
A HISTORIA REAL DA SINHÁ QUE ALEIJOU O CORONEL COM VENENO PARA FICAR COM 2 ESCRAVOS
O quarto principal da casa senhorial ecoava com o estalar de um chicote de couro entrançado, que rasgava sem piedade o ar denso e húmido daquela noite baiana.
Isabela caiu de joelhos sobre o soalho de madeira escura e polida. O seu vestido de linho branco estava irremediavelmente rasgado nas costas, expondo vergões vivos e avermelhados que sangravam de forma lenta e dolorosa. O Coronel Ramiro, o homem que perante a lei e os homens a chamava de esposa, mantinha-se de pé diante dela. O peito dele arfava e o rosto estava contorcido numa fúria cega. Ergueu novamente o braço para desferir mais um golpe impiedoso.
“Sua ingrata”, rosnou ele, cuspindo cada sílaba como se fosse veneno puro. “Como ousas questionar as minhas ordens em frente aos feitores? Tu és minha. Apenas minha.”
Dois dias antes deste suplício, Isabela cometera o erro de lhe implorar compaixão. Pedira-lhe que poupasse uma escrava da chicotada que ditara a sua morte, apenas porque a rapariga tinha roubado um pedaço de comida para não morrer à fome. Em resposta, Ramiro humilhou-a em praça pública, aos gritos, acusando-a de ser uma mulher fraca e de trair o grande legado da sua família. Agora, na solidão do quarto, cada vergão na sua pele era o preço pago por aquela ousadia.
O couro assobiou no ar mais uma vez. Isabela sentiu a carne a abrir-se nas costas, o sangue quente a escorrer pela sua coluna vertebral. A sua visão embaciou-se de dor e as lágrimas ardiam nos seus olhos inchados pelo choro.
“Tu nunca aprendeste qual é o teu lugar, mulher”, continuou Ramiro. A voz dele, arrastada, estava empapada em cachaça e numa raiva descontrolada. “Eu dei-te um nome de peso, uma casa imponente e uma posição invejável na sociedade. E tu, como é que me pagas? Com desobediência e humilhação pública.”
Isabela ergueu o rosto devagar, num esforço colossal. Os seus olhos, habitualmente doces, chamejavam com um ódio profundo pela primeira vez em doze longos anos de um casamento forçado.
“Tu vais pagar muito caro por isto, Ramiro”, murmurou ela, com a voz rouca, porém inabalável. “Não pagares com palavras vazias, mas com aquilo que mais temes neste mundo. Vais perder tudo.”
Ele soltou uma gargalhada ríspida, seca e de uma crueldade atroz. “Ameaças vazias de uma mulher fútil e quebrada. Tu não tens absolutamente nada, Isabela. Sem mim, és um zero à esquerda. És o nada.”
Contudo, o que o arrogante Ramiro não conseguia ver era o pequeno frasco de vidro que Isabela mantinha escondido entre as dobras da saia rasgada. No interior daquele recipiente, repousava um líquido perfeitamente transparente. Tinha sido extraído minuciosamente de folhas de mandioca brava, colhidas em segredo nas imediações da senzala.
A Mãe Benedita, a velha e sábia curandeira africana que lhe ensinara os mistérios sagrados das plantas, sussurrara-lhe as instruções precisas apenas uma semana antes. “Três gotas no vinho dele, sinhá”, instruíra a velha. “O corpo dele vai ficar duro, rijo como a pedra, mas a mente vai continuar perfeitamente acordada. Ele vai sentir todas as dores, vai ver tudo o que acontece, mas não vai conseguir mexer um único músculo.”
Isabela apertou os dedos com força em redor do frasco. O vidro estava quente contra a sua pele gelada pelo terror.
“Dorme de uma vez, Ramiro”, atirou ela, ainda de joelhos, desafiando a ira dele. “Amanhã vais acordar sem voz, sem qualquer movimento, aprisionado no teu próprio corpo.”
Enfurecido pelo tom de voz dela, ele desferiu-lhe um pontapé forte nas costelas. Isabela rolou no chão, sufocando um grito lancinante.
“Sua louca!”, cuspiu ele com nojo. “Amanhã de manhã, termino o serviço que comecei hoje. Vais aprender a respeitar-me ou vais morrer a tentar.”
Ramiro saiu, batendo a pesada porta do quarto com uma força tremenda. Os seus passos pesados e irregulares ecoaram pelo longo corredor até chegarem ao salão principal, o local onde ele tinha o hábito imutável de beber até cair antes de ir dormir.
Isabela ficou imóvel no chão de tábua corrida durante longos e dolorosos minutos. O sangue que manava das feridas formava já uma pequena poça escura debaixo do seu corpo. A dor latejava em ondas violentas, mas havia algo muito mais forte e ardente a queimar-lhe a alma. Já não era apenas uma raiva cega; era uma promessa solene.
Arrastou-se penosamente até ao velho espelho rachado que pendia na parede. O reflexo que viu devolveu-lhe um rosto que já não reconhecia: estava inchado, marcado por nódoas negras, completamente desfigurado. Mas os olhos… os olhos brilhavam com uma luz intensa e nova. Eram os olhos da determinação absoluta e da vingança.
“Ele vai acordar sem poder mexer o próprio corpo”, sussurrou ela para o seu próprio reflexo. “E eu vou fazer dele exatamente o que ele fez de mim todos estes anos: Nada.”
Lá fora, na vastidão das senzalas escuras, os escravizados ouviram os gritos excruciantes e encolheram-se amedrontados nas suas precárias esteiras de palha velha. Eles conheciam demasiado bem aquele som macabro: a sinhá a sofrer a violência do coronel. Era apenas mais uma noite de terror cravada na memória da Fazenda São João. Mas o que ninguém, absolutamente ninguém imaginava, era que aquela seria a derradeira noite em que o Coronel Ramiro adormeceria com o título de senhor absoluto. Porque a decisão de Isabela estava tomada. E quando uma mulher toma uma decisão tão extrema, não há força na terra que a faça recuar.
Decorria o ano de 1875. A região do Recôncavo Baiano pulsava ininterruptamente ao ritmo opressivo e cruel dos imensos engenhos de açúcar. A escravatura, apesar dos primeiros ventos abolicionistas que começavam a chegar da corte no Rio de Janeiro, mantinha-se como rainha absoluta naquelas terras. A Fazenda São João era um retrato em miniatura de toda a brutalidade do sistema colonial.
As senzalas de palha seca sufocavam sob o calor abrasador do clima equatorial, enquanto os campos de cana-de-açúcar estendiam-se como um mar verde até se perderem no horizonte enevoado pela humidade constante e pegajosa do litoral baiano. A casa grande, por seu lado, erguia-se altiva, qual palácio forrado a hipocrisia e fausto. Azulejos portugueses pintados à mão forravam as paredes dos vastos salões, e dezenas de pesados lustres de cristal reluziam pendurados dos tetos trabalhados.
Festas intermináveis serviam de máscara para esconder a profunda miséria que se desenrolava a escassos metros dali, no interior das senzalas, onde mais de oitenta almas escravizadas sobreviviam amontoadas como se fossem animais.
A rotina era um ciclo infernal que recomeçava a cada novo dia. Os escravizados eram arrancados do sono profundo ainda antes de os primeiros raios de sol despontarem, despertados pelo som gélido do sino que ditava o início da jornada de trabalho. Marchavam exaustos para os canaviais em fila indiana, sob o olhar atento e ameaçador de feitores desalmados, sempre armados com chicotes impiedosos e espingardas carregadas.
Moíam a dura cana até os ossos estalarem de cansaço. Carregavam aos ombros fardos tão pesados que excediam o seu próprio peso corporal. E, ao cair da tarde, chegava a escassa distribuição da ração alimentar: um pouco de inhame mal cozido, farinha de mandioca e, quando tinham alguma sorte, um exíguo pedaço de carne de charque já a tresandar a ranço. As porções eram medidas a copo, com uma precisão matemática e cruel: o suficiente para evitar que morressem de inanição, mas nunca o suficiente para que acumulassem forças para uma revolta.
As noites na senzala ecoavam com os gemidos lancinantes de quem já não aguentava o corpo. Os trabalhadores rastejavam exaustos até às suas rústicas esteiras. Viu-se mães a tentar embalar com canções tristes os seus filhos que não paravam de chorar com as dores da fome. Homens velhos e gastos escarraram sangue nos cantos mais lúgubres da senzala. E por trás de toda aquela miséria, reinava sempre o medo paralisante do dia seguinte. Pois na Fazenda São João, qualquer pequena falha era severamente punida. Um olhar trocado na altura errada, um tropeço involuntário com a fadiga do trabalho, uma palavra mal interpretada… Tudo, absolutamente tudo, servia de pretexto para serem atados ao pelourinho, para sentirem o rasgar do chicote e as marcas horríveis do ferro em brasa na própria carne.
O pequeno Joaquim tinha apenas quinze anos de idade na tarde em que deixou escapar das mãos e cair ao chão uma pesada gamela cheia de caldo de cana. A sentença de Ramiro foi imediata e implacável: ordenou cinquenta fortes chibatadas no jovem. O frágil corpo de menino não aguentou o suplício brutal. Faleceu ali mesmo, atado ao duro tronco da punição, com o seu sangue quente a formar poças sinistras na terra avermelhada. Foi depois sepultado numa cova pouco funda, sem qualquer cruz a assinalar o local, sem um nome inscrito na terra e, pior ainda, sem o direito a uma lágrima derramada por quem quer que fosse.
“Ele era apenas uma pobre criança”, murmurou uma voz carregada de dor na senzala, já a noite ia alta. Mãe Benedita, a anciã curandeira africana que contava já os seus quase setenta anos, guardou o silêncio daquela tragédia como quem guarda uma faca afiada para o momento certo. “A justiça de Deus nunca falha, minha filha”, respondeu ela com sabedoria. “Pode tardar no tempo, mas a cobrança acaba sempre por chegar.”
Dona Isabela de Almeida Ribeiro assumia o papel de matriarca da Fazenda São João. Aos trinta e dois anos de idade, exibia a pele alva herdada dos seus antepassados portugueses, cascatas de cabelos negros que se despenhavam em cachos até à cintura e uns grandes olhos castanhos que já tinham presenciado horrores que superavam, em muito, a sua idade. Era uma mulher alta, de postura ereta e altiva, características de quem fora severamente educada com o único propósito de mandar e obedecer. Apesar disso, guardava um coração que, com o tempo, revelara uma teimosa incapacidade para aceitar a crueldade do seu meio.
Isabela contraíra matrimónio com Ramiro cerca de doze anos antes, num enlace onde o amor não teve qualquer assento, tendo sido motivado apenas e só por conveniências familiares. O seu primeiro marido, um parente distante do próprio Coronel Ramiro, acabara por falecer vítima de uma febre amarela fulminante. A morte do primeiro marido deixou Isabela viúva e abastada em propriedades, mas profundamente solitária num mundo feroz e implacável para mulheres que não tivessem a proteção direta de um homem forte. Assim, a família não perdeu tempo e organizou um novo casamento por conveniência. Ramiro ambicionava a posse daquelas terras férteis, e Isabela necessitava do abrigo de um nome que a respeitasse na sociedade. Foi um mero negócio de interesses, traçado a régua e esquadro, marcado pela frieza característica daquele mundo mercantilista.
Durante os primeiros anos de união, Ramiro ainda se deu ao trabalho de encenar alguns traços de polidez e civilidade perante Isabela. Contudo, à medida que o seu poder crescia e o seu ego inflava, a falsa máscara caiu por terra. Começou a embebedar-se cada vez mais frequentemente, os episódios de violência física e psicológica tornaram-se banais e ele começou a ter prazer em humilhar Isabela em público. Enquanto isso, ela apenas aprendia a resistir e a sobreviver um dia de cada vez.
Na casa, assumia as rédeas de todas as tarefas domésticas: gerenciava a grande cozinha e dava ordens aos escravos da casa. A seu cargo estavam também a coordenação de todas as refeições suntuosas da Casa Grande, a supervisão da lavagem das roupas finas, a organização imaculada dos espaços e os preparativos grandiosos das festas que o marido dava. Embora fosse uma gestora eficiente e temida nas suas lides, Isabela demarcava-se de todos os outros senhores da região por uma diferença vital: ela tratava todos os escravizados como seres humanos.
Não o fazia, como é evidente, de uma forma excessivamente bondosa, porque tal revelaria ser uma tremenda hipocrisia face a um sistema inerentemente atroz; mas procurava sempre assegurar o mínimo de dignidade para os oprimidos, facto que escapava sempre ao entendimento cruel dos outros fazendeiros da região. Ela memorizava os nomes de batismo e as alcunhas de todos eles, inquiria com frequência sobre o estado de saúde dos filhos pequenos na senzala e abstinha-se sempre de ordenar espancamentos sem que existisse uma justificação plausível para os moldes da época.
E foi exatamente com esta postura que a sinhá acabou por cruzar o seu caminho com o da Mãe Benedita. Esta experiente e reverenciada curandeira africana revelou-se a sua salvação quando a curou miraculosamente de um surto violento de febres fortes, no exato momento em que o Coronel Ramiro se encontrava numa das suas muitas viagens de negócio. Face à urgência do caso e ao facto de todos os médicos brancos da redondeza se terem recusado veementemente a prestar cuidados a uma senhora abastada na ausência física do seu marido, a sabedoria ancestral da escrava salvou-lhe a vida.
“Sabe, minha senhora, as plantas guardam os seus maiores segredos de nós todos,” costumava partilhar a sábia Benedita nas tardes sossegadas, enquanto misturava chás de sabor agreste nos fundos escuros da grande cozinha da senzala. “É verdade que elas curam males do corpo e da alma, mas olhe, elas também podem matar sem deixar grande rasto. Tudo isto depende única e exclusivamente da dose certa e da verdadeira intenção de quem as prepara.”
Com a anuência da escrava, Isabela dedicou-se arduamente ao longo de vários meses à aprendizagem deste ofício: debruçou-se sobre a anatomia das mais variadas folhas, das raízes misteriosas e de todo o tipo de sementes exóticas. Aos poucos, foi interiorizando que a temível mandioca brava, caso sofresse um mau preparo, poderia imobilizar os músculos de um homem de grande porte, sem no entanto ser o suficiente para lhe causar a morte de imediato. Compreendeu de forma exata que o consumo abundante e desregrado de sementes da planta da mamona acarretava terríveis e assustadores quadros de convulsões físicas em quem a tomasse. Constatou igualmente que certas misturas bem estudadas de ervas comuns e silvestres resultavam em sintomas absolutamente devastadores sobre o organismo, cujos efeitos camuflavam completamente a perspicácia diagnóstica que orientava a limitada medicina convencional europeia de então.
“Minha senhora, por que motivo se interessa em me ver ensinar todo este meu saber para a sinhá?”, inquiria desconfiada a velha escrava, numa tarde cujos termômetros assinalavam níveis insuportavelmente elevados de humidade e abafamento. Os antigos olhos de Benedita fixavam a sinhá. Os seus olhos denotavam velhice, um forte grau de cansaço generalizado da vida, contudo mantinham-se acutilantes e penetrantes, denotando sabedoria.
“Acredite minha filha,” vaticinava a idosa. “Com o virar do relógio um dia irá necessitar destes meus ensinamentos para sua segurança. Toda a mulher que viva amarrada com a corrente invisível na mansão de um indivíduo desumano como o seu, deverá acautelar que tem consigo sempre preparada uma ferramenta de defesa, ou se preferir, a sua própria arma dissimulada. E as ervas do nosso chão configuram em muito, a sua mais engenhosa defesa: não revelam qualquer presença e afastam as intrincadas cogitações do inimigo mais suspeitoso.
Adicionalmente aos ensinamentos da velha Benedita, Isabela lograra criar e manter ao longo do tempo mais um conjunto muito particular e seleto de laços escuros, fortes, embora envoltos na clandestinidade do ambiente cruel: mantinha um forte elo emocional para com os fortes Zé e o arguto e corajoso Manuel, duas figuras cativas da enxada escrava que amanhavam sem misericórdia o negro chão da plantação. A compleição corpórea forte do bravo Zé – marcada irremediavelmente de cruéis chagas oriundas da violência do pelourinho – era apenas equiparada ao astuto Manuel – mais reduzido em tamanho, porém detentor de rapidez de corpo inaudita e dono de uma intuição acutilante sobre tudo, aliada a um intenso sentimento romântico silencioso quando as duas miragens se encontravam à socapa durante a rotina. Em conjunto, garantiam de um modo implícito ser os cães de vigia leais ao abrigo e proteção silenciosa da própria mulher.
A sua intuição nunca permitiu ser revelada explicitamente perante os restantes cativos em dias das pesadas contestações ríspidas de agressividade gratuita proferidas perante os ouvidos impiedosos de Ramiro, as fúrias dele seriam camufladas à beira da imponente copa dos escravos.
Isabela mantinha esse amor platônico secreto a uma grande profundidade no seio dos sentimentos. E esse silêncio que esmagava o próprio coração não lhe era penoso por completo face à grandeza que os albergava: ela devotava em silêncio absoluto as maiores formas românticas de devoção perante aquelas duas sombras em movimento, por entre os contornos sociais que traçava as proibições raciais num país em declínio da opressão colonizadora. Este paradoxo romântico erguia-se em paralelo com as artérias dos seus sentimentos; forte e pujante com o batimento da dor, e com os murmúrios de sobrevivência, num estado idêntico ao da escrava que chora em agonia surda sem lágrimas na escuridão fétida da senzala.
“Sinhá,” o interrogatório profundo partia da boca humilde da negra sombra: “Diga a verdade perante a minha curiosidade; sonha o seu destino desamarrado da teia da mansão do coronel e em estado livre de todas as amarras ao final dos anos?,” murmurava um dia num estado confessional Zé perante a fresta úmida noturna que camuflava as duas identidades, quando Isabela descia aos lugares malditos trazendo a esperança trajada sob frascos artesanais a um corpo adoentado.
O espanto cortava-lhe a respiração.