Bem abaixo da velha porteira de madeira desgastada pelo tempo, oito corpos balançavam. Eles estavam pendurados de cabeça para baixo, com os pés amarrados a uma viga de madeira, e os cabelos longos caindo como cortinas negras esvoaçando ao vento. Eram oito garotas apaches, com os corpos machucados e as respirações tão finas quanto fios.
Jackson saltou do cavalo, com o coração batendo tão forte que doía. Ele cortou as cordas de cada uma, segurando-as em braços que tremiam de raiva. Ninguém merecia ser tratado daquele jeito. Ninguém. Quando a última garota foi colocada no chão, Jackson olhou ao redor para a terra desolada que havia passado a vida inteira tentando conquistar. E, de repente, ele entendeu. A paz nunca é verdadeiramente encontrada em lugares comprados de forma muito barata ou muito tarde. Mas, ainda assim, ele estava lá. E aquelas oito garotas moribundas precisavam dele agora.
Dentro da velha cabana de madeira, a luz do fogo do fogão tremeluzia sobre os rostos exaustos das oito garotas apaches que Jackson acabara de resgatar. Ele estendeu cobertores um por um, colocando-as bem próximas umas das outras para se manterem aquecidas. Os corpos delas estavam tão frios que as mãos dele ficavam dormentes só de tocá-las. Jackson ferveu água e usou as ervas que havia trazido do norte para preparar um remédio. Ele não era curandeiro, mas uma vez já havia salvado a própria vida durante longos anos de andanças. Agora, tentava fazer o mesmo por outra pessoa.
Uma delas abriu os olhos primeiro. Uma garota com o cabelo até a cintura, rosto fino e olhos afiados como sílex. Aria. A sua voz estava rouca, pouco mais que um sopro de vento.
“Você não está com os Daringers.”
Jackson soltou uma risada seca.
“Se eu fosse um deles, você não estaria respirando para me perguntar isso.”
Aria olhou ao redor e viu as suas irmãs cobertas com cobertores, tendo recebido água e cercadas pelos esforços desajeitados, mas sinceros, de Jackson. Ela tocou o curativo no pulso e deu um pequeno aceno de cabeça — o gesto apache de agradecimento.
Outra garota, Lra, cujos olhos eram claros, porém inabaláveis, foi a primeira a se sentar.
“Você nos salvou, mas por quê?”
Jackson fez uma pausa, olhando fixamente para o fogo.
“Porque há algumas coisas pelas quais você simplesmente não pode passar direto.”
Ele não precisava dizer mais nada. Os olhos delas entenderam tudo. À medida que as suas forças voltavam lentamente, Aria respirou fundo e começou a falar. Cada palavra como um espinho.
“Este rancho, nunca foi seu. Ele nunca pertenceu a nenhum homem branco. Esta é a terra do nosso pai, a terra sagrada do nosso povo.”
Jackson sentou-se, escutando como um homem que acabara de gastar as economias de uma vida inteira num pedaço de terra, apenas para descobrir que havia sido pago com o sangue de outra pessoa.
“O clã Daringer chegou aqui há 10 anos”, continuou Aria. “Eles queriam tomar a nascente subterrânea, a única coisa que mantém esta terra viva durante a estação seca. Nosso pai disse não, então eles mataram a nossa família, toda a nossa tribo, exceto nós oito.”
“Nosso pai dividiu o mapa da fonte de água em oito partes”, acrescentou Lra, com a voz tremendo um pouco, mas mantendo-se firme. “Cada uma de nós carrega um pedaço. Os Daringers não podiam nos matar.”
“Porque eles ainda não tinham o mapa completo. Então, por que vocês estavam penduradas de cabeça para baixo na minha porteira?”, perguntou Jackson.
Aria olhou-o diretamente nos olhos, sem vacilar.
“Para atrair alguém, para ver quem ousaria vir atrás de nós, para capturá-lo e arrancar a verdade da sua boca.”
Jackson sentiu um calafrio percorrer o seu corpo, apesar do fogo queimando ao seu lado. Ele havia entrado direto numa armadilha, não por acaso, mas por pisar bem na linha de fogo de uma rixa de sangue de muitas gerações. Nema, a mais nova e mais fraca do grupo, falou com palavras tão fracas que se quebravam entre as respirações.
“Se você nos deixar ir, ainda pode fugir antes que eles voltem.”
Jackson levantou-se e caminhou até a janela, olhando para a escuridão que se adensava. Os sinais estranhos ao redor do rancho já não deixavam mais dúvidas na sua mente. Eles sabiam que alguém havia resgatado as oito garotas, e voltariam em breve. Jackson respondeu baixinho, sem virar a cabeça.
“Passei a minha vida inteira para comprar esta terra, mas se esta terra pertence a vocês, eu não vou abandoná-las nela.”
Aria olhou para as irmãs, e depois para Jackson. Nos olhos dela, um fraco brilho de esperança tremeluzia no coração de um deserto morto. O vento da noite no deserto trazia um frio cortante, escorregando por cada fresta das paredes de madeira apodrecidas do rancho. Lá dentro, as oito garotas apaches haviam caído num sono exausto. Deixando Jackson sozinho perto da janela, com um rifle Winchester apoiado nos joelhos. Ele podia sentir o perigo se aproximando como a sombra de uma cobra, lento, mas certo.
Sem aviso, o som de cascos ecoou de longe, soando como um tambor de guerra através da areia. Jackson levantou-se de um salto. O barulho de ferro ficou mais alto, e então parou bem no portão. Uma voz soou na escuridão, arrastada e preguiçosa, mas carregada de uma intenção letal.
“Jackson Hail, eu sei que você está aí dentro.”
A porta balançada pelo vento tremeu suavemente. As oito garotas acordaram sobressaltadas, com os olhos arregalados de medo. Aria colocou a mão no braço de Jackson e balançou levemente a cabeça, mas ele simplesmente levou um dedo aos lábios, num pedido silencioso de silêncio.
Jackson saiu para a varanda da frente, com o luar projetando a sua sombra contra a figura de um homem a cavalo: Vandrich Boon. Boon não era do tipo que matava em segredo. Ele se portava com confiança, até de forma arrogante. O seu cabelo comprido estava amarrado para trás, na altura da nuca. Um casaco de couro preto desgastado pendia dos seus ombros, e uma corda enrolada estava pendurada na sua sela, uma corda que tinha visto mais do que a sua cota de enforcamentos.
Boon deu um sorriso frio.
“Bem, você fez uma jogada e tanto, Hail! Tocando no que pertence aos Daringers sem pedir permissão.”
Jackson encostou uma das mãos numa pilastra da varanda, com o olhar calmo.
“De vocês, é? Tudo o que vi foram oito pessoas penduradas como animais. Eu as cortei. Só isso.”
Boon riu. Um som entrelaçado com aço.
“Você deveria tê-las deixado morrer. Teria sido mais fácil para elas. E para você.”
“Eu não vou entregá-las”, respondeu Jackson com firmeza.
O canto da boca de Boon se contraiu, uma rara quebra na sua compostura.
“Aquelas garotas têm pedaços do mapa da nossa família. Esta terra, aquela água, o vale inteiro, tudo pertence aos Daringers. Eu vim para recuperar o que é nosso.”
Ele inclinou-se para a frente na sela, baixando o tom de voz.
“Entregue-as agora.”
Jackson não se mexeu.
“Você não vai levar nada daqui.”
Boon ficou a encará-lo por um longo momento. O silêncio era tão espesso como brasas numa fornalha. Então, ele respirou fundo e endireitou-se.
“Tudo bem. Esta noite, eu vim sozinho. Como uma cortesia”, ele inclinou a cabeça, com a voz afiando-se como uma lâmina. “Amanhã eu volto com a gangue. E então, não haverá mais conversa.”
Ele puxou as rédeas, girou o cavalo de forma dramática e galopou para a escuridão, deixando para trás o uivo do vento e o eco de uma promessa sangrenta. Jackson ficou imóvel até que o som dos cascos desaparecesse na noite. Quando se virou e voltou para dentro, as oito garotas olhavam para ele, não com medo, mas com uma mistura de horror e gratidão.
Aria deu um passo à frente, com a voz baixa e firme.
“Você não é um de nós. Você ainda tem tempo para ir embora antes do nascer do sol.”
Jackson soltou um suspiro e fechou a cortina.
“Comprei esta terra com todos os dólares que economizei na vida. Mas agora, percebi uma coisa.”
Ele olhou para cada uma delas, por sua vez.
“Eu não comprei terras. Eu comprei uma guerra.”
E ele sabia que aquela guerra chegaria com a primeira luz do amanhecer.
A noite no deserto caiu depressa. Como um cobertor preto jogado sobre a terra. Enquanto o sol se escondia atrás dos cumes rochosos e vermelhos, Jackson sentiu aquilo. Algo estava errado. Nenhum coiote uivava. Nenhum grilo cantava, apenas um silêncio espesso, como se a própria natureza estivesse a prender a respiração, esperando que algo terrível acontecesse.
Aria colocou-se ao lado dele na varanda da frente, com a voz baixa.
“Boon nunca faz ameaças para depois ir embora. Quando ele diz amanhã, ele quer dizer hoje à noite.”
Jackson deu um leve aceno com a cabeça.
“Eu sei.”
Por volta da meia-noite, o vento mudou subitamente, trazendo um leve cheiro a fumaça. Jackson levantou-se num salto e correu para fora. Atrás do velho celeiro de gado, as chamas tremeluziam na escuridão. Boon tinha feito a sua jogada.
“Não vá lá para fora!”
Lra agarrou o braço de Jackson.
“Eles estão a tentar atrair-te.”
Jackson parou por um segundo. Por mais furioso que estivesse, ele sabia que ela tinha razão. Se corresse lá para fora, seria o primeiro alvo. Mas, ao ver o fogo a consumir o celeiro, o exato lugar que ele planeava reconstruir para criar alguns cavalos e começar uma nova vida, Jackson sentiu o seu peito apertar. Boon não estava a queimar apenas um celeiro. Estava a queimar o seu sonho.
Então, So, a mais calma das oito irmãs, agarrou num cobertor e correu pelos fundos com Nema. Jackson seguiu-as, e os três trabalharam para apagar as brasas restantes antes que as chamas pudessem chegar à casa. Enquanto trabalhavam, o grito de um cavalo rasgou a noite à distância. O som cortou como uma lâmina.
Paha correu para o portão e depois caiu de joelhos, chocada.
“Jackson, o seu cavalo.”
Apenas a sela restava, atirada na areia, e as rédeas estavam rasgadas. Eles não precisavam de o matar. Só precisavam de garantir que ele não conseguisse escapar. Boon deixara uma mensagem tão clara quanto uma assinatura esculpida na escuridão: “Você vai ficar, e você vai morrer.”
Quando o fogo foi finalmente apagado, todos voltaram para dentro. Todos estavam exaustos. Mas ninguém conseguia dormir. Eles reuniram-se ao redor da lareira. As chamas projetavam sombras sobre rostos jovens, marcados por velhas feridas.
“Os Daringers, eles nunca param”, sussurrou Mirasu, apertando a ponta do seu cobertor. “Qualquer um que nos ajude torna-se um alvo também.”
Jackson encostou-se à parede, a limpar a fuligem das mãos.
“Eu sei, mas hoje à noite vocês salvaram-me. Pelo menos todas vocês salvaram.”
Oito pares de olhos viraram-se para ele. Um longo silêncio instalou-se, não o silêncio do medo, mas o silêncio de algo novo. Uma ligação fina como um fio, mas forte o suficiente para começar a uni-los.
Aria falou:
“Costumávamos acreditar que pessoas de fora nunca ficariam do nosso lado.”
Ela olhou diretamente para Jackson, com o olhar suave, mas afiado como aço forjado.
“Talvez estivéssemos erradas.”
Jackson não respondeu de imediato. Apenas entregou a cada uma delas um copo de água morna. Uma por uma, com as mãos a tremer de frio e de medo, elas estenderam os braços e aceitaram. Enquanto estavam sentados no brilho do fogo, uma pedra atingiu repentinamente a janela, assustando a casa inteira. Enrolado na pedra estava um pedaço de papel áspero. Nele, estava rabiscada a seguinte mensagem:
“Amanhã nós levamos as pessoas. Nós levamos as terras. Quem resistir será enterrado com elas.”
Jackson leu, dobrou o papel e atirou-o ao fogo. Os seus olhos brilhavam com uma determinação fria e assustadora.
“A partir de agora”, disse ele, “ninguém aqui está sozinho.”
As oito irmãs olharam umas para as outras e depois de volta para o homem que, acidentalmente, entrou na guerra delas e escolheu ficar. Lá fora, o fogo de Boon havia-se apagado. Mas dentro daquela pequena casa, outro fogo tinha acabado de começar a queimar.
A manhã seguinte chegou com uma luz pálida e desbotada, como se até o sol tivesse medo de brilhar com demasiada intensidade numa terra tão carregada de energia sombria. Jackson não tinha dormido, e as oito irmãs também não. Durante a noite, eles revezaram-se a vigiar, a ouvir cada mudança de vento, tentando perceber se Boon iria voltar. Mas ao amanhecer, foi outra pessoa quem chegou. O som de cascos ergueu-se ao longe, lento, constante, nada parecido com o ritmo ameaçador de Boon.
Jackson saiu para a varanda, ainda com o rifle na mão. Atrás dele, as oito garotas preparavam as suas armas, com flechas e facas de sílex em mãos tensas. Um homem de meia-idade aproximou-se a cavalo. Os seus cabelos eram prateados. Os seus olhos carregavam o peso de uma vida que tinha visto demais, e um distintivo desbotado brilhava sob a poeira do deserto. O Xerife Roven Pike.
Ele levantou as duas mãos, com a voz rouca de anos de fumaça, mas calma.
“Abaixe a arma, Hail. Não estou aqui para causar problemas.”
Jackson não baixou o rifle, mas também não o ergueu.
“Quem é que você está a procurar?”
“Não estou a procurar”, respondeu Pike. “Estou aqui para avisar.”
Ele desmontou, abriu um alforje de couro e tirou um maço de pastas amarradas com uma corda fina. Os papéis estavam manchados de fumo, as bordas queimadas como se tivessem escapado por pouco de serem apagadas da história. Ele colocou o pacote nas mãos de Jackson.
“Os Daringers, tenho-os rastreado há mais de 8 anos. Assassinatos, suborno a juízes, roubo de terras, apagando qualquer vestígio dos seus crimes contra as tribos nativas.”
Aria deu um passo à frente, com o olhar tão penetrante quanto uma flecha apache.
“Você sabia e deixou-os viver.”
Pike soltou um suspiro pesado.
“Garota, os Daringers não são apenas ricos. Eles têm raízes nos tribunais, nos bancos, nas mãos de cada comandante de patrulha. Todas as vezes que tentei levá-los a julgamento, uma testemunha desapareceu. As provas evaporaram. Ou eu recebi um caixão.”
Jackson abriu a pasta. Lá dentro havia fotos de fazendas incendiadas, corpos enterrados à pressa, mapas marcando terras ricas em água que tinham sido roubadas. Cada página parecia uma faca apunhalando o passado daquela terra.
Pike olhou Jackson nos olhos.
“Mas desta vez é diferente. Eu tenho testemunhas vivas, oito delas.”
As irmãs ficaram em silêncio.
O Xerife Pike continuou, com o tom de voz mais tenso:
“Se vocês estiverem dispostas a testemunhar num tribunal federal, os Daringers vão cair. Não apenas Boon, mas toda a família que está por trás dele.”
Miasu abanou a cabeça, com o medo estampado no rosto.
“Se nós testemunharmos, os Daringers vão matar-nos antes mesmo de chegarmos a um tribunal.”
Pike acenou com a cabeça lentamente.
“Eu não vou mentir para vocês. Os Daringers sabem que vocês estão vivas, e virão aqui para terminar o trabalho e enterrar a última peça de evidência.”
Jackson apertou a pasta com força nas mãos.
“Boon disse que voltaria com a gangue inteira. O que é que você vai fazer sobre isso?”
O Xerife Pike virou-se para examinar o rancho: as cercas partidas, o celeiro queimado, as marcas claras dos cavalos dos Daringer na areia.
“Antes de vir para aqui”, disse ele, “enviei um sinal aos xerifes federais, mas eles precisam de tempo. Até lá…”
Ele olhou Jackson diretamente nos olhos.
“…temos que manter a posição. Vamos sobreviver, não importa como.”
Aria ergueu-se, com a voz inabalável.
“Se nós testemunharmos, os Daringers serão mesmo trazidos à luz?”
Pike respondeu com os olhos pesados de verdade.
“Esta é a última oportunidade para vocês. Para esta terra.”
Ninguém disse nada depois disso. Lá fora, o sol tinha acabado de surgir sobre as montanhas. Mas a sua luz não trazia esperança. Ela apenas revelava uma coisa. O amanhã iria queimar. E se eles viveriam para ver, dependia do que escolhessem fazer hoje.
Depois de o Xerife Pike sair da cabana de madeira, o silêncio esticou-se como um fio prestes a arrebentar. As oito irmãs apaches sentaram-se juntas ao redor da lareira, cujo brilho refletia nos seus olhos, olhos que já tinham visto muitos entes queridos cair. Jackson estava perto da porta, olhando para a terra onde o sol já começava a inclinar-se para o oeste, sinalizando o regresso da noite e do perigo.
Aria foi a primeira a quebrar o silêncio.
“Jackson, você não nos deve nada se for embora agora. Talvez ainda tenha uma saída.”
Jackson virou-se para enfrentá-la.
“Eu sei.”
“Então, por que é que você ainda está aqui?”, perguntou Lra. A sua voz era uma mistura de medo e frustração. “Boon e os Daringers. Eles não vão deixá-lo ir. Eles não deixam ninguém ir.”
Jackson olhou nos olhos delas, olhos que testemunharam mais perdas do que qualquer pessoa jamais deveria suportar. Ele falou devagar, como se cada palavra tivesse sido pesada e medida.
“Porque uma vez que eu vejo o que é o certo, já não consigo mais virar as costas.”
Elas olharam para ele não mais como um estranho, mas como o último homem que escolheu ficar ao lado delas quando o mundo inteiro lhes virara as costas. O Xerife Pike voltou logo após o pôr do sol, conduzindo duas mulas carregadas de suprimentos. Ele largou um grande saco de sarapilheira no quintal. Arame farpado, sacos de areia, lamparinas a óleo, tábuas de madeira para montar defesas.
“Eles virão antes do amanhecer”, perguntou Jackson. “Você tem a certeza?”
“Os Daringers não dormem quando os seus interesses estão ameaçados”, disse Pike.
e depois olhou para as oito garotas:
“…e nunca perdem uma oportunidade de silenciar testemunhas.”
Não foram precisas mais palavras. O grupo imediatamente colocou as mãos à obra. Tala e Paha, as melhores a conhecer o terreno, guiaram Jackson e Pike pelo rancho, a apontar os pontos fracos, uma área cega atrás do celeiro, uma seção partida da cerca, janelas que podiam ser estilhaçadas à distância. Lra e Nema trabalharam nas armadilhas de laço. O tipo usado para a caça, agora transformado numa linha mortal de defesa. Mirisu, Soui e Yara moveram-se rapidamente com a luz que desvanecia, reunindo pedras, galhos secos, construindo barricadas e tapando buracos nas paredes. Ninguém falava de medo, embora ele se apegasse ao ar como uma névoa fina a cada movimento. Apenas tensão e determinação.
Quando a escuridão caiu por completo, eles acenderam uma única lamparina dentro de casa. Jackson observou as irmãs a moverem-se de forma precisa, deliberada, endurecidas pela dor, mas nunca quebradas. Elas não tremiam. Elas não hesitavam. E Jackson percebeu que elas tinham sobrevivido não por sorte, mas porque eram mais fortes do que o mundo alguma vez esperava que fossem.
O Xerife Pike aproximou-se, colocando a mão no ombro de Jackson.
“Hail, você ainda pode ir embora. Eu não o culparia.”
Jackson agarrou firmemente no seu rifle.
“Não vou deixar nenhuma garota para trás. Nenhuma.”
Pike deu um leve aceno de cabeça, do tipo que um homem dá quando já viu muitos a escolher o caminho mais fácil, e sabe reconhecer quando alguém escolhe o caminho certo.
Quando tudo ficou pronto, eles sentaram-se para alguns minutos finais de descanso. Apenas alguns. Porque o amanhecer aproximava-se. Aria sentou-se ao lado de Jackson, a sua respiração estava calma, mas constante.
“Se amanhã nós não sobrevivermos…”
“Não diga isso”, interrompeu Jackson.
Ainda assim, Aria continuou.
“Se não sobrevivermos, saiba apenas que você não salvou apenas as nossas vidas. Você salvou o nosso povo.”
Jackson olhou para ela.
“Amanhã”, disse ele. “Nós viveremos. Todos nós.”
Aria não discutiu. Ela apenas sorriu, o primeiro sorriso que ele via nela desde que se conheceram. Lá fora, o vento mudou. A noite trazia consigo os sinais de uma tempestade a aproximar-se, e eles sabiam: Boon não ia esperar a manhã para iniciar a luta.
A noite ainda não tinha desaparecido do céu quando o rancho de Jackson mergulhou num silêncio estranho e não natural. Era o tipo de silêncio que só um deserto poderia produzir: espesso, pesado e perigoso. Jackson e o Xerife Pike revezavam-se de guarda, enquanto as oito irmãs apaches se agachavam nas suas posições táticas, cuidadosamente preparadas. Aria estava no sótão do antigo celeiro, os seus olhos varriam a escuridão como os de um falcão.
“Eles estão a chegar”, sussurrou ela.
Jackson não ouvia cavalos, mas acreditou nela. Ele havia aprendido que os instintos apaches raramente falhavam. Segundos depois, o chão começou a tremer. Não era um cavalo, mas toda uma gangue. Das sombras a leste, surgiu uma onda de figuras escuras. Os seus cavalos moviam-se lentos, mas firmes, formando um crescente que cercou o rancho.
Boon liderava-os, a sua silhueta inconfundível mesmo na escuridão. O longo casaco preto ondulava atrás dele como as asas de um corvo. Ele gritou:
“Jackson Hail! Você ficou sem saída!”
Jackson manteve-se de pé, com a Winchester na mão.
“Eu não tenho a intenção de fugir.”
Boon riu de forma sonora, algo que soou como aço batendo no aço.
“Então eu vou tirar-lhe a vida.”
Ele levantou o braço.
O primeiro tiro ecoou. Uma bala atingiu a tábua de madeira perto de Jackson, espalhando farpas de imediato. Tala e Nema acionaram uma linha de armadilhas com fios de tropeço, derrubando dois pistoleiros dos seus cavalos. Sem gritos, apenas o choque frio do excesso de confiança.
Boon sibilou.
“Incendeiem a casa!”
Mas no exato momento em que a gangue ergueu as tochas, Lra, da velha torre de vigia, disparou duas flechas. Ambas atingiram os seus alvos, perfurando as mãos dos homens que tentavam atear fogo. As tochas caíram na areia e apagaram-se instantaneamente. O Xerife Pike respondeu com uma rajada curta e precisa de tiros, forçando a gangue dos Daringer a abaixar-se atrás de arbustos baixos.
Boon não se enfureceu. Ele sorriu.
“Muito bem, Hail. Muito bem, mas não o suficiente.”
Ele fez um sinal novamente. Outro grupo de bandidos começou a circular por trás do rancho, indo em direção à linha de cerca partida, escondida sob sacos de areia. Mas So e Paha estavam à espreita. Assim que a primeira bota tocou o chão, elas puxaram uma corda, acionando uma armadilha com um estalo afiado. A areia voou no ar, cegando os atacantes.
Naquele momento de caos, Jackson avançou, girando a coronha do rifle para derrubar o primeiro homem, enquanto Pike cobria-lhe as costas com tiros de ângulo elevado. Boon incitou o cavalo, sacando a arma e apontando diretamente para Jackson.
“Acabou, Hail.”
Mas antes que pudesse apertar o gatilho, Aria saltou do telhado. A flecha tensionada e apontada bem para Boon. Ele desviou-se, mas a flecha cravou-se profundamente no seu cavalo, que empinou violentamente. Boon perdeu o controle e caiu com estrondo no chão. Jackson já estava ali, com o rifle carregado, pairando sobre ele.
Os olhos de ambos encontraram-se. Um continha a arrogância congelada de um opressor de longa data; o outro, a determinação de aço de um homem que havia escolhido manter-se firme.
Boon rosnou.
“Você acha que salvar aquelas oito garotas muda alguma coisa?”
A voz de Jackson estava calma, mas inabalável.
“Muda tudo.”
Boon tentou alcançar uma faca, mas Aria já estava ao lado de Jackson. A sua flecha apontada diretamente para o peito de Boon. Naquele instante, o trovão de cascos surgiu do oeste. Dezenas de lamparinas a óleo iluminaram a escuridão. O Xerife Pike gritou:
“A cavalaria federal chegou!”
A gangue dos Daringer, ao ver os reforços, largou as armas de imediato. Boon foi amarrado, com a fúria a arder nos seus olhos. A luta havia durado menos de 10 minutos, mas deixaria marcas para o resto da vida. Ninguém morreu, mas tudo tinha mudado.
Jackson olhou para as oito irmãs. Depois para o rancho em ruínas, o celeiro reduzido a uma estrutura, as cercas queimadas e estilhaçadas. Ele falou, com a respiração ainda pesada pela adrenalina:
“Amanhã nós reconstruiremos tudo.”
E ninguém discordou, porque todos sabiam que amanhã, eles continuariam a ser aqueles que sobreviveram.
Na manhã após a batalha, a primeira luz do sol derramou-se sobre o rancho, como se o sol tivesse decidido dar a este lugar mais uma oportunidade. O vento do deserto ainda carregava o cheiro de cinzas e de madeira queimada. Mas por debaixo disso, havia algo mais. O cheiro de um novo começo.
Jackson caminhou até o quintal da frente, as suas botas rangendo na areia misturada com cinzas. A cerca estava destruída. O celeiro agora era apenas vigas carbonizadas. O poço tinha sido destroçado, como se tivesse sobrevivido às garras de alguma fera selvagem. Tudo falava da noite em que estiveram na fronteira entre a vida e a morte. Mas as oito irmãs apaches ainda estavam de pé, as oito. O Xerife Pike também. Ninguém faltava.
Aria colocou-se ao lado de Jackson e entregou-lhe um pequeno pedaço de madeira.
“Começamos aqui”, disse ela.
Jackson olhou para a tábua, e depois para os olhos dela, que aguardavam a sua resposta. Eram as mesmas garotas que, em tempos, haviam estado penduradas de cabeça para baixo como iscos. Agora erguiam-se, não como vítimas, mas como verdadeiras donas daquelas terras. Ele acenou com a cabeça.
“Muito bem, vamos começar.”
Eles dividiram o trabalho. Pea e Tala começaram a reconstruir a cerca a leste. LRA e Mirisu escavaram uma trincheira temporária para água, seguindo as memórias do rio subterrâneo que o seu pai outrora protegera. Nema, Yara e Zoe reuniram todos os pedaços de madeira utilizáveis e começaram a estruturar um novo canto do celeiro.
O ar estava cheio de uma energia estranha, metade exaustão, metade esperança, como se estivessem a limpar uma vida que havia sido espalhada. O Xerife Pike examinou as marcas de queimaduras no chão. Ele soltou um suspiro.
“Os Daringers vão ficar trancados durante muito tempo. Com os vossos depoimentos e com os meus antigos arquivos de casos, os federais não vão deixar isto passar em branco.”
Aria concordou com a cabeça. Não com alegria, nem com tristeza, apenas com certeza.
“A justiça pode tardar, mas chega.”
Pike sorriu.
“E graças a todas vocês, desta vez chegou na hora certa.”
Ao meio-dia, Jackson e as oito irmãs partilharam a sua primeira refeição desde que tudo começara — apenas milho assado, biscoitos secos e alguns frutos de cato. Mas de alguma forma, sentiu-se como algo reconfortante. Nema, a mais nova, ergueu um pedaço do mapa.
“O nosso pai dividiu o mapa em oito partes para que nenhuma de nós pudesse ser forçada a entregá-lo. Mas agora… será que precisamos mesmo dele?”
Aria olhou para Jackson, e depois para a terra ao redor deles.
“Não, porque a pessoa que domina esta terra agora não são os Daringers e não é qualquer outro invasor.”
Ela colocou o seu pedaço de mapa na mesa. Uma a uma, as outras fizeram o mesmo. Jackson olhou para os oito pedaços formando o formato da antiga rota da água, aquela que o pai delas morrera para proteger. Ele falou baixinho.
“Vocês podem reivindicar tudo. Não me vou apegar a nada.”
Aria abanou a cabeça.
“Você não entende. Não viemos para recuperar a terra das suas mãos.”
Ela aproximou-se, com a voz baixa e firme.
“Viemos para partilhar esta terra com você.”
Jackson hesitou.
“Porquê?”
Aria deu um sorriso raro, mas que aqueceu o céu do oeste.
“Porque você ficou quando podia ter ido embora. Porque escolheu proteger as pessoas que o mundo tinha decidido que não valiam a pena salvar. E porque nos salvou de um destino que mais ninguém ousou enfrentar.”
As oito irmãs acenaram afirmativamente com a cabeça, silenciosas, mas unidas. Jackson olhou para elas durante um longo momento. Então, finalmente, ele disse:
“Então, a partir de agora, nós reconstruímos esta casa juntos.”
Ao final da tarde, eles levantaram a primeira tábua do novo celeiro. Cada prego, cada pancada do martelo ecoava como uma promessa. De que um lugar antes dilacerado pela violência iria tornar-se um lar. O vasto deserto observava em silêncio. O vento já não uivava como se estivesse de luto. O sol já não queimava como se quisesse que as pessoas desaparecessem.
E num lugar que em tempos enterrava segredos e dores, eles começaram a construir uma família, no coração de um deserto brutal onde o mal outrora correra livre e onde as sombras tinham outrora coberto cada caminho. Jackson e as oito irmãs apaches fizeram uma escolha que poucos ousam fazer. Eles defenderam a bondade, por aquilo que é o certo. Eles não partilhavam o mesmo sangue, mas partilhavam algo mais profundo. A coragem de se verem uns aos outros como humanos.
E naquele momento, quando ficaram lado a lado a reconstruir a terra que todos haviam esquecido, provaram que a justiça não vem apenas das balas. Vem de corações corajosos o suficiente para amar no meio das ruínas.