dois anos. O meu caminho cruzou-se com o de um indivíduo, arquiteto de profissão, divorciado, pai de dois filhos e isento do fardo de uma sogra tóxica. Não partilhamos a mesma habitação. Talvez venha a acontecer no futuro, talvez não. O que importa é que nos respeitamos, nos valorizamos, nos vemos um ao outro. E isso… isso tem um valor incomensurável, superior a qualquer imóvel, a qualquer família, a qualquer opinião.
Hoje, ao perspetivar o passado, não nutro qualquer arrependimento. Teria a possibilidade de ter mantido o matrimónio? Sim. Teria a possibilidade de ter tolerado as faltas de respeito? Sim. Mas teria alcançado a felicidade? A resposta é negativa. A felicidade não se consubstancia na perfeição de todos os aspetos da vida, mas sim na conquista da paz interior. E, no presente, usufruo dessa paz. Sou livre para viver a minha vida de acordo com os meus ditames, para tomar as minhas próprias resoluções, para edificar a minha existência. Uma existência sobre a qual ninguém poderá afirmar que não foi obra minha. Foi erigida tijolo a tijolo, real a real, decisão a decisão.
E, se algum ensinamento retiro de todo este percurso, é o de que a família não se circunscreve a laços de sangue, a certidões em papel ou a um mero apelido. A família são aqueles que te enxergam, que te respeitam, que te valorizam. E, caso alguém não adote essa postura, independentemente do seu grau de parentesco – seja a sogra, o marido ou a mãe –, assiste-te o pleno direito de te distanciares. O direito de optares pela tua paz de espírito. O direito de te escolheres a ti própria. Porque, no balanço final, a única pessoa que permanecerá a teu lado até ao último suspiro és tu mesma. E, como tal, mereces ser tratada com dignidade, sempre.