POPÓ: A VERDADE VEIO À TONA
Tetracampeão mundial, 41 vitórias, 29 nocautes consecutivos, uma “mão de pedra” — e esse mesmo homem acusado de homicídio, enquanto se autodenomina um evangélico devoto. Mas essa não foi a parte mais repugnante. Hoje você vai descobrir por que seus dois filhos estão no tribunal por algo muito sombrio neste exato momento. E por que o próprio Popó está sendo processado por tentativa de homicídio? Fique até o final. Porque hoje você vai entender que o maior boxeador brasileiro moderno, aquele que dormiu até os 23 anos no chão de areia de um quarto de 6 m², não caiu por causa de drogas, não caiu por causa de dinheiro; ele caiu por causa de algo que já estava em seu sangue, em toda a sua família antes de ele nascer.
21 de setembro de 1975. Salvador, capital do estado da Bahia, nordeste do Brasil. No bairro da Baixa de Quintas, na área conhecida como Cidade Nova, uma das mais pobres e violentas da cidade, nascia um menino. Pesava 2.900 g. Seus pais o chamaram de Acelino Freitas. A mãe, Dona Zuleica, sentou-se na cama do quarto dos fundos da casa, onde acabara de dar à luz sem médico, sem parteira, sem nada, olhando para o recém-nascido e observando o pequeno ruído que o bebê fazia cada vez que se agarrava ao seu peito. Um barulhinho, como um sussurro, como um beijo minúsculo. Pop, pop, pop. Dona Zuleica sorriu e falou, como ela mesma contou décadas depois para o jornalista Wagner Sarmento na biografia escrita com suas próprias mãos. Ela falou uma única palavra: “Popó, popó”. O apelido nasceu naquele quarto pobre no bairro da Baixa de Quintas e acompanharia o menino pelos 50 anos seguintes de sua vida, até os dias de hoje.
Enquanto conto essa história, a casa onde Popó nasceu era apenas um barraco, um único cômodo, 6,75 m², com divisórias de pano por dentro, sem banheiro interno, sem água encanada, sem um telhado decente. Neilalma Ferreira Jones, conhecido em todo o bairro como Babinha, era um boxeador amador frustrado que trabalhava descarregando navios no porto de Salvador. Ele mal recebia o suficiente para comer. A mãe, Dona Zuleica, fazia feijoada para vender aos vizinhos e, entre os dois, criaram seis filhos naquele barraco que qualquer inspetor de saúde declararia inabitável. Mas a pobreza do bairro da Baixa de Quintas não foi a parte mais difícil da infância de Popó. A parte mais difícil foi o que aconteceu naquela casa em uma noite específica de 1985, quando o menino Celino tinha apenas 10 anos, uma noite que marcaria tudo o que veio depois. Vamos lá.
Neilalma Ferreira Jones, o Babinha. Pai de Popó, boxeador frustrado, estivador, homem de mãos pesadas, voz profunda e olhos que estavam sempre vermelhos no final do dia. E de acordo com o próprio Popó, em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura em 2015, um pai violento. Babinha bebia muita cachaça barata, a mesma que sua mãe Zuleica vendia em uma mesinha na sala junto com a feijoada para complementar a renda. O pai chegava em casa em frangalhos à noite, bêbado, e de acordo com os depoimentos dos próprios irmãos de Popó, distribuía surras em Dona Zuleica, em seus filhos, em todos, sem distinção.
Uma noite em 1985, de acordo com seu irmão mais velho, Luís Cláudio Freitas, em um documentário da HBO Max de 2019 chamado Irmãos Freitas, dirigido por Walter Salles e Sérgio Machado, seu pai Babinha chegou às 23h, mais bêbado do que o habitual, e começou a espancar Dona Zuleica na sala. O menino Acelino, de 10 anos, ouviu os gritos do quarto dos fundos, foi até lá e viu a cena. A mãe no chão, o pai em cima dela, os braços de Babinha erguidos com um cinto na mão. Acelino, de dez anos, não pensou duas vezes; correu em direção ao pai e, segundo o depoimento de seu irmão Luiz Cláudio, desferiu o primeiro soco de boxe de sua vida. Um soco pequeno, um punho infantil, mas um soco direto no rosto do pai. Babinha ficou ali, surpreso, olhou para o filho e afrouxou o cinto. Naquela noite de 1985, no barraco do bairro da Baixa de Quintas, Popó descobriu que seus punhos podiam parar o homem mais temido da casa e escolheu, sem ainda entender o que estava escolhendo, o seu sustento.
Mas a escolha do garoto para entrar no mundo do boxe não foi feita por seu pai. Chegou através do irmão mais velho, Luís Cláudio, e a história entre os dois irmãos Freitas começou 4 anos depois, em 1989, em uma academia de boxe em Salvador, que era apenas um pátio coberto com telhado de zinco. Luís Cláudio Freitas, o irmão mais velho de Popó, 5 anos mais velho, era boxeador profissional desde os 14 anos. Considerado a maior promessa do boxe na Bahia em 1989, Luís era diferente do pai Babinha. Luís era disciplinado, calmo, um esportista estudioso, e viu algo em seu irmão de 14 anos que o resto da família não conseguia ver: o futuro. Luís levou Popó para a academia do Mestre Ignácio na Rua do Lavradio, no centro de Salvador. Um ginásio improvisado em um terreno baldio com telhado de zinco, dois sacos de areia pendurados nas vigas e um ringue de madeira onde metade do material havia sido furtada de uma obra na rua de trás. Popó, com 14 anos, 38 kg e 1,60 m de altura, entrou naquele quintal em 5 de março de 1989 e nunca mais deixou o mundo do boxe.
Mestre Ignácio, o primeiro treinador profissional de Popó, deu-lhe dois conselhos naquela primeira tarde. Ele lhe disse, palavra por palavra, de acordo com o próprio Popó em entrevista à revista Placar em 2007: “Garoto, olhe para frente e nunca abaixe os punhos. Olhe para frente, nunca abaixe os punhos.” Essas duas frases marcariam toda a carreira da “mão de pedra” e, de certa forma, também marcariam as duas piores decisões que Popó tomaria fora do ringue. Porque olhar para frente e não abaixar os punhos o ajudou a conquistar 29 nocautes seguidos, mas também significou perder sua família, perder seus princípios e acabar, 30 anos depois, em uma delegacia de homicídios em Salvador, acusado.
Mas antes da divisão de homicídios, antes dos filhos no tribunal, antes da luta do ano passado em São Paulo, houve a glória. Glória pura, glória mundial. E o primeiro título mundial chegou em 1999, acompanhado por algo que mudou tudo. 7 de agosto de 1999, Le Cannet, sul da França. Popó subiu ao ringue contra o russo Anatoly Alexandrov. Uma luta pelo título mundial dos superpenas da Organização Mundial de Boxe (WBO), o cinturão verde, o mais cobiçado da categoria. E Popó, segundo o narrador Galvão Bueno, que narrou a luta pela Rede Globo naquela noite, tinha algo diferente nos olhos. Galvão falou ao vivo, palavra por palavra: “Esse garoto tem alguma coisa diferente. Não sei o que é, mas há algo nos olhos dele que eu não via em um boxeador brasileiro desde os dias do Maguila.”
Galvão estava certo: 1 minuto e 41 segundos. Foi o tempo que durou a luta. Popó desferiu um cruzado de direita. Anatoly Alexandrov foi à lona. O árbitro contou até 10, e o Brasil inteiro, sentado em frente às televisões da sala, testemunhou o nascimento do primeiro tetracampeão mundial da Bahia na história. 1 minuto e 41 segundos, o nocaute mais rápido por um título mundial na história do boxe brasileiro até aquele momento. Popó retornou a Salvador duas semanas depois. O aeroporto 2 de Julho o recebeu com 15 mil pessoas. A carreata do centro da cidade até o bairro da Baixa de Quintas durou 3 horas e, quando o carro do campeão finalmente parou em frente ao barraco de 6,75 m² onde Popó havia dormido por 23 anos no chão de areia, Dona Zuleica, de 62 anos, saiu à rua. Ela viu o filho, viu o cinturão, viu o prêmio em dinheiro e desmaiou. Dona Zuleica desmaiou de choque, alegria e do esgotamento de uma vida inteira lavando roupas, vendendo feijoada, escondendo os filhos do pai bêbado e rezando todas as noites no chão de terra do barraco. Naquela tarde de agosto de 1999, na Baixa de Quintas, a família Freitas finalmente havia escapado da pobreza, mas estava entrando em algo pior.
Porque o que veio depois da glória, de que poucos brasileiros se lembram, foi uma série de decisões tomadas pelo próprio Popó que manchariam para sempre o sobrenome Freitas. E a primeira dessas decisões tomou forma em uma mansão no bairro da Pituba, em Salvador, no ano de 2000. Uma mansão que Popó comprou com o dinheiro de seu primeiro cinturão de campeonato e onde começou a viver uma vida dupla.
O ano era 2000. Popó tinha 25 anos. Quatro defesas vitoriosas do título mundial. Patrocínios da Coca-Cola, Banco do Brasil e da marca de relógios Casio. Com uma renda mensal estimada, ele comprou uma mansão no bairro da Pituba, uma área nobre de Salvador, medindo 1.500 m², com piscina com cascata e quatro carros na garagem: uma BMW M3 preta, uma Mercedes Classe S branca e duas Ferraris importadas diretamente da Itália. Popó se casou pela primeira vez naquela mansão. Em dezembro de 2001, o nome da noiva era Helena. Um casamento discreto, religioso, que não atraiu a atenção da imprensa nacional. Popó havia começado a frequentar a igreja Assembleia de Deus na Pituba. Declarou-se um evangélico devoto, ia à igreja às terças e domingos, dava 20% de dízimo de seu salário e, em todas as entrevistas públicas, dizia que a fé era a força motriz de sua carreira.
Mas, ao mesmo tempo, como revelado quatro anos mais tarde em um programa da TV Bahia, afiliada da Globo, em 2005, Popó vivia outra vida, uma vida paralela, uma vida que o público brasileiro não conhecia e que o próprio Popó confessou em frente às câmeras durante aquela entrevista para o programa Bahia Meio-Dia, enquanto chorava. Palavra por palavra, Popó disse: “Eu era um prostituto, traía minha esposa todos os dias. Eu era um prostituto.” Essa foi a confissão do campeão ao vivo na televisão brasileira, com lágrimas escorrendo pelo rosto, sem que o país inteiro suspeitasse até aquele momento que o fervoroso evangélico do bairro da Pituba, o garoto-propaganda da Coca-Cola e do Banco do Brasil, o exemplo de superação na periferia baiana, traía sistematicamente sua esposa Helena e que, durante aqueles anos, manteve relacionamentos paralelos com várias mulheres diferentes de Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo.
O casamento com Helena durou menos de 2 anos. Eles se separaram em janeiro de 2003. Popó pagou uma pensão milionária e seguiu em frente. Sua segunda esposa, em 2006, foi a empresária Eliana Guimarães, filha do empresário André Guimarães, proprietário de um dos maiores grupos de comunicação da Bahia. Uma mulher bonita, inteligente, que acompanhou a carreira de Popó por 8 anos e lhe deu dois filhos. Mas as traições continuaram. E no final, em 2009, Eliana descobriu tudo e se separou dele. A essa altura, de acordo com registros públicos da Vara de Família de Salvador, Popó já tinha seis filhos reconhecidos com cinco mulheres diferentes: Igor, o mais velho; Rafael, nascido em 1993; Iago; Gustavo; Juan; e o mais novo, Acelino Júnior, conhecido pelo apelido de Popozinho. Seis filhos, cinco mulheres, todos em Salvador, todos crescendo com um pai famoso e ausente ao mesmo tempo.
Mas a parte mais sombria daqueles anos não foram as traições às esposas, nem os seis filhos espalhados por Salvador. A parte mais sombria foi o que aconteceu em uma estrada na Bahia na noite de 9 de setembro de 2009. Uma noite que a imprensa brasileira mal mencionou. Uma noite que quase destruiu o campeão. Vamos lá.
9 de setembro de 2009, uma estrada secundária na região metropolitana de Salvador, perto do município de Camaçari. Às 23h30 da noite, dois homens são levados à força no porta-malas de um carro até um ponto específico daquela estrada. Os dois homens estavam com as mãos amarradas com algemas. Algemas reais, com o símbolo da Polícia Civil do Estado da Bahia estampado no metal. Os dois homens foram tirados do porta-malas, ameaçados e jogados no chão. Um caiu morto na beira da estrada. Seu nome era Moisés Magalhães Pinheiro, 28 anos, trabalhador autônomo. Três tiros na cabeça, morte instantânea. O outro, por puro milagre, conseguiu pular um barranco de 4 metros ao lado da estrada, rolar, esconder-se nos arbustos e sobreviver com uma bala alojada na coxa esquerda até o amanhecer do dia seguinte. Seu nome era Jonatas dos Santos Dantas, 22 anos. E Jonatas, ao chegar ao Hospital Geral de Camaçari na madrugada de 10 de setembro, ainda com as algemas da polícia nos pulsos, falou para a primeira enfermeira que o atendeu, palavra por palavra: “Foi o campeão, o boxeador, o Popó. Foi o campeão, o boxeador, o Popó.”
A denúncia entrou no sistema da polícia da Bahia na manhã de 10 de setembro de 2009. O caso foi assumido pela delegacia de homicídios de Salvador. A delegada responsável era Francineide de Moura, uma mulher durona, de carreira, conhecida na imprensa baiana por resolver casos políticos sensíveis. Francineide colheu o depoimento completo de Jonatas dos Santos Dantas no hospital e, às 14h daquele mesmo dia, ligou para o telefone privado de Acelino Freitas, o campeão mundial de boxe, tetracampeão, “mão de pedra”, Popó. A ligação durou 5 minutos. A delegada Francineide intimou Popó a depor, inicialmente como testemunha, na delegacia de homicídios na Avenida Centenário, no bairro da Vitória, em Salvador. Popó respondeu, segundo a própria delegada ao jornal A Tarde de Salvador uma semana depois, que não iria, que não sabia de nada sobre o caso, que não conhecia nem o falecido nem o sobrevivente, e desligou.
Mas a delegada insistiu, intimando-o formalmente por escrito no dia 14 de setembro, e Popó, desta vez sem possibilidade de recusa, contratou o advogado Sérgio Habib, um dos advogados criminais mais caros do Nordeste do Brasil (R$ 50.000 por caso), e finalmente se apresentou na quinta-feira, 17 de setembro de 2009, às 15h, na porta da delegacia de homicídios de Salvador. O que aconteceu lá dentro foi coberto por toda a imprensa da Bahia, mas apenas por um punhado de veículos de mídia nacional. E é por isso que, ainda hoje, a maioria dos brasileiros não sabe que o fervoroso evangélico, o campeão mundial patrocinado pelo Banco do Brasil, o ídolo de Salvador, foi interrogado por 4 horas como suspeito de mandar cometer um homicídio.
Popó entrou na sala de interrogatório acompanhado pelo advogado Sérgio Habib. A delegada Francineide de Moura o recebeu e, antes de iniciar as perguntas, segundo o próprio Popó mais tarde em uma entrevista coletiva na porta da delegacia, pediu que ele retirasse a corrente de ouro do pescoço como protocolo de segurança. Popó retirou a corrente e deixou sobre a mesa um crucifixo de ouro 14 quilates, que havia comprado 3 anos antes em uma joalheria no shopping Iguatemi, em Salvador, para celebrar sua conversão definitiva à igreja evangélica. O crucifixo estava em cima da mesa da delegacia de homicídios enquanto o proprietário respondia a perguntas sobre um assassinato. A delegada Francineide mostrou a Popó fotos dos dois homens: Moisés Magalhães Pinheiro, que estava morto, e Jonatas dos Santos Dantas, que sobreviveu. Ela perguntou se ele os conhecia. Popó, de acordo com a transcrição do interrogatório, que mais tarde foi parcialmente vazada para o jornal Correio da Bahia, respondeu: “Nunca os vi na minha vida. Nunca tive qualquer contato com essas pessoas. Não tenho ideia de por que um homem que está no hospital diria o meu nome.”
Mas a delegada Francineide tinha mais informações. Informações que o campeão não esperava. Informações que o sobrevivente Jonatas havia dado no hospital antes da chegada do advogado da família Freitas. E essa informação tinha a ver com a sobrinha de Popó, uma jovem de 15 anos chamada Sara, filha de seu irmão Luís Cláudio e, de acordo com o depoimento de Jonatas, romanticamente ligada ao falecido Moisés Magalhães Pinheiro. Sara, a sobrinha do campeão, a namorada adolescente do homem assassinado. A delegada Francineide perguntou a Popó se ele conhecia Sara. De acordo com o registro oficial, Popó respondeu: “Ela é minha sobrinha. Eu a amo como filha. Ela estava vivendo em uma situação perigosa. Como tio e pai simbólico dela, fui até a casa dela e a tirei de lá para protegê-la. Não tenho nada a ver com a morte daquele homem. Eu a levei embora para protegê-la.”
Esse depoimento, dado por Popó na delegacia de homicídios em 17 de setembro de 2009, permanece no registro oficial do caso, arquivado nos arquivos do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia. O caso foi arquivado em março de 2010 por falta de provas materiais, sem condenações, sem encontrar os culpados, sem justiça para a família de Moisés Magalhães Pinheiro, que, ainda hoje, 16 anos depois, continua dizendo em todas as entrevistas de aniversário do caso ao jornal Correio da Bahia que Popó foi o responsável. O sobrevivente, Jonatas dos Santos Dantas, nunca mudou sua versão dos fatos. Ele repetiu a mesma acusação em 2015, 2018 e 2022. Sempre que um jornalista o contatava, ele, Jonatas, dizia sempre a mesma coisa: “Foi o Popó, o boxeador. Ele ordenou o assassinato do namorado da sobrinha porque o namorado era pobre. E a família Freitas não queria um homem pobre com a garota.” Popó, o campeão mundial, o evangélico fervoroso, o ídolo do Brasil, acusado por 16 anos por um homem com uma bala na perna e uma algema da polícia no pulso de ter ordenado um assassinato em uma estrada escura na Bahia. Uma noite em setembro de 2009, quando o dinheiro de seu primeiro título mundial ainda não havia acabado e quando o bairro da Baixa de Quintas, o barraco de 6,75 m², já parecia outra vida.
Mas o caso do assassinato de Moisés Magalhães Pinheiro, arquivado por falta de provas em março de 2010, não foi a coisa mais repugnante na vida de Popó. Não foi sequer o pior capítulo do sangue Freitas na Bahia. Porque enquanto a imprensa brasileira esquecia o caso, enquanto a delegada Francineide de Moura encerrava a investigação, enquanto o sobrevivente Jonatas dos Santos Dantas continuava repetindo em cada entrevista que o campeão mundial havia sido o mandante, o chefe da mansão no bairro da Pituba estava criando quatro rapazes. Quatro filhos da “mão de pedra”. Quatro meninos que veriam o pai desfilando com amantes, quatro meninos que ouviriam o pai se autodenominar um prostituto na televisão brasileira. E quatro rapazes que, anos mais tarde, no ano passado e neste mesmo ano, apareceriam nos tribunais brasileiros por crimes que a imprensa brasileira ainda está digerindo. Crimes que abalaram o sistema do futebol brasileiro e também destruíram a imagem do campeão, que já foi um ídolo na Bahia.
Para entender o que aconteceria com os filhos de Popó, é preciso voltar a 2005, quatro anos antes do assassinato na estrada de Camaçari. Dois anos após o divórcio de sua primeira esposa, Helena, e um ano antes de seu casamento com Eliana Guimarães, sua segunda esposa. 12 de outubro de 2005. Salvador, capital da Bahia. Estúdios da TV Bahia, afiliada da Rede Globo. Programa Bahia Meio-Dia. Apresentador Ernesto Lacombe. Três milhões de telespectadores ao vivo em todo o estado. Popó entrou no estúdio como convidado para falar sobre sua próxima defesa do título dos superpenas contra Diego Corrales, marcada para o mês seguinte em Connecticut. Mas Ernesto Lacombe, um jornalista veterano, não queria falar de boxe; ele queria falar sobre seu divórcio de Helena e os boatos que circulavam em Salvador há meses. Os boatos eram de que Popó, um evangélico autoproclamado, membro ativo da Assembleia de Deus na Pituba, doador de 20% de seu salário para a igreja, um pai exemplar que aparecia em todas as capas da revista Caras, estava vivendo uma vida dupla; que ele tinha relacionamentos paralelos com várias mulheres em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo; que ele era cliente regular das chamadas “casas privadas” na Zona Sul do Rio — locais clandestinos onde atletas profissionais e mulheres acompanhantes se encontravam — e que a separação de Helena em janeiro de 2003 não havia sido por incompatibilidade, como dizia a versão oficial. Tinha sido porque Helena havia encontrado provas concretas: fotografias, mensagens, recibos de hotéis.
Ernesto Lacombe, naquele programa de 12 de outubro, fez a pergunta diretamente a Popó. Diante das câmeras ao vivo, perante 3 milhões de telespectadores, Lacombe perguntou: “Acelino, é verdade que você se separou da Helena porque ela descobriu que você a traía?” Popó, sentado no sofá do estúdio com sua camisa Polo verde e o crucifixo de ouro no pescoço, permaneceu em silêncio por seis segundos, baixou a cabeça e, de acordo com o vídeo do programa, que ainda está disponível hoje nos arquivos digitais da TV Bahia, começou a chorar, sem som, sem soluços, apenas lágrimas escorrendo pelo rosto, e respondeu ao vivo para 3 milhões de telespectadores: “Eu era um prostituto, traía minha esposa todos os dias e, quando ela descobriu, nós nos separamos. Eu tinha sete amantes ao mesmo tempo em Salvador, quatro no Rio, duas em São Paulo. E não me arrependo de ser o que eu era. Eu me arrependo… Eu não deveria ter deixado a Helena sozinha antes. Ela merecia muito mais. Eu era um prostituto.”
Essa foi a frase que saiu ao meio-dia de outubro de 2005 da boca do tetracampeão mundial brasileiro. Na televisão aberta, diante de 3 milhões de baianos que almoçavam com a televisão ligada. E esses 3 milhões, segundo o próprio Ernesto Lacombe mais tarde em entrevista ao site Notícias da TV, ligaram para o programa durante toda a tarde. Eles congestionaram as linhas telefônicas. Alguns para criticar, outros para defender, mas a maioria para perguntar a mesma coisa: como era possível que o evangélico fervoroso, o exemplo para a juventude baiana, o ídolo do Banco do Brasil, tivesse vivido uma mentira por 5 anos? Mas os 3 milhões de baianos que ouviram essa confissão ao vivo não foram os únicos. Havia mais quatro pessoas, quatro garotinhos, quatro filhos da mesmíssima mansão, que estavam sentados em casas diferentes em Salvador, naquelas mesmas mansões almoçando com suas mães, e que viram o pai, ao vivo na TV, chamando a si mesmo de prostituto.
Vamos lá. Igor Freitas, o mais velho dos filhos, nascido em 1992, filho da primeira namorada conhecida de Popó, Cristiane, uma dançarina de Salvador com quem o campeão teve um curto relacionamento antes de se casar com Helena. Igor tinha 13 anos naquele 12 de outubro de 2005. Ele estava na casa de sua mãe Cristiane, no bairro da Liberdade, em Salvador, comendo um almoço de arroz com feijão e carne moída, e viu na televisão seu pai chorando, chamando a si mesmo de prostituto, dizendo que tinha sete amantes em Salvador. Igor, de acordo com o que ele mesmo relatou 16 anos depois em uma entrevista ao jornal Correio da Bahia em 2021, levantou-se da mesa, foi para o seu quarto e trancou-se lá pelo resto do dia. Sua mãe Cristiane tentou falar com ele, mas Igor não respondeu. Naquela tarde de 12 de outubro de 2005, de acordo com o que Igor contou ao Correio da Bahia anos mais tarde, o adolescente de 13 anos decidiu três coisas. Primeiro, que seu pai era um mentiroso. Segundo, que a fé de seu pai era uma farsa. E terceiro, que ele, Igor, ia fazer a mesma coisa em sua própria vida. Ele seria exatamente igual ao pai, mas com uma diferença: faria isso sem se esconder, sem chorar na televisão depois, sem pedir perdão. O que Igor não sabia naquela tarde de outubro era que essa decisão de adolescente de imitar o pai o levaria, 16 anos depois, à pior situação legal de sua vida.
Rafael Freitas, o segundo filho, nascido em 1993, filho de outra namorada do campeão chamada Gilda, uma cabeleireira do bairro da Federação. Rafael tinha 12 anos em 2005 e também viu o programa da TV Bahia. Mas a reação de Rafael foi diferente. Rafael, de acordo com o que sua mãe Gilda contou ao jornal Bahia Notícias em 2020, não se trancou, não chorou, não ficou zangado. Rafael, de 12 anos, encarou a tela em silêncio até o fim da entrevista e perguntou à mãe, sem emoção, sem uma única dúvida: “Mãe, quando é que eu vou aprender a boxear? Quando é que eu vou aprender a boxear?” Essa foi a pergunta do menino de 12 anos após ver o pai confessar ao vivo diante de 3 milhões de pessoas que era um prostituto. Rafael não queria entender por que o pai traía. Ele queria ser como o pai. Queria ter suas mãos, as mãos que esmurravam, as mãos que venciam, as mãos que conseguiam amantes, as mãos que davam dinheiro, as mãos da “mão de pedra”. Duas semanas depois, Gilda levou Rafael para a academia do Mestre Ignácio em Salvador. A mesma academia onde seu pai, Popó, havia começado aos 14 anos e onde Rafael, aos 12, começou a treinar boxe cinco dias por semana, quatro horas por dia, com a mesma raiva silenciosa que guiaria todas as suas decisões pelos próximos 20 anos.
Mas a história dos dois filhos de Popó não terminou na academia do Mestre Ignácio; começou lá e se transformou em algo que, duas décadas depois, os levaria aos tribunais dos estados do Paraná e de São Paulo no mesmo ano por crimes diferentes, mas conectados pelo mesmo sangue. Vamos lá.
Entre 2005 e 2020, enquanto seus filhos cresciam em Salvador sem a presença diária do pai Popó, o campeão vivia seu próprio declínio. A derrota contra Diego Corrales em novembro de 2004 lhe custara o título dos superpenas da WBO. A segunda derrota contra Juan Díaz em abril de 2007 lhe custara o cinturão dos leves. E embora tenha continuado lutando por mais alguns anos, conquistando outros cinturões menores, Popó nunca mais voltou a ser aquele boxeador imbatível dos 29 nocautes consecutivos. Ele havia envelhecido, perdido reflexos e gastado muito. De acordo com registros públicos do Banco do Brasil revelados pela revista Veja em 2018, mais de 70% dos aproximadamente 20 milhões de dólares acumulados em sua carreira haviam sido gastos. 20 milhões de dólares, 70% gastos. Isso significa que Popó, por volta de 2015, tinha apenas cerca de 6 milhões de dólares em seu patrimônio, incluindo imóveis. Desse montante, de acordo com processos públicos de pensão alimentícia na Vara de Família de Salvador, ele tinha que pagar pensões mensais para cinco mulheres diferentes e o sustento de seis filhos, totalizando somas altíssimas todos os meses. Popó se aposentou oficialmente do boxe profissional em 18 de outubro de 2017, uma aposentadoria ao final de uma vitória simbólica contra o argentino Gabriel Omar Aguayo. 42 anos de idade, 41 vitórias, duas derrotas e uma fortuna que encolhia mês a mês.
E então, sem sua carreira esportiva, sem patrocínios fortes, sem bolsas de boxe, sem novos contratos, Popó começou a fazer a única coisa que sabia fazer para manter seu estilo de vida no bairro da Pituba: começou a aceitar convites para reality shows. Power Couple Brasil em 2016 (eliminado logo no início da edição), Dancing Brasil em 2018, The Masked Singer, e em 2020 vestiu-se de chimarrão… E então começou a aceitar lutas de exibição contra Whindersson Nunes, Kleber Bambam (o ex-BBB)… O tetracampeão mundial, a “Mão de Pedra”, o orgulho do bairro da Baixa de Quintas, lutando contra comediantes e influenciadores para pagar as contas. Essa era a realidade do campeão nos últimos anos. Mas nem os reality shows nem as lutas de exibição pagavam o suficiente para sustentar suas cinco pensões, a mansão na Pituba, os carros importados e as viagens. E, de acordo com declarações do próprio Popó, o campeão começou a depender financeiramente de seus filhos — os mesmos filhos que haviam crescido assistindo à sua trajetória. Os mesmos filhos que, segundo o Correio da Bahia em 2021, já tinham seus próprios negócios e seus próprios métodos de ganhar dinheiro. E os métodos dos filhos de Popó naqueles anos já não eram limpos. Havia muito tempo que tinham deixado de sê-lo, imitando o pai, por necessidade de sustentar o pai ou, segundo alguns analistas brasileiros, devido ao mesmo sangue violento da família Freitas, o sangue do estivador Babinha, o sangue da Baixa de Quintas, o sangue que mandou matar Moisés Magalhães Pinheiro em uma estrada de Camaçari. Vamos lá.
Igor Freitas, o filho mais velho, o homem de confiança de Popó, com 32 anos na época, empresário autoproclamado, proprietário, segundo registros públicos da Junta Comercial do Estado do Paraná, de três empresas registradas em seu nome: uma agência de marketing esportivo, uma corretora de patrocínios e uma empresa de eventos, todas as três sediadas em Curitiba. Em 29 de setembro de 2025, Igor Freitas acordou em sua casa em Curitiba com o som da Polícia Federal brasileira batendo no portão da frente. Operação Derby, coordenada pelo Ministério Público do Estado do Paraná. Investigação aberta desde julho de 2025. Foco: aliciamento de jogadores do Campeonato Brasileiro para manipulação de resultados. Os agentes federais entraram na casa, apreenderam três telefones celulares, dois computadores, documentos contábeis e levaram Igor para a sede da Polícia Federal em Curitiba para prestar depoimento.
A acusação, segundo o documento do Ministério Público ao qual o portal G1 da Globo teve acesso em 5 de fevereiro, era específica: Igor Freitas, utilizando o prestígio do nome de seu pai Popó, vinha entrando em contato com jogadores profissionais do Campeonato Brasileiro das Séries A, B e C desde o início de 2025 via Instagram e WhatsApp, apresentando-se como um representante com acesso às maiores empresas do mercado nacional, para depois passar os contatos aos seus dois sócios, Rodrigo Rossi e Rafael Ribeiro. Os dois sócios, então, ofereciam dinheiro aos jogadores para que estes forçassem cartões amarelos em partidas específicas. R$ 15.000 por um cartão amarelo no momento exato combinado, enquanto os sócios apostavam nesse mesmo cartão em casas de apostas legalizadas, faturando centenas de milhares de reais a cada jogo. O esquema funcionou por meses, até que um jogador específico, o lateral-esquerdo Reinaldo, do Mirassol, recebeu uma proposta em agosto de 2025 e a recusou. Reinaldo respondeu ao sócio Rodrigo Rossi, de acordo com o áudio que mais tarde foi apresentado pela Polícia Federal como prova, palavra por palavra: “Irmão, obrigado. Eu não faço isso. Já te falei, irmão.” Reinaldo não aceitou e, melhor ainda para a investigação, guardou a gravação da conversa e a entregou às autoridades.
Com base nessa denúncia, em setembro de 2025, a Polícia Federal lançou a Operação Derby, uma investigação de cinco meses. Interceptação telefônica autorizada pelo juiz Sérgio Veridiano, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região. Identificação de pelo menos 12 jogadores recrutados das séries B e C do Campeonato Brasileiro. Transações bancárias suspeitas totalizando R$ 3.200,000 nas contas de Igor Freitas e de seus dois sócios. Em 5 de fevereiro de 2026, o Ministério Público do Paraná apresentou as acusações formais. Igor Freitas, Rodrigo Rossi e Rafael Ribeiro foram indiciados por dois crimes graves do Código Penal Brasileiro: associação criminosa e corrupção no âmbito esportivo, conforme estipulado na Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597 de 2023). A pena prevista em caso de condenação é de dois a seis anos de prisão, além de multa e reparação ao futebol brasileiro pelos danos causados ao esporte. O filho mais velho, o herdeiro da “mão de pedra”, o neto de Babinha Freitas, o estivador alcoólatra do Porto de Salvador, o primeiro Freitas da nova geração com o sobrenome outrora ligado ao sucesso, acusado de lesar o futebol brasileiro, de subornar jogadores, de usar o nome do pai para abrir portas que depois ele enchia de corrupção.
Mas Igor não foi o único filho a aparecer nos tribunais brasileiros nesses meses, porque dois dias antes do indiciamento formal pelo Ministério Público do Paraná, o outro filho, Rafael Freitas, já estava sendo processado em uma vara criminal da região central de São Paulo por um crime diferente, mas conectado e muito mais violento. E o crime de Rafael Freitas, que ocorreu na madrugada de 28 de setembro de 2025, em um ringue na Arena de São Paulo, diante de 30 mil pessoas e transmitido ao vivo para milhões de brasileiros, confirmaria o que se suspeitava sobre a família Freitas há 16 anos: que a violência não era uma coincidência, era herança. Vamos lá.
Rafael Freitas, 32 anos, personal trainer em Salvador, treinador de boxe recreativo, sem uma carreira profissional própria, apesar de passar 4 horas por dia na academia desde os 12 anos. Companheiro constante do “Pai Popó” em todos os eventos públicos nos últimos 10 anos e, segundo a imprensa especializada, o braço direito do campeão, o filho em quem a “Mão de Pedra” mais confiava. 27 de setembro de 2025. Arena de São Paulo, 23 mil pessoas presentes. Evento Spaten Fight Night 2. Popó, com 50 anos, contra Wanderlei Silva, apelidado de “Cachorro Louco”, de 49 anos, ex-campeão do Pride japonês. Luta de exibição de boxe, oito assaltos programados com transmissão ao vivo pelo SBT e pelo canal de pay-per-view Combate. O quarto assalto terminou com a desclassificação de Wanderlei Silva por três golpes ilegais consecutivos no rosto de Popó. O árbitro interrompeu a luta e declarou Popó vencedor pela desclassificação do adversário. Mas a decisão gerou indignação na equipe de Wanderlei. Treinadores, assistentes, familiares, todos entraram no ringue para protestar. E no meio da confusão, de acordo com imagens que mais tarde foram reproduzidas milhares de vezes nas redes sociais, alguém desferiu um soco em Wanderlei Silva por trás. Um soco direto na nuca. Um soco que Wanderlei não viu chegar porque estava de costas para o seu agressor. Um soco que derrubou Wanderlei na lona, inconsciente, sangrando pelo ouvido esquerdo.
Wanderlei Silva, de 49 anos, ficou caído inconsciente na lona da arena de São Paulo por longos 3 minutos. As câmeras de transmissão focaram na equipe médica do evento prestando socorro, chamando a ambulância, enquanto a esposa de Wanderlei, na primeira fila, gritava. Wanderlei foi levado ao Hospital São Luiz, na zona sul de São Paulo. Ele estava sangrando, realizaram tomografias computadorizadas, detectaram um hematoma cerebral leve e pediram que ele ficasse hospitalizado para observação por 48 horas. Enquanto isso, no ringue, as câmeras do SBT identificaram o homem que havia atingido Wanderlei na nuca: era um homem de 32 anos, personal trainer e filho do campeão Popó. Seu nome era Rafael Freitas. Rafael Freitas havia golpeado Wanderlei Silva na nuca, com Wanderlei de costas, já desorientado, incapaz de ver, incapaz de se defender. E no dia seguinte, o advogado de Wanderlei, Dr. Cláudio Dalledone, um dos advogados criminais mais conhecidos do sul do Brasil, postou um vídeo em sua conta do Instagram. E nesse vídeo, Dalledone anunciou que ia processar Rafael Freitas e o próprio Popó, e que o crime tinha um nome jurídico específico: tentativa de homicídio. Tentativa de homicídio.
Mas nem Igor, acusado de lesar o futebol brasileiro, nem Rafael, acusado de tentativa de homicídio por atingir Wanderlei Silva na nuca, eram as figuras mais contestadas na história da família Freitas. Porque enquanto os dois filhos apareciam nos tribunais de Curitiba e de São Paulo, o próprio pai deles, o tetracampeão mundial, também estava sendo processado pelo mesmo crime que a imprensa brasileira mal mencionava, sob o mesmo código penal de 2009, quando foi acusado de mandar matar o namorado de sua sobrinha. Tentativa de homicídio, mas desta vez com provas diferentes. Provas que o advogado de Wanderlei Silva apresentou ao Ministério Público de São Paulo dois dias após a luta. Uma prova que muda toda a história da família Freitas: uma gravação de áudio.
Em 29 de setembro de 2025, dois dias após o Spaten Fight Night 2, enquanto Wanderlei Silva permanecia internado no Hospital São Luiz em São Paulo e enquanto Popó, por sua vez, havia sido internado em um hospital de Salvador para uma cirurgia cujos detalhes ele se recusou a explicar publicamente, o advogado de Wanderlei Silva, Dr. Cláudio Dalledone, postou um vídeo em sua conta do Instagram. O vídeo tinha 7 minutos de duração e, nele, Dalledone anunciou duas coisas. Primeiro, que ia apresentar uma queixa-crime contra Rafael Freitas pelo crime de tentativa de homicídio, conforme estipulado no artigo 121 do Código Penal Brasileiro, combinado com o artigo 14, também do Código Penal. A pena, se as acusações forem aceitas, é de 6 a 20 anos de prisão. Em segundo lugar, e aqui está a parte explosiva do vídeo do advogado Dalledone, ele também ia apresentar uma queixa-crime contra o próprio Popó, não como autor material, mas como autor intelectual, como o mandante. E a prova que ele ia apresentar ao Ministério Público de São Paulo era uma gravação de áudio.
Uma gravação de áudio. De acordo com o que o advogado Dalledone disse ao canal Combate do Sportv, em entrevista em 1º de outubro de 2025, essa gravação havia sido captada por um técnico de som do próprio evento Spaten Fight Night 2. Era uma gravação de som ambiente do córner de Popó, momentos antes do quarto assalto, uma gravação de 3 minutos e 14 seconds. E nessa gravação, de acordo com o advogado Dalledone, era possível ouvir o próprio Popó dando a Rafael uma instrução específica, palavra por palavra. Segundo a gravação, Popó falou para Rafael: “Se ele me tocar ilegalmente de novo, você derruba ele por trás sem ele ver. Se ele me tocar ilegalmente de novo, você derruba ele por trás sem ele ver.” De acordo com o advogado de Wanderlei Silva, essa foi a frase que transformaria o caso de Rafael Freitas, porque a frase dita pelo pai 2 minutos antes do soco na nuca era exatamente a descrição do que Rafael faria 2 minutos depois. Uma tentativa de homicídio premeditada, ordenada, com o mandante claramente identificado.
O advogado Dalledone entregou a gravação ao Ministério Público de São Paulo em 6 de outubro de 2025, e a investigação foi distribuída para a primeira vara criminal da região central de São Paulo. A juíza do caso, Dra. Patrícia Carrijo Bandeira, abriu o processo número 331485 e, como primeira medida, intimou Rafael Freitas a depor e também citou seu pai, Popó, como suspeito, na qualidade de autor intelectual de uma possível tentativa de homicídio contra Wanderlei Silva. Pela segunda tempo na vida do campeão, 16 anos após a primeira, Popó era citado pela justiça brasileira como o mandante de um crime contra outro homem. Pela segunda vez, os mesmos crimes, a mesma figura penal, o mesmo pai Freitas. E, além disso, desta vez a prova não era o depoimento de um sobrevivente com uma bala na perna e algemas da polícia nos pulsos; desta vez, a prova era uma gravação de áudio, impossível de questionar, impossível de negar, impossível de arquivar por falta de provas como o caso anterior em 2009.
Mas a gravação de áudio do advogado Dalledone não foi a única coisa que mudou tudo, porque naquele mesmo dia, enquanto a juíza Patrícia Carrijo Bandeira abria o caso em São Paulo, o Conselho Nacional de Boxe, órgão regulador máximo do esporte no Brasil, tomou uma decisão histórica, uma decisão que puniu o campeão mundial de uma forma que ninguém pensava ser possível. Vamos lá.
13 de outubro de 2025. Sede do Conselho Nacional de Boxe em São Paulo. Reunião extraordinária do Conselho. Sete membros presentes. Item único na pauta: a briga entre as equipes de Popó e Wanderlei Silva ocorrida 16 dias antes na Arena de São Paulo. O presidente do conselho, o árbitro veterano Wagner Schwingel, abriu a reunião com três palavras: “É uma vergonha nacional.” Uma vergonha nacional. E às 11h, o Conselho Nacional de Boxe tomou a decisão mais severa das últimas duas décadas para o esporte brasileiro: uma suspensão de 180 dias para Acelino Freitas, uma suspensão de 180 dias para Wanderlei Silva, uma multa de R$ 200.000 (R$ 100.000 para cada um) e o banimento definitivo de Rafael Freitas, filho do campeão, de entrar em qualquer ringue de boxe regulado pelo conselho pelos próximos 10 anos. 10 anos de proibição para Rafael por agredir um homem inconsciente por trás.
Popó recebeu a decisão, como ele mesmo relatou em um comunicado em seu Instagram naquela mesma tarde, enquanto estava internado no Hospital Espanhol em Salvador. Ele havia passado por uma cirurgia cujos detalhes, mesmo agora enquanto conto essa história, não foram revelados. Alguns analistas mencionam cirurgia cardíaca, outros cirurgia na coluna devido aos traumas acumulados ao longo da carreira. Mas o próprio Popó, em seu comunicado, usou apenas uma palavra para descrever o que estava vivenciando. Uma palavra que ele mesmo escreveu em seu perfil do Instagram naquela tarde de 13 de outubro. A palavra era: selvageria. Selvageria é uma vergonha nacional. Essas foram as duas frases que, até o momento, encerraram o capítulo mais sombrio da história da família Freitas.
Mas esse não foi o fim dos processos judiciais, porque enquanto você assiste a este vídeo, em algum tribunal de São Paulo e em algum tribunal do Paraná, os casos de Igor Freitas, Rafael Freitas e do próprio Popó ainda estão em andamento. Prazos legais são cumpridos, audiências são marcadas, provas se acumulam e os três membros da família Freitas — pai e dois filhos — aguardam as sentenças em diferentes cidades do Brasil, com advogados diferentes, mas com o mesmo sangue. O sangue do estivador Babinha, o sangue da Baixa de Quintas, o sangue da estrada de Camaçari em setembro de 2009. O sangue que mandou matar Moisés Magalhães Pinheiro 16 anos atrás. O mesmo sangue.
Mas as consequências do derramamento de sangue dos Freitas na Bahia não terminaram com os três processos judiciais em andamento, porque houve outra vítima na família. Uma vítima mal mencionada pela imprensa brasileira, uma vítima que carregou o fardo sem ter escolhido o sobrenome do campeão. 24 de abril de 2021, uma noite fria em Salvador. O bairro da Baixa de Quintas, o mesmo lugar onde Popó nasceu. As mesmas ruas, as mesmas casas, a mesma pobreza que o campeão pensou ter superado para sempre quando conquistou seu primeiro título mundial em 1999. O mesmo cenário, apenas 22 anos depois. Um adolescente de 17 anos caminhava sozinho pela Rua dos Coqueiros. Era sábado à noite. Ele ia comprar um refrigerante na mercearia da esquina. Estava segurando o celular na mão e, atrás dele, em uma motocicleta, dois homens se aproximaram em alta velocidade. O adolescente tentou correr, mas não conseguiu. Os dois homens dispararam tiros. Três tiros nas costas. O adolescente caiu no asfalto sangrando, pedindo ajuda a uma vizinha que estava à porta de casa. A vizinha chamou o serviço de ambulância, mas demorou 37 minutos para chegar e, quando chegou, o adolescente já estava morto. O nome do adolescente era Niljalma da Paixão Freitas, 17 anos, sobrinho do tetracampeão mundial, filho de um dos irmãos mais novos de Popó, que carregava o mesmo nome do pai do campeão, Neilalma. O mesmo Babinha, o estivador, a linhagem de sangue Freitas.
Niljalma da Paixão Freitas, de 17 anos, foi sepultado dois dias depois no cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador. E o jornal Correio da Bahia, em sua edição de 26 de abril de 2021, publicou a notícia na página 12 da seção policial. Sem foto, sem homenagem, sem discurso da família famosa, apenas 16 linhas e uma frase final do policial encarregado do caso. Dizia: “Mais um jovem negro assassinado na periferia de Salvador. Não há suspeitos. O caso foi provisoriamente arquivado.” Mais um jovem negro assassinado na periferia de Salvador. Mas esse jovem negro assassinado não era um jovem comum; ele era o sobrinho do tetracampeão mundial. Carregava o mesmo nome do avô, o mesmo sangue, a mesma maldição da Baixa de Quintas. E a imprensa brasileira não disse nada porque, segundo o jornalista Wagner Sarmento do jornal Correio da Bahia, em entrevista de 2022 ao portal Globo Esporte, o próprio Popó não permitiu que a família falasse com a imprensa após o assassinato do sobrinho. Ele pediu silêncio, pediu que não houvesse homenagem, pediu que o adolescente fosse enterrado sem cerimônia e sem público.
Por quê? Por que o campeão mundial pediu silêncio sobre o assassinato de seu sobrinho? A resposta, segundo analistas brasileiros, está no que Popó nunca quis admitir, no que a imprensa brasileira nunca quis publicar, mas no que a família Freitas sabe há 25 anos: o sangue Freitas na Bahia está manchado. Manchado de violência, manchado de vingança, manchado por um legado que vem do estivador Babinha, que passou pelo campeão Popó e chegou aos seus dois filhos que hoje aguardam sentenças nos tribunais de São Paulo e do Paraná. Niljalma da Paixão Freitas, de 17 anos, foi a vítima silenciosa dessa sina. Quem matou Niljalma da Paixão Freitas? A pergunta é difícil. Dois homens em uma motocicleta o mataram fisicamente, mas por trás daqueles dois homens, segundo versões que circularam no bairro da Baixa de Quintas por meses, estava uma dívida antiga, uma dívida da família Freitas com outra família do bairro, uma dívida que veio do pai Babinha, que passou por Popó e que acabou sendo cobrada de um jovem de 17 anos que estava apenas indo comprar um refrigerante.
Quem matou Moisés Magalhães Pinheiro na estrada de Camaçari em 2009? A pergunta também é difícil. Dois homens com algemas da polícia o mataram fisicamente. Mas o sobrevivente Jonatas dos Santos Dantas afirma até hoje, 16 anos depois, que o mandante foi o campeão mundial. O evangélico fervoroso, o pai, Popó, que arranhou a imagem de Wanderlei Silva em setembro de 2025. Essa pergunta é a mais fácil. Rafael Freitas, de 32 anos, atingiu Wanderlei na nuca, deixando-o inconsciente e sangrando por três minutos na lona da Arena de São Paulo. Mas, de acordo com o advogado de defesa, Cláudio Dalledone, Rafael apenas executou o que seu pai, Popó, havia ordenado 3 minutos antes no córner, em uma gravação de áudio que agora está nos autos da primeira vara criminal de São Paulo e que a juíza Patrícia Carrijo Bandeira terá que analisar ao longo dos próximos meses.
E quem vai pagar pelos 12 ou mais jogadores de futebol brasileiro que Igor Freitas, o filho mais velho do campeão, tentou subornar entre janeiro e setembro de 2025 para as apostas manipuladas, os cartões amarelos vendidos, o dano ao esporte que viu seu pai nascer, pelos R$ 3.200.000 que circularam pelas contas bancárias dos sócios? O Ministério Público do Paraná determinará nos próximos meses se, caso a sentença chegue a 6 anos de prisão, Igor entrará na cadeia de Curitiba antes de completar 35 anos.
Popó, também conhecido como Freitas, “Mão de Pedra”, tetracampeão mundial, filho do estivador Babinha, pai de Igor, pai de Rafael, tio do adolescente assassinado na Rua dos Coqueiros, processado por dois casos de tentativa de homicídio em 16 anos. Acusado na delegacia de homicídios de Salvador em setembro de 2009. Acusado na primeira vara criminal de São Paulo em outubro de 2025. Acusado em cada um dos dois casos da mesma coisa: de ordenar um ataque a um homem por trás, de ordenar a violência, de ser o autor intelectual do sangue que outros derramaram. E enquanto você assiste a este vídeo, neste exato momento, Popó está em algum quarto em Salvador se recuperando de uma cirurgia. Olhando para os casos, o seu próprio, o de Igor, o de Rafael — três casos, uma única família, uma única linhagem de sangue, três mandantes, e uma nação brasileira que, finalmente, após 25 anos de glória esportiva, está começando a entender que o campeão mundial patrocinado pelo Banco do Brasil, o ídolo da Bahia, o fervoroso evangélico da Assembleia de Deus na Pituba, nunca foi apenas um boxeador.
Ao longo de sua vida, ele também foi outra coisa, algo que nunca deixou para trás quando saiu do barraco no bairro da Baixa de Quintas em 1999. Algo que carregou consigo para a mansão na Pituba, para os reality shows da Rede Globo, para os estúdios da TV Bahia, onde chorou ao vivo no ar, e para as duas delegacias de homicídios, onde foi interrogado como suspeito de crimes contra outros homens. Essa coisa se chama herança. A herança de Babinha, a herança do porto de Salvador, a herança da cachaça, a herança dos golpes em sua mãe, a herança de que Popó não conseguiu se desvencilhar e que agora, 16 anos após o primeiro caso na Bahia, está batendo à sua porta novamente através de uma gravação de áudio da Arena São Paulo, através de dois filhos no tribunal, através de um sobrinho de 17 anos enterrado sem homenagem no cemitério Quinta dos Lázaros. Popó é o tetracampeão mundial, a glória brasileira do boxe moderno e também, ao mesmo tempo, o homem que não conseguiu quebrar a corrente familiar de violência, a corrente de seu pai, a corrente de seu próprio sangue, a corrente pela qual ele agora está finalmente pagando.
E a pergunta que o público brasileiro nunca quis fazer a si mesmo, porque doía demais perguntar, é esta: se um campeão mundial ganha quatro cinturões, milhões em bolsas, duas mansões no bairro da Pituba, quatro carros importados e a admiração de um país inteiro, mas perde um sobrinho assassinado na rua, vê dois filhos no tribunal e se vê sendo processado por ordenar um ataque a outro homem, que tipo de vitória é essa? De que adiantou o primeiro nocaute contra Le Cannet? De que adiantaram as 29 vitórias consecutivas por nocaute? De que adiantou deixar o barraco de 6,75 m² na Baixa de Quintas se, anos depois, o sobrenome Freitas retornou exatamente ao mesmo lugar de onde queria escapar? A resposta, cada brasileiro tem a sua própria história. Mas a verdade sobre Acelino Freitas é, em última análise, esta: ele foi o maior boxeador moderno do Brasil, e também o pior pai para sua própria família e o pior tio para o sobrinho que carregava seu sobrenome e foi morto a tiros na rua do bairro onde o campeão nasceu.
Se essa história tocou você profundamente, se fez você pensar em uma família na sua própria vida onde a violência é passada de geração em geração como uma maldição silenciosa, compartilhe este vídeo hoje à noite com alguém que precisa assisti-lo antes que seja tarde demais. Como foi tarde demais para o sobrinho da Rua dos Coqueiros? Como foi tarde demais para Moisés Magalhães Pinheiro da estrada de Camaçari? Como será tarde demais nos próximos meses para os dois filhos do campeão mundial? Inscreva-se no canal Fallen Stars porque na próxima semana vamos contar a história do boxeador mais temido do século XX, o campeão mundial mais jovem da história com apenas 20 anos de idade, que mordeu a orelha de Evander Holyfield diante de 90 mil pessoas em Las Vegas, que passou 3 anos na prisão por estupro, que perdeu 400 milhões de dólares em uma década, que viu sua filha de 4 anos morrer em um acidente doméstico com uma esteira ergométrica e que, aos 59 anos, ainda está vivo, lutando contra Jake Paul, ainda buscando a redenção que nunca veio. Seu nome é Mike Tyson, e a história dele vai doer mais em você do que a de Popó.