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A Senhora do Engenho Descobriu Que Sua Filha Estava Grávida de um Escravo… Ninguém Imaginou o que

A Senhora do Engenho Descobriu Que Sua Filha Estava Grávida de um Escravo… Ninguém Imaginou o que

A luz fraca da vela tremeluzia sobre a pesada mesa de mogno, projetando sombras longas e ameaçadoras no quarto principal da casa grande do engenho. Dona Beatriz, a viúva e senhora de um vasto domínio de canaviais no Recôncavo Baiano, apertava um terço de contas entre os seus dedos já ossudos. Os seus olhos, afiados como foices prontas para a colheita, fixavam-se em Isabela, a sua filha de dezoito anos.

O ventre já arredondado da jovem traía o seu segredo, outrora escondido sob o vestido de linho fino.

“De quem é isto?”, sussurrou Beatriz, de forma áspera. A sua voz era como um fio de aço cortando o ar húmido daquela noite de 1845.

Isabela baixou o olhar para o soalho de taipa, com o coração a bater descompassado. O ar denso cheirava a melaço fermentado e à terra acabada de ser molhada pelas chuvas de verão.

Lá fora, nas senzalas, os escravizados murmuravam, ecoando os seus cantos baixos. Mas ali, no seio familiar do casarão, o silêncio era uma ameaça iminente.

“Minha mãe, perdoe-me, mas foi um erro…”, murmurou ela, pousando as mãos muito trémulas sobre a barriga.

Dona Beatriz ergueu-se de forma muito lenta, com o seu corpete de seda a ranger contra a velha cadeira entalhada. Os anos a comandar duas centenas de cativos naqueles campos intermináveis tinham-na transformado numa autêntica figura de ferro.

“Um erro com um homem da nossa própria casa?! Diga-me o seu nome, minha menina, ou eu arranco-lho da carne,” ordenou a mãe, num tom gélido.

A jovem engoliu em seco. O vento uivava furiosamente pelas janelas entreabertas, carregando o cheiro a capim queimado.

“Foi o João,” respondeu finalmente.

João, o capataz negro cuja pele exibia as marcas dos chicotes antigos, era o pai da criança. Ele chegara ao engenho há dez longos anos, comprado num leilão. Mas nas noites de luar, quando toda a fazenda adormecia em exaustão, encontravam-se junto ao velho alambique, partilhando sussurros e sonhando com a liberdade que o Império lhes negava.

Dona Beatriz rodou sobre os calcanhares. Ela conhecia bem os olhares que trocavam nos pátios. Sabia que, para Isabela, João representava uma saída da prisão de casamentos arranjados que se avizinhava. No entanto, aquele fruto no ventre mancharia, para todo o sempre, o prestigiado nome da família.

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A senhora tocou a pequena sineta, chamando de imediato o feitor. “Traga-me o João até aqui. Imediatamente.”

Os minutos arrastaram-se, pesados. João entrou logo depois, acorrentado e de peito nu. Os seus olhos cruzaram-se por breves instantes com os de Isabela, transmitindo-lhe um ínfimo raio de esperança no meio do caos.

“Sabe o que o traz cá?”, questionou Beatriz. Caminhou à sua volta, avaliando-o de forma desdenhosa. “Plantou a sua semente na minha filha, num sangue puro.”

João levantou o queixo. “A Senhora sabe muito bem que não foi à força. Foi uma escolha dela, e também minha.” Os anos passados na senzala haviam-no ensinado a encarar o castigo sem nunca se vergar.

Beatriz silenciou a filha com um gesto rápido da mão. “A escolha é um luxo exclusivo dos senhores. Vós sois apenas uma propriedade. Isabela, amanhã de manhã irás para o convento em Salvador. E quanto a ti,” disse, virando-se para o capataz, “vais aprender qual é o verdadeiro preço a pagar por tocares no que nunca te pertenceu.”

“Mãe, eu imploro-lhe, ele ama-me! Nós podemos simplesmente fugir,” suplicou Isabela.

Beatriz riu-se secamente. João foi rudemente arrastado para o pelourinho, situado no centro do pátio iluminado. Amarraram-lhe as mãos com força. Da janela do quarto, Isabela observava tudo, enquanto lágrimas muito silenciosas lhe percorriam o rosto.

“Não castigámos apenas o corpo dele. Atingimos-lhe a própria alma,” pensava a senhora, enquanto ouvia o estrondo do primeiro golpe ecoar pela noite dentro.

Na manhã seguinte, o engenho despertou ao som do corno. Os cativos encaminhavam-se para os campos. Isabela fora severamente confinada aos seus aposentos, com a porta devidamente trancada a sete chaves. A mãe chamara o senhor vigário lá da vila para abençoar a casa de todas as impurezas.

Entretanto, nos barracões de trabalho, os rumores espalhavam-se como fogo. Diziam as más-línguas que João fora levado, mas que Dona Beatriz planeava infligir um castigo ainda mais dantesco a ambos.

Isabela geria febrilmente um plano na sua mente angustiada. Ao entardecer, quando a chuva tamborilava no telhado colonial, arriscou a sua própria vida. Escapou sorrateiramente pela janela das traseiras, coberta por farrapos para não ser vista. Apesar do peso do ventre que a atrasava consideravelmente, correu pelos caminhos de terra em direção ao quilombo escondido lá nas matas longínquas do Jaguaribe.

Dona Beatriz apercebeu-se da fuga. “Maldita rapariga teimosa!” praguejou, enviando prontamente o seu feitor e mais meia dúzia de jagunços no seu encalço.

No meio da noite, ofegante e apavorada ao ouvir os cascos dos cavalos em aproximação, Isabela avistou a pequena clareira do quilombo.

“Por favor, ajudem-me!”, gritou ela com o pouco fôlego que lhe restava.

João fora discretamente libertado do tronco nessa mesma noite, não por misericórdia da senhora, mas apenas porque a colheita carecia do seu enorme esforço. Juntamente com outros escravizados, João orquestrou uma rápida e feroz emboscada contra os jagunços perto da ponte do riacho. Depois do confronto, correu apressado para a tenda onde Isabela se encontrava abrigada.

“Eu vim para te salvar”, disse João, abraçando-a. Mas Kibungo, o enorme líder do quilombo, franziu a testa, não escondendo o seu profundo desagrado e consternação. “Essa menina trouxe a maldita morte até aqui, connosco.”

No grande casarão, a mãe aguardava. O seu principal objetivo nunca fora o convento, mas sim organizar um casamento distante para a jovem, ocultando devidamente a sua evidente gravidez. Furiosa com a fuga, declarou aos quatro ventos a ocorrência de uma grande rebelião. O cerco ameaçava então o pequeno e escondido refúgio no mato.

Sem quaisquer alternativas de fuga que não terminassem num massacre, Isabela e João arquitectaram a sua última jogada para salvar quem amavam. Optaram pela encenação de uma rendição da parte dele.

João retornou humildemente ao engenho da família. Beatriz sorriu com desdém ao recebê-lo de forma fria. “Julgaste que podias escapar à minha mão pesada? Enganas-te. Isabela será devidamente trazida de volta, a criança será entregue a quem de direito como órfã, e tu ficarás preso até aos teus últimos dias de vida.”

Atiraram-no sem cerimónia para os frios porões da casa grande.

Enquanto isso, aguardando ordens precisas de Isabela na vastidão da mata, Kibungo vislumbrou ao longe as terríveis chamas nos canaviais.

O líder, receando o pior ataque para o seu grupo, espalhou as suas gentes, abandonando a jovem grávida. Isabela sentiu o chão fugir-lhe. De súbito, encontrava-se totalmente desamparada no mundo. Desorientada, suja e sentindo a aproximação fatal do nascimento do seu bebé, as pernas não lhe deram mais forças e tropeçou pelas raízes salientes, acabando por cair no meio da poeira. A barriga pesava agora e doía de uma forma contínua e assustadora.

Entretanto, num ato de total desespero e coragem que ninguém seria capaz de prever, uma figura encapuzada e sorrateira agarrou suavemente no seu braço frágil. Era o jovem escravizado Zé, o filho mais novo do fiel velho cozinheiro Congo. Zé acompanhara em profundo silêncio a brutalidade crescente do engenho ao longo dos anos. Ele sabia que o amor entre João e Isabela jamais sobreviveria.

O humilde moço pegou gentilmente em Isabela nos seus braços, oferecendo-lhe um raro conforto. Juntos esconderam-se numa cabana de caça ainda mais embrenhada nas densas florestas.

Foi Zé quem, dias depois e sob o desespero do momento, ajudou Isabela, com toda a dedicação e carinho fraterno, a dar à luz o pequeno Pedro. Era um menino de pele clara, sereno e de olhos muito curiosos, alheio a todo o mal que corria nas terras do Brasil.

Isabela chorou copiosamente, abraçando finalmente o seu filho muito aguardado. Aquele jovem rapaz fora o seu grande salvador, oferecendo-lhes não só a vida e a esperança de que precisavam, mas também uma silenciosa e verdadeira amizade.

A jovem decidiu cortar, para todo o sempre, e com grande dor e saudade no peito, todas as esperanças de regressar para João ou de enfrentar a ira destruidora da sua mãe, Beatriz. Zé assumiu o honroso papel de protetor incansável. Cuidava ativamente dos mantimentos recolhidos, orientava discretamente Isabela pelos trilhos do mato profundo e partilhava longas conversas de encorajamento.

Com o passar do tempo, as buscas infindáveis do engenho tornaram-se finalmente muito menos assíduas e ferozes. Beatriz continuava com grande autoridade ao comando do engenho, mas sentia-se vazia, atormentada pelos ecos incessantes da filha fugitiva que nunca voltaria. João, consumido pela pesada amargura e preso de alma na casa grande, tornara-se agora apenas uma triste e distante sombra de tempos idos.

Com a preciosa e inestimável ajuda do jovem Zé, Isabela rumou em segurança para o extremo norte, desbravando novos territórios de liberdade desconhecidos. Anos volvidas, na pacata e solarenga tranquilidade da sua casa no sertão, Isabela e Zé viam o alegre Pedro brincar aos pés das árvores, completamente liberto e feliz.

O velho ciclo de amarras acabara, de facto, por ser quebrado, deixando para trás um imenso mar de lembranças amargas. E a tão desejada verdadeira liberdade, outrora apenas sussurrada naquelas escuras noites de outrora, respirava-se finalmente ali, a plenos e justos pulmões, entre as raízes mais profundas de um amor totalmente redentor.