
Em 12 de outubro de 2007, uma sexta-feira de feriado prolongado, 14 crianças com idades entre 9 e 11 anos embarcaram em um ônibus escolar branco na entrada da Escola Municipal Professora Olinda Brito de Souza, no bairro Parque das Laranjeiras, em Manaus. O ônibus pertencia à prefeitura.
O motorista era um funcionário contratado. O destino da excursão era o balneário do Tarumã, a cerca de 20 km do centro da cidade, numa zona de igarapés bem conhecida das famílias da zona norte. Duas professoras acompanhavam o grupo. Uma delas, Marinalva dos Santos Queiroz, 52 anos, assinou a lista de presença às 7h12 da manhã com 14 nomes.
O ônibus partiu às 7h15. Às 8h40, nenhuma das professoras havia ligado para a direção da escola para avisar que haviam chegado e que as crianças já estavam descendo para a beira do igarapé. Essa foi a última comunicação registrada. O ônibus foi encontrado às 16h do mesmo dia, estacionado no acostamento da rodovia AM-010, a 11 km do balneário, com os assentos vazios, janelas abertas e o motor frio.
Lá dentro havia mochilas, garrafas de água meio vazias, uma sandália de criança no corredor e a lista de presença assinada pela Marinalva, dobrada no quadro de avisos. As duas professoras foram encontradas naquela noite, caminhando pela beira da estrada em direção a Manaus, em estado de choque. Nenhuma delas conseguiu dar um relato coerente do que havia acontecido.
As crianças não estavam com elas, não estavam no balneário, não estavam na estrada, não estavam em lugar nenhum. Esta não é a história de um acidente no rio. Embora a imprensa tenha noticiado dessa forma nas primeiras semanas, não é uma história sobre um sequestro em massa. Embora a polícia tenha trabalhado com esta hipótese durante meses, é a história de 14 famílias do mesmo bairro, da mesma escola, do mesmo ônibus, que numa manhã de feriado mandaram os seus filhos numa viagem de um dia e passaram 18 anos sem uma resposta que fizesse sentido.
É a história de uma cidade que parou, de uma investigação que se desdobrou em três inquéritos, duas comissões parlamentares de inquérito estaduais e um processo federal que nunca foi a julgamento. E é a história do que foi encontrado em 2025, numa área de mata densa a 7 km do balneário, por uma equipa de topografia que fazia medições para uma linha de transmissão, algo que não encerrou o caso, mas sim mudou para sempre o que se acreditava saber sobre ele.
O bairro Parque das Laranjeiras localiza-se na zona norte de Manaus, numa área de casas simples, ruas de asfalto irregular e quintais onde se ouve o barulho dos vizinhos o dia todo. Em 2007, a escola Olinda Brito de Souza atendia aproximadamente 400 crianças do ensino fundamental. A excursão ao Tarumã era uma tradição de fim de ano, um prêmio para os alunos com a melhor frequência.
Os pais assinaram formulários de autorização, e alguns prepararam lanches. Outros deram aos filhos R$2 para comprar um picolé na beira do rio. Nenhum deles imaginou que aquela manhã de sexta-feira seria a última vez que veriam os filhos a sair de casa com as mochilas nas costas e chinelos nos pés.
Se esse tipo de história o faz repensar o quanto realmente sabemos sobre o que acontece longe dos centros urbanos, onde a floresta e o silêncio guardam o que a cidade esquece, pode se inscrever no canal e deixar o seu comentário. A partir daqui, a história avança lentamente. Cada detalhe precisa ser contado na ordem em que aconteceu, pois a ordem faz parte do que nunca foi explicado.
“Quantas horas uma mãe espera antes de sair para procurar algo por conta própria? O que acontece quando 14 famílias descobrem ao mesmo tempo que os seus filhos não voltaram? Em que ponto o estado reconhece que perdeu 14 crianças e, ainda assim, não consegue explicar como? O que pode ser encontrado numa floresta após 18 anos? E o que isso significa para aqueles que nunca pararam de esperar?” Estamos em Manaus, em outubro de 2007.
A temperatura estava em 34º desde as 6 da manhã. O Rio Negro estava vazando. Os igarapés na zona norte estavam baixos, mas com bancos de areia expostos onde as crianças costumavam brincar. O Corpo de Bombeiros de Manaus possui três equipes de busca para uma área metropolitana que abrange mais de 11.000 km², englobando áreas urbanas e periurbanas.
A delegacia mais próxima do balneário do Tarumã é o 19º Distrito Integrado de Polícia, que operava com efetivo reduzido durante aquele feriado. A lista foi escrita à mão com caneta azul numa folha de caderno pautado que Marinalva arrancou do bloco de notas da secretária. 14 nomes, 14 idades, 14 assinaturas de responsáveis colhidas nos dias anteriores.
No Alto da Folha, a data é 12 de outubro de 2007. E o destino é Balneário do Tarumã. Partida às 7h00, regresso previsto para as 15h00. A coordenadora da escola, Rosângela Pimentel, verificou a lista e carimbou-a. Em seguida, guardou uma cópia na pasta de eventos do semestre e foi buscar café. Quando a polícia solicitou uma cópia, 48 horas depois, Rosângela não conseguiu encontrar o arquivo.
Ela disse que poderia estar na sala da diretora, já que ela estava de férias. A lista só reapareceu 11 dias depois, dentro de um arquivo morto, com café derramado sobre três dos 14 nomes, tornando-os ilegíveis. A identificação completa das crianças levou mais quatro dias. Este atraso era incomum para os padrões do sistema de ensino municipal de Manaus naquela época.
A escola operava com três turnos, quase 1000 alunos no total, e uma secretaria com dois funcionários que cuidavam de toda a papelada. Os arquivos eram físicos, guardados em pastas de plástico dentro de armários de aço que enferrujavam com a umidade. Não havia digitalização, nem backup. A pasta de eventos do semestre era guardada junto com atas de reuniões, recibos de almoço e ofícios do Departamento de Educação que ninguém lia.
Era o tipo de organização que funciona no dia a dia, mas desmorona quando alguém precisa urgentemente de informação. O detetive Airton Brandão Teixeira, responsável pelo caso, observou em seu relatório preliminar que o atraso na identificação completa das crianças comprometeu as primeiras 48 horas da investigação.
Sem saber precisamente quem eram as 14 crianças, não foi possível notificar todas as famílias ao mesmo tempo, nem cruzar informações sobre quem tinha visto o quê antes da partida do autocarro. Três das famílias só foram localizadas a 14 de outubro, dois dias após o desaparecimento. Uma delas, a família Monteiro Duarte, vivia num assentamento irregular nas margens de um igarapé.
“No bairro Santa Etelvina, sem endereço formal, sem telefone fixo e sem nenhum vizinho registrado na escola. O pai, Raimundo Monteiro Duarte, trabalhava como ajudante de pedreiro em uma obra do outro lado da cidade e só soube que o filho havia desaparecido quando voltou para casa na noite de domingo e encontrou um bilhete da polícia colado na porta.”
A lista de presenças original, a que a Marinalva assinou e deixou dobrada no tablier do autocarro, foi recolhida pela perícia e analisada. A caligrafia era da Marinalva. A tinta era compatível com uma esferográfica normal, mas havia um detalhe que só foi notado semanas mais tarde, quando o perito calígrafo reviu o documento a pedido do Ministério Público.
“Ao lado de dois dos nomes, havia pequenas marcas de lápis, duas linhas diagonais, quase invisíveis a olho nu, como se alguém tivesse marcado aqueles nomes por uma razão específica. Quando questionada, Marinalva disse não se lembrar de ter feito aquelas marcas. A equipe forense não conseguiu determinar se a marca havia sido feita antes ou depois do embarque.”
Os dois nomes listados pertenciam a irmãos gémeos, Lucas e Luan Figueira Barbosa, de 10 anos. A mãe deles, Neusa Figueira, era merendeira na mesma escola. Naquela manhã, Neusa havia ajudado a preparar os lanches e colocado pessoalmente os dois filhos no ônibus. Ela não sabia o que aquelas marcas significavam. Ninguém sabia.
O que se sabia era que a lista existia, que os nomes eram reais, que as crianças tinham embarcado no ônibus e que, em algum momento entre a saída da escola e o fim daquela tarde, todos desapareceram sem uma explicação plausível. A lista era a única prova documental de que a viagem havia ocorrido, e durante anos foi tratada pelos investigadores como pouco mais que um registro burocrático.
Só muito mais tarde é que alguém se deu conta de que poderia ser a peça mais importante do caso, e que tinha estado perdida durante 11 dias dentro de um armário enferrujado, coberta de café. O ônibus branco com a inscrição “Prefeitura de Manaus, educação” na lateral foi encontrado por um caminhoneiro chamado Osvaldo Bentes Cavalcante, que fazia a rota entre Manaus e Itacoatiara, e parou para urinar no acostamento.
Eram 16h12. Osvaldo notou que o veículo estava com as portas abertas e as janelas baixadas, mas não havia ninguém por perto e achou estranho, pois aquele trecho da AM-010 não tinha parada para descanso nem acesso a nenhuma propriedade rural. Era mata fechada de ambos os lados, com aquele cheiro de terra úmida que fica no ar após a chuva rápida do meio-dia.
Osvaldo olhou para dentro e viu mochilas espalhadas pelos bancos, uma garrafa térmica no chão e uma sandália de criança no corredor. Não mexeu em nada. Ligou para a Polícia Rodoviária Federal de um telefone público no posto de gasolina mais próximo, a 6 km de distância. A Polícia Rodoviária Federal demorou 40 minutos para chegar ao local.
Quando os dois agentes saíram do veículo, o sol já estava baixo e a luz infiltrava-se pelas copas das árvores com aquele tom alaranjado que antecede o cair da noite na Amazónia. O autocarro estava exatamente como Osvaldo o descrevera. As portas da frente e de trás estavam abertas, o motor estava desligado e frio ao toque, e as chaves não estavam na ignição.
O painel não apresentava sinais de danos. O hodômetro mostrava uma quilometragem incompatível com o trajeto entre a escola e o balneário, somados aos 11 km adicionais até àquele ponto da rodovia. Não havia marcas de derrapagem no asfalto, nem sinais de colisão, nem sangue, nem dentro nem fora do veículo. Os policiais tiraram fotos com uma câmera digital compacta, 13 fotos no total, que posteriormente seriam anexadas à investigação.
Uma das fotografias mostrava o banco do motorista com o encosto reclinado para trás, como se alguém o tivesse ajustado para descansar. Outra fotografia mostrava o corredor central com quatro mochilas deitadas no chão, uma delas aberta com um caderno escolar parcialmente visível. A foto mais reproduzida nos anos seguintes, a que apareceu nos jornais e nos programas de televisão, foi a da sandália de borracha de criança, rosa, tamanho 32, abandonada entre o segundo e o terceiro bancos do lado direito.
Nunca foi determinado a qual das crianças pertencia. Nenhuma das famílias a reconheceu com certeza. Três mães disseram que poderia ser do filho ou filha delas. A sandália permaneceu no depósito de evidências da Polícia Civil durante anos, dentro de um saco plástico transparente com uma etiqueta amarela. O que chamou a atenção dos especialistas quando finalmente examinaram o veículo dois dias depois foi a disposição dos objetos.
As mochilas não estavam nos bancos onde as crianças presumivelmente estariam sentadas. Estavam distribuídas de forma irregular, como se alguém as tivesse movido. Algumas estavam abertas, outras fechadas, e duas estavam empilhadas no banco de trás, que costuma ser o menos ocupado. Não havia lancheiras. As que os pais tinham preparado não foram encontradas no autocarro.
Não havia garrafas de água com o nome das crianças, embora várias mães tenham afirmado que enviaram garrafas que já estavam com etiquetas. O que havia eram garrafas genéricas, sem rótulos, meias de água, daquelas que se compram nos distribuidores. Ninguém sabia explicar de onde vieram. O ônibus foi rebocado para o pátio do 19º DIP na manhã seguinte e isolado com fita adesiva.
Ali permaneceu durante 8 meses, exposto ao sol e à chuva, até ser solicitada uma perícia complementar. Quando efetuaram a segunda análise em junho de 2008, algumas das superfícies internas já apresentavam bolor e deterioração, e as impressões digitais recolhidas na primeira análise eram insuficientes para cruzamento de dados.
A maioria era parcial ou sobreposta. Nenhuma impressão digital do condutor foi identificada, o que era tecnicamente impossível se ele tivesse conduzido o veículo nessa manhã. Ou as impressões digitais tinham sido apagadas, ou Edivaldo Nonato de Souza nunca tocou naquele volante. Patrulheiros rodoviários encontraram Marinalva dos Santos Queiroz e outra professora, Aparecida Lima Fonseca, caminhando pelo acostamento da rodovia AM-010 em direção a Manaus por volta das 20 horas.
Marinalva estava descalça e o seu vestido estava rasgado no ombro. Aparecida carregava a sua própria bolsa e chorava incessantemente, mas não emitia som algum. Era um choro silencioso, de boca aberta, que o patrulheiro rodoviário que as resgatou descreveu em seu relatório como um estado de choque grave. Nenhuma delas conseguia explicar onde estavam as crianças.
Marinalva não parava de repetir que elas estavam apenas brincando e que a vegetação havia se fechado. Aparecida não disse nada durante as seis primeiras horas. Elas foram levadas para o pronto-socorro em 28 de agosto e medicadas. O depoimento formal só ocorreu três dias depois e, quando ocorreu, as versões das duas mulheres sobre os eventos dificilmente coincidiam.
Marinalva tinha 52 anos e era professora da rede municipal há 23 anos. Conhecia o balneário do Tarumã porque já havia levado outras turmas até lá. Pelo menos quatro vezes desde 2002. Era o tipo de professora que os pais conheciam pelo nome, que os cumprimentava na padaria, e que as mães chamavam para tomar um café quando ela passava na rua.
Ele não tinha antecedentes criminais, não tinha problemas com a direção da escola e não tinha registro de incidentes em viagens de campo anteriores. Ela era viúva, morava sozinha em um apartamento no complexo Francisca Mendes e dedicava seu tempo livre à Igreja Evangélica do bairro. Ninguém no Parque das Laranjeiras tinha motivos para desconfiar de Marinalva.
E isso tornava tudo mais difícil de compreender. Aparecida Lima Fonseca era mais jovem, tinha 34 anos e estava na escola há apenas dois anos. Era professora substituta, contratada por tempo determinado, e essa era a sua primeira excursão com os alunos. “Eu conhecia as crianças, mas não tão bem quanto a Marinalva.”
Ela morava no bairro Novo Aleixo com o marido e o filho de 4 anos. O marido, Wellington Fonseca, disse à polícia que Aparecida havia saído de casa animada naquela manhã, que havia preparado um bolo de milho para levar e que parecia tranquila quando a encontraram na estrada, 8 horas após a última comunicação com a escola.
Aparecida não tinha o bolo, nem tinha a mala com os seus documentos. Na verdade, a mala que ela carregava não lhe pertencia. Era uma mala de nylon preta que nenhuma das duas reconhecia como sendo sua, e não tinham resposta para nenhuma das perguntas. Na sala de emergências, a 28 de agosto, ambas foram avaliadas por uma equipa de plantão.
Marinalva apresentava desidratação ligeira, escoriações nos pés compatíveis com caminhada prolongada sem sapatos e um corte superficial no ombro direito que ela disse ter sido causado por um galho. Ela também apresentava arranhões nas pernas e nos braços, sujeira debaixo das unhas, um leve hematoma no joelho esquerdo e os mesmos sinais de desidratação.
O médico de plantão observou que nenhuma delas apresentava ferimentos graves e que o estado emocional de ambas era incompatível com uma simples caminhada pela estrada. Marinalva alternava frases desconexas com um silêncio catatônico. Aparecida tremia incontrolavelmente, mesmo depois de tomar a medicação.
O que Marinalva disse nos dias seguintes variou de sessão para sessão. No primeiro depoimento, ela disse que as crianças estavam brincando perto do riacho e que ela tinha ido ao ônibus buscar protetor solar. Disse que quando voltou não encontrou ninguém, nem as crianças, nem a Aparecida, nem o motorista. Disse que chamou, gritou, procurou pelas margens do riacho, e depois entrou na mata, mas não encontrou ninguém.
Disse que a certa altura decidiu voltar para a estrada e caminhar em direção à cidade. Ela não soube explicar como a Aparecida apareceu ao seu lado na estrada, nem quando isso aconteceu. Na segunda sessão, três dias depois, Marinalva incluiu um novo elemento. Disse que antes de ir para o autocarro viu um homem de camisa verde a aproximar-se pelo trilho e que as crianças foram na sua direção.
Quando o detetive perguntou por que ela não havia mencionado o homem antes, Marinalva disse que não tinha certeza se o havia visto ou se havia sonhado com ele. Na terceira sessão, com a presença de seu advogado, Marinalva disse apenas que não se lembrava de nada entre o momento em que saíram do ônibus e o momento em que ela estava na estrada.
Disse que havia um vazio na sua memória. Disse que queria ajudar, mas que não conseguia. Aparecida manteve a sua versão dos factos nas três sessões. “Eu estava a dormir no autocarro.” Disse que estava com dor de cabeça, que tomou um comprimido depois de chegarem ao balneário, e que adormeceu no banco de trás enquanto as crianças saíam com a Marinalva.
Ela disse que acordou com o ônibus em movimento, que olhou pela janela e não reconheceu onde estava, e que em algum momento o ônibus parou e ela desceu. “Eu não saberia dizer quem estava dirigindo, não saberia dizer se as crianças estavam no veículo quando ele se moveu. Não saberia dizer quanto tempo ele dormiu.” O detetive perguntou como ela explicava os arranhões em seus braços e as marcas de sujeira em suas pernas.
“Se ele estivesse a dormir dentro do autocarro.” Aparecida não respondeu. Ele olhou para o advogado que tinha pedido a suspensão da sessão. Nessa altura da investigação, o detetive Airton Brandão Teixeira tinha duas testemunhas que estiveram presentes no momento do desaparecimento de 14 crianças, e nenhuma delas conseguiu oferecer uma versão que corroborasse as provas físicas.
A contradição entre os relatos não era subtil; era aberta, evidente e, para quem leu os documentos, profundamente perturbadora. A notícia chegou ao Parque das Laranjeiras de forma desorganizada, como costuma acontecer em bairros onde toda a gente se conhece e onde os telefones fixos ainda são mais fiáveis do que os telemóveis. Por volta das 18h00, a mãe de um dos alunos, Dalva Cristina Rebolsas, ligou para a escola, a perguntar porque é que o autocarro ainda não tinha regressado. Ninguém atendeu. Dalva ligou para a sua vizinha, que era mãe de outra criança do grupo. A vizinha também não sabia de nada. Em menos de uma hora, sete mães estavam no portão da escola, que estava fechado e com as luzes apagadas.
Nenhuma autoridade havia entrado em contato. Nenhum comunicado havia sido feito. O porteiro noturno, que chegou às sete, não sabia de nenhuma excursão. Dalva era costureira; trabalhava em casa, mas em uma máquina de costura Singer que ficava na sala, ao lado da janela que dava para a rua.
Naquela sexta-feira, ela passou o dia inteiro a costurar, a ouvir rádio e à espera que o filho chegasse a casa para verem televisão juntos à noite, como faziam sempre quando ele não tinha aulas no dia seguinte. O seu filho, Bruno Henrique Rebolsas de Lima, tinha 10 anos, usava óculos desde os sete e era o tipo de rapaz que preferia ler bandas desenhadas a jogar futebol.
Dalva não se preocupou até às 17h, porque o regresso estava previsto para as 15h e os atrasos nos autocarros escolares eram comuns. Às 17h30, ele ligou para o telemóvel da Marinalva, que estava desligado. Ligou de novo às 18h. Estava desligado. Ligou para a escola. Ninguém atendeu. Foi então que ele saiu de casa. A cena à porta da escola nessa noite foi ganhando forma a pouco e pouco.
Primeiro as sete mães, depois os dois pais que regressaram do trabalho e foram avisados pelas mulheres. Depois havia uma avó que tomava conta de um dos alunos enquanto a mãe trabalhava num supermercado no centro da cidade. A seguir vieram vizinhos que não tinham filhos na excursão, mas que ouviram o barulho, para saber o que se estava a passar.
Por volta das 21h, havia cerca de 40 pessoas na calçada do lado de fora da escola, e nenhuma delas tinha qualquer informação. Não havia policiais, não havia representantes da prefeitura, e não havia ninguém da Secretaria da Educação. O porteiro, um homem chamado Cícero, tentou ligar para a diretora e para a coordenadora.
A diretora não atendeu. Rosângela Pimentel atendeu e disse que ia verificar, mas nunca apareceu. Foi a Dalva quem decidiu ir à esquadra. Apanhou um autocarro público com outra mãe, Francisca das Chagas Oliveira, e foram para a 19ª Esquadra. Chegaram lá por volta das 22 horas.
O turno era composto por um único investigador, que ouviu os relatos das duas mulheres. Ele anotou as informações num formulário de boletim de ocorrência e disse que precisava esperar 72 horas para registrar formalmente o desaparecimento. Dalva perguntou se ele entendia que se tratavam de 14 crianças. O investigador disse que entendia, mas que esse era o procedimento.
Dalva perguntou se ele tinha filhos. O investigador não respondeu. Ele pediu que elas voltassem na segunda-feira. Francisca das Chagas voltou para casa e não dormiu. Sentou-se na cozinha com a luz acesa, olhando fixamente para o relógio na parede. Seu marido, que trabalhava como vigia noturno, ligou do trabalho e ela lhe contou o que estava acontecendo.
“Ele disse que ia pedir para sair mais cedo, mas não podia.” A Francisca ficou sozinha até de madrugada. A Dalva também não dormiu, mas em vez de ficar em casa, voltou a sair. Às 5 da manhã do dia 13, apanhou outro autocarro e foi sozinha, às escuras, para a estância do Tarumã. “Ele chegou ao local quando o sol estava a nascer e caminhou pelas margens do riacho durante duas horas, chamando o nome do filho.”
“Não encontrou nada, não viu ninguém.” “Ele voltou para casa às 9h da manhã, com cortes nos pés e o rosto queimado de sol, e encontrou dois veículos da Polícia Civil estacionados no portão da escola.” A busca oficial começou 18 horas após o desaparecimento das crianças. Naquela noite, algo mudou no Parque das Laranjeiras. Não foi algo visível.
Não era algo para o qual se pudesse apontar o dedo. Era uma alteração no tecido do bairro, uma fenda que percorria todas as casas, todos os quintais e todas as conversas ao portão. 14 famílias mandaram os filhos para a escola, e as crianças não regressaram. E ninguém, ninguém as avisara. O Corpo de Bombeiros de Manaus iniciou a operação de buscas na manhã do dia 13 de outubro, 18 horas após o último contato das professoras com a escola.
A equipe era composta por 12 homens e dois cães farejadores. A área designada para a varredura inicial foi o entorno do balneário do Tarumã, num raio de 3 km. Em cinco dias de buscas intensivas, com o apoio do exército a partir do terceiro dia, não foi encontrado nenhum vestígio material das crianças: nenhuma peça de roupa, nenhum sapato, nenhum resto de comida, nenhuma pegada identificável.
Os cães farejadores treinados para localizar presença humana recente não indicaram qualquer rasto em qualquer direção a partir do balneário. O capitão responsável pela operação, Humberto Farias Monteiro, disse à imprensa que isso não era normal, que 14 crianças não desaparecem sem deixar um único rastro.
Em outubro de 2007, a área de banhos do Tarumã era um espaço semi-urbanizado na zona oeste de Manaus, onde o igarapé do Tarumã desaguava numa praia fluvial que recebia centenas de famílias aos fins de semana e feriados. Havia barracas de comida, estacionamento improvisado em terra batida, sanitários rudimentares e uma trilha de acesso que descia por um barranco de terra vermelha até à beira da água.
Nos dias de maior movimento, era possível encontrar vendedores de açaí, crianças a saltar dos ramos, música alta a sair dos carros estacionados e o cheiro a peixe frito misturado com o de protetor solar barato. Contudo, no feriado de 12 de outubro, a estância não estava no seu horário de pico quando o autocarro chegou. Às 8h40 da manhã, o local estava praticamente vazio.
Os bombeiros que chegaram no dia seguinte encontraram as barracas fechadas e nenhum morador das redondezas disse ter visto um ônibus escolar ou um grupo de crianças naquela manhã. Isso era parte do problema. Em 2007 não havia câmeras de segurança na área do resort, nem guarita, nem controle de acesso, nem registro de veículos entrando ou saindo.
O único ponto de referência era um bar chamado Cantinho do Tarumã, que ficava a 300 metros da descida do Igarapé e que, naquele feriado, só abriu depois das 11h. O dono do bar, Sebastião Vieira Lopes, disse à polícia que não viu nada de incomum. Disse que quando abriu a porta não havia nenhum ônibus estacionado nas proximidades e que a manhã estava tranquila.
Os bombeiros ampliaram o raio de busca para 5 km no terceiro dia e para 8 km no segundo. Eles entraram na mata com facões, abriram caminhos por áreas de vegetação densa e percorreram as margens do riacho, rio acima e rio abaixo. Eles inspecionaram poços naturais, pântanos sazonais e ravinas onde a água se acumula durante a estação seca.
Mergulhadores desceram em três pontos do igarapé, onde a profundidade ultrapassava os 2 metros. Não encontraram nada, nem os mergulhadores, nem os cães, nem os soldados do exército que se juntaram à operação com equipamentos de selva. O capitão Humberto Farias Monteiro deu uma entrevista à TV Amazonas no quinto dia de buscas.
Ele era um homem de fala comedida, com 30 anos de serviço, e não era dado a pronunciamentos dramáticos. Mas naquela entrevista, na beira do riacho, com a farda suja de lama, ele disse algo que ficou na memória de quem acompanhou o caso. “Já procurei muitas pessoas nesta floresta. Adultos, crianças, ribeirinhos, turistas, sempre há algo.”
“Uma pegada, um pedaço de tecido, um rastro na lama. Não há nada aqui. É como se essas crianças nunca tivessem pisado neste chão.” No sétimo dia, a operação foi reduzida. No décimo dia, oficialmente concluída, o Corpo de Bombeiros emitiu um relatório de 14 páginas, concluindo que as buscas terrestres e aquáticas na área do balneário do Tarumã e em seus arredores não resultaram na localização das crianças, nem na identificação de quaisquer vestígios que pudessem indicar sua presença no local após o horário de chegada registrado pelas professoras. O relatório recomendou a abertura de uma investigação criminal para apurar as circunstâncias do desaparecimento. A investigação criminal já estava em andamento, mas não estava avançando. O inquérito policial conduzido pelo Detetive Airton Brandão Teixeira, da 19ª Delegacia, colheu depoimentos das duas professoras em três sessões separadas ao longo de outubro de 2007.
Na primeira sessão, Marinalva disse que as crianças brincavam na beira do riacho quando ela foi ao ônibus buscar protetor solar e, ao voltar, não encontrou ninguém lá. Na segunda-feira, a versão mudou. Ela disse que um homem de camisa verde apareceu na trilha e que as crianças o seguiram, pensando ser o guia.
Na terceira entrevista, ela disse que não se lembrava de nada entre o momento em que saíram do ônibus e o momento em que estava caminhando pela estrada. Aparecida, nas suas três sessões, manteve uma única frase em todas elas. “Não vi o que aconteceu. Estava a dormir no autocarro.” Mas o boletim do hospital registrava marcas de sujeira e arranhões nas pernas e nos braços de Aparecida, inconsistentes com os de alguém que tivesse permanecido sentada no veículo.
O detetive Airton tinha 48 anos e passou a maior parte de sua carreira em delegacias de bairro na zona norte de Manaus. Ele não era um investigador de casos complexos, não tinha uma equipe especializada, trabalhava com dois investigadores, um escrivão e uma estrutura que ele mesmo descreveu anos depois, em entrevista a um jornal local, como insuficiente para investigar o roubo de uma bicicleta, muito menos o desaparecimento de 14 crianças.
Mas foi ele quem recebeu o caso, e era ele quem tinha que trabalhar com o que tinha. Nos primeiros 30 dias, Airton colheu depoimentos de 42 pessoas. As duas professoras, a coordenadora Rosângela, funcionários da escola, pais das crianças, moradores das proximidades do balneário, funcionários da Trans Rotas Norte e dois policiais militares que patrulhavam a rodovia AM-010 naquele dia.
Nenhum dos depoimentos forneceu uma pista concreta. Os policiais militares disseram que não viram o ônibus parado na rodovia durante a patrulha matinal, mas admitiram que a patrulha cobria um trecho de 80 km e que era impossível ver tudo. Os moradores do entorno do balneário, em sua maioria ribeirinhos que viviam em palafitas a 1 ou 2 km do igarapé, disseram que o dia 12 de outubro foi apenas mais um dia.
Ninguém ouviu gritos, ninguém viu nenhum movimento invulgar. Ninguém viu um autocarro branco. O que incomodava o chefe da polícia era a completa falta de consistência entre os relatos das únicas duas testemunhas adultas. Num caso com 14 vítimas e duas pessoas presentes, seria de esperar alguma discrepância nos pormenores.
Horários, sequência dos acontecimentos, posições das crianças. Mas o que o Airton encontrou não foi divergência, foi contradição estrutural. A Marinalva disse que as crianças estavam à beira do igarapé. A Aparecida disse que estava a dormir e não viu nada. A Marinalva disse que foi ao autocarro e quando voltou não encontrou ninguém.
Aparecida disse que esteve sempre no autocarro e que não viu a Marinalva chegar. A Marinalva mencionou um homem de camisa verde. A Aparecida nunca mencionou ninguém. A Marinalva mudava de versão a cada sessão. Aparecida repetia a mesma frase com precisão mecânica. O delegado solicitou ao Ministério Público a realização de exames psicológicos às duas professoras para avaliar se estavam aptas a testemunhar ou se apresentavam algum quadro dissociativo que pudesse explicar as contradições.
O exame foi conduzido em novembro de 2007 por um psicólogo forense da Secretaria de Segurança Pública, que concluiu que ambas as mulheres apresentavam sinais de trauma agudo, mas estavam aptas a testemunhar. O psicólogo acrescentou em uma nota ao final do relatório que o padrão de respostas de Aparecida — repetição exata da mesma frase, ausência de variações emocionais, recusa em elaborar — era consistente com trauma grave e também com ensaio prévio.
“Não foi possível distinguir uma coisa da outra sem um acompanhamento prolongado, o que nunca foi autorizado. As famílias acompanharam a investigação de longe. E porque ninguém os convidou para perto. Dalva Cristina Rebolsas pediu para ser ouvida três vezes, além de seu depoimento inicial. Eu queria falar sobre o comportamento de Marinalva nos dias que antecederam a excursão, sobre uma conversa que tive com ela no portão da escola, sobre um detalhe que achei importante.”
O oficial disse que ia anotar. A Dalva nunca mais foi chamada. O motorista do autocarro, registado nos documentos da câmara municipal como Edivaldo Nonato de Souza, 41 anos, contratado por uma empresa terceira chamada Transrotas Norte, não pôde ser localizado em momento algum após o desaparecimento. A empresa informou que Edivaldo fora contratado dois meses antes e que os seus documentos estavam em ordem, mas quando a polícia verificou, o CPF pertencia a uma pessoa que falecera em 2003 em Porto Velho. A morada fornecida no contrato não existia, e a fotografia no crachá da empresa não correspondia a nenhum registo nas bases de dados disponíveis.
Edivaldo Nonato de Souza, se esse fosse de facto o seu nome, nunca foi encontrado. Nenhuma testemunha de fora da escola foi capaz de o descrever com precisão. Os funcionários da Transrotas Norte disseram que ele era um tipo sossegado, que chegava cedo e não falava com ninguém.
A Transrotas Norte era uma pequena empresa registada em 2005, com sede num armazém no Distrito Industrial de Manaus. O contrato com a câmara municipal estipulava o fornecimento de motoristas e veículos para o transporte escolar em cinco zonas da cidade. A empresa tinha oito autocarros registados e 12 motoristas no quadro de pessoal.
Os contratos eram renovados anualmente através de um processo de licitação simplificado, e os requisitos documentais, segundo se descobriu posteriormente, eram mínimos. Carteira de motorista, categoria D, certidão de antecedentes criminais e comprovante de residência. Não havia verificação biométrica, nem cruzamento de números de CPF com registros de óbitos, nem entrevista presencial conduzida pela prefeitura.
O processo era burocrático no papel e frouxo na prática. Edivaldo Nonato de Souza, ou quem quer que usasse esse nome, havia começado a trabalhar na Transrotas Norte em agosto de 2007. Ele estava gerenciando a rota do Parque das Laranjeiras há dois meses quando a excursão ocorreu. Os funcionários da empresa, que foram entrevistados pela polícia, deram descrições vagas e às vezes contraditórias.
O gerente de operações Nelson Praia Monteiro disse que Edivaldo era um homem de estatura média, pele morena, cabelos curtos, que usava boné e falava pouco. A secretária Ivone Sarmento disse que ele era alto e magro e que não usava boné, mas uma boina escura. O mecânico que cuidava dos ônibus disse que nunca viu o rosto de Edivaldo direito porque ele chegava quando a oficina ainda estava fechada e saía antes do horário de funcionamento.
Nenhum deles tinha uma foto pessoal. A única foto disponível era o crachá de identificação da empresa, uma imagem de baixa resolução impressa em papel fotográfico comum que mostrava um rosto parcialmente coberto por um boné de aba larga. Quando a polícia tentou processar essa imagem nos sistemas de reconhecimento disponíveis na época, eles não obtiveram correspondência. O endereço fornecido por Edivaldo no contrato de trabalho era Rua Japurá.
114, Bairro Lírio do Vale. A polícia foi ao local e encontrou um terreno baldio com um prédio abandonado. Os vizinhos disseram que ninguém morava lá há pelo menos 3 anos. O número de CPF fornecido não pertencia a um homem chamado Edivaldo Nonato de Souza, nascido em 1966 em Porto Velho, Rondônia, que morrera em março de 2003 em um acidente de trânsito na BR364.
A certidão de óbito foi registrada no segundo cartório de Porto Velho. Quando o detetive Airton solicitou uma cópia do registro no cartório, ele recebeu a confirmação de que a pessoa havia realmente falecido. Alguém usara a identidade de um homem morto para se contratar como motorista de ônibus escolar em uma cidade a 2000 km de distância.
A Transrotas Norte foi intimada a fornecer cópias de todos os documentos relativos à contratação de Edivaldo. A empresa entregou o que possuía: uma ficha de registo manuscrita, uma cópia da carta de condução, que mais tarde se viria a revelar falsa, e o contrato de prestação de serviços com a assinatura do gerente. Não existia qualquer registo de vínculo laboral na carteira de trabalho, nem exame médico de admissão, nem curso de formação para o transporte escolar, obrigatório por lei desde 2004.
O Ministério Público do Amazonas instaurou um processo paralelo contra a Transrotas Norte por irregularidades na contratação, mas a empresa encerrou as suas atividades em fevereiro de 2008, antes da conclusão do processo. O armazém no distrito industrial foi devolvido. Os autocarros foram vendidos. Nelson Praia Monteiro mudou-se para Boa Vista e já não pôde ser localizado.
A secretária Ivone Sarmento continuou morando em Manaus, mas se recusou a dar novo depoimento, alegando que já havia dito tudo o que sabia. O fantasma de Edivaldo Nonato de Souza assombrou o caso durante anos. Quem era ele? Por que estava usando documentos falsos? Para onde ele foi? E a polícia emitiu um mandado de busca e apreensão em nome do CPF real e do nome fictício, que foi distribuído a delegacias de polícia em Manaus, Porto Velho, Boa Vista e Belém.
Ninguém com essa descrição foi encontrado. Ninguém com esse nome apareceu em nenhum registro subsequente, fosse criminal, trabalhista ou eleitoral. Foi como se a pessoa que dirigia o ônibus naquela manhã tivesse existido apenas por dois meses, unicamente para aquele papel, e depois tivesse desaparecido. Em 2009, a investigação foi encerrada pela primeira vez devido à falta de provas materiais e à ausência de suspeitos.
O Ministério Público do Amazonas recorreu, e o caso foi reaberto em 2010, sob a supervisão de uma nova promotora, Fernanda Lúcia Barroso. Fernanda solicitou uma reconstrução da rota do ônibus, uma análise dos contratos da Transrotas Norte e uma oitiva com todos os moradores em um raio de 5 km do balneário. Nada disso foi totalmente cumprido.
Em 2012, uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) de nível estadual foi instaurada na Assembleia Legislativa do Amazonas para investigar o caso, mas concluiu seus trabalhos após 8 meses sem chegar a uma conclusão. Uma segunda comissão parlamentar de inquérito em 2016 produziu um relatório de 340 páginas recomendando que o caso fosse federalizado.
A recomendação nunca foi seguida. Durante esse tempo, as famílias organizaram vigílias, marchas e petições. Nenhuma delas teve repercussão fora do Amazonas. O arquivamento de 2009 chegou às famílias através de uma carta registrada enviada pelo cartório do 19º DEP. A carta era padronizada com o número do inquérito, a data da decisão e uma linha informando que o procedimento havia sido arquivado por falta de indícios suficientes para a denúncia.
Dalva Cristina Rebolsas recebeu a dela numa terça-feira à tarde enquanto costurava. Ela leu a carta duas vezes, colocou-a em cima da máquina de costura, sentou-se na cadeira e ficou ali sem se mover durante quase uma hora. A seguir, telefonou a Francisca das Chagas, que já tinha recebido a sua. Francisca estava a chorar e disse que não podia acreditar.
A Dalva disse que conseguiria. A Procuradora Fernanda Lúcia Barroso assumiu o caso em janeiro de 2010, depois do recurso do Ministério Público contra a exoneração ter sido aceite. Fernanda tinha 36 anos, era natural de Parentins e tinha-se especializado em crimes contra menores na Escola Superior do Ministério Público em Brasília.
Ela era a pessoa certa para o caso e, talvez por isso, tenha sido escolhida. Mas o que a Fernanda encontrou ao abrir os arquivos do caso não foi animador. Faltavam partes. As fotos da inspeção ao autocarro estavam incompletas. Das 13 originais, apenas nove tinham sido digitalizadas. Faltava um relatório conclusivo da lista de presenças com as marcas de lápis.
Os testemunhos dos professores continham erros de transcrição que a secretária não tinha corrigido. E a ficha de registo de Edivaldo Nonato de Souza na Transrotas Norte tinha desaparecido do arquivo físico. A Fernanda pediu a reconstituição dos autos. O pedido demorou 14 meses a ser parcialmente atendido.
Em 2011, Fernanda obteve autorização para refazer a rota do autocarro com um veículo semelhante, medindo os tempos de viagem desde pontos de visibilidade e secções da rodovia AM010 onde seria possível parar sem ser visto por outros condutores. A reconstrução revelou que, entre a estância balnear de Tarumã e o ponto onde o autocarro foi encontrado, existiam pelo menos quatro estradas de acesso não pavimentadas que conduziam a áreas de floresta densa, estradas de terra utilizadas por madeireiros ilegais e residentes de colonatos irregulares.
Nenhum destes pontos de acesso havia sido verificado nas buscas originais dos bombeiros, pois ficavam fora do raio de 3 km estabelecido inicialmente. A Fernanda solicitou uma nova operação de buscas naquelas zonas. O pedido foi negado pela Secretaria de Segurança Pública por falta de pessoal.
A CPI 2012 foi instalada a pedido de um deputado estadual, cujo sobrinho frequentava a mesma escola, embora não tenha participado na excursão, não é? A comissão ouviu o depoimento de 28 pessoas ao longo de 8 meses, incluindo o Delegado Airton, a Procuradora Fernanda, representantes da câmara municipal, funcionários da Secretaria de Educação e três das mães.
As sessões eram abertas ao público, mas raramente havia mais de 10 pessoas na assistência. Os jornais locais cobriam as audições nas suas páginas interiores com notas curtas. A TV Amazonas dedicou duas reportagens ao assunto, ambas à tarde. Fora do Amazonas, o caso era praticamente desconhecido. A CPPIRO concluiu os seus trabalhos em abril de 2013 sem uma conclusão formal, com um relatório que listava falhas no serviço policial e irregularidades no contrato da Transrotas Norte, e a necessidade de mais investigação.
Recomendações que foram enviadas para o poder executivo estadual e nunca receberam resposta. A segunda CPI em 2016 foi mais ambiciosa. Ela produziu um relatório de 340 páginas, ouviu o depoimento de 51 pessoas, incluindo peritos federais e um especialista da Interpol em pessoas desaparecidas que estava de passagem por Brasília e concordou em colaborar informalmente.
O relatório concluiu que o caso apresentava características incompatíveis com as hipóteses de acidente ou afogamento, que a investigação original fora negligente em pontos críticos e que a federalização, a transferência do caso para a Polícia Federal e para a justiça federal, era aconselhável face à incapacidade demonstrada pelas autoridades estaduais.
A recomendação foi enviada ao Procurador-Geral da República, mas nunca foi atendida. O argumento formal foi de que não havia elementos novos que justificassem a federalização. O argumento real, segundo fontes de dentro do próprio Ministério Público, que falaram com jornalistas sob a condição de anonimato, era que ninguém queria herdar um caso sem solução e com potencial para repercussão política.
Entretanto, as famílias faziam o que podiam. A Dalva e a Francisca organizaram a primeira vigília em outubro de 2008, no aniversário de um ano do desaparecimento. Montaram uma mesa no passeio da escola com 14 velas e 14 fotografias. Apareceram cerca de 50 pessoas. Em 2009, havia 60. Em 2010, 40. Em 2015, 22. Em 2020, 9. Menos pessoas em cada ano.
A cada ano os rostos nas fotografias tornavam-se mais distantes, mais difíceis de associar a uma criança real que um dia correu por aquelas ruas. As velas permaneceram as mesmas. A Dalva comprava-as na mesma loja do bairro, sempre brancas, sempre do tamanho 14. As marchas pela cidade realizaram-se três vezes em 2009, 2012 e 2017. A maior foi em 2009.
Reuniu cerca de 300 pessoas que saíram do Parque das Laranjeiras e se dirigiram à sede da Secretaria de Segurança Pública no centro da cidade, carregando faixas com os rostos das crianças e pedindo a reabertura do caso. O secretário não se reuniu com o grupo. Um assessor desceu, pegou uma carta e disse que o governo estava prestando atenção.
O abaixo-assinado de 2012, com 4.000 assinaturas, foi protocolado na Assembleia Legislativa e motivou a segunda CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito). O abaixo-assinado de 2017, com 2.000 assinaturas, foi encaminhado ao Ministério da Justiça, em Brasília, e nunca recebeu resposta formal. Em algum momento entre a segunda Comissão Parlamentar de Inquérito e a descoberta em 2025, o caso deixou de ser notícia e virou uma lembrança.
Uma lembrança que pertencia a um bairro, a um grupo de famílias. Há uma escola que mudou de nome em 2014, passando a chamar-se Escola Municipal Professor Raimundo Nonato, e que pintou as paredes, substituiu os portões e tentou, silenciosamente, apagar a associação ao episódio. As crianças que frequentavam a escola em 2007 e que não participaram na visita de estudo cresceram sabendo que algo tinha acontecido, mas sem compreenderem perfeitamente o quê.
Alguns mudaram de escola, outros ficaram e aprenderam a não fazer perguntas. Os novos professores não estavam familiarizados com a história. Os antigos não queriam lembrar. A placa da escola Olinda Brito de Souza foi retirada e guardada em um armazém da Secretaria da Educação, onde provavelmente ainda está.
Em março de 2025, uma equipe de topografia da Eletronorte realizava medições para a implantação de uma nova linha de transmissão na zona rural ao norte de Manaus, passando por uma faixa de mata secundária a 7 km do antigo balneário do Tarumã. O técnico responsável, Jonas Rebelo de Araújo, notou que o terreno apresentava uma irregularidade no relevo, uma depressão retangular coberta com vegetação rasteira, diferente do padrão natural do solo amazônico.
Ao relatar a anomalia ao seu supervisor, a equipe solicitou uma sonda. O que encontraram a uma profundidade de 1,40 metros interrompeu os trabalhos por tempo indeterminado e fez com que a Polícia Federal fosse acionada em 24 horas. Jonas Rebelo de Araújo tinha 29 anos e trabalhava na Eletronorte desde 2021. Ele desconhecia o caso das crianças do Parque das Laranjeiras.
“Ele não era de Manaus, era natural de Santarém, veio para a capital estudar no IFAM e ficou. Naquele dia de março, eu estava com três colegas realizando um levantamento topográfico de um corredor de 20 km por onde passaria a linha de transmissão.” O trabalho era técnico e repetitivo, envolvendo medições com estação total, demarcação de pontos e análise do perfil do terreno.
A área onde a anomalia foi encontrada situava-se numa floresta secundária, vegetação que cresceu após uma antiga desflorestação, provavelmente na década de 1990, e que formava agora um corredor denso de árvores finas e arbustos. A depressão no solo media cerca de 6 m de comprimento por 2,5 m de largura. A sua forma era regular, com contornos definidos, e a vegetação que a cobria era diferente da área envolvente, baixa e menos densa, como se o solo ali tivesse sido perturbado em algum momento e a floresta não tivesse conseguido recuperar totalmente.
Jonas anotou a anomalia no relatório de campo e tirou quatro fotos com seu celular. Naquela noite, no hotel em Manaus, ele mostrou as fotos para seu supervisor, que disse que poderia ser um antigo poço de extração de argila ou uma fossa séptica desativada. Mas Jonas achava que não. O formato era regular demais. A profundidade da depressão, visível a olho nu, sugeria que algo havia sido escavado de propósito.
A sondagem foi autorizada dois dias depois. Uma retroescavadora compacta efetuou a abertura inicial, retirando a camada de vegetação e os primeiros 60 cm de solo. Aos 80 cm, o operador reparou que a Terra estava a mudar de cor. Passou da cor castanho-avermelhada típica do solo amazónico para uma tonalidade mais escura, quase preta, com uma consistência diferente.
“A 120 cm, a pá mecânica trouxe à superfície um fragmento de tecido sintético, deteriorado, mas reconhecível. Era azul, com um padrão às riscas que lembrava o tecido das mochilas escolares. O operador parou a máquina. O Jonas desceu até à vala, olhou para o fragmento, olhou para o chão à sua volta e pediu a toda a gente que parasse.”
A Polícia Federal em Manaus recebeu a notificação às 16h daquele mesmo dia. Uma equipa da Superintendência Regional chegou ao local na manhã seguinte, acompanhada por peritos do Instituto Nacional de Criminalística e por um antropólogo forense do Instituto Médico Legal do Amazonas. A área foi isolada num raio de 50 m.
“As escavações foram então efetuadas manualmente, com recurso a uma escova e a uma talocha, seguindo o protocolo forense de exumação. Durante os 10 dias seguintes, a equipa recuperou fragmentos de tecido do solo, pedaços de borracha compatíveis com solas de sapatos de criança, restos de metal oxidado que pareciam ser fivelas ou fechos, e material orgânico em avançado estado de decomposição, que foi enviado para o laboratório de genética forense de Brasília para análise de ADN.”
A profundidade máxima escavada foi de 1,80 m. A depressão continha material distribuído em camadas, como se tivesse sido preenchida em etapas. Não havia caixão, nem mortalha, nem estrutura de contenção. O material estava diretamente no solo, misturado com terra e raízes. O relatório preliminar da Polícia Federal, emitido em abril de 2025, confirmou que o material encontrado era consistente com restos mortais humanos de múltiplos indivíduos de baixa estatura e que os fragmentos de tecido e calçados eram compatíveis com roupas infantis do período entre 2005 e 2010. No entanto, o relatório não confirmou a identidade das vítimas. A análise de DNA levaria meses, e ainda não estabeleceu a causa da morte. Mas para quem acompanhava o caso, já haviam se passado 18 anos. O relatório disse o suficiente. A notícia chegou às famílias antes mesmo de ser publicada na imprensa.
A Polícia Federal enviou agentes ao Parque das Laranjeiras para informar pessoalmente os pais registados no inquérito de que tinha sido encontrado material possivelmente relacionado com o caso. A Dalva Cristina Rebolsas recebeu a visita num sábado de manhã. Dois agentes federais, um homem e uma mulher, sentaram-se na sala da sua casa e explicaram, em termos cuidadosos, que tinham sido encontrados vestígios numa área próxima da estância balnear do Tarumã e que seria necessário recolher material genético de familiares para comparação. Dalva ouviu sem interromper, e quando os agentes terminaram, perguntou apenas uma coisa: “Encontraram óculos?” O filho de Dalva, Bruno Henrique, usava óculos. Os agentes disseram que não poderiam dar detalhes sobre os objetos encontrados. Dalva assentiu e assinou o termo de consentimento para coleta de DNA. Francisca das Chagas Oliveira recebeu uma visita logo depois.
Ela reagiu de maneira diferente. Ela não perguntou nada, ela não assinou nada naquele dia. Ela pediu aos agentes que retornassem na segunda-feira quando o marido estivesse em casa. Os agentes retornaram. Francisca assinou, mas não disse uma palavra durante todo o procedimento. A imprensa nacional cobriu a descoberta de forma destacada por cerca de duas semanas.
O Jornal Nacional dedicou 3 minutos ao caso. O Fantástico produziu uma reportagem de 8 minutos, com imagens aéreas do local da escavação e entrevistas com familiares. Pela primeira vez em 18 anos, o caso das crianças do Parque das Laranjeiras foi discutido fora do Amazonas. As redes sociais ampliaram a história. Teorias, especulações e acusações surgiram.
Nada disto mudou o rumo da investigação, que continuou ao seu ritmo habitual. Do ponto de vista da ciência forense, é lenta, metódica e silenciosa. Dezoito anos separam a manhã de outubro de 2007 da descoberta em março de 2025. Nesse intervalo, seis das 14 famílias mudaram-se do Parque das Laranjeiras.
Duas mães faleceram, uma de cancro e a outra de ataque cardíaco. Um pai foi hospitalizado com um problema psiquiátrico permanente. Os irmãos das crianças desaparecidas cresceram a carregar um peso que nenhum relatório descreve e nenhuma indemnização consegue aliviar. A Dalva Cristina Rebolsas, a primeira mãe a ligar para a escola naquela noite de outubro, continua a morar na mesma casa, na mesma rua, com o quarto do filho exatamente como era.
Quando a notícia da descoberta no Tarumã chegou, a Dalva não ligou a televisão; sentou-se numa cadeira no alpendre e ficou a olhar para a rua até escurecer. O quarto de Bruno Henrique está intacto desde 12 de outubro de 2007. A cama de solteiro com a colcha do Homem-Aranha, a ventoinha de teto que faz barulho quando está ligada, as revistas de banda desenhada da Turma da Mônica.
As coisas de Monica estão empilhadas na prateleira de madeira compensada que seu avô fez antes de morrer. O par de óculos reserva que Dalva havia comprado na ótica do centro da cidade em setembro de 2007 e que nunca foi usado é guardado em seu estojo na gaveta da mesa de cabeceira. A porta do quarto fica aberta durante o dia. Dalva passa por ela várias vezes, sem sequer ir da sala para a cozinha, ou da cozinha para o quintal.
Ela não entra, não a fecha, não a toca. Francisca das Chagas Oliveira mudou-se do Parque das Laranjeiras em 2013, depois do marido ter sido transferido para uma fábrica no distrito industrial. E arrendaram uma casa em Novo Aleixo. A Francisca disse a uma amiga que já não aguentava passar pela escola todos os dias, que sempre que via crianças fardadas no passeio, o corpo inteiro dela gelava, que precisava de ir para um sítio onde ninguém a conhecesse.
Em Novo Aleixo, a Francisca passou a frequentar uma igreja católica e a participar num grupo de mães enlutadas que se reunia às quartas-feiras à noite no salão paroquial. O grupo não tinha nome oficial. As mulheres sentavam-se em círculo, bebiam café e falavam sobre os seus filhos. Algumas tinham perdido filhos para a violência, outras para doenças.
“Francisca era a única que não sabia o que tinha acontecido à sua. Uma vez ela disse ao grupo que a pior coisa não era a dor, era a incerteza. A dor tinha um lugar no corpo. A incerteza não ficava em lugar nenhum e, ao mesmo tempo, estava em todo lado. Neusa Figueira, a merendeira que era mãe dos gémeos Lucas e Luan, nunca mais saiu do Parque das Laranjeiras.”
Ela continuou a trabalhar na escola até 2014, altura em que o nome foi mudado e o seu contrato não foi renovado. Ninguém deu uma explicação formal. A Neusa percebeu que a nova administração não queria ter por perto alguém que recordasse às pessoas o que tinha acontecido. Depois disso, a Neusa trabalhou como cozinheira em dois snack-bares do bairro, sem contrato formal, até a saúde deixar de o permitir.
Em 2019, N. foi diagnosticada com depressão profunda e começou a receber o Benefício de Prestação Continuada (BPC) do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social). Morava sozinha. O seu marido havia saído de casa em 2011. Os vizinhos disseram que Neusa quase nunca saía de casa e que às vezes a ouviam falar sozinha em voz baixa, como se estivesse conversando com alguém que não estava ali.
Raimundo Monteiro Duarte, o ajudante de pedreiro, que só soube do desaparecimento do seu filho dois dias depois, foi internado em 2015 no hospital psiquiátrico Eduardo Ribeiro, em Manaus, com um quadro de psicose que os médicos associaram a um luto prolongado e não processado. O Raimundo tinha passado anos à procura do seu filho por conta própria, entrando em zonas arborizadas aos fins-de-semana, percorrendo trilhos e riachos na zona rural de Manaus, perguntando aos Ribeirinhos se alguém tinha visto alguma coisa em outubro de 2007. Nunca encontrou nada, nunca recebeu nenhuma pista, mas não desistiu. A mulher disse que ele saía de casa no sábado de manhã e voltava no domingo à noite, sujo, exausto e, por vezes, com febre. Um dia ele não voltou no domingo. Foi encontrado na terça-feira, sentado numa clareira perto da árvore do tarumã, a dizer coisas que não faziam sentido.
Ele não reconheceu a mulher quando ela chegou. Foi hospitalizado nessa semana e nunca teve alta definitiva. Os irmãos das crianças desaparecidas, aqueles que ficaram, formaram uma teia silenciosa entre si de que nenhum jornal deu conta. Cresceram juntos no mesmo bairro, nas mesmas ruas, e partilharam algo que ninguém de fora conseguiria compreender totalmente.
Eles sabiam o que era chegar a casa e ver a mãe a olhar para o vazio. Eles sabiam o que era ouvir o pai falar do irmão no tempo presente, não como se ele estivesse voltando a qualquer momento. Eles sabiam o que o dia 12 de outubro significava para o resto do país, Dia das Crianças. Para eles, era o dia em que a família se dividia em duas.
Alguns desses irmãos se tornaram adultos funcionais com empregos, famílias e rotinas. Outros não. Dois deles abandonaram a escola antes de terminar o ensino médio. Um tinha problemas com álcool. Um foi morar com uma tia em Belém para fugir de tudo. Nenhum deles fala publicamente sobre o caso. Nenhum deles precisa. A descoberta em março de 2025 reabriu feridas que nunca haviam cicatrizado porque nunca haviam sido tratadas.
“As famílias que ainda moravam em Manaus foram chamadas para reuniões com a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União. Elas foram informadas que a análise do DNA poderia levar de seis meses a um ano. Foram informadas que, mesmo com uma identificação positiva, a determinação da causa da morte dependia do estado de preservação dos restos mortais, que, após 18 anos no solo amazônico, poderia ser insuficiente para conclusões definitivas.”
Por outras palavras, foram informados de que a resposta de que estavam à espera há 18 anos podia vir incompleta, ou não vir de todo. A Dalva ouviu tudo isto numa sala de reuniões na sede da Polícia Federal, sentada numa cadeira de plástico com a carteira no colo e os olhos secos. Ao seu lado estava a Francisca. Atrás delas estava a Neusa, que tinha sido trazida por uma sobrinha.
No fundo da sala estavam três irmãos adultos das crianças desaparecidas que pediram para assistir, mas não quiseram sentar-se à mesa. O procurador federal, que conduziu a reunião, falou durante 40 minutos usando termos técnicos e cautela legal. No final, perguntou se alguém tinha alguma dúvida. A Dalva levantou a mão e fez a mesma pergunta que tinha feito aos agentes na sua sala de estar.
“Vocês encontraram algum óculos?” O procurador olhou para os papéis e disse não poder confirmar os objetos específicos recuperados no local. Dalva abaixou a mão e não perguntou mais nada. Do lado de fora da delegacia, um repórter de um site de notícias esperava com um cinegrafista. Quando as famílias saíram, ele abordou Dalva e perguntou como ela se sentia.
A Dalva olhou para ele, olhou para a câmara e disse: “Sinto-me da mesma forma que me sinto há 18 anos”. Depois, virou as costas e saiu. A Marinalva dos Santos Queiróz morreu em 2021 de causas naturais, num hospital público de Manaus. Tinha 66 anos de idade. Nunca foi formalmente acusada no processo. Nunca alterou as suas últimas declarações, de que não se lembrava de nada.
Nos últimos anos, ele viveu de forma reclusa, nunca saindo de casa e não recebendo outras visitas que não a sua irmã, que vivia no bairro de São José. Os vizinhos do conjunto habitacional Francisca Mendes disseram que Marinalva envelheceu rapidamente depois de 2007, deixou de ir à igreja e manteve as cortinas da janela sempre fechadas.
Quando morreu, o funeral teve a presença de seis pessoas. Nenhuma das famílias das crianças compareceu. Ninguém esperava que comparecessem. Aparecida Lima Fonseca ainda está viva. Mora em Manaus, num endereço que não é público. Nunca deu entrevistas e nunca foi indiciada. A sua aversão, “eu estava dormindo no ônibus”, permanece nos autos como o último registro formal de suas palavras sobre o caso.
O seu marido, Wellington, ausentou-se do trabalho em 2008 por motivos de saúde familiar e nunca mais voltou. O que se passou dentro daquela casa entre 2007 e os dias de hoje, ninguém sabe. Ninguém perguntou. Ninguém tem o direito de lhe exigir que fale. Mas o silêncio de Aparecida continua a ser, para as famílias e para quem acompanhou o caso, um dos elementos mais difíceis de aceitar.
O caso das crianças do Parque das Laranjeiras continua em aberto na Polícia Federal. A análise de DNA do material encontrado em março de 2025 está em andamento no laboratório de genética forense do Instituto. O Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília, tem uma nova investigação. Não há prazo oficial para sua conclusão.
Não há suspeitos formais e nenhuma explicação que ligue todos os pontos. A lista com as marcas de lápis, o autocarro que se desviou 11 km do seu percurso, os professores na estrada, o motorista fantasma, os cães que não encontraram rasto, o material enterrado a 7 km da estância. Cada peça do caso aponta numa direção diferente.
Nenhuma delas completa o quadro. Os anos passaram e o Parque das Laranjeiras continuou a ser o que sempre foi. Um bairro de gente simples, de ruas onde as crianças brincam até escurecer, de casas com portas entreabertas e o som da televisão a escapar pela janela. A escola mudou de nome, mas o passeio é o mesmo.
A paragem de autocarro na esquina é a mesma. As mangueiras que davam sombra à hora da saída ainda lá estão, mais velhas, mais grossas, com as suas raízes a levantar o asfalto. Qualquer pessoa que por ali passe hoje e que não conheça a história não vê nada de diferente. É apenas um bairro, apenas uma escola, apenas uma rua como tantas outras em Manaus, em qualquer cidade do mundo.
No Brasil, a vida segue em frente porque não há alternativa. Mas, para quem viveu o que aconteceu em 12 de outubro de 2007, aquela parte da cidade nunca mais foi a mesma. Existe uma fratura que não aparece no mapa, que não consta de nenhum relatório, que nenhuma CPRI documentou. É a fratura que permanece dentro de quem acordou um dia.
“E o filho não estava na cama, o chinelo não estava perto da porta, a mochila não estava no chão da sala de estar. É o espaço que se abre entre a última imagem – a criança a entrar no autocarro, a acenar da janela, a desaparecer na curva – e o silêncio que se seguiu. 18 anos de silêncio. 18 anos de um telefone que não toca.”
E 18 anos de uma porta que se abre todas as noites com a mesma esperança e se fecha com o mesmo vazio. As famílias que esperavam não pediam muito; pediam uma resposta. Elas pediam que alguém olhasse para elas e dissesse o que havia acontecido. Não pediam grande justiça, não pediam homenagens. Pediam o mínimo que qualquer pai ou mãe pede quando o filho não volta para casa.
Para saber, simplesmente para saber. E durante 18 anos, a resposta não chegou. Talvez chegue agora, incompleta, traduzida em relatórios, códigos genéticos e termos que ninguém naquele bairro usa no seu dia a dia. Ou talvez não chegue de todo. Talvez um dia o caso se encerre com um relatório técnico que explica uma parte e deixa a outra às escuras, como acontece com tantos outros casos neste país, onde as pessoas desaparecem com mais facilidade do que se imagina e onde a memória de quem fica é muitas vezes a única prova de que a pessoa existiu. Hoje, em que sabemos onde estão as pessoas que amamos, em que mandamos uma mensagem e temos uma resposta, em que ouvimos a chave na fechadura e sabemos quem é, é fácil esquecer o que significa não saber, o que significa olhar para a porta e não ter certezas. O que é que significa trazer uma fotografia no bolso durante anos? Mostrar a desconhecidos, perguntar-lhes se viram, se ouviram, se sabem de alguma coisa.
O que significa estar deitado na cama à noite e não conseguir fechar os olhos direito, porque a sua mente não desliga, porque as perguntas não param, porque o silêncio do quarto é o mesmo silêncio do telefone, da delegacia de polícia, da escola, com todo o aparato que deveria tê-la protegido e não protegeu. A história não termina com uma explicação; termina como a maioria das histórias verdadeiras termina, com perguntas que permanecem em aberto, com pessoas que aprenderam a conviver com o que nunca conseguiram resolver e com a certeza silenciosa de que em algum lugar deste país, neste exato momento, alguém ainda está esperando. Não.