“Meu nome é Marisa dos Santos. Hoje eu tenho 67 anos e moro em Curitiba. Eu nunca contei isso para ninguém. Não completamente. Tem pedaços dessa história que eu guardei só para mim. Mas chegou a hora de contar. Preciso contar. É sobre o meu filho, Rafael, e sobre o que aconteceu no dia de Finados desse ano.”
“Eu sei que tem gente que não vai acreditar no que eu vou dizer. Tudo bem, eu entendo. Se alguém tivesse me contado uma história assim alguns meses atrás, eu também ia duvidar. Mas aconteceu comigo. Eu vi, eu senti e por isso eu preciso contar. Mas antes de falar sobre aquele dia, eu preciso falar sobre o Rafael, sobre quem ele era, sobre o que aconteceu com ele.”
“Rafael dos Santos era meu filho único, meu único filho. Nasceu no dia 12 de março de 1977, aqui em Curitiba mesmo. Foi parto normal no hospital. Ele nasceu chorando alto, bem saudável. O médico disse que era um menino forte e era mesmo. Cresceu forte, esperto, bonito, sempre foi um menino bom. Daqueles que ajuda em casa, que obedece, que não dá trabalho.”
“Claro que ele tinha suas traquinagens, como toda criança tem, mas nunca foi de fazer coisa errada, sabe? Eu era viúva já naquela época. O pai dele tinha morrido quando o Rafael tinha 15 anos. Infarto, foi tudo muito rápido. Então, era só nós dois, eu e meu filho. A gente se virava como podia, mas a gente era feliz.”
“O Rafael tinha namorada, uma menina boa da igreja. Eles estavam juntos já fazia uns dois anos. Ele falava em casar, em construir uma vida, dizia que ia me dar netos. Eu sonhava com isso. Sonhava em ver meu filho pai, em ter netinhos correndo pela casa. Mas não aconteceu. 15 de março de 2000, quarta-feira.”
“Esse é o dia que mudou minha vida para sempre. O Rafael tinha saído para trabalhar de manhã, como sempre, me deu um beijo, disse: ‘Tchau, mãe!’ E foi embora. Eu lembro até da roupa que ele tava usando. Calça jeans, camisa azul clara, tênis branco que ele tinha comprado fazia pouco tempo. Eu passei o dia normal, limpei a casa, fiz comida, assisti televisão.”
“Quando deu 6 horas da tarde, comecei a ficar preocupada. O Rafael sempre chegava por volta das 6:30. 7 horas, no máximo. 7:30, nada. 8 horas, nada. Eu liguei na loja, disseram que ele tinha saído no horário normal. Às 6. Foi aí que bateu o desespero. Às 9 da noite, bateram na porta. Eram dois policiais. Eu soube na hora.”
“Antes mesmo deles falarem, eu soube. Meu filho tinha sido assaltado na rua. Voltando do trabalho. Levaram o celular dele, a carteira. Mas não foi só isso. Eles atiraram nele. Não sei por quê. Meu filho não reagiu, não fez nada, mas atiraram mesmo assim. Ele morreu no caminho pro hospital, tinha 22 anos de idade. O enterro foi no dia seguinte, 16 de março, no cemitério municipal de Curitiba.”
“Desse dia eu lembro, lembro de tudo. Tinha muita gente, muito mais do que eu esperava. O Rafael era querido, as pessoas gostavam dele. Tinha gente chorando, amigos da idade dele, a namorada dele destruída, mas ninguém tava pior do que eu. Eu gritei. Gritei tanto que fiquei rouca. Gritei: ‘Meu filho, meu menino!’ Gritei até não ter mais voz.”
“Duas mulheres me seguravam, uma de cada lado, senão eu tinha caído ou tinha me jogado na cova junto com ele. Quando começaram a descer o caixão, eu perdi completamente o controle. Tentei me soltar das mulheres. Queria ir até lá, queria puxar o caixão de volta, queria abrir e ver meu filho mais uma vez. Não deixaram. Me seguraram com força.”
“Eu caí de joelhos ali na frente da cova. Fiquei olhando ele jogar em terra em cima do meu filho, em cima do meu menino. As pessoas foram embora aos poucos, mas eu não saía, não conseguia. Fiquei ali de joelhos, olhando aquela cova. Já tava escurecendo quando um rapaz veio falar comigo. Era um dos coveiros. Devia ter uns 24, 25 anos. Um rapaz jovem.”
“Ele falou com respeito, com calma. ‘Senhora, eu sinto muito pela sua perda, mas já está escurecendo. O cemitério vai fechar.’ Eu olhei para ele. Não consegui falar nada. Só chorava. ‘A gente cuida bem daqui’, ele disse. ‘Pode ficar tranquila.’ Uma vizinha que tinha ficado esperando veio me ajudar a levantar. Eu não queria ir. Não queria deixar meu filho sozinho naquele lugar frio, escuro, no meio da terra.”
“Mas fui porque não tinha escolha. Desde aquele dia, minha vida nunca mais foi a mesma. Eu nunca me recuperei. Tem gente que diz que o tempo cura, não cura. A gente só aprende a viver com a dor. Aprende a acordar todo dia mesmo com aquele buraco no peito. Aprende a sorrir mesmo quando por dentro tá tudo quebrado.”
“Mas a dor não passa, nunca passa. Todo ano, no dia 2 de novembro, dia de Finados, eu vou no cemitério sem falta. Não importa se está chovendo, está frio, se eu tô doente. Eu vou. Levo flores, sempre crisântemos brancos, que eram os favoritos dele. Levo pano, água, uma escovinha, limpo o túmulo dele, tiro as folhas secas, limpo a lápide e deixo tudo arrumado e fico ali horas conversando com ele, chorando, lembrando.”
“Fiz isso por 25 anos, todo dia de Finados, do ano 2000 até 2024, sempre do mesmo jeito, sempre com a mesma dor. Mas em 2025 foi diferente. Em 2025 aconteceu uma coisa que eu não sei explicar, uma coisa que eu nunca imaginei que podia acontecer. No dia de Finados desse ano, dia 2 de novembro, eu fui no cemitério como sempre.”
“Mas o que aconteceu naquele dia não foi normal. Não foi normal nem um pouco. Pode acreditar ou não. Como eu disse, eu entendo quem duvida, mas eu sei o que aconteceu. Eu sei o que eu ouvi, o que eu senti, o que eu vi. Dia 2 de novembro de 2025, sábado. Acordei cedo, como sempre acordo no dia de Finados, antes do sol nascer. Tomei banho, me arrumei.”
“Sempre uso roupa escura nesse dia. Blusa preta, calça preta. É um sinal de respeito, acho. Sempre fiz assim. Fui até o quartinho dos fundos, onde eu guardo as coisas do Rafael. Tem uma caixa com fotos, roupas, objetos dele. Peguei uma foto que eu sempre levo comigo. Ele tinha uns 20 anos nessa foto. Estava sorrindo. Guardei na bolsa.”
“Depois fui preparar as flores, separei os materiais de limpeza, coloquei tudo numa sacola, peguei também o terço que eu sempre levo. É o terço que a minha mãe me deu, de madeira, bem velho. Sempre rezo para ele. Saí de casa por volta das 9:30 da manhã. O dia tava bonito, sol, céu azul, temperatura agradável, um daqueles dias que dá até vontade de passear, sabe? Mas eu não ia passear, ia visitar meu filho.”
“Curitiba tava movimentada, cheia de gente indo pro cemitério também, todo mundo com flores nas mãos. Desci no ponto perto do cemitério municipal. Já dava para ver o portão de ferro de longe e dava para ver também o tanto de gente que tinha. Entrei pelo portão principal. O segurança me conhece de vista já, de tanto que eu vou lá.”
“Ele acenou com a cabeça, meio que um cumprimento. Acenei de volta. Comecei a andar pelo cemitério. Conheço o caminho de olho fechado. Sei exatamente quantos passos são até o túmulo do Rafael. Sei cada curva, cada árvore no caminho. O túmulo do Rafael fica numa parte mais tranquila do cemitério. Não é na entrada, não é no fundo.”
“É no meio, embaixo de uma árvore grande, um ipê amarelo. É bonito quando ele tá florido. Quando eu estava chegando perto, senti algo estranho. Parei por um segundo, ainda há uns 10 metros do túmulo. Não sei explicar direito o que foi. Era uma sensação, uma coisa no ar, como se o ar tivesse mais pesado ali, mais denso. Olhei em volta. Tinha menos gente naquela área do que eu esperava.”
“Normalmente tem sempre umas três, quatro pessoas por perto cuidando de outros túmulos, mas naquele momento não tinha quase ninguém. ‘Deve ser porque ainda é cedo’, eu pensei. ‘Daqui a pouco enche.’ Mas a sensação não foi embora. Continuei andando. Cheguei no túmulo. A lápide estava suja. Folhas secas em cima, terra acumulada nas laterais, aquela poeira de cimento que sempre junta. Nada demais. Todo ano é assim.”
“Por isso eu venho limpar. Rafael dos Santos, 1977. Passei a mão no nome dele, como sempre faço. A pedra tava fria. Sempre fica fria, mesmo quando o sol tá forte. Coloquei a bolsa no chão e ajoelhei na frente do túmulo. Tirei as flores velhas que ainda estavam lá do ano passado. Estavam todas secas, mortas.”
“Joguei num cantinho para recolher. Depois peguei o pano e a água e comecei a limpar. Faço com calma, com carinho, como se eu tivesse cuidando dele de verdade. ‘Oi, filho!’, eu disse baixinho. ‘Mãe chegou. Vim te ver de novo.’ Sempre converso com ele quando tô ali. Sei que pode parecer loucura, mas para mim é normal.”
“É como se ele tivesse me ouvindo. Foi aí que eu senti de novo aquela sensação estranha, um frio. Mas não era o frio do tempo. Não era vento, não era nada assim. Era um frio que vinha debaixo da terra, do túmulo. Parei de limpar por um segundo. Olhei pro chão, pro túmulo. A terra tava normal.”
“Seca, compactada, com uns matinhos crescendo nas beiradas. ‘Deve ser impressão’, eu pensei. ‘Você tá ficando velha, Marisa. Começa a sentir frio em qualquer lugar.’ Voltei a limpar, mas minhas mãos estavam geladas. Mesmo com o sol batendo direto em mim, mesmo suando um pouco do calor, minhas mãos estavam geladas. Olhei em volta. As pessoas que estavam por perto começaram a ir embora.”
“Uma família que estava a uns cinco túmulos de distância, juntou as coisas e saiu. Um senhor idoso que estava do outro lado também se levantou e foi embora. Em poucos minutos, aquela área ficou vazia. Só eu. O cemitério inteiro ainda estava cheio. Dava para ouvir vozes ao longe, gente conversando. Mas ali naquela parte não tinha mais ninguém. E ficou quieto, quieto demais.”
“Era um silêncio pesado, estranho. Eu senti meu coração acelerar um pouco. ‘É só o cemitério’, eu pensei comigo mesma. ‘Você vem aqui há 25 anos. Não tem nada demais.’ Mas tinha. Eu sentia que tinha. Era como você sente que tem alguém te olhando. Sabe aquela sensação? Quando você tá sozinho, mas tem certeza que tem alguém ali vendo você? Era isso que eu estava sentindo.”
“Virei a cabeça devagar, olhando ao redor. Nada, ninguém, só os túmulos, as árvores, o silêncio. Mas a sensação não ia embora. Tinha alguém ali ou alguma coisa. Eu sabia. Voltei a olhar pro túmulo do Rafael. Minhas mãos tremiam um pouquinho enquanto eu continuava limpando. ‘Filho, se você tá aí’, eu sussurrei. ‘Se você tá me ouvindo, mãe tá aqui, como sempre.’”
“O silêncio continuou, mas agora tinha algo mais nele, algo que eu não conseguia identificar, uma expectativa, como se alguma coisa tivesse esperando, esperando para acontecer. Terminei de limpar a lápide, sequei ela com a parte seca do pano, ficou brilhando, limpinha. Peguei os crisântemos brancos e comecei a arrumar eles dos dois lados do túmulo.”
“Sempre coloco metade de cada lado para ficar bonito, simétrico. Foi quando eu estava colocando a última flor que eu senti de novo, aquele frio vindo debaixo, mas agora era mais forte, mais intenso. Meu corpo inteiro arrepiou, minha sombra no chão. O sol estava alto, quase meio-dia, então minha sombra era pequena, direto embaixo de mim.”
“Mas tinha outra sombra bem ao meu lado, como se alguém tivesse em pé, parado, bem perto de mim. Eu congelei, meu coração disparou. Virei a cabeça devagar, muito devagar, para olhar para onde a sombra indicava que alguém devia estar. Nada, não tinha ninguém. Foi nesse momento que eu soube. Soube de verdade.”
“Tinha algo acontecendo ali, algo que eu não entendia, algo que ia além do que eu podia explicar. E o que quer que fosse estava só começando. Fiquei parada ali, olhando para aquela sombra que não deveria existir. Meu coração estava batendo tão forte que eu conseguia ouvir. Conseguia sentir ele batendo no meu peito, na minha garganta.”
“Foi aí que eu ouvi um som vindo debaixo da terra, do túmulo. Crasque, crasque, crque. Eu congelei. Era um arranhão, como unhas arranhando madeira, vindo de dentro do túmulo, debaixo da terra. Meu sangue gelou. ‘Não’, eu sussurrei. ‘Não pode ser.’ Mas era. O barulho parou. Ficou tudo quieto de novo. Quieto demais.”
“Olhei em volta desesperada. O cemitério ainda estava cheio ao longe. Dava para ver gente andando lá na frente, perto da entrada, mas ninguém perto de mim, ninguém naquela área, só eu. E aquele silêncio, crasque, crasque, crasque. O som voltou mais alto agora. Não eram mais arranhões, eram batidas. Alguém batendo, batendo de dentro do túmulo.”
“‘Meu Deus!’, eu sussurrei. Minhas mãos começaram a tremer e então veio a voz. ‘Mãe’, eu parei de respirar. Era uma voz abafada, sufocada, como se tivesse vindo de muito longe ou de muito fundo. ‘Mãe, está escuro aqui.’ Era o Rafael. Era a voz do meu filho. Mas ele tava sofrendo. A voz dele estava quebrada, desesperada.”
“‘Rafael’, eu sussurrei. ‘Filho.’ As lágrimas começaram a descer no meu rosto. Meu corpo inteiro tremia. ‘Mãe, por favor.’ A voz vinha de baixo, de dentro da terra. Foi então que eu senti uma mão no meu ombro, gelada, apertando forte. Virei a cabeça rápido, o coração quase saindo pela boca.”
“Nada, não tinha ninguém, mas a mão continuava ali. Eu sentia os dedos gelados apertando meu ombro, segurando. Tentei me levantar, não consegui. Era como se algo tivesse me prendendo ali de joelhos, me segurando no chão. ‘Rafael’, eu chamei de novo, a voz tremendo. ‘Filho, é você?’ Olhei para as flores que eu tinha acabado de colocar.”
“Os crisântemos brancos, frescos, bonitos, eles começaram a murchar na minha frente. Em questão de segundos, as pétalas foram ficando marrons, secas. As hastes murcharam, as flores que estavam vivas há poucos segundos agora estavam mortas, pretas, como se tivessem sido queimadas. ‘Não’, eu sussurrei. ‘Não, não, não.’ Olhei em volta do cemitério, procurando ajuda, procurando alguém.”
“E então eu vi, tinha gente, figuras paradas entre os túmulos, vultos escuros, sombras. Eles estavam me olhando, todos eles parados, imóveis, só olhando. Tentei focar em um deles, a figura sumiu. Olhei para outro, sumiu também, mas eu sabia que eles estavam ali. Sentia. Não era só meu filho. Tinha mais gente, mais coisas.”
“‘Mãe!’ A voz do Rafael voltou, mas agora tinha outras vozes junto. Sussurros, vários sussurros ao mesmo tempo, todos falando junto, misturados. Não consegui entender o que diziam, mas as vozes eram ruins, erradas. ‘Mãe, me ajuda!’ A voz do Rafael estava chorando agora, soluçando. ‘Mãe, por favor, fica aqui comigo.’ A mão no meu ombro apertou mais forte.”
“Doía. O frio aumentou. Meu corpo inteiro tava tremendo, os dentes batendo. ‘Fica aqui, mãe, fica.’ E de repente a voz mudou. Ficou diferente, mais grave, distorcida. Não era mais a voz do Rafael, era outra coisa. Os sussurros ao redor ficaram mais altos, mais intensos, como se dezenas de vozes estivessem falando ao mesmo tempo, todas sussurrando, todas chamando.”
“Eu comecei a sentir pânico de verdade e veio o pensamento, o pensamento terrível que eu não queria ter. ‘E se não fosse ele? E se não fosse o Rafael? E se fosse algo se passando pelo meu filho?’ ‘Não’, eu disse em voz alta. ‘Não, você não é meu filho.’ Não era mais uma voz. Eram várias, todas gritando, todas querendo, querendo me puxar, me arrastar, me levar.”
“Fechei os olhos com força, as lágrimas desciam. Meu corpo tremia tanto que eu mal conseguia ficar de joelhos. Mas aí, no meio de todo aquele terror, de todo aquele medo, eu senti algo diferente. Não era uma voz, não era um som, era uma sensação que veio de dentro de mim, uma certeza, uma percepção. Aquilo não era meu filho.”
“Meu filho não estava fazendo aquilo, não estava me machucando, não estava me assustando. Era outra coisa, algo que estava usando a voz dele, usando minha dor, meu sofrimento, tentando me enganar. E de alguma forma eu entendi, entendi tudo naquele momento. Tinha coisas ali naquele cemitério, coisas ruins, coisas que se alimentam da dor das pessoas, da tristeza, do desespero, coisas que ficam esperando, esperando gente como eu, gente que não consegue deixar ir, gente que fica presa no sofrimento.”
“E elas tinham achado em mim uma fonte, uma fonte de dor que durava 25 anos. 25 anos de lágrimas, de desespero, de agonia. E meu Rafael, meu filho de verdade, ele tava preso no meio disso tudo, preso pela minha dor, pelo meu sofrimento, pelas minhas lágrimas que nunca paravam. Eu tinha segurado ele aqui sem querer, sem saber, mas tinha segurado.”
“E essas coisas, essas coisas ruins, elas usavam isso. Usavam minha dor para manter ele preso, para manter ele aqui onde elas podiam alcançar. ‘Não’, disse. Minha voz saiu mais forte agora. ‘Não, eu não vou deixar.’ As vozes gritaram mais alto, a mão apertou com mais força, o frio ficou mais intenso, mas eu entendi o que eu precisava fazer. Não era continuar chorando, não era continuar sofrendo, era o contrário, era deixar ir, era soltar e fazer isso não com dor, mas com amor.”
“Eu tava ali de joelhos, com medo. Aquela mão gelada ainda apertava meu ombro, as vozes ainda gritavam, meu corpo tremia. Mas aí no meio daquele terror todo, veio uma força. Uma força que eu não sei de onde. Uma força de mãe. Fechei os olhos, respirei fundo. ‘Não’, disse em voz alta. ‘Você não vai mais se alimentar da minha dor.’ Falei firme, com raiva até.”
“A mão apertou mais forte, as vozes ficaram mais altas, mas eu não me importei. ‘Meu filho não é isso e eu não vou deixar vocês usarem ele.’ Abri os olhos, olhei pro túmulo e tomei uma decisão. Durante 25 anos, eu vim aqui e chorei. Chorei pela morte, pela injustiça, pela dor.”
“E essa dor alimentava essas coisas, essas coisas que ficam em cemitérios esperando, esperando gente como eu, gente que não deixa ir. E meu Rafael estava preso no meio disso, preso pela minha dor. Naquele momento, eu decidi, não ia mais alimentar isso com meu sofrimento. Não ia mais prender meu filho aqui. Sequei as lágrimas com as costas da mão e comecei a falar diferente.”
“Não com tristeza, com amor, com força. ‘Rafael’, eu disse alto, firme. ‘Meu filho, você foi a melhor coisa da minha vida.’ As vozes sussurrantes ficaram mais baixas. A mão no meu ombro afrouxou um pouco. ‘Você me deu 22 anos de alegria, de amor, de orgulho.’ Coloquei minha mão na lápide dele. ‘E eu sou grata. Eu sou grata por cada dia que eu tive você.’”
“‘Eu sei que você não tá sofrendo, você tá em paz, ou pelo menos deveria estar.’ Respirei fundo, falei mais alto ainda. ‘E se tem alguma coisa aqui tentando se passar por você, alguma coisa tentando me enganar, me usar, não vai conseguir, porque eu conheço meu filho e eu não vou mais deixar que usem minha dor.’”
“Senti a presença ficando mais fraca. O frio diminuiu, as sombras ao redor começaram a sumir. ‘Rafael, filho, eu vou continuar te amando todo dia, mas não vou mais chorar por você desse jeito. Não com desespero, não com dor que não passa, porque você merece que eu lembre de você com alegria, com os sorrisos, com os abraços, com o amor.’ Minhas lágrimas caíam, mas eram diferentes agora.”
“Não eram lágrimas de desespero, eram lágrimas de libertação. ‘Eu prometo, meu filho, eu vou viver, vou sorrir quando pensar em você. Vou lembrar das coisas boas, não só da morte. E quando for minha hora, a gente se encontra de novo. Mas até lá’, respirei fundo, disse as palavras mais difíceis. ‘Até lá, filho. Vai, descansa. Descansa em paz.’”
“‘Pode ir, mãe te liberta. Mãe te solta.’ Quando eu disse isso, senti. A mão que segurava meu ombro soltou. Não tinha mais nada me segurando. As vozes sussurrantes pararam completamente. Os vultos sumiram. O frio foi embora. Tudo ficou leve, como se um peso gigante tivesse sido tirado, não só de mim, do lugar inteiro.”
“Olhei pro túmulo, as flores que tinham murchado não voltaram, mas não importava, porque eu senti, meu filho tinha ido de verdade agora. Ele não estava mais preso, tava livre, em paz. E eu também fiquei ali mais alguns minutos, mas era diferente agora. Não tava mais pesado, não tava mais assustador, tava tranquilo, em paz.”
“Terminei de limpar o túmulo. Com calma, peguei flores novas da bolsa e coloquei. Arrumei direitinho. Olhei para a lápide uma última vez. ‘Até um dia, meu filho, quando for minha hora.’ Mas falei com um sorriso, não com choro. Me levantei, limpei a terra dos joelhos e saí. Andei devagar pelo cemitério, olhando as árvores, o céu, as outras sepulturas.”
“Não tinha mais medo, não tinha mais peso. E pela primeira vez em 25 anos, saí daquele cemitério em paz. Paz de verdade. Eu sei que tem gente que não vai acreditar nisso. Vão dizer que foi tudo na minha cabeça, que eu imaginei os arranhões, as vozes, o medo. Mas eu sei o que eu ouvi. Eu sei o que eu senti. Tinha algo naquele cemitério, algo que queria me usar, queria usar minha dor para prender meu filho.”
“Mas eu não deixei. Aprendi uma coisa naquele dia. Às vezes o amor não é segurar, é soltar; não é chorar, é celebrar; não é sofrer, é agradecer. Durante 25 anos, eu segurei meu filho aqui com minha dor, com meu desespero, com minhas lágrimas, sem querer, sem saber, eu segurei. Mas naquele dia eu soltei, deixei ele ir, deixei ele descansar e no processo me libertei também.”
“Desde aquele dia eu ainda visito o túmulo dele, mas é diferente agora. Não fico horas chorando. Eu vou, levo flores, limpo o túmulo e converso com ele, mas com alegria. Conto as coisas boas. Lembro das histórias engraçadas. Sorrio, até dou risada às vezes e saio em paz, sempre em paz. Tem gente que acha estranho eu sorrir no cemitério, mas não me importo porque eu sei a verdade.”
“Meu filho não tá naquele túmulo, não mais. Ele descansou. Finalmente descansou. E eu posso viver sabendo disso, viver de verdade, não só sobreviver à dor. Essa é a minha história. Pode acreditar ou não, mas foi o que eu vivi, foi o que eu senti e foi assim que eu aprendi. Às vezes, o maior ato de amor é deixar ir.”